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Nada é mais difícil do que ser feliz

por Pedro Correia, em 21.01.07
E o mar vindo da primitiva solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão.
Ruy Belo, Boca Bilingue

LILITH, 1964. A voz da loucura pode tornar-se a voz da razão. Quando Vincent Bruce (Warren Beatty) chega a uma clínica para esquizofrénicos da Nova Inglaterra, como ajudante de enfermeiro, uma das internadas grita-lhe: "Vá-se embora daqui!" É um aviso cheio de carga premonitória. Aviso ignorado: Vincent, natural daquela vila cinzenta e chuvosa, desde pequeno sonhara perceber o que se passava para lá dos muros daquela instituição que alberga filhos desafortunados de gente rica. "Nunca fiz nada que valesse a pena", diz este antigo soldado, recém-chegado da tropa, onde foi ferido. Nunca saberemos ao certo a natureza deste ferimento, mas pressentimos que não lhe tocou só o corpo: também lhe atingiu a alma. Vicent conheceu a insanidade da guerra, que certa noite revisita através de imagens dramáticas na televisão. Faltava-lhe conhecer a insanidade do amor - e é isso que descobre ao encontrar Lilith Arthur (Jean Seberg), trágica protagonista deste filme sublime: Lilith e o Seu Destino - o último de Robert Rossen (1908-1966), falecido dois anos mais tarde, sem saber que a geração seguinte de críticos, desmentindo o juízo negativo inicial de publicações como a Variety, o elevaria ao estatuto de obra-prima.
Tudo começa com Beatty a avançar por um estreito caminho ladeado de choupos - como se apenas naquela alameda se jogasse o seu destino. Vêmo-lo de costas, à distância, na fabulosa fotografia a preto e branco de Eugene Schufftan. É também de costas que nos surge Jean Seberg: só à sexta vez lhe desvendamos enfim o rosto. Mas vale a pena tal espera: é um daqueles rostos que jamais apagamos da memória.
Vincent Brice sentiu o mesmo: Lilith surge-lhe como uma singular reminiscência da mãe, morta era ele criança. Pouco mais sabemos dela senão que sofreu também de distúrbios mentais - o que só reforça o paralelo com Seberg, a mulher que destrói aqueles que ama. Tão luminosa por fora, tão crepuscular por dentro. O Dr. Lavrier, o psiquiatra, compara-a a "um cristal que foi quebrado pelo choque de uma revelação insuportável". E acrescenta: pessoas como ela são por vezes "destruídas pela sua própria excelência". Quanto melhor, pior. A esquizofrenia de Lilith estará relacionada com o suicídio do irmão? As suspeitas adensam-se aos olhos de Vincent, quando a vê insinuar-se junto de rapazinhos de rua. Mas o rasto de morte que a persegue é mais um ponto de ligação entre ambos: ela perdeu o irmão, ele perdeu a mãe. "Costumas ouvir pessoas de quem gostas a chorar?", pergunta Jean. "Às vezes ouço a minha mãe", responde Warren. Quem sabe seja o que for sobre os abismos da mente?
Lilith - baseado no romance homónimo de J. R. Salamanca - é um filme lento, sincopado, feito de prolongados silêncios, intercalados pela memorável partitura de Kenyon Hopkins. É construído como as teias que surgem no fabuloso genérico de Elinor Bunin. E com planos fixos que nunca esqueceremos: os raios de sol reflectidos nas águas; Beatty a escutar, atento, o diálogo entre Lilith e Stephen Evshevsky (Peter Fonda) à beira das cataratas; as folhas de uma árvore rasgando o nevoeiro; a desoladora cozinha da desolada casa de Laura, a ex-namorada de Vincent, incapaz de perceber que para ela o tempo do "esplendor na relva" já passou.
Mas nada iguala os grandes planos destes dois protagonistas de um amor impossível. Nunca a beleza de Seberg foi tão evidente. E nunca a fragilidade desta beleza foi tão evidente também. "Ela faz-nos esquecer que é uma doente", confessa Vincent a Bea Brice (Kim Hunter), num dos raros momentos em que se torna capaz de uma confidência. Falta pouco para ele próprio se ver impelido a pedir auxílio. "Help me", suplica no magnífico plano final. Já Stephen se matara, também ele vítima do funesto amor de Lilith. E já ela mergulhara naquele estado catatónico, feito de sono e sonho, que transforma a vida em mero prelúdio de morte. "Ver a loucura nos homens aflige menos do que nas mulheres", dissera Bea a Vincent no primeiro dia. Nada mais certo.
No fundo, "a loucura talvez seja apenas infelicidade", admitira Stephen. E como se resvala para lá? Pela mais inesperada das vias: "A felicidade torna-nos descuidados", adverte também este doente, com mais sabedoria do que todos os médicos. Completa-se o ciclo: a voz da loucura pode tornar-se a voz da razão.

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5 comentários

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De Cartas de Londres a 22.01.2007 às 19:46

Caro PC,
Melhor do que as suas belas crónicas cinematográficas só mesmo (algumas d)as sinopses da Cinemateca nos anos 80 (depois não sei, tenho vivido à l'etranger...).
Parabéns!
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De Pedro Correia a 22.01.2007 às 18:01

Plágio? Qual plágio?
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De Anónimo a 22.01.2007 às 17:34

E o plágio?
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De Pedro Correia a 21.01.2007 às 23:26

"Lilith", de Robert Rossen (1964). Não exagero, Cristina: trata-se mesmo de uma obra-prima. Revi-a ontem, no Grande Auditório da Gulbenkian, integrada no ciclo de 50 grandes filmes para comemorar o meio século da fundação. Mas suponho que há já edição em DVD.
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De Cristina Ribeiro a 21.01.2007 às 23:19

Pedro,onde é que vê estes filmes?Na Cinemateca?Reposições(que não chegam cá...)?Em DVDs?
É que é a 1ªvez que oiço falar neste filme,cuja beleza conseguiu transmitir...

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