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Semana Santa

por João Távora, em 19.03.08
Em direcção ao escritório, no meio do transito implacável, oiço as notícias do mundo em ebulição. A chuva bate forte sob as nuvens pesadas e tristes. A guerra, a governança, a bola, a economia, reverberam nos altifalantes do rádio enquanto o país que se prepara para alvorar pró Algarve, pró Brasil ou simplesmente prá “terra” nestas mini-férias de Páscoa. A minha terra é Lisboa e eu ficarei por cá.
Então vem-me à memória um tempo em que, na família e no bairro, vivia-se uma Páscoa cristã. Pondo-me a pensar melhor, se calhar isso era apenas uma ilusão minha, provocada pelo o ambiente familiar que reflectia uma certa sobriedade própria da  Semana Santa. Em minha casa ou nos meus avós, os rituais preparatórios da grande celebração cristã marcavam aqueles dias, e o melhor que podia acontecer naquele tristonho início de férias, era uma futebolada com os colegas da catequese no adro da igreja, entre uma manhã de Retiro espiritual e a Celebração Penitencial. A televisão e a rádio também espelhavam aquele tempo de recolhimento, com muita música clássica, longas metragens bíblicas ou alguma série histórica. À Sexta-feira nem publicidade passava.
Com isto não quero dizer que nutra particular saudade por essa época, ou que tais modos políticos fossem especialmente virtuosos, antes pelo contrário. Reconheçamos que também não serviu para nada o facto de então todo o país ver teatro à segunda, cinema à quarta ou Nemésio ao Domingo. A incivilidade e o atraso cultural permanece aquilo que todos sabemos.
O que é facto é que hoje sinto falta de parar um pouco, de um pouco de silêncio... Que parasse por uns dias toda esta atordoante alienação sonora e visual em que sobrevivemos. Parece-me que há barulho a mais, propaganda a mais, correria a mais, um ambiente que condena os mais incautos à mais básica exterioridade. Nada predispõe ninguém a uma pacifica oração, meditação ou escuta interior. E é pelo coração que ouvimos, entendemos ou descobrimos o que demais importante a vida tem para nos revelar.
Para os cristãos é então tempo de parar, pois é para o coração que Jesus nos fala e assim nos redime. É pela nossa felicidade que um silêncio interior se torna urgente.



8 comentários

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De Anónimo a 19.03.2008 às 14:45

Há memória, mas a mim não me vem.
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De Anónimo a 19.03.2008 às 15:00

"Em direcção ao escritório, no meio do transito implacável, oiço as notícias do mundo em ebulição. A chuva é forte sob as nuvens pesadas e tristes".

Sim, senhor. Assim é que a Filipa Martins devia escrever, eh eh
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De cristina ribeiro a 19.03.2008 às 18:22

Ontem, quando vi o retrato que nos trouxe da actual Avenida 5 de Outubro, tive uma reacção um bocado parecida: que saudades da calma, do "sound of silence"...
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De Anonimo Campo d' Ouriquense a 19.03.2008 às 21:37

Caríssimo,

Bom post. Nem o Pároco nem o Peter Gabriel poderão dar por perdido o seu tempo. E ainda bem!

Forte abraço e boa quaresma,
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De Manuel Leão. a 19.03.2008 às 22:11

A mim, neste tempo de quaresma, o que me aperta o coração são as pessoas que lutam pela sobrevivência. Aquelas que, no fim deste mês, não vão ter o seu contrato a prazo renovado.
Aquelas que, sendo ou não cristãs - e eu sou - cada vez têm menos tempo para passar com os filhos, porque há patrões que não respeitam os horários de trabalho, mas que no discurso oficial, falam da família como coisa sagrada, que efectivamente é.
Daqueles que largaram todas as suas referências para lutar pela sobrevivência e são miseravelmente explorados por pessoas sem escrúpulos.

Daqueles que passaram quase duas décadas a estudar e têm de escamotear as suas verdadeiras habilitações, porque senão o fizerem não lhes dão emprego. Isto, num país em que os governantes dizem que os portugueses têm poucas habilitações. E até têm.
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A mim, neste tempo de quaresma, o que me aperta o coração são as pessoas que lutam pela sobrevivência. Aquelas que, no fim deste mês, não vão ter o seu contrato a prazo renovado. <BR>Aquelas que, sendo ou não cristãs - e eu sou - cada vez têm menos tempo para passar com os filhos, porque há patrões que não respeitam os horários de trabalho, mas que no discurso oficial, falam da família como coisa sagrada, que efectivamente é. <BR>Daqueles que largaram todas as suas referências para lutar pela sobrevivência e são miseravelmente explorados por pessoas sem escrúpulos. <BR><BR>Daqueles que passaram quase duas décadas a estudar e têm de escamotear as suas verdadeiras habilitações, porque senão o fizerem não lhes dão emprego. Isto, num país em que os governantes dizem que os portugueses têm poucas habilitações. E até têm. <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>Etc.</A> <BR><BR>Com esses e com outros em condições semelhantes, que vivem numa angústia crescente, dia após dia, eu estou solidário. <BR><BR>Para todos, mas principalmente para esses, Boa Páscoa.
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De Manuel Leão. a 19.03.2008 às 22:21

Qualquer coisa correu mal na recepção do meu comentário, mas dá para perceber o conteúdo.
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De João Távora a 19.03.2008 às 22:43

Caros Cristina Ribeiro e Manuel Leão: uma Páscoa feliz, são os meus votos sinceros.
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De cristina ribeiro a 19.03.2008 às 23:54

Que seja uma Santa Semana para si, João.
Obrigada ; desejo -lhe também, e aos seus, uma Páscoa feliz,.

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