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Uma questão de tempo

A Clotilde, a minha santinha, está sempre preocupada com os outros. Esta semana, ficou ralada com o primo Toninho (primo em sétimo grau pelo lado do pai dela), que anda deprimido porque não se consegue decidir a ser candidato a um lugar não executivo no núcleo 27 da concelhia de um partido do centrão.

O Toninho, diga-se de passagem, é um notável estratego.

“Adolfo Ernesto”, dizia-me ele recentemente, “o meu núcleo tem oito militantes e sete facções. Terei de anular os josé-silvistas e conquistar o apoio táctico dos nunistas e dos filipistas. Depois, é que vou para eleições gerais. Ali, as franjas valem 20 por cento dos votos e o centrão vale 77. Com outro candidato, damos a maioria absoluta ao nosso adversário, 30-47. Comigo, teremos um mínimo de 35 por cento, retirando a maioria absoluta ao outro lado, que não passa dos 42. No futuro, para governarem, os nossos adversários terão de ganhar o apoio das franjas deles, pelo que deixarão o centro só para nós. Nas eleições seguintes, a nossa vitória será esmagadora. Em resumo, eu defendo uma estratégia em dois passos”.

“Portanto, a política é basicamente a ocupação do centro”, disse eu.

“Compreendeste. É como no xadrez. Mas existe um outro aspecto: a personalidade”.

“Estás a falar de carisma…”

“E não só: estou sobretudo a falar da elegibilidade. Fazer passar a ideia de que se tem um programa”.

“E é tudo?”

“Não. Falta ainda o timing certo”.

Estava aqui a relembrar esta conversa com o Toninho. O problema dele é a teoria. E o primo da Clotilde (que como vimos é um notável teórico) sempre teve a estratégia certa, uma personalidade fascinante, mas nunca conseguiu avançar no momento adequado.

“Os partidos povoam-se de mediocridade e nós, a elite, ficamos a ver passar os comboios, porque não sabemos o horário”, dizia ele, num desabafo.

A Clotilde, preocupada com o primo, conseguiu quebrar este pessimismo doentio, convencendo o Toninho a ir a uma consulta.

Já vos falei aqui da Dona Rosa, a vidente. Ela queria à força ser rapariga das sextas-feiras no Corta-fitas, (ainda insisti com a rapaziada aqui do blogue) mas a Dona Rosa foi vetada.

Desculpem a digressão narrativa: a Clotilde convenceu o Toninho a ir à consulta e lá fomos.

O consultório estava vazio, havia uma música inquietante e um suave cheiro a enxofre. A Dona Rosa apareceu-nos de repente, irrompendo de uma cortina pesada. Trazia na mão uma ampulheta com areia vermelha, que escorria devagar, pois a força da gravidade parecia fraca.

Ficámos espantados, o primo Toninho estava lívido, a Clotilde balbuciou o nosso problema.

“Queres, portanto, saber se é o tempo certo para avançares…”. A Dona Rosa fez uma pausa dramática, houve um silêncio, apenas interrompido pela música angustiante. Depois, a vidente sentenciou, num tom catastrofista:

“Sê irreflectido e avança, avança. Mas o País, esse, está para além da salvação. Para se salvar, a Pátria tem que vir à bruxa”.

Sentimos um arrepio de medo. E, quando íamos a sair, a Dona Rosa apontou um dedo ao Toninho e disse:

“E não te esqueças de mim, quando estiveres no poder. Tenho uma sobrinha muito bonita que precisa de um emprego”, e apontando depois o dedo na minha direcção, ordenou: “A minha sobrinha dava uma boa rapariga das sextas-feiras no Corta-Fitas”.

Adolfo Ernesto



5 comentários

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De J.C. a 21.04.2008 às 00:15

«A minha sobrinha dava uma boa rapariga das sextas-feiras» - disse a Dona Rosa. Meu caro, não se esqueça de explicar à senhora que a sobrinha dela pode ser muito boa, mas que «rapariga» está prestes a ter uma conotação de alternadeira não-escritora, em acordortografiquês...
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De Luís Naves a 21.04.2008 às 11:30

mas o acordo não altera o sentido das palavras, apenas a ortografia, jc
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De J.C. a 21.04.2008 às 15:30

Tem toda a razão, meu caro. O meu receio é que o acordortografiquês, na prática, vá mais longe, por sempre haver os 'mais papistas do que o Papa'...
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De Ana Vidal a 21.04.2008 às 11:05

Delicioso texto.
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De Luís Naves a 21.04.2008 às 12:10

agradeço o comentário, ana

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