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Quem conseguir esquecer
Que veio cá p'ra morrer
Pode guardar ambições
Pode rir, pode viver
Se não pensar em morrer
Pode viver de ilusões.
Quem conseguir esquecer
Que veio cá p'ra morrer
É mais feliz do que eu
Faça eu o que fizer
Não posso deixar de ver
Morrer tudo o que nasceu.
(poema não musicado de Amália Rodrigues)
Mais um tiro do PSD no próprio pé. E este é de grande calibre.
Quanto mais se fala "no tema" e mais moral política se tenta introduzir, seja agendando debates (não faças o que eu faço, mas faz o que eu digo) seja criando estruturas e comissões de prevenção "da coisa", mais se tem a sensação de que a vontade real é que tudo fique na mesma... Todo o discurso soa a oportunista e até parece que quem fala tem necessidade de sacudir água do capote em jeito de eu não fiz nada, eu estou inocente, eu acredito e confio na justiça... o moralismo cansa, mas o falso moralismo irrita...
Consta que se perspectiva o adiamento da construção da ligação TGV entre o Porto e Vigo, não por causa das finanças públicas ou dum avisado acordo secreto entre as bancadas do PS e do PSD, mas por causa do Ministério Fomento espanhol que se justifica com questões do foro ambiental. Ora cá pra mim que não sou de intrigas, isto trata-se afinal duma inadmissível intromissão do reino vizinho na estratégia de animação económica e do desenvolvimento da república de Sócrates. Daqui deste jardim à beira-mar plantado, além do adiamento da linha Lisboa Elvas, aguardam-se também as tomadas de posição dos lobbies envolvidos, assim como uma relação do número de desempregados previstos pela Mota-Engil e Teixeira Duarte em consequência do atraso.
Quando o gajo de direita se aventura a ler A Metamorfose, querido leitor, fica com a sensação que o seu coração não durará já tanto quanto o previsto.
O primeiro grande choque do gajo de direita quando lê aquela miniatura kafkiana é ver que o senhor Gregor se atreveu a faltar ao trabalho no dia em que se metamorfoseou. Dá uma série de desculpas: pernas para o ar, mancha branca e dores no lombo e tudo isso que esses preguiçosos comummente evocam para fazer gazeta. Provavelmente se o senhor Gregor se tivesse metamorfoseado em Portugal, ia ter o Jerónimo a exigir o direito do tipo ao décimo terceiro mês. Lá onde aquilo aconteceu, parece que acabou despedido e sem direito a baixa médica – como deve ser.
O segundo grande choque do gajo de direita quando se vê a ler aquelas noventa e duas páginas é que não há uma, uma única referência à autoridade. Não há um polícia em toda a história. Havia fortes motivos para haver, como bem sabemos. E o preocupado leitor sabe o quão cara é a causa do policiamento para os gajos de direita.
O gajo de direita fica ainda chocado, ó leitor, chocado!, ao ver que as mulheres da casa trabalham sem ser para o lar. Então a mais novinha a andar naquela vida ainda acaba a incorrer no pecado.
Por fim, ó sacrilégio dos sacrilégios, o gajo de direita fica ultrajadíssimo com o facto de o Gregor se transformar em escaravelho e teimar em ficar escaravelho até morrer com uma maçã espetada nos costaços. Anda Deus cheio de trabalho a fazer pessoas para depois elas negarem a Sua vontade e enveredarem por uma vida de bicheza. Aquela condição de insecto não é, de todo, natural, leitor. Tivesse o livro cem páginas e ainda aparecia a Fernanda Câncio (cumprimentos, Fernanda Câncio) a defender o direito do Samsa a casar ou a adoptar.
Uma vergonha, aquilo. Um manual de maus costume que devia ser escondido das crianças. Escondido!
O blogue Blasfémias continua a insistir na tecla conspirativa da história, neste caso, pretende-se sublinhar que existe uma conspiração científica para criar um alegado mito do aquecimento global.
A história dos e-mails roubados a cientistas, nos quais é sugerido que existe um conflito de medições e valores, não passa de uma manobra de intoxicação e os órgãos de comunicação responsáveis estão a interpretar estes alegados factos com sais de fruto.
Impõe-se extrema cautela, mas torna-se fácil escrever um post de aparência séria que cita um obscuro site a dizer duas ou três coisas evidentes, por exemplo, que a ciência se baseia na transparência, algo que a política costuma dispensar.
Como se pode ler neste texto da BBC sobre o e-mails, as coisas são mais complicadas:
"But in the world of science policy, many others find themselves in a war of influence against those firms who fund the amplification of the messages of the relatively small number of genuinely sceptical scientists outside the consensus. The sceptic business lobby aims to keep scientific doubt alive to paralyse policy. This is the world of science Realpolitik".
Penso que esta citação resume bem o problema. Claro que não existe consenso científico sobre as alterações climáticas, mas o facto é que um dos lados ganhou o debate, acumulando provas mais do que suficientes de que estão em curso alterações no clima da Terra. Sobre a dimensão dos impactos, o debate vai continuar.
Agora, se a história dos e-mails prova alguma coisa é que há muitos interesses económicos que querem atrasar as necessárias decisões políticas.
Já escrevi imensa parvoíce. É um facto. No entanto, em todo o conjunto de parvoíces que me atrevi a escrever, nunca houve nada que me fizesse arrepender por vergonha. Excepto uma. Em alturas de eleições, quando «participei» – com aspas, que bem se sabe que não sou propriamente um fiel – na campanha do Partido Social Democrata, acabei a escrever um texto sobre António Preto, quando a sua inclusão nas listas se tornou – ó país! – no principal assunto da campanha. E escrevi um texto, este texto, em que defendi uma tese absurda que, confesso, apenas me ocorreu no quente do debate, o fraco debate, político-partidário. É um texto desonesto, é. Foi basicamente um pedacinho de lixo que quem se envolve demais acaba por criar. Se calhar se eu não escrevesse este post, ninguém se lembraria mais dele e poderia continuar fingindo que não o escrevi. Pessoalmente, não me sentiria bem. De vez em quando lembro-me dele com um pequeno esgar de nojo e é sempre melhor quando se clarifica tudo. Não, aquela não seria a minha opinião para qualquer outro caso, do mesmo modo que não era a minha opinião sobre aquele caso em específico. Continuo a achar que os arguidos não deviam ser proibidos de se candidatar? Continuo. Continuo a achar que o tratamento dado à inclusão de António Preto das listas foi desproporcionado? Continuo. Acho que António Preto não devia estar na Assembleia da República e que a imagem, só imagem, de seriedade e honestidade em que assentou a campanha levou ali a estocada final? Acho. As minhas desculpas.
Preclaríssimos leitores, hoje é dia de grande importância na capital. Segue-se um conjunto de sugestões:
1. Doutoramento Honoris Causa de George Steiner na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa às 15h. Entrada livre.
2. Liquidação de stocks da Buchholz, uma feira do livro adiantada. Livros a partir de 1€, dizem.
3. Início da Festa do Livro da Gulbenkian, que dura até ao Natal. Filosofia em saldos, vejam bem!
4. Apresentação pelo António Barreto do História de Portugal do Rui Ramos, às 18.30h na Sala Portugal da Sociedade de Geografia.
E, queridos leitores, já sabem: não digam que vão daqui.
É uma verdade inabalável que quem acreditar que Vítor Constâncio falou em subidas de impostos por acaso é simplesmente estúpido. O que Vítor Constâncio fez foi, na realidade, duas coisas: em primeiro lugar, apalpou terreno a fim de se perceber como reagiria a população a uma subida de impostos; em segundo lugar, fez um enorme préstimo ao governo, tornando-se vilão num romance que já estava morto (o dos impostos) e tornando Teixeira dos Santos e José Sócrates os cavaleiros que salvam tudo no fim. Só quem for muito tolo é que acredita que o ex-secretário-geral do PS faz uma declaração pública deste teor sem conversar antes com o admirável líder. É impressionante quando um desprezível grupo de amigos torna o país uma coutada sua e transforma as instituições em meros apanha balas. Mas, que fazer, a democracia tem o que pede.
Em Blasfémias, alguns autores recusam-se a ver o óbvio e martelam no tema do clima.
Carlos Loureiro escreve isto.
É pena que o autor não tenha lido bem o excerto escolhido, que é apenas um dos cenários admitidos no relatório. Nesse cenário, se não houvesse emissões de carbono após 2030, (fruto de uma invenção qualquer que permitisse acabar com a queima de combustíveis fósseis) e se as emissões se mantivessem como as de agora até aquela data, ou seja estabilizadas durante mais vinte anos, haveria uma probabilidade em quatro das temperaturas globais ultrapassarem os 2 graus centígrados em 2100. Em resumo, mesmo com tantas facilidades, seria difícil não sofrer impactos a longo prazo.
Não tenho nada contra o combate político, mas critiquem a tese das mudanças climáticas com argumentos científicos, não com distorções. Esta é uma matéria onde misturar demasiadamente os cálculos mesquinhos da politiquice pode ter custos muito elevados.
O leitor pode procurar a informação neste local. É bem preocupante.
Uns dias depois dos votos contados começaram a cair as qimondas e outras empresas sob “suporte de vida” artificial. Passadas uma semanas da campanha eleitoral, o aumento dos impostos entra na agenda pela boca dum dos druidas regimentais, o Dr. Constâncio.
Em tempos pré eleitorais, o estado das finanças publicas e o desemprego eram questões miserabilistas ou caprichos duma "Velha do Restelo". Acontece que a realidade é cruelmente linear, e as suas consequências impossíveis de evitar: é tudo uma questão de tempo, virem-nos ao bolso cobrar o descontrolo da despesa pública.
Um brincalhão como sempre, o João Tunes, que descontextualiza a minha frase e atribui-lhe um sentido duvidoso. De resto, um verdadeiro conservador, ama a Liberdade antes de tudo (dou a entender isso no primeiro paragrafo), e até preza a mudança se ela emerge livre e verdadeira, se não for “ortopédica”.
Uma provocação final: numa família (como num país), existe sempre o elemento “conservador” e o elemento “revolucionário”, dois caracteres que normalmente se complementam e digladiam saudavelmente. Dramático é se na disputa uma das partes for batida; e é sabido como a coisa piora substancialmente se a vítima for o conservador que é normalmente quem paga as contas, zela pela descendência e pelas tias tontas.
Em Portugal os “revolucionários” e alguns líricos há muito tomaram conta do “pagode”, disfarçados de burocratas ou pregadores, e eu tendo trancar a porta “da minha casa” à chave. Capiche?
Tempos houve, duros admitamos, em que uma sociedade tacanha e assustada com os ventos de leste, se contrapunha vigorosamente às veleidades dalguns aventureiros, atrevidos pacifistas, livres pensadores e poetas. Os "amanhãs que cantam" nunca chegaram, mas essa geração perdida alcançou o poder, com os seus heróis caídos, não pela revolução, mas por conta de overdoses e outros excessos. Desfeitos os equilíbrios, emerge esta era pós-social e hedonista em que chafurda a avançada Europa. E hoje um conservador não passa dum exótico ser, rara criatura, curiosidade de revista, que a adolescentocracia dominante é obrigada a tolerar.
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