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Ouvido no elevador

por João Távora, em 06.03.14

Estás pelas polícias ou pelos polícias?

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A propósito da frase do dia

por João-Afonso Machado, em 06.03.14

Esta tão propalada basófia da bofia - «eles podem estar no poder mas nós somos o poder» é, convenhamos, algo sinistra. Porque não foi proferida na Roma da Antiguidade ou entre o lamaçal avermelhado da revolução soviética. Foi, no nosso Portugalito, numa República sem dúvida podre, mas onde se espera o mando não caia na rua. Ainda por cima às mãos da polícia...

Tão-pouco seria imaginável um regresso aos desmandos de 1975, camarada para cá, camarada para lá. E, que se saiba, não há manobras separatistas, a Crimeia fica longíssimo e as nossas relações com a irmã Galiza pautam-se pela mais sã amizade.

Do Egipto, da Líbia ou Síria... - nada, semelhança alguma connosco. É realmente difícil perceber o que se passa. Fará sentido igualar as forças militarizadas especiais (ditas de intervenção) às costumeiras - e geralmente perdedoras - «tropas leias ao Governo»?.

Como quer que seja, com tanta polícia a convergir para Lisboa, há-de haver cuidado nas saídas nocturnas de hoje. A maré está muito de feição para os sindicalistas...

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Ao rubro

por João Távora, em 06.03.14

O decisivo confronto das polícias está prometido em directo nas TVs a partir de S. Bento e até promete controlo anti-doping. Enquanto os comentadores fazem a antevisão, como num derby o povo vai mais cedo para casa assistir ao desafio e na Telepizza não há mãos a medir.

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PS INSEGURO:

por Vasco Lobo Xavier, em 06.03.14

 

 

Não há nada como umas eleições no horizonte para o PS vir disparatadamente com o Antigo Regime à baila. E não foi só Seguro, foi até Francisco Assis, embora compreensivelmente mais envergonhado pelo papel que desempenhava.

É fantástico como aquelas cabecinhas do PS não conseguem perceber que já ninguém liga a essas parvoíces completamente a despropósito, que de resto só servem para banalizar as coisas e mostrar duas outras: uma, que o PS não tem nada que dizer a não ser ameaçar com papões há muito enterrados e que já não assustam ninguém; a outra, que o PS toma os portugueses por um bando de parvos que come tudo o que se lhes dá. Estão tão enganadinhos…

 

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BLOCO CALADO:

por Vasco Lobo Xavier, em 06.03.14

 

 

Se há atitude de Passos Coelho de que gostei foi a resposta dada àquela deputada do Bloco. Aquela maltosa julga-se no direito de ser mal-educada e ostensivamente desagradável para todos os que não pensam pela sua cartilha, julga-se no direito de poder ofender quem querem, onde querem, e que as pessoas são obrigadas a aturar tudo quanto eles se lembram de dizer. Não é assim. A deputada do Bloco pôs em causa, por diversas vezes, a palavra e a honra do PM. Discorde-se ou não do PM, seja a pessoa PM ou não, ninguém tem de aturar ou aceitar este tipo de ofensas, próprias de criançolas disparatadas, muito menos na Assembleia da República.

Já não estamos num tempo em que pessoas como Narana Coissoró resolveriam este tipo de questões entre homens, ainda que na AR, a soco, e, não obstante os desejos do Bloco na igualdade total, não estamos ainda tão ‘avançados’ em termos civilizacionais que se possa permitir desferir duas valentes bolachadas numa garota malcriada e menos ainda quatro bengaladas.

O silêncio, o mesmo silêncio que se oferece na rua a um garoto malcriado ofendido por não ter conseguido extorquir dinheiro, é o que merece uma deputada malcriada. Não mais do que o silêncio. A ver se aprende a respeitar os outros e a comportar-se conforme o local onde está e o cargo que ocupa.

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«Birras» e bandalhos

por José Mendonça da Cruz, em 06.03.14

Uma actriz do Bloco minimamente representativo disse ontem ao primeiro-ministro do governo maioritário que a palavra dele não valia nada. E logo a seguir exigiu que ele respondesse a não sei o quê. O primeiro-ministro, que tem o estômago endurecido pela política mas conserva uma saudável noção de dignidade, decidiu não responder à criatura. Os telejornais da Sic, porém, chamaram a isto «uma birra». O que diz muito sobre a noção de dignidade e honra do corpo redactorial da estação.

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Carnavalices que já lá vão

por João-Afonso Machado, em 05.03.14

O Carnaval é quase menos de nada, dizem muitos e eu também. Opiniões... Mas, na hora de regressar ao sossego que a minha veneranda idade impõe, fui percebendo a confluência imparável de disfarces rumo ao centro da cidade, e a curiosidade despontou. Peguei na máquina fotográfica a seguir-lhes o rasto.

Fiat lux! Era uma multidão lá em baixo. Mascarado de mirone, observando, tudo era arredio da tontice do famigerado corso que mata um pouco de Portugal cada vez que sai à rua pelas terrinhas que sabemos e os jornais propagandeiam. Em Famalicão, o Brasil não manda! Não é o desfile nem as concomitantes momices. Menos os pneus abdominais e úberes fartos, saracoteantes. Nem quaisquer estrelas de telenovela importados ou contratados a curto prazo, reinando a coisa.

Era apenas a população local. Milhares de pessoas. Aos pares, em grupos maiores, individualmente.

É certo, no epicentro do terramoto, vibrava um palco de música de duvidoso gosto. Mas alguém pensaria o contrário? O bailarico é sempre imprescindivel. O resto era organizado sob a sublime forma da desorganização total. O facto é que, sem horários nem polícia, as gentes divertiram-se, noite adiante. À portuguesa.

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Preconceitos

por Maria Teixeira Alves, em 05.03.14

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Biqueira larga

por Vasco M. Rosa, em 04.03.14

A patrulha política não desarma, e foram apanhar o ministro Pires de Lima com sapatos estrangeiros numa fábrica de calçado. A mesquinhez dá pontapés, mas não é assim que chegará a parte alguma: não é pelo ministro ter 365 pares de sapatos portugueses no armário que a retoma aparece, sobretudo porque o português PL é livre de calçar de acordo com o seu gosto pessoal, o que pode não coincidir com a produção nativa, boa parte da qual sai directamente para as fronteiras. 

Querem, gostariam de instaurar um policiamento estético-patrióico? Ah, mas isso dá pano para mangas, e qualquer um de nós poderia, se aceitar perfilar-se nessa trincheira insana, apontar a alvos da sua preferência negativa, de modo a examinar hábitos, manias, escolhas pessoalíssimas como as de os sapatos que calçamos podem ser.

Essa agressividade bloquista, atiçada pela inveja e inflamada pelo desespero ou desamparo, pode frutificar aqui e ali, mas por pouco tempo. E no entanto deixará um rasto de ignomínia e cabonitice que se pode assemelhar àquela bosta que se agarra aos sapatos e é preciso esfregar e esfregar em ervas ou num tapete barato para poder entrar em casa...

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Ninguém leva a mal (2)

por João Távora, em 04.03.14

Para além de ter os miúdos de férias em casa, um pequeno giro matinal deu-me para constatar que os correios, a junta de freguesia e a farmácia estão fechados. De Cavaco nos anos oitenta à actualidade de Passos Coelho e da Troika comprova-se que o Carnaval para os portugueses é uma fatalidade. As coisas são como são: foliemos, portanto.

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Ainda a natalidade

por Vasco Mina, em 03.03.14

Entro também nesta tertúlia e agradecendo os contributos do Henrique Raposo (HR), da Daniela Silva, da Maria João Marques, do João Távora (JT) e acrescento um outro post da Margarida Corrêa de Aguiar (MCA). Começo pela habitual declaração de interesses: sou casado e temos três filhos (o que nos dias que correm é considerado como sendo família numerosa). Assusto-me sempre que me defronto com as estatísticas de natalidade e o contributo do post da MCA é muito esclarecedor da evolução deste indicador. Acompanho a perspetiva da MJM quanto à ingerência do Estado nas opções individuais e familiares mas também me revejo na abordagem cultural (sim, a cultura de uma sociedade influencia as opções familiares quanto ao número de filhos) bem ilustrada no texto do HR. Prezo muito a liberdade individual e familiar mas também reconheço a importância de uma sociedade fecunda, seja em número de filhos, seja em solidariedade, seja em contributos para a organização da vida comunitária (ou seja, do Estado). E a fecundidade, na perspetiva de vida que gera vida, só acontece quando participam as pessoas; não apenas a participação de procriar mas também a vontade de construir (ou ajudar a) uma comunidade. As comunidades, sejam elas locais ou nacionais, vivem e enriquecem (seja financeira ou culturalmente) com a participação dos seus membros e só estes as podem garantir. Deve-se, então, regular o nr. de filhos que cada um deve ter? Não, seria um disparate total. Mas, isso sim, devem ser apoiados (premiados, como bem diz a MJM) aqueles cujos projectos de vida passam por ter mais do que um filho. Não, não me refiro a subsídios mas sim a medidas fiscais (a taxa de IRS deveria variar em função do nr. de filhos e o mesmo para o IMI) ou a reduções de preços de serviços cobrados pelo Estado (propinas universitárias, taxas municipais, transportes, entradas em museus, etc). Claro que aqueles que optam por não ter filhos ou apenas, um teriam de suportar (as contas do Estado não permitem reduções nas receitas) os “prémios” dados aos outros. Só assim poderemos garantir efetiva liberdade de opção para quem quer ter mais filhos e que encontra nas despesas o verdadeiro obstáculo. Não é possível ter “Sol na eira e chuva no nabal”, ou seja, não podemos querer ter uma sociedade rica sem nela participarmos. A opção cultural do gastar tudo com o primeiro filho (bem caracterizada pelo HR) deve ser respeitada mas também não devemos estigmatizar (como bem exemplifica o JT no episódio vivido pela sua parente na maternidade) quem quer ter vários filhos.

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Crescei e multiplicai-vos

por João Távora, em 02.03.14

É em modo de conversa de café que me imiscuo nesta civilizada discussão entre a Maria João Marques e a Daniela Silva no blogue Insurgente sobre a virtude das famílias numerosas com origem neste artigo do Henrique Raposo. Para tal, parto duma percepção que intuo com clareza, que resulta num profundo cepticismo nas famigeradas políticas de incentivo à natalidade. Não creio que mais ou menos substanciais apoios fiscais ou outras medidas de discriminação positiva para os casais com mais filhos, para além de intrinsecamente justos, produzam significativas alterações a uma realidade com tão profundas raízes culturais. Tal como não é possível imobilizar a marcha de um longo e pesado comboio em cinquenta metros, vai demorar muito tempo a travar o inverno demográfico que vai alastrando pelo ocidente judaico-cristão. 
Irónico é como a “revolução demográfica” (enorme aumento da natalidade e longevidade) ocorrida na Europa entre os Séc. XVIII e XIX com origem no desenvolvimento da agricultura, numa melhor alimentação e nos avanços da medicina, tenham confluído no desenvolvimento socioeconómico e científico que por sua vez proporcionaram nos anos sessenta do século passado a descoberta da pilula contraceptiva. Esse prodígio da ciência vem resultar numa travagem a fundo no baby boom do pós-guerra e é, no final de contas, a génese da crise demográfica com que nos debatemos por estes dias e se confunde com a decadência do nosso modelo de sociedade. Paralelamente, este fenómeno é o culminar dum longo e continuado processo de emancipação feminina, em que a mulher vê finalmente a sua sexualidade “liberta” do cativeiro da maternidade, do estatuto de mãe, que nos nossos tempos perde progressivamente prestígio, adquirindo até uma conotação negativa entre as elites dominantes. Ora o problema é que, com a água do banho, literalmente despejou-se o bebé pela janela fora da nossa civilização.
É por essa via que nos vemos chegados ao modelo cultural marcadamente estéril da actualidade, da cosmopolita e próspera família monoparental e do filho único, integrado numa cultura hedonista e securitária em que qualquer prenúncio de imprevisibilidade é ameaça, e nesse sentido vai ganhando contornos eugenistas. Somos todos mais felizes?
Perante o atrás descrito, estou convicto que para a solução da crise demográfica urge uma revolução cultural, no seu sentido etimológico de retorno ao ponto de partida: a valores que recuperem os ancestrais modelos de organização familiar e a consequente devolução do prestígio da maternidade como realização do Amor pleno, inteiro. A defesa duma ecologia que devolva o apreço pelos sinais da natureza, mas desta vez humana, dos seus ciclos e impulsos biológicos, naturais e legítimos; enfim que exalte a dignidade e honorabilidade de uma família grande em generosidade.
Nesse sentido urge uma radical e continuada acção de Relações Públicas que contrabalance a estigma vigente, que esta pequena história é exemplo: após o nascimento do seu quinto filho uma parente minha foi abordada na maternidade pela enfermeira de serviço que ao constatar o seu histórico de maternidade, desabafou em tom de desdém qualquer coisa como “Nossa, isso é coisa de negro”.
Estas linhas não servem para fazer qualquer juízo sobre os princípios ou circunstâncias que presidem as escolhas de cada indivíduo ou casal – se assim fosse elas constituíam em certa medida um exercício de autocrítica. Por certo que o facto de ter muitos, poucos ou nenhuns filhos não qualifica à partida uma mulher ou um casal. O problema é que até a corroboração dessa neutralidade está longe de vigorar na estética vigente. Por tudo isto, nos nossos tempos são de bem-dizer e abençoar as famílias grandes, Maria João.

 

Ilustração: José Abrantes - direitos reservados

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Correio do Minho

por João-Afonso Machado, em 02.03.14

Meu Ex.mo Amigo:

Escrevo a comunicar-lhe a triste nova: o Minho submergiu. Literalmente - submergiu. Claudicou, afogou-se, desapareceu na fundura das águas pluviais. De forma súbita, ainda hoje eu lia, cheio de um ânimo solidário, o trabalhoso regresso de Ulisses à sua Ítaca, quando reparei nos progressos da inundação. Já o meu coração, sempre precipitado, sumia perdido na força da correnteza e foi só o tempo (e a ajuda dos meus bem conservados reflexos) de lhe atirar a ponta dos dedos e conseguir puxá-lo para mim. Torci-o, enxuguei-o, repreendi-o severamente e, porque nada adiantasse pô-lo a secar na varanda, dei-lhe um cheirinho de micro-ondas. Cá se vai aguentando, esse asneirento impenitente.

E saiba o meu estimado Amigo, o reboliço atinge já as ideias e os conceitos. Os teólogos da Arquidiocese debruçam-se agora sobre uma nova versão do Inferno, não já um braseiro sulfuroso, antes um lago imenso a cujas águas são lançadas os pecadores sem perdão. Assim a vontade divina silencia eternamente a classe política, reflectem eles. Mas a hipótese do borbulhar à superfície, resultante das vozes abafadas lá em baixo, enganar os incautos e inocentes pescadores - trocando uma expectável e bojuda carpa pela desagradável surpresa de um hipotérmico, esfaimado e eloquente deputado - não consentirá alterações dogmáticas antes do próximo Concílio.

Enquanto isso, prezado Amigo, foi-se o velho Minho dos pinhais e dos verdejantes prados. Restam os campanários das igrejas, como este onde lhe escrevo tão borratadas linhas (jurei a mim mesmo se escapar ao aperto nunca mais usar tinta permanente...). Enfim estamos todos: eu, as duas pequenas e o meu canário, especialíssimo à minha alma - e aninhado no bolso do blusão, ainda impermeável. Aguardamos surjam os meios aéreos que nos levem para lonjuras mais secas. Os meios aéreos - esse eufemismo com que os governantes tentam esquecer-nos de que nem helicópteros nem... submarinos. Nada! que nos salve...

A carta segue na próxima garrafa que passar aí, ao alcance da mão. Creia-me, meu Ex.mo e bom Amigo, saturado e encharcado de chuva, mas sempre muito atento e obrigado,

seu

JAM

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Domingo

por João Távora, em 02.03.14

Evangelho segundo São Mateus


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso vos digo: «Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Quem de entre vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à sua estatura? E porque vos inquietais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam; mas Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? Não vos inquieteis, dizendo: ‘Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?’ Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas. Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de ama­nhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado».

 

da Bíblia Sagrada

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Outros carnavais (editado)

por João Távora, em 01.03.14
Nunca aderi espontaneamente à festa do Carnaval. A chegada das serpentinas, máscaras e bombinhas às montras das tabacarias despertava-me algum interesse, mas esse não superava um leve sentimento de melancolia provocado pelas recém-finalizadas festas natalícias e pelo reinício da implacável disciplina escolar.
As minhas mais remotas recordações do Carnaval referem-se à casa da Avenida, onde a minha bisavó Valentina imprimia ao evento uma marca particular, fruto sua vivência no Brasil. Por exemplo, lembro-me de um grande boneco que nos aguardava, medonho, à entrada da sala de jantar. Era feito de roupas e enchimento em cima de um cabide de fato e usava o chapéu do meu avô João. Os croquetes feitos com algodão e outras partidas célebres desses Carnavais da Avenida não alcança a minha memória.
O que me desagradava profundamente era que me mascarassem. Mesmo de Cowboy, figura por mim mitificada todo o ano. Detestava que me pintassem com bigodes e patilhas de cortiça chamuscada, ou me espetassem com um chapéu de plástico que me caía continuamente da cabeça a baixo. Além disso ficava com uma intimidante “noção de mim”, que liquidava qualquer espontaneidade e assim o divertimento. O que eu gostava mesmo era dos lustrosos revólveres prateados e umas cargas de fulminantes para correr aos tiros atrás dos meus primos. No recreio da escola, a figura de Cowboy ainda valia o esforço de pôr a bata xadrez entalada para dentro das calças de ganga. Era o que bastava para me sentir um autêntico Cartwright. Mas isto nada tem que ver com o tema desta crónica. Divertidas eram as semanas precedentes à festividade, em que eu e os meus colegas da escola experimentávamos as mais endiabradas aventuras com bisnagas, bombas e “estalinhos”. Com cinco tostões comprávamos cinco estalinhos ou… uma bomba verdadeiramente assustadora. Com cinco escudos adquiríamos um verdadeiro arsenal. À saída da escola, munidos de uma carteira de fósforos, corríamos o bairro, de caminho para casa a rebentar bombas nos sítios mais insólitos: nada como uma boa explosão dentro de uma funda sarjeta, ou na escadaria de pedra de um prédio. Até os vidros tremiam, enquanto já a milhas corríamos em fuga. Ainda pelas ruas de Campo d’ Ourique armados com coloridas pistolas espaciais, esgueirávamo-nos à volta dos carros estacionados disparando potentes esguichos de água uns aos outros. Até esbarrarmos com uns quaisquer índios do Casal Ventoso que, violentos, com uns gritos e uns socos se apoderavam das nossas preciosas armas. Era a lei da rua, a lei do mais forte.
No entrudo era a festa de anos do meu primo Manuel. Festas inesquecíveis, com muita criançada, em que acabávamos a tarde exaustos, enrolados em quilómetros de serpentinas, às escuras, a ver projectados desenhos animados Silly Symphonies de Walt Disney ou umas curtas-metragens do Charlot em Super 8.
Na entrada da adolescência, no Liceu Pedro Nunes, por altura do PREC, quando qualquer divergência se resolvia democraticamente à pedrada, as partidas carnavalescas atingiam requintes de malvadez. Por pudor escuso-me a relatar algumas arbitrariedades por mim testemunhadas. Mas era comum detonar uma dessas poderosas bombas no WC dos rapazes, a que chamávamos “metromijas”, instalações subterrâneas que como uma paragem de metropolitano estavam situadas no meio do pátio. Depois era esperar, após o estrondo, que as vítimas assomassem ao cimo das escadas, esquálidas e despenteadas…
Chegados ao Carnaval, os excessos e a brincadeira estavam feitos e gastos. Por esses dias, sempre me pareciam patéticas as figuras daqueles miúdos passeando-se mascarados com os seus babosos pais, com quem me cruzava a andar de bicicleta no Jardim da Estrela. Que tristonhas “espanholas” e “noivas do Minho”, que expressões infelizes exibiam aqueles inúmeros “Zorros” e “campinos”, de bochechas maquilhadas e olhos esborratados. Com uma matinée no cinema Europa, umas voltas de bicicleta e muita televisão se passavam as minhas férias. No final de contas, que bem me sabiam aqueles cinco dias sem ir à escola!

Adaptação da versão publicada aqui
 

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Ninguém leva a mal

por João Távora, em 01.03.14

O Carnaval e o Clima Ameno neste jardim à beira mar plantado: dois mitos que, um apesar do outro, suplantam teimosamente a realidade dos factos.

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Recados para a Esquerda

por Vasco Mina, em 01.03.14

Octávio Teixeira dá hoje uma entrevista ao “i”. Concorde-se, ou não, com o que diz, fica a clareza de raciocínio e a perspetiva desassombrada com que vê as questões políticas que se colocam à atual situação económica e financeira do país. Envia vários recados para a Esquerda (PC incluído) entre os quais se destaca o seguinte:

“Como é que se consegue a chamada competitividade externa se não é através da desvalorização da moeda? Não há milagres! Tem de ser através da desvalorização dos salários!”

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Corta-fitas

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