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As emoções básicas (crónica) III

por Luís Naves, em 16.06.07

No magnífico IX jantar do Corta-Fitas, ontem realizado, um dos tópicos de conversação foi a questão direita-esquerda. Embora nenhuma afirmação parecesse controversa, acho que este é um bom mote para uma crónica sobre a aversão entre as duas tribos.
As pessoas gostam de rótulos e por vezes fascinam-se demasiado com as ordens taxionómicas que inventam. Devia ter dito naquele jantar que não acredito na existência de divisões claras entre direita e esquerda, que isso já não serve para representar a realidade que nos rodeia e que apenas no passado encontramos a clivagem.
(mas sofro da síndroma da escada, que surge naquelas ocasiões embaraçosas e inesperadas, quando descemos a escada do prédio e encontramos um vizinho, primeiro o cumprimento mais ou menos afável, mas de súbito já vamos a descer o patamar, lembramo-nos de um assunto importante, o vizinho subiu um lanço de escadas e nós descemos dois, e ficamos a discutir o assunto a uma distância que nos obriga a gritar).
Os que se afirmam de esquerda são, tantas vezes, os mais conservadores.
(veja-se a recente polémica entre João Távora e Daniel Oliveira, neste blogue. O esquerdista escreveu que os monárquicos militantes são patéticos; sem notar que a sua posição, que impedia à partida qualquer discussão sobre o regime político, era ultra-conservadora).
A Europa mudou muito e por vezes parece-me que as pessoas não avaliam até que ponto isso é um facto. Uma das chaves para compreender esta realidade é a palavra convergência. Ela tem sido usada num aspecto algo limitado e burocrático: a convergência real dos rendimentos per capita medidos em paridades de poder de compra. Em resumo, as políticas europeias criaram um mercado único com liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais, visando obter um equilíbrio de rendimentos a nível europeu. Ao longo dos últimos 50 anos, a integração europeia criou um espaço de riqueza onde ocorreu também convergência real.
Dito assim, parece aborrecido. Mas a realidade é mais complexa. A convergência não é apenas de rendimento, mas verifica-se em quase todos os aspectos da sociedade: nos impostos, na mentalidade, na educação, nos sistemas de saúde, no trabalho, na microeconomia, na liberdade de imprensa, nos direitos dos cidadãos, e por aí fora.
(tudo por causa das salsichas)
A União Europeia
(a fábrica de salsichas)
produz dois terços da nossa legislação. Os parlamentos nacionais adoptam estas leis podendo alterar algumas dentro de certos parâmetros previstos no documento original; em certos casos, a adaptação é mínima. Este é um dos grandes segredos da UE, pois nenhum parlamento gosta de admitir que muito do que faz é adoptar o que outros fazem.
(a salsicha é apresentada como prato nacional; há quem ponha batatinhas, ou arrozinho, ou um fio de azeite, ou um bocadinho de massa; mas toda a gente come salsichas).
É por isto que tantos países querem aderir à União Europeia: ela fabrica as melhores leis do mundo.
Outro exemplo: ontem, ao escrever um artigo no meu jornal sobre um político belga, tive de mergulhar na complexidade da política belga.
O meu primeiro objectivo era perceber se o senhor era de direita ou de esquerda. À medida que li mais coisas, apercebi-me da complexidade da situação. Ele podia ser mais ou menos assimilado à direita (ou ao centro), mas poderia vir a integrar um governo de esquerda, pois era francófono e o partido flamengo da mesma cor perdera as eleições. Aquilo era mais parecido com questões clubísticas do que políticas. Para perceber as coligações belgas é necessário, no mínimo, tirar um mestrado em ciência política ou ser jornalista especializado em clubes de futebol. Mas a rotativa não podia esperar e eu lá escrevi o artigo, na minha ignorância, sem conseguir pôr um rótulo no senhor.
Acho que a convergência europeia, as políticas que todos têm de imitar (se não se imitar o vizinho, ficamos para trás na competição), mudaram muito este esquema simples da direita-esquerda, que nos era tão familiar e confortável.
A Europa é hoje um vasto espaço de classe média. Oito em cada dez europeus são pequeno-burgueses assumidos (como eu). Nas franjas, os muito ricos e os muito pobres. E só para eles há diferenças reais de política direita-esquerda. Para os ricos, a esquerda exige impostos acima de 50% e a direita abaixo de 50%. Em relação aos excluídos, o debate é se haverá caridade pública ou caridade privada. Pede-se, portanto, aos 80% do centro que votem e eles votam...no centro...que como toda a gente sabe, é um lugar que não existe.

A ilustração foi furtada na net e lamento a pirataria, mas é muito boa e não resisti



11 comentários

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De L. Rodrigues a 16.06.2007 às 22:30

Correndo o risco de já regressar tarde a este post, questiono simplesmente essa aparente dissolução de ideologias, escondidas atrás de um aparente pragmatismo económico que se apresenta como politicamente neutro e inevitável, mas que é tudo menos isso. É claro que é tão dominante que partidos de esquerda, o assumem como tal, inevitável, como se vê com Blair e Sócrates e outros por essa Europa. É esse consenso que a esquerda mais esclarecida combate, e que as pessoas de bem deviam combater... porque está por trás de muitos desconfortos da direita mais tradicional, democrata cristã, por exemplo.
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De GÊ OITO a 16.06.2007 às 20:50

Se bem me lembro, o adjectivo patético estava aplicado, no post de Daniel Oliveira, aos monárquicos que chamavam terrorista ao escritor Aquilino Ribeiro. Acho que patético peca por defeito.
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De Isabel Teixeira da Mota a 16.06.2007 às 18:22

Concordo, já não há pachorra para o debate esquerda-direita
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De Pedro Correia a 16.06.2007 às 14:58

Regresso dois dias depois ao blogue e deparo logo com este teu excelente 'post', Luís. Não há melhor maneira de voltar a casa.
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De Luis Naves a 16.06.2007 às 14:29

agradeço o seu comentário, daniel.
o que sublinhei foi a sua expressão (que irritou o joão) sobre os monárquicos militantes, que seriam patéticos. A sua formulação matou o debate à nascença. ao contrário do que sugere no seu comentário, acho legítimo e saudável discutir o regime, embora reconheça que nem todas as discussões interessantes sejam oportunas ou urgentes. o meu post era sobre a questão da esquerda e direita (se ainda existe ideologia e se isso faz sentido) e não sobre monarquia(devo acrescentar que não sou monárquico), portanto, ficarmos aqui os dois a gabar os méritos do sistema republicano não seria um verdadeiro debate. uma nota final: a última frase do seu comentário deve ser esquecida pelo júri, pois o plural não se aplica (não escrevo posts a quatro mãos) e o Calimero é uma personagem de ficção sem relação com este caso.
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De RB a 16.06.2007 às 14:27

Acho que já não faz sentido dizer-se "sou de esquerda ou de direita". Seria bem melhor se se olhasse problema a problema. Às vezes as melhores soluções vêm da esquerda e outras da direita
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De João Távora a 16.06.2007 às 14:10

Espero que tenha sido um óptimo jantar, e poder estar presente no próximo!
Quanto ao Daniel, coitadinho, lembro-o que se referiu aos monárquicos militantes como “patéticos” (um insulto bastante antipático aliás). A boa da civilidade não deverá funcionar nos DOIS SENTIDOS?
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De Daniel Oliveira a 16.06.2007 às 13:18

Adorei a objectividade da forma como descreveu o meu debate com João Távora. É que o único debate que tive com ele foi a responder a um amontoado de insultos. Nada tinha de político ou ideológico.

O post dele: "Mais patético que os Amigos de Olivença, só mesmo a arrogância do Sr. Oliveira a escrever as suas bacoradas (ou pior, quando as vai dizer para o mais frouxo e idiota programa de televisão existente). Ao pretender insultar o que ele apelida de “monárquicos militantes” definitivamente o homem não (se) enxerga. Um deles, cuja craveira intelectual e humana é inquestionavelmente superior à sua (o que, pelas provas conhecidas não é difícil) é o seu correligionário, o venerando arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. E ficamos por aqui para evitar mais melindres."

Que raio de debate queria em torno disto? Serei ultra-conservador por não me sentar com João Távora a trocar umas ideias sobre estas suas doutas palavras?

Note: são tudo opiniões legitimas. Mas não está concerteza à espera que eu faça um debate em torno disto. O debate, fi-lo no meu blogue com pessoas um pouco mais interessantes e igualmente indignadas com a minha posição. Por acaso, foi mais sobre Olivença, mas podia ser sobre a monarquia.

Pode achar que tenho uma posição ultra-conservadora. Mas não será concerteza tendo como referência a minha troca de palavras com João Távora. Aí, fui insultado e respondi ao insulto sem insultar e no fim diz aqui que eu sou intolerante. E isso sim, ao contrário do resto, ultrapassa as diferenças entre esquerda e direita que são imensas.

Terei oportunidade, se quiser, de lhe explicar porque não sou "esquerdista" (suponho que este tipo de expressões abrem imensas portas para um debate fecundo) e porque não acho que a monarquia seja sequer um debate no nosso país (nem tudo está sempre e a cada momento em debate).

Mas por favor tentemos manter a conversa interessante e não convide João Távora para ela. Quem quiser debater comigo a monarquia debate e eu, como saberá, discuto tudo a toda a hora e com toda a gente (não encontro acusação mais injusta do que a de estar fechado a uma discussão). Quem quer insultar, insulta. Tenho casca dura e aguento. Agora, por favor, não venham a seguir fazer o número do Calimero.
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De Luis Naves a 16.06.2007 às 13:15

agradeço os comentários. em relação à pergunta de l. rodrigues, é essencial responder com outra pergunta: a que ideologia se refere?
Não falei em tecnocracia asséptica e neutra. ficaria aqui muitos posts a tentar explicar, mas limito-me a dizer que pode haver em bruxelas pessoas com diferentes ideologias, mas não existe uma ideologia em bruxelas. aliás, no órgão mais importante, o conselho europeu, há 27 políticos com ideologias muito diferentes. Mas como estão em permanente negociação, o resultado de determinada decisão é uma combinação de posições, portanto um meio termo. nunca há decisões de esquerda ou de direita, mas algo que resulta de consensos muito complexos, algo que satisfaz minimamente todas as partes e que, não sendo neutro, não tem ideologia pura.
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De L. Rodrigues a 16.06.2007 às 12:35

E quem dita os destinos da União Europeia, como a Comissão e o Banco Central, não têm ideologia?
É tudo apenas uma tecnocracia asséptica e neutra? Assente em meros critérios de "eficiência"?

Dos muitos posts que li com gosto escritos por si, nunca o tinha tido por ingénuo, caro Luis Naves.

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