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Às vezes encanita-me que o Henrique Raposo não permita comentários ao que escreve. Como aqui, onde senti algumas cócegas nervosas ao deparar-me com um discurso igual ao do velhote do dominó na tasca do Sr. António ou ao do Sr. Victor taxista que me transporta à noite quando já não são horas do comboio. São todos maus, são todos corruptos, são todos iguais. Então o quê? Anarquia à Proudhon? Monarquia? União Nacional? Juízes à Baltazar Garzón? Tornar-me apátrida? Emigrar para o Canadá? Uma ASAE da AR? Caraças! O post é «só uma pergunta» mas o que eu gostava era de ter também uma resposta. (E já agora, o BE e o PCP esses não são mencionados porque disseram alguma coisa sobre o assunto, ou porque saltaram fora do Parlamento durante as minhas férias)?
*Título retirado a um taxista que, por acaso, não é o discreto Sr. Victor.
Actualização 1:
A resposta do Henrique Raposo pode ser lida aqui. É assim que somos tramados. Melhor dizendo: Não «nós» mas «Eu». Não há uma palavra da réplica dele com a qual possa discordar (por acaso há, não penso que existam partidos a mais mas) Caraças! Ele é melhor taxista do que jamais serei (um gajo tem que conhecer as suas limitações).
Actualização 2:
Foucault, para mim, vestirá sempre saias e responderá pelo nome de Teresa Cruz, a minha professora na Nova que não sabia quem era Boris Vian mas, nitidamente, amava semioticamente esse autor rabeta sado-masoque que nunca consegui ler até ao fim (Ressalva: Não consegui porque sou estúpido, ao contrário do Pedro Boucherie Mendes que sabia passagens de cór, Blanchot inclusive, e não estou com isto a insinuar nada, Deus me livre).
Ao longo de uma entrevista em que proferiu cinquenta e quatro vezes a palavra "não", Manuela Ferreira Leite mostra-se cada vez mais igual a si própria: clara, concisa, concludente, sem ambiguidades. Uma garantia óbvia de que manterá o PSD no rumo certo.
Deixo aqui, com a devida vénia, alguns excertos desta entrevista - concedida pela presidente dos sociais-democratas à última edição do Expresso. Confessando-me rendido à agudez do seu raciocínio e à profundidade do seu discurso:
Continua a pensar que não compete à oposição prescrever o tratamento?
Continuo a recusar o que muitos têm feito, que é chegar ao poder e fazer o contrário do que anunciaram. E sei muitas vezes [que] isso acontece porque há um desajustamento entre o que se pensa e a situação que se encontra.
Então só quando se chega lá é que se pode dizer o que se vai fazer?
Não é quando se chega lá, mas é quando se conhecem a fundo os dossiês.
E isso será quando?
Não pergunte 'timings'. Não vou ficar pressionada e como não houve nenhuma proposta do PSD aceite pelo PS, só por folclore é que podem estar sempre a pedir-nos propostas.
É normal as pessoas quererem saber o que seria diferente consigo.
E vão saber. Eu não vou apresentar-me a eleições sem um progrmaa eleitoral e à medida que os dossiês vão sendo trabalhados, falarei, com um conhecimento profundo.
Na segurança social, irá mais longe do que Sócrates foi?
A reforma da segurança social foi feita e é positiva. Mas podia ir mais longe.
É amiga pessoal de Cavaco Silva e em alguns temas há consonância entre os dois. Como é que pensa gerir a relação com o Presidente da Republica?
(...) Eu até evito falar com ele.
Vai ter que falar com ele dos calendários eleitorais. O PS quer as europeias, as legislativas e as autárquicas separadas. Concorda?
Julgo que se houver legislativas e autárquicas em datas diferentes vai haver uma distância mínima entre as duas (cerca de 15 dias) e isso pode não ser fácil. Em nome do País admito que seja melhor não pedir datas diferentes, mas temos tempo para pensar o assunto.
Já tem nomes para as principais câmaras?
Ainda não. Mas penso ter tudo discutido até ao final do ano.
Santana Lopes e Fernando Seara são hipóteses para Lisboa?
Nunca falei com eles sobre isso e não vou falar disso agora.
Lê muitos jornais?
Claro que leio. Não todos, só alguns. E não vou dizer os que não leio.
Sanderson Beck, «The Ethics of Civilization». Na minha versão, são apenas 2.926 páginas. Mas dá para diminuir um bocado o corpo da letra.
Eu podia ter-te avisado. De uma mulher com «lábios romanos» nunca pode vir coisa boa.
Cada vez acredito mais que a melhor forma para uma pessoa descobrir se é ou não conservadora passa por aquilo que sente ao deparar-se com os novos projectos e obras arquitectónicas.
Se alguém (como eu, já agora e numa declaração de interesses) prefere o antigo Estoril-Sol - mesmo carregadinho de amianto como estava - às novas mega-torres de vidro espelhado com apartamentos a 1 milhão de contos (já todos vendidos ao que me disseram) é conservador. Se o mesmo alguém (como eu outra vez) abre o Público de hoje e estremece quando olha para a «antevisão» do prédio a erguer no Rato junto à Sinagoga, é conservador. E assim por diante de cada vez que o «progresso» me troca as voltas à memória. A História e as histórias, para mim, são geografia. E, por isso, reajo mal às mudanças dos lugares e pior ainda às grandes mudanças do espaço que me rodeia.
Admito que as minhas reacções advêm da defesa de um estilo de cidade que, eventualmente, morreu e já não pode resssucitar. Gosto das pequenas hortas à beira das estradas, dos jardins interiores invisíveis excepto para quem lá mora, dos prédios Valmor e de outros cuidadosamente reconstruídos, do «small (and old) is beautiful» enfim.
E no entanto, admiro a ruptura, a inovação e a capacidade simultaneamente criativa e utilitária na arquitectura. Mas passeio junto ao rio e não vejo isso em lado algum. Do Terreiro do Paço a Algés passando pelo Cais do Sodré, todos aqueles edifícios novos que vieram aumentar o nosso divórcio do Tejo conseguem apenas deixar-me entre o indiferente e o indignado. Não percebo nada da poda, dirão vocês com razão. Mas não era suposto, mesmo assim, sentir-me menos violentado com a cidade em que me vão encerrando?
«As perguntas que devem ser feitas à direcção da bancada socialista são as elementares: quem, como e porquê teve a ideia de fazer essa alteração à proposta deixada por João Cravinho. Responder-lhes com clareza era um bom princípio para quem se diz defensor da transparência e do Estado».
Paulo Ferreira, no Público.
No último mês o meu carro foi atacado quatro vezes. Duas por polícias e duas por ladrões. Os ladrões usaram os métodos antigos: fechadura forçada, interior vasculhado, uns cd's e uma caixa de bolachas desaparecidos. Nada de monta. Já os ataques dos polícias foram levados a cabo com métodos modernos. A velha multinha no pára-brisas já era: agora o que rende é rebocar logo o carro e depois logo se vê quais as letras pequeninas do código da estrada que estava a infringir.
Os polícias modernos deslocam-se num reboque dotado de um nariz especial que fareja os carros com o imposto de selo em dia, lavadinhos e com aspecto de pertencerem a um cidadão esforçado e cumpridor. Sai mais caro que os ladrões.
Alguém tem que pagar as dívidas da câmara municipal, é certo, mas agora que sei que ainda falta amortizar 50% proibi os meus filhos de sairem à rua. Não conheço o código para quem anda a pé e nunca se sabe que regras as crianças poderão violar. Sei é que, se me rebocam os filhos, fico sem dinheiro para ir de férias.
Baptista-Bastos, sobre António Borges, no DN
BRINCADEIRAS PERIGOSAS O
De dia para dia a minha rua empobrece. Os chineses há muito que partiram e deixaram as grandes lojas vazias. O restaurante razoável está transformado numa tasca. O cabeleireiro recentemente modernizado já só tem uma funcionária que mastiga pastilha elástica encostada à porta.
Todos os dias me espanto com a resistência de uma loja antiga que vende carpetes de linóleo, flores secas, chávenas de café em forma de concha com o interior dourado e espanadores de plumas cor-de-rosa. Sempre que desço a rua penso que é desta que fechou - afinal, de quantas carpetes de linóleo, espanadores de plumas cor-de-rosa e chávenas em forma de concha com o interior dourado precisamos ao longo da vida?. Mas não, lá está a porta aberta e a velhota sorridente no meio dos rolos de linóleo. Tem que haver uma explicação. Decido-me a investir num espanador.
- A verdade é que já há muitos meses que não recebo o ordenado - explica a velhinha - Não era grande coisa, mas sempre ajudava à reforma...
- E a senhora continua a vir trabalhar?
- Que quer que faça, minha filha? Que me feche em casa? Ao menos, aqui, sempre estou distraída...
O João Moutinho faz hoje a capa dos principais jornais desportivos (e não só) com a afirmação "quero sair". Fiquei chocado. Achei sempre que Moutinho era dos poucos jogadores que no Sporting dos últimos anos primava pela diferença. Preferia jogar a falar. Parecia até ser sensato, o miúdo. Chegou cedo a capitão de equipa, depois de três temporadas seguidas a jogar a titular. Fez as maravilhas de Peseiro, que o lançou, e de Paulo Bento, que nunca prescindiu dele.
Pela sua atitude e pela forma como parecia um primus inter pares é que me custa vê-lo igual a tantos outros. Que só quiseram usar o Sporting Clube de Portugal como trampolim. Aceito que um dia tivesse que sair. Mas não assim, a querer deixar um clube como o nosso para ir para o Everton, que há anos deixou de ser dos principais clubes ingleses. Ele é o capitão, é o segundo jogador mais bem pago do clube (a seguir a Liedson) e tinha muito pela frente. Com estas atitudes irá tão longe como os que foram e um dia pagam para voltar. Espero estar muito enganado. Agora, vamos a isto, temos que ganhar o primeiro derby do ano. Mesmo a feijões. É já a seguir.
Ao ler o Expresso Online, confesso que o que me chamou mais à atenção não foi a entrevista mensal que Manuela Ferreira Leite concede à edição impressa do semanário, mas sim uma sessão fotográfica com Maria de Belém Roseira, antiga ministra da Saúde do Governo de António Guterres e actual deputada do PS. Com o título, "Maria de Belém: a diva" e o antetítulo "Modelo fotográfico por um dia", a dita sessão inclui um vídeo que é apresentado desta maneira pelo jornal: "prestes a alcançar os 59 anos Maria de Belém Roseira encarnou uma diva dos anos 50 e demonstrou perante a objectiva do fotógrafo Mário Galiano o charme da sua geração". Definitivamente, a imprensa de referência já não é o que era e, hoje, há múltiplas formas de captar a atenção dos leitores, como esta, que nada tem de ilegítimo. Mas lanço uma pergunta: e se a ex-governante em causa não fosse da esquerda caviar, mas sim de centro-direita? Se fosse Teresa Patrício Gouveia, Leonor Beleza ou Isabel Mota, todas elas mulheres cheias de charme, só que mais "às direitas, seria tão bem tolerada esta ousadia? Acho que não. E tendo a concordar com Paulo Portas, quando diz que "não ser de esquerda obriga ao dobro do trabalho e da tenacidade". Começo a achar que ele, apesar de ultrapassado e com uma fórmula gasta, ainda diz umas coisas acertadas. Mas poucas.
Isto é embaraçoso. Não sou ferreira-leitista, mas até parece. À medida que o tempo passa e se vai acentuando este braço de ferro entre os que supostamente marcam o estilo e o ritmo da agenda mediática e M.F.L., a minha admiração por ela aumenta.
As pressões para falar, agir e aparecer a propósito de tudo e de nada são imensas. Mas ela, agindo de acordo com o que sempre pensou acerca do foguetório que anima a política quotidiana em rigorosa articulação com os interesses dos media, não se demove.
Questionada pelo Expresso sobre este assunto em entrevista publicada na edição de ontem, explicou, mais uma vez, que falará quando assim o entender, de acordo como seu timing, frisando que não é do seu estilo pronunciar-se sobre dossiers que não conhece profundamente.
Posso não concordar com algumas das suas ideias políticas - que ao contrário do que se tem escrito para aí, são conhecidas na sua essência - mas esta atitude só pode despertar a minha simpatia.
Paradoxalmente, a sua antipática negação à exposição mediática e a obstinação em permanecer na política igual a si própria (mais uma vez sublinhou que não quer assessores de imagem para nada) revela-me uma mulher cuja autenticidade só me pode ser simpática. Até porque neste seu desejo de transparência e seriedade julgo vislumbrar - passe a presunção - um pouco de ingenuidade. É que "ser diferente" em política só resulta se for de marketing que estivermos a falar.
Evangelho segundo São Mateus 13, 44-46
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo. O reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola. O reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes. Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos e o que não presta deitam-no fora. Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. Entendestes tudo isto?» Eles responderam-Lhe: «Entendemos». Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».
Da Bíblia Sagrada
José Sá Fernandes, cabeça de lista do Bloco de Esquerda nas intercalares de 2007 em Lisboa, vai integrar a lista do PS às autárquicas do próximo ano.
Do meu recanto de férias fico a saber que a Embraer vai construir duas fábricas de componentes de aviões em Évora, num investimento que representa 148 milhões de euros e 500 empregos. À parte o carácter positivo da notícia, acho que a forma como a coisa foi apresentada na televisão pública soou um pouco a propaganda, com alusões desnecessárias ao plano tecnológico e à pujança empresarial inexistente neste país. Tirando isso, gostei de ver o excerto da entrevista a José Sócrates e a Lula da Silva, conduzida pelo eficiente Sérgio Figueiredo, que é simultaneamente apresentador do programa semanal "Negócios à Parte", do canal público RTP2, e administrador da Fundação EDP. Por momentos, Sócrates revelou uma faceta de homem público genuíno e convincente que consegue também fazer negócios para além do triunvirato Venezuela-Angola-Líbia. Já não era sem tempo...
O GRANDE ELIAS
(1950)
Realizador: Arthur Duarte
Principais intérpretes: António Silva, Milu, Ribeirinho, Cremilda de Oliveira, Maria Olguim, Estêvão Amarante
Uma divertidíssima película de Arthur Duarte, que mantém o espírito anteriormente revelado em O Costa do Castelo (1943) e O Leão da Estrela (1947). Ribeirinho, um dos mestres da comédia portuguesa, está no seu melhor neste filme injustamente menosprezado que nos oferece também a rara oportunidade de apreciarmos a actuação de Amarante, uma figura quase mítica do nosso teatro. A cena do combate de boxe merece figurar em qualquer antologia do cinema português, tal como as sequências do jardim zoológico n' A Canção de Lisboa e o monólogo de Vasco Santana com o candeeiro n' O Pátio das Cantigas. E atenção ao momento musical protagonizado por Milu e Ribeirinho: muito anos depois esta canção voltaria a popularizar-se numa versão de Manuel João Vieira.
Desta vez, a escolha deste vosso cronista era entre a corrida de touros comemorativa do aniversário da revista VIP e uma tourada bem maior. Ou circo, vai-se a ver foi mais isso. Só para terem uma ideia de como tudo se passou, a apresentação funcionou a dois tempos. No primeiro, em jeito de conferência de imprensa, cada jornalista tinha direito a fazer uma pergunta ao inspector coordenador aposentado Gonçalo Amaral. Como era provavelmente o único presente que se estava marimbando para as respostas, fui comprovando como as nossas jornalistas, com claro destaque para a representante desta casa Inês Bastos, eram muito mais giraças do que as “bifas” dos tablóides britânicos, mal bronzeadas não por culpa do sol algarvio.
Publicado hoje no DN mas não disponível online.
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