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Fora de série (13)

por João Távora, em 05.11.07

Há poucos anos, com o advento do DVD, recuperei cá para casa o humor rock n’ roll d' Os Marretas, que já no final dos anos setenta aligeirara o fosso geracional na casa dos meus pais, juntando toda a família ao serão dos Domingos. Essa meia hora mágica situava-se entre a costumeiro jantar de suculento frango assado e a acabrunhada preparação da nova semana de aulas que ameaçadoramente despontava.
“Os Marretas” foi uma genial série de televisão americana estreada em 1976 da autoria de Jim Henson e sua trupe de prazenteiros manipuladores e criadores de bonecos. Jim Henson, que nos deixou prematuramente em 1990, já tinha no curriculum a colaboração regular dos seus bonecos no prodigioso programa educativo Rua Sésamo desde 1968, e desde 1961 num obscuro show humorístico "Sam e os Seus Amigos" onde já pontificava um simpático boneco “peúga”, talvez a génese do celebradíssimo sapo Cocas.
A inconcebível colecção desta mágica fábrica de "fantoches" num frenético ritmo rock, às vezes bem psicadélico, foi crescendo em tamanho e graça: do minimal felpudo “fole” dançarino, da peúga falante ao urso Fozie - o inseguro aprendiz de comediante, passando pelo caótico Gonzo e toda a sorte de animalejos e objectos.
Naquela desregrada "companhia teatral” todos os personagens - e alguns dos adereços - têm vida e personalidade muito próprias. Podemos ver umas alegres Couves e outros legumes a dançar folclore polaco, os ratos, baratas e demais bicharada residente a exigir um aumento de cachet ao sapo Cocas, o inabalável director e apresentador daquela literalmente explosiva empresa. Este tem como braço direito o influente moço de recados Scooter, sobrinho do dono da sala de teatro. E que dizer dos velhotes Statler e Waldorf, sempre teimosamente insatisfeitos, no alto do seu camarote? E do Sam, a moralista e inquisidora águia americana?
Durante os endiabrados espectáculos, Cocas lá vai mantendo a calma no meio do caos, mantendo o alucinante ritmo das variedades, sempre com um convidado (muito) especial. Entrevistou por exemplo Julie Andrews, enquanto a troupe do Canhão Humano se preparava para disparar uma vaca (verdadeira). Salva-a do expulsivo destino Gonzo (enigmática espécie animal) que negligenciando a sua bem amada Camila (uma galinha) enamora-se arrebatadamente pela vaca com quem desaparece para um jantar romântico. Em abono da verdade, tartes espetadas na cara, trambolhões e violentas explosões num humor assim “inteligente” apenas encontrei nos "Monty Python" e n' "Os Marretas".
Do sapo Cocas ao jazzístico e imperturbável saxofonista Zoot, todos os personagens possuem um sólido carácter e profundidade “humana” (?!), expressa com mestria no desenho, voz e manipulação daqueles inimagináveis bonecos, de cores mirabolantes de olhos piscos e desmesuradas bocas. O humor nonsense impera n’ "Os Marretas", a par com os convidados especiais ao momento “na berra” do Show Business. E música, muita boa música Jazz, Folk e Rock n’ roll, numa impecável interpretação da extraordinária banda residente liderada pelo Dr. Teeth nas teclas, com o Monstro na bateria, o Floyd à guitarra, e a doce Jenice a cantar, por entre os minimais solos de saxofone de Zoot. Um verdadeiro tributo à boa música popular. Ou também à música erudita, pelas patas do carismático Rowlf, o cão pianista. É obrigatória uma referência à Miss Piggy, que nunca me seduziu por aí além. Talvez por sempre me ter parecido uma personalidade demasiadamente colada à de tantas caricaturas vivas da existência real.
Foi com "Os Marretas" que consegui detectar o pezinho maroto do meu pai, no alto do seu sofá, a bater o ritmo do rock mais pesado. E a rir-se à gargalhada com os chavões dum tempo que definitivamente já não era o dele. Talvez por isso, eu tenha promovido em casa, com os meus miúdos, o culto destas fabulosa série. E que obteve uma adesão incondicional, o que confirma que o bom gosto é mesmo intemporal.
À parte das “longas metragens”, onde nunca consegui vislumbrar a qualidade dos curtos episódios temáticos (ou não) para a TV, estão disponíveis no mercado algumas colectâneas ou programas especiais que são autenticas preciosidades, hinos à inteligência e à gargalhada salutar. Aconselho vivamente, por exemplo, a Gala Especial dos 25 anos dos Marretas, onde se encontram juntas algumas das mais singulares e históricas pérolas do sapo Cocas e companhia.


16 comentários

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De Anónimo a 06.11.2007 às 11:35

Obrigado JT por me fazer recordar os muitos e divertidíssimos momentos q esta série me proporcionou. Excelente a caracterização/descrição das personagens. E as "consequências" da série na sua vida familiar trouxeram-me à memória o q se passava lá em n/ casa :))
FCL
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De j.c. a 06.11.2007 às 00:18

Caro João Távora, lembro-lhe que comecei este conjunto de comentários com uma apreciação à série que muito bem recordou e enalteceu e equipareia-a com uma das melhores produções em banda desenhada de todos os tempos.
Posto isto, o melhor que encontrou para me dizer foi isso da 'conversa da treta'? Olhe, sabe que mais? Pobre a mal agradecido. Vou continuar abancado aqui enquanto me apetecer, fique sabendo!
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De jorge lima a 05.11.2007 às 21:54

Proponho junto dos leitores deste post em particular, e do Corta-Fitas em geral, o início de uma petição de tema: «João Távora a director da RTP-Memória, já!» Imaginem o luxo que seria, o Sherlock Holmes e os Marretas ao mesmo tempo!
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De João Távora a 05.11.2007 às 21:49

Grande lata a destes dois leitores JC e Virgílio: então não é que abancam aqui no meu poste, que deu uma trabalheira a escrever, com uma conversa da treta...
enfim, se fosse para debater os Marretas e a sua aquisição pela Walt Disney...
ultrajante. :-)
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De Anónimo a 05.11.2007 às 21:44

Caro Tavora,

Excelso texto, este sobre uma serie intemporal!

A musica e tramada, entra no ouvido e nao consigo deixar de a cantarolar mentalmente... foi composta para um documentario sueco, imagine-se!
Mahna-Mahna
Virgilio
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De Anónimo a 05.11.2007 às 21:40

Caro JC.
Termino como comecei:
Mahna-Mahna
Virgilio
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De j.c. a 05.11.2007 às 20:44

Peço desculpa, caro Virgílio! O erro afinal foi meu, embora involuntário. Não era o acento, porque reparei há muito que não o coloca. O que aconteceu mesmo é que uma mancha minúscula no meu ecrã fez-me ler 'virgiiio'! Fica explicado e, portanto, sem efeito o caso do nome. E esta agora também teve piada, mas mais tipo risdo amarelo... he-he-he...
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De Virgilio a 05.11.2007 às 19:42

Teve piada sim senhor, por isso é que eu lhe respondi desta forma.
Agora é que me deixou nervoso com a história do nome (a menos que se refira à falta do acento, que acontece por questões de apresentação internacional).
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De j.c. a 05.11.2007 às 19:09

Mesmo assim, reconheça lá que eu também tive alguma piada.
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De j.c. a 05.11.2007 às 19:09

Essa teve piada, Virgílio: fiquei desapontadíssimo, como deve calcular! Mas confesse lá que ficou nervoso. Eu reparei no modo como escreveu o seu próprio nome...

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