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Teoria do karaoke

Em dois episódios anteriores, fragmentos do capítulo 18 desta saga, contei como Alcibíades, o cronista contemporâneo, se apaixonou por Vanda, a mulher-verde, enquanto Adolfo Ernesto, personagem central deste folhetim, vestia um fato de Elvis, para abrilhantar o karaoke do Atheneu. Também houve uma longa digressão sobre o karaoke como metáfora da era da espuma...

 

“Dizia eu”, continuou Alcibíades, “que vivemos num tempo que valoriza a técnica em prejuízo do conteúdo”.

“Permita-me”, interrompi, “mas o mestre estava a falar de Vanda, a mulher-verde, e da forma como Adolfo Ernesto interpretou Elvis no karaoke do Atheneu”.

“Tem razão, senhor Naves. E já lhe tinha dito que, depois, chegou a polícia, atraída por um horrível denunciante, convocada por um bufo pidesco, um ser indescritível e pestífero, que se queixara do barulho ao piquete da esquadra”.

Fiquei em silêncio; tentava reflectir. Era a única explicação: já escrevi ali atrás (creio que no segundo fragmento deste capítulo 18, que já deve ir duzentos posts mais abaixo), que sou vizinho do Atheneu. O meu quarto orienta-se para o majestoso edifício e, por vezes, ouço o barulho dos concertos, o que deveras me incomoda, provocando prolongadas insónias; embora não tanto como naquela noite me incomodou a desafinação do karaoke. Ou seja, eu próprio chamei a polícia, pois o barulho era atroz e já passava da meia-noite.

“Se eu apanhasse o denunciante, senhor Naves, nem sei o que lhe fazia”, prosseguiu o grande cronista. “Eu estava mais ou menos orientado com a Vanda, que apreciara os meus conhecimentos sobre ficção científica; falámos de Asimov e de Van Vogt, de Heinlein e K. Dick, enquanto o Adolfo Ernesto interpretava Elvis no palco”.

Sim, agora lembrava-me; foi exactamente uma berrata de um imitador de Elvis que me levou a convocar a acção policial (chamei os agentes na qualidade de cidadão, voltaria a fazê-lo, mas não podia confessar a verdade ali, na biblioteca de alguém que parecia tão ofendido com a minha denúncia). Enquanto Alcibíades falava, eu lembrava o tumulto que se seguiu à violenta carga policial. Fugiam pessoas do Atheneu, num pânico, enquanto lá dentro os agentes distribuíam pancada,

“Os polícias atacaram o Adolfo Ernesto com tudo o que tinham”, explicava Alcibíades.

Entretanto, eu tentava reflectir sobre o que podia ou não confessar daquela noite em que também participara de forma indirecta.

O cronista prosseguia a sua narrativa: “O nosso Adolfo Ernesto defendeu-se bem, apesar do dó lhe fugir ligeiramente para fá sustenido. Seguiram-se cenas de rara violência, senhor Naves. Elvis foi levado em ombros pela polícia de choque, um triunfo, enquanto eu e a Vanda fugíamos pela janela das traseiras. E foi então que se deu a tragédia. Compreenda que a mulher-verde, a minha doce Vanda, usava aquele creme que lhe recriava uma pele extra-terrestre e eu, que já havia saltado a janela, disse-lhe que saltasse também, que o seu amigo Alcibíades era suficientemente forte para a segurar cá embaixo”.

Alcibíades, visivelmente transtornado, descrevia a cena, com largos gestos, revivia cada momento, pormenorizadamente. E prosseguiu:

“’Salta, filha, salta’ gritei, e ela arriscou o salto, e quando a tentei agarrar, o creme era deslizante e aquele corpo sublime fugiu-me da mão como uma enguia. E a Vanda estatelou-se no pavimento, passando por entre os meus dedos subitamente besuntados de creme escorregadio. Ela não se magoara, excepto no ego. Felizmente, as mulheres têm aqueles traseiros mais largos, que facilitam a aterragem; foi uma sorte no meio do azar. Mas olhou-me como quem fuzila um delator. Eu traíra a confiança que ela depositara na minha força. De súbito, era apenas um anónimo-incompetente-potencial-amante-descartado-do-baralho, a condição mais trágica do Homem. Vanda ergueu-se, tentou compor o seu vestidinho mimoso e largou-me um olhar de desprezo que ainda hoje me dói. Nunca mais a vi”..

Alcibíades, o grande cronista, não dissera a palavra fim, mas percebi que a história acabara. E, no entanto, num impulso furioso, ele concluiu ainda, numa voz tempestuosa: “Se ao menos pudesse deitar as minhas mãos ao pescoço do denunciante que chamou a polícia, os dedos não me iriam escorregar desta vez”. E, num gesto dramático, estrangulou na atmosfera um pescoço imaginário.

Era altura de me despedir, pensei. Já tinha o testemunho para a saga. Acenei e saí da caverna meditabunda do bom gigante.

 

Aqui termina o capítulo 18, para grande alívio dos leitores do Corta-Fitas. O folhetim, esse, continuará, até à rendição final do autor.

 



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