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Gosto de coisas com um mínimo de rigor

por henrique pereira dos santos, em 29.01.23

"Estado laico? "São dez estádios do Euro em versão religiosa""

Este é o título de uma peça do Público de ontem.

A pergunta é dos jornalistas do Público, as aspas dentro das aspas dizem respeito às declarações de Viriato Soromenho Marques: "As jornadas são os dez estádios do Euro em versão religiosa" que mais à frente explica que o pecado reside "na ostentação".

Estas têm sido duas linhas de argumentação na discussão dos custos para o Estado da realização das Jornadas Mundiais da Juventude em Agosto próximo.

A primeira, a de que a laicidade do Estado consiste em não dar um tostão a actividades religiosas, que é usada pelo jacobinismo mais radical, como se laicidade não fosse o facto de tratar qualquer outra religião tal como trata a religião do futebol, e a que não vale a pena responder.

A segunda, usada por católicos como Viriato Soromenho Marques, anda à volta do pecado da ostentação (esta argumentação tem depois uma declinação que anda à volta da maior utilidade do dinheiro se entregue aos pobrezinhos, mas neste momento não é esta noção errada do que é o custo de oportunidade e das origens da pobreza, que se relacionam mais com a justiça que com a caridade, que me interessa tratar neste post).

O que me interessa é deixar claro como esta forma de ausência de rigor, de respeito pelos factos, é prejudicial ao debate público.

Claro que no caso de Viriato Soromenho Marques isso não decorre da sua incapacidade para ser rigoroso - mau seria se um doutorado em ética não soubesse avaliar argumentos numa discussão desse tipo - mas sim da vontade de obter uma adesão emocional das pessoas a uma tese, esquecendo o rigor dos factos.

As jornadas, aparentemente, estão orçamentadas em cerca de 180 milhões de euros a dividir em partes iguais pelo Estado e Igreja.

Não faço a menor ideia se vão custar isso ou o dobro (nesse caso será a igreja a custear as despesas que ultrapassem os limites com que o Estado se comprometeu), nem faço a menor ideia sobre se é muito ou pouco, não estudei o assunto, e nem me interessa nada se custam mais por causa do pecado da ostentação e se a igreja está, ou não, a ser fiel aos seus princípios.

Por mera curiosidade, gostaria de ouvir algumas destas pessoas a dissertar sobre o pecado da ostentação da Igreja na contratação de quem contratou, aos custos que isso implicava, para pintar a capela Sistina. Ou no caso da celebração da Paixão Segundo São Mateus, encomendada por outra igreja que não a católica, a um compositor muito caro para a época.

O que me interessa aqui é o rigor da analogia: "As jornadas são os dez estádios do Euro em versão religiosa".

O euro 2004 terá custado qualquer coisa como seis mil milhões de euros - inclui uns mil milhões em melhorias em hospitais e aeroportos, por exemplo - dos quais uns seiscentos mil em estádios, ou seja, os dez estádios do Euro (e eu estou a esquecer deliberadamente os custos de manutenção posteriores), custaram três vezes mais que as jornadas no seu todo (admitindo que em vez de 180 milhões acabam a custar duzentos milhões), incluindo as partes infraestruturais de melhoria de acessos, recuperação de uma área degradada da cidade, etc.. Para se ter uma noção, a realização do Euro 2004 custou ao Estado, segundo o tribunal de contas, um pouco mais de mil milhões de euros, mais um menos um terço do que custou recentemente a TAP aos contribuintes e um bocado mais do que custou a Ponte Vasco da Gama.

Por exemplo, só no Estádio da Luz, uma infraestrutura privada em que só se entra através da compra de um bilhete, o Estado terá gasto qualquer coisa como vinte milhões de euros que são, para todos os efeitos, um financiamento a fundo perdido à religião do futebol e de uma das suas igrejas privadas, o Benfica.

Resumindo, dizer que as jornadas são a versão religiosa dos estádios do Euro tem um problema de fundo: a dimensão do envolvimento do Estado, do ponto de vista orçamental, é completamente diferente (as jornadas, no seu todo, são um décimo do Euro 2004, do ponto de vista do dinheiro dos contribuintes, os estádios, que grosseiramente poderemos equivaler ao tal altar (embora o altar seja um equipamento público, ao contrário de boa parte dos estádios), será 1% do que foi gasto nos estádios e talvez uns 10% do que o Estado gastou nos estádios).

Por mim, como escrevi num post anterior, o Estado deveria abster-se de se meter nestas confusões, sejam elas religiosas, desportivas, culturais, científicas e etc., que defina políticas, que as financie na medida do que resulte das eleições, mas que não se meta em grandes realizações pontuais com argumentos manhosos de retorno económico abstracto.

Mas para criticar este envolvimento do Estado, nem o argumento jacobino interessa alguma coisa - um Estado laico tratar qualquer religião como qualquer outra actividade - nem me parece muito útil andar a empolar argumentos para dar ao assunto uma dimensão que, na verdade, dificulta a discussão racional das opções do Estado.

Seja neste exemplo do Euro 2004, seja em exemplos como a Expo 98, cujos custos globais ninguém conseguiu apurar, mas foram seguramente muito maiores que os previstos, variando as contas entre um mínimo de seiscentos milhões a estimativas a rondar os 4 mil milhões, para resultados deprimentos: dois terços dos visitantes previstos e o financiamento público de uma operação de loteamento privado a uma dimensão estratosférica (ainda se fosse para fazer uma nova capital em Castelo Branco, mas andar a despejar mais dinheiro público em Lisboa para aumentar a macrocefalia do país, para mim é incompreensível).

Há quem tenha esperanças de que tudo isto, e a discussão à volta do envolvimento do Estado nas jornadas, fortemente potenciada pela perda das eleições em Lisboa por parte de Medina e pelo amor cristão que José Sá Fernandes dedica a Moedas, resulte num maior escrutínio das despesas do Estado.

Eu não tenho ilusões sobre isso, sem o aguilhão jacobinista, o Estado vai continuar a candidatar-se a campeonatos mundiais de futebol e o povo vai chamar traidor a Ronaldo por ser um dos embaixadores de uma das candidaturas concorrentes.

Por mim, devíamos era estar a fazer uma subscrição pública para duplicar o envolvimento de Ronaldo em candidaturas concorrentes da nossa à realização das Jornadas Mundiais do Futebol.

Uma sociedade conspiracionista

por henrique pereira dos santos, em 28.01.23

""A ideia do artigo de opinião era espicaçar a questão", admite ao Público Paulo Pimenta de Castro. Uma das estratégias para isso foi aludir à "presença muito próxima de interesses imobiliários por parte do Secretário de Estado que tutela o ICNF, João Paulo Catarino", lê-se no artigo de opinião, que refere uma empresa detida em 50% por Paulo Catarino, com actividade na Aroeira, perto da mata" ... ""Acredito nessa intenção, vamos ver", diz o biólogo Jorge Paiva. O perito fez uma visita técnica com a Acréscimo ... embora conceda que o instituto tem "pessoas capazes", desconfia da sua cxapacidade de execução. "Toda a gente sabe que o ICNF não tem pessoal suficiente para fazer um trabalho válido".

Estas duas citações são de um artigo de Nicolau Ferreira, no Público, sobre uma discussão estúpida à volta de acções de gestão normais na Mata dos Medos.

"Essencialmente "estas respostas não satisfizeram a associação Acréscimo, que, em Maio de 2022, enviou uma carta-queixa à Procuradoria-Geral da República visando o ICNF" (onde eu trabalho, fica feita a declaração de interesses).

Não me interessa nada discutir a gestão da Mata dos Medos, nem mesmo do ICNF, o que me interessa é fazer uns comentários sobre o estado catatónico em que vivemos e que o descrito ilustra na perfeição.

O jornalista escreve que a história do corte dos pinheiros na mata dos medos já foi levantada em tempos e esclarecida.

No entanto, duas associações voltaram a levantar a questão, sendo uma dessas associações a Acréscimo.

O jornalista, como qualquer outra pessoa, pode investigar minimamente o que é a Acréscimo.

A Acréscimo é uma fraude inventada por Paulo Pimenta de Castro, que tem três entidades na sua escritura de constituição - Paulo Pimenta de Castro, a sua empresa e a sua ex-mulher -, cuja actividade se desconhece, cujos estatutos se desconhecem, e cujos orgãos sociais, excluindo o seu presidente Paulo Pimenta de Castro, se desconhecem, tal como quaisquer processos electivos.

Ou seja, a Acréscimo é Paulo Pimenta de Castro disfarçado de associação florestal e ambiental.

Paulo Pimenta de Castro foi, durante uns anos, o secretário-geral da Federação dos Produtores Florestais de Portugal (uma organização com sede na sede da CAP) e, nessa qualidade, o principal lobista da defesa dos interesses da produção florestal, em especial, da defesa dos interesses da produção de eucalipto.

A vida dá voltas, Paulo Pimenta de Castro foi afastado, foi para o Brasil uns anos e voltou de lá como sendo o maior crítico da produção florestal de eucalipto, o movimento tático que lhe abriu as portas aos dois movimentos táticos seguintes (para o êxito dos quais contibuiu o facto da Associação de fachada que criou se apresentar como uma associação de produtores florestais, e não uma associação ambiental clássica, sobretudo focada na defesa da fileira do pinheiro): 1) aliar-se ao movimento ambientalista na sua demência anti-eucalipto; 2) por essa via, aliar-se ao genro de Francisco Louçã, com quem escreveu um livro indigente sobre fogos florestais, o que lhe abriu as portas do mundo mediático e da visibilidade pública.

Numa sociedade conspiracionista e que despreza os factos, como a que temos - vejam-se as declarações de Jorge Paiva que citei - a Acréscimo passou a ser uma coisa útil ao movimento anti-eucalipto, conseguindo levar atrás de si todo o movimento ambientalista, mesmo em coisas estúpidas como a contestação a uma portaria sem nenhuma importância e que motivou a minha saída da Liga para a Protecção da Natureza, depois de uma curta discussão com a sua direcção, numa Assembleia Geral em que tentei perceber como raio uma organização como a LPN fazia um pacto com uma fraude como a Acréscimo (ver aqui outros sub-produtos dessa cegueira anti-eucalipto do movimento ambientalista).

E mesmo com Paulo Pimenta de Castro a explicar, candidamente, que tinha metido a martelo a referência aos negócios de um secretário de estado num artigo de opinião só para lhe dar mais visibilidade, uma evidente desonestidade de procedimentos que desqualifica qualquer artigo de opinião que faça, o jornalista ainda lhe dá importância suficiente, e à sua fachada Acréscimo, para o usar no artigo como se a Acréscimo não fosse o que é: uma fraude sem qualquer credibilidade.

Isso não impede que a Acréscimo apareça regularmente em audições na Assembleia da República, ora como associação florestal, ora como associação ambiental, não impede de regularmente arrastar outras organizações, como a ZERO, a Quercus, a LPN, para as sua diatribes contra "os interesses", independemente dos factos, e tudo isso se mantém, por uma razão simples: a Acréscimo é contra os eucaliptos, logo, está do lado certo da história.

É assim que somos, é assim que funcionam as nossas organizações da sociedade civil, é isso que nos vendem os jornais e afins, portanto qualquer burlão com a conversa certa e os aliados escolhidos, passa a ser um senhor, como um tal Artur Baptista da Silva demonstra.

O jornalista que mais o promoveu, e que mais tarde reconheceu que se deixou embarretar, não viu a sua credibilidade afectada entre os pares e anda pela direcção da Lusa, a ser todos os dias embarretado por qualquer um que diga, convincentemente, o que quer ouvir.

E o problema é que esse jornalista somos nós todos, todos os dias.

Adenda: dizem-me, não fui verificar, que o tal jornalista embarretado já não está na LUSA, mas na RTP, como presidente do Conselho de Administração. Q.E.D.

E quem se lixa são os católicos

por João-Afonso Machado, em 27.01.23

Como membro da Igreja Católica Romana devo dizer que não gosto - não gosto de uma certa ingenuidade ou distracção sistemática que vão muito pela sua Hierarquia. Os factos recentes têm, obviamente, a ver com o célebre palco dos cinco milhões. E a discussão divide-se entre o Governo, a autarquia e - suponho - a Diocese lisboetas. Todos falando muito depressa, com o prelado Marcelo no lugar que D. Américo Aguiar devia ocupar firmemente.

Quero acreditar, a Diocese foi olhando o projecto de relance apenas, dizendo repetidos sins e alheada dos números. Mas eles estavam lá, obra e graça, por um lado, da prodigalidade socialista, e do seu laicismo jacobino por outro. Para chegarmos onde agora chegámos.

Quando, afinal, a Igreja tem assuntos seriíssimos com que se preocupar. A pedófilia, à cabeça, pois além da acumulação de males em relação às vítimas, levanta questões da maior seriedade no que respeita ao entendimento das vocações sacerdotais. E a própria realidade da inocultável falta destas. E tudo o que envolve, v.g., o casamento, seja de leigos seja de clérigos. E etc, etc.

O escândalo do dia, o palco onde Sua Santidade celebrará e falará aos jovens, é assim um pormenor empolado e assaz previsível. Tanto que, uma vez mais, é um papel tonto a que a Igreja se sujeita, em prejuízo de si mesma. A fazer lembrar há anos, quando, "sem saber ler nem escrever", se envolveu no projecto TVI.

O campeonato mundial de chinquilho

por henrique pereira dos santos, em 27.01.23

Imaginemos que eu resolvo organizar o campeonato mundial de chinquilho.

Qual deve ser a posição do Estado em relação a isso?

Do meu ponto de vista, nenhuma, eu devo poder organizar o campeonato mundial de chinquilho com toda a liberdade e cumprindo regras gerais de segurança e respeito por terceiros.

Ao organizar o campeonato, eu consigo trazer a Castelo Branco - imaginemos que já consegui vender a ideia de que a capital do país deve mudar para Castelo Branco - cem pessoas.

Qual deve ser a posição do Estado central e local sobre isso?

Do meu ponto de vista, nenhuma, mas Castelo Branco pode achar que ter mais cem pessoas na cidade é uma vantagem para a economia local, eu posso achar que a câmara quer ter mais cem pessoas na cidade, vou ter com o presidente de câmara e digo-lhe que em Idanha me estão a oferecer um terreno gratuito para eu fazer lá o campeonato mundial de chinquilho, e portanto vou levar o campeonato para Idanha.

Qual deve ser a posição do Estado local sobre isso.

Do meu ponto de vista, encolher os ombros, e deixar o campeonato mundial de chinquilho ir para Idanha, o risco de ceder a esse tipo de chantagens é enorme, a possibilidade de às tantas estar envolvido em decisões manhosas é enorme, portanto, do meu ponto de vista, o Estado local - já agora, quer seja o de Castelo Branco, quer seja o de Idanha - não se deve meter no assunto, mas isso cabe aos eleitores decidir nas eleições.

Por mim, o que quero de um presidente de câmara é que me garanta que as sarjetas funcionam bem, não é que decida sobre o que a sociedade e a economia devem fazer na cidade, sendo por isso muito pouco favorável aos gastos públicos que envolvam festas, actividades desportivas, celebrações religiosas, iluminações e animações natalícias e mesmo actividades económicas puras e duras: as fábricas que queiram instalar-se no meu concelho devem encontrar decisões rápidas sobre obrigações legais e boas condições de gestão dos espaços públicos, acessibilidades, infra-estruturas, mas não dinheiro público ou vantagens patrimoniais específicas, sejam elas directas, como a subsidiação, sejam elas indirectas como descontos fiscais, em taxas, disponibilidade de espaços e serviços, etc..

Sou, por isso, contra o envolvimento do Estado na organização de grandes concentrações de pessoas, sejam elas de natureza desportiva, cultural, religiosa, tecnológica, etc., excepto na articulação que essas realizações tenham com o que é da natureza do serviço público: segurança, infra-estrutura, acessibilidade e coisas que tais.

Haveria vantagem para Castelo Branco em ter um milhão de pessoas na cidade a alimentar a economia durante uma semana?

Sim, haveria, os beneficiários que paguem o custo disso, não os contribuintes.

Aqui chegados, apliquemos então o raciocínio às jornadas mundiais da juventude, uma organização da Igreja Católica criada por João Paulo II, coerente com a sua opção evangelizadora usando os meios de comunicação de massas.

Nada contra a sua realização, tudo contra o envolvimento do Estado português em candidaturas e em compromissos de realização conjunta.

A Igreja que faça as jornadas onde quiser, com a organização que quiser, usando os meios que conseguir mobilizar para isso.

Acho natural que a Igreja (como Paddy Cosgrove, a FIFA ou o Comité Olímpico Internacional) procurem capitalizar o efeito económico de decidir a localização das jornadas abrindo uma espécie de leilão, infelizmente demasiado opaco e inevitavelmente atreito à troca e venda de favores, vendendo a localização das jornadas aos Estados que possam beneficiar delas, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico e social.

O preço dessa decisão é, inevitavelmente, tanto mais alto quanto mais gente mobilizar: o meu campeonato mundial de chinquilho dificilmente reúne um milhão de pessoas num determinado sítio durante uma semana, portanto o seu impacto económico e social é diminuto, logo, a decisão sobre a sua localização é muito baratinha.

A principal razão para eu achar que o Estado português, incluindo o Estado local, se deve abster de entrar nesses leilões é que são como as guerras: é relativamente fácil saber como começam, é impossível saber como acabam.

Num Estado disfuncional como o Estado português - o espectáculo de passa-culpas desta semana é profundamente deprimente, começando por ter um Presidente da República armado em mestre de obras a discutir orçamentos - os riscos são potenciados, sendo os custos daí resultantes muito difíceis de avaliar: o maior custo da realização do campeonato europeu de futebol em Portugal nem foi o custo de oportunidade do dinheiro gasto em estádios úteis, nem o dinheiro gasto em estádios inúteis, o maior custo para o país foi o retorno político para José Sócrates, que contribuiu para o mito político que fez de si próprio, e que nos está a sair do pêlo em estaganação e corrosão das instituições, começando pela corrosão moral da instituição Partido Socialista.

Já agora, essa instituição recebe, durante quatro anos, todos os anos, mais que um palco das jornadas mundiais da juventude, deve receber, anualmente, qualquer coisa como sete milhões e meios de euros, só na subvenção que resulta da sua votação nas últimas legislativas. Aqui não está incluído o que recebe para financiamento das campanhas eleitorais nem os benefícios fiscais desta organização, é mesmo só o cheque anual decorrene do número de votos que obteve em 2022 (quase três euros por voto, todos os anos).

Seguindo o raciocínio acima, por que razão não é o Partido Socialista pago pelos seus militantes?

Porque a democracia tem custos e, se o Estado não financiar os partidos que têm mais de 50 mil votos, só os partidos com ligações ao poder económico podem sobreviver e prosperar.

A mera história do MRPP e do regresso de Arnaldo Matos logo que o MRPP teve mais de 50 mil votos em 2009, ou seja, logo que o Estado se substituiu aos militantes no financiamento do partido - quase 15 mil euros por mês, durante quatro anos, não chegam para corromper um partido, mas chegam para um guru como Arnaldo Matos ter uma vida folgada enquanto durarem -, deveria ser suficiente para percebermos todos que alguma coisa de errado se passa com o argumento usado em cima.

É que, como acontece em estados disfuncionais, a boa justificação dada para que o Estado se substitua aos militantes no financiamento dos partidos, é rapidamente cavalgada pelo interesse privado de cada partido e de cada dirigente, acabando no facto de um partido que defende um tecto na CAP para as ajudas aos agricultores, com o argumento de que os maiores agricultores estão em vantagem e o que é preciso é concentrar apoios nos pequenos agricultores que prestam serviços de ecossistema não apropriáveis pelos mercado, se esquecer de usar a mesma argumentação no financiamento partidário pelo Estado.

O problema, por estranho que pareça, é o mesmo do palco das jornadas mundiais da juventude: no momento em que o Estado se substitui aos interessados no financiamento de uma actividade, seja ela política, religiosa, desportiva, cultural, investigativa, conservacionista, etc., o risco de distorções e abusos é enormemente potenciado pela disfuncionalidade dos estados e pela fragilidade das instituições, incluindo a falta permanente de vigilância social sobre elas (que apenas é acordada pelos profusão de argumentos populistas que, de repente, apareceram por aí sobre as jornadas mundiais da juventude).

O que devíamos estar a fazer é a reforçar a liberdade da igreja fazer as suas jornadas onde quiser, como quiser, da forma como quiser, reforçar a capacidade do Estado lidar com concentrações de milhares de pessoas, sem interferir nas razões, financiamento e forma como é feita essa concentração, e tratar de concentrar os recursos do Estado em evitar que as pessoas precisem do Estado para ter uma vida digna, removendo os entraves que o Estado cria permanentemente a que cada um faça o que entende (começando por remover o entrave de alocar recursos do Estado ao que uns fazem e não os alocar ao que outros fazem, com argumentos tão etéreos como as externalidades que cada um cria com a sua actividade).

E, no entanto, não deixo de ter a sensação de que seria mais útil dedicar-me ao chinquilho que continuar a escrever coisas destas.

O pequeno partido

por henrique pereira dos santos, em 27.01.23

"O deputado e recém-eleito líder do partido Iniciativa Liberal é o convidado da Grande Entrevista de Vítor Gonçalves, menos de uma semana após o mediático congresso do pequeno partido."

Numa página esconsa do Público, no seu Guia de televisão, é assim que o Público informa que Rui Rocha vai ser entrevistado.

A Iniciativa Liberal é de facto um pequeno partido (nas últimas eleições teve 4,91% dos votos), mas convém lembrar que atrás desse pequeno partido ficaram dois outros partidos, o Bloco de Esquerda (4,4%) e o Partido Comunista (4,3%) a quem o Público nunca se referirá como o "pequeno partido".

Amanhã não sabemos o que vão ser estes partidos, se serão ainda mais pequenos, se crescerão, se se manterão nesta ordem de grandeza, o essencial, no entanto, é fazer notar que o Público, numa pequena nota para informar da existência de um programa de televisão, caracteriza a Iniciativa Liberal como um pequeno partido, o que nunca faria com os outros dois que citei (igualmente, caracteriza sempre o Chega, 7,18%, como extrema direita, mas nunca caracteriza o Bloco de Esquerda como extrema esquerda).

Esta adaptabilidade de critérios editoriais aos preconceitos dos jornalistas, que nunca levará o Público a caracterizar o Partido Comunista como um partido de funcionários (a secretária geral da CGTP nunca teve outro patrão que não a CGTP, e o secretário geral do PC praticamente nunca teve outro patrão que o Partido Comunista), caracteriza a imprensa portuguesa, como aliás se vê na forma como trata as Jornadas Mundiais da Juventude, organizadas pela Igreja Católica, ou a genialidade política de António Costa, ou a estagnação económica e social que caracteriza o poder dominante do Partido Socialista nos últimos trinta anos, etc., etc., etc..

Este jornalismo de rebanho que atravessa as redacções de praticamente todos os orgãos de comunicação social em Portugal - inclui a redacção do Observador, sem margem para dúvidas - é um problema grave que Portugal tem, tão grave como o generalizado desprezo pela acumulação de capital, a poupança e a riqueza - com excepção da acumulação de riqueza que resulte do futebol ou das artes.

E, sobretudo, tão grave como o desprezo pela liberdade que está na base destes outros problemas.

Um dia destes escrevo sobre a Iniciativa Liberal e o que para mim significa a excelente votação de Carla Castro nesta última disputa interna pelo poder, tal como tenciono escrever sobre a posição que o Estado deve ter sobre a realizaçao do campeonato mundial de chinquilho, mas quando escrever sobre isso, seguramente estarei a reforçar esta minha ideia de que cultivar a liberdade, adubar a liberdade, cuidar de fazer crescer a liberdade é a tarefa política e social mais importante que existe em Portugal.

O resto é só o resto.

A PROPÓSITO DAS JMJ

por Miguel A. Baptista, em 26.01.23

A propósito do palco-altar muitas vozes se levantaram. O facto das pessoas se colocarem questões, procurarem entender e exigirem transparência é, em si, positivo. Claro que à boleia de uma postura de exigência cívica, que é de louvar, veio o jacobinismo mais bacoco, presente em tantas mentes. 

Um dos argumentos jacobinos, que aparece de forma recorrente, é que deveriam ser os católicos, exclusivamente, a financiar a organização. Pois bem, este evento não se limita a uma simples celebração católica. Este mega evento surge de um concurso que tem um caderno de encargos e ao qual, como por exemplo para a organização dos Jogos Olímpicos, concorrem diversas cidades. Nenhuma cidade é "obrigada" a concorrer, se não quer colaborar na organização do evento, há várias outras que se predispõem a fazê-lo. 

A candidatura portuguesa foi apoiado por um PM socialista, um autarca socialista e um autarca comunista, afirmando-se os três como ateus. Bernardino Soares dizia que " “Esta localização foi uma alavanca para um legado que o Papa vai deixar. Um espaço que vai ficar para benefício das populações” enquanto Medina afirmava " “A mensagem do Papa é muito mais vasta do que uma mensagem de fé dirigida aos católicos. Tem um carácter social e económico universal”. 

Acho muito bem que haja consciência cívica e vigilância democrática, aliás devo ter sido dos primeiros, que quando soube dos balores envolvidos na construção do palco-altar, ainda antes da "indignação" tomar conta das redes sociais, a dizer que mais informação era necessária para aferirmos acerca da "bondade" da obra. As JMJ deverão ser o evento mais vigiado e escrutinado que jamais aconteceu em Portugal, está criado o ambiente para isso. 

Eu gosto de vigilância e escrutínio, no entanto temo que a motivação para estes neste caso concreto, não será tanto os portugueses terem descoberto, em si, uma exigência democrática escandinava, devendo antes ser a militância antireligiosa e a mesquinhez. 

Pode ser que esteja enganado, mas temo que muitas motivações em torno de um evento que tem muito para ser acarinhado não sejam as mais nobres. Aliás, o espectáculo de "passa-culpas" a que assistimos esta semana tem sido profundamente deprimente. 

O palco da Jornada Mundial da Juventude

por João Távora, em 25.01.23

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Há mais de quatro anos, quando foi decidido, que venho seguindo com alguma atenção as notícias da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que decorrerá em Lisboa no início de Agosto e que reunirá mais de um milhão de jovens de todo o Mundo na cidade e concelhos limítrofes. Que ninguém se iluda, nunca nada de semelhante aconteceu em Portugal – trata-se de um evento absolutamente excepcional, o maior à escala planetária que, a par da visibilidade que promove da mensagem cristã, comporta uma logística complexa e exigente, em mobilidade e espaços para os múltiplos eventos, que urge por a funcionar. Para se ter uma ídeia, para acolher todos os visitantes juntos, será necessário um espaço correspondente a 10 santuários de Fátima ou dezasseis estádio da Luz. Com ou sem o Palco, com ou sem a colossal esplanada do Parque Tejo arranjada para a Missa Campal no dia 5 presidida pelo Papa Francisco, nada permanecerá na mesma na cidade, que quase triplicará os habitantes durante uma semana – a maior parte da operação será pouco visível decorrerá em regime de voluntariado – alojamento, refeições etc..

Para além dos incómodos que toda esta agitação inevitavelmente irá criar aos lisboetas, é de prever que surjam muito mais polémicas mais ou menos artificiais e o habitual aproveitamento político das facções radicais do nosso espectro político. Escândalos e feridas serão “descobertos” ou reavivados aos católicos. Na mesma proporção que for o sucesso da JMJ, haverá uma vozearia tonitruante a contrapor maledicência e contraditório. É assim que acontece, justa ou injustamente, numa sociedade liberal e extremamente laicizada como a nossa. Procurem-se notícias do que foi a JMJ em 2011 em Madrid, por exemplo.

Mas o que me admira por estes dias nas redes sociais é a quantidade de católicos acriticamente, mal informados, a surfarem a onda do “escândalo do palco-altar". Há muito tempo que este grandioso encontro católico está previsto, no entanto até há poucos meses não estavam definidas as responsabilidades das partes envolvidas - Lisboa, Loures e Governo. Desde então, com as verbas definidas, a seis meses do acontecimento, a CML tudo está a fazer para que o acolhimento se faça com toda a dignidade que nos merecem os visitantes. Dito isto, parece-me importante que se construa um consenso entre os portugueses de boa-vontade para levarmos a JMJ a bom porto. Com os outros já não contávamos, sempre estiveram do lado da ruptura, e sempre que puderam fecharam as igrejas e até mataram o nosso Rei.

PS.: Peço desculpa se desiludo alguém, mas pensava que este assunto já tinha ficado esclarecido com o colapso da Cortina de Ferro: não haverá menos pobres por não haver JMJ ou se o evento for mais modesto. Como não haverá menos pobres se o Vaticano oferecer os seus bens, igrejas, palácios e obras de arte. Esse sempre foi o argumento dos comunistas para expropriar as pessoas. Haverá menos pobres, estou certo, com uma Igreja mais robusta, mais santa, com mais presença na vida das nossas cidades. A ideia de que o dinheiro para o Altar cicula em vazos comunicantes entre instituições/organismos e que poderia ser gasto em caridade ou na construção de casas para os pobres é no mínimo infantil. A pobreza franciscana é um caminho de exigente espiritualidade, como outros uma escolha individual. Para mais a Igreja não é uma mera ONG, a sua fundação principal é evangelizar, ensinar a mensagem de Cristo. Para isso necessita de meios.

Os Limites da Máquina

por Miguel A. Baptista, em 23.01.23

Andei a brincar com o ChatGPT e fiquei relativamente impressionado. É claro que nos próximos tempos a inteligência artificial vai entrar em muitas áreas que julgaríamos exclusivas do humano. Já foi há mais de vinte anos que os computadores ultrapassaram os humanos na capacidade de jogar xadrez. Na altura o computador da IBM, o Deep Blue tinha capacidade para processar duzentos milhões de jogadas por segundo, mas ainda não teinha competências de "machine learnig" que o fizessem aprender enquanto jogava. 

Mas o xadrez é algo limitado, no sentido que mesmo com milhões de possibilidades que se vão desenvolvendo em exponencial, o número de hipóteses é limitado. Em áreas como a escrita, a pintura, a música, a arquitectura, ou a advocacia, as possibilidades são teoricamente infinitas. E já é possível ter, ou pelo menos imaginar, livros, quadros, peças musicais, projetos ou argumentação jurídica desenvolvidos por Inteligência Artificial. 

Um máquina poderá fazer quase tudo. Penso que há apenas uma coisa que uma máquina jamais poderá fazer que é sentir. Ou seja, uma máquina poderá ter todos os sintomas de sentir mas nunca poderá experienciar, efectivamente, um sentimento de si. É isso que coloca os animais sencientes, e especialmente pela sua complexidade, o homem, num terreno à parte. A capacidade de ter alegria, dor, paixão ou encantamento não são possibilidades de maquinas. 

Na minha experiência com o ChatGPT despedi-me da máquina dizendo-lhe "boa noite, apesar de não teres sentimentos, gostei de conversar contigo". Ela respondeu-me "boa noite, apesar de não ter sentimentos, também gostei muito de conversar contigo". 

O predador e a presa

por henrique pereira dos santos, em 23.01.23

Os meus posts anteriores, sobre a dinâmica dos sistemas naturais, tiveram alguns comentários, públicos ou privados, que me fazem escrever, de novo, sobre este assunto.

Começo por despachar um mau argumento, para depois me concentrar nos bons argumentos: "A relação predador-presa está devidamente documentada e existem vários modelos matemáticos suportados em equações diferenciais para o descrever."

Modelos matemáticos servem para testar os preconceitos de quem os usa, não servem para documentar coisa nenhuma, na medida em que as condições de partida são definidas a partir do que se sabe previamente. Em qualquer caso, mesmo quando as relações predador presa tiveram o seu auge na dinâmica de populações, porque alguém conseguiu matematizar uns pressupostos que batiam certo com algumas situações muito pontuais, os autores e utilizadores dessas equações, e desses modelos, chamavam claramente a atenção para as suas limitações, tipicamente, "se tudo se mantiver igual".

Mais tarde (para quem quiser ter uma ideia mais sistematizada pode dar aqui uma vista de olhos, que é interessante e mesmo um leigo como eu consegue entender), mesmo do estrito ponto de vista matemático essas tais equações diferenciais perderam brilho e cingem hoje a sua utilidade a situações muito, muito circunscritas.

Dito isto, a ideia base de que existem oscilações temporárias decorrentes das relações predador presa, tal como descritas nesses modelos, é uma ideia essencialmente certa, embora pouco útil para a compreensão das dinâmicas de longo prazo.

"Se o Henrique puser ovelhas numa ilha com muita erva - como os colonizadores viking fizeram na Islândia, com resultados desastrosos - verá que a erva vai toda à vida, até as ovelhas ficarem também à fome. Estabelece-se um equilíbrio na miséria.
Ou seja, de facto, as ovelhas controlam a erva, não o contrário."

Este é um argumento muito melhor, embora só marginalmente invalide o meu argumento anterior: continuam a ser as plantas a controlar a quantidade de ovelhas, embora num equilíbrio condicionado pela densidade de ovelhas. Uma seca prolongada ou um ano especialmente produtivo, do ponto de vista da produtividade primária, resultam na mortalidade ou no aumento das ovelhas.

É certo que entretanto se passou de uma situação com um determinado tipo de habitats para outro, é bem possível que seja um equilíbrio menos produtivo (isso teria de ser visto com mais cuidado porque normalmente o que é estudado são as alteraçãos dos ecossistemas originais, e não propriamente a quantidade de biomassa produzida), é bem possível que, especialmente em ilhas, haja circunstâncias em que a ruptura provocada por uma nova espécie acabe por redefinir todo o sistema, podendo considerar-se que foram os predadores que moldaram a paisagem.

Os modelos que sugerem que é na captura de predadores ou de presas que está a chave para o resultado que se pretende são sempre construídos com base no famoso "tudo o resto igual".

Ora entre a disponibilidade de alimento, as doenças e os predadores, três factores que se podem considerar relevantes na dinâmicas das espécies, a predação, ou perseguição directa, é muito menos poderoso que os dois primeiros.

E é bem certo que a disponibilidade de alimento (se quisermos complicar, a capacidade de carga, que aparece em vários modelos e muitas políticas), está muito longe de ser estável, quer no curto prazo - varia frequentemente com base na meteorologia -, quer no médio/ longo prazo, em que varia com fertilidade do solo, com os modelos de gestão, etc..

Sendo as doenças, por definição, ainda mais instábveis e imprevisíveis.

É por isso que não se pode falar da diminuição do bisonte americano como tendo decorrido da caça desregrada que aparece frequentemente nos filmes de cowboys (e em muitos artigos de divulgação), sem falar da intensa alteração das pradarias americanas induzida pela colonização dos séculos XIX e XX.

Na sequência dos posts anteriores um amigo citou Hayek, razão pela qual fui à procura do contexto da citação, que me serve muito bem para o que aqui queria dizer, substituindo (como fez esse meu amigo) economia por ecologia, na citação:

“The curious task of economics is to demonstrate to men how little they really know about what they imagine they can design. To the naive mind that can conceive of order only as the product of deliberate arrangement, it may seem absurd that in complex conditions order, and adaptation to the unknown, can be achieved more effectively by decentralizing decisions and that a division of authority will actually extend the possibility of overall order. Yet that decentralization actually leads to more information being taken into account.”

O tal encontro entre o relojoeiro cego e a mão invisível que me tem servido muitas vezes.

Quer isto dizer que não podemos fazer nada e ficamos a assistir ao excesso (dizemos nós, o javali chamar-lhe-á sucesso, se aprender a falar) dos javalis?

Não, quer apenas dizer que as políticas que devemos adoptar devem, em primeiro lugar, reconhecer o pouco que sabemos e, em segundo lugar, que a decisão descentralizada pode conduzir a sistemas ordenados de forma mais eficaz que o planeamento central.

Ou seja, no caso dos javalis:

1) liquidar todos os entraves administrativos à caça do javali, com excepção daqueles que dizem respeito à defesa da propriedade e da vida humana;

2) favorecer a expansão dos predadores potenciais, nomeadamente, do lobo e do urso;

3) favorecer os usos do solo menos favoráveis ao javali (sim, pode incluir olival intensivo, pomares de abacates, amendoais, campos de golfe, urbanizações, etc.);

4) adoptar técnicas localizadas de defesa de bens contra a destruição por javalis.

Isto controla a população de javali?

Provavelmente não, mas concentramo-nos no que interessa: tirar partido da sua abundância actual e impedir que essa abundância afecte bens económicos relevantes, deixando as decisões a tomar em cada momento e lugar para quem esteja o mais próximo possível do problema a resolver.

Valores

por João Távora, em 22.01.23

A propósito de Jacinda Arden: aqui chegados, para mim o verdadeiro Herói, é quem, homem ou mulher, assume com coragem o Poder legítimo de governar os seus, que fruto da moda (já vem de Maio de 68, eu sei) se tornou num activo tóxico. Em nome da sacrossanta igualdade, em breve o prémio caberá a quem perde nas eleições, no ténis ou no Xadrez - a doença há muito que atingiu a Escola Pública. A mediocridade vencerá!

Morra o teatro, morra, pim!

por henrique pereira dos santos, em 22.01.23

Voltarei ao assunto dos últimos posts para falar das relações predador/ presa (quem quiser pode ir ver o que escrevi há mais dez anos sobre a relação entre a caça e a extinção de espécies).

Mas, por agora, queria falar das pessoas que acham que um bêbado só pode ser representado por um bêbado, que um drogado só pode ser representado por um drogado, que um velho só pode ser representado por um velho, e por aí fora.

No fundo, é uma ideia curiosa e revolucionária, a ideia de que o teatro deve abandonar a representação para se aproximar da realidade, independentemente de ser uma ideia estúpida para quem goste de teatro, isto é, da capacidade para usar a representação para falar do mundo.

A história é simples de contar.

Um pessoa qualquer interrompe uma peça porque não gosta do que vê (seria tão simples não ter ido ver a peça que não queria ver).

Não gosta do que vê porque alguém faz o papel de transexual na peça sem ser transexual (ou seja, representa, que é a essência do teatro).

Vai daí, despede-se sumariamente um actor (o que representava) porque era urgente pôr alguém transexual a fazer de transexual (isto é, substituir o teatro pela vida), e isto seria independente de alguém cumprir bem o seu papel de representação ou não (isto é, independentemente de se fazer bom teatro ou mau teatro).

Acho que da próxima vez que alguém fizer uma peça sobre Fernando Pessoa, invado aquilo a exigir que o papel seja entregue a um empregado de escritório bilingue que de meia em meia hora vá ao "Abel" beber um copo de aguardente até ter uma cirrose e, no entretanto, escreva umas coisas de boa qualidade.

Menos que isto é fake (e todos sabemos que o teatro nunca é, nunca foi e nunca será fake, aquilo foi uma estupidez absurda).

Não vejo razão para não me darem os mesmos direitos de imposição da minha visão do teatro que deram a outra pessoa qualquer.

O que pedia ao pessoal que foi ver uma peça porque não gostava da peça, que se atirem ao Almodôvar e invadam o set de filmagens onde ele andar porque o homem só pode ser homofóbico e transfóbico, com a mania que tem de escolher os actores dos seus filmes pela qualidade da representação e não pela pelas suas identidades de género.

Um cavernícola.

Domingo

por João Távora, em 22.01.23

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte, uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Caminhando ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O. Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu, a consertar as redes. Jesus chamou-os e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O. Depois começou a percorrer toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.

Palavra da salvação.

O regresso da complexidade

por henrique pereira dos santos, em 21.01.23

O meu post anterior levou um amigo meu a fazer dois comentários muito interessantes:

"Não percebo as tuas certezas. A existência de um predador condiciona a evolução da população da presa. Não pode o homem ser esse predador?"

E, perante a minha resposta de que é ao contrário, é a população da presa que condiciona a população do predador, o meu amigo insiste:

"Dificilmente o predador homem será condicionado pela presa javali".

Em primeiro lugar, certezas não é bem comigo, mas foquemo-nos no resto, que é mais interessante.

É verdade que se houver boas densidades de lobo, as densidades de javali tendem a diminuir, quer porque o lobo preda crias de javali quando consegue (ou quando a fome aperta o suficiente para valer a pena de correr o risco de enfrentar a fúria da javalina), quer porque há competição pelo espaço entre as alcateias de lobo e as varas de javalis.

Portanto, sim, populações de predadores podem afectar populações presa, embora de forma bastante limitada.

A natureza, desse ponto de vista, é bastante marxista: não há capitalistas sem trabalhadores, mas pode haver trabalhadores sem capitalistas.

A chave da questão é a energia: todos os sistemas naturais que conhecemos assentam na capacidade de captação de energia para a formação das cadeias químicas complexas de que somos feitos, ou seja, esmagadoramente, assentam na capacidade de fotossíntese das plantas ( há uns sistemas com expressão marginal que vivem de outras fontes de energia).

Ou seja, a grande maioria da biomassa, isto é, do armazenamento químico da energia solar que a terra recebe, é constituída por plantas e é a partir dessa base que tudo se organiza.

Não por acaso, a esmagadora maioria dos grupos heterotróficos (não sei se isto existe e se é tecnicamente correcto usar esta palavra para dar a ideia de que dependem da energia armazenada por outros, por não terem capacidade fotossintética), sejam fungos, bactérias ou organismos mais desenvolvidos e complexos, como nós, é constituída em número, diversidade e biomassa, por invertebrados, muitos deles decompositores da tal biomassa constituída pelas plantas.

Organismos de topo somos poucos e representamos uma quantidade de biomassa relativamente modesta (a população humana mundial é relativamente pequena quando comparada com a população mundial, mesmo medida em biomassa e não em número de indivíduos, de formigas).

O sistema, pois, organiza-se de baixo para cima: é na medida em que há abundância de presas que pode haver alguns predadores (sendo certo que os maiores organismos são herbívoros, e não carnívoros, como alguns grandes predadores, ou omnívoros, como nós e muitos outros predadores).

O controlo de presas por predadores, visto deste ponto de vista, é uma contradição nos termos, na medida em que se os predadores forem muito eficientes a controlar as presas, estão a suicidar-se, a prazo.

Claro que quanto menos especialistas forem os predadores, mais se podem usar as suas preferências por esta ou aquela presa, mas também a sua capacidade de substituir umas presas por outras, para tentar gerir o sistema de acordo com os nossos objectivos, mas convém perceber que o mundo biológico evolui a partir da acção de um relojoeiro cego (o título de um livro de Dawkins) e não a partir de um design inteligente.

Os mais versados em economia e outras ciências sociais repararão, com certeza, na similitude entre a ideia de um relojoeiro cego e de uma mão invisível, mas deixemos essa curiosidade por agora.

Não sendo exactamente rigorosa a ideia de que dificilmente o predador homem pode ser condicionado pela presa javali, essa é uma ideia que, em termos gerais, está certa, mas porque o predador homem é um omnívoro oportunista que se alimenta de tudo o que encontra à volta, não tem a dependência dessa presa que o lince da península ibérica tem do coelho.

E não é exactamente rigorosa não só pelas razões que o artigo que dá origem a estes dois posts lista, com prejuízos económicos relevantes que podem liquidar actividades económicas inteiras, para além de efeitos sociais na forma como ocupamos ou evitamos usar espaços, como porque as populações de javali podem ser veículos de transmissão e doenças que impactam fortemente a economia de produção do porco, por exemplo.

Já em tempos escrevi sobre como a disseminação da peste suína africana liquidou a base económica do montado de azinho em Portugal, sendo claro que a sua erradicação é dificultada pelo facto das populações de javalis a poderem disseminar.

E isto é válido para qualquer espécie, o que deve ser visto tendo em atenção que as doenças e a fome são muito mais relevantes na dinâmica das espécies que a predação directa (incluindo a morte provocada por conflitos dentro da mesma espécie, a que, no caso da nossa espécie, chamamos guerra, quando atinge elevadas proporções).

Ou seja, certezas, certezas, só mesmo a que já enunciava no post anterior: nós sabemos muito menos de como lidar com o mundo do que estamos convencidos, e por isso convém manter a humildade que alimenta a prudência, antes que caiamos nas armadilhas da convicção sobre a superioridade das capacidades do design inteligente em relação às capacidades do relojoeiro cego.

Aflição na Sic?

por José Mendonça da Cruz, em 20.01.23

Desmoralizada com as trapalhadas políticas, de ética e dinheiro no ministério socialista da administração interna, e no ministério socialista das finanças, e no ministério socialista da agricultura, e no ministério socialista das infraestruturas, e no ministério socialista dos estrangeiros, e no ministério socialista da educação, e no gabinete do primeiro-ministro socialista, e na CML quando socialista, a Sic, sempre zelosa, foi ver se «aliviava a barra» socialista, e descobrir alguma patranha não socialista. E descobriu. Descobriu que há anos, o líder da oposição, Montenegro, foi ao jantar de inauguração de um restaurante da sua terra, e até falou com o dono, o qual teve umas patranhas com o presidente socialista da Câmara local, o qual está preso.

Que escândalo, não é? Vale até uma 37.ª pergunta no «mecanismo». Assim: «Alguma vez jantou ou almoçou ou algum familiar seu jantou ou almoçou em algum restaurante em atividade ou em inauguração cujo dono esteja envolvido ou tenha participado em acto ou processo ilícito com algum membro do PS?

& único E falou com ele?»

Ou, de outra maneira: Então, Sic, as sondagens estão assim tão más para o vosso dono?

Da complexidade

por henrique pereira dos santos, em 20.01.23

Este artigo é muito interessante, mesmo descontando alguns exageros, até por procurar manter os pés no chão.

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O que me interessa aqui é seguir o Mito Lógico.

Há muitos javalis, logo, temos de caçar mais para conseguir controlar o excesso de população.

Esta ideia é muito difundida e tem uma ideia gémea, igualmente simples e popular, que se lhe opõe: o excesso populacional é um desequilíbrio do sistema, portanto a solução não é caçar mais, mas reequilibrar o sistema, retirando o homem da equação através de processos de renaturalização.

Note-se que no artigo em causa a ideia principal é a primeira, mas implícita está a ideia contrária de naturalização (rewilding, como agora se diz), como uma impossibilidade por razões que nos ultrapassam: o javali não tem predadores naturais para além do homem.

Estas ideias, em especial a primeira, está muito longe de ser moderna e motivou, ao longo da história, muitas políticas, a maior parte simplesmente ineficazes, algumas trágicas, como quando foi posta em marcha, na China de Mao Tse Tung (e ainda há quem continue convencido de que a racionalidade de um governo central é uma boa ideia) "a grande campanha dos pardais", ou campanha das quatro pragas, enfim, tem vários nomes e um resultado principal: milhares de mortos e um desastre ambiental tremendo.

Ainda hoje há milhões de pessoas convencidas de que a perseguição directa pelo homem é um factor relevante na dinâmica das espécies, em especial das espécies com grandes populações, como o javali.

Pode ser, em circunstâncias muito limitadas (de maneira geral em ilhas), mas a verdade é que desatar a caçar javalis, se pode ser bom para dar proteína barata criada com respeito pelo bem-estar animal, não dá garantias nenhumas de fazer diminuir a população de javalis.

Todos conhecemos as décadas, os séculos, de perseguição ao lobo, incluindo montarias brutais, pagamentos a quem apresentasse animais mortos, fojos, a mobilização de comunidades inteiras e, ainda assim, o lobo persiste (e, por acaso, até está em expansão, neste momento).

É lógico pensar que matando mais animais, faremos diminuir o seu número, mas na verdade é com o aumento do número de animais que aumenta a quantidade de animais que conseguimos matar.

Do que precisamos é de alterar o ponto de vista.

Foi o facto de termos diminuído grandemente a mortalidade infantil que fez com que a população humana tivesse crescimentos enormes (é por isso que Haber e Bosch são mais importantes que Pasteur, Pasteur conseguiu diminuir o número de doentes que morriam ao identificar as causas das doenças e abrindo a porta à produção de terapeuticas eficazes, Haber e Bosch conseguiram diminuir o número de doentes e o número de pessoas saudáveis que morriam de fome, que eram muitos mais).

Na dinâmica das espécies selvagens a questão é, essencialmente, a mesma: temos de olhar para a capacidade de reprodução e da sobrevivência das crias, mais que para a mortalidade, se queremos perceber os factores que influenciam essa dinâmica.

Os javalis expandem-se porque as condições de abrigo e alimentação lhes são hoje muito favoráveis, o que faz com que tenham ninhadas grandes e com boas taxas de sobrevivência. Se retirarmos animais, nomeadamente através da caça, ou de outra forma qualquer, sem alterar essas condições de base, o resultado é que, para os que ficam, as condições são ainda mais favoráveis, por diminuirmos a competição intra-específica, isto é, a competição entre javalis.

Ou seja, a dimensão ds ninhadas e as taxas de sobrevivência das crias aumentam, e vão repondo os animais que conseguimos abater entretanto.

Isto é, centrarmo-nos na caça, quer como solução, quer como não solução, não nos leva a lado nenhum.

Do que precisamos é de discutir a gestão de habitats e dos recursos que estão na base da dinâmica actual das espécies.

E, para complicar, tudo o que façamos prejudica uns e beneficia outros, incluindo não fazer nada, abandonar, restaurar ecossistemas, que também beneficia uns e prejudica outros.

É uma chatice termos um problema e cem soluções (cada uma delas com variantes que alteram os resultados), mas esse é o mundo em que vivemos.

E é por ser uma chatice que os populistas, em alturas de maior aperto, têm muita popularidade: oferecem soluções simples para problemas complexos, escolhendo os alvos a abater (sejam eles os muçulmanos, os pretos, o perigo amarelo, os lucros das grandes empresas, as offshore, a caça, o eucalipto, etc., etc., etc..) e ignorando os efeitos secundários das soluções que defendem.

A humildade de saber, mas saber mesmo, com uma convicção profunda, que podemos muito menos do que pensamos, é uma excelente vacina contra o populismo, todos os tipos de populismo.

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A frase que adaptei como título desta crónica é retirada do discurso do Papa Bento XVI a 25 de Abril de 2005 às delegações e peregrinos de língua alemã em Roma por ocasião da sua eleição e ficou a ressoar na minha consciência nas semanas que se seguiram à sua morte. Porque encaixa na percepção que tenho dos caminhos da decadência que nos atraem por estes dias no ocidente niilista. Ao conforto todos nos sentimos atraídos - como diz o povo, disso até os bichos gostam. Mas das pessoas espera-se que exijam algo mais.

É no conforto que investimos grande parte dos nossos recursos: uma casa confortável, decorada com os mais variados objectos que nos devolvam harmonia e identidade, equipada com o necessário para elaborar sofisticadas refeições para a família e os amigos, livros dos nossos autores preferidos à mão de semear, um sistema de som que transforme a sala numa sala de concertos, etc. etc.. O problema é que, ao final do dia, parece-me evidente que não é nada disto que nos realiza, antes amolece-nos como papalvos. Bem sei que nos podemos inscrever no ginásio a massacrar o corpinho ou participar noutros desafios, até solidários, que o "mercado" nos oferece. Pela minha parte, quando me encolho no conforto com demasiado afinco e por demasiado tempo, consome-se-me a longevidade, estagno-me na lassidão, e revolve-se-me a ansiedade, numa urgência de ressurreição. Quando muito o conforto é um ponto de partida que nos desafia a coisas grandes. Amaldiçoado será o príncipe, mesmo suplente, que rejeita o privilégio de serviço vitalício ao seu povo. 

Não se julgue que os grandes feitos são só como os do escritor que vê impressa a sua obra prima, do cientista que depois de anos de extenuante investigação descobre a cura para uma doença fatal, da conquista duma medalha olímpica pelo desportista, ou a tomada de posse do político após uma vitória eleitoral – essas são coisas grandes, sim, mas as mais importantes "coisas grandes" a maior parte das vezes ficam anónimas, não brilham na ribalta, são obras de cura e harmonia que obtemos para os outros, ou até conflitos que evitámos pelo silêncio. As coisas grandes são sempre para os outros, salvam alguém ou alguma coisa, é assim que as usufruímos em pleno. Podem ser pequenas na aparência; uma visita a uma pessoa só a partilha de um bem escasso – o saber ouvir. Mas já é do âmbito de "coisa enorme" o filho que cuida disciplinadamente meses a fio do pai enfermo, que já não irá agradecer. É uma coisa enorme oferecer sem pedir de volta. Se isso se tornasse moda, era um pouco de Céu que se replicava na Terra. Desenvolver a capacidade de fazer "coisas grandes" é civilização, é o que devemos ensinar os nossos filhos, desde logo pelo exemplo. É urgente despertar-lhes o bichinho de fazer coisas grandes, um dom democrático ao alcance de todos, porque esse é o sopro divino que nos foi dado e nos distingue da restante criação. Só possível a partir de cada pessoa e na sua medida, eu sei. É construirmos um mundo melhor de dentro para fora sem desfalecer com os tropeções, que as contas se fazem no fim.

Julgo que esta é a matriz da Europa cristã que Bento XVI tanto se preocupava em preservar e que vai capitulando à conquista do conforto tido como um fim e si. Não deveria o conforto ser apenas o ponto de partida para as "coisas grandes" ou estará condenado a ser a causa da distracção e amolecimento das vontades?

Esta é a minha modesta e tardia homenagem a Bento XVI. 

Essencial e acessório

por henrique pereira dos santos, em 19.01.23

Por causa do meu post anterior, um amigo, muito indignado por eu me distrair do essencial, pergunta-me: "desmembrar o ICNF é acessório?".

O ICNF é o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ou Instituto para a Conservação da Natureza e Florestas, nem sei, nem vou verificar), o sítio onde trabalho, onde fiz grande parte da minha carreira e aprendizagem profissional, e onde fiz de tudo, desde estagiário a vice-presidente, até a recentemente ter ganho um concurso para chefe de departamento de conservação, lugar que acabei por recusar por razões que só a mim dizem respeito.

Mais que isso, sou um dos redactores principais do regime jurídico da conservação da natureza em Portugal, estive na base da transposição da directiva habitats para o direito português, fui responsável pela discussão pública e criação da rede natura em Portugal (na componente que decorre da directiva habitats e não da directiva aves, que é anterior), fui responsável por todas as áreas protegidas em Portugal, ao fim de décadas, passarem a ter um plano de ordenamento (algumas tinham e outras não tinham, tendo eu trabalhado em vários dos planos de ordenamento que existiam), fui responsável operacional (a ideia foi de João Menezes) pelo processo Business and Biodiversity, fui responsável durante uns anos pelos processos de Avaliação de Impacte Ambiental em que o ICN participava e muitas, muitas outras coisas.

Claro que nem uma destas coisas fiz sozinho e em muitas delas nem sequer era o principal responsável do processo, era o segundo ou terceiro.

Tenho pois uma grande afeição ao ICN, nas suas várias configurações, e acho um bom instrumento de intervenção do Estado na gestão de conservação da natureza, na medida em que conseguir cumprir as suas funções com um mínimo de eficácia e decência.

Dito isto, a minha resposta ao meu amigo é absolutamente clara: não, desmembrar, extinguir, rebentar com o ICNF, não faz parte do essencial.

Conheço Carlos Pimenta há anos, tenho imenso respeito e afecto por ele, agradeço-lhe mesmo muito ter-me apoiado quando fiz o meu doutoramento (um doutoramento feito nas horas vagas, sem qualquer bolsa, numa família relativamente grande e endividada, não é uma situação fácil de gerir e agradeço muito a quem me permitiu fazê-lo, Carlos Pimenta é uma dessas pessoas). Um dia contou-me (é público, não é nenhuma inconfidência) que não queria ser secretário de estado e por isso fez exigências que considerava inaceitáveis para o ministro que o convidava, incluindo triplicar o orçamento do então serviço de parques. O minstro aceitou e Carlos Pimenta continua a orgulhar-se de ter conseguido esta lança em África. Não pude deixar de lhe responder que, infelizmente, tinha sido um erro estratégico que ainda hoje é pago pelo ICNF: a súbita afluência de recursos sem as necessárias competências de planeamento, gestão e controlo, acabaram como acabam sempre: numa maldição de recursos.

O ICNF tem recursos a mais para a capacidade estratégica que tem e para os sistemas de comando e controlo que tem, o que o torna numa máquina de torrar dinheiro, umas vezes com bons resultados, outras vezes com maus resultados, mas com a absoluta incapacidade para distinguir uma situação da outra.

Tudo isto é potenciado pelo pudor com que se fala de corrupção a propósito de conservação da natureza e florestas - claro que há corrupção, quer a financeira, quer a corrupção moral que consiste em proteger os amigos, perseguir os inimigos e aplicar a lei aos restantes -, e pelas opções de gestão que resultam no facto de haver um conselho directivo com oito membros e, com a excepção do seu presidente que tem uma breve experiência em conservação, não ter um único membro com curriculum digno desse nome em conservação da natureza.

Não seria grave, se fossem todos grandes gestores e pessoas de excepção, mas desses oito membros, seguramente menos de metade seriam eventualmente escolhidos para os lugares que ocupam, se houvesse um mínimo dos mínimos de exigência (e de vergonha na cara) nessa escolha.

Ainda assim, discutir o ICNF continua a não ser essencial, porque o essencial não é o que Estado decide ou faz no território, o essencial é que cada proprietário e gestor faz.

E é por isso que me interessa pouco discutir os modelos de gestão do ICNF, excepto na reafirmação constante de que sem avaliação de resultados sólida e sem responsabilização pelas decisões tomadas, não apenas pela gestão de topo, mas por cada técnico que emite um parecer não fundamentado (quando não mesmo ilegal), qualquer modelo de gestão falha em criar uma instituição que consiga devolver à sociedade o que os contribuintes investem nela.

Só que este não é um problema do ICNF, este é um problema da sociedade portuguesa e do Estado que sustenta, quer financeiramente, quer na falta de exigência que lhe dedica.

Um exemplo exemplar da falta de qualidade do debate público

por henrique pereira dos santos, em 18.01.23

Daniel Veríssimo é um rapaz novo (suponho que andará pelos 25 anos) e que tem visto vários artigos seus sobre conservação da natureza e o Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (onde trabalho, fica feita a declaração de interesses) publicados e republicados.
Como tenho muitos amigos que sabem que me interesso por gestão da paisagem e do património natural, frequentemente fazem-me chegar esses artigos achando-os muito relevantes.
O último dos artigos que me fizeram chegar é publicado pelo Público (P3), numa coisa chamada Azul, que é um suplemento de militância ambiental que há quem confunda com jornalismo ambiental (não é de agora, o jornalismo ambiental sempre foi militante, embora sempre com diferenças notórias entre os militantes ambientais, que por acaso escreviam em jornais, e os jornalistas que, sendo militantes ambientais, nunca confundiram a sua militância pessoal com o seu trabalho profissional, de que são exemplo Carla Castelo ou Ricardo Garcia).
O artigo “O fim do ICNF — mal-amado, agora quase acabado” tem as características que decorrem do seu autor ser um “Conservation Finance Expert”, com um curso de economia do ISCTE e que, nas suas palavras, “Desde muito novo que é interessado pela natureza e cresceu a ver documentários da BBC Vida Selvagem”, tendo um curriculum de trabalho em conservação da natureza que se resume a trabalhar para a “Rewilding”, primeiro como técnico de empreendedorismo, durante quase três anos mudando-se em Setembro do ano passado para a casa-mãe, nos Países Baixos, com a tal missão de ser “Conservation Finance Expert” (para além dos anos a ver televisão, claro).
O artigo começa com afirmações fortes e de cátedra, como é habitual nos artigos de Daniel Veríssimo:
“O ICNF (Instituto para a Conservação da Natureza e Florestas), apesar de ser pouco conhecido, desempenha um papel importante, é a entidade responsável pela preservação e restauro do mundo natural no país”.
Não sei o que Daniel Veríssimo entende por “pouco conhecido”, pela parte que me toca, não conheço ninguém que não conheça o Instituto para a Conservação da Natureza e Florestas, e não é a entidade responsável por isto ou aquilo, isso somos todos nós, é a entidade de tutela deste sector, o Estado não é responsável pela sociedade.
Depois deste primeiro parágrafo introdutório, com um equívoco sobre o papel do Estado na conservação do património natural, Daniel Veríssimo entra a matar:
“Se fosse uma entidade ao nível das melhores da Europa, seria motivo de orgulho nacional, o seu nome reconhecido pelo público e os sucessos seriam abertura de noticiários e capas de jornais. Mas o ICNF não é uma das melhores, talvez seja uma das piores entidades governamentais responsáveis pela conservação e restauro da natureza no continente europeu, é mal estruturada, tem pouca ou nenhuma visão estratégica e tem fracos resultados no terreno.”
Eu não sei de que países fala Daniel Veríssimo em que os sucessos em Conservação da Natureza abrem noticiários e capas de jornais, embora conheça muitos países em que a conservação da natureza aparece a abrir noticiários e a fazer capas de jornais quando alguma coisa corre mal ou, pelo menos, existe a percepção de que correu mal.
De resto, essa é uma opinião generalizada sobre a importância atribuída à biodiversidade mundialmente, sendo frequentemente comparadas coberturas noticiosas das cimeiras do clima e da biodiversidade, bem como o nível de representação dos estados nas duas cimeiras, não sendo habitual ver chefes de Estado nas COP da Convenção da Biodiversidade, ao contrário do que acontece nas COP do clima.
Também não sei quais os critérios de Daniel Veríssimo para avaliar o desempenho das diferentes entidades do Estado que tutelam o sector em todo o lado, tal como estranho as certezas de Daniel Veríssimo sobre os fracos resultados do ICNF no terreno, visto que uma das principais deficiências das políticas públicas de conservação é a avaliação de resultados da gestão, razão pela qual não existe qualquer maneira de alguém conseguir distinguir o que tem corrido bem e o que corre mal nas políticas públicas de conservação da natureza (nisso não existe originalidade deste sector, é o padrão na administração pública portuguesa, embora potenciado pela dificuldade intrínseca em avaliar resultados em matéria de conservação da natureza).
O que é inegável é que Portugal é um hotspot de biodiversidade na Europa e concentra em si muito mais património natural que a generalidade dos outros países europeus, apesar da ladainha da desgraça que há anos é habitual sobre o assunto, como no caso deste artigo de jornal.
“Um olhar atento revela nos últimos anos mais escândalos que resultados. O restauro das populações de lince ibérico (um grande sucesso) contrasta com incêndios nas áreas protegidas (ardeu a serra da Estrela e o parque da Arrábida no Verão passado). A condenação pelo tribunal europeu certifica a fraca qualidade do trabalho do ICNF na preservação de espécies e habitats.”
Um olhar atento revela que apesar da frase forte sobre mais escândalos que sucessos, o autor não identifica um único escândalo e de resto limita-se a fazer uma escolha cuidada de assuntos aleatórios que servem as suas frases definitivas, sem fazer o menor esforço de avaliação do que quer que seja e, mais grave, sugerindo uma enorme ignorância sobre os assuntos sobre os quais escreve.
Comecemos pelo exemplo de sucesso que refere – a recuperação das populações de lince – que omite as enormes variações nessas populações em função da disponibilidade de coelho, questão que até pode ter alguma relação com acções de conservação, mas é essencialmente o resultado das epidemias periódicas que assolam as populações de coelho.
O autor esquece que 90 a 95% da população de coelho morre nos anos 50 por causa da mixomatose, levando a uma fortíssimo redução das populações de lince, que volta a haver uma razia brutal, por causa da pneumonia hemorrágica viral, nos anos 80 (que escolhe, não apenas o autor, mas a generalidade dos conservacionistas que se entretêem a atribuir ao que fazem as fases ascendentes das populações de lince, e às epidemias nos coelhos as fases descendentes) como linha base para avaliação da população de lince, esquecendo igualmente que trinta anos depois voltou a haver uma depressão na população de lince, por via de outra epidemia (esta menos desastrosa).
O autor atribui este sucesso ao ICNF – não se sabe porquê – e prefere não o discutir com informação objectiva da dinâmica das espécies selvagens que, felizmente, depende muito menos das políticas do Estado que das evoluções sócio-económicas que condicionam a evolução das paisagens.
Este erro de análise é ainda mais evidente quando atribui ao ICNF o papel de Deus que faz haver ou não haver incêndios, omitindo que os fogos são um elemento natural, sempre presente nos sistemas naturais, cujo padrão de frequência, continuidade e severidade depende, essencialmente, da gestão de combustíveis finos.
Por esta razão, Daniel Veríssimo considera que arder em áreas protegidas é um falhanço do ICNF, sem sequer curar de saber que muitos valores naturais dependem destes fenómenos de perturbação para serem viáveis (sendo novo, como é, ainda vai a tempo de estudar o grande incêndio do Parque Nacional de Yellowstone, que na opinião do autor demonstraria a incompetência do serviço de parques americano, bem como as avaliações dos seus efeitos ao longo do tempo. Talvez nessa altura perceba que o problema do ICNF e da política pública de conservação não é o facto de existirem fogos nas áreas protegidas, mas não existir avaliação consistente e estendida no tempo que permita produzir relatórios sólidos sobre os efeitos dos fogos na biodiversidade. O que abre espaço para que a ignorância de Daniel Veríssimo sobre o papel dos fogos nos ecossistemas que temos, e na conservação do património natural, possa ser lida como uma opinião que vale a pena ponderar, e não apenas como aquilo que é: o atrevimento da ignorância).
“A aposta em floresta biodiversa é traduzida em mais licenças para plantar eucaliptos, gestões florestais danosas (mata dos Medos, Lousã ou pinhal de Ovar) e gestão do “abandono”.”
Sem surpresa, dada a expressa ignorância sobre os processos de evolução da paisagem, lá vem o papão dos eucaliptos, com o truque retórico de atribuir ao ICNF o poder de determinar a área de uma espécie com políticas administrativas, ou o poder de contrariar o abandono que resulta da falta de competitividade das actividades que gerem território.
Até aqui, é o normal, mais grave é a ligação a licenças para plantar eucaliptos e a Mata dos Medos, Lousã ou pinhal de Ovar, porque saltamos do nível da ignorância para a pura desonestidade, não havendo nenhum dado objectivo que autorize a acusação implícita de que o ICNF está a promover o licenciamento de novas áreas de eucaliptal onde se refere.
É verdade que a área de eucalipto aumenta (pouco, mas aumenta), só que isso não corresponde a qualquer política pública, e muito menos à acção do ICNF, pelo contrário, é a resposta social que contraria essas políticas públicas irrealistas e mal formuladas.
A quimera da aposta na floresta biodiversa (quantos hectares de floresta biodiversa foram instalados, com sucesso, pela Rewilding, nos terrenos que gere, a que preço e com que financiamento?) infelizmente é um erro estratégico do ICNF, dando suporte a uma política demagógica e populista que assenta numa asneira técnica: a de que a alteração das espécies dos povoamentos florestais altera o padrão de fogo que ocorre, erro estratégico que é responsável pela tibieza das políticas de gestão de combustíveis finos, essas sim, úteis para gerir sensatamente o fogo e para cujo sucesso seria possível contar com os produtores de eucaliptos, se o ICNF não cedesse à demagogia a que o parágrafo citado dá voz.
“Uma gestão de “proximidade”, fundamental para prevenir conflitos e garantir benefícios para as comunidades perto de zonas naturais, significa para o ICNF reuniões em palácios na capital e inexistência de diretores para as áreas protegidas”.
A já citada desonestidade do texto tem aqui mais uma evidência, ao omitir que a tal reunião em palácios na capital foi apenas a primeira de outras que foram sendo feitas noutros locais.
Discordando eu do modelo que o ICNF adoptou para o processo a que se refere a tal reunião, defendendo eu um modelo bem mais atento a quem faz conservação e menos a quem diz que sabe fazer conservação, acho insuportável este tipo de demagogia sem qualquer utilidade para a conservação na natureza.
Quanto à existência de directores de áreas protegidas, uma conversa absurda que é permanentemente invocada por quem desconhece a história da conservação da natureza em Portugal, gostaria de dizer que fui eu quem fez a primeira proposta para liquidar o sistema feudal de gestão de áreas protegidas em que os directores se consideravam imbuídos dos direitos dos marqueses do antigo regime sobre os territórios sob sua tutela.
O autor do texto é demasiado novo para ter consciência do que era a gestão de áreas protegidas até ter sido tomada a decisão de reorganizar a sua gestão de topo com base em áreas mais vastas (aproveito para negar, veementemente, que em todo o mundo as áreas protegidas têm directores, em muitos lados não é assim, e foi exactamente a demonstração de que havia muitos sítios no mundo que tinham adoptados outros modelos, que fez com que a minha proposta de acabar com os directores que havia acabou por ter sucesso).
Para o que aqui interessa, as críticas ao ICNF e seus antecessores, eram, já nessa altura, do mesmo tipo e usando os mesmos argumentos, isto é, a existência de directores de áreas protegidas que na prática não respondiam a ninguém, não eram responsáveis pelos resultados que entregavam e não tinham de responder em Bruxelas por eventuais incumprimentos da legislação comunitária em matéria de conservação, não correspondeu a nenhum período áureo da gestão de áreas protegidas em Portugal.
O que se compreende: todos os modelos de gestão são igualmente maus quando não existe avaliação e responsabilização.
As poucas, pouquíssimas, direcções do ICNF e seus antecessores, que adoptaram políticas sérias de avaliação e responsabilização, o que é especialmente difícil numa organização de conservação dentro do Estado português, foram rapidamente removidas por uma coligação de interesses internos e necessidade de evitar a contestação política e mediática, com o forte aplauso das ONGAs e destes militantes que nunca geriram nada, mas insistem que sabem muito mais do assunto que os que têm de resolver problemas todos os dias.
O resto do artigo é tão deprimente na sua ignorância sobre as obrigações internacionais do Estado português, sobre a natureza da administração pública em Portugal, sobre os processos de evolução da paisagem que condicionam a dinâmica das espécies selvagens, que seria ainda mais fastidioso estar a contestar, ponto por ponto, cada uma das afirmações tontas e não fundamentadas a que o Público acha que deve dar publicidade.
“Quando outros países reintroduzem espécies localmente extintas ou pouco abundantes, Portugal ainda faz “monitorização”. Quando outros países centralizam funções numa entidade para dar mais força à conservação da natureza, Portugal espalha e dilui responsabilidades”.
Continuar a explicar que contrapor a reintrodução de espécies (o principal negócio da Rewilding, uma operação cara, frequentemente inútil e ineficaz se comparada com a gestão da dinâmica natural, como demonstra a história da reentrada do lobo nos Países Baixos, onde a Rewilding nunca conseguiu apoio para fazer essa reintrodução) com monitorização, raia a demência e é um exercício inútil, tão inútil como explicar que o Reino Unido, reconhecido pela sua longa e eficiente história de conservação do património natural, nunca teve sequer um serviço central de conservação, nunca lá existiu, nem existe, um ICNF.
“Quando outros países aproveitam a diminuição da atividade agrícola em terras marginais para criar novas áreas protegidas e expandir existentes, Portugal aposta em “paisagens humanizadas”.”
Continuar a explicar que haver ou não haver paisagens humanizadas não é uma opção do Estado, mas o resultado de dinâmicas naturais, sociais e económicas complexas e assentes nas decisões concretas de milhões de indivíduos que respondem a estímulos que consideram melhorar a sua vida, é igualmente inútil.
“O restauro das populações de animais que deviam e podiam existir em terras lusitanas acontece à boleia de Espanha, ao longo da raia (a cabra-montês no Gerês, o urso em Montesinho, o abutre-preto na Malcata, o veado-vermelho ao longo da fronteira, a águia-imperial no Tejo internacional). Não é por acaso que o último livro encomendado pelo ICNF tem o título Fronteira Viva, a fronteira é dos poucos sítios com melhoria dos valores naturais (mas não é graças à mão do ICNF, é graças à falta dela)”.
A ignorância deste tipo de parágrafos, incapazes de reconhecer as dinâmicas de paisagem associadas ao retorno de muitas espécies, e ao declínio de muitas outras, ultrapassa qualquer boa vontade que se tenha em instruir garotos.
Não porque a ignorância seja homérica, como é, porque isso é sempre resolúvel, mas porque o essencial deste parágrafo não é a dimensão da ignorância expressa, é a desonestidade de escolher argumentos que se sabem falsos e omitir informação que se sabem verdadeiras, só porque ter isso em consideração diminuiria a eficácia do papel de lobbying para o financiamento das actividades da Rewilding, que é o que me parece que justifica que alguém exponha, voluntariamente, a sua ignorância desta maneira e nesta dimensão (veado-vermelho? Francamente, eu sei que há umas publicações que admitem este nome, mas ninguém o usa em Portugal, a menos que seja para fingir que se passa alguma coisa diferente na fronteira de Montesinho em relação à forte expansão do veado na Lousã, na sequência da reintrodução, conhecida há anos, e que desmonta os argumentos usados).

Elites de má qualidade

por henrique pereira dos santos, em 17.01.23

Um amigo chamou-me a atenção para uma sessão que a Ordem dos Biólogos ia fazer sobre áreas protegidas, na Assembleia da República.

Pode ser vista aqui.

A sessão é o que é (um conjunto de intervenções mais ou menos de prever, conhecendo os autores, repetindo os clichés sobre a matéria que alimentam discussões eternas sobre áreas protegidas, com uma ou outra excepção, nomeadamente por parte de Miguel Araújo), mais um conjunto de intervenções de deputados (e assessores) deprimentes (as intervenções, não os deputados), como seria de esperar num país em que quase não existe pensamento estratégico sobre gestão da conservação da natureza e da paisagem, com respostas de uma assistência que essencialmente dava voz à vitimização em que se viciou a tecnoestrutura do ICNF.

O que é verdadeiramente relevante na sessão?

Os ausentes.

Para mim, pessoalmente, desgosta-me profundamente que a Iniciativa Liberal não tenha tido tempo, disponibilidade ou interesse em encontrar alguém, dentro ou fora do partido, para lá estar. Mas enfim, isto é o que é.

O mais relevante não é essa ausência, essa é apenas um incómodo pessoal.

O mais relevante é que sendo uma sessão da elite da conservação em Portugal, a Ordem dos Biólogos (em que se misturam cargos corporativos com funções passadas de direcção no ICNF e afins), com a participação de deputados, autarcas, dirigentes antigos e actuais do ICNF, técnicos do ICNF, ONGs do ambiente, não tenha havido espaço para quem realmente faz gestão do território: agricultores, pastores, produtores florestais, gestores de baldios, propietários, caçadores, empresas de retalho e ligadas ao consumo de produtos provenientes do sector primário, produtores de azeite, de vinho, de abacate, de amêndoa, etc., etc., etc..

Não me espanta pois a minha sensação de que, de um lado e de outro dos intervenientes, me ficasse quase sempre a sensação de que estavam a discutir o sexo dos anjos, porque os que realmente tomam decisões sobre a gestão do território, aos olhos destas elites, são inúteis na discussão das políticas que lhes dizem respeito.

As elites, em Portugal, não precisam de pôr os pés na terra para tratarem das suas vidinhas, e isso nota-se nestas alturas.

Na cadeira do Poder - já com uma nalga de fora

por João-Afonso Machado, em 16.01.23

Já aqui deixei escrito, muitas vezes, quanto não gosto de greves orquestradas, tresandando a CGTP e com finalidades meramente políticas de arruaça. Mas esta, a greve dos professores e pessoal auxiliar, apresenta uma sintomatologia completamente diferente que cativa simpatias. Além de corresponder a um tema já de longas e alvíssimas barbas.

Tudo vai muito além do arcano Nogueira e da sua Fenprof, aliás, como sempre, postados em frente da AR. Não, a greve de que falo estende-se ordeiramente pelo País todo, distrito por distrito, sem barulho que nos perturbe e arrebanhando a totalidade dos docentes. Os próprios pais, naturalmente aflitos com a vida dos filhos, a compreendem e apontam as suas criticas não para os professores - mas para o Governo.

E porque o conjunto é vasto - docentes, auxiliares escolares, pais - e o problema quase pré-histórico, não pertencerá a razão ao Estado com certeza.

Costa destruiu os contratos de associação com o ensino particular. O que ofereceu em troca aos portugueses? E, mais precisamente, à Educação?

Ao formular estas perguntas, ocorre-me sempre - já também aqui o escrevi - a monumental manifestação contra o Governo de Sócrates em Março de 2011, Av. da Liberdade abaixo. É, enfim, para onde estamos indo. (Por muito que Costa se tente sentar com uma nalga de fora na cadeira do Poder em capas de revista).



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