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aaahhhhh coitadinhos...

por José Mendonça da Cruz, em 29.03.20

Que seria que Victor Moura-Pinto conseguiria desencantar para fazer humor no meio da pandemia, perguntava-se, sempre bacoco,José Alberto Carvalho. Fácil: sob a capa de humorista, Moura-Pinto fez mais escrutínio e crítica em 5 minutos do que a Tvi numa semana inteira. É que Moura-Pinto, ao contrário dos muitos que passam hoje por jornalistas, não tem vocação de censor, nem de defensor do poder.

Estado de sítio (13)

por João Távora, em 29.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 5.962 casos, 119 vítimas mortais

O mais difícil destas rotinas informes é a falta dos rituais inerentes a cada um dos dias, coisa que transforma a semana num amálgama de tempo indistinto, para além do dia e da noite.  As idas ao escritório durante a semana, os dias de ginásio, os jantares com os amigos ou idas ao futebol, as reuniões profissionais ou políticas, as datas festivas e celebrações religiosas conferem uma plasticidade ao calendário que faz mais falta do que poderíamos pensar. Cá por casa a passagem do tempo é marcada pelas refeições, mais o almoço servido à mesa com alguma formalidade e empenho culinário, e pela recitação do terço ao fim da tarde. Para minha sanidade mental nos últimos tempos tenho assistido no máximo a uma hora diária de notícias na televisão. A parte que mais tenho gostado são as vistas aéreas da minha cidade semi-deserta. Para não desgastar com demasiadas exigências a salubridade mental da nossa pequena comunidade familiar os jantares são volantes, com relativa flexibilidade de horário. Nesse sentido ao domingo ninguém é obrigado a tarefas da escola ou laborais, os computadores preferem-se desconectados e eu não fui fazer a minha corrida matinal. Este dia também é marcado pela carência da missa dominical comunitária, e o facto de hoje não poder cumprir a visita semanal à minha mãe que sofre de um severo enfisema pulmonar causa-me alguma amargura – toda a gente sabe que a solidão também mata, quase tanto quanto a pobreza com que muitos se confrontarão nos próximos temos. Em compensação, a minha mãe com quem tenho falado todos os dias por telefone, parece estar a levar esta crise com algum fair play. Fumadora inveterada durante quase toda a vida, está habituada a respirar pouco.

Hoje foi dia de reabastecimento no supermercado, que me pareceu adaptado à crise, bem apetrechado com produtos frescos em todas as secções. A propósito: aqueles vídeos a ilustrar os comentadores de economia dos noticiários a falar da severa crise financeira a que estamos condenados com máquinas de contar notas de 50 e 100 euros em loop são só para nos enervar, não são? Na Suécia, que como sabemos são uns bárbaros, estão a enfrentar a epidemia de forma diferente da nossa, a vida prossegue com muito mais normalidade que aqui. Espero que sejam eles os enganados.  

Voltando à irritação de António Costa com os holandeses na sexta-feira: é curioso notar que nem os enormes movimentos migratórios das últimas décadas mudaram velhos preconceitos e rivalidades nacionais. É disso que são feitas as nações e não é obrigatoriamente mau.

Nove em cada dez

por henrique pereira dos santos, em 29.03.20

Esta reportagem do Observador sobre os lares merece ser lida.

Desde o princípio que sabíamos quais os grupos de maior risco em caso de infecção por coronavírus e a seu tempo se discutirão as responsabilidades que nos cabem a todos, não apenas de quem tem de decidir nestas matérias, frequentemente com opções mínimas face aos recursos e ao contexto.

O que me interessa aqui, neste post, é a frase com que arranca, porque é mais ou menos o que todos dizemos: “Os lares de idosos são as grandes bombas-relógio”.

Agora saiamos do nosso conforto e entremos na pele de um dos utilizadores desses lares que, como é frequente nessas condições, todos os dias vê televisão e todos os dias é massacrado com as reportagens dos camiões de caixões de Bérgamo, sem que ninguém lhe explique que são os cuidados no tratamento dos corpos que os justificam, e não a quantidade de pessoas mortas.

Todos os dias é massacrado com a ideia de que se alguém com mais idade for infectado, é desgraça certa.

E, de repente, dizem-lhe que a peste entrou no seu lar.

Quando se declara uma infecção no seu lar, não só já está instalada no seu espírito uma enorme intranquilidade, como ainda acentuamos a ideia de que não há nada a fazer, vai morrer toda a gente.

E, no entanto, na pior das hipóteses, nove em cada dez infectados nos grupos de risco não morre da doença.

Não sabemos bem se é assim, porque não sabemos quantos infectados já houve antes, no momento em que se fazem os testes, o simples facto de que cada vez que se testam todas as pessoas ligadas ao lar, porque há um caso conhecido, se revelar uma enorme taxa de infecção, sugere que é bem provável que a taxa de mortalidade seja, afinal, bem mais baixa daquela que neste momento se aceita, mas saltemos por cima disso e aceitemos como boa a taxa de mortalidade de 9%, 10 para facilitar as contas.

Claro que é uma taxa altíssima, claro que se for eu o décimo, não me vale de muito saber que os outros nove não vão morrer, mas o que devemos nós fazer a quem, na mais absoluta fragilidade e dependência dos outros, vê a morte de frente?

Continuar a insistir que vai tudo morrer, sendo mentira e ampliando a angústia e o desespero, isolando toda a gente, impedindo o contacto com quem se ama para mitigar o contágio de pessoas de muito baixo risco?

Ou estar lá, ir buscar a nossa humanidade onde ela estiver, dizer que há risco sim, mas que nove em cada dez pessoas naquelas condições não morrem, mesmo que infectadas, e aceitar o baixo risco da infecção para a generalidade das pessoas, para que se possa dar um fim de vida mais tranquilo ao tal décimo, ou ajudar os outros nove a lidar com o desamparo do momento?

Não conseguimos antecipar o problema dos lares e falhámos aos mais frágeis, é certo, e de certeza que é possível encontrar formas de mitigar os riscos sociais do contacto com os infectados (é o que fazem todos os dias os que lidam profissionalmente com a doença), mas ainda que não fosse possível, temos mesmo o direito de obrigar à solidão os mais frágeis numa altura destas, e de lhes roubar toda a esperança ao mesmo tempo, só porque estamos nós próprios assustados?

Ensinaram-me que o inferno era a ausência de esperança, é por isso que acho desumano voltar a faltar a estas pessoas, condenando-as ao inferno em vida.

Domingo

por João Távora, em 29.03.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Naquele tempo, as irmãs de Lázaro mandaram dizer a Jesus: «Senhor, o teu amigo está doente». Ouvindo isto, Jesus disse: «Essa doença não é mortal, mas é para a glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem». Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lázaro. Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente, ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava. Depois disse aos discípulos: «Vamos de novo para a Judeia». Ao chegar lá, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias. Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar, Marta saiu ao seu encontro, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse a Jesus: «Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá». Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará». Marta respondeu: «Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia». Disse-lhe Jesus: «Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá. Acreditas nisto?». Disse-Lhe Marta: «Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo». Jesus comoveu-Se profundamente e perturbou-Se. Depois perguntou: «Onde o pu­sestes?». Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor». E Jesus chorou. Diziam então os judeus: «Vede como era seu amigo». Mas alguns deles observaram: «Então Ele, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito que este homem não morresse?». Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo. Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada. Disse Jesus: «Tirai a pedra». Respondeu Marta, irmã do morto: «Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias». Disse Jesus: «Eu não te disse que, se acreditasses, verias a glória de Deus?». Tiraram então a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Disse-lhes Jesus: «Desligai-o e deixai-o ir». Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria, ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.


Palavra da salvação.

O pico «adiado»

por José Mendonça da Cruz, em 28.03.20

Diz a pobre ministra da saúde, e repetem os papagaios das televisões, que o pico da pandemia foi «adiado» para Maio. Se esta gente ao menos falasse português saberia que o pico não foi adiado. Foi apenas o cálculo que foi refeito.

Carlos Costa: a vida e as polémicas do governador do BdP – O ...

Atentem ao facto de a crise do coronavírus poder culminar numa crise de dívida soberana que pode quebrar a zona euro.

Vejamos. Os países têm carta branca para se endividarem para ajudar as empresas e a economia, mas nem todos os países da União Europeia têm um rácio de dívida pública sobre o PIB com folga. Itália, por exemplo, tem um rácio de dívida de 135%, Portugal tem um rácio de 118%. Se aumentarem a dívida (e vão ter de a aumentar porque as despesas que se preparam para assumir são muitas), quando descobrirem a vacina para a Covid-19, os países vão estar de tal modo endividados que as agências de rating não têm alternativa senão baixar o rating. Voltar a rating lixo é a mesma coisa que deixar de conseguir financiar-se a juros baixos. O défice vai ser ainda mais agravado. 

O risco de default tornar-se-ia elevado. O caso de Itália (um amigo meu da área dos mercados chamou-me a atenção, para o risco de Itália se tornar numa segunda Grécia e não conseguir pagar a dívida) é paradigmático. Pode entrar em default, ou fazer haircut da dívida soberana, e com isso traumatizar os mercados e criar um clima de desconfiança em relação à União Europeia. No limite isto pode acabar com Itália a querer sair da zona euro, e estamos a falar de uma das maiores economias da zona euro.  

Portugal, por sua vez, não está preparado. Não foi feita a reestruturação que era precisa e a economia cresceu à conta dos serviços, turismo e restauração. Tudo coisas que demorarão algum tempo a voltar ao normal. A poupança dos portugueses continuou muito baixa e o crédito estava a ganhar um novo boom. 

Antevêem-se tempos negros para a economia europeia. Por isso o Governador do Banco de Portugal tem defendido em todos os jornais a emissão de dívida pela zona euro para ajudar a economia dos estados-membros vítima da pandemia.

O Governador do Banco de Portugal tem defendido a emissão de dívida mutualizada dentro da zona euro, as coronabonds. Sem as obrigações emitidas pela zona euro para financiar a resposta à crise, haverá uma crise sem precedentes na zona euro, a nível económico e político.

Esta dívida deveria ter maturidades longas, caso de 30 anos, de modo a “diluir o impacto nas contribuições anuais dos Estados-membros” para a amortizar, defendeu também o Governador.

Carlos Costa considera que a emissão de dívida é a única ferramenta financeira de que a comunidade europeia dispõe para responder aos efeitos da pandemia de Covid-19.  

 O Governador já disse que é bem-vinda a flexibilidade orçamental da Comissão Europeia (Bruxelas anunciou que libertava os países de cumprimento das metas do défice), mas que tal não é suficiente, uma vez que cada Estado-membro tem uma margem orçamental diferente (desde logo pela dívida pública), o que tornaria o combate ao impacto da epidemia dependente da situação orçamental de cada país.

“Para responder com êxito a esta emergência todos os Estados-membros, independentemente da sua situação orçamental e do nível de endividamento, devem manter-se financeiramente unidos e com idêntica capacidade de resposta”, defendeu o Governador do Banco de Portugal, avisando que falta de cooperação e de êxito no ataque a esta crise “pode pôr em causa o futuro do projeto europeu”, pelo que urge encontrar soluções que evitem uma “segunda crise da dívida soberana”.

Oiçam o Governador! 

Da urgência (ou da indignação?)

por henrique pereira dos santos, em 28.03.20

Decidi fazer este post depois de uma troca de comentários com André Carapinha na minha página de Facebok, no momento em que me diz: "ainda mais urgente é o que já se está a passar com milhares de pessoas neste pais, nas cidades e nos subúrbios simplesmente regressou a fome em duas semanas".

O André está nos antípodas das minhas posições políticas e sociais e foi de outra pessoa, também nos antípodas dessas posições políticas e sociais, que me lembrei imediatamente, por ter visto as suas declarações há dois dias: "“Receio que estejamos em risco de enfrentar situações de fome“, considera Isabel Jonet, acrescentando que “temos situações verdadeiramente desesperadas“. Em causa estão sobretudo pessoas com “rendimentos muito pouco estáveis, que trabalham a recibos verdes ou “de forma informal e foram dispensadas, ou a sua fonte de sustentou encerrou”. É o caso de trabalhadores de cabeleireiros ou empregadas domésticas".

No teclado do computador em que pessoas como eu, economistas brilhantes que desenham soluções para enfrentar o futuro, jornalistas em tele-trabalho que relatam números da Covid ou entrevistam médicos dos cuidados intensivos, é muito difícil vermos as vidas destas pessoas a quem simplesmente tirámos o chão de um momento para o outro, mimetizando os modos de actuação de uma ditadura brutal que precisa de se relegitimar permanente com actos heróicos.

Nem o registo histórico dessa ditadura que, com os seus "grandes saltos em frente" e "revoluções culturais", deixou um rasto de pessoas mortas de fome, nem a fragilidade da evidência científica de que a ameaça que enfrentamos seja de uma ordem de grandeza estratosférica, nem a evidência empírica de que diferentes abordagens ao problema têm resultados essencialmente semelhantes, pelo menos da ordem de grandeza da mortalidade, nem a evidência que resulta dos sistemas europeus de vigilância da mortalidade diária de que, até agora, os impactos da Covid na mortalidade estão dentro, eventualmente ligeiramente acima, do que é a mortalidade de uma gripe (escusam de argumentar que clinicamente e do ponto de vista de sobrecarga e risco dos profissionais de saúde a doença não tem qualquer paralelo com a gripe, já sei isso, a comparação não é clínica, e epidemiológica) - para os que têm dúvidas, podem ler aqui o relatório da semana de 8 a 14 de Março, a última disponível, em Itália - nos tem feito parar um bocadinho para pensar se realmente não estamos a criar mais problemas com a cura que com a doença.

Sim, estamos todos em casa, mas isso não significa o mesmo para todos: para mim, que faço parte dos protegidos e dos privilegiados, pode ser, no máximo, um incómodo; para milhares de outras pessoas significa não saber o que fazer para ter o que comer amanhã.

Detesto dramatismos e reconheço a enorme soberba de pretender que esta abordagem da doença é totalmente absurda quando tantos governos, apoiados pela melhor ciência e pelas melhores agências de gestão do problema, as adoptam.

Mas não tenho a menor dúvida do rasto de devastação social que aí está (ia escrever, "aí vem", mas na verdade não estaria a ser rigoroso, isto não é uma questão de consequências futuras, isto passa-se agora) e também me lembro de outros episódios históricos de cegueira colectiva em que a dissidência era rapidamente esmagada com grandes proclamações morais, como agora se faz ao pretender que alguém que se limita a dizer o que aqui estou a dizer é um mero darwinista social sem a menor compaixão pelos mais fracos e expostos.

Prefiro correr o risco de me espalhar ao comprido, de estar totalmente errado (volto a dizer que isso é o mais provável, é muito dificil aceitar a ideia de que tanta gente, tão qualificada e tão responsável está tão estrondosamente errada e que eu, um "pobre homem da Póvoa" aqui sentado é que estou a ver a coisa mais ou menos como  deve ser) a deixar de dizer que nos faria falta um bocadinho mais de respeito pelos deserdados da vida, ao ponto de, ao menos, avaliar os efeitos do que estamos a fazer, fora do estrito quadro da paranóia de contenção de uma epidemia a qualquer custo.

Senhores jornalistas, protejam-se, ponham máscaras se quiserem, levem desinfectante no bolso, mantenham a distância social, não toquem em nada, mas vão lá, vão ver o que se está a passar lá.

Ao menos digam-me que é falso alarme, que estou enganado, que afinal não se passa nada.

Padaria Portuguesa

por henrique pereira dos santos, em 27.03.20

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo."

Lembrei-me disto quando comecei a ler comentários inacreditáveis sobre o facto de Boris Johnson ter testado positivo para o coronavírus.

Mas na verdade já tinha decidido que ia decidir se fazia um post sobre a Padaria Portuguesa.

Sou um cliente habitual da Padaria Portuguesa, vou lá de manhã comprar pão, o suficiente para, de maneira geral, já saberem que eu peço para cozerem melhor o pão (não é muito sustentável ter o forno a trabalhar só para cozer os meus pães mais um bocadinho, mas entre a sustentabilidade e a minha mulher, eu opto sempre pela minha mulher) e para ter reparado, num relance, que a SIC lá tinha estado numa reportagem, ao ver o Ibrahim e a Brigitte.

E como continuo todas as manhã a ir ao pão e comprar o jornal (lavo as mãos antes de ir, deixei de levar o saco de pano e passei a trazer o de papel deles, lavo as mãos mal entro em casa e antes de tocar em alguma coisa, garanto que o manípulo da torneira ficou como estava antes de lhe tocar para abrir a torneira, enfim, eu cumpro as regras de auto-protecção e levo-as a sério), sou testemunha da rapidez de adaptação que a empresa demonstrou, transformando em dois ou três dias a loja de padaria em mercearia, vendendo ovos, azeite, arroz, massa, feijão, etc..

Depois de ver o ressentimento de muitos comentários jubilosos pelo facto do seu dono ter escrito uma carta ao primeiro-ministro a explicar que ou há maneira de se apoiar a empresa, ou não há dinheiro para pagar ordenados em muito pouco tempo, como se alguém ganhasse mais que a satisfação da vingança de poder dizer "não são mais que eu" a um empresário falido, achei por bem explicar que tenho pena, mesmo muita pena, se a empresa falir.

Não por mim, o que não faltam são padarias à minha volta, e tal como deixei de comprar ao senhor Manuel e ao senhor António quando a mercearia passou a lavandaria automática, com pena minha, que o pão era óptimo, melhor que o da Padaria Portuguesa, já agora, passo a comprá-lo noutro lado.

O que me chateia, se a empresa for à falência, é ter a noção da aflição da Catarina, que um dia destes andava em bolandas para comprar o leite da filha de meses, porque tinha desaparecido à conta do corona (o leite, não a filha, claro), da Ana, da Patrícia, do Ibrahim, do André e por aí fora, vítimas laterais da maior e mais estranha experiência sociológica a que me foi dado assistir: o suicídio de uma economia na vã tentativa de parar o contágio de uma doença que, fora dos grupos de risco, tem um efeito definitivo marginal na larga maioria da população.

E tiro o chapéu ao empresário que não quis deitar a toalha ao chão, reinventando o conceito das lojas em dias, mesmo sabendo que, provavelmente, na falta de dinheiro rápido até que os clientes sejam autorizados a voltar, é um esforço inglório.

Estado de sítio (12)

por João Távora, em 27.03.20

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Coronavírus hoje em Portugal – 4.268 casos, 76 vítimas mortais

“Ninguém se salva sozinho” foi a ideia reforçada hoje pelo Papa Francisco na bênção “Urbi et Orbi” transmitida da Praça de São Pedro deserta para todo o mundo. Impressionante, é o mínimo que podemos dizer.
Cá por casa o confinamento já se tornou rotina, e o sentimento inicial de euforia pela anormalidade das circunstâncias já se esvaiu. Se estar sozinho deve ser difícil, também não é fácil a convivência de cinco pessoas numa casa relativamente exígua de três adultos, uma jovem universitária e um adolescente. Requer sensibilidade no respeito pelo espaço físico e psicológico de cada um, aceitando com o mínimo de disciplina o papel exigido a cada um das tarefas domésticas e outros deveres. Vale a pena o esforço pois desta inaudita aventura “Ninguém se salva sozinho”.
Sempre gostei muito da minha casa, ao longo dos anos decorada em cumplicidade com a minha mulher, apetrechada com bons livros, muitos deles por ler, que coexistem com boa música e boas condições de audição. Trabalho à distância para nós há muito que é o nosso modo de vida, e ainda não nos falta dramaticamente. Mas é diferente quando nos vemos impedidos das actividades sociais e cívicas em que normalmente estávamos empenhados. A angústia causada é a prova que a caridade e o “serviço” cívico são aspectos vitais para a nossa salvação. “Mal de quem não tem a quem (a que) servir, não me canso de repetir.
Hoje, para dar um ar de normalidade, recebemos da gráfica pelo correio o "ozalid" (prova para revisão) do próximo livro da chancela Razões Reais da Real Associação de Lisboa intitulado "Quando o Povo quiser". Trata-se de uma antologia comemorativa dos 10 anos da revista Correio Real onde se reúnem os melhores ensaios e crónicas nela publicados. Não é sem alguma ansiedade que esperamos pela oportunidade de agendar o seu lançamento, com a devida pompa. Disso daremos notícias na devida altura.
Com isto tudo, chegámos a sexta-feira e com ela ao inicio das férias da Páscoa, um facto que no confinamento do lar não fará grande diferença. Mas talvez mereça uma celebração com um Whisky irlandês ao final da tarde. Rejubilemos.
Entretanto o Expresso noticiou que "Marcelo e Ferro querem comemorar o 25 de Abril". Mas afinal não foram canceladas todas e quaisquer celebrações religiosas?

Ninguém se salva sozinho

por João Távora, em 27.03.20

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Homilia do Papa Francisco na celebração extraordinária de oração pela pandemia da Covid-19

Ao entardecer…» (Mc 4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.

Rever-nos nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na popa, na parte do barco que se afunda primeiro... E que faz? Não obstante a tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).

Procuremos compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4, 38) Não Te importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: «Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos desalentados.

A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades.

Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu» sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela abençoada pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Senhor, lanças-nos um apelo, um apelo à fé. Esta não é tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: «Convertei-vos…». «Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Chamas-nos a aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. É a vida do Espírito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho.
Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras.

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas más. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida nunca morre.

O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar.
O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora: na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.

Abraçar a sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá esperança.

«Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Queridos irmãos e irmãs, deste lugar que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7).

Vaticano, 27 de março de 2020

Vai ficar tudo como eles sempre quiseram

por João Távora, em 26.03.20

"Pois bem, tudo indica que o paraíso desejado, devidamente decorado por artistas, escritores e humoristas que já se estão a posicionar, instalados nas frisas, esteja mesmo para chegar."

Pouco mudou, afinal, em Portugal. O grande inimigo dos pensadores nacionais continua a ser a Padaria Portuguesa.
Esta nossa inclinação infantil e apressada de odiar os nossos ódios em matilha é só mais uma das razões por sermos um país pobre como, temo, descobriremos duramente nos próximos meses.
Achar que a PP (e outras empresas) deviam ter bolsos sem fundos para prever um evento como que vivemos é rasteiro e cobarde.
Por definição, e para quem não sabe, a boa gestão é feita através de investimentos e não de guardar montanhas de moedas como fazia o Tio Patinhas ou notas debaixo do colchão. A riqueza nas sociedades humanas acontece porque houve - e há - quem tome riscos. Nem todos os Descobrimentos a meio do milénio passado, foram feitos por conta do Estado como os portugueses. Já naquele tempo houve "privados" que se atravessaram. As coisas, dos ventiladores às broas de mel do Pingo Doce, não caem do céu. Existem, quase sempre, porque quem as faz, acha que vai ganhar com isso. Ganhar o quê? Dinheiro pois então, riqueza.
Achar que os "liberais" não podem recorrer ao estado durante um evento incomparável como que o vivemos é desonesto, estúpido e em especial inumano. Porque assinala que quem pensa e faz diferente - os tais liberais ou a PP entre milhares de outros - deve ser devidamente punido por isso, nem que seja com uma pandemia no focinho.
Pelos sorrisos e tom de certos escritos e ditos, quase que arriscaria dizer que a p**a da pandemia já valeu a pena, quanto mais não fosse para arrumar de vez com a Padaria e os liberais.
Pois bem, tudo indica que o paraíso desejado, devidamente decorado por artistas, escritores e humoristas que já se estão a posicionar, instalados nas frisas, esteja mesmo para chegar.
Vai ficar tudo como eles sempre quiseram.

Pedro Boucherie Mendes no Facebook

"The coronavirus, in contrast, is a virus with public relations."

por henrique pereira dos santos, em 26.03.20

Pela parte que me toca, já chega o que chega: escrevi demais sobre esta epidemia, expus-me demais com esta epidemia (no espaço público, entenda-se, no que pessoalmente me diz respeito, pelo contrário), fi-lo de forma totalmente consciente, quer da dimensão da minha ignorância, quer dos riscos associados a deixar todo o espaço público à brigada do "fecha tudo, já!".

Na altura em que o fiz, a margem deixada à racionalidade e à moderação era muito, muito estreita, mas agora começa a haver algum contraponto à exigência populista do "fecha tudo, já!" e já não me parece útil ter um ignorante a passar tempos infindos a procurar informação e, sobretudo, a ouvir quem, sabendo muito mais do assunto, simplesmente não se ouve.

Para quem quiser, que dê uma vista de olhos a estas citações de onde tirei o título da crónica, a partir de uma referência do Paulo Fernandes.

Pela parte que me toca, fiz o que achei que era útil fazer e agora vou-me dedicar às couves.

Procurando ser mais preciso

por henrique pereira dos santos, em 26.03.20

Disclaimer: eu não percebo nada disto

Deu-me para esta coisa inglória e quixotesca de procurar contribuir para a racionalidade na gestão da epidemia em curso.

Como não percebo nada de epidemiologia (as minhas primeiras perguntas sobre o assunto vêm de alguma coisa que sei de biologia da evolução e a sua relação com microorganismos e afins), naturalmente fui procurando quem dava respostas que eu conseguia encaixar no que achava que sabia para, se fosse caso disso, mudar de ideias.

Durante este tempo, que tem sido de aprendizagem mais intensa do que pensei, ocupando-me muito mais tempo do que pensei (felizmente tenho de ir esvaziando o congelador que coisas que estão mais ou menos cozinhadas há algum tempo, até porque com o fim das visitas de filhos e netos tudo dura muito mais), fui ouvindo com atenção pessoas que me pareceu que tinham informação fidedigna e que me conseguiam demonstrar de onde vinha o que dizia, uns por me darem referências bibliográficas (para além de explicações coerentes e verificáveis à medida que o tempo passava), outros por experiência directa.

Desta opção resultavam duas visões paralelas que raramente se cruzavam.

Quando se olha para os dados da epidemia, enquanto epidemia, a coisa não está a ser muito diferente do que seria um forte surto gripal, sobretudo em mortalidade, que é o que interessa.

Quando se olha para a experiência de quem está na linha da frente, mesmo descontando todas as distorções que possam existir por se estar a olhar para a doença e para o doente, e não para a epidemia e para a sociedade, havia manifestamente diferenças relevantes para os surtos gripais, mesmo aqueles mais fortes de que vamos dando conta pelo caos nas urgências dos hospitais (que são recorrentes em surtos gripais fortes, quer aqui, quer em Itália e noutros países) e pelos picos de mortalidade que podemos facilmente ver aqui (os que não são daltónicos, como me fazia notar ontem um amigo). A talhe de foice, agora que fui olhar para os gráficos para pôr a ligação acima, há um aparente deslocar para a Primavera do pico de mortalidade associada à gripe e, mais interessante (mas muito mais especulativo), a subida de mortalidade dos últimos dias parece começar antes de começarem a ser atribuídas mortes ao Covid, o que poderá querer dizer (pura especulação, segundo aviso) que a epidemia já estava em curso, silenciosamente, antes de termos dado por ela, o que é coerente com o episódio dos doentes não diagnosticados com a covid em Santa Maria.

Procurando casar estas duas linhas de informação, o que me parece (eu não percebo nada disto, repito) é que se é verdade que esta epidemia não está a ter efeitos na mortalidade muito diferentes dos surtos gripais (podendo o seu efeito estar mesmo empolado pelo facto deste Inverno e o anterior terem sido bastante benignos do ponto de vista da gripe), esta doença não tem o mesmo impacto no sistema de saúde e nos profissionais de saúde por ser mais agressiva quando desencadeia pneumonias (os dois pulmões são afectados e a passagem para a falta de ar é mais rápida), a resolução do caso médico é bastante mais demorado (até por não haver medicação a que a pneumonia ceda) e a capacidade de contágio, que já de si é elevada (como a da gripe também é, não sei o suficiente para ter a menor ideia sobre se na mesma ordem de grandeza ou não), atinge especialmente os profissionais de saúde, nomeadamente porque as operações iniciais para ventilação do doente potenciam o contágio e alargam as formas de contágio.

Se isto for assim, é perfeitamente compreensível que uma doença cujo impacto na mortalidade seja semelhante ao de um surto gripal forte, tenha um impacto muito maior nos serviços de saúde (porque o tempo de ocupação de camas nos cuidados intensivos, por doente, é maior), e também no pessoal de saúde que está na linha da frente, onde existem muitos profissionais que manifestamente estão em grupos de risco, em especial os médicos homens mais velhos e experientes que têm histórias de tabagismo, hipertensão, diabetes, asma, etc..

E que isso potencie o medo social, até por esta tendência dos jornais para acharem que entrevistar bombeiros num decurso de um fogo é a melhor forma de produzir informação sobre a gestão do fogo: não é, é uma boa forma para dar emoção à informação, mas a informação não melhora com isso.

Como alguém poderia ter lido os meus posts anteriores como desvalorizando esta epidemia (e, provavelmente, teria lido com razão) achei por bem clarificar este ponto que, não alterando o meu ponto de vista sobre a gestão da epidemia numa óptica mais alargada, me faz dar mais importância ao aspecto da gestão dos serviços de saúde e dos profissionais de saúde.

Não é que eu passe a achar que é possível achatar curvas de epidemias instaladas com esta capacidade de contágio através de confinamentos sociais extensos, é simplesmente achar que, na protecção dos mais expostos, para além dos que estão nos grupos de risco que sempre identifiquei, a gestão dos serviços de saúde e dos profissionais de saúde, em especial os que estão em grupos de risco, deveria subir uns degraus na prioridade da preparação para um eventual novo surto no próximo Inverno.

Estado de sítio (11)

por João Távora, em 25.03.20

aquario.jpgCoronavírus hoje em Portugal – 2.995 casos, 43 vítimas mortais

As rotinas começam a implantar-se: pela fresca, antes de me sentar ao computador, atrevo-me a uma corrida de meia hora pelas redondezas, um exercício físico que me garante sanidade mental para o confinamento a que nos vamos habituando com o passar dos dias - com disciplina e menos altercações do que seria de esperar. Esta manhã quando batiam as 11,00hs nós os cinco respondemos ao desafio do Papa Francisco e rezámos um Pai Nosso em comunhão global. A oração em família é fundamental não só para fazer chegar o nosso clamor aos Céus, mas também para estimular o sentimento de corpo do grupo.
Com a família toda em casa dia após dia, temos estado a cozinhar a todo o vapor, a tentar agradar às hostes, mas chega a uma altura que o frigorífico se enche de caixinhas e tachos com restos, que hoje ao almoço serviram como uma refeição “extra”. O miúdo mais pequeno lá vai cumprindo as tarefas escolares a custo. Do colégio mandam-nos fichas e somos nós, os pais inocentes, que temos de assumir o difícil papel de professores. Comprova-se assim que o provérbio popular que diz “santos da casa não fazem milagres” não está longe da verdade. Ontem, quando nos apanhou a meio de uma conversa a respeito do COVID19 e a possibilidade de se alargarem os testes, disse logo que não, que sem aulas se recusava fazer testes.  
De resto foi sem grande espanto que constatei por uma sondagem do ICS e ISCTE para a SIC a união nacional que impera (acima dos 70%), na confiança depositada nas instituições nacionais pelos portugueses na gestão da crise. Nem Salazar nos seus melhores sonhos e melhores dias ambicionou tanta unanimidade. Perante o medo implantado e o estado de emergência, o governo e o presidente da república passeiam-se impantes na revista às tropas antes da grande batalha que está por vir. Não lhes desejo mal, mas sempre digo porque sei do que falo, que a propaganda é sempre a parte mais fácil (e mais frágil) da equação e os actores em causa nisso são artistas.
Hoje, dia de aniversário do nosso Príncipe da Beira Dom Afonso de Bragança, herdeiro da chefia da Casa Real Portuguesa, cá em casa rezaremos por ele e pelas intenções da sua família: que Deus os inspire e guie os seus passos, no difícil papel que lhes cabe nestes dias de aflição de estar ao serviço dos portugueses.
Finalmente, soubemos há pouco que, depois do Príncipe Alberto do Mónaco, agora foi o Príncipe Carlos do Reino Unido a dar positivo no teste do coronavírus. Definitivamente o vírus é republicano.

A (fraca) esperança da cura medica em Abril

por Corta-fitas, em 25.03.20

A vacina contra o Covid 19 está a mais de um ano de ser uma realidade. O desenvolvimento de um novo medicamento, não deverá acontecer tão cedo.

A grande esperança para podermos contar com um medicamento que alivie a gravidade da epidemia, serão drogas já existentes e que se mostrem eficazes no combate a uma doença para a qual não foram desenhadas.

A OMS lançou há uns dias um programa a que chamou Solidariedade, em que participantes em todo o mundo integrarão um gigantesco conjunto de ensaios clínicos.

São apenas 4 os medicamentos que são considerados, como verdadeiramente promissores.

REMDISIVIR

 Um medicamento falhado para o seu alvo original (Ebola), apresenta como referencias estudos laboratoriais e em animais de 2017, que comprovou a sua valia nos coronavírus que provocam a SAERS e MERS. Existem dois relatos de cura em doentes dados como terminais. Estão já em curso 6 testes clínicos, sendo que um deles ( doentes graves) deverá apresentar conclusões no dia 3 de Abril.

CLOROQUINA E HIDROXICLORAQUINA

Incluindo neste programa sobretudo pela publicidade que recebeu por parte de Trump gerando a necessidade de esclarecer a sua real valia. Tem um elevado nível de toxicidade e para além de um estudo com aparentes bons resultados, numa amostra muito reduzida que mereceu criticas dos especialistas, já foi considerado pouco ou nada eficiente noutro pequeno estudo realizado.

RITONAVIR/LOPINAVIR

Um medicamento desenvolvido para combater a HIV, foi testado com sucesso para a MERS em Saguis, embora tenha produzido resultados ambíguos em seres humanos, quer com MERS quer com SARS. O primeiro ensaio clinico contra o Covid 19, realizado num grupo de 199 pacientes reportado em 15 de Março, não validou o seu valor, mas os médicos alertam que a alta gravidade da condição dos pacientes não descarta a possibilidade da sua eficácia em estádios menos grave da doença.

Rironavir/lopinavir e interferon-beta

Uma variante do tratamento anterior que está a ser testada na Arabia Saudita para infectados com MERS.

Quase outros 100 medicamentos, como o Avigan/favipiravir ou Kevsara, estão, também, em ensaios clínicos fora do programa da OMS.

A falta de pistas verdadeiramente promissoras (com eventual exceção do REMDISIVIR) leva ainda a olhar para o passado e repristinar técnicas medicas caídas em desuso com as vacinas, como a transfusão de sangue de pacientes que tenham anticorpos formados em doentes infectados. Não será uma solução universal, mas poderá ser potencialmente útil em casos pontuais.

Certo é que, até Maio deveremos saber se podemos (ou não) contar com ajuda medicamentosa no combate e controlo da epidemia no curto prazo.

Depois das tentativas mais auspiciosas, encontrar um medicamento que já exista e seja eficaz, tornar-se-á cada vez menos provável.

Restará sempre o milagre do sempre imprevisível génio humano (leia-se iniciativa privada).

José Miguel Roque Martins
Convidado Especial*

* As opiniões manifestadas nos textos de convidados com a assinatura "Corta-fitas" só comprometem os seus autores.

É tempo de começar a pensar em remover medidas

por henrique pereira dos santos, em 24.03.20

Disclaimer: eu não percebo nada disto

"the Oxford results would mean the country had already acquired substantial herd immunity through the unrecognised spread of Covid-19 over more than two months. If the findings are confirmed by testing, then the current restrictions could be removed much sooner than ministers have indicated."

Este é um extracto de um artigo do Financial Times ("Coronavirus may have infected half of UK population") em que uma modelação teórica feita por quem sabe, sugere que apenas uma em cada mil pessoas infectadas precisam de tratamento médico, havendo um grau de disseminação pela população imensamente maior que o anteriormente esperado (ver aqui o estudo, eu não percebo metade do que lá está escrito, falta-me conhecimento).

Vai ser preciso confirmar com testes serológicos. Em princípio esta semana, na Holanda, sairá qualquer coisa sobre o assunto e há quem antecipe que as conclusões vão no mesmo sentido.

Se assim for, todas as premissas em que assentaram medidas radicais de contenção social ficam em causa, e é bom que se comece a ponderar seriamente na reversão das medidas mais graves para a economia, independentemente de se manterem as recomendações para uma grande contenção social e para a protecção dos grupos vulneráveis.

É possível que todo este alarido tenha sido claramente excessivo?

André Dias, que já aqui citei, e que sabe bastante mais disto que eu (não sendo difícil, ele sabe mesmo muito, muito mais que eu sobre o assunto) responde à pergunta:

"Os dados iniciais sobre surtos infecciosos são essencialmente ruído com muito pouco para usar como sinal. Primeiro, por algumas semanas não existe agente identificado, depois não há teste específico para o agente, depois só existem testes virológicos (onde estamos agora) e apenas depois aparecem testes serológicos / testes anticorpos.
Os testes virológicos só podem ser realizados em uma janela de tempo muito curto ou ser negativos, portanto, induzem um ruído gigantesco. Os testes serológicos indicam se alguma vez houve contacto com o vírus, para que possam ser feitos em amostragem e devolver dados estatisticamente significativos.
Não existem dados confiáveis para estimar a mortalidade a 1 % ou 5 %. Tudo isto é ruído. O número de pessoas infectadas pode ser o que sabemos ou 10 000 x maior (sim, dez mil vezes). Só com a chegada de testes serológicos começamos a ter uma imagem real de prevalência. Ainda na semana passada os Países Baixos anunciaram que tinham alcançado um teste de anticorpos desses e começaram a testar-se a si.
Para dar perspectiva, a gripe suína começou com estimativas de 30 % - literalmente extinção humana dentro de alguns meses - terminou abaixo de 1 %, abaixo da gripe sazonal e não fez mal. Este é o tipo de ruído com que estamos a lidar.
Os únicos dados minimamente confiáveis que temos de testes virológicos são do cruzeiro Diamond Princess, que esteve em quarentena, porque todas as pessoas a bordo foram testadas dentro de uma janela relativamente curta de tempo. Estes dados indicam 1 % de letalidade numa população muito antiga, num ambiente confinado e compartilhando uma cantina. Podemos ter a certeza de que o mundo fora do cruzeiro terá taxas muito mais baixas. Além disso, menos de 20 % das pessoas foram infectadas e ainda não há explicações para isso.
Uma vez que a letalidade não pode nem ser estimada, todo o raciocínio do medo e pânico é apenas vazio e irracional.
Extremo, extremo e paranóico cuidado é necessário com a libertação de dados iniciais sobre surtos, particularmente com letalidade. A Organização Mundial de Saúde deve responder criminalmente por não controlar estes dados e não garantir que indica a ordem de magnitude do ruído. Foi só e só isso que fez esse "surto"."

Abaixo dos mínimos

por José Mendonça da Cruz, em 24.03.20

Quando,  perante a incúria que levou à ausência (conveniente) de diagnóstico  de casos do coronavírus um membro do governo diz que «não há racionamento, há racionalização», e um presidente da república, tremendo de medo, apela à união nacional e diz que testes para todos seria mau, e os jornalistas tomam por boa a sentença do membro do governo... quando isto acontece, sabemos que estamos no reino da mais crua mediocridade. Quando vemos gente com luzinhas à varanda, quando ouvimos o novo jingle da Tvi, um produto da mais extrema imbecilidade segundo o qual «vai ficar tudo bem», e o povo faz coro e gosta, quando ouvimos Cabrita ufano por ter fechado mais de 200 estabelecimentos e mandado prender vinte e tal pessoas, confirmamos que não há esperança. A Sic diz-nos que a confiança nas instituições, DGS e PR e PM  incluídos, ultrapassa os 70%... É bem possível que sim, o que é uma confirmação ainda mais poderosa.

Eu não percebo nada disto

por henrique pereira dos santos, em 24.03.20

O título deste post é um disclaimer que vi usado recentemente a propósito do coronavírus e que adopto plenamente.

Só comecei a escrever coisas sobre isto porque o que via relatado não encaixava bem no que eu sabia sobre teoria da evolução e por isso comecei a fazer perguntas.

Devo dizer que frequentemente, sobre qualquer assunto, isto me acontece, não perceber nada do assunto, alguma coisa ficar desfocada, não bater certo com o que sei e eu começar a fazer perguntas. Foi assim que também comecei a escrever sobre fogos, assunto sobre o qual não tenho uma linha de investigação séria.

Em 99% das vezes em que isto acontece, o problema está no que eu sei, as minhas dúvidas são ignorância, alguém responde às minhas perguntas e eu meto a viola no saco.

Mas, às vezes, como é o caso do coronavírus, as minhas dúvidas vão-se adensando e encontro alguém que me dá uma explicação melhor que a corrente para o assunto, neste caso tem sido sobretudo o André Dias.

Agora o Pedro Bingre mandou-me a ligação para este documento que, no essencial, sintetiza a visão alternativa que me parece encaixar melhor no que sei de biologia da evolução.

Pode estar errada, claro, mas aqui fica uma síntese (cliquem no pequeno extracto e leiam o texto original todo, que vale a pena, mesmo sabendo que pode estar errado).

"March 23, 2020 (II)
Former Israeli Health Minister, Professor Yoram Lass, says that the new coronavirus is „less dangerous than the flu“ and lockdown measures „will kill more people than the virus“. He adds that „the numbers do not match the panic“ and „psychology is prevailing over science“. He also notes that „Italy is known for its enormous morbidity in respiratory problems, more than three times any other European country.“
Pietro Vernazza, a Swiss infectious disease specialist, argues that many of the imposed measures are not based on science and should be reversed. According to Vernazza, mass testing makes no sense because 90% of the population will see no symptoms, and lockdowns and closing schools are even „counterproductive“. He recommends protecting only risk groups while keeping the economy and society at large undisturbed.
The President of the World Doctors Federation, Frank Ulrich Montgomery, argues that lockdown measures as in Italy are „unreasonable“ and „counterproductive“ and should be reversed.
Switzerland: Despite media panic, excess mortality still at or near zero: the latest testpositive „victims“ were a 96yo in palliative care and a 97yo with pre-existing conditions.
The latest statistical report of the Italian National Health Institute is now available in English."

Montra

por José Mendonça da Cruz, em 23.03.20

A entrevista de Miguel Sousa Tavares e José Alberto Carvalho ao primeiro-ministro, agora, na Tvi é a demonstração do que é um jornalista, e do que não é.

Estado de sítio (10)

por João Távora, em 23.03.20

Yellow-Submarine.jpg

Coronavírus hoje em Portugal – 2.060 casos, 23 vítimas mortais

Aqui no confinamento os dias começam a ser muito iguais uns aos outros, não inspiram grandes crónicas. A nossa gente está bem, os nossos trabalhos a partir de casa e a gestão das tarefas domésticas começam a tornar-se rotina – a tripulação cumpre as tarefas e adapta-se à nova vida, conquistando os seus recantos de privacidade para sanidade mental de todos.
Tentando olhar mais à frente: desconfio que nos espera um governo do bloco central para gerir a crise. Não é preciso ser muito imaginativo para adivinhar o que aí vem quando voltarmos à rua e o centro político em protesto tiver mudado de posição. O regime como o conhecemos vai ter de se segurar ao parapeito, e isso é uma coisa boa.
Não nos falhe o ganha-pão, que por cá temos muita literatura e boa música. 



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

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