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Conversa em futebolês

Adoro discutir futebol, porque ninguém consegue ser racional durante uma discussão sobre futebol e, como sabem, tenho fascínio pelo irracional. Mas há sempre saborosas excepções. No bar futebolândia, onde costumo passar nas noites de derby, só há inteligentes análises e os utentes usam uma linguagem específica, o futebolês, nas suas sofisticadas conversas.
Também vão lá algumas pessoas que usam gel no cabelo.
Ontem, o Pedro e o Francisco estavam a discutir o seleccionador nacional e aquilo contagiou toda a gente. De súbito, não havia ninguém que não estivesse a discutir os méritos do senhor Scolari. Excepto eu, que estava sentado no bar, minding my own business, quando chegou um tipo (de gel na cabeça e cabelo espetado) que me perguntou o que eu pensava das tácticas do senhor Scolari.
“De facto, interessa-me mais a estratégia dele”, expliquei.
“Sem eggs no Hamlets, não acha?”
Fiquei calado, a saborear o meu uísque, enquanto ele desatava numa procastinação sobre acessibilidades, tecnicidade, a cobrança de cantos e a estatística de jogadas de cabeça.
“Acho fundamental poder encostar para o golo, reforçar o flanco esquerdo, mais talento e polivalência”, disse ele, com grande convicção. “Da primeira vez que tocou na bola, o senhor selecionador transformou um defesa de raiz num segundo poste, ainda por cima em crise de forma, apesar do remate forte e colocado. É preciso alavancar mais ataques e vitórias, não acha?”
“Se fala das clássicas vitórias morais, concordo”, respondi, para não parecer indelicado.
“E não teme que isso possa colidir com a nossa tradição da crítica permanente do sucesso?”, perguntou o desconhecido.
“A tradição evolui, como sabe”.
Ele ficou a pensar naquilo, com um ar muito sério.
“E o que acha do quatro, três, três?”
“Sou favorável... em princípio”
“Então, nesta questão, estamos os dois do mesmo lado. É preciso colocar mais unidades junto à baliza adversária, numa lógica de apostar em novos valores com grande categoria e confirmar a liderança com magia e individualismo”.
“Sim”, concordei, “numa palavra: Vencer”.
“Nesse ponto, discordamos. O importante é despedir o treinador”.
Bebi mais um gole (ou seria golo?) do meu uísque. Reflecti. Percebera, naquela conversa, que o sujeito não era adepto do meu clube favorito.
Ele deve ter percebido o mesmo e afastou-se, sussurrando um insulto irrelevante. Notei que tinha dois pés esquerdos, o tipo, além de gel na cabeça.

Adolfo Ernesto


16 comentários

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De Cristina Ribeiro a 29.11.2007 às 20:04

Senti que a leitura deste texto bem humorado se traduziu na rentabilização do meu tempo.
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De Mike a 29.11.2007 às 18:38

Está visto que percebe de bola...
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De L. Rodrigues a 29.11.2007 às 17:55

"procastinação" não odeio, apenas tenho uma certa antipatia.
Já procrastinação, como odiar o passatempo nacional?
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De Custódia C.C. a 29.11.2007 às 17:46

Uma pérola :)
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De Luis Naves a 29.11.2007 às 16:48

Adolfo Ernesto toma chá eros todas as manhãs e anda consolado
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De Anónimo a 29.11.2007 às 16:21

Adolfo Ernesto devia fazer como o sr. Villalobos e beber chaveninhas de chá Eros.
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De Leonor Costa Pinto a 29.11.2007 às 16:16

Não percebo nada de futebol, mas percebo bem de humor. E humor com "imagens-caricaturas" ao vivo e a cores é mesmo raro. Parabéns!
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De j.c. a 29.11.2007 às 16:07

Por mim, nem táctica nem estratégia. Se eu fosse treinador, mandava pelo menos 12 jogadores para o campo. Porque a verdade é esta: já alguém viu alguém contar os jogadores de cada equipa?...
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De Anónimo a 29.11.2007 às 16:00

E o burro sou eu? O ruim sou eu?
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De Luis Naves a 29.11.2007 às 15:58

o adolfo ernesto pede-me para agradecer todos estes comentários(e os seguintes). ele não pode agradecer em pessoa devido à ressaca da bola que apanhou depois de ver a última jornada da champions e a magnífica nova táctica de cinco, cinco, três usada num jogo que ele referiu, mas entretanto esqueci-me qual, porque não percebo nada disto de clubes

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