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Esta noite comemora-se, no calendário judaico, o Rosh Hashanah. A todos aqueles que vivem a passagem para o ano 5769, desejo um ano feliz. «Abençoado seja o Senhor Deus, Rei do Universo, que criou o fruto da vinha».
O Bom Gigante (de Beja)
O que me faz espécie é o Sr. Stephane Rousson ter achado que poderia ser senhor de pedalada para atravessar o Canal da Mancha em balão. Queixa-se de ventos contrários, mas essa é apenas uma defesa natural da Albion contra os invasores ditos froggies. Por volta de 1800, o projecto fantástico de Thilorier, ao lado, visando, através do balonismo, transportar exércitos inteiros para invadir a Inglaterra, fez com que grande parte da oposição se unisse ao governo de Pitt. A coisa não passou adiante. Acredito que um solitário desportista não fosse capaz de causar tamanha ondulação política, mas unicamente porque é vencido por uma primeira barreira, a aragem. Past and Present não andarão assim tão distantes...
A leitura deste texto de Miguel Sousa Tavares fez-me pensar sobre a responsabilidade dos comentadores. A opinião é do autor, mas a um leitor atento não escapará a premissa ilógica em que se baseia a prosa. O que mais me interessou neste texto não foi a sua leviandade e contradições internas, mas outros dois aspectos: o anti-americanismo primário, que conduz à conclusão (“visionária”) da Europa ser construída contra a “perigosa” América (fonte de todos os problemas); e a sensação de perigo iminente, uma espécie de hipocondria europeia, que a meu ver, está na origem do populismo que nos vai dominando.
Anti-americanismo primário
Há mil razões para não se gostar da administração Bush, mas penso que em muitos autores uma transição na Casa Branca não mudará o essencial: para eles, a América continuará a ser um império perigoso, agressivo e brutal. Os EUA atraíram sobre si, muito justamente, a fúria do mundo islâmico e dos anti-imperialistas. Com a sua economia de casino, criaram uma situação de fim do mundo. Segundo a mesma tese, os americanos são profundamente incultos e até um pouco estúpidos. O corolário é simples: a Europa deve separar-se deste aliado pouco confiável e assumir o seu destino de potência benévola, cujo modelo social de capitalismo bondoso constitui um farol para os outros povos. Pena que faltem, por enquanto, os líderes visionários.
A hipocondria europeia
A Europa nunca foi tão rica e nunca esteve tão segura. A História deste brilhante continente, que deu ao mundo a civilização mais avançada de sempre, consiste num fio de conflitos, quase sem interrupções. Entre 1914 e 1945, as potências europeias tentaram um suicídio colectivo. Durante a Guerra Fria que se seguiu, a Europa esteve dividida em duas partes e viveu em ansiedade permanente, pois seria o campo de batalha em caso de nova guerra. Essa fase terminou em 1989, quando o colapso do bloco socialista introduziu outro factor de medo, pois a leste surgiam regimes frágeis e países fragmentários.
Em 2008, os conflitos criados pela queda do Muro de Berlim estão praticamente cicatrizados. A Europa é estável, rica, e não se vislumbra nenhum perigo.
E, no entanto, dois partidos populistas de extrema-direita conseguem quase 30% dos votos na pacata Áustria (o que resta de um país que já liderou um império multi-étnico e multi-cultural que é uma das fontes de inspiração da União Europeia).
O que se passou? Não há comida nos supermercados? Não há empregos? O país está arruinado? O facto é que não se vislumbra um problema austríaco que justifique a votação.
Imagino o dilema do médico visionário: está perante uma pessoa consciente da sua doença e cujos sintomas são verdadeiros ou perante uma pessoa saudável que acredita estar doente?
Cânticos tribais
Em relação à Áustria, Portugal tem desvantagens, mas felizmente o nosso sistema político ainda não chegou a um impasse daqueles.
Talvez seja uma questão de tempo, pois vi uma coisa notável na televisão: uma reportagem sobre uma claque de futebol que ia assistir a um jogo e que, no caminho, entoava um grito de guerra insultando as mães dos adeptos adversários. Não protestavam contra injustiças sociais ou falta de empregos, não, era contra pessoas iguais a eles.
Acho bizarro que alguém no seu perfeito juízo insulte a família dos adeptos da equipa adversária, mas mais peculiar ainda que a televisão mostre isso como se fosse uma qualquer curiosidade antropológica, como um hábito daquelas tribos que colocam ossos no nariz ou reduzem cabeças de pessoas.
O estranho era que ninguém achasse estranho.
Em conclusão
Países onde claques de futebol ditam leis e populistas tresloucados ganham eleições parecem estar pouco preparados para cooperar uns com os outros.
Mas Portugal e Áustria são parceiros num clube que pretende ter ambições políticas compatíveis com o seu potencial económico. O debate é deprimente: alguns acham que a Europa não deve sequer unir-se, outros defendem que isso deve ser feito contra a América, embora quando se pergunta de quantos porta-aviões vamos necessitar (custo unitário, cinco mil milhões de dólares) geralmente haja compreensível hesitação.
Não sei como será na Áustria, mas em Portugal o anti-americanismo é uma ideia poderosa. Salazar detestava os americanos e o nosso regime democrático nunca morreu de amores por Washington.
A desconfiança tem talvez raízes na dificuldade com que os portugueses admitem a liberdade dos outros. Ultimamente, o anti-americanismo primário tornou-se algo esquizofrénico, pois as elites consomem todos os produtos culturais americanos, que citam em inglês no original, mas politicamente a América continua a ser uma versão actualizada da “pérfida Albion”.
Acho que este sentimento tem uma ligação directa ao oportunismo político. E penso também que Portugal e a Europa estão maduros para aceitarem as piores formas de líderes populistas. E se a Europa já tentou suicidar-se uma vez, porque não duas?
Pensava que o líder parlamentar do PCP já não conseguia espantar ninguém. Engano meu. Em entrevista à última edição do semanário Sol, Bernardino Soares bateu o seu próprio recorde pessoal conseguindo não responder a uma só pergunta sobre a Coreia do Norte (depois de ter levado nas orelhas, de vários sectores, quando há uns anos admitiu que a ditadura mais feroz do planeta pudesse ser uma democracia).
Reparem só nestas pérolas:
Ainda pensa que a Coreia do Norte é uma democracia?
Essa pergunta já não merece resposta.
Mas é ou não?
Já disse o que tinha a dizer sobre isso.
Relembre.
Não. Essa pergunta já está gasta.
Preferia almoçar com Kim Jong Il ou com George Bush?
Nem com um, nem com outro.
Mas, se tivesse oportunidade de conhecer algum deles, qual escolheria?
Não escolho nenhum.
Qual dos dois é mais democrata?
Essa pergunta é idêntica à primeira. Também não vou responder.
Desculpe, mas esta pergunta é diferente.
No fundo é a mesma.
Sem me dizer qual, no seu íntimo considera um deles mais democrata do que o outro?
Não respondo.
Avancemos, então. Sei que nos últimos tempos voltou a andar de bicicleta.
Sim.
E por aí fora...
Os meus parabéns ao José Fialho Gouveia, autor da entrevista. Quanto ao camarada Bernardino, mais parece um gato fedorento. Um génio do humor involuntário, como há poucos em Portugal. Não dá mesmo para levar a sério.
E um jardim, nessa casa em que moramos embora em sonhos apenas? Um lugar onde, em cada manhã, persista a memória da chuva na relva molhada e, no seu exacto centro, uma árvore partilhada por gerações e cuja copa, ampla e frondosa, filtre o calor por entre ramos como braços de mãe.
1. "Uma articulada intervenção em Castelo de Vide? Seja, e depois? Já conhecemos de cor os diagnósticos. Nervo político? Não consta. Convicção? Nem sombra. Uma equipa? Ainda não há. Outra geração? Apesar de necessária como o pão para a boca, não se adivinha. Ideias? Tardam."
2. Uma minoria - os modestos 30 e tal por cento da drª Manuela - que não constrói nem agrega - nunca passará a maioria. Nem será capaz de reconstruir a confiança, indispensável utensílio sem o qual nunca haverá mudança digna dessa ambição."
3. "Entretanto Agosto já passou e Outubro está à porta."
Maria João Avillez, Sábado
- Felicidade? É uma dessas obras que nunca respeitam o PDM. E nestes casos, para espanto, não há suborno que nos sirva.
- Na verdade, com o problema do subprime, já nem essa é uma boa razão para casar...
«É um problema transversal, vamos da esquerda à direita, o meu ideal era ter connosco um comunista» declarou o nosso João Távora ao Público. Daqui a 10 minutos (são agora 14.50H), tanto ele como o também nosso Paulo Cunha Porto (o Duarte penso que ainda se encontra de férias) vão estar em conferência de imprensa no York House, prontos para começar a morder as canelas da comissão oficial responsável pelas comemorações do centenário da República. Não partilho a causa, mas espero que tudo corra bem. Quanto a ti, camarada que me lês, se és comunista e monárquico junta-te a eles!
Na fotografia, podem ver-se Carlos Bobone e João Távora, preparados para barricar a entrada na conferência a indivíduos suspeitos envergando avental.
O Primeiro-Ministro declarou, após umas vigorosas passadas atléticas, que nestes convívios embora algumas pessoas o apupem, a maioria poupa-o bastante.
Como é desigual o significado de um mesmo acto, ou, no caso, abstenção! Para o Político, no poupar é que está o ganho. Àqueles que se reprimiram resta uma outra previsão da sabedoria popular: Quem seus inimigos poupa nas mãos lhes morre.
«Sei que em ambiente de comício devemos dar algum desconto ao que se diz. Mas, tratando-se do líder socialista que é também chefe do Governo, é desejável esperar algum cuidado, sobretudo quando são abordados temas tão sensíveis como são as pensões dos portugueses e o mercado de capitais.
Ora, a afirmação produzida, no meio do deslumbramento mediático de que tanto gosta, é perigosa, primária e politicamente pouco honesta».
António Bagão Félix, no Público
Fotografia: José Boldt
José as desculpas estão aceites ;)
«A classe média é um aglutinado social com escassas luzes de civismo, subalternizado à procura do pão, e sem mais virtudes que não sejam uma sórdida defesa de interesses pessoais. Toda esta gente, em vez de dar parasita mais ou menos, roubando o Estado, na mais perfeita indiferença do que sejam virtudes extrafamiliares e deveres dos cidadãos».
Fialho D'Almeida, 1910
Comecei a ser um homenzinho no dia em que descobri que BB não era só uma gasosa...
Nascida a 28 de Setembro
O Cavalo de Tróia, de Tiepolo
Os dirigentes Social-Democratas austríacos, após a zanga com os Conservadores, parece terem tirado mais ganhos da ruptura, mesmo num cenário de ingovernabilidade previsível. Os dois partidos mais hostis à UE tiveram crescimentos enormes. Significa isto uma divisão de tendências no eleitorado? Nem por sombras, a delegação da Internacional Socialista em Viena passou de repente a defender que todas as alterações substanciais aos textos jurídicos que regem a Europa institucionalizada passassem, doravante, a ser sujeitas a referendo. Esta posição, num partido de Direita, seria uma lamentável cedência ao populismo, um extremar de posições desviante do ideário de Schuman e Monet, sabe-se lá mais o quê. Sob uma bandeira vermelha não há tanta margem para increpar. Mas qualifico eu este desenvolvimento, tão importante como pouco debatido por cá: é, potencialmente, um cavalo de Tróia, dentro dos partidos do arco governativo europeu. Para já, com o Sr. Brown em bolandas, nada garante que não venha a constituir reivindicação similar uma espécie de linha de força de algum coup contra ele, entre os Trabalhistas. E, sem que consiga provar a ligação, desconfio muito de que a atmosfera emergente não seja de todo estranha à escalada das posições eurocépticas dos Tories, com Hague a defender o referendo das disposições do Tratado de Lisboa, mesmo após a rectificação parlamentar.
Sabe-se lá quantos demónios se soltaram, para os eurocratas e conselheiros europeus. Bruxelas vai-se entretendo a fustigar jornais irlandeses e bloguistas que se lhe opõem. Vai ser um fartote ver como se desenvencilhará de inimigos inesperados.
Eles não regulam bem
A lareira largava mornas espirais de fumo. Na inércia da sala, ao fim da tarde, formavam-se vapores etéreos que exalavam eflúvios pensativos. Lentamente, mesmo a frente a mim, a dança aérea começou a formar o espectro do meu tio Alfredo, cuja assombração habita o palacete da família Suave. E, sem transição, ali estava ele, com a barba pontiaguda e a voz que se elevava das trevas:
“Em que pensas, sobrinho?”, perguntou o meu fantasmal tio.
Acordara, ainda a tremer, e respondi:
“Estava a lamentar o fim da minha carreira na blogosfera, tio Alfredo”.
“Mas anteontem parecias tão entusiasmado…”
“Sim, mas agora vivo no medo, pois a doutora Estrela Serrano pode invocar o direito de réplica. Na realidade, qualquer pessoa pode, e por isso, temo ofender alguém, que depois me obrigue a publicar um desmentido.”
“No meu tempo, as ofensas lavavam-se com sangue, em duelo”, disse o tio Alfredo.
“Credo, tio. Agora, há reguladores para isso. A dona Estrela, por exemplo, da entidade reguladora da comunicação, que entrou numa saudável polémica com Blasfémias e com Arrastão. Os 50 mil blogues passam a ser como jornais, com tempo de antena, direito de resposta e equidade no tratamento dos partidos políticos. E, sobretudo, critérios jornalísticos”.
“Mas os blogues não serviam para cada um dizer o que queria? A dona Estrela que crie um blogue para responder ao Blasfémias. Quem a impede?”
“É complicado, tio. É preciso controlar estes novos meios de comunicação. A doutora Estrela foi assessora e sabe do que fala. É uma especialista em comunicação. Antes da blogosfera, juntava-se um grupo de líderes de opinião num almoço e salvava-se a pátria. Agora, isso é impossível, pois teriam de ser convidados os blogueiros todos, que não cabem no Pavilhão Atlântico, isto tirando os cromos, que não cabem no estádio da Luz, e metade não se dá com a outra metade e depois havia uma arruaça, com pancada no meio do catering. Por isso, é preciso mais regulação. A blogosfera é uma questão de polícia”.
“Mas, o que não percebo, ó lerdo sobrinho: este teu hobby não tem a ver com a liberdade de expressão? E isso regula-se?”
“Então, não regula, tio? Nos jornais, na rádio e na TV…”
“Mas esses meios são escassos. Compreendo que seja necessário garantir que ouçam todos os sectores da sociedade. Agora, nos blogues, parece-me diferente: cada pessoa que ache que não está a ser ouvida é livre de iniciar o seu próprio blogue. Não se deviam aplicar as mesmas regras”.
“Diz o tio, que não percebe o problema. Se cada um pode dizer o que lhe vai na alma, é a anarquia”.
“Sempre que se conquistou uma liberdade, chegou alguém a dizer que era a anarquia e acabou com ela”, respondeu o meu tio Alfredo.
“Eu acho que o respeitinho é muito bonito, até no outro dia, estava a falar com o senhor Naves, que publica este meu diário…”
“Por falar nessa pessoa… Se vais deixar de escrever no Corta-Fitas, achas que o tal Naves me publica as memórias? Será que ele se assusta muito se eu aparecer lá em casa dele? Já estou a pensar no título: memórias de um fantasma”.
Cornélio Suave
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