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A Ibéria e o povo sem qualidades

por Corta-fitas, em 21.11.06
Estamos à beira de mais uma cimeira luso-espanhola e parece boa ocasião para discutir o tema do iberismo. Ultimamente, surgiram debates, em blogues e jornais, sobre a eventual sensatez de Portugal se aproximar ainda mais da Espanha. Houve até uma sondagem significativa. E, pelo que li em artigos no El Pais, a ideia também agrada a certos círculos espanhóis.
É evidente que, para uma empresa, o acesso ao mercado ibérico só pode ser boa ideia. Comércio e aproximação cultural são vantajosos, mas a discussão costuma descambar numa outra, ligada ao post aqui em baixo, em que critiquei uma opinião de Maria Filomena Mónica (MFM) sobre os camponeses portugueses. As afirmações de MFM foram discutidas aqui e em vários blogues, mas a verdadeira discussão transformou-se depressa no seguinte tema: “O povo português tem qualidades?”
Para alguns leitores, pelo menos na nossa caixa de comentários, a resposta é que o povo português tem sobretudo defeitos. Muitas pessoas parecem ter aderido, pelo menos parcialmente, à tese de que o povo português é inculto, desconfiado, tacanho, subdesenvolvido. Este tipo de discurso é frequente, muito mais do que parece à primeira vista. Os portugueses são todos uma espécie de taxista-do-Aeroporto-de-Lisboa-a-levar-um-passageiro-até-ao-Marquês!
Em outro país, isto seria um verdadeiro absurdo, fácil de desmontar, mas a ideia está tão embutida nos espíritos que se torna difícil argumentar sem parecer ultra-nacionalista. A tese do povo sem qualidades é facilmente desmentida pela história, a forma como os portugueses emigraram, a riqueza da cultura popular, a tolerância a estrangeiros, a facilidade de adaptação a dificuldades.
Admito que o país ainda não tenha superado o trauma de ficar sem império, que historicamente tenha sido mais periférico em relação ao centro da cultura europeia, que tenha perdido vitalidade devido à emigração em massa. Mas daí a povo sem qualidades vai um abismo.
As noções da nossa inferioridade, ligadas a exemplos pouco sólidos e anedóticos, criam visões depressivas e, quando o país cai na depressão de uma crise económica, tudo nos parece impossível de sustentar. E o iberismo surge como a solução fácil. Acho que, pelo contrário, a afirmação da nossa identidade, a independência num quadro europeu, com forte ligação económica à vizinhança, são o óbvio destino português.
Quanto à Espanha (lá iremos noutro post) o iberismo trará desvantagens muito superiores às vantagens.



19 comentários

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De Lisa a 23.11.2006 às 02:22

Portugal vive entre dois extremos: a tristeza pura de se ser português, a euforia pura de se ser português. Entre o somos-os-piores-do-mundo e o somos-os-melhores-do-mundo. À distância nota-se mais. As euforias pontuais e as ressacas que se seguem. Provavelmente o problema está aí, no constante ir e vir. E nas infinitas análises que se fazem ao povo, ao país, à conjuntura, à estrutura. Não que seja contra as análises, que sem reflectir não se vai a lado nenhum. Só que são análises sem consequência. As (possíveis) soluções nunca chegam a ser aplicadas, por mais estudos e análises e estatísticas e debates e conclusões. Ao povo português não falta pensar, falta arregaçar as mangas, que dos impérios já ninguém vive. Como canta o SG, "o passado é um país distante."
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De luisnaves a 22.11.2006 às 09:37

foi uma interessante discussão. agradeço os vossos interessantíssimos comentários, padeiro, ergela, sofia, anónimo da redacção, ariel, manuel.
temos de fazer isto mais vezes...
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De Manuel Anastácio a 22.11.2006 às 01:46

É ridículo acreditar em retratos-tipo de qualquer povo. Se há algo que não tenha identidade é uma comunidade, ou se a tem, é tão volúvel que não serve de nada qualificá-la. Somos tão bons ou piores que os outros. Mas podemos querer. E, hoje em dia, aqui no burgo (ou na aldeia?) há falta de vontade.
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De ariel a 22.11.2006 às 00:02

Luis Naves, obrigada pela sua resposta.
Para ser franca não sei bem se não é a estrutura que influencia sistemáticamente a conjuntura... acho tão dificil separar uma da outra. Se existe autoflagelação, por alguma razão será, não estou a falar de inferioridade, que é outra coisa, não sou nada paridária da nossa suposta "inferioridade". Mas a verdade é que temos, a meu ver, defeitos graves, que sistemáticamente não resolvemos. Não podemos responsabilizar nada nem ninguem, senão a nossa incapacidade sistemática e em todos os regimes, em os resolver.
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De Anónimo a 22.11.2006 às 00:01

Caro Luis Naves
Quando ironicamente comparei o seu post a uma redacção da primária não me referia obviamente ao iberismo (tão em voga na 1ªrepública). Referia-me ao "choradinho" do bom- povo-português, pobrezinho mas honrado, cheio de virtudes morais e bons valores e que ao domingo dançava num rancho folclórico, daqueles inventados pela escritora Fernanda de Castro.
Não, meu caro Luis Naves. Filomena Mónica tem razão, esse povo nunca existiu. Esse povo também não foi o que embarcou nas caravelas. Foi o que ficou.
E são provavelmente os seus descendentes directos, com a mesma manha e oportunismo dos ascendentes, os mesmos que querem a união ibérica.
Cumprimentos

o-anónimo-da-redacção
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De Sofia Loureiro dos Santos a 21.11.2006 às 21:48

Luis: não timha lido o seu post, antes de comentar o teu comentário. Na súmula, estou de acordo e subscrevo a tua última frase.
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De Padeiro de Serviço a 21.11.2006 às 21:03

Concordo consigo luisnaves! É preciso separar a conjutura actual da sociedade portuguesa do povo português.

É engraçado que aqui em Portugal o "ego" e auto-estima andam abaixo de zero, enquanto que ali no país vizinho anda bem alto...sempre!! Diria mais...anda sempre a 120%!!

É certo que o português é "chico-esperto" e tem infinitos defeitos, mas o que é preciso, para além de identificar esses defeitos, é corrigir os mesmos e melhorar a situação!! Mas para isso temos TODOS de nos "corrigir"!!
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De luisnaves a 21.11.2006 às 19:22

claro, Ariel, estes problemas existem, mas são defeitos da sociedade portuguesa actual, não do povo português. É a diferença entre a conjuntura e a estrutura. A nossa cultura tem mil anos, a língua é falada por 200 milhões. Mas criou-se um tal mito sobre a nossa inferioridade...Vejam como é difícil argumentar seriamente sobre isto. O anonymous estudante faz uma "sondagem" entre colegas, mas aposto que se embrulhou numa bandeira durante a final do campeonato de futebol. Concordo com Ergela, existe uma autoflagelação que ninguém (sublinho, ninguém) na Europa usa. E o anonymous da redacção, está tão certo que o que escrevo é balela que desvaloriza logo... Temos uma péssima autoestima, é certo, mas isso é o que nos tentam colocar dentro da cabeça, é preciso resistir...
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De ariel a 21.11.2006 às 17:31

Caro Luis Naves, acho que está cheio de boa vontade, também precisamos disso, mas não em grandes doses que nos adormeçam. Tolerãncia a estrangeiros? Sim, aos turistas. Emigraram os portugueses? Claro, tal como hoje há vagas de emigração africana e dos países de leste, é a fome, meu caro, a sobrevivência. E o mito da "adaptação" às dificuldades mascara a nossa crónica impreparação, e falta de educação a nível da formação generalizadas. Para acabar, temos a pior mobilidade social de toda a União Europeia, isto é como sabe, os filhos dos mesmos para os postos do costume. Não é vontade de dizer mal, mas é tristeza de constatar estas evidências.
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De Anónimo a 21.11.2006 às 17:10

As sondagens estão erradas e são enganadoras. Eu e mais 12 colegas da universidade jé realizámos uma sondagem que abrangeu Braga, Chaves, Porto, Viseu, Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Lisboa, Évora, Beja e Faro.
A pergunta foi simples e única: Gostava de passar a ser espanhol?
Respostas no global: 78% SIM
Agora não me venham com mais histórias que o iberismo não vai ser uma realidade dentro de 10 ou 20 anos.

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