Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Alberto João Jardim desiludiu-me: esperava sinceramente que o Grande Líder madeirense aproveitasse mais uma festa do Chão da Lagoa - que nenhum presidente nacional do PSD visita desde 2000, não vá aquilo ser contagioso - para soltar enfim o grito do Ipiranga, quebrando as últimas amarras do Funchal ao jugo colonial de Lisboa. Nada disso aconteceu: Jardim limitou-se às arengas do costume, que já não aquecem nem arrefecem, perdendo assim uma excelente oportunidade para se declarar imperador da Madeira e seus domínios (Porto Santo, Desertas e Selvagens) e desperdiçando também a perspectiva de uma presença autónoma do arquipélago no próximo Mundial de Futebol. Só para nos vermos livres dele, até lhe cedíamos o Cristiano Ronaldo sem regatear...
O prato forte desta edição da Lux é a putativa aproximação entre dois jornalistas da SIC que a revista identifica depois de tê-los fotografado sem autorização numa discoteca. O texto que acompanha as fotos é digno de antologia: "A Lux pôde testemunhar o grande à-vontade e a enorme cumplicidade entre os dois. Embalados pelos ritmos quentes, A e B [a revista publica os nomes] não se coibiram de trocar beijos e carícias, dançando de forma sensual, com as mãos entrelaçadas." Depois, "já na zona dos poufs, onde se sentaram confortavelmente, [A e B] mantiveram-se afastados mas continuaram a conversar, trocando sorrisos amistosos". Lá ficaram até às 5 da manhã "e nem o cansaço de um dia de trabalho conseguiu ser mais forte do que a atracção que os aproximou naquela noite".
Adepta do rigor, a Lux dá voz ao médico "que fez a cirurgia do aumento mamário" a uma tal de Sara Aleixo, presumível actriz. Segue a transcrição na íntegra deste esclarecimento clínico, com a devida vénia do Corta-Fitas: "Contrariamente ao que Sara Aleixo disse à Lux, a cirurgia de aumento mamário a que se submeteu - na Clínica Faccia, em Campolide - foi executada com sedação e anestesia local e não com anestesia geral, e teve a duração aproximada de uma hora. Na mesma entrevista, a actriz referiu ainda: 'Colocaram-me a bolsa de silicone através de um corte no mamilo.' Mas o médico, António de Oliveira Nunes, corrige: 'Não se trata de uma bolsa, mas de um implante de silicone - unidade de gel coesivo - e, neste caso, introduzido por via periareolar'."
O mundo é cor-de-rosa visto nas páginas da Lux. "Dois meses depois de ter sido mãe pela primeira vez, Catarina Furtado continua a amamentar a filha", Maria Beatriz. A mãe da apresentadora televisiva, avó babada, segreda à revista: "[A bebé] já reconhece as vozes e sorri muito no banho." Mais enternecedor só o "momento de grande felicidade" que Piet-Hein Bakker está a viver ao lado da última (e grávida) namorada, Patrícia Silva. Isto depois de se divorciar de Alexandra Lencastre e de sucessivos affaires com Teresa Caeiro e Inês Barros, "colega de Patrícia", que é "a segunda namorada de Piet-Hein dentro da Endemol", de acordo com a contabilidade da Lux. Tudo bem diferente do tempo - já recuado - em que Maria João Lopo de Carvalho sofreu o primeiro desgosto de amor, com apenas 15 anos. O relato vem na primeira pessoa: "Ele acabou tudo comigo quando eu lhe contei que tinha dançado um slow com outro rapaz. Sofri imenso e até pus a hipótese de suicídio..." Como diz Júlia Pinheiro no consultório sentimental da última página, "muitas mulheres vivem mergulhadas num pântano de agitação".
Esta semana voltei a comprar a Lux: nada melhor para sacudir o tédio. Ainda bem que o fiz: a revista do grupo Media Capital é um poço de revelações. Fiquei a saber que a escritora light Maria João Lopo de Carvalho, "assessora da Direcção Municipal da Cultura da Câmara de Lisboa", está neste momento "muito tranquila a nível emocional". A actriz americana Kate Bosworth "é apaixonada por cavalos mas para lhe fazer companhia tem dois gatos, Louis e Dusty, e uma cadela chamada Lila". E Manuela Moura Guedes embarcou de férias para a Malásia com a intenção de ver "os famosos macacos narigudos, cuja imagem até tem no seu telemóvel", como assinala a Lux. "Espero não me apaixonar por nenhum, senão fico lá", confidenciou a jornalista, minutos antes de entrar no avião. Desconhece-se a reacção do marido, José Eduardo Moniz, que embarcou no mesmo voo.
Já me tinha acontecido de quase tudo. No cinema, por exemplo. Ou num velório. Ou até no funeral do pai de um deputado socialista. "Estou agora mesmo a enterrar o meu pai. Ligue-me um pouco mais tarde, se não lhe fizer diferença", pediu-me ele, num sussurro. Deixando-me com um incómodo peso na consciência, como se eu tivesse podido adivinhar.
Estranhos e loucos dias esses, em que o mundo dos meus pais desabava para sempre, e em que a minha ligação à música se cingia à transmitida pela telefonia. A toda a hora esta papagueava Fernando dos Abba, a Bohemian Rhapsody dos Queen, Fly, Robin, Fly, dos Silver Convention entre tantos outros super hits. Como alternativa, havia demasiada música de intervenção, e podia-se ouvir boa música, discos do princípio ao fim no programa “Dois Pontos” já não sei de qual emissora. Numa frequência FM ouvíamos as comunicações do COPCON, sempre actuante no “olho” da revolução, mas essa seria outra história.
Nessa época embrenhei-me e refugiei-me naquela música, com aquela delirante história, e com a voz única e inconfundível de Peter Gabriel. É que, num belo dia do início de Verão em 1976, na feira da ladra descobri uma bobine de fita magnética que servia num grande e velhíssimo gravador existente lá de casa. Nessa bobine (a única que eu tinha) com uns cabos emprestados, em casa de uns amigos consegui fazer uma “gravação directa” do álbum in-tei-ri-nho!
No passado mês de Maio assisti pelo segundo ano consecutivo à performance dos “Musical Box” que repõe em palco todo o lendário espectáculo que é o The Lamb Lies Down On Broadway ao vivo, com uma minúcia e arte admiráveis. Tratando-se esta de uma música tão complexa quanto “cerebral”, a sua interpretação por outros protagonistas é bastante plausível, bastando para tal que estes sejam musical e tecnicamente evoluídos. Nesse espectáculo na Aula Magna confirmei e esclareci muitas das minhas fantasias no que refere ao mítico espectáculo do Dramático de Cascais que nunca assisti. Afinal com a vantagem de não estar pedradíssimo e esmagado com as pernas para o ar no meio de 10 mil loucos eufóricos que não sabiam ao que iam. E o meu prazer e consolação foram enormes, numa poltrona da Aula Magna.
“Maria João Pires lanzarotou-se.”
Lá revi A Sombra do Caçador ontem à noite. A cópia não me pareceu nas melhores condições, o que acontece com excessiva frequência na Cinemateca, e a exígua Sala Luís de Pina está longe de ser a mais recomendável para exibir uma obra-prima do cinema. Mas a deslumbrante película de Charles Laughton resiste bem a estas pequenas adversidades logísticas. Com Robert Mitchum na perfeita encarnação do Mal e Lillian Gish - que foi a primeira estrela do cinema - a servir-lhe de contraponto. Há um sopro bíblico neste singular filme negro onde as crianças desempenham um papel central, numa espécie de celebração do triunfo da inocência. Com alusões ao Sermão da Montanha, talvez o mais belo texto de toda a Bíblia.
Algumas das personalidades que se reclamam da "equidistância" no actual conflito israelo-árabe fazem-me lembrar aqueles que nos anos 70 e 80 gritavam nas ruas europeias: "Nem NATO nem Pacto de Varsóvia." Como se pudesse haver equivalência moral e política entre sistemas democráticos e totalitários. Não tomar partido, em diferendos como este, equivale a apoiar quem tem menos razão. Cometem-se crimes de ambos os lados? Certamente que sim: toda a inocência se perde em tempo de guerra. Mas, tal como Pacheco Pereira aqui nos advertia a propósito das recentes teses revisionistas sobre a Guerra Civil de Espanha (1936-39), toda a equidistância é imoral quando está em causa um conflito entre a legitimidade democrática, ainda que musculada por uma questão de sobrevivência, e a pura lógica do terror que faz tábua-rasa de básicos princípios civilizacionais. Basta recordar como o Comité de Não-Intervenção, durante a Guerra Civil de Espanha, beneficiou objectivamente os rebeldes de Franco contra as legítimas autoridades de Madrid. Quando recusamos optar entre um mal maior e um mal menor, acabamos - mesmo sem querer - por fazer a pior das escolhas.
Estou chocado. Morreu hoje aos 79 anos o Maestro Jorge Machado de quem eu era amigo e admirador. Tocava piano no hotel Tivoli Lisboa há quase quarenta anos, coisa que considerava “um trabalho prazenteiro”. Quase sempre notava-se bem o prazer com que o que fazia.A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.