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Algumas ideias sobre escrita I (crónica)

por Corta-fitas, em 01.05.06
Num documentário televisivo sobre o pintor catalão Miquel Barceló, que vi no início dos anos 90, impressionou-me a resposta do artista a uma pergunta sobre as suas influências. O entrevistador estava intrigado com a fase “neo-expressionista alemã” do pintor e este explicou que a corrente alemã fora marcante no seu trabalho, mas que agora estava à procura de coisas novas. Cito de cor, mas lembro-me que Barceló terá dito qualquer coisa como “cada pintor faz a sua própria História da Arte”, para sublinhar que cada artista procura a sua voz original, absorve uma determinada tradição e prefere certas correntes, rejeitando outras. Num único percurso, condensa-se todo o passado, tal como o pintor o vê, além da busca pessoal.
Esta ideia ocorre-me sempre, ao ler certos textos que se publicam em Portugal sobre literatura e crítica literária, geralmente cheios de conceitos pouco claros e escritos em linguagem obscura, ao estilo do oráculo de Delfos.
Estão na moda teses que definem a literatura do futuro em termos de “isto não se pode fazer”, a “literatura é isto”, sendo que o “isto” é depois explicado de forma rebuscada e incompreensível. Nunca se menciona que a literatura serve para transmitir paixões, emoções, para dar prazer, para perturbar o leitor, para o fazer sair da complacência, para o tirar da inocência ou da ignorância, para mudar o mundo, se for caso disso, ou apenas para arrancar um sorriso ou uma risada, ou uma lágrima. O cerne não está na forma, mas no efeito.

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Algumas ideias sobre escrita II (crónica)

por Corta-fitas, em 01.05.06
Por definição, é impossível saber o que é a literatura do futuro, pois ela não está escrita. Pode estar na cabeça do autor, podemos até identificar qual é a “História de Arte” que cada escritor faz para si, mas este continua a ler, pensa e está sempre em mudança.
E as regras? Bem, as regras identificáveis são da literatura que já foi escrita, servem para destruir, para romper; podemos recuperar as que foram esquecidas, podemos esquecer as que foram recuperadas.
Um romance pode não ter história, mas que mal lhe fará ter uma? E mil estruturas possíveis, personagens assim ou assado, ritmos e tempos. Tema social, ou antes pelo contrário. Há quem diga que não se pode escrever cronologicamente. E se ao autor apetece escrever cronologicamente?
Na minha opinião, em Portugal, a técnica do romance é demasiado valorizada, as ideias e a eficácia desse romance são consideradas pouco importantes.
Numa entrevista ao DN, há um ano, o escritor António Lobo Antunes (o mais imitado dos escritores portugueses contemporâneos) dizia qualquer coisa como (e cito de cor, mais uma vez) “o escritor deve escrever contra aquilo de que gosta”. Interpretei a frase como a indicação de que se algum artista descobriu uma linguagem, ou um estilo, não faz sentido voltar a descobrir o que já foi descoberto. Aquele é um ponto de partida, um momento na História de Arte, que o novato em busca de territórios desconhecidos deve apenas levar em consideração, sem nunca tentar imitar.
A imitação é um espartilho, a perda da liberdade. Ou seja, a morte do artista.

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Na morte de Jean-François Revel

por Pedro Correia, em 01.05.06
O filósofo, politólogo e jornalista Jean-François Revel, agora falecido, teve o condão de ser um dos primeiros intelectuais franceses oriundos da esquerda a denunciar sem reservas mentais a "tentação totalitária" dos regimes ditos socialistas. Muito antes da queda do Muro de Berlim. Foi, além disso, um polemista temível, que nunca virou costas a um bom debate. "Todos os livros de Revel são penhascos suspensos. Ele é um panfletário e, portanto, a sua primeira necessidade é prender a atenção alheia", observou Mary McCarthy. Foi ainda um grande amigo de Portugal. Nas páginas da revista L'Express, que dirigiu, pronunciou-se em artigos contundentes contra os desvios extremistas da revolução portuguesa de 1975, declarando o seu apoio ao PS de Mário Soares contra a esquerda militar e o PCP de Cunhal. Como leitores, devemos-lhe livros tão estimulantes como Nem Marx Nem Jesus, A Tentação Totalitária, Como Terminam as Democracias e O Conhecimento Inútil. Todos primorosamente bem escritos, num permanente desafio à inteligência do leitor.

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Frases de Revel

por Pedro Correia, em 01.05.06
- "Desde há 50 anos, todas as vias, excepto a socialista, conduziram a sistemas mais ou menos socialistas."
- "A política só é a arte do futuro quando sabe ser, primeiro, a do presente."
- É um erro imaginar-se que o estalinismo é uma traição do leninismo. Nem Lenine, se não tivesse morrido, nem Trotski, se houvesse continuado no poder, teriam agido diferentemente de Estaline."
- "É mais fácil um país tornar-se uma potência nuclear do que uma sociedade de abundância."
(De Nem Marx Nem Jesus)


- "A falta suprema, em matéria de imprensa, não é defender opiniões - é fazê-lo não parecendo fazê-lo."
- "A democracia não pode viver sem a verdade, o totalitarismo não pode viver sem a mentira."
- "Seria muito instrutivo contar quantos autores de quem se pode dizer sem exagero que têm sangue na caneta foram recompensados com o Prémio Nobel da Literatura."
- "O homem normal só procura a verdade depois de ter esgotado todas as outras possibilidades."
(De O Conhecimento Inútil)

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Crise? Qual crise?

por Pedro Correia, em 01.05.06
Ontem - domingo, véspera de feriado - o centro de Lisboa, na zona do Marquês de Pombal, estava cheio de turistas. Mas à hora do almoço nenhum deles encontrou um só restaurante aberto. Se quisessem comer, restava-lhes entrar num hotel ou no Palácio Sottomayor, agora transformado em centro comercial. Se quisessem comprar um exemplar do El Pais, o melhor era mudar de ideias: não havia um só quiosque aberto. Se quisessem adquirir um vulgar recuerdo alfacinha, batiam com o nariz na porta: o "pequeno comércio" que tanto clama contra a má sorte de telejornal em telejornal, estava de portas fechadas. Ontem, feriado, repetiu-se o cenário. Felizmente o Sottomayor mantinha-se aberto, com empregados (só brasileiros...) a servir o público.
Fala-se muito em crise entre nós. Mas a maior de todas é esta: a crise da falta de iniciativa e da falta de vontade de trabalhar.

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Para o esquema dar lucro

por Corta-fitas, em 01.05.06
Na leitura diária de blogues, deparei com um post do obrigatório Blasfémias da autoria de João Miranda, sob título O Fabuloso Destino do Cidadão Estimulado. Não me pronuncio sobre as medidas governamentais em causa, pois não as conheço, mas parece que elas visam contribuir para o aumento da taxa de natalidade, que por ser demasiado baixa causará a prazo problemas económicos graves no País. Apesar do registo do autor me ter parecido sobretudo irónico, não deixa de assustar a frase em que João Miranda se interroga sobre o bom senso do Estado “estimular o nascimento de uma criança que constituirá um encargo para o Orçamento de Estado durante 20 anos”, ao mesmo tempo que estimula o “aparecimento de um credor [do Estado]”, quando o petiz começar a pagar contribuições, lá para 2026. E, logo a seguir, escreve-se a extraordinária ideia “para o esquema dar lucro...” e segue a argumentação. Ou seja, o Estado não deve tentar intervir num dos problemas mais sérios do País, na questão demográfica, porque para o “esquema dar lucro...” será preciso uma data de coisas complicadíssimas. Não estamos a falar da próxima geração de portugueses, de pessoas, estamos no mundo dos números. Não nascem criancinhas, mas contribuintes. Esta lógica, levada ao absurdo, acaba com escolas e hospitais públicos, com a ópera e, já agora, com toda a cultura, porque para “o esquema dar lucro...”.

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Corta-fitas

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