Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O Costa solar

por João-Afonso Machado, em 17.01.22

Naquele tempo, os tabus de Cavaco Silva deram brado e à Esquerda repugnou essa falta de ético-transparência. Dá-se o caso de a presente campanha eleitoral, no fundo, girar em torno de António Costa e dos seus múltiplos tabus. De resto, há algumas semelhanças suas com Cavaco Silva... sendo, no entanto, as diferenças mais notórias: Cavaco um tosco, Costa um espertalhão; aquele não sabendo mentir, este desconhecendo o que é falar verdade.

Mas regressando à actualidade, ignoramos tudo, incluindo a tão falada sua hipotética emigração de Costa (que seja muito feliz na UE e se esqueça aqui do quinteiro), e sobretudo os ardis que já terá concebido - no infeliz caso de ficar - para cada possível desfecho eleitoral. Graças à imaginação de Costa, o cidadão deixou de andar seguro nas avenidas da política, a qualquer momento pode ser surpreendido, atropelado, por alguma trotinete silenciosa.

Tudo para explicar que, a dar atenção a esta campanha, não importa o que os pregoeiros vão dizer, mais contará a atenção e a expressão de quem ainda os ouve. E a abstenção deverá somar exorbitâncias (que pena a abstenção, em vez do voto em branco!!!)

Finalmente, porque nem tudo é mau, três distinções, no muito pouco a que assisti: a atitude firme e educada de Cotrim de Figueiredo; a coragem de Francisco Santos; e a bonomia do velho Rio de quem um comentador televisivo dizia, poderão ser muitas as gaffes - mas o homem é sincero, não mente!

"Já"

por henrique pereira dos santos, em 17.01.22

No dia 15 de Janeiro o Público titulava na primeira página "mortalidade deste Inverno já está abaixo dos níveis pré-pandemia".

Não faço a menor ideia do que esteja ali a fazer aquele "já", que é absolutamente inútil para a descrição do facto relevante: a mortalidade total, neste Inverno, está abaixo da média dos últimos dez anos (dizer que está abaixo dos níveis pré-pandemia é uma tontice).

A notícia baseia-se nas conclusões de Ana Paula Rodrigues, do Instituto Ricardo Jorge (o Público acha que as pessoas têm a obrigação de saber o que é o INSA), não sei exactamente se obtidas apenas por entrevista, ou com base em qualquer documento que tenha sido produzido e que o Público não tenha referido, podendo estar relacionada com a publicação dos dados da mortalidade de 2021, pelo Instituto Nacional de Estatística.

Na parte escrita pela jornalista, diz-se "a redução da mortalidade poderá estar ligada à elevada protecção vacinal contra a covid19 da população portuguesa, à actividade gripal reduzida e a um Inverno brando em termos de temperatura".

Mas na parte da notícia em que as declarações de Ana Paula Rodrigues aparecem dentro de aspas, o que é dito é um bocado diferente "A mortalidade no Inverno, os picos e o excesso de mortalidade, está sempre muito relacionado com dois fenómenos que acontecem em simultâneo, que são a actividade gripal e também o frio extremo". E o que está entre aspas é muito mais coerente com o relatório semanal da rede de vigilância da gripe, em que Ana Paula Rodrigues tem um papel relevante.

Já no ano passado, Ana Paula Rodrigues e a equipa em que se integra, foram das poucas pessoas a escrever, preto no branco, que a mortalidade excepcional do ano passado teria alguma ligação com as condições meteorológicas que se observaram no princípio de Janeiro, por contraste com a esmagadora opinião que se ouviu na altura de que o pico de Janeiro do ano passado se devia ao Natal.

O que se passa este ano, tendo em atenção que a Covid representa em média menos de 10% da mortalidade total, mas numa situação de surto como a de Janeiro do ano passado pode subir bastante (mortalidade definida oficialmente como covid, não exactamente a causa de morte, como é evidente olhando para os números da mortalidade covid e mortalidade total), demonstra claramente que Ana Paula Rodrigues tinha muita razão em entrar em linha de conta com as condições meteorológicas.

Ou seja, que afinal o contactos pesam menos do que nos disseram na evolução da epidemia, o que ajuda a explicar por que razão não existem demonstrações claras da utilidade dos confinamentos ao fim de dois anos de epidemia.

Isso não impede o Público, e a jornalista que assina a peça, de continuar a ir pedir a Filipe Froes que alimente a conversa do costume, embora com variações (o mais divertido, para mim, é ler que Filipe Froes diz "imaginemos: em quatro anos podemos ter quatro épocas de gripe não muito intensas, com Invernos amenos, em que se acumulam mais pessoas em situação de vulnerabilidade. Depois temos um evento de maior gravidade, ou seja, um período de maior stress biológico, sejam picos de temperaturas extremas, sejam épocas de gripe muito intensas, e nesse ano morrem mais pessoas" porque me lembro bem de como André Dias foi insultado e considerado um pária ético por ter dito exactamente isto no princípio da epidemia). 

Acabem lá com as ideologias

por Duarte Calvão, em 16.01.22

ideologia.jpg

Vacinei-me aos 19 anos contra ideologias. Estávamos no início dos anos 80, eu era então estudante de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (que trocaria mais tarde pelo curso de Comunicação Social), e durante pouco mais de um ano militei num partido trotskista, a Convergência Socialista, albergado clandestinamente no Partido dos Trabalhadores (PT), já que a sinistra ditadura militar brasileira, mesmo no seu estertor, ilegalizava partidos marxistas. Desde essa experiência, que acabou por ter um lado positivo, desenvolvi uma imunidade não só contra tudo quanto cheire a marxismo, mas também contra doutrinas que acham que possuem uma espécie de chave para nos explicar a sociedade e a sua história.

Por isso, é para mim estranho que no Portugal de hoje haja tantos maiores de 30 anos a afirmarem-se convicta e orgulhosamente conservadores, liberais, democratas-cristãos, sociais-democratas (não vou mais à esquerda, porque é outro mundo e ainda menos compreensível), desprezando o salutar pragmatismo que deve guiar a política actual. Não estou a dizer que essas doutrinas não apresentem ideias e princípios que nos podem inspirar e orientar, mas mal de nós se os políticos, sobretudo aqueles que têm responsabilidades de governo, enquadrassem a sua acção numa qualquer rigidez doutrinária, forçando a realidade a caber na pureza de uma ideologia.

Passando para o concreto dos dias agitados da campanha eleitoral que vivemos, devo dizer que aprecio a boa educação e as boas intenções dos que professam fé na Iniciativa Liberal, mas não compreendo uma certa infantilidade em acharem que são eles que possuem a tal chave que nos vai resolver todos os problemas. Não por acaso, dizem que nas universidades os liberais disputam com o Bloco de Esquerda as preferências dos estudantes e parece-me muito provável que assim seja, já que é próprio da juventude ser atraída por este tipo de teorias totalizantes e de fácil compreensão. Eu próprio o fui na minha época e por isso longe de mim criticá-los. Além disso, prefiro mil vezes que optem pela “visão” liberal e não na de um marxismo que quanto mais tenta parecer moderno mais limitado e desadequado se mostra. Tomara, portanto, que deem muitos votos e deputados à Iniciativa Liberal.

Mas, mais forte do que esta busca por enquadramento em doutrinas, há ainda em Portugal uma enorme necessidade das pessoas em se integrarem numa das duas tribos em conflito, a Esquerda e a Direita. É uma guerra sem quartel, em que qualquer hesitação ou dúvida numa identificação total é tratada como uma traição à tribo ou cobardia em enfrentar o inimigo.  Que o diga Rui Rio, que logo num dos seus primeiros discursos como líder do PSD afirmou-se inabilmente como de centro, quando devia ter passado por cima da mania destas pessoas que andam com uma régua a medir quantos centímetros se está mais à esquerda ou à direita, como se com isso ficassem com uma ideia mais clara das políticas que vão ser seguidas. Só espero que, na altura de votar, fale mais alto a necessidade de sermos bem governados, por pessoas com inteligência, decência e bom senso, que sabem lidar com uma realidade que é sempre muito mais complexa do que as soluções maniqueístas esquerda/direita e do que aquilo que prescrevem ideologias que nos querem explicar o mundo.

Domingo

por João Távora, em 16.01.22

As bodas.jpg

Paolo Veronese 1563

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento. A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho». Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora». Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas. Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora». Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.

Palavra da salvação.

Comentário: O milagre que Jesus fez nas Bodas de Caná pertence ainda ao ciclo da Epifania. De facto, por meio dele o Senhor Se manifestou. A transformação da água em vinho e o facto de tal ter acontecido num banquete de núpcias e ainda o chamar-lhe o Evangelho um “sinal” leva-nos a perscrutar o mistério desta epifania ou manifestação do Senhor. Aquela não era ainda a hora de Jesus, que havia de chegar na hora da Cruz; mas aquele “sinal” apontava já para lá, para a hora das núpcias do Cordeiro, a hora do sacrifício que sela a Aliança, nova e definitiva, entre Deus e os homens, pelo Sangue de Jesus.

Causar a ruína e gabar-se disso

por Corta-fitas, em 15.01.22

tap.jpg

Surpreende-me que nenhum partido da oposição desminta António Costa quando se gaba de que todas as companhias aéreas do antigo accionista privado da TAP faliram, e que, portanto, foi a intervenção socialista que salvou a companhia aérea portuguesa.

É uma mentira descarada. A empresa brasileira de Neeleman, a Azul – cuja joint-venture com a TAP fortalecia o hub de Lisboa nos voos Portugal/Brasil e Brasil/Portugal – está bem e recomenda-se, embora tenha sofrido, como todas as empresas de aviação civil, os efeitos da pandemia.

O Senhor Neeleman não só não está falido como mantém a maioria das acções com direito a voto da Azul, como se pode ler nesta notícia do Jornal de Negócios. E Neeleman vai fundar uma nova companhia aérea nos EUA, a Breeze, porque, – como sabem os meios de negócios e as revistas da especialidade, é um dos mais profícuos empresários da aviação civil.

 Mais: é mentira que a intervenção nacionalista tenha salvo a TAP. Ao contrário, a intervenção socialista condenou a empresa à insignificância, e os portugueses a pagarem milhares de milhões dos seus impostos para satisfazer os caprichos ideológicos de Costa e Santos.

O aumento da posição pública na TAP foi feito contra a recomendação do Tribunal de Contas e da Comissão Europeia. E foi essa intervenção, com assunção pelo Estado de maiores responsabilidades pela dívida que levou, primeiro, Neeleman a aumentar o investimento em aeronaves. E foi essa mesma intervenção que levou a União Europeia, depois, a recusar à TAP os auxílios a fundo perdido que deu a várias companhias aéreas europeias privadas.

Que os socialistas se arvorem em salvadores de uma empresa que condenaram por razões ideológicas e manobras ruinosas é, de facto, um pouco excessivo.

José Mendonça da Cruz

Tags:

Conversa de surdos

por Jose Miguel Roque Martins, em 14.01.22

Ontem assisti ao debate entre António Costa e Rui Rio e, depois, a  parte da cobertura da CNN. Os comentadores socialistas deram a vitória ou um empate a António Costa. Os não socialistas deram a vitória a Rui Rio. A sondagem a quem assistiu ao debate, deu a vitória a Rui Rio com 42% dos votos, sensivelmente a percentagem dos não socialistas em Portugal. António Costa, com uma péssima prestação, ainda recolheu 38% de preferência dos inquiridos.

Parece não importar o que de facto acontece, nada muda. As interpretações da realidade, visam apenas justificar as opiniões previas de cada um. Como digo repetidas vezes, os Portugueses sabem o que querem, e a maioria continua a querer aquilo que têm. Foi bom ter começado a mudar-se o discurso.Não me parece que faça diferença tão cedo. Oxalá me engane. Mas que parece uma conversa de surdos, parece. 

PS: Só não percebi, aliás numa prestação que me surpreendeu positivamente, porque Rio insistiu no cenário ( muito possível) de que Pedro Nuno Santos, venha a ser o próximo primeiro ministro se o PSD vencer as eleições. Quer assegurar que os socialistas moderados não votam PSD? Ou recolher votos da esquerda radical desejosa de uma geringonça mesmo à séria? 

 

Um retrato de nós

por henrique pereira dos santos, em 14.01.22

IMG_20220114_084457.jpg

Isto é uma fotografia do debate entre Costa e Rio, no momento em que Costa, para demonstrar que disse ao eleitorado que iria fazer a geringonça, mostra a capa do Expresso anterior às eleições.

Costa sabe que esta capa não o cita a ele (mas a fontes anónimas), sabe que este título é da responsabilidade do jornal e dos jornalistas, e sabe perfeitamente que em lado nenhum disse, publicamente, que se perdesse, iria fazer a geringonça.

Aliás, mesmo depois das eleições andou numas reuniões com a PAF das quais saía sempre a dizer que Passos Coelho não apresentava propostas nenhumas a que pudesse dar resposta para apoiar um governo da coligação que ganhou as eleições.

Ontem, no debate, disse claramente que entendia que se perdesse era porque o eleitorado fazia uma leitura negativa da sua actuação, e portanto ir-se-ia embora, embora não tenha explicado por que razão esse raciocínio não tinha sido válido em 2015.

Tudo isto define bem Costa (mais até que a mentira de dizer que Neeleman faliu em 2020 e fechou as suas empresas, como teria fechado a TAP se o governo não a tivesse nacionalizado outra vez), mas não é Costa que me interessa neste post.

Esta capa do Expresso resultou de uma boleia que Costa deu a uma jornalista do Expresso durante a campanha, em que lhe disse que faria a geringonça, lhe disse que se quisesse podia publicar essa informação, mas que ele, Costa, nunca a confirmaria.

Isto é uma forma, feia, mas legítima, de Costa condicionar jornalistas, dando um exclusivo sumarento, em troca da não revelação da fonte.

O problema é quando jornalistas e jornais como o Expresso aceitam quebrar as regras da sua profissão, a citação de fontes anónimas sem ser por razões plausíveis de segurança e risco para a fonte, regras essas que existem exactamente para limitar a capacidade de fontes interessadas plantarem informação que lhes interessa, sem assumir responsabilidades por isso.

Esta é a primeira imagem desagradável de nós que resulta da fotografia que está no princípio do post: uma imprensa que se deixa encadear pela necessidade de publicar o que ninguém publica, acabando a ser manipulada por um político experiente no assunto.

No entanto, o mais desagradável não é essa primeira imagem de nós, enquanto sociedade, o mais desagradável é que tudo isto é do domínio público e, mesmo assim, Costa continua a poder exibir esta capa de jornal como prova de que sempre disse ao eleitorado que iria fazer a geringonça, como se a simples necessidade de recorrer a esta prova não fosse a demonstração de que de facto, na campanha, não disse o que iria fazer se perdesse as eleições mas a esquerda tivesse maioria no parlamento.

Somos nós que apreciamos mais a "habilidade" de Costa dá mostras, que o que significa o facto de uma pessoa mentir ao seu eleitorado (não a mim, que não votei nele, mas aos outros, aos que votaram nele) com o objectivo de não o assustar, para ter oportunidade e tempo para fazer passar a ideia de um modelo de governo que nunca quis apresentar ao eleitorado porque suspeitava que isso prejudicaria a votação - em termos mais substanciais, porque tinha a percepção de que não era isso em que o eleitorado votaria.

Costa é o que é, mas o que é verdadeiramente deprimente é nós sermos o que somos.

Para ser claro

por henrique pereira dos santos, em 13.01.22

Houve quem, em privado, a propósito da quantidade de pessoas potencialmente em isolamento no dia das eleições, me tenha dito que não era médico para ter opinião sobre as normas de isolamento da DGS.

Este é um argumento tipicamente tecnocrático, do qual discordo, mesmo que o compreenda.

Se me perguntarem se os cálculos para pôr um foguetão na lua devem ser objecto de um referendo, com certeza direi que não.

Se me perguntarem se a minha opinião sobre esses cálculos deve ser tida em atenção no processo de decisão, eu, ardentemente, espero que ninguém se lembre de tamanho disparate.

Mas se me perguntarem se esses cálculos devem ser públicos e objecto de escrutínio antes das decisões sobre o envio de um foguetão para a lua, não tenho a menor dúvida em dizer que sim.

Não porque esteja convencido de que toda a gente que viesse a dizer alguma coisa sobre esses cálculos dissesse alguma coisa de útil (a esmagadora maioria seguramente não diria nada de útil),

A decisão de gastar recursos públicos a mandar foguetões para a lua, para o cálculo dos quais é fundamental saber os pressupostos técnicos, é uma decisão social sobre a qual qualquer pessoa tem o direito de se pronunciar.

Toda a alocação de recursos públicos implica decisões com impacto social: se gastamos recursos a testar ou a vacinar, por exemplo, isso significa que esses recursos deixam de estar disponíveis para outras coisas.

Não cabe a quem administra vacinas, ou faz testes, decidir sobre essa alocação de recursos, até porque pode nem dominar o conhecimento sobre os efeitos das alternativas de alocação de recursos.

Assim sendo, as autoridades de saúde têm legitimidade, ou devem ter legitimidade, para tomar decisões que limitam o direito de voto?

Sim, devem ter essa legitimidade, na medida em que o acto de votar colida com outros direitos fundamentais, como o direito à vida.

Essa legitimidade inclui a limitação do direito de voto para salvaguardar o Serviço Nacional de Saúde ou qualquer outra justificação do mesmo tipo, como a quebra das cadeias de contágio?

Não, não inclui, a menos que salvaguardar o Serviço Nacional de Saúde ou quebrar cadeias de contágio sejam condições sine qua non para garantir direitos como o direito à vida.

Em termos práticos, suspender as normas sobre isolamento no dia das eleições tem um efeito tal na evolução da doença que se possa dizer que há proporção entre a suspensão do direito de voto de centenas de milhares de pessoas e o efeito potencial dessa decisão na mortalidade?

Esta discussão é uma discussão nossa, da sociedade, não é uma discussão das autoridades de saúde ou da comunidade de profissionais de saúde.

O que é uma obrigação dos técnicos de saúde é a explicação das potenciais consequências de suspender as normas sobre o isolamento no dia das eleições na evolução da doença e da mortalidade, para que a sociedade possa avaliar o conflito de direitos que existe.

É isto que está em causa e não qualquer opinião sobre as decisões da DGS, é a proporcionalidade das normas de isolamento em relação aos seus efeitos potenciais nas eleições.

Isolados

por henrique pereira dos santos, em 12.01.22

Imaginemos que aparecia um vírus, altamente contagioso, mas sem qualquer efeito na nossa saúde (é uma possibilidade, temos em nós milhões de organismos e nem todos provocam alterações que possam dar origem a problemas de saúde).

Imaginemos agora que esse vírus tinha um comportamento variável, havendo alturas de elevada transmissibilidade e contágio, e alturas de baixa transmissibilidade e contágio.

Como o vírus não tinha qualquer efeito na saúde, seria de esperar encontrar o mesmo número de pessoas com esse vírus entre os doentes e a população em geral (na verdade isto pressupõe uma hipótese menos realista, a de que as condições do hospedeiro não têm efeitos na transmissibilidade, mas vamos admiti-la para simplificação lógica).

Claro que se numa altura uma em cada mil pessoas tinham o vírus, o mesmo aconteceria nos doentes, mas se noutra altura uma em cada dez pessoas tinham o vírus, também um em cada dez doentes teriam o vírus.

Imaginemos agora que se separavam os doentes em função da presença ou não do vírus, detectada laboratorialmente.

Claro que ao aumentar a incidência de um para mil para um para dez, os internamentos na ala dedicada aos portadores do vírus disparavam brutalmente, não porque houvesse mais gente doente, mas porque se contabilizavam à parte os doentes com esse vírus.

Introduzamos agora um bocadinho de realidade neste exemplo teórico, e olhemos para uma doença genericamente benigna, cujas taxas de incidência variam grandemente ao longo do tempo.

O aumento dos internados com essa doença acompanha o aumento da incidência, independentemente dos efeitos da doença, pelo simples facto de haver mais gente infectada com esse vírus, portanto aumentam os doentes que estão internados por qualquer razão, mas que são colocados nas alas hospitalares dedicadas à tal doença.

Aparentemente é isso que está a acontecer com a covid, falando-se em 60% de internados por outras razões, mas que são administrativamente internamentos covid porque os doentes testam positivo.

Se em vez de olharmos para critérios laboratoriais a que administrativamente damos importância e passarmos a olhar para realidades verificáveis, por exemplo, a mortalidade excessiva, o que se verifica é o que está neste gráfico, com os jornais a gritarem que nunca houve tantos casos covid, e o gráfico da mortalidade a mostrar uma mortalidade abaixo do esperado pela média dos últimos dez anos.

Sem Título.jpg

Só que em cima disto, nós decidimos isolar assintomáticos, com base na ideia peregrina de que se isolarmos todos os infectados, controlamos as cadeias de contágio.

E tem corrido muito bem, em todo o mundo as cadeias de contágio têm estado do mais controlado que se possa imaginar.

É assim que chegamos à situação de poder haver centenas de milhar de pessoas privadas do seu direito de voto com base em decisões absurdas das autoridades de saúde.

Hoje, aí pelas seis da manhã, apanhei um bocado de uma discussão na Rádio Observador em que se discutiam grandes soluções para este problema de respeito pelas liberdades individuais.

Na parte que ouvi, e não ouvi o programa todo, não ouvi ninguém dizer o que me parece mais evidente: a solução é revogar a norma da DGS sobre isolamentos, tendo como objectivo deixar de isolar pessoas para quebrar cadeias de contágio que a realidade já demonstrou ser uma impossibilidade.

Às vezes é preciso dizer que o rei vai nu ou, pelo menos, isolar o rei o suficiente para não o deixar fazer disparates.

Os debates e os que «porqué no te calas?»

por Corta-fitas, em 12.01.22

debate.jpg

Os debates eleitorais têm sido interessantes, e bastante esclarecedores. Padecem, porém, de dois elementos anexos e nefastos: os «moderadores», e os comentadores.

No domingo, no debate entre António Costa, do PS, e Francisco Rodrigues dos Santos, do CDS, Clara de Sousa mostrou como encara o papel de «moderadora». Depois da primeira intervenção de Costa, e estando Santos a contestar as afirmações feitas com números e gráficos sobre a situação económica e financeira, Clara Costa atropelou-lhe a resposta, porque, nas suas palavras, literalmente, aquilo que Santos dizia «pode ter muito interesse para si, para António Costa, pode ter muito interesse para os portugueses», mas, dizia ela, ela tinha feito uma pergunta qualquer muito clara, e isso é que Santos tinha que versar.

Os «moderadores» laboram todos no mesmo erro de Clara: julgam que alguém assiste aos debates para os ouvir ou tem algum interesse pelo que dizem. A esta ilusão, juntam a de que, após anos de omissão, e de falta de escrutínio e investigação, após anos de preguiça ou propaganda ou as duas coisas, alguém os vai achar mais estimáveis devido a estes ímpetos interventores.

Na segunda, no debate entre CDS e Livre, quando Francisco Rodrigues dos Santos respondia a Tavares e à habitual lengalenga esquerdista de que baixar impostos beneficia «os ricos», o moderador interveio repetidamente (felizmente, em vão) insistindo que Santos, em vez de debater, falasse de uma palermice qualquer em que ele, «moderador», estava muito encrençado.

Este frenesim de fazer figura leva até alguns «moderadores» mais iludidos a tornar-se protagonistas, passando a debater eles próprios (ou elas próprias) com algum candidato de direita que pretenda debater com um candidato de esquerda.  Num debate em que participava André Ventura, Clara de Sousa discutiu tanto e tão intrometidamente com ele, que me esqueci do nome do senhor ou senhora no lado oposto da mesa ou do que quer que tenha dito. Este tipo de intromissão, vêem-na esses «moderadores» como uma espécie de prova de vida. Há noite, no bar, ou à mesa da cantina, com os colegas, podem depois lustrar-se: «Viste como eu o entalei?!» E, assim, a matilha aceita-os.

Terminados os debates, vêm os comentadores. Os comentadores desempenham fundamentalmente um papel: o de tentarem persuadir-nos que não vimos nem ouvimos o que ouvimos e vimos.

Há, evidentemente, casos extremos como Anabela Neves, na Tvi/CNN, ou Mariana Mortágua, na Sic/N, figuras que as duas estações consideraram boas fontes de comentário. Em termos de previsibilidade, são magníficas. A primeira traz da Assembleia o mesmo amor linear e extremado por tudo o que é socialista; no seu comentário, portanto e sem falha nenhuma, António Costa ganha sempre, os adversários de Costa perdem sempre em debate com ele, os adversários de Costa perdem sempre em debate com antigos ou putativos aliados de Costa, e os adversários mais perigosos de Costa perdem sempre em confronto com adversários menos perigosos. Quanto a Mariana Mortágua, dirigente e deputada do Bloco de Esquerda, faz o comentário que faria uma dirigente e deputada do Bloco de Esquerda.

E os comentadores-maioritariamente-de-esquerda dizem ainda mais. Dizem que se um representante de direita não enunciar pelo menos 5 medidas, ele não tem ideias; e que se enunciar as medidas e, ainda por cima, as explicar, então é porque tem um discurso demasiado ideológico.

De maneira que, sendo os debates vivos, proveitosos e esclarecedores, atrevo-me a perguntar sobre moderadores e comentadores: não se pode exterminá-los, ao menos metaforicamente?

José Mendonça da Cruz

Sieg Heil, Doktor!

por Corta-fitas, em 11.01.22

Uns médicos (não «os» médicos) consideraram-se «desconsiderados» por o Governo estar inclinado a deixar votar os confinados.

Nunca julguei ser forçado a aplaudir o governo de Costa, mas, ai de mim, chegou o momento. Contribuo até com um conselho: para amenizar o estado desses «uns» médicos desconsiderados, o Governo deve obrigar essa raça de confinados que queiram votar a apresentarem-se com um emblema apropriado -- uma estrela amarela, por exemplo –, e cantando louvores aos «uns» médicos. Cantar louvores a tiranetes é como o trabalho, liberta.

José Mendonça da Cruz

Tags:

A (grande) falha da IL

por Jose Miguel Roque Martins, em 11.01.22

Estou habituado a ser insultado há muitos anos por ser um liberal convicto. Ninguém mais do que eu gostaria de ter um Estado mais pequeno, mais eficiente que recorra ao mercado em quase todas as situações da sua atuação. Ninguém é mais a favor de medidas que são tão impopulares como corretas, de acabar com os privilégios de todos os grupos e indivíduos, fazer os alunos do ensino superior pagar as suas propinas através de empréstimos, da odiada liberalização do mercado de trabalho, dos cuidados a ter com o aumento do salário mínimo, da liberdade económica em geral. Sou até a favor de uma revisão do direito á greve, em especial na função publica, bem como da liberalização de despedimentos ( também) no Estado. Não haverá ninguém que mais queira uma baixa dos impostos do que eu. Todos estes desejos são património comum, assente em doutrina, mas mais importante, experiência pratica, que fundamentam as teses liberais. Todos estes temas, por incompreensão do seu alcance, tornam o liberalismo um alvo tão fácil em Portugal. Daí colhermos os frutos de um socialismo que tolhe, empobrece a nossa população, condenada a uma pseudo-igualdade na miséria.

Com tantas causas inquestionáveis e já de si fracturantes,  confesso a minha surpresa pela insistência da IL na causa da flat tax de 15%, de imediato ou faseada. Um alvo ainda mais fácil de abater, que nem corresponde ao desejo de todos os liberais, como eu, nem torna a causa liberal mais compreensível, antes a torna justamente questionável. 

A progressividade dos impostos é um mecanismo indispensável a uma redistribuição de riqueza ( justiça social numa terminologia marxista) que me parece um objectivo essencial de qualquer sociedade.  O liberalismo, pelo menos de muitos, de quem percebe, entende e segue Rawls, não aceita taxas de rendimento únicas.

Votarei IL, mas não há, nem necessidade, nem justiça em não defender e lutar por uma maior redistribuição de riqueza, que se quer (e pode ser) de abundância para todos, numa economia liberal, ao contrário do pântano socialista. 

 

 

 

 

Perspectivas

por Jose Miguel Roque Martins, em 11.01.22

Captura de ecrã 2022-01-11, às 09.39.32.png

 

Há sempre diferentes forma de olhar para os mesmos números. A de Catarina Martins, que enfatiza a falta de crescimento nos tempos de Passos Coelho ( ignorando a bancarrota), a de António Costa, que enfatiza o período de crescimento do seu consulado ( antes de Covid) e a de cada um de nós, que terá a sua própria  perspectiva. 

Não importa a ciência de cada uma: a que acabará por ser considerada a verdadeira, será a repetida mais vezes.

 Nem importa a que poderia ter sido, com outras políticas, já que é impossível fazer prova inquestionável de realidades alternativas, apesar de quando comparamos os nossos modestos crescimentos com aqueles que países com uma economia liberal, ou apenas menos iliberal, conseguiram, ficarmos mesmo muito mal na fotografia. Nada que não possa ser atribuído a outros quinhentos. Nada que deslustre o actual e anteriores consulados socialistas!

Da minha parte, aqui ficam os crescimentos dos últimos 20 anos, incluindo o ciclo virtuoso do Sr. Costa que, já antes da pandemia, depois de ir assucatando as poucas reformas que permitiram uma leve recuperação iniciada já nos tempos de Passos Coelho, davam mostra de falência.

Captura de ecrã 2022-01-11, às 09.49.26.png

PS: Lembro que o Sr Costa, Ganhou as eleições em Outubro de 2015

 

A ilusão tecnológica

por henrique pereira dos santos, em 10.01.22

Esta epidemia é como todas as outras epidemias: todas são diferentes, e todas são iguais.

Talvez seja a primeira epidemia com alguma dimensão que ocorre quando estão disponíveis dois instrumentos tecnológicos novos que alteram a forma como olhamos para ela.

O primeiro instrumento é a capacidade laboratorial.

Li no mural de uma das minhas irmãs que na poliomielite se estima que 95 a 99% das pessoas fossem assintomáticas (a wikipedia fala em 70%, mas a diferença é irrelevante para o argumento, tanto mais que fala em outros 25% com sintomas menores como dores de garganta e febre).

Como não havia capacidade laboratorial e tecnológica para testar como se testa com esta epidemia, naturalmente a gestão da doença fez-se com o foco nas pessoas doentes, e não nas pessoas que contactavam com o vírus.

Pode argumentar-se que se este instrumento tecnológico estivesse disponível, eventualmente poder-se-ia ter limitado muito a disseminação da doença, poupando milhares de vidas às sequelas da doença, ou diminuindo a mortalidade decorrente da doença.

A verdade é que não sabemos se assim seria, é uma hipótese teórica sólida, mas não sabemos se na prática a teoria é outra porque, como em qualquer epidemia, os factores sociais e ambientais não podem ser desligados das questões de saúde em sentido estrito.

O segundo factor tecnológico relevante é a capacidade computacional que nos permite hoje fazer modelações que eram impensáveis há alguns anos.

Com base nestes dois factores tecnológicos, a capacidade laboratorial e a capacidade computacional, há um conjunto de pessoas ligadas à epidemiologia que dizem que é possível quebrar as cadeias de contágio de uma doença e, consequentemente, controlar a evolução de uma epidemia, com base em medidas não farmacêuticas, em especial, com base no isolamento de pessoas saudáveis, embora infectadas.

Mais, com base nessa ideia, alterámos a visão moral que temos da disseminação de uma doença: deixámos de achar que uma pessoa era responsável por se defender do contágio - na medida do possível, evidentemente - e passámos a achar que cada pessoa é responsável pelos contágios que gera, mesmo que estejamos a falar de doenças altamente contagiosas e que se propagam por aerossóis, isto é, doenças em que é virtualmente impossível identificar a fonte de contágio, excepto em situações muito, muito restritas.

Deixámos de dizer que nos constipámos porque apanhámos frio - como é evidente, ninguém se constipa por apanhar frio, se não houver uma condição viral prévia que tire vantagem dessas condições ambientais - para passarmos a dizer que as crianças podem infectar os avós, criando um ónus moral monstruso sobre a normal relação social que antes considerávamos como bens morais a promover, como visitar os doentes, os que estão sozinhos, os presos, etc..

Dois anos depois parece claro que esta inovação conceptual na saúde pública é mais um dos muitos exemplos de ilusão tecnológica: os problemas sociais complexos podem ser minimizados com recurso a soluções tecnológicas - por exemplo, a descoberta da síntese da amónia tirou milhões de pessoas da pobreza diminuindo enormemente a fome endémica - mas é duvidoso que seja possível resolvê-los por esta via, ou sobretudo por esta via (mesmo os efeitos positivos da descoberta da síntese da amónia só se tornam reais com base num conjunto de soluções políticas e sociais que permitem o acesso à produção barata de alimentos).

Infelizmente, neste caso, a ilusão tecnológica deu origem a um problema bem mais grave, a ilusão social de que é possível moldar o funcionamento das sociedades de modo a potenciar os benefícios das soluções tecnológicas.

Historicamente esta ilusão social é responsável por grandes desastres sociais, e não é a gestão desta epidemia que se pode considerar como uma excepção a esse registo histórico.

Acerca de Fazer Ciência

por Miguel A. Baptista, em 09.01.22

Ontem, ou seria anteontem (?), de fugida e não com a atenção que me deveria merecer, ouvi a reputada bióloga e cientista Maria Manuel Mota, dizer que não havia ciência com verdades absolutas e sem dúvidas. (como ouvi de fugida a citação poderá não ser esta, mas a ideia é).

Quem tenha dedicado a sua atenção à leitura de epistemologia, mesmo lendo dois autores “opostos” como Popper e Kuhn facilmente compreenderá que assim é.

Nesta pandemia a ciência não tem dado as respostas à velocidade da “encomenda social”. Pois é mesmo assim, em ciência, por muito que se invista, não se consegue ter uma resposta certa numa data antecipada. O que nós estamos a assistir é à “construção de ciência” ao vivo com a testagem contínua de hipótese. Assim, a ciência tem-nos “dado” muitas respostas contraditórias e pouco consistentes.

Serão tais respostas inúteis? Não, pois essas respostas representam as melhores respostas disponíveis. Quando se toma uma decisão, ainda que com todas as dúvidas, é fundamentalmente nessas respostas que nos devemos apoiar.

No entanto, causa-me algum desprezo quem, nesta altura do campeonato em que é claro que as “respostas” da ciência ainda não estão absolutamente consolidadas, assuma uma posição de absoluta cienciolatria, procurando encerrar debates com o argumento de autoridade “a ciência diz que...”

Eles andem aí....

por João Távora, em 09.01.22

Como é que uma firma como a Impresa (Expresso e SIC) não possui um sistema de defesa de ataques informáticos, e a montante não produziu cópias dos dados em formato físico e deslocalizado (até por prevenção a catástrofes naturais) é uma coisa que me faz confusão. Na minha perspectiva, quem preza verdadeiramente a liberdade de imprensa deve proceder preventivamente para não chorar depois sobre o leite derramado.

Que este caso sirva de lição para os outros grupos de media são os meus sinceros votos.

Comentando os comentários sobre Rui Rio

por Duarte Calvão, em 09.01.22

Rui Rio.jpg

É tempo da política e hoje é por aí que vou, considerando que Rui Rio esteve bem em todos os debates que vi até agora. Tenho, no entanto, a sensação de que estou sozinho no mundo, já que politicamente me abasteço quase exclusivamente de informação e opinião no jornal Observador, rádio Observador e canais televisivos. Que me lembre, fora Manuela Ferreira Leite, nestes meios não há um único comentador ou cronista que não aproveite o seu espaço para zurzir no candidato do PSD, o único cuja vitória pode tirar os socialistas do poder.
 
Até compreendo que fosse essa a atitude dos comentadores e analistas não socialistas quando havia hipótese do candidato do PSD ser outro, mas a questão ficou arrumada com as eleições internas em que Paulo Rangel foi derrotado. Porém, Rui Rio continua a ser criticado por tudo e por nada por estes comentadores, pelo que diz e pelo o que não diz, por não ser “claro” mesmo quando afirma a mesma coisa 350 vezes (da coligação com o Chega à prisão perpétua, passando pelo Bloco Central), por não conseguir impor os seus temas nos debates, mesmo quando é interrompido constantemente pelos moderadores com ríspidos “responda à minha pergunta” - tratamento a que, aliás, geralmente são poupados os candidatos de esquerda (sobretudo António Costa) - , por não ter ideias, por ter ideias, mas não as prioritárias, por não gostar de jornalistas (como se algum dirigente do PSD alguma vez tenha verdadeiramente gostado), por querer mandar ditatorialmente na Justiça (como se isso fosse possível numa democracia europeia) etc etc. O absurdo chega ao ponto de ouvir comentadores a sublinhar gravemente a importância de fazer reformas de fundo na Justiça, na Segurança Social, no sistema político e mais não sei aonde e em simultâneo criticarem Rio por as querer fazer.
 
Só consigo perceber esta má vontade contra Rui Rio, que muitas vezes roça o ódio cego, por duas razões. Uma, bem portuguesa, é a incapacidade de reconhecer que se errou quando durante anos se disse e escreveu que ele “não tinha hipóteses”, que queria apenas ser “vice-primeiro-ministro” de António Costa, que não sabia fazer oposição, que o PSD estava condenado a se tornar irrelevante e por aí fora. Deve custar admitir que afinal ele chega às eleições com grandes possibilidades, sem nunca abdicar do seu estilo tão criticado. A segunda, é dos que pensam que uma derrota de Rio trará à liderança do PSD alguma reencarnação de Sá Carneiro ou um Passos Coelho a desembarcar no Terreiro do Paço numa manhã de nevoeiro (não será por acaso que ele sensatamente parece querer distância destes sebastianistas “liberais”) ou um Carlos Moedas que mande à fava o mandato que acabou de conquistar ou, enfim, alguém que ninguém percebe quem é, mas que fará “tábua rasa” à direita e iniciará um ciclo glorioso de transformações na sociedade portuguesa, não deixando pedra sobre pedra, à boa maneira do que fascina a esquerda revolucionária e a extrema-direita.
 
Era bom que estes adeptos do quanto pior para Rui Rio melhor para os amanhãs que cantam, se lembrassem do que aconteceu quando se fez o mesmo com Manuela Ferreira Leite quando ela enfrentou José Sócrates em 2009. É verdade que se conseguiu que ela fosse derrotada e que depois viesse o desejado Passos Coelho. Só que, apesar de ter sido um bom primeiro-ministro, a verdade é que ele teve apenas oportunidade de apanhar os cacos deixados pela governação socialista de então. É isto que querem que se repita daqui a uns anos? Não se perdeu já tempo suficiente?

Domingo

por João Távora, em 09.01.22

Baptismo do Senhor - escultura de Amelia Carvalhei

Baptismo do Senhor - escultura de Amelia Carvalheira

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias. João tomou a palavra e disse-lhes: «Eu baptizo-vos com água, mas vai chegar quem é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar as correias das sandálias. Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo». Quando todo o povo recebeu o baptismo, Jesus também foi baptizado; e, enquanto orava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus toda a minha complacência».

Palavra da salvação.

Comentário: No livro do Génesis (Gn 3 23-24) diz-se que depois do pecado dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, eles foram expulsos do paraíso terrestre, que se fechou atrás deles. Agora, na hora do baptismo de Jesus, o Céu abriu-se para franquear a entrada ao homem novo, que é Jesus, que a voz do Pai declara ser o seu Filho. N’Ele e por Ele a todos os que n’Ele crêem, santificados pela graça do Espírito Santo, está agora patente a porta do paraíso.

O sustentável peso das aparências.

por Jose Miguel Roque Martins, em 08.01.22

Temos uma maioria de esquerda. Não admira, enquanto os Portugueses olharem para medidas avulsas e não para o seu resultado global.

As medidas socialistas são, por natureza, atraentes. Conferem benefícios ou asseguram direitos que, aparentemente, não são pagos por ninguém. Parece magia. Mas não é e por isso acaba por correr mal. A realidade acaba por impor-se. Economia de mercado sim, se for despojada de toda a liberdade e por isso, da sua eficiência. É um caminho possível, mas com os resultados que se conhecem: estarmos relativamente piores dos que se afastam do socialismo. 

O mesmo acontece com a defesa dos bens e serviços públicos por funcionários públicos, que evitam o custo acrescido do lucro para os contribuintes. Por isso a saúde e o ensino publico,  custam mais do que custariam se recorrêssemos ao mercado. Porque não há nenhuma razão para o Estado ser inevitavelmente menos eficiente que o sector privado, a não ser os incentivos, que apelam ao interesse próprio de cada um, uma imoralidade, que importa contrariar. Num País pouco pragmático, vamos mudar a natureza humana, ao invés de a aproveitar para interesse comum.

Não importa quanto custe, como diria Catarina Martins. A dimensão de um estadista parece medida pela indiferença sobre os custos que os outros vão pagar.  É nestes temas que a moral socialista se sobrepõe ao interesse colectivo. Em que os meios importam mais do que os fins.A confusão que instalam antes, a confusão entre SNS e os cuidados de saúde Universal, uma mentira útil à causa e, por isso, virtuosa. 

Ao ver os debates eleitorais é fácil de perceber a superioridade da mensagem socialista: basta dizer o que as pessoas acreditam, mesmo contra todas as evidencias.  O velho tema da saúde em Portugal, é um dos mais surpreendentes.

O SNS é um buraco ineficiente, incapaz de garantir o constitucional acesso universal á saúde, uma realidade reconhecida pelos portugueses, cujo sonho de ter um seguro de saúde esse sim, é universal. De tão ineficiente, apesar dos esforços de milhares de óptimos profissionais de saúde públicos, os funcionários públicos, aqueles que devem garantir os cuidados de saúde, são os primeiros a salvaguardarem-se com um subsistema particular, a ADSE.  As respostas políticas de esquerda?

Acabarem-se com as PPP da saúde, que provaram apresentar melhor serviço a menor custo, lançar mais dinheiro ( que alguém vai pagar) sobre o sistema. E ainda têm a lata de fazer do SNS, uma bandeira contra a perfídia da direita, que quer entregar os lucros da saúde aos privados.

Certo e indesmentível é que, quanto mais medidas socialistas, menos bem estar uma sociedade permite.  As sociedades mais ricas prosperas e felizes, são as mais liberais.

O socialismo é uma soma de medidas simpáticas que resultam na estagnação. O liberalismo é o somatório de medidas impopulares que resultam em bem estar social.

 

Os liberais abstencionistas

por henrique pereira dos santos, em 07.01.22

Tenho reparado numa série de liberais abstencionistas.

De maneira geral, o fundamento para esta abstenção é que a Iniciativa Liberal não corresponde aos mínimos de intervenção política a que entendem que um partido liberal deveria dar resposta.

Parte destes liberais são mais conservadores que a Iniciativa Liberal em matéria de costumes, e entendem que as posições da Iniciativa Liberal em relação à eutanásia e questões do mesmo tipo são levadas de forma demasiado leve (para não dizer leviana), por parte da Iniciativa Liberal.

Outra parte acha que a defesa de liberdades direitos e garantias associadas às decisões sobre a epidemia, por parte da Iniciativa Liberal, tem sido timorata e deveria ter sido bem mais consistente.

Parte ainda entende que, ao contrário de outras campanhas eleitorais, nesta campanha a Iniciativa Liberal tem estado demasiado defensiva na discusssão de propostas bandeira, talvez o exemplo mais evidente seja o da taxa única de IRS.

De resto, estou inteiramente de acordo com um destes liberais abstencionistas na definição da minha posição base: "sou liberal porque me arrogo no direito natural de fazer o que entendo, mesmo que isso possa estar errado".

E é a partir dessa posição base que procuro responder à pergunta essencial de qualquer votação: de que forma o meu voto pode ser mais útil (é irrelevante se é mais útil para mim, para a sociedade, para os deserdados da sorte, a pergunta para definir o voto é sempre a da sua utilidade)?

Até agora, não vejo maior utilidade para o meu voto que na Iniciativa Liberal.

Porque concordo com tudo? Não.

Porque não há matérias que acho fundamentais em que eu tenho posições que podem ser divergentes das da Iniciativa Liberal? Não.

Porque acho os candidatos da Iniciativa Liberal os melhores deputados potenciais (os deputados são como os melões, sá depois de abertos se consegue saber mesmo a sua qualidade) de todos? Não.

Nesta resposta tenho de explicar que acho que a Iniciativa Liberal tem muito bons candidatos em vários sítios, como Lisboa, Porto, Braga, mas nem os conheço todos, nem acredito que sejam todos melhores que os que também existem noutros partidos, a minha resposta é apenas para explicar que esse é um critério que tem a sua importância se alguém candidatar Isaltino Morais ou José Sócrates (e muitos dos seus amigos, neste caso), mas para a generalidade dos candidatos não é assim tão relevante para mim, embora aproveite para fazer um apelo para ver se no porto põem o Carlos Guimarães Pinto no Parlamento, em Braga o Rui Rocha e a Carla Castro, onde quer que a estejam a candidatar.

É apenas porque um partido minúsculo, que até agora tinha um deputado, conseguiu pôr toda a gente a discutir a taxa fixa do IRS ou insistir no crescimento do país, ou estar quase sempre do lado das liberdades individuais, contra os poderes que as podem limitar, o que é razão mais que suficiente para encontrar utilidade nesse voto, mais que noutra opção qualquer, incluindo a abstenção.

Fica feita a minha declaração de voto e as razões pelas quais discordo dos liberais abstencionistas: a abstenção é tão útil ao status quo que eu não gostaria de me sentir responsável por esse apoio ao estado a que isto chegou.



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    (cont.)E se a AR é a Casa da Democracia, não haver...

  • Anónimo

    O Parlamento representa o eleitorado e é uma amost...

  • anónimo

    O desinteresse nasceu e subsiste porque metade do ...

  • Carlos Sousa

    Explicou perfeitamente, só que essa solução leva a...

  • balio

    Não sei de quem é a culpa dos erros nos cadernos e...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2021
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2020
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2019
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2018
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2017
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2016
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2015
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2014
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2013
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2012
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2011
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2010
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2009
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2008
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2007
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2006
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D


    subscrever feeds