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Cinema: nunca houve um ano assim

por Pedro Correia, em 29.02.08

Foi um ano mágico para Hollywood. A sisuda Greta Garbo soltou pela primeira vez umas sonoras gargalhadas em Ninotcha, de Ernst Lubitsch – um filme que passou logo a ser conhecido pelo slogan publicitário: “Garbo ri.” John Wayne protagonizava o “primeiro western adulto”, como lhe chamou Peter Bogdanovich – era Cavalgada Heróica. James Stewart ascendia ao estrelato num papel inesquecível em Peço a Palavra (Mr. Smith Goes to Washington), de Frank Capra, pelo qual a exigente Associação de Críticos de Nova Iorque lhe deu o prémio de melhor actor. O produtor David O. Selznick trouxe de Estocolmo uma actriz muito jovem e muito tímida, a quem os jornais, com aquelas fórmulas demasiado fáceis a que gostam de recorrer, não tardaram a chamar “nova Garbo”. À beira do fim do ano, o mesmo Selznick estreou aquilo a que os mesmíssimos jornais se apressaram a intitular “filme da década”: E Tudo o Vento Levou.

O ano era 1939 – não houve outro assim na meca do cinema. Um ano em que as obras-primas se sucediam numa vertiginosa sucessão de estreias. Foi o ano em que William Wyler – ainda com o dedo de Selznick – mostrou ao mundo que o universo romanesco de Emily Brontë era filmável, dirigindo Laurence Olivier e Merle Oberon em O Monte dos Vendavais. O ano em que George Cukor (que liderou as filmagens de E Tudo o Vento Levou antes se incompatibilizar com o protagonista, Clark Gable) rodou Mulheres, só com papéis femininos. O ano em que Bette Davis, ferida no seu amor-próprio por não ter sido escolhida para o papel de Scarlett O’Hara, rapou as sobrancelhas para protagonizar Isabel de Inglaterra, de Michael Curtiz. O ano em que Henry Fonda fez de Abraham Lincoln em A Grande Esperança, de Ford. O ano em que Humphrey Bogart se firmava definitivamente no cinema, ao lado de James Cagney, em Heróis Esquecidos, de Raoul Walsh. Um ano em cheio para Judy Garland, que passou De Braço Dado (Babes in Arms, de Busby Berkeley) com Mickey Rooney e foi visitar O Feiticeiro de Oz (de Victor Fleming, o realizador de E Tudo o Vento Levou).

Ford rodou o seu primeiro filme a cores (Ouvem-se Tambores ao Longe). Marlene Dietrich parodiou a personagem que a tornou célebre, a Lola d’ O Anjo Azul, num western genial – A Cidade Turbulenta, sob a direcção de George Marshall. George Stevens realizou um modelar filme de aventuras com Cary Grant e Douglas Fairbanks Jr – Gunga Din. Grant, grande isco de bilheteiras, protagonizou Paraíso Infernal, de Howard Hawks, contracenando com uma estreante chamada Rita Hayworth. A tal caloira sueca que afinal era superior à Garbo comoveu as plateias pela sua actuação em Intermezzo, de Gregory Ratoff. Carole Lombard casava com James Stewart em A Vida Começa Amanhã, de John Cromwell. E Bette Davis, recuperadas as sobreancelhas, fez chorar as pedras da calçada em Vitória Negra, de Edmund Goulding.

“Foi um ano extraordinariamente vigoroso para o cinema americano”; viria a sublinhar Bogdanovich, ele próprio nascido em 1939. A indústria cinematográfica americana estava no auge, a guerra desencadeada por Hitler ainda não ultrapassara o solo europeu, a máquina de sonhos estava bem oleada (nesse ano estrearam-se 476 filmes norte-americanos), estúdios como a MGM gabavam-se de ter mais estrelas sob contrato do que as existentes no firmamento. “Imaginem um realizador do calibre de Ford – mesmo que houvesse algum – hoje estrear três filmes por ano. E ninguém deu grande importância a isso nesses dias misericordiosamente naturais. Era apenas uma ‘missão cumprida’, como diria Ford.”

São ainda palavras de Bogdanovich, que nos lembra a forma como a chamada “imprensa de referência” ridicularizara um ano antes o filme As Duas Feras (Bringing Up Baby), de Hawks. O crítico do conspícuo New York Times chamou-lhe “fita tonta”, desaconselhando os espectadores de a verem por se tratar de “uma perda de tempo”. Foi preciso esperar duas décadas e o reconhecimento de respeitáveis críticos franceses como André Bazin e François Truffaut para que Hawks fosse enfim celebrado nos Estados Unidos como o grande autor que sempre foi e As Duas Feras ser enfim reconhecido em Nova Iorque como uma das mais geniais comédias de todos os tempos. Ninguém é profeta na sua terra...

Quantas obras-primas não passam hoje pelos nossos olhos sem estarmos preparados para as reconhecermos? E quantos críticos, munidos com arsenais de bolas pretas, chamarão hoje “fitas tontas” às obras-primas de amanhã?

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8 comentários

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De Mialgia de Esforço a 29.02.2008 às 21:42

Pedro,

Percebe agora porque é que a década de 30 é a melhor de sempre?
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De Mialgia de Esforço a 29.02.2008 às 21:46

... E ganhou a embalagem para os anos 40, a segunda melhor década de sempre.
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De Pedro Correia a 29.02.2008 às 22:01

Concordo consigo num ponto: os anos 40 foram a segunda melhor década de sempre do cinema. Quanto aos anos 50, seguirá a explicação no final da série que tenho vindo a publicar aqui, tipo cereja em cima do bolo.
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De Cristina Ribeiro a 29.02.2008 às 22:32

Quer deixar-me ainda mais deprimida do que já estava ao ter concluído que me falta ver tantos filmes da década de 50, é? É que acabo de saber que destes filmes todos de que fala, vi pouquíssimos...
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De Gabriel Silva a 29.02.2008 às 23:18

sim, 1939 é seguramente o melhor ano de sempre em termos de cinema. Boa posta.
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De Hugo Ramos Alves a 01.03.2008 às 01:17

Pois. Quando Hollywood ainda era, de facto, Hollywood e se permitia dar espaço aos realizadores para irem fazendo filmes pessoais de quando em vez, era assim (a frase não é minha. É, para não variar, do Jean-Marie Straub).

Confesso que a década de 60 ganha as minhas preferências: Nouvelle Vague e a consequente explosão dos cinemas ditos "novos" (à cabeça, o brasileiro e o alemão)...
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De boemundo a 01.03.2008 às 01:22

É um ano extraordinário, cheio de coisas extraodinárias. A mais intrigante delas é a aparente, e efémera, genialidade de Fleming. Não o descobridor da penicilina, o realizador.
Eu sei que foi Cukor que pegou primeiro no "E Tudo o Vento Levou". Toda a gente sabe que é um projecto acima de tudo do produtor David O. Selznick. Mas, caramba, o Fleming sempre realizou alguma coisa do épico, não?
E, no mesmo ano, "O Feiticeiro de Oz", também assinado por ele. Está bem, pronto, a linha de produção musical da MGM a funcionar. Mas, ainda assim, lá está o tipo como realizador de mais uma obra-prima (para mim), de mais uma marco fortíssimo na história de Hollywood, mais uma marca indelével no imaginário do século (para toda a gente).
Nunca percebi como é que o Victor Fleming, cineasta banal, conseguiu sacar este duplo passaporte para a imortalidade. Um contrato com Mefistófeles?
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De Pedro Correia a 01.03.2008 às 19:53

Também não, Boemundo. Até porque não voltou a fazer mais nada muito digno de realce, tanto quanto me lembro.

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