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Jardins da fortuna

por João Távora, em 09.04.08

O Parque do Alvito tinha tudo para eu ser feliz, dos baloiços ao avião, da piscina à verdejante mata. Claro que conheci outros jardins onde espraiar tantas ganas de aventura e descoberta. Desde logo, recordo o jardim Maria da Fonte, ou "das rãs" como lhe chamávamos em família, logo ao pé de casa em Campo d’Ourique. Mas este era pouco interessante para a criançada, pois sendo plano não havia espaço para jogar à bola e não tinha baloiços. Ocupando apenas um quarteirão do bairro, limitava-se a ser um dos raros possíveis pontos de passagem em diagonal nas redondezas. Mais divertido e relativamente perto de casa era o Jardim da Estrela, meu jardim predilecto da infância até ao Liceu. Calcorreei-o meia vida, a passo e a correr, a pé ou de bicicleta, com os meus irmãos, primos ou com os colegas da escola. Nos bancos de madeira, feitos balizas, jogávamos um para um, dois para dois, com bolas furadas ou feitas de trapos. O Miradouro, ali para os lados da Rua de Sto Amaro, era um ponto obrigatório, encosta íngreme que escalávamos abaixo e acima qual Canyon, a brincar aos índios e cobóis. De volta ao local, as suas modestas proporções destoam chocantemente com as da minha memória. E como eu gostava de me imaginar, ali junto ao marco geodésico, um omnipotente herói, dono do jardim, senhor da cidade e do meu mundo. Com sorte tinha uma moeda de cinco tostões para comprar uns tremoços ou pevides da velhota de xaile e de mãos encarquilhadas ali no portão de frente prá Basílica.
O Jardim Zoológico acontecia-nos pelo menos uma vez por ano, no Sábado de Aleluia. Lá íamos então os cinco irmãos todos em romaria, com os primos e algum tio de circunstância. Esta era uma inusitada tradição, iniciativa da minha Avó materna - empreitada certamente legitimada como derradeira penitência a poucas horas das Celebrações Pascais. A aventura incluía uma moeda para o elefante, um pacote de amendoins para partilhar com a macacada, um gelado Rajá e, com a Primavera a despontar, umas azedas tenrinhas para mascar. Um dia em cheio; e uma tradição que ainda hoje tentamos manter, reunindo as crianças da família que aderem delirantes.

Voltando ao parque do Alvito... essa aventura acontecia ocasionalmente nas férias grandes de antigamente, intermináveis e insanas num terceiro andar de Lisboa. Então a minha mãe, do alto do seu metro e meio de mulher, corajosa e benevolente, fazia-se à aventura com as cinco endiabradas criancinhas e uma cesta de piquenique com sanduíches para todos. Nós, os mais velhos, tínhamos autorização para chapinharmos nas piscinas imundas e apinhadas de garotagem em histeria colectiva. Enquanto isso, a minha mãe tricotava e vigiava à distância, perto dos baloiços, com as minhas irmãs mais pequenas. Exaustos, ainda acabávamos a tarde a conduzir um eléctrico, um carro de bombeiros ou voando pela imaginação no esplêndido bimotor cravado ao solo - pendurados nas asas, que o odor emanado da cabine abafada era repelente. Como alternativa, por meio da mata verdejante, ainda nos entretínhamos na perseguição de algum insecto ou bicharoco, quais Dr. Livingstones à descoberta da natureza inexplorada.

Outros jardins me aconteceram dos quais guardo gratas recordações: o jardim “Salazar”, junto à residência do primeiro ministro, e o Jardim da Burra, à esquerda da Basílica da Estrela. Estes eram locais predilectos para ocasionais e clandestinas jogatanas de bola, ou apenas para furtivos encontros da rapaziada rebelde.
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