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Pizza boy

É preciso comer e tive de arranjar um biscate, a entregar pizzas ao domicílio.

Era o meu primeiro dia de trabalho, ou melhor, a primeira noite. De repente, tocou o telefone lá na loja:

“Quatro pizzas à rua patatitipatatá, presto, e um delas com pepperoni”.

Eu sou mais de piano, piano, e desconfio sempre destes pedidos molto agitato con brio, mas lá fui, na minha motoreta, equilibrando um saco com quatro pizzas familiares, uma delas com pepperoni.

Qual não foi o meu espanto, quando cheguei à casa da rua papatipatatá, abriu a porta uma figura familiar e conhecido bloguer, de barba e cabelo grisalho comprido, comentador de TV, que disse, falando para outros, dentro do apartamento:

“Já aqui está o rapaz das pizzas”.   

 “Ainda bem, manda entrar”, ouviu-se lá de dentro.

Na sala, onde poisei as quatro familiares, uma delas com pepperoni, estava um grupo de caras conhecidas: uma ex-ministra, um presidente da câmara e outros, todos famosos. (Infelizmente, como sou esquecido, não me lembro dos nomes). Estavam com cara de caso e pareciam conspirativos.

“Trouxe as coca-colas?”, perguntou a senhora, num tom de autoridade.

Já ia a sair quando uma das figuras famosas me interpelou:

“Queríamos a sua opinião…”

A princípio, achei aquilo normal. Se calhar tinham reconhecido o cronista e filósofo político Adolfo Ernesto, mas, pensando melhor, eles não viam mais do que um rapaz das pizzas.

“Acha que o governo vai conseguir maioria absoluta?”, perguntou o senhor que é presidente da câmara, algures.

Achei uma boa oportunidade para explanar alguns tópicos que, na qualidade de politólogo, tenho estudado:

“O governo tem governado ao centro”, comecei, “o que poderá originar uma boa votação dos partidos que agora estão à esquerda. A minha Clotilde, que vota no bloco, acha que os bloquistas podem subir dos 12%. É talvez exagero, mas nunca se sabe. Falta muito tempo para as eleições, mais de um ano, uma eternidade em política. A economia não vai melhorar. Pelo contrário, só pode piorar. A conjuntura internacional é péssima e a economia espanhola desacelera. As pessoas estão fartas da incerteza, da precariedade, das promessas não cumpridas. O eleitorado socialista tem poucas razões para andar satisfeito, tirando as sinecuras, que tocam só a alguns. A direita tem um problema: está balcanizada. Não é fácil viver em oposição e longe do poder. Será difícil apresentar um simulacro de unidade que convença o eleitorado. E terá, provavelmente, de fazer promessas que vão alienar os votos no centro. A vitória é quase impossível, mas o primo Toninho, da minha Clotilde, calcula que o centrão tenha 77 ou 78 por cento dos votos, a dividir por dois. Se o bloco crescer, esta proporção será menor, talvez 75 por cento. Se as eleições forem normais, é uma questão aritmética. 40-35, 39-36, etc, etc. a maioria absoluta implica uma votação demasiado baixa da oposição, para aí uns 30. Ou seja, se o maior partido da direita conseguir uma liderança…”

“Mas as bases do partido são muito difíceis”, interrompeu-me o conhecido bloguer.

“Quando cheira a poder, as bases do partido acompanham as lideranças”, afirmei. “Se parecer possível, então torna-se possível. Caso perca a maioria absoluta, o PS regressa à esquerda, a sua área natural, mas com um partido à sua esquerda entretanto maior. Nas eleições seguintes, será uma luta típica direita-esquerda, como acontece no resto da Europa, veja a Itália ou a Espanha. Portugal, em certo sentido, é uma anomalia”.

"Pois é, se conseguirmos 35%...", disse alguém.

"Haverá um governo forçado a governar à esquerda...", interrompeu outro.

"O caos, a ingovernabilidade, e, depois, entramos nós, para salvar o país".

Eu só pensava em conseguir governar-me bem. Para ver se sacava uma boa gorjeta, não lhes confessei que a minha análise era quase toda copiada da do primo Toninho.

“Gostamos sempre de ouvir a opinião popular”, disse a antiga ministra.  

Estendi a mão, à espera de qualquer coisa que se visse, mas a senhora limitou-se a agradecer, apertando-me a mão estendida:

“Não se esqueça de votar em mim”, disse ela, sem me dar gorjeta.

Saí da sala e, depois, da casa, deixando atrás um grupo animado e feliz. E lá avancei, no trânsito da noite escura e solitária, em mais uma noite sem história, em mais uma rotina de trabalho incansável, em busca de um sentido para a vida…

Adolfo Ernesto    



5 comentários

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De Anónimo a 22.04.2008 às 11:58

Cá para mim, o Sócrates vai ter a vida facilitada. Em vez de bater no PSD lembrando os tempos de Santana, vai bater no PSD lembrando os tempos de Durão e Manuela Ferreira Leite. Mera afinação.
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De Anónimo a 23.04.2008 às 04:47

eu gostava de saber por que e que ainda nao houve uma alma caridosa que se dispusesse a enfrentar a consequente birra da fera e dissesse ao naves que o gajo nao sabe escrever. este texto e uma perola de nulidade literaria. (estou fora do pais, num teclado sem acentos).
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De Luís Naves a 23.04.2008 às 12:58

concordo consigo, caro anónimo das 4 e 47, mas seja essa alma caridosa e explique
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De Helena a 23.04.2008 às 17:50

e a mulher de verde?

(perdi-lhe o rasto)
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De Helena a 23.04.2008 às 17:56

algo me diz que se tivesse dissertado sobre o drama do Sporting, poderia ter recebido uns trocos de gorjeta .

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