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A presunção e a estupidez urbanas exibem-se em cartaz

por José Mendonça da Cruz, em 16.09.19

Na Autoestrada 2, a do Algarve, há painéis luminosos que advertem (segurem-se e suportem o ridículo) em nome do «Portugal (que) chama», para que, sendo embora esta a fase mais alta e activa da temporada agrícola, no entanto «com vento e calor não opere máquinas agrícolas».

Os imbecis e ignorantes que conceberam estas recomendações sugerem, portanto, que no próximo ano não se coma nada ou, então, se importe tudo. Poderia explicar porquê, mas seria em vão. 

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Ide cavar batatas

por henrique pereira dos santos, em 15.09.19

"Mas este é um cenário urbano, informado, que representa apenas uma parte do país. Do outro lado da balança está o eleitor mais distante ou menos informado, mais disponível para votar se for incentivado directamente. Para Rui Oliveira e Costa, o factor que mais pesa numa vitória eleitoral é o caciquismo.

...

Eu poria transportes públicos gratuitos no dia das eleições. Defendo tudo o que sirva para combater a abstenção".

E é isto que elite cultural, urbana, informada, que publica no Público, ou noutro jornal de referência, pensa da "província" a propósito de eleições (ou de entradas na universidade, ou de exposições de biodiversidade, ou de fogos florestais, ou de descarbonificação da economia, ou do que quer que seja).

O que eu sugiro a Leonete Botelho que escreve coisas destas, ou Oliveira e Costa, que sugere coisas destas, é que, de vez em quando, saiam dos circuitos fechados em que vivem e vão, por exemplo, cavar batatas ao lado de qualquer um desses eleitores distantes e ignorantes (suponho que pensam que é a única actividade desses pobres coitados).

Não acredito que o trabalho vos renda muito (até porque provavelmente descobrirão que os eleitores distantes e mal informados vos mandam sozinhos para o campo porque estão a organizar um esquema de adopção de cabras, pela internet, para gente de todo o mundo, como forma de aumentar a competitividade do seu negócio) mas sempre terão oportunidade de verificar, por si próprios, que "nestes vagos" não há transportes públicos, para além dos táxis que têm pouca vontade de fazer borlas nas poucas oportunidades que têm para ganhar a vida.

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Domingo

por João Távora, em 15.09.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa». Jesus disse-lhes ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado».


Palavra da salvação.

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"The man ain't got no culture"

por henrique pereira dos santos, em 14.09.19

Tenho escrito com regularidade sobre a gestão do Fundo Ambiental (não sobre a gestão técnica, mas sim sobre a gestão política) e o essencial do que penso sobre o assunto está aqui.

E faço já uma declaração de interesses: até Dezembro deste ano eu sou presidente de uma associação de conservação da natureza que tem sido beneficiária do Fundo Ambiental e tencionamos continuar a concorrer a todas as oportunidades que nos forem dadas, portanto, estou potencialmente a escrever em causa própria (mesmo que não pessoal, esta associação tem clausulas estatutárias que impedem os seus dirigentes de ter relações económicas com a associação).

Ora a propósito da inauguração, hoje, de um passadiço pelas copas das árvores de Serralves, eu voltei a escrever uma coisa qualquer, provavelmente por causa disso ligou-me uma jornalista a perguntar-me a minha opinião sobre o assunto, e eu expliquei que não tinha nada contra o passadiço, tenciono lá ir quando tiver oportunidade, acho que pode ser uma coisa com interesse, mas era frontalmente contra o seu financiamento pelo Fundo Ambiental.

Por causa desta notícia do Público, um simpático membro da nossa elite cultural (não estou a ser irónico, é-o de facto, por mérito próprio, não tem qualquer relação, que eu saiba, com Serralves e nenhum interesse directo no assunto) deu-se ao trabalho de me escrever um mail curto: "Desculpe lá, o meu amigo o que é é um chato e um inculto". Respondi o mais simpaticamente que sei (não sou muito bom nisso, sou completamente incompetente do ponto de vista social) dizendo que era o mais que faltava que alguém me pedisse desculpas por constatar factos.

Já da outra vez, quando escrevi o tal artigo que liguei acima ("Um bolso sem Fundo") tinha recebido um telefonema, bastante cordial, do vereador de Lisboa que tutela este assunto a explicar-me como todo o país iria beneficiar dos 750 mil euros gastos em Lisboa com a exposição sobre biodiversidade, porque seria uma fantástica montra do país que, com certeza, iria promover a economia das regiões presentes na exposição.

Pelo que percebo, apesar de escrever regularmente sobre o assunto, talvez não esteja a explicar-me bem sobre o que são as minhas objecções às opções políticas sobre o Fundo Ambiental.

Há um tipo de objecções mais geral que se prende com o facto dos milhões do Fundo (420 milhões em 2019) serem decididos por mero despacho do Ministro do Ambiente, sem qualquer discussão aberta desta afectação, o que resulta, por exemplo, na atribuição rápida de 104 milhões para apoiar a baixa dos preços dos passes dos transportes públicos (essencialmente Lisboa, um bocado Porto, e uns trocos para a paisagem que tem transportes públicos), sem que um único jornalista, que eu tenha dado por isso, questione o Governo, dia sim, dia não, pela opção de financiar uma medida estrutural a partir de uma origem de fundos contingente e circunstancial.

Há outro tipo de objecções que é o que motiva este post.

O Fundo Ambiental (como o Fundo Florestal, e de certeza que há outros) é uma oportunidade, limitada é certo, para pagar a gestão dos serviços de ecossistema que nos beneficia a todos, mas que o mercado não remunera.

Afectá-lo a coisas fantásticas, mas que podem aceder a outros meios de financiamento, seja o mercado puro e duro (as entradas no tal passadiço de Serralves ou na tal exposição lisboeta), seja no mercado da paz de espírito em que se movem os mecenas, seja ainda na taxação específica que existe, como a taxa turística, que representa uns milhões em qualquer destas duas cidades (qualquer coisa acima de 30 milhões em Lisboa e de dez milhões no Porto), deixando à mingua o pagamento dos serviços de ecossistema que ninguém paga (desde logo, os serviços de gestão do fogo, isto é, o pagamento da gestão de combustíveis) é uma opção moralmente errada, éticamente indefensável e que, convenhamos, contribui para os efeitos trágicos dos grandes fogos que são alimentados pela falta de gestão de territórios sem futuro económico de curto prazo.

Eu compreendo a opção política, os votos estão em Lisboa e Porto, o resto é paisagem e já se percebeu que nem quando ardem meio milhão de hectares no país isso tem qualquer efeito nas perspectivas eleitorais de quem tem de tomar decisões.

Por isso, mais sábio que escrever esta catilinária teria sido completar logo o título do post "But it's alright, Ma, Everybody must get stoned".

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Costa quer mandar prender as pessoas que considerar perigosas

por José Mendonça da Cruz, em 13.09.19

António Costa propôs hoje um remédio para os fogos que grassam por Portugal: a prisão preventiva de incendiários renitentes que, diz ele, são «conhecidos das autoridades».

A propaganda socialista atinge, portanto, terrenos criminosos. Sendo que, segundo a propaganda de Costa, os fogos em Portugal não resultam de incompetência, ignorância, apatia e decisões erradas e onerosas, mas apenas de fogo-posto, o que o actual primeiro-ministro vem defender é que sejam enviadas para a prisão, não pessoas que cometeram crimes, mas as pessoas que, segundo o poder socialista, podem vir a cometer crimes.

Sendo o «jornalismo» e o comentário português o que são, não se prevê nenhum sobressalto perante esta posição ditatorial e indigna. O «jornalismo» e o comentário aplaudiriam até, decerto, se Costa, coerentemente e perante uma nova crise económica, mandasse prender capitalistas por putativa «sabotagem». No fim de contas, para a propaganda socialista as coisas não são o que são, são o que a propaganda disser.

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"Deixai toda a Esperança, ó vós que entrais"

por henrique pereira dos santos, em 13.09.19

"Os ministros da Defesa e da Agricultura fizeram esta quinta-feira, em Alcanena, um balanço positivo do programa conjunto de vigilância preventiva de incêndios Faunos, salientando a “redução sistemática, ano após ano, do número de ignições” nas áreas protegidas."

Esta frase é muito interessante porque atribui a um programa muito recente de colaboração contratual entre diferentes organismos do Estado a diminuição de ignições que realmente se verifica há muitos anos (Portugal diminuiu o número de ignições em praticamente um terço, nos últimos anos).

Essa vigilância é paga, uma espécie de pescadinha de rabo na boca em que o Estado impõe aos contribuintes um tributo para um fim de interesse comum, fá-lo entrar numa caixinha de surpresas retóricas e, no fim, entrega o tributo às forças armadas sugerindo que as forças armadas têm uma nova missão, paga pelo seu orçamento, quando na verdade estão a prestar um serviço cobrado a outras entidades do Estado.

Até aqui, nada de novo, faz parte da demagogia normal na gestão pública e em democracias maduras seria fortemente escrutinada, embora em Portugal seja comprada pelo seu valor facial.

O problema está no que vem depois:

"Capoulas Santos salientou o contributo do programa, que coloca patrulhas no terreno e disponibiliza um meio aéreo não tripulado, para a redução do número de ignições nas áreas protegidas e para uma atuação “no primeiro momento, impedindo que o incêndio atinja proporções que depois é mais difícil controlar” e tornando mais eficaz o sistema de combate."

E é um problema porque é uma doutrina largamente consensual, da esquerda à direita, e tem largo curso nas redacções dos jornais, apesar das pessoas que estudam o assunto a acharem profundamente errada e contra-producente o que, na generalidade dos países com grandes problemas de fogo semelhantes aos nosso, tem provocado o seu abandono e a substituição por doutrinas que pretendem integrar o fogo na gestão da paisagem, em vez de o excluir.

Portugal continua alegremente convencido de que a gestão do fogo se faz chegando o mais rapidamente aos fogos para apagar os fogos nascentes, centrado no facto de isso resultar em 98% das ignições, e esquecendo-se que são os restantes 2% que são responsáveis por 90% da área ardida e pelas maiores perdas humanas, de infraestrutura e económicas.

Esta doutrina não está só errada, apesar de largamente popular, nomeadamente entre o dispositivo de combate ao fogo, esta doutrina está na base das tragédias cíclicas e, por isso, é verdadeitamente uma doutrina que mata gente.

Aparentemente, isso não comove muita gente.

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"A Casa da Memória Viva"

por João-Afonso Machado, em 12.09.19

CAMINHADA ALZHEIMER 2019.JPG

Curiosamente, a ideia, logo à nascença, foi criada e logrou crescer sob a batuta de sete amigos que já o eram nos recuados tempos da vida estudantil.

E a ideia, tão-somente, consistia na criação de um universo onde as figuras centrais fossem os doentes do foro degenerativo mental. Mormente os que padecem do terrível (e muito frequente) Alzheimer.

Assim se constituiu, por escritura pública de 17 de Maio do corrente ano, a Casa da Memória Viva – Associação Cívica Famalicense. Uma instituição obviamente aberta a todas as colectividades e gentes da nossa terra a quem o drama dos afectados por tais males não seja indiferente.

Burocracias à parte, devo acrescentar – porque conheço o projecto desde o início – quanto me encantou o alcance dos sonhos acalentados e a quererem dar passos firmes, reais, ao longo de tantas reuniões dos fundadores. Digo assim visto não estar em causa, apenas, a angariação de fundos a reverter para o bem-estar dos doentes.

Esse é, realmente, um importantíssimo objectivo. Mas a Casa da Memória Viva pretende dar-lhes mais. Quanto possível pretende dar-lhes o retorno ao mundo, um lugar na sociedade, abrir-lhes todas as possíveis janelas à sua capacidade cognitiva.

Pretende, também, intervir na formação daqueles que, familiares ou não dos doentes, os acompanham e suprem as suas falhas, as suas limitações. Esses para quem, entretanto, foi criado o designativo de “cuidadores”.

Estamos perante um vasto campo de actividade. Ainda mais atraente se pensarmos em idosos de repente transportados aos dias de outrora através da reconstituição das indumentárias, das imagens, da música, de tudo quanto poderão guardar ainda na memória, geralmente os quadros mentais mais antigos.

Ou seja, a componente museológica é um outro propósito da Casa da Memória Viva, na sequência dessa tentativa de recriação de uma realidade capaz de despertar a atenção e os sentidos de pessoas cuja existência, infelizmente, vai adormecendo.

Todos estes planos só vingarão com a participação de um número elevado – o mais elevado possível – de famalicenses: em prol dos afectados por doenças que um dia podem bater à porta de qualquer um de nós; buscando e alcançando a consolidação de um projecto decerto pioneiro a nível nacional

Ouvi nas caminhetas, a fé no seu sucesso é total. A seu tempo surgirão os espaços necessários, os meios técnicos adequados, porque gente é quem já vai muito batendo à porta da Associação.

Uma primeira iniciativa pública de divulgação, está agendada para o próximo dia 21 de Setembro (Dia Mundial da Doença de Alzheimer), entre as 10 e as 12 horas, no Parque da Juventude, com uma pequena visita por trechos da cidade antiga. Apareçam todos!

(Nesse sentido, aqui fica o contacto para eventuais inscrições: www.casamemoriaviva.pt).

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 12.SET.2019)

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Para que servem os novos partidos?

por João Távora, em 10.09.19

carlos guimaraes pinto.jpg

Apesar de no nosso sistema eleitoral a dispersão da direita em facções mais definidas significar inevitavelmente a perda da sua representatividade parlamentar, como referi aqui há dias a outro propósito, considero saudável o surgimento dos novos partidos a concurso nas eleições de 6 de Outubro. Neste julgamento onde não incluo o partido de Pedro Santana Lopes, que mais do que uma corrente ideológica representa apenas o candidato derrotado das directas do PSD que decide correr por fora, refiro-me ao Iniciativa Liberal e ao Chega.
Começando pelo último, tenho para mim que o partido do André Ventura poderá ter a virtude de vir a acolher a direita reaccionária (na verdadeira acepção do termo) que desde o 25 de Abril, apesar de não gostar muito de eleições, se sente órfã de representação. O Chega poderá ser útil para se perceber o real peso dessa facção em Portugal, que não é mais do que o avesso do espelho do Partido Comunista: de ruptura, nacionalista, anticapitalista e securitária. Já a Iniciativa Liberal traz para o concurso, também de forma descomplexada, o liberalismo puro e duro, uma utopia que numa nação centralista e paternalista como a portuguesa ainda tem mau nome. Talvez por isso sujeito a um sucesso limitado, o partido de Carlos Guimarães Pinto tem a virtude de trazer para a discussão pública os limites da intervenção do Estado e do individualismo, ou da maturidade da sociedade civil para tomar conta dos próprios desígnios.
Ao contrário do que possa parecer, o PSD, o CDS (e o país em última análise) têm muito a ganhar com o alargamento do debate que estes novos partidos potenciam. Certo é que a direita, se quiser um dia quiser voltar ao poder para fazer obra, terá de ter capacidade para de novo juntar todas partes que sejam compatíveis, não se esqueçam disso.

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O Erasmus do interior e as coisas simples

por henrique pereira dos santos, em 10.09.19

Há já bastantes anos, Jorge Moreira da Silva foi o Secretário de Estado que tutelava as áreas protegidas e resolveu sugerir que se fizesse uma coisa semelhante à que tinham tido os seus filhos em Bruxelas, a semana de neve, a semana de praia e a semana de campo, coisas deste tipo, mas viradas para as áreas protegidas.

Quiseram os astros que eu fosse o dirigente do ICN que tinha esse pelouro, e portanto acabámos a inventar um programa de escola de natureza, cujo objectivo era levar todos os miúdos do oitavo ano a ter uma experiência positiva de contacto com uma área protegida, na altura seriam uns 130 mil.

A ideia era que qualquer professor pudesse levar os meninos para três dias e duas noites para uma área protegida e a explorasse pedagogicamente, fosse o mais óbvio dos professores de estudo do meio, fosse o menos óbvio professor de educação física que levasse os meninos para aulas de surf no Sudoeste Alentejano.

O essecial era que fossem e tivessem um contacto positivo com as áreas protegidas.

Orçamentou-se a coisa (uns 10 milhões anuais, na altura), procuraram-se recursos (as famílias, mas também empresas e outros mecenas, poderiam facilmente pagar metade, assegurando o Estado o pagamento dos meninos da Acção Social) e depois tudo chocou no Ministério da Educação que argumentou que o ensino era gratuito e portanto não se podia fazer um programa pago parcialmente pelas famílias, e não se podia fazer o programa gratuito porque não havia dinheiro.

Desde essa altura que continuo a procurar fazer isto, a escalas mais pequenas, claro, e não tenho dúvida de que um dia isto se fará, permitindo uma transferência de recursos brutal do litoral, onde estão a maioria dos alunos, para o resto do país, onde estão a maioria das áreas protegidas, com 250 mil dormida em época baixa e ao dia de semana e meio milhão de refeições cujo impacto pode ser potenciado com o uso de produtos locais.

Era só isto o que queria dizer, que se deixem de parvoíces como os Erasmus no interior e se concentrem em coisas simples, fáceis de montar e com efeitos reais na vida das pessoas.

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O milagre das mercearias finas

por João Távora, em 09.09.19

evaristo.jpg

Uma prova de que o saudosismo o mais das vezes é fruto da falta de memória ou da imaginação fértil é o que acontece por estes dias em que o conceito de "Mercearia" está na moda, associado erradamente a qualidade e sofisticação. De facto, por todo o lado hoje florescem lojas com produtos “gourmet” que estranhamente ostentam a designação de “mercearias” que ao tempo da minha juventude não eram mais do que pequenas e obscuras lojas, o mais das vezes contiguas à residência do proprietário, que cheiravam a ranço e tinham um pouco de tudo o que não fosse fresco, e onde se aproveitava a familiaridade com o freguês para lhe conceder crédito, vender o refugo e carregar nos preços.

Na imagem: cena na Mercearia do Evaristo, do filme O Pátio das Cantigas realização de Ribeirinho em 1942. 

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As barragens e os amigos de Catarina

por henrique pereira dos santos, em 08.09.19

Por esta altura já toda a gente terá sabido que Catarina Martins, naquela sua forma de largar torrentes de palavras tenuemente ligadas por uns restos de lógica formal, disse que haver evaporação nas barragens era um grande problema que estaria a fazer o país perder água (de caminho sugeriu a naturalização dos rios para resolver o problema, provavelmente sem se lembrar da tremenda evapotranspiração das superfícies cobertas de plantas).

Quem viu a declaração deve ter visto que Catarina Martins, ela própria, no momento, percebeu que disse qualquer coisa estranha e devo dizer que não me faz confusão nenhuma que alguém tenha um deslize monumental em qualquer altura. Pode-se brincar com assunto, tenho visto umas boas piadas e muito mais más piadas sobre o assunto, e em condições normais não passaria disto, um assunto sem grande assunto.

O que acho deprimente é a quantidade de amigos de Catarina que em vez de se limitarem a encolher os ombros, rir-se, dizer que realmente foi um grande disparate, mas pode acontecer a qualquer um, se desdobraram a tentar demonstrar que Catarina tinha razão, é verdade sim senhora que há evaporação nas barragens e há até abundante literatura científica sobre o assunto, o que demonstra que é um assunto relevante.

Claro que é um assunto relevante do ponto de vista da gestão das barragens e da avaliação do seu potencial uso (a água que se evapora a partir da albufeira, por definição, não pode ser usada para os fins que justificaram a barragem), mas simplesmente não foi nada disso que Catarina disse, o que disse é que isso é um problema porque faz o país perder água, o que não aconteceria sem as barragens e, isso sim, é uma tolice.

Ora, na verdade, o que estes amigos de Catarina são é uns grandes amigos de Peniche, os que forem verdadeiramente amigos dela não tentam defender o indefensável com argumentos entre o pueril e o desonesto, os que forem verdadeiramente amigos dela irão ter com ela, rir-se, dar-lhe umas palmadas nas costas, dizer-lhe que realmente é chato quando se diz um disparate destes para largas audiências, mas o melhor é esquecer o assunto e vamos lá beber um copo, como a outra senhora que dizia frequentemente ao marido que, sendo impossível deixar de fazer tantas gafes, pelo menos não as tentasse corrigir.

E nada disto teria a menor importância se não fosse o facto de este comportamento de fidelidade canina estar tão entranhadamente presente na esquerda actual: o que quer que seja o que seja dito pelos nossos, é preciso defender o que foi dito, não porque seja verdade ou mentira, certo ou errado, mas porque é dito pelos nossos.

Não admira por isso que a esquerda vá governando cada vez pior, porque lhe vai faltando a lucidez e o rigor da crítica interna: aparentemente, talvez com razão, esta esquerda acha que, para este eleitorado, bacalhau basta.

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Domingo

por João Távora, em 08.09.19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas


Naquele tempo, seguia Jesus uma grande multidão. Jesus voltou-Se e disse-lhes: «Se alguém vem ter comigo, e não Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, aos filhos, aos irmãos, às irmãs e até à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo. Quem de vós, desejando construir uma torre, não se senta primeiro a calcular a despesa, para ver se tem com que terminá-la? Não suceda que, depois de assentar os alicerces, se mostre incapaz de a concluir e todos os que olharem comecem a fazer troça, dizendo: ‘Esse homem começou a edificar, mas não foi capaz de concluir’. E qual é o rei que parte para a guerra contra outro rei e não se senta primeiro a considerar se é capaz de se opor, com dez mil soldados, àquele que vem contra ele com vinte mil? Aliás, enquanto o outro ainda está longe, manda-lhe uma delegação a pedir as condições de paz. Assim, quem de entre vós não renunciar a todos os seus bens, não pode ser meu discípulo».


Palavra da salvação.

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Ideias feitas

por João Távora, em 06.09.19

Há só uma coisa de que o Filipe Nunes Vicente (que já aqui teve lugar cativo) gosta tanto quanto de partir: voltar. É assim há anos, a rabiar a ligeireza das rotinas e dos clichés, do linear, da previsibilidade. As pessoas livres também são assim, e a boa notícia é de que o Filipe, o eterno exilado (não somos todos?), está de volta ao Twitter e aos blogues, com ideias feitas... pelo próprio.  

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Atrás de mim virá...

por João Távora, em 06.09.19

Imperialismo.jpg

O candidato democrata norte americano Bernie Sanders não tem pudor e avisa que os contribuintes americanos deverão patrocinar o aborto, especialmente nos países pobres, com vista ao combate ao aquecimento global. Eu ainda me consigo espantar. 

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Cuidado com o que desejas...

por João Távora, em 05.09.19

iniciativa liberal.jpg

Com a chegada dos ultraliberais da IL do Carlos Guimarães Pinto à disputa eleitoral (facto que a par com o novo partido de direita radical de André Ventura para todos os efeitos me parece uma boa notícia), encontro num comentário a este texto de Pedro Borges de Lemos a controvérsia sobre uma suposta incompatibilidade do liberalismo com o comunitarismo. Serão os corpos intermédios e o associativismo forças antiliberais? A minha resposta é que não. Porque sendo eles emanação da vontade dos indivíduos livremente associados, constituem contrapesos essenciais para uma sociedade mais livre. Tenho para mim que a atomização social (fruto do individualismo) só serve para dar força ao Estado, que assim obtém um controlo efectivo sobre cada pessoa fragilizada porque descontextualizada e sem pertença. Ou seja, o liberalismo é defendido se o Estado for reduzido à expressão mínima e se no seu lugar, os indivíduos forem devidamente representados por instituições orgânicas de proximidade emergentes da sociedade civil com a família natural como célula base. Em tempos, nesta fórmula, caberia na parte superior da pirâmide aos municípios a gestão da coisa pública - hoje não tenho a certeza, tendo em conta a sua captura pelos partidos políticos e o declínio das velhas comunidades históricas e a concentração populacional em megametrópoles.
Pela minha parte revejo-me no CDS de Assunção Cristas. Entendo que faz falta a um país civilizado um partido conservador, que por natureza é moderado e não se envergonha de defender o comunitarismo integrando valores liberais eminentemente cristãos: cada indivíduo é de facto um ser único criado à imagem de Deus e capacitado de livre arbítrio. Mas nunca uma criatura de geração espontânea, sem contexto ou pertença, qual folha em branco, sem história ou sentido critico e à mercê das tendências conjunturais e da manipulação pelos mais poderosos – no caso, o Estado em roda livre. Agora, imaginem a quem melhor serve a brutal evolução da informática em rede nos últimos 20 anos. Há pouco mais de cem anos apenas os presos tinham algo parecido com um bilhete de identidade; posteriormente, a república alargou esse “privilégio” aos funcionários públicos; hoje, um quadro médio das Finanças sabe onde passei as férias, com quem trabalho, que livros leio e que tabaco fumo. Voltando à questão inicial: será o reforço e promoção dos corpos intermédios (a começar pela família) e do associativismo política antiliberal? Não tem sido a esquerda em nome da liberdade a promover o hiperindividualismo e o experimentalismo nos costumes? Vocês conseguem dormir descansados?

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O poder socialista já nos tinha habituado a uma linguagem rude (recordam-se do “quem se mete com o PS…leva!”) mas hoje ainda conseguiu baixar mais o nível com o Ministro da educação a afirmar que “direita está tão à rasca que se entrincheirou e, ao acantonar-se, acabou por meter-se e agarrar-se às casas de banho”. É inacreditável que um Ministro, ainda para mais da Educação, use linguagem ordinária. É que “rasca” está no dicionário e a expressão “à rasca” é típica do argumentário de baixo nível. Tiago Brandão Rodrigues ao optar por esta linguagem revela, sim, o desespero em que se encontra por temer não ser conduzido como Ministro da Educação. A política de educação do governo, assumida por este ainda Ministro, tem sido uma verdadeira nódoa e por isso, como diria o Eça de Queirós, não cairá mas terá de ser removida com benzina. É que quem está verdadeiramente acantonado é o ministro que se entrincheirou numa linguagem de esgoto.

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Sobre dias como estes

por henrique pereira dos santos, em 05.09.19

Paulo Fernandes escrevia ontem ou anteontem que embora as condições favoráveis ao fogo sejam muito acentuadas nestes dias (mais de 50% de probabilidade de um fogo maior que 100 hectares em vários distritos e mais de 50% de probabilidade de um fogo maior que 1000 hectares em dois deles, Viseu e Santarém, se não me engano), a verdade é que as condições mais críticas se localizavam em áreas extensamente ardidas nos últimos anos, portanto a probabilidade de um grande desastre está muito diminuída.

Isto é uma boa demonstração da necessidade de reduzir combustíveis para reduzir o risco, porque não é melhorando o sistema de combate e diminuindo ignições (já agora, as ignições, em Portugal, diminuíram 30% nos últimos anos, sem nenhum efeito prático na área ardida) que vamos lá.

O que se está a passar nas tais áreas ardidas há dois anos ou três anos é simplesmente deprimente.

Não por estarem a rebentar os eucaliptos ou por estar a verificar-se uma intensa recuperação da vegetação, isso é da natureza das coisas e uma riqueza, mas simplesmente porque não se vislumbra de que forma se está a aumentar a gestão do território que permita gerir esses combustíveis.

Num horizonte de dez a quinze anos, a manter-se a situação, dias como estes que agora começam, até Domingo, trazem sempre consigo um enorme potencial de tragédia. E, mais grave, se se conseguir gerir a situação em dias como estes, com um dispositivo muito eficaz na supressão do fogo, está-se apenas a criar as condições para um desastre maior em dias ainda mais agrestes, que também os há.

Até Dezembro sou presidente de uma associação que acabou de comprar uns terrenos (11 hectares) em Pampilhosa da Serra. Neste Sábado temos em Cabril um colóquio sobre a paisagem de todos, gerida por todos, ou um tema assim, onde vamos ter gente a falar da forma como estão a gerir terrenos aqui e ali.

Pois bem, a Câmara não consegue ter ninguém para lá dar um salto, nem que seja para dar as boas vindas, o Presidente de Câmara nem sequer responde aos mails de apresentação de um minúsculo operador que vem trazer um bocadinho de gestão a paisagens completamente ao abandono (é uma coisa estranha, eu mando um mail para um professor de Harvard ou de uma dessa universidades de topo mundiais, e recebo uma resposta, eu mando um mail para o assistente estagiário de uma universidade portuguesa, e não tenho qualquer resposta, há, em Portugal, instalada uma cultura de ausência de resposta a contactos que não entendo de todo).

Isto seria o menos, nós somos um pequeno operador, a área que gerimos é mínima, não temos dinheiro e portanto o efeito do que fazemos, por si, claro que não resolve nada em Pampilhosa da Serra.

O problema é que o Estado central também acha que contar com quem faz alguma coisa é irrelevante, e prefere desenhar programas de apoio para quem acha que devia fazer alguma coisa, da forma como o governo entende, nos sítios que o governo entende, mesmo que, ano após ano, os que fazem alguma coisa (pastores, alguns gestores de baldios, proprietários, etc.) continuem a fazê-lo em esforço, quando não desistem, e o dinheiro atirado para cima dos problemas desapareça, mas o problema não.

O problema é que o Estado central mobiliza a GNR para garantir a repressão dos comportamentos que o Estado acha ilegítimos, mas é incapaz de mobilizar e capacitar a GNR para apoiar os que por lá andam a fazer alguma coisa, trabalhando o fogo controlado, percebendo os constrangimentos que impedem as pessoas de gerir o território (umas vezes são económicos, mas outras vezes são adminitrativos, regulamentares, de conhecimento ou de falta de parceiros, etc.) ou simplesmente estando presentes quando fazem falta.

O problema é o Estado central se estar nas tintas para a enorme dimensão dos roubos em espaço rural, roubos de gado, roubos de pinhas, roubos de cortiça, roubo de equipamentos, roubo do combustível das máquinas que trabalham por esses confins do mundo, demitindo-se das funções básicas que lhe compete assegurar, como a segurança de pessoas e bens.

Por estes dias o que não faltam são pessoas coladas aos ecráns e olhar para a linha do horizonte para tentar mitigar o efeito dramático que o abandono provoca nos fogos florestais.

Mas no resto do ano, no resto dos dias, quando na verdade se poderia começar a ir gerindo o problema do fogo do próximo Verão, são na verdade muito poucos os que continuam a insistir que assim não vamos lá, é mesmo preciso desencantar o conhecimento e outros recursos sem os quais não vai haver gestão nenhuma destas terras.

E, sem isso, tanto pode ser nestes dias ou num outro Verão, o resultado não tem como ser outro.

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O ciclo da água, conhecido cientificamente como o ciclo hidrológico, refere-se à troca contínua de água na hidrosfera, entre a atmosfera, a água do solo, águas superficiais, subterrâneas e das plantas. A ciência que estuda o ciclo hidrológico é a hidrologia.  

A água move-se perpetuamente através de cada uma destas regiões no ciclo da água constituindo os seguintes processos principais de transferência: Evaporação dos oceanos e outros corpos d'água (rios, lagos e lagunas) no ar e a evapotranspiração das plantas terrestres e animais para o ar.
Precipitação, pela condensação do vapor de água do ar e caindo diretamente na terra ou no mar.
Escoamento superficial sobre a terra, geralmente atingem o mar.
A maior parte do vapor de água sobre os oceanos retorna aos oceanos, mas os ventos transportam o vapor de água para a terra com a mesma taxa de escoamento para o mar, a cerca de 36 Tt por ano.

Basta ir à wikipédia para perceber que Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, quis dar uma de ambientalista e zás saiu-lhe um disparate em direto. Aqui está um belo exemplo de como a agenda de esquerda atropela o conhecimento.

Disse Catarina Martins que: "Nós temos um problema, temos barragens a mais. As barragens provocam a evaporação de água e portanto nós estamos  sempre a perder água".

 Há muita água metida neste pensamento da líder do BE. Como se nos rios e nos oceanos a água não evaporasse. Será que também temos rios, lagos, barragens naturais e oceanos a mais, na visão da Catarina Martins?

Bem sabemos que Catarina Martins é avessa a reconhecer a soberania da lei da natureza, mas a natureza não se preocupa muito com isso.

Chuva, cara Catarina, é a resposta à sua inquietude com a evaporação da água no Verão.

Na natureza nada se perde, tudo se transforma, já dizia Lavoisier.

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Se não gostam dos meus princípios, tenho aqui outros

por henrique pereira dos santos, em 04.09.19

Ao que parece, a maior parte das pessoas interessaram-se pela súbita conversão de Catarina Martins à social-democracia (confesso que não sei do que fala, os países nórdicos são dos países mais liberais do mundo, incluindo do ponto de vista económico, é verdade que a rede eléctrica de alta tensão na Suécia é de uma empresa estatal, mas depois existem uns 170 operadores de redes eléctricas) e alguns entretiveram-se com o deslize das barragens.

Devo dizer que a mim me interessou mais um outro aspecto: "O horizonte de transformação é importante não só para a construção de maiorias sociais que sejam mais ambiciosas para uma nova estrutura da economia, como também para ter a ousadia de arranjar soluções mais de imediato para os problemas que existem, em vez de estarmos sempre a defender a permanência do estado de coisas".

Eu sei, em si mesma esta citação só me faz lembrar o que dizia um professor meu de história de arte sobre o molotov (o bolo, não o dos cocktails): quando punha uma colherada na boca só sentia vento em todo o lado. No caso, não é na boca que se vê o vento a passar, é mesmo no cérebro.

Mas a citação não está ali sozinha, naquela entrevista, está no meio de um delicadíssimo exercício de contorcionismo retórico em que Catarina Martins acaba por ser bastante clara: O que o BE defende é que se acabe com o capitalismo, mas como as pessoas não querem o que o BE quer, então apresenta-se um programa eleitoral social-democrata para ir levando as pessoas para onde se quer.

Acham que estou a exagerar?

Pois, eu também achei, mas clarinho, clarinho, é por onde começa esta entrevista, por explicar exactamente o que eu disse acima, embora envolvendo naquela torrente de lugares comuns sem nexo que caracterizam o discurso de Catarina Martins.

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Não há salvação

por henrique pereira dos santos, em 04.09.19

"Eduardo Cabrita, o ministro da Administração Interna, assegurou que “o dispositivo está preparado” e que “as ações de fiscalização e patrulhamento serão incentivadas nos próximos dias, além da fiscalização que cabe à GNR realizar”."

Não saímos disto.

Sim, é verdade que sendo as previsões o que são para amanhã, Sexta Sábado e Domingo, o que há a fazer é procurar a máxima eficácia do dispositivo de combate, aumentando a capacidade de análise do fogo e tirar da frente as pessoas que potencialmente serão afectadas.

Não sabemos o que serão estes dias, mas o que seguramente sabemos é que não é vigilância nenhuma que resolve o facto de uma ignição poder ser suficiente para dar origem a milhares de hectares de área ardida, nestas condições de acumulação de combustíveis e de meteorologia.

O que quer que seja que Eduardo Cabrita diga agora sobre o assunto não interessa rigorosamente nada, excepto para demonstrar que apesar de toda a evidência, o governo continua a falar do combate a fogos que estão para lá da capacidade de extinção uma boa parte do tempo e na repressão, para resolver um problema de economia. Não porque esteja convencido de que isso resolva o que quer que seja, mas para ter uma justificação política para o que acontecer: se a coisa correr bem, é porque fizemos tudo bem, se a coisa correr mal, foi apesar de termos feito tudo que o era possível.

Depois, passado o sufoco, lá se voltará ao mesmo até ao sufoco seguinte.

Mudar de políticas, mas mudar mesmo, com impacto real sobre a gestão de combustiveis, com decisões concretas para separar a missão de protecção civil da missão de combate ao fogo florestal, com profissionalização de grande parte do corpo de combate ao fogo florestal, isso é que não.

Não há salvação possível nestas circunstâncias.

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