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A mais merecida das homenagens

por João Távora, em 14.05.21

"Sporting Clube de Portugal é o título duma associação composta de indivíduos de ambos os sexos, de boa sociedade e conduta irrepreensível."

Artigo 1 (dos primeiros estatutos do Sporting em 1907)
 

Aqui chegados, é importante não esquecermos o caminho que aqui nos trouxe, e homenagear os resistentes que tornaram esta incomensurável alegria possível, resgatada a ferros de tempos sombrios e difíceis. De volta às grandes vitórias que fizeram do Sporting Clube de Portugal tão grande e popular, por estes dias de euforia lembremos todos os sportinguistas caídos nos últimos anos e aqueles que permaneceram até ao fim fiéis a este nosso emblema. Relembro em particular o meu saudoso tio Manuel de Castro, que me abriu os olhos para a beleza de um jogo de futebol no estádio, e principalmente me ensinou os valores da perseverança e do fair-play, que são as mais sólidas fundações do nosso clube.

Hoje deixemos para segundo plano uma equipa de jovens promessas, a maioria delas nascidas sob a bandeira das cinco quinas. Hoje pomos de lado o presidente vilipendiado mas corajoso que, herdando um conjunto de escombros, conseguiu inverter a decadência do nosso clube. Hoje não falarei do jovem e inspirado treinador, que liderou um balneário heterogéneo para as páginas mais douradas da nossa História. Hoje esqueçamos as claques predatórias e outras enfermidades que nos quiseram roubar a esperança de voltarmos a ser felizes. Porque hoje é dia de lembrarmos todos aqueles que não desistiram de estar onde era preciso nos momentos mais negros da nossa História, para resgatar a dignidade que nos tinha sido roubada. Que com obstinação nunca desistiram do Sporting naqueles dias tristes que pareciam ter chegado para sempre. Hoje é dia de homenagear os associados que se mantiveram firmes nas filas das assembleias, nos lugares do nosso estádio, naqueles tempos sombrios, sempre a apoiar o clube para que pudesse sobrevir um amanhã de esperança. É essa a alma enorme que nos distingue dos demais.

Foi essa alma enorme que eu aprendi com o meu tio Manuel que partiu cedo demais. Uma lição que espero deixar de legado aos meus filhos. O Sporting somos nós, a vitória foi nossa. Somos nós os campeões.

Publicado originalmente aqui

Uma nódoa

por João Távora, em 14.05.21

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Sobre a mesa empoeirada em Belém na entrevista a Marcelo, a coisa é fácil de entender: como a República é uma nódoa ela própria, eles por lá têm que poupar nas limpezas ou arriscam-se a ficar sem nada, tudo esfregado não sobra nada, tudo para o lixo, presidente, regime e tudo.

"Costa é muito vivo"

por henrique pereira dos santos, em 14.05.21

Li hoje uma jornalista, citando uma fonte anónima do círculo de Costa, concordando com a afirmação do título do post.

Penso que a generalidade das pessoas concordam que Costa é muito vivo, eu, pelo menos, concordo.

Assim sendo, talvez não fosse má ideia olhar com mais atenção para o seu papel na ascenção e consolidação do socratismo, de que é o principal herdeiro.

Acentuaram o pior que há em nós

por Miguel A. Baptista, em 13.05.21

Por vezes a ação política, e a gestão da coisa pública, é difícil de antever. Por exemplo, há dois anos, ninguém saberia antever a crise pandémica. Claro que um país deve estar sempre preparado para coisas menos boas, com contas públicas em ordem e um sistema de saúde com boa capacidade de resposta. 

No entanto, como contas em ordem e um sistema de saúde com poucas imperfeições são algo difícil de atingir, e não se consegue num mandato eleitoral, é compreensível que a pandemia tenha chegado sem que estes parâmetros estivessem como seria desejável. 

Agora, há coisas que são facilmente previsíveis e que só por incompetência, e desleixo, não são tratadas atempadamente. Por exemplo, seria completamente expectável que a vitória no campeonato de um Sporting vindo de um longo jejum, provocaria uma onda de euforia e celebração. Era fácil procurar fazer o melhor planeamento para lidar com esse acontecimento. 

Da mesma forma, a pandemia está cá há mais de um ano e a existência de trabalhadores sazonais migrantes na zona de Odemira é conhecida. A existência de um surto por lá seria algo completamente expectável. Seria lógico que já tivesse sido feito um plano de contingência, antevendo onde alojar as pessoas na eventualidade da necessidade de criar uma cerca sanitária. Só a inépcia explica que à última da hora se ande a jogar um braço de ferro injustificado com um operador privado. 

É claro que este Governo acentuou uma característica nossa menos boa, a dificuldade em planear e criar uma cultura de responsabilidade. Parece-me claro que Costa, e o PS, não têm qualquer sonho ou desígnio nacional, a médio prazo que seja. A cultura que existe é a da gestão do dia-a-dia. O poder não existe para melhorar o país, o poder interessa para que se possa manter o poder. 

O Sporting fez «Olé! Olé!» e eles marraram

por José Mendonça da Cruz, em 13.05.21

Não há jornalista desses que se imaginam mais policiescos do que a polícia e mais tiranetes do que os tiranos; não há especialista desses que já previram uma pandemia pior que a peste negra, 3 terramotos, duas chacinas, 5 ou 6 maremotos, e a constante triplicação de infeções que afinal nunca triplicam; não há comentador desses ressentidos com a vitória do Sporting e com mais apetite de penas do que um carrasco; não há ministro «excelente», nem Presidente da Câmara, nem secretário de Estado desses que nunca têm culpa de algum precalço, para onde nunca meteram um prego, e têm tudo a ver com toda a notícia boa de que não têm qualquer reponsabilidade; não há bufo, desses que aplaudem a obrigação de usar máscara, sob pena de multa (se o bufo vir, o bufo faz queixa) para quem queira passear-se no verão junto ao Tejo, ao Douro, no paredão de Oeiras a Cascais ou junto ao mar em qualquer lado; não há ninguém que não venha agora gritar «Oh horror, os adeptos do Sporting festejaram, oh tragédia, vão morrer todos infetados, oh vergonha, alguns até despiram as camisas». E não há uma alma com alguma réstea de juízo ou bom senso que faça a pergunta evidente: «Mas você está doido? É insensível? É burro? É parvo? Queria obrigar os adeptos de um grande clube a ficarem fechados em casa, quietos e calados, no dia em que ganham o campeonato que faltava há 19 anos? Senão o quê?! Prendia-os? Dava-lhes tiros? Multava-os e tirava-lhes as bandeiras e os carros? Exilava-os? Cortava-lhes a cabeça?»

E de dia 11 de Maio a 3 ou 4 semanas, a 1 ou a 8 de Junho pontualmente, lá veremos como vai o «grande pico» de infecções, «mais de 3 vezes»,  em que os grandes especialistas falham sempre (sempre sem que alguém lhes lembre) e por que todos os bufos anseiam.  

Do ridículo

por henrique pereira dos santos, em 13.05.21

As recomendações da DGS para que as pessoas que estiveram na celebração de campeão nacional de futebol do Sporting são ridículas.

As regras imediatamente divulgadas para a frequência das praias, são ridículas.

Se daqui a quinze dias as coisas estiverem mais ou menos como estão agora (como é o mais provável) o sentimento das pessoas comuns para com o ridículo disto tudo aumentará e as pessoas tenderão a ligar cada vez menos às orientações, às notícias e a tudo isso que alimenta a histeria sobre a covid.

Só tenho a agradecer aos sportinguistas o que fizeram, do ponto de vista da covid.

O que me chateia é o estatuto de absoluta excepção do futebol, que tanto se vê na inacreditável forma como a polícia não chateia os carros estacionados às três pancadas na envolvente dos campos de futebol como, mais ainda para mim, na forma como todos parecemos aceitar a selvajaria de andar a fazer barulho às tantas da noite em áreas residenciais.

Que vão para o Marquês, que não mora lá ninguém, que vão para os estádios, que encontrem um descampado qualquer para comemorar o que quiserem, mas que a sociedade ache normal ter vândalos a incomodar milhares de pessoas até altas horas da noite, perante a passividade das autoridades, diz mais sobre o respeito que temos pelos velhos, pelas bebés, pelos doentes que milhares de estudos de sociologia.

Que os presidentes dos clubes não se empenhem na protecção das zonas residenciais nestas alturas, que os jogadores de futebol não peçam respeito pelos que têm problemas de sono, que os partidos não exijam que a polícia proteja os mais frágeis dos vândalos, que os comentadores não tenham oportunidade para dizer que é uma selvajaria andar aos gritos, aos foguetes, à batucada em áreas residenciais a latas horas da noite, por mais que o nosso clube tenha ganho seja o que for (ou a selecção, é igual, deste ponto de vista), é inacreditável.

Não somos muito fortes a defender os mais fracos.

Tomar banho é irresponsavel

por Jose Miguel Roque Martins, em 13.05.21

Perante a onda de alertas que nos bombardeiam todos os dias, não posso deixar de, responsavelmente, lançar também o meu alerta: tomar banho é perigoso.

Só no Japão, costumam morrer 12.000 pessoas por ano, apenas em banheiras.

Tomar banho é como não usar mascara na Praia: uma irresponsabilidade!

 

 

TOCQUEVILLE E O PERIGO PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL  

por Miguel A. Baptista, em 12.05.21

Após uma visita aos Estados Unidos, o aristocrata francês Alexis de Tocqueville escreve um extenso livro, lançado em 1835, contendo as reflexões, essencialmente políticas, dessa viagem. 

O livro, “Da Democracia na América”, tornou-se uma das mais importantes referências da chamada “ciência política”, e tem alguns aspectos premonitórios extraordinários, incluindo, algo impensável no Séc. XIX que chegaria um momento em que os Estados Unidos dominariam metade do mundo, enquanto a Rússia outra metade. 

Segundo Tocqueville, a ameaça às democracias não advinha apenas das tiranias, mas do amolecimento, e complacência, que um demasiado paternalismo e assistencialismo. 

Tocqueville valorizava muito a iniciativa, o associativismo e a separação de poderes. Ele admirava na América esse sentido de cidadania e vigilância, ele gostava dessa vibração cívica e democrática. Se esta energia não existisse facilmente se cairia num regime que, ainda que democrático, seria o pastoreio do povo pelos governantes. 

Eu penso que, neste momento, não existe, nem à esquerda nem à direita, o perigo de instauração de uma ditadura tirânica num país da Europa Ocidental. No entanto penso que esse amolecimento e essa captura do indivíduo, de forma algo despótica, são perigos reais em Portugal, hoje. E são-no, porque, no fundo, se calhar é isso que os portugueses acomodados desejam. 

Quem tiver paciência leia, com atenção, este excerto da obra de Tocqueville. Escrito na primeira metade do séc. XIX ele relata, quanto a mim, de forma perfeita os perigos para uma vivência democrática, participativa e vibrante no Portugal do Séc. XXI. 

“Vejo uma multidão imensa de homens semelhantes e de igual condição girando sem descanso à volta de si mesmos, em busca de prazeres insignificantes e vulgares com que preenchem as suas almas. Cada um deles, colocando-se à parte, é como um estranho face ao destino dos outros; para ele, a espécie humana resume-se aos seus filhos e aos seus amigos; quanto ao resto dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-lhes, mas não os sente, ele só existe em e para si próprio e, se ainda lhe resta uma família, podemos dizer pelo menos que deixou de ter uma pátria. 

Acima desses homens, ergue-se um poder imenso e tutelar que se encarrega sozinho da organização dos seus prazeres e de velar pelo seu destino. É um poder absoluto, pormenorizado, ordenado, previdente e suave. Seria semelhante ao poder paternal se, como este, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; mas ele apenas procura, pelo contrário, mantê-los irrevogavelmente na infância. Agrada-lhe que os cidadãos se divirtam, conquanto pensem apenas nisso. Trabalha de boa vontade para lhes assegurar a felicidade, mas com a condição de ser o único obreiro e árbitro dessa felicidade. Garante-lhes a segurança, previne e satisfaz as suas necessidades, facilita-lhes os prazeres, conduz os seus principais assuntos, dirige a sua indústria, regulamenta as suas sucessões, divide as suas heranças. Será também possível poupar inteiramente aos cidadãos o trabalho de pensar e a dificuldade de viver? … 

A igualdade preparou os homens para tudo isto, predispondo-o a aceitar este sofrimento e, até, a considerá-lo um benefício.” 

O ponto de vista da natureza

por henrique pereira dos santos, em 11.05.21

No meu último post há um comentário que me parece bem interessante:

"porque diz que "Para já poder-se-ia dizer que a resposta deste segundo carvalhito é mais segura e mais interessante que a que resulta da condução que está a ser feita pela Montis", apesar de não ser um especialista parece-me bastante evidente que o 1o carvalho está bem mais saudável e com crescimento adequado".

Para quem não leu o post, tratava-se da comparação entre um carvalhito que rebenta de pé pós fogo, e não é conduzido e outro que, tendo o mesmo comportamento, tem vindo a ser conduzido pela Montis em alto fuste.

Ao fim de quatro Primaveras, o primeiro apresenta cerca de um metro e vinte e imensa folhagem praticamente desde o chão, o segundo anda pelo metro e sessenta e um tronco bem definido, com uma copa que não sendo um primor de conformação, ainda assim está mais próxima do que associamos a uma árvore.

E a pergunta feita tem sentido: o segundo não está muito melhor que o primeiro?

Eu não tenho a certeza disso (a minha frase começa por "poder-se-ia dizer", exactamente para dar corpo a essa dúvida) e passo a tentar explicar.

A minha visão é uma visão ideológica no sentido em que parto do pressuposto de que a natureza viva tende a responder aos estímulos existentes de forma a optimizar as possibilidades de dar continuidade aos genes dos organismos vivos que a compõem, sem esquecer que a natureza inclui os elementos não biológicos que interagem com essa natureza viva.

Note-se que não estou a atribuir à natureza qualquer sentido moral, a natureza não faz escolhas, a natureza existe e mais nada, nós é que fazemos escolhas.

E as escolhas que fazemos, de maneira geral, prendem-se também com o impulso vital de transmitir os nossos genes de maneira a que não se percam, ou seja, prendem-se com a optimização da nossa capacidade de sobrevivência e de reprodução.

Por isso a nossa relação com a natureza é utilitária, nós manipulamos os sistemas naturais para que sirvam melhor os nossos interesses de sobrevivência e reprodução (nós próprios resultamos de um processo de evolução que vai no mesmo sentido, ou seja, os que ainda aqui andamos somos os que sobraram, isto é, os que carregam a herança genética dos que sobreviveram e se reproduziram antes de nós, somos por isso, um produto da evolução natural, mesmo a nossa capacidade de escolher, o livre-arbítrio, a moral em que assenta o fino verniz da civilização, continuam a ser produtos da evolução biológica).

Por isso olhamos para uma árvore bem conformada, com um tronco liso e direito, uma copa perfeita - mesmo reconhecendo que o que achamos perfeição varia de pessoa para pessoa e de cultura para cultura, ao ponto de haver milhares de alentejanos maravilhados com chaparros podados, com copas muito longe do que seria a conformação natural da copa, porque um chaparro bem podado é a perfeição para quem quer maximizar a produção de bolota e fugir da fome - e ao olhar para essa árvore perfeita, achamos que são essas as árvores que estão mais saudáveis e com crescimentos adequados.

Mas para a natureza, ou melhor, para a ideia que eu faço da natureza, tudo isso é irrelevante: o tempo não conta, a forma não conta, a produção não conta, o que conta é a capacidade de manter e transmitir genes.

E é aqui que volto à minha afirmação inicial: do ponto de vista da sobrevivência dos dois carvalhos, o primeiro responde melhor aos riscos que o segundo.

Quando o fogo calcinou inteiramente a parte aérea dos dois carvalhos, mantendo vivo o seu sistema radicular, criou-se um profundo desequilíbrio entre parte aérea e subterrânea que, se não for resolvido rapidamente, leva à morte do sistema radicular por falta de energia.

Por isso a resposta da planta é no sentido de maximizar a superfície foliar que lhe permite obter energia através da fotossíntese. Se o fogo não foi suficientemente intenso para matar os tecidos do tronco, os carvalhos vão rebentar de copa e rapidamente repõem uma superfície foliar adequada à parte radicular.

Mas se o fogo foi suficientemente intenso (isto é, libertou uma grande energia) para ter uma severidade elevada (isto é, ter afectado profundamente a vegetação) a parte aérea está morta e a raiz lança guias a partir da base do tronco.

Lança tantas quantas consegue para aumentar rapidamente a superfície foliar, o que significa que na nossa vontade de ter árvores bem conformadas e com crescimento adequado, se começamos a seleccionar varas, estamos a diminuir a velocidade de reposição da superfície foliar, o que enfraquece a raiz.

As doenças, o dente de uma cabra ou um corço, um vento forte quando já existe alguma altura, e milhares de outros factores, podem deitar a perder, ou pelo menos ditar fragilidades de crescimento do segundo carvalho em relação ao primeiro.

Isto é, o primeiro carvalho tem, provavelmente, uma vitalidade maior, incluindo no seu sistema radicular, que o segundo e, nesse sentido, está mais apto a resistir e reproduzir-se algures no tempo, o segundo, embora servindo melhor os nossos objectivos - no caso, ter carvalhais maduros mais cedo - está de facto a correr mais riscos e tem, muito provavelmente - a mim parece-me que sim - uma vitalidade menor durante algum tempo.

Espero ter explicado o meu ponto de vista sobre uma afirmação que percebo que possa causar perplexidade, sobretudo se, como é o caso, eu defendo que apesar desses riscos de sobrevivência maiores, se adopte o modelo de gestão que, ao mesmo tempo, aumenta as probabilidades de ter carvalhais maduros mais cedo.

Na verdade o título do post não deveria ser o que é, porque a natureza não tem pontos de vista, mas sim, "o meu ponto de vista sobre o que se poderia considerar o ponto de vista na natureza na evolução de carvalhos pós fogo", mas era um título excessivamente extenso, mesmo para um post, também ele, excessivamente extenso.

Domingo

Deus não faz acepção de pessoas

por João Távora, em 09.05.21

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias, Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?». E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.

Palavra do Senhor.

A Internacional Sócial do Pórtugal

por José Mendonça da Cruz, em 07.05.21

É justo que a Cimeira Social da União Europeia se realize em Portugal durante a presidência portuguesa. Não há hora nem lugar melhor para os Costa e os Sanchez fazerem as bocas redondas e as encherem das platitudes do costume: o social, o combate à desigualdade, os salários condignos. Junta-se um «clima» e dois «climáticos» (desses que as Gretas cantarolam e os papagaios repetem), três ou quatro «digitais» (sob forma de unicórnios e conferências), sete ou oito «modernidades» daquelas que só cá é que não chegam, e está feito o discurso. Mas como os socialistas não sabem produzir riqueza -- sabem apenas distribuí-la, até ao ponto de distribuirem o que já não é riqueza -- alguém vai ter que pagar as proclamações. Quem? Ora, a «solidariedade», a «coesão», ou, por outras palavras, os «frugais». Holanda e Alemanha, dois dos 3 países ausentes, não vieram ouvir «os nossos valores e o nosso modelo social» de Costa; depois os contabilizarão, para ver se há esmola disponível.

À noite, os sóciais vão discutir se roubam as patentes das farmacêuticas que investiram milhões para criar vacinas num calendário de emergência. Os portugueses que se libertaram das insuficiências do SNS com seguros de saúde (privados) -- que lhes permitem ser atendidos a tempo por hospitais eficientes (privados) -- talvez sintam alguma estranheza. Os outros, o que se habituaram a pedir «algum apoio do Estado» ao Estado que lhes retirou toda a esperança de ascensão social, talvez batam palmas. Na esperança de um dia terem vacinas gratuitas prometidas por Costa, orçamentadas por Leão (ouvido Centeno), formuladas por Graça Freitas, fabricadas por Temido, e distribuidas por Cabrita, com o beneplácito de quem em 2047 achar que as barragens não prestam porque deixam evaporar-se a água.

Da gestão

por henrique pereira dos santos, em 07.05.21

Depois dos fogos de 2017, o Senhor Presidente da República, pelo exemplo, indicou caminhos para o futuro, indo arrancar eucaliptos para Vouzela.

Na mesma altura, também em Vouzela, uma pequena e obscura associação de conservação da natureza optava por outro caminho, explicando que ia cruzar os braços para perceber, depois da Primavera, o que fazer.

Tanto quanto é do conhecimento público, ao arranque de eucaliptos, substituídos por plantações de espécies autóctones, não se seguiu nada e é fácil ir verificar que o sítio em causa é hoje o que era antes do fogo: um mar de mimosas, sem grande esforço de gestão.

Note-se que até houve um pesado investimento, financiado pelo PRODER, para o controlo das mimosas naquela zona, e que a atenção social sobre a área no pós fogo teria sido uma grande oportunidade para chamar a atenção para o grave problema das invasoras pós fogo (mimosas, naquele caso, muitas outras acácias também naquele caso e em muitos outros, háqueas, sobretudo nos xistos, e coisas que tal), mas as elites urbanas preferiram falar de eucaliptos, arrancar eucaliptos e etc. eucaliptos.

Em vez de se focarem em problemas reais, preferiram preocupar-se com problemas populares, sejam eles reais ou imaginários, sejam eles mal ou bem equacionados, isso é irrelevante, o importante é dar a impressão de que se está fortemente empenhado no bem comum.

A tal obscura associação de conservação, de que fui presidente e que tenho apoiado, agora fora da direcção (fica feita a declaração de interesses), pelo contrário, foi fazendo algum trabalho de formiguinha.

Nas suas propriedades de Vouzela tratou de ir gerindo o carvalhal que foi afectado temporariamente pelo fogo, para o preparar para o fogo seguinte, noutras propriedades foi tratando de invasoras a sério, às vezes fez plantações, sempre com a mesma preocupação: fazer o máximo, com o mínimo de esforço, para conduzir a natureza pelo caminho que parecia o melhor para aumentar a biodiversidade e o valor social do território.

Hoje mandaram-me umas fotografias, que eu sei que não são espetaculares, são até dificeis de perceber para quem não for acompanhando isto, mas aqui ficam duas delas.

Vermilhas 7 maio 2021 a.jpg

Em cima está apenas um carvalhito sobre o qual passaram quatro Primaveras (esta é a quarta, e tem sido excelente para as árvores) depois do fogo que calcinou a parte aérea de praticamente todas as plantas que estavam neste local (o fogo foi muito intenso, provavelmente intensidade potenciada por um efeito de garganta na encosta e numa fase fenológica tardia das plantas, já a meio de Outubro, quando os carvalhas estão a preparar-se para perder a folha).

Vermilhas 7 maio 2021 b.jpg

Aqui está outro carvalhito, já não na propriedade gerida pela Montis mas próximo, que ardeu como o primeiro e foi deixado ao Deus dará. Provavelmente a sua raíz está menos afectada que a do primeiro porque não tem havido diminuições da superfície foliar que limitem a actividade fotossintética. Terá um metro e vinte de altura, contra os cerca de um e sessenta dos que foram geridos, e com muita rebentação mais lateral, ao contrário do aprumo do primeiro.

Para já poder-se-ia dizer que a resposta deste segundo carvalhito é mais segura e mais interessante que a que resulta da condução que está a ser feita pela Montis, mas o objectivo é olhar para os próximos cinco anos, quando começa a ser bem real a probabilidade de um novo fogo.

O que esperamos é que nos próximos cinco anos estes carvalhos comecem a formar copas relativamente densas, a uma altura do chão já razoável, que vão criando sombra que diminua a vegetação debaixo das copas, de modo a que no próximo fogo os carvalhos sejam menos afectados, rebentando de copa, e não de pé como aconteceu, e reconstituindo o carvalhal mais rapidamente, aproximando-o mais depressa de carvalhais maduros que convivam melhor com o fogo.

Isso faz-se visitando muitas vezes as propriedades, fazendo opções de gestão, errando umas vezes, acertando outras, sabendo ouvir o que nos dizem as respostas dos sistemas naturais às nossas opções, para as adaptarmos.

Pelo contrário, o espetáculo mediático do senhor Presidente a arrancar eucaliptos, que apareceu em tudo que era televisão e jornal, não deu resultado prático nenhum e, do ponto de vista da percepção pública, limitou-se a reforçar as asneiras que as elites repetem sobre o mundo rural.

O problema é simples de equacionar: falta gestão.

Quando há gestão, podemos optar por fazer isto ou aquilo (incluindo não gerir, que é uma opção de gestão perfeitamente adequada em muitos casos), quando não há gestão não há opção possível, excepto fazer números mediáticos sem grande utilidade e sem outro efeito que não seja o desperdício de recursos.

O que as nossas elites urbanas têm feito é despejar dinheiro sobre os problemas do mundo rural com base em ideias erradas.

Como de costume, uma das duas coisas tem desaparecido, é verdade, mas infelizmente não têm sido os problemas.

Só para pôr os assentos nos is

por João-Afonso Machado, em 07.05.21

LEGITIMISMO.JPG

A extrema-direita é a nova arma da extrema-esquerda. Um fantasma, enfim, agora manejado como um fantoche, com fios de nylon. Em países menos impressionáveis, mais informados, a artimanha não serviria de muito. Mas em Portugal, a Esquerda e a Imprensa satélite vão chegando onde querem.

Portanto, a extrema-direita, cá no nosso lugar, é somente um lugar Facebook onde tudo é possível, mesmo as maiores idiotices. Desde logo, envolver o Senhor D. Miguel, Rei de Portugal, com Salazar e malandrices quejandas. Obra de uma tropa arruaceira, que pretende ter lido António Sardinha e o Integralismo, mas nada percebeu. No confronto verbal rapidamente entra nas ameaças e no insulto, à falta de outros argumentos. Cria divisionismos onde a maior razão de ser é a união. E circuita à volta de Mários e outros déspotas tatuados, cujo ideário político todos desconhemos - porque a cabeça rapada, a mota e as lutas entre gangs não são propriamente uma doutrina ou uma ideologia.

Os politólogos querem falar da "extrema-direita"? Entretenham-se: as chamadas são - Mário Machado (às vezes tenho dó do meu apelido, tão dado a semelhanças tristes...), skinheads, Salazar, 28 de Maio, Pátria-patriotismo e saudosismos não sadios. Ah! generalizadamente dizem-se "cruzados", guerreiros sempre dispostos a morrer por Portugal...

O mais é a Direita. Sobretudo, a gente educada, respeitadora, mal dada com barulhos trauliteiros. Essa mesmo que perde eleitoralmente por respeitar tudo e todos.

 

Já não é proibido proibir?

por João Távora, em 06.05.21

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Anda p'raí um escarcéu nas redes sociais por causa dumas “denúncias” de alegados assédios a figuras públicas como se fora uma campanha de sensibilização – não é razão para menos. Pela minha parte tenho a convicção de que haverá poucas atitudes mais cobardes e indecentes do que o assédio sexual, e que tal terá de ser radicalmente condenado socialmente. Fazer disso uma “guerra de sexos” é que não me parece que faça sentido.

A questão é que não é possível uma sociedade boa sem pessoas moralmente bem formadas. As soluções aos desafios sociais e humanos não se resolvem só com legislação, muito menos com ideologias. E hoje reconheço que, antes de nós cá em casa, já os meus pais travaram uma dura batalha contra o "ar do tempo", que nos anos setenta era da democratização da vulgaridade, não das virtudes. 

Uma coisa boa deste “movimento” é um certo cheiro contra-revolucionário que dele emana e que me agrada. Durante décadas tivemos a impressão que a boa educação, a delicadeza e o cavalheirismo, fundados em valores fundamentais como o “respeito” tinham caído em desuso, como que atributos considerados hipócritas, caretas, pouco viris. Será que é desta que os bons valores da boa educação voltam de novo a estar na moda entre as elites ou será que estou a perceber mal? Ou será esta indignação fogo fátuo, mero entretenimento de burgueses anafados com demasiado tempo livre, a importação de uma histeria colectiva? 

Que vergonha, que vergonha, que vergonha

por henrique pereira dos santos, em 06.05.21

Vale a pena ouvir o video que está nesta ligação em que, se eu quisesse enxovalhar Manuel Carmo Gomes, faria o que a jornalista fez: citá-lo.

Mas não, não quero ridicularizar afirmações que, sendo transcrições fieis, não podem deixar de ser lidas no contexto do que está a ser dito, são ridículas na mesma, mas são compreensíveis.

O que é absolutamente incompreensível é depois de meses a falhar estrondosamente previsões sobre a evolução da epidemia, Manuel Carmo Gomes continue com a obsessão de apontar o dedo aos países que desprezaram a ciência (que, no seu caso, é o que ele diz) e por isso as coisas correram mal, ao mesmo tempo que explica que não foi o caso de Portugal, em que o governo ouviu a ciência (que, no seu caso, é o que ele diz) e portanto as coisas não correram mal, mas avise que corremos um risco gravíssimo para o futuro: não lhe dar dinheiro suficiente para ele contratar as pessoas que entende necessárias para produzir a ciência (que, no caso dele, é o que ele diz) que garanta o mesmo nível de rigor das projecções para o futuro que conseguiu desta vez.

E ainda falam da figura triste de Moniz da Maia na Assembleia da Repúlica.

Estamos tramados (como sabemos)

por Jose Miguel Roque Martins, em 06.05.21

Sem grande alarde, pelo menos até ao momento em que escrevo, saem as noticias de um estudo realizado por Francesco Franco, Tiago Bernardino e Luís Teles Morais.

Este estudo conclui, considerando as actuais tendências demográficas, que para manter o equilíbrio financeiro a prazo, ou será necessário aumentar 22% os impostos, ou diminuir em 19% as pensões ou aumentar a idade da reforma para 76 anos.

Uma bomba atómica, há muito anunciada.

Estes estudos têm sempre limitações e dificilmente conseguem prever todas as alterações no futuro. Mas no essencial, os valores obtidos serão da ordem de grandeza anunciada, sendo indesmentível que o sistema não se equilibra de outra forma, sem outras mudanças profundas. Claro que em termos de mudanças estruturais, poderão ocorrer impactos positivos e negativos que alterem as contas. 

Olhando para o que o regime tem feito, o mais provável é que nada se faça e quando a granada explodir, se distribua o mal pelas aldeia. Os impostos subam 10%, a idade da reforma se situe um pouco abaixo dos 70 anos e as pensões se reduzam um pouco. Tudo devagar para não espantar a caça. Ao longo do percurso, cada má noticia virá acompanhada do anuncio da inevitabilidade das correcções, da responsabilidade de governos anteriores por não terem tomado medidas, que face à pesada herança do passado, nada mais há a fazer.

Não é assim. Existem alternativas a este empobrecimento colectivo.

Para tanto bastaria emagrecer o Estado, o desperdício de recursos e incentivar a criação de riqueza, libertando a economia de mercado. Seguindo todos estes caminhos, a realidade seria outra.  Os impostos poderiam baixar, as pensões aumentar,  a idade da reforma pouco aumentar e os jovens Portugueses não precisariam de sair do seu País para viver.

Se compararmos o nosso produto per capita, com países semelhantes, podemos assumir que temos uma reserva de riqueza represada, que será próxima do dobro do que hoje produzimos. Olhando para o nosso quadro partidário, para as convicções dos Portugueses, de facto o estudo é mesmo para levar a sério. Quanto a mim, já há alguns anos, vou incentivando (sem sucesso)  as minhas filhas a emigrarem.  

Estamos tramados.

Acabar com patentes, acabar com novas curas

por Jose Miguel Roque Martins, em 06.05.21

De Biden ao Conselho Europeu chegam ecos da intenção de levantar patentes sobre as vacinas covid19. A acontecer, será celebrada como uma conquista do bem sobre o mal, da generosidade sobre a avareza. Na realidade é a política no seu pior. Uns fazem boa figura à custa do dinheiro dos outros, prejudicando todos os demais. Sem a perspectiva de lucro, quem irá fazer o desenvolvimento de soluções farmacológicas? Junta-se assim o roubo de propriedade intelectual à condenação de milhões ou biliões de pessoas que, no futuro, não serão salvas, porque há novos fármacos.

Se quiserem ser solidários ( o que se aplaude) comprem, a preço razoável, as patentes. Não impeçam que no futuro não haja inovação. 

Soluções ridículas não são um exclusivo português

 

PS: O pior é que o estrangulamento actual é a capacidade de produção e no caso da Astra Zeneca, a 1,5 Euros a dose, não se vê o que possa alterar-se. 

 

A regulamentação do teletrabalho. Uma estupidez anunciada

por Jose Miguel Roque Martins, em 05.05.21

O teletrabalho está na ordem do dia. É normal que assim seja porque, depois da  pandemia, o teletrabalho veio para ficar.

Da esquerda radical vêm reivindicações de novos direitos, os tremendos custos novos que os trabalhadores têm que suportar em teletrabalho, esquecendo naturalmente quaisquer custos que deixam de ter. Ou novos benefícios que possam ter. A esquerda “moderada”, o PS e o PSD, são mais brandos, concordando no entanto com a necessidade de regulamentação e tipificação do teletrabalho.

Mais uma vez, seja qualquer que seja o resultado imposto pelos inteligentes,  vamos ter uma limitação dos direitos e liberdades das pessoas. E do seu bem estar.

Ninguém se lembra de deixar as pessoas negociarem o que mais lhes interessa com a sua entidade empregadora. Porque as pessoas são estúpidas e são a parte mais fraca da “relação”. Apesar de não poderem ser obrigadas a alterar as suas condições de trabalho sem o seu consentimento expresso.

O que vai acontecer é que, muitas pessoas que gostariam de ter, mesmo que parcialmente, a hipótese de teletrabalho, provavelmente não vão consegui-lo, porque os custos impostos ao empregador serão insuportáveis.

Em nome da liberdade e direitos dos outros, os inteligentes do costume decidem, como sempre, o que é melhor para os pobres e oprimidos, nós. Quer o seja quer não.

O meu bisavô João Abrantes

por João Távora, em 05.05.21

Bisavô João IX M de Abrantes.jpg

Filho do austero e devoto católico José Maria da Piedade, sucedeu-lhe com personalidade bem distinta o meu bisavô João Maria da Piedade, o IX Marquês de Abrantes, que nasceu no Palácio de Santos a 28 de Dezembro de 1864 e morreu em Sintra na Freguesia de São Martinho, em Dezembro de 1917. Ele foi o último senhor e administrador dos morgadios e vínculos da sua Casa de Abrantes e o primeiro a retomar o apelido Távora depois da proibição pelo governo Pombal. Filho tardio e muito desejado que nasceria seis anos depois da morte prematura do seu irmão mais velho aos oito anos – João ficou órfão de pai e de mãe com apenas 6 anos tendo sido educado pela sua Tia paterna, a Condessa de Murça, D. Helena. Com uma personalidade bem diferente da do seu pai, como filho único que era, quis o destino que não o afectasse na herança dos bens da família o fim dos morgadios decretado por carta régia em 1863. Desse modo, como varão de uma das mais importantes famílias legitimistas foi enviado ainda criança para estudar em Viena onde conviveu muito com o Senhor Dom Miguel II, facto que o terá favorecido mais tarde quando assumiu um papel activo nas negociações do Pacto de Dover. Regressado a Portugal em 1884 veio a casar a 16 de Abril do ano seguinte com Maria Carlota de Sá Pereira e Menezes, da casa dos Condes de Anadia, como refere o meu pai no volume I do Tomo IV da sua obra “Heráldica da Casa de Abrantes” dedicada ao ramo dos Sás. Desse casamento sobrevieram seis filhos: Carlota Maria da Piedade, o meu avô José Maria da Piedade, Pedro Maria da Piedade, Maria Rita da Piedade e Maria Luiza da Piedade.

Frustrantemente, o projecto de “memórias” deixadas incompletas pelo meu pai foi interrompido justamente quando ia biografar o seu avô João – acredito que lhe tivesse assaltado alguma resistência para enfrentar esta complexa personalidade com quem não chegou a conviver – morreu em 1917 exactamente vinte anos antes do nascimento do seu neto e meu pai. Ainda assim, no capítulo em que se refere às recordações deixadas pelo seu pai e meu avô José Maria de Lancastre e Távora, o X Marquês de Abrantes, já por mim anteriormente aqui referenciado, nos desvenda a impressão que sobre ele sobreveio aos descendentes, como sendo responsável pela péssima administração dos bens da família que foram alienados quase na totalidade durante a sua vida num período de grande instabilidade económica: "Com a república os meus avós resolveram emigrar, fazendo-se acompanhar por toda a família, criados, e até parte do Arquivo de Família; só meu Pai se recusou a acompanhá-los, por não querer interromper o seu curso. Meu Avô não compreendeu a atitude do filho mais velho; com efeito, meu Pai, que desde muito novo era muito realista, via que a vida ia forçosamente mudar, e que o luxo inexcedível com que meu Avô se rodeava não era compatível com a sua fortuna, embora esta fosse enorme para Portugal. E, na realidade, poucos anos decorridos, meu Pai era o único entre todos os filhos de meus Avós, que se bastava a si próprio, e que mesmo estava em condições de ajudar os seus irmãos."  Não se estranha que o relacionamento entre os dois varões não fosse o melhor. Sintomático é que o meu avô José não tenha baptizado nenhum dos filhos com o nome de seu pai.

Avô José e os irmãos.jpeg

Ao delicado assunto das finanças da família faz o meu bisavô referência num precioso documento que me chegou às mãos recentemente intitulado “Apontamentos sobre minha saída do Partido Miguelista” (aqui na íntegra), no qual, a páginas tantas, a propósito da sua partida para o exílio com a família refere que “A minha situação financeira no momento [1911] permitia-nos ausentarmo-nos de Portugal por algum tempo pois tinha uma determinada quantia em ouro num banco. É verdade que se o movimento gorasse ou demorasse muito, ver-nos-íamos em sérios embaraços, seguidos fatalmente da ruína total. Se ficássemos, porém, a ruína viria igualmente embora mais demorada, pois o meu rendimento não me chegava de maneira nenhuma para viver, e como estavam as coisas públicas não via maneira de aumentar de maneira nenhuma. A ter de cair na miséria antes fazê-lo com honra.”

Desconfio que o meu pai não tenha conhecido este riquíssimo manuscrito legado pelo seu avô João pouco tempo antes da sua morte em 1917. De facto, sem que com ele o possamos isentar do rótulo de esbanjador, ou pelo menos de mau administrador, o preciso testemunho histórico revela uma personalidade que, longe de ser fútil, exibe uma inteligência política e profundidade de pensamento fora do comum, já para não falar dum domínio muito rico da língua portuguesa e da escrita narrativa.

Nesse sentido, por exemplo, parece-me de uma grande argúcia o seu posicionamento a favor de tréguas entre as duas linhagens desavindas, logo expresso por ocasião do regicídio, argumentos que na ocasião expôs a Dom Miguel II, opinião reforçada com a revolução republicana, bem explícita nesta sua frase: “a solução única era refazermos o que a revolução tinha desfeito e repormos tudo como estava, mesmo porque se me afigurava tão mais fácil restaurar um regime caído havia meses do que irmos reatar uma tradição de havia quase um século”. Já no que refere à vertente política, que não apenas pela questão de legitimidade dinástica que jamais é por si posta em causa, defende o meu bisavô nas suas notas que o “programa do partido na parte conservadora e católica (…) exequível nos tempos actuais tanto se podia executar com ele [Dom Miguel] como com Dom Manuel”. Aliás, os "apontamentos" em apreço, comprovam o bom relacionamento existente à época entre os Abrantes e Dom Manuel II, facto que já tínhamos testemunhado numa sua carta dirigida aos meus bisavós Ulrich de "consentimento" do casamento entre os meus avós paternos que em tempos aqui publicámos. É de realçar de resto o papel que João Maria da Piedade assumiu após a frustração das incursões na tentativa de conciliação entre os régios primos desavindos, entre Saint-Jean-de-Luz e Londres, contactando os mais importantes protagonistas na realização do Pacto de Dover, desde Paiva Couceiro, Luís Magalhães, Alexandre de Saldanha da Gama, a Sua Majestade Dom Manuel e a Sua Alteza Real Dom Miguel. 

1912 - Satúrio Victor MarqAbrantes PedroLancTávo

É fácil depreender dos muitos documentos que me vêm passando pelas mãos que a morada da Família Abrantes durante boa parte do século XIX e até ao princípio do Século XX se dividia entre o Palácio de Santos, em cuja igreja constam quase todos assentos de baptismo e óbito, e a Quinta da Póvoa (de Sta. Iria) como lhe chamavam, ou Morgado da Póvoa, actualmente conhecido como Quinta de Nossa Senhora da Piedade, que é a padroeira da minha família – era a jóia da coroa dos Abrantes. Afinal, em 1856 inaugura-se o troço de linha férrea que, passando na Póvoa, liga Lisboa ao Carregado, inovação que facilitaria o trânsito entre as duas casas. Curiosa é a nota escrita pelo historiador Bramcaamp Freire a respeito de uma visita ao meu bisavô em 1900: “Não posso deixar de agradecer aqui ao meu amigo e vizinho Dom João de Lancastre e Távora representante dos Marqueses de Abrantes a amabilidade com que ontem 18 de Outubro de 1900 me permitiu examinar alguns documentos do precioso arquivo que guarda na sua bela casa da Quinta da Piedade, antigo Morgado dos Valentes na Póvoa de Santa Iria, onde vi uma das mais belas, senão a melhor colecção de retratos de pessoas da alta fidalguia portuguesa no século de 500 e daí para baixo: é um tesouro.” 

Piedade..jpg

Sobre a importância que terá tido a Quinta da Póvoa para o meu bisavô já financeiramente arruinado, é comovente a referência que ele inclui a páginas tantas nas suas notas, e que vale a pena trazer para aqui: Eu ia radiante [para a Galiza] e supunha que a nossa volta seria uma marcha triunfal da fronteira a Lisboa. Estranhei muito ao sair do portão da Quinta na nossa carruagem de ver chorar a Maria e o Pedro. Eles disseram-me então que tinham o pressentimento de não tornarem a ver a Póvoa. Com efeito o Pedro tornou a vê-la quando já não era minha e fui lá recolher as nossas coisas [algures em 1916]”.

Estranho me parece que estes apontamentos que nos desvendam um pouco da personalidade deste meu antepassado tenham sido escritos no ano em que viria a falecer com 53 anos. Será certamente mera coincidência pois morreu com uma hemorragia cerebral meses depois. Certo é que desejou deixar claro para a sua descendência o seu pensamento e esclarecer e as razões da sua acção naqueles funestos anos de decadência nacional.

Não será mera especulação concluir que o meu bisavô João de facto vivia sob padrões de vida demasiado luxuosos e incomportáveis para os seus rendimentos, e sou levado a acreditar que, para ele, a representação da Casa de Abrantes em que tinha nascido, a isso obrigava, por uma concepção algo materialista dessa “dignidade”, compreensível sob uma perspectiva cultural da época (contra a qual o seu pai José Maria de Lancastre curiosamente tanto se tinha insurgido). Por isso não o julgo tão severamente quanto o fazia o meu pai. De facto o meu bisavô vendeu o Palácio de Santos em 1908 ao governo francês que à época era arrendatário de parte do edifício, tendo feito esse negócio o ministro (embaixador) francês George Saint-René de Taillandier que vamos encontrar referido nas suas notas quando o reencontra em 5 de Outubro de 1910 em Sintra. Curiosa é a exigência de João Abrantes para que não fosse transmitida ao comprador a serventia entre os dois pisos superiores do palácio à tribuna familiar no coro da Igreja de Santos o Velho (um dia destes ainda iremos reivindicar esse direito ao laico governo francês!). Enfim, até à sua morte João Maria da Piedade desfez-se da maior parte dos bens de família e, reza a história relatada nas memórias do meu pai que a forçada ausência de meu Pai [Na Grande Guerra] muito o prejudicou nas partilhas da herança paterna, da qual apenas exigiu os quadros e o arquivo da família”. Com muitos destes objectos ainda privei, posteriormente dispersos que foram pela casa dos meus avós, pais e tios. De resto, grande parte do arquivo foi entregue pelos meus irmãos e por mim em depósito à Câmara Municipal de Abrantes (outra parte já tinha sido entregue na Torre do Tombo), assim como o quadro do 1º Marquês de Abrantes o foi ao Museu dos Coches onde é actualmente exibido ao lado dos carros de aparato por ele utilizados aquando da grande embaixada a Roma em 1717.

dmiguel II.jpg

Importante nesta modesta tentativa de biografar o IX Marquês de Abrantes, o meu bisavô João, é salientar a sua profunda fidelidade à pessoa de Dom Miguel II que é bem patente nas suas notas, e na forma leal como batalhou pelo sucesso do Pacto de Dover, sempre com o fito da restauração da monarquia, que para si era penhor da independência nacional. Não lhe guardo qualquer animosidade, tanto mais que cada vez estou mais que convencido que o principal legado da Casa de Abrantes me foi transmitido com sucesso, e que ele é essencialmente intangível, residindo no âmbito dos valores éticos e morais, no amor a Portugal e em histórias fantásticas para contar. É isso que gostaria de transmitir aos meus filhos e sobrinhos.

Proximamente voltarei aqui para vos falar dos V e VI marqueses de Abrantes, Pedro Maria e José Maria. 

Legendas das fotografias:

  • Fotografia 1 

João Maria da Piedade de Lancastre e Távora, IX  Marquês de Abrantes quando jovem.

  • Fotografia 2

No início do século XX de cima para baixo:

a minha tia bisavó Carlota,
o meu avô José Maria de Lancastre e Távora
e os meus tios avós, Pedro, Rita e Luísa.

  • Fotografia 3

Em 1912, Saint-Jean-de-Luz:

Vitor Menezes (à esquerda em cima)
Pedro de Lancastre e Távora (à direita em cima)
Sartúrio Pires (à esquerda em baixo)
IX M. de Abrantes, João Maria da Piedade de Lancastre e Távora (à direita em baixo)

  • Fotografia 4

Quinta da Póvoa (de Sta. Iria), ou de Nossa Senhora da Piedade.

  • Fotografia 5

Dom Miguel II

Fontes: 

"A Heráldica da Casa de Abrantes", vol. 2 do Tomo 4, por Luís de Lancastre e Távora

"Le Palais de Santos" por Pierre Samoyault

"Quinta de Nossa Senhora da Piedade - História do Seu Palácio Jardim e Azulejos" por Celso Mangucci

Documentos de família e testemunhos orais

De Madrid só chegam notícias de maus casamentos

por João-Afonso Machado, em 05.05.21

Realizaram-se as eleições. Delas resultou, desde logo, a estrondosa derrota de Iglesias e o, por ele mesmo anunciado, abandono da vida política. O Mundo agradece penhoradamente. No fundo, o seu percurso é o de Tsipras ou Varoufakis: e pena é o nosso Bloco caseiro não tenha acesso a uma ou duas pastas ministeriais, para depois passar definitivamente à História. António Costa bem saberá disso, precisa do BE no Parlamento e, assim, lhe veda o acesso ao Governo.

Já a vitória do PP de Isabel Díaz Ayuso, inocultável, se transformou num saboroso "pratinho" para a Imprensa. O facto de o PP ter conseguido mais votos de que toda a Esquerda é irrelevante - a excitação que grassa por aí é a maioria relativa, o putativo entendimento com o Vox, com a extrema-direita.

Suponho que a vozearia da Esquerda, de mãos dadas com o oportunismo da Imprensa, ainda venha a dar conta da Direita em Espanha - doravante existirá apenas a "Extrema-direita". E a rapaziada por essa Peninsula fora irá na conversa...  



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