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 Às vezes encanita-me que o Henrique Raposo não permita comentários ao que escreve. Como aqui, onde senti algumas cócegas nervosas ao deparar-me com um discurso igual ao do velhote do dominó na tasca do Sr. António ou ao do Sr. Victor taxista que me transporta à noite quando já não são horas do comboio. São todos maus, são todos corruptos, são todos iguais. Então o quê? Anarquia à Proudhon? Monarquia? União Nacional? Juízes à Baltazar Garzón? Tornar-me apátrida? Emigrar para o Canadá? Uma ASAE da AR? Caraças! O post é «só uma pergunta» mas o que eu gostava era de ter também uma resposta. (E já agora, o BE e o PCP esses não são mencionados porque disseram alguma coisa sobre o assunto, ou porque saltaram fora do Parlamento durante as minhas férias)?

*Título retirado a um taxista que, por acaso, não é o discreto Sr. Victor. 

Actualização 1:

A resposta do Henrique Raposo pode ser lida aqui. É assim que somos tramados. Melhor dizendo: Não «nós» mas «Eu». Não há uma palavra da réplica dele com a qual possa discordar (por acaso há, não penso que existam partidos a mais mas) Caraças! Ele é melhor taxista do que jamais serei (um gajo tem que conhecer as suas limitações).

Actualização 2:

Foucault, para mim, vestirá sempre saias e responderá pelo nome de Teresa Cruz, a minha professora na Nova que não sabia quem era Boris Vian mas, nitidamente, amava semioticamente esse autor rabeta sado-masoque que nunca consegui ler até ao fim (Ressalva: Não consegui porque sou estúpido, ao contrário do Pedro Boucherie Mendes que sabia passagens de cór, Blanchot inclusive, e não estou com isto a insinuar nada, Deus me livre).

Cinquenta e quatro vezes a palavra não

por Pedro Correia, em 28.07.08

Ao longo de uma entrevista em que proferiu cinquenta e quatro vezes a palavra "não", Manuela Ferreira Leite mostra-se cada vez mais igual a si própria: clara, concisa, concludente, sem ambiguidades. Uma garantia óbvia de que manterá o PSD no rumo certo.

Deixo aqui, com a devida vénia, alguns excertos desta entrevista - concedida pela presidente dos sociais-democratas à última edição do Expresso. Confessando-me rendido à agudez do seu raciocínio e à profundidade do seu discurso:

 

Continua a pensar que não compete à oposição prescrever o tratamento?

Continuo a recusar o que muitos têm feito, que é chegar ao poder e fazer o contrário do que anunciaram. E sei muitas vezes [que] isso acontece porque há um desajustamento entre o que se pensa e a situação que se encontra.

Então só quando se chega lá é que se pode dizer o que se vai fazer?

Não é quando se chega lá, mas é quando se conhecem a fundo os dossiês.

E isso será quando?

Não pergunte 'timings'. Não vou ficar pressionada e como não houve nenhuma proposta do PSD aceite pelo PS, só por folclore é que podem estar sempre a pedir-nos propostas.

É normal as pessoas quererem saber o que seria diferente consigo.

E vão saber. Eu não vou apresentar-me a eleições sem um progrmaa eleitoral e à medida que os dossiês vão sendo trabalhados, falarei, com um conhecimento profundo.

Na segurança social, irá mais longe do que Sócrates foi?

A reforma da segurança social foi feita e é positiva. Mas podia ir mais longe.

É amiga pessoal de Cavaco Silva e em alguns temas há consonância entre os dois. Como é que pensa gerir a relação com o Presidente da Republica?

(...) Eu até evito falar com ele.

Vai ter que falar com ele dos calendários eleitorais. O PS quer as europeias, as legislativas e as autárquicas separadas. Concorda?

Julgo que se houver legislativas e autárquicas em datas diferentes vai haver uma distância mínima entre as duas (cerca de 15  dias) e isso pode não ser fácil. Em nome do País admito que seja melhor não pedir datas diferentes, mas temos tempo para pensar o assunto.

Já tem nomes para as principais câmaras?

Ainda não. Mas penso ter tudo discutido até ao final do ano.

Santana Lopes e Fernando Seara são hipóteses para Lisboa?

Nunca falei com eles sobre isso e não vou falar disso agora.

Lê muitos jornais?

Claro que leio. Não todos, só alguns. E não vou dizer os que não leio.

Leitura de Verão

por João Villalobos, em 28.07.08

Sanderson Beck, «The Ethics of Civilization». Na minha versão, são apenas 2.926 páginas. Mas dá para diminuir um bocado o corpo da letra.

Portugal de costas voltadas para o mar

por Filipa Martins, em 28.07.08

 

A demolição da Escola de Pesca e Marinha de Comércio marcada para meados de Setembro é mais um exemplo do (des)governo do Ministério da Agricultura e das Pescas. Esta escola, que custou 35 milhões de euros e cujas últimas obras foram completadas em 2000, é a única do país que dá formação nas diferentes actividades não militares ligadas ao mar (de que é exemplo a pesca, transporte marítimo, tráfego local assim como tratamento e conservação de peixe, trabalho portuário, etc). A situação privilegiada sobre o mar na zona ribeirinha de Pedrouços é apetecível e já estava previsto que a Escola desaparecesse com a “América Cup”, que acabou por não vir para Portugal. Não foi a “América Cup”, mas o Simplex o carrasco da Escola. O surpreendente é que aquele espaço vai ser utilizado para a construção de um Fundação privada. A Fundação Champalimaud terá ali a sua sede assim como um centro de investigação. Não duvido da importância deste projecto, mas terá de ser naquele local? Ao contrário da Escola de Pesca o centro não precisa de uma ligação estreita com o mar. Muito há para explicar. Em primeiro lugar, as diferenças entre um discurso governamental virado para o mar e as medidas efectivas.

Caro Pedro

por João Villalobos, em 28.07.08

Eu podia ter-te avisado. De uma mulher com «lábios romanos» nunca pode vir coisa boa.  

Um homem na cidade

por João Villalobos, em 28.07.08

Cada vez acredito mais que a melhor forma para uma pessoa descobrir se é ou não conservadora passa por aquilo que sente ao deparar-se com os novos projectos e obras arquitectónicas.

Se alguém (como eu, já agora e numa declaração de interesses) prefere o antigo Estoril-Sol - mesmo carregadinho de amianto como estava - às novas mega-torres de vidro espelhado com apartamentos a 1 milhão de contos (já todos vendidos ao que me disseram) é conservador. Se o mesmo alguém (como eu outra vez) abre o Público de hoje e estremece quando olha para a «antevisão» do prédio a erguer no Rato junto à Sinagoga, é conservador. E assim por diante de cada vez que o «progresso» me troca as voltas à memória. A História e as histórias, para mim, são geografia. E, por isso, reajo mal às mudanças dos lugares e pior ainda às grandes mudanças do espaço que me rodeia.

Admito que as minhas reacções advêm da defesa de um estilo de cidade que, eventualmente, morreu e já não pode resssucitar. Gosto das pequenas hortas à beira das estradas,  dos jardins interiores invisíveis excepto para quem lá mora, dos prédios Valmor e de outros cuidadosamente reconstruídos, do «small (and old) is beautiful» enfim. 

E no entanto, admiro a ruptura, a inovação e a capacidade simultaneamente criativa e utilitária na arquitectura. Mas passeio junto ao rio e não vejo isso em lado algum. Do Terreiro do Paço a Algés passando pelo Cais do Sodré, todos aqueles edifícios novos que vieram aumentar o nosso divórcio do Tejo conseguem apenas deixar-me entre o indiferente e o indignado. Não percebo nada da poda, dirão vocês com razão. Mas não era suposto, mesmo assim, sentir-me menos violentado com a cidade em que me vão encerrando?

O coice do dia

por João Villalobos, em 28.07.08

«As perguntas que devem ser feitas à direcção da bancada socialista são as elementares: quem, como e porquê teve a ideia de fazer essa alteração à proposta deixada por João Cravinho. Responder-lhes com clareza era um bom princípio para quem se diz defensor da transparência e do Estado».

Paulo Ferreira, no Público

CML 2 - Cidadão cumpridor 0

por Cristina Ferreira de Almeida, em 28.07.08

No último mês o meu carro foi atacado quatro vezes. Duas por polícias e duas por ladrões. Os ladrões usaram os métodos antigos: fechadura forçada, interior vasculhado, uns cd's e uma caixa de bolachas desaparecidos. Nada de monta. Já os ataques dos polícias foram levados a cabo com métodos modernos. A velha multinha no pára-brisas já era: agora o que rende é rebocar logo o carro e depois logo se vê quais as letras pequeninas do código da estrada que estava a infringir.

Os polícias modernos deslocam-se num reboque dotado de um nariz especial que fareja os carros com o imposto de selo em dia, lavadinhos e com aspecto de pertencerem a um cidadão esforçado e cumpridor. Sai mais caro que os ladrões.

Alguém tem que pagar as dívidas da câmara municipal, é certo, mas agora que sei que ainda falta amortizar 50% proibi os meus filhos de sairem à rua. Não conheço o código para quem anda a pé e nunca se sabe que regras as crianças poderão violar. Sei é que, se me rebocam os filhos, fico sem dinheiro para ir de férias.

Chama-se a isto escrever bem

por Pedro Correia, em 27.07.08

"O dr. Borges, ao que me dizem, é o resultado de uma adição entre conhecimentos gerais de economia e absolutos desconhecimentos da realidade concreta."

Baptista-Bastos, sobre António Borges, no DN

Estrelas de cinema (10)

por Pedro Correia, em 27.07.08

 

 

BRINCADEIRAS PERIGOSAS O

Tinham-me avisado que devia evitá-lo. E o próprio trailer do filme, que espreitei na televisão, não me seduziu minimamente. Mas arrisquei. Fiz mal: é a película mais obscena que vi este ano. Profundamente violenta, mas sem jamais assumir a violência. Cobarde, esquarteja corpos fora do nosso campo visual. Os actos violentos estão lá todos, mas o cineasta austríaco vai piscando um olho ao espectador como se avisasse que afinal nada daquilo é a sério. Os dois adolescentes que matam por prazer. A pulsão gratuita pelo homicídio. A caução intelectualóide do vazio existencial para tentar dar consistência a um argumento totalmente inverosímil. A manifesta falta de qualidade das interpretações. A bela Naomi Watts (também produtora do filme, o que me parece quase inconcebível) no papel mais imbecil da sua carreira.
A “família ideal”, caricaturada por um realizador que parece sentir prazer em triturar a “moral burguesa”, é uma miragem dissolvida ao primeiro golpe de uma faca. Quanto tudo termina, fica-nos uma sensação de náusea. Brincadeiras Perigosas é afinal um caso sério. De mistificação – do primeiro ao último fotograma.
 
Funny Games, 2008.
De Michael Haneke. Com Naomi Watts e Tim Roth.

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O mistério da minha rua

por Cristina Ferreira de Almeida, em 27.07.08

De dia para dia a minha rua empobrece. Os chineses há muito que partiram e deixaram as grandes lojas vazias. O restaurante razoável está transformado numa tasca. O cabeleireiro recentemente modernizado já só tem uma funcionária que mastiga pastilha elástica encostada à porta. 

Todos os dias me espanto com a resistência de uma loja antiga que vende carpetes de linóleo, flores secas, chávenas de café em forma de concha com o interior dourado e espanadores de plumas cor-de-rosa. Sempre que desço a rua penso que é desta que fechou - afinal, de quantas carpetes de linóleo, espanadores de plumas cor-de-rosa e chávenas em forma de concha com o interior dourado precisamos ao longo da vida?. Mas não, lá está a porta aberta e a velhota sorridente no meio dos rolos de linóleo. Tem que haver uma explicação. Decido-me a investir num espanador.

- A verdade é que já há muitos meses que não recebo o ordenado - explica a velhinha - Não era grande coisa, mas sempre ajudava à reforma...

- E a senhora continua a vir trabalhar?

- Que quer que faça, minha filha? Que me feche em casa? Ao menos, aqui, sempre estou distraída...

 

 

Igual ao litro

por Francisco Almeida Leite, em 27.07.08

O João Moutinho faz hoje a capa dos principais jornais desportivos (e não só) com a afirmação "quero sair". Fiquei chocado. Achei sempre que Moutinho era dos poucos jogadores que no Sporting dos últimos anos primava pela diferença. Preferia jogar a falar. Parecia até ser sensato, o miúdo. Chegou cedo a capitão de equipa, depois de três temporadas seguidas a jogar a titular. Fez as maravilhas de Peseiro, que o lançou, e de Paulo Bento, que nunca prescindiu dele.

Pela sua atitude e pela forma como parecia um primus inter pares é que me custa vê-lo igual a tantos outros. Que só quiseram usar o Sporting Clube de Portugal como trampolim. Aceito que um dia tivesse que sair. Mas não assim, a querer deixar um clube como o nosso para ir para o Everton, que há anos deixou de ser dos principais clubes ingleses. Ele é o capitão, é o segundo jogador mais bem pago do clube (a seguir a Liedson) e tinha muito pela frente. Com estas atitudes irá tão longe como os que foram e um dia pagam para voltar. Espero estar muito enganado. Agora, vamos a isto, temos que ganhar o primeiro derby do ano. Mesmo a feijões. É já a seguir.

Palavras que odeio (166)

por Pedro Correia, em 27.07.08

Causídico

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Divas da nossa política

por Francisco Almeida Leite, em 27.07.08

Ao ler o Expresso Online, confesso que o que me chamou mais à atenção não foi a entrevista mensal que Manuela Ferreira Leite concede à edição impressa do semanário, mas sim uma sessão fotográfica com Maria de Belém Roseira, antiga ministra da Saúde do Governo de António Guterres e actual deputada do PS. Com o título, "Maria de Belém: a diva" e o antetítulo "Modelo fotográfico por um dia", a dita sessão inclui um vídeo que é apresentado desta maneira pelo jornal: "prestes a alcançar os 59 anos Maria de Belém Roseira encarnou uma diva dos anos 50 e demonstrou perante a objectiva do fotógrafo Mário Galiano o charme da sua geração". Definitivamente, a imprensa de referência já não é o que era e, hoje, há múltiplas formas de captar a atenção dos leitores, como esta, que nada tem de ilegítimo. Mas lanço uma pergunta: e se a ex-governante em causa não fosse da esquerda caviar, mas sim de centro-direita? Se fosse Teresa Patrício Gouveia, Leonor Beleza ou Isabel Mota, todas elas mulheres cheias de charme, só que mais "às direitas, seria tão bem tolerada esta ousadia? Acho que não. E tendo a concordar com Paulo Portas, quando diz que "não ser de esquerda obriga ao dobro do trabalho e da tenacidade". Começo a achar que ele, apesar de ultrapassado e com uma fórmula gasta, ainda diz umas coisas acertadas. Mas poucas.

Politicamente incorrecta

por Teresa Ribeiro, em 27.07.08

 

 

Isto é embaraçoso. Não sou ferreira-leitista, mas até parece. À medida que o tempo passa e se vai acentuando este braço de ferro entre os que supostamente marcam o estilo e o ritmo da agenda mediática e M.F.L., a minha admiração por ela aumenta.

As pressões para falar, agir e aparecer a propósito de tudo e de nada são imensas. Mas ela, agindo de acordo com o que sempre pensou acerca do foguetório que anima a política quotidiana em rigorosa articulação com os interesses dos media, não se demove.

Questionada pelo Expresso sobre este assunto em entrevista publicada na edição de ontem, explicou, mais uma vez, que falará quando assim o entender, de acordo como seu timing, frisando que não é do seu estilo pronunciar-se sobre dossiers que não conhece profundamente.

Posso não concordar com algumas das suas ideias políticas - que ao contrário do que se tem escrito para aí, são conhecidas na sua essência - mas esta atitude só pode despertar a minha simpatia.

Paradoxalmente, a sua antipática negação à exposição mediática e a obstinação em permanecer na política igual a si própria (mais uma vez sublinhou que não quer assessores de imagem para nada) revela-me uma mulher cuja autenticidade só me pode ser simpática. Até porque neste seu desejo de transparência e seriedade julgo vislumbrar - passe a presunção - um pouco de ingenuidade. É que "ser diferente" em política só resulta se for de marketing que estivermos a falar.

Domingo

por João Távora, em 27.07.08

Evangelho segundo São Mateus 13, 44-46


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».


Da Bíblia Sagrada
 

A previsão mais fácil de fazer

por Pedro Correia, em 26.07.08

José Sá Fernandes, cabeça de lista do Bloco de Esquerda nas intercalares de 2007 em Lisboa, vai integrar a lista do PS às autárquicas do próximo ano.

A ver aviões

por Francisco Almeida Leite, em 26.07.08

Do meu recanto de férias fico a saber que a Embraer vai construir duas fábricas de componentes de aviões em Évora, num investimento que representa 148 milhões de euros e 500 empregos. À parte o carácter positivo da notícia, acho que a forma como a coisa foi apresentada na televisão pública soou um pouco a propaganda, com alusões desnecessárias ao plano tecnológico e à pujança empresarial inexistente neste país. Tirando isso, gostei de ver o excerto da entrevista a José Sócrates e a Lula da Silva, conduzida pelo eficiente Sérgio Figueiredo, que é simultaneamente apresentador do programa semanal "Negócios à Parte", do canal público RTP2, e administrador da Fundação EDP. Por momentos, Sócrates revelou uma faceta de homem público genuíno e convincente que consegue também fazer negócios para além do triunvirato Venezuela-Angola-Líbia. Já não era sem tempo...

A melhor década do cinema (130)

por Pedro Correia, em 26.07.08

O GRANDE ELIAS

(1950)

Realizador: Arthur Duarte

Principais intérpretes: António Silva, Milu, Ribeirinho, Cremilda de Oliveira, Maria Olguim, Estêvão Amarante

Uma divertidíssima película de Arthur Duarte, que mantém o espírito anteriormente revelado em O Costa do Castelo (1943) e O Leão da Estrela (1947). Ribeirinho, um dos mestres da comédia portuguesa, está no seu melhor neste filme injustamente menosprezado que nos oferece também a rara oportunidade de apreciarmos a actuação de Amarante, uma figura quase mítica do nosso teatro. A cena do combate de boxe merece figurar em qualquer antologia do cinema português, tal como as sequências do jardim zoológico n' A Canção de Lisboa e o monólogo de Vasco Santana com o candeeiro n' O Pátio das Cantigas. E atenção ao momento musical protagonizado por Milu e Ribeirinho: muito anos depois esta canção voltaria a popularizar-se numa versão de Manuel João Vieira.

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Infortúnios & Vilipêndios

por João Villalobos, em 26.07.08

Desta vez, a escolha deste vosso cronista era entre a corrida de touros comemorativa do aniversário da revista VIP e uma tourada bem maior. Ou circo, vai-se a ver foi mais isso. Só para terem uma ideia de como tudo se passou, a apresentação funcionou a dois tempos. No primeiro, em jeito de conferência de imprensa, cada jornalista tinha direito a fazer uma pergunta ao inspector coordenador aposentado Gonçalo Amaral. Como era provavelmente o único presente que se estava marimbando para as respostas, fui comprovando como as nossas jornalistas, com claro destaque para a representante desta casa Inês Bastos, eram muito mais giraças do que as “bifas” dos tablóides britânicos, mal bronzeadas não por culpa do sol algarvio.

Nessa parte, a vetusta palavra-chave foi “vilipendiar”. Marques Vidal afirmou que a PJ tinha sido vilipendiada, Gonçalo Amaral que ele mesmo tinha sido vilipendiado (na realidade disse “vilipendado” mas seria dos nervos que o faziam suar mais do que o costume) e os senhores e senhoras da imprensa estrangeira questionavam o vilipêndio ao casal McCann e a Robert Murat e se Amaral não estava a “aproveitar-se financeiramente da desgraça da menina”. Confesso que ri com gosto quando Marques Vidal proclamou que “agora a febre mediática amainou”. Estavam oito câmaras de televisão na sala, por amor de Deus! E eu consegui enfurecê-los a todos quando me levantei e entrei no campo das filmagens numa altura crucial, na tentativa de verificar a identidade de um dos presentes. Até senti o corpinho todo cravejado de agulhas.
Mas gira, mesmo gira, foi a parte que se seguiu. Num ápice, mal terminou o período reservado às perguntas, entrou na sala um batalhão de septuagenárias oxigenadas numa corrida aos lugares sentados que só as mais aptas venceram. Uma das bem conservadas idosas, com uma rosinha tatuada na omoplata, sentou-se num dos lugares da frente e passou o tempo todo erguendo para as câmaras um cartaz com a cara do autor e onde se podia ler “Parabéns Dr. Gonçalo Amaral”. A impressão que dava é que as senhoras tinham vindo todas no mesmo autocarro, já que os homens presentes destoavam por serem substancialmente mais novos e com cabelo à escovinha, alguns com pensos na cara ou na orelha como quem convalesce de uma refrega qualquer. Suponho que fossem os antigos colegas da Judiciária a quem o autor agradeceu a presença.  
Um deles estava sentado, provavelmente sem o saber, ao lado da mais voluptuosa cronista de sexo da imprensa nacional, Ana Anes, que passou o tempo todo com ar atento e circunspecto.
No final dos discursos, marcados pelo panegírico de Marques Vidal que louvou a obra como se de um opúsculo poético se tratasse, os responsáveis da editora ainda tentaram o impossível: Dizer à turba sedenta de nem que fosse tocar a fímbria da camisa do ex-inspector que os autógrafos ficariam para outra ocasião. Não serviu de nada e o caos que se seguiu foi digno de se ver. Ao meu lado, uma criancinha berrava que queria “ver o homem” e o paizinho prometia que sim. E alguns berravam “Ó Gonçalo”! na tentativa de provocar um olhar especial por parte do dito. Tânia Raposo, a relações públicas da Guerra & Paz e magnificamente produzida numa túnica violeta, tentava organizar a saída enquanto Gonçalo Amaral procurava espaço para mexer o cotovelo, pelo menos o suficiente para conseguir gatafunhar a assinatura nos exemplares estendidos. Cá fora, a fila para comprar o livro dava curvas sem fim à vista. Um sucesso. O homem bem pode ter sido vilipendiado mas eu cá, se estivesse no lugar dele, não me preocupava com isso. Pegava na massa dos direitos de autor e tirava umas grandes férias algures. Em Inglaterra é que se calhar não.

Publicado hoje no DN mas não disponível online.




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