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Campo d’ Ourique

por João Távora, em 18.03.07
Campo d’ Ourique foi durante muitos anos o centro do meu mundo. Um mundo quadriculado e plano, bom para andar de bicicleta, com o melhor cinema de Lisboa, o Europa. Sempre me pareceu o bairro perfeito, onde morava parte da minha família, se circulava com relativa segurança e possuía a mais útil carreira de autocarro, a nº 9, directa para a Avenida da Liberdade e para o mundo. Cresci num terceiro andar, com a escola da câmara logo ali em baixo. O ruído da agitada reinação nos recreios da manhã ou da tarde inspiraram por certo a minha infância feliz.
Com uma família conservadora e os irmãos em casa, foi muitas vezes com os miúdos da rua que eu aprendi os mais fascinantes segredos da vida. No meio de jogos e correrias, de bicicleta ou com a bola nos pés. Ali ao lado da minha casa, ficava a Praça Afonso do Paço, um rectângulo inclinado com descampado ao meio, perfeito para o deslizar da minha reluzente bicicleta. Era ai que marcávamos o alcatrão com autódromos pintados a giz, nos quais nos debatíamos em corrida com os melhores e mais afinados modelos “matchbox” de cada um. A cada saída da pista, retornávamos a última meta atravessada. O primeiro a completar uma volta ganhava. Ao cair do sol de Setembro, mesmo antes de recolher a casa, ainda valia galgar o muro lá em baixo na encosta e trepar à copa da figueira para apanhar os últimos figos doces. E assim romper umas calças e esfolar um joelho.
Mais tarde, mais crescido, quantas vezes à saída da Escola Manuel da Maia, ainda roubávamos tempo e ao fundo da Coelho da Rocha parávamos para a futebolada da ordem. Marcadas as balizas com as mochilas, dois para dois com "guarda-redes avançado", esgalhávamos um animado desafio, que com sorte não terminava com os atletas em fuga depois de partido um vidro.
O nosso pesadelo morava ao lado, ali em baixo da rua Maria Pia. Os “índios” do Casal Ventoso permaneceram toda a vida uma ameaça constante, signicavam o fim da brincadeira, em fuga ou em lágrimas. Uma bola de futebol, mesmo de plástico de má qualidade, era um bem escasso que atraía demasiadas atenções. Os jogos eram disputados com "um olho no burro e o outro no cigano". Nem de longe imaginávamos então o protagonismo que esse malfadado bairro inevitavelmente tomou nas nossas existências.
A minha vida em Campo d’ Ourique também se jogava às escondidas ou à bola nos pátios e jardins da magnifica Igreja do Sto. Condestável. Isso acontecia a seguir à catequese, antes da missa vespertina ou quando de passagem para a Travessa do Patrocínio, a casa dos meus avós. Este omnipresente templo neo-gótico que se vislumbrava da minha janela (construído com a colaboração do meu avô José, engenheiro civil), foi o palco dos meus primeiros e íntimos passos de aprendizagem espiritual.
Depois Campo d’ Ourique também me lembrará sempre o Jardim Maria da Fonte (da Parada), ao qual lá em casa chamávamos o Jardim das Rãs. O Eduardo dos Livros onde se podia comprar um número atrasado do Diário de Notícias, trocar uns livros do Patinhas, comprar cromos mais difíceis ou até Valores Selados. E havia os esplêndidos bolos da Aloma. E a Laranjina C, mas isso já é outra história. De Campo d' Ourique foram os meus primeiros amores e foi a minha primeira namorada.
E havia a Compasso, loja onde se encontravam todos os discos, livros e artefactos que fariam a felicidade de qualquer pessoa. Eram longos os momentos de deliciosa cobiça que nos concediam na loja, a mim a ao meu irmão. Era assim que plenos de desejo e de bolsos invariavelmente vazios, folheávamos as últimas novidades da BD e pedíamos para rodarem um LP meticulosamente escolhido nos infindáveis escaparates da música.
Assim, foi em Campo d’ Ourique que eu cresci. Que me fiz rapaz, a bem e a mal. Que atravessei e palmilhei tantas vezes, tantos quilómetros. Para ir à escola, ao liceu, à praça e à farmácia, aos meus avós, à igreja. Para todo o lado e para o inferno também. Finalmente para mim prevalecerá sempre uma alegre recordação deste bairro burguês de toponímia republicana, mas afinal tão luminoso e desempoeirado, feito à medida das pessoas. Um sítio onde se pode ser feliz.
 
Fotografias daqui

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19 comentários

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De Anónimo a 24.03.2007 às 20:15

Descobri este blogue há pouco tempo. É uma delícia, farto-me de rir. Aqui há lugar para santos e para pecadores!
Quanto a Campo de Ourique:
A Compasso foi transformada num misto de loja chinesa/loja do preço certo
A Concorrente vende tralha, muita tralha a euro e meio
O Eduardo dos Livros já não é o que era. O que os salva são os totolotos e os Euromilhões.
O Canas tem preços especiais à hora de almoço
A Tentadora readmitiu um velho empregado que num ataque de fúria matou a namorada a sangue-frio perante o olhar impávido do filho desta. Ele vai preso, os amigos do balcão visitam-no, ele sai e volta a ter emprego. É a chamada reinserção social.
O Rei dos Bifes já ardeu não sei quantas vezes mas continua a funcionar.
O Ruacaná já nao serve de palco de encontro antes de noitadas mal planeadas
Os meninos do Manuel da Maia já não roubam desalmadamente os meninos dos Salesianos.
20 anos depois, continuo a adorar Campo de Ourique!
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De Anónimo a 19.03.2007 às 17:47

Solarengo?
Há por lá algum solar?
É que, para cheio de sol, a palavra é soalheiro, sabia?
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De Rui Castro a 19.03.2007 às 15:08

Grande post João. Com alguns anos a menos que o meu amigo, partilhei de alguns dos prazeres de que falou nos anos em que frequentei os Salesianos. É, de facto, um dos grandes bairros de Lisboa.
Abraço
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De Anónimo a 19.03.2007 às 14:54

Muito agradáveis de ler, estas memórias.
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De Cartas de Londres a 19.03.2007 às 13:36

Caro JT,

Os nossos pais é que (ainda) são vizinhos! Vivi em Campo d'Ourique (chez eux) até 1985 mas parti para o estrangeiro em 1991.
De momento, resido em Londres, hence assinar (no feminino) como "Cartas de Londres"...

Planeio voltar a viver em Lisboa, de preferência em Campo d'Ourique ;-)
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De João Távora a 19.03.2007 às 12:23

Obrigado pelos simpáticos comentários, especialmente do Cartas de Londres que pelos vistos é vizinho da casa dos meus pais.
Caro João: Lamento o seu azar e as más memórias que lhe traz este bairro. De resto Campo d’ Ourique não necessita de uma grande rede de transportes pois vai-se a pé para todo o lado, inclusivamente para os transportes públicos. De resto, tremo quando oiço falar de pais de jovens adolescentes que actualmente vivem nos subúrbios (como eu) e têm que ir buscar as crias ao cinema ou à estação do comboio às tantas da manhã. Isso não seria necessário em Campo d’ Ourique, mas há gostos para tudo e quem goste de morar nos subúrbios :-).
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De João Villalobos a 19.03.2007 às 11:00

Pois sim. Vivi um ano em Campo de Ourique e jurei para nunca mais. O carro foi assaltado 3 vezes, a casa uma, não podia sair à noite sob pena de não ter onde estacionar o carro quando voltasse e na Értilas discutia-se, como numa aldeia, as minhas obras na casa de banho. É mal servido de transportes públicos e não tem um bar de jeito. Assinado: O iconoclasta que habitou na Silva Carvalho e não passa por lá sem se rir.
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De Anónimo a 19.03.2007 às 10:43

Carissimo,

Obrigado. Bem Haja!

Forte abraço de um ex-morador da Luis Derouet esquina com a Almeida e Sousa

Hoje moro tout a proche da Miss Pearls. A Gente cresce e ... Mas a familia ainda lá está (Após 50 anos mudaram para um Predio na Sol ao Rato - Com elevador)...

Boa semana,
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De Anónimo a 19.03.2007 às 10:13

O melhor de tudo eram as criadas que havia em casa de cada um.
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De Anónimo a 19.03.2007 às 09:25

Caro JT o avô José não seria antes engenheiro de minas?

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