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007: o vício é uma virtude

por Pedro Correia, em 29.12.06
Confesso-me rendido ao desempenho de Daniel Craig no último filme da série 007: ao contrário do xaroposo Pierce Brosnan, que abusava dos tiques de salão, Craig retoma a personagem dura, cínica e profundamente amoral que Sean Connery em boa hora criou no princípio da saga. Os primeiros filmes foram de longe os melhores - nada a ver com a pirotecnia acéfala, boa para consumir pipocas, em que o agente de Sua Majestade se foi transformando, sobretudo nas duas últimas décadas. Agora dá-se o regresso às origens com excelentes cenas de pancadaria (dignas dos Keystone Cops, ou seja, dos primórdios do cinema) e de perseguição, polvilhadas com um humor próprio de quem não se leva demasiado a sério. James Bond, apesar de ter ordem para matar, não deve, de facto, ser levado demasiado a sério. Só isto nos permite desfrutar da melhor maneira Casino Royale, um filme com uma produção irrepreensível que me fez ter uma súbita vontade de conhecer Montenegro, de regressar com urgência a Veneza e de adquirir residência nas margens do Lago Cuomo um dia destes, quando me sair o euromilhões. Brinde suplementar: a película tem excelentes diálogos. O meu preferido é este, entre Bond e a deliciosa Vesper Lynd (interpretada pela actriz Eva Green):
- Você não faz o meu género (diz ele).
- Por ser inteligente? (pergunta ela).
- Por ser solteira (remata ele).
Como nos ensinou Vasco Pulido Valente, o mundo está perigoso. Não admira que M, a superior hierárquica de Bond, confesse ter "saudades da Guerra Fria". Num planeta ameaçado pela praga terrorista, o mais famoso agente secreto britânico deixou-se de punhos de renda e ganhou uma destreza a lidar com o crime que mal o distingue afinal de um verdadeiro criminoso. Claro que há quem deite olhares de outro género ao filme, mas de momento o que me interessa é este: nos dias que correm, são cada vez mais ténues as fronteiras entre bons e maus. Bond está no meio, mas personifica muito mais o vício do que a virtude.
Se virmos bem, como poderia ser de outra forma? Quem lhe paga o ordenado é Tony Blair, um dos grandes jogadores de póquer político à escala mundial, que se tem mantido como fiel parceiro de George W. Bush em todas as jogadas. Bom rapaz, este Blair. Capaz, tal como Bond, de transformar qualquer vício em virtude - e de nos fazer pagar bilhete para o aplaudirmos. Comparado com ele, Daniel Craig é um menino de coro.



11 comentários

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De MissPearls a 29.12.2006 às 16:30

Já estive na antiga Kalsbad. Uma estância termal maravilhosa.

Mas que era o Lago Cuomo não tenho dúvidas.
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De João Pedro a 29.12.2006 às 16:04

Obrigado, JLP. Afinal, sempre era no antigo Império austro-húngaro, e logo na idílica Kalsbad.
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De Pedro Correia a 29.12.2006 às 15:48

João Luís: para mim é irrelevante o local exacto onde o filme foi rodado. Interessa-me, isso sim, a Montenegro mítica configurada no filme. Um pouco à semelhança daqueles cinéfilos que acorrem a Casablanca sabendo de antemão que o filme "Casablanca" foi rodado na Califórnia. Esta é a grande força do cinema como projecção no nosso imaginário.
João Pedro, agradeço o reparo. Já fiz a correcção no texto.
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De Menino Mau a 29.12.2006 às 12:27

eh lá ! a ergela agora parecia o carlos barroca a despedir-se. e nada contra o carlos barroca.até acho que ele é competente..
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De Anónimo a 29.12.2006 às 12:08

A Dra. Morgado é que precisava assim de alguém.
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De ergela a 29.12.2006 às 10:02

A todos os corta-fiteiros desejo um ANO de 2007 FANTASTICO.

Um abraço sincero a todos.
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De Anónimo a 29.12.2006 às 09:45

Completamente de acordo.
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De Jose Gomes Andre a 29.12.2006 às 03:34

Daniel Craig mostrou que Pierce Brosnan desvirtuava cada vez mais o James Bond, nos últimos filmes uma caricatura de si próprio, um simples e vulgar dândi com tiques de jet-set.

Craig trouxe de volta o mistério aliado à frieza, próprios de um espião duro, mas que não se leva a si mesmo demasiado a sério. Excelente!

Bem Pelo Contrário (http://bempelocontrario.blogspot.com/)
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De L. Rodrigues a 29.12.2006 às 02:03

Isto é lateral ao post, e próprio de um chato, mas o mundo está mais perigoso do que quando, ou para quem? Ele também ensina?
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De João Pedro a 29.12.2006 às 01:50

não partilho da mesma ideia sobre o novo Bond (preferia muito mais Brosnan). Mas entretanto, há coisas muito mais graves neste post: Eva Green britânica?!? Se o fosse,certamente Bertolluci não a teria chamado para entrar nos seus "sonhadores", com poses desnudadas em pleno Maio de 68.

E outra coisa: acho sinceramente que o que aparece no filme não é o Montenegro. O pequeno estado balcânico sempre teve autonomia, não pertenceu ao Império Austro-Húngaro,e aquela arquitectura barroca não encaixa ali. Acredito que se trate mais da Croácia ou da Eslovénia. Mas isso são suposições minhas.

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