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«Pela primeira vez na história da aviação nacional, pilotos, pessoal de cabine e técnicos de manutenção» da TAP saíram em conjunto à rua para protestar contra a situação da companhia aérea. Falam das contratações externas feitas após despedimentos coletivos, de milhões gastos na transformação de aviões de passageiros em aviões de carga que depois ficam parados, da mudança de sede, do recurso a fornecedores externos onde trabalham pessoas que a TAP despediu, dos erros de gestão e do desperdício de receitas (falam até dos milhares de milhões de euros que os contribuintes foram obrigados a lá meter).

Apesar de a expulsão d`«o privado» e da nacionalização da TAP feitas por Costa e Nuno Santos já serem olhadas hoje como ruinoso disparate, cometido em cumprimento da cartilha ideológica socialista, a solução continua a merecer o apoio expresso ou velado dos media de reverência.

No Observador (sempre distraído no que respeita à intencionalidade das agendas), as duas notícias que antecedem a manifestação de todos os trabalhadores da TAP são, uma, o clamor do implicado (nem sequer apenas presunto) na destruição da empresa, Pedro Nuno Santos, a exigir «responsabilidade» aos manifestantes. No léxico de PNS, «responsabilidade» consiste em calar os erros clamorosos que faz, e «patriotismo» em apoiar os erros clamorosos do governo. A segunda notícia, é um comunicado da comissão executiva da TAP a proclamar que os trabalhadores comprometem o futuro da empresa com «factoides» e críticas, sendo que quais sejam os «factoides» é coisa que fica por dizer ou desmentir.

Só a terceira notícia explica o protesto de todos os trabalhadores da TAP, que o Observador  -- distraído, sempre --ilustra com a foto em baixo (à esquerda) da manifestação, de autoria de José Sena Goulão, fotógrafo da LUSA. A fotografia da direita, tem anos, é do mesmo Goulão, e é de uma manifestação da CGTP contra o governo de Passos Coelho. Descubra as diferenças, ou seja, veja se, de facto, uma imagem não vale por mil palavras como confissão de um credo político ou da distração ou incompetência de um editor.

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Nossa Senhora da Assunção

por João Távora, em 15.08.22

A Solenidade da Assunção de Maria ao Céu em corpo e alma é uma das Festas marianas mais antigas na tradição da Igreja. No Oriente, a Festa de hoje faz-se sob a evocação da «dormitio» (dormição) de Nossa Senhora. Esta é uma festa que nos toca, tanto mais que nos diz respeito; é uma festa que suscita o nosso afeto, ou não fosse esta a festa da nossa Mãe; enfim, esta é uma festa que nos move (ou pode mover) o coração, pois se trata, para todos os efeitos, da nossa condição: filhos destinados a ter comunhão com Deus, por Jesus Cristo, o Filho do eterno Pai; homens e mulheres que na história sabem que não estão sozinhos, pois amados por Aquele que nos dá Maria de Nazaré como Mãe, a única que com toda a certeza teológica sabemos nunca abandona os filhos, dela que somos; Povo de Deus que caminha por entre dificuldades e situações espinhosas, com triunfos e sofrimentos, não raro por entre situações de violência e martírio. E não poucas contradições, claro. De todos, em todas as situações, Maria, Assunta ao Céu do Pleno Sentido, em Corpo e Alma, é Aquela que Deus nos dá como exemplo do que seja viver a vida, como mestra das aprendizagens mais duras, como senhora das situações, mesmo das mais difíceis, nomeadamente quando se trata de experimentar as encruzilhadas da vida e, não menos, as angústias da tristeza e da morte. A Festa que a Igreja, já desde a sua véspera, celebra a 15 de Agosto, é, pois, uma festa da Esperança, tanto mais que neste dia podemos contemplar o nosso destino, o horizonte do nosso caminhar; é uma festa da Fé, pois só vê a luz que este dia tem quem quer que abra as portas da sua própria liberdade ao mistério que não se oculta, antes nos pede adesão; enfim, é uma festa do Amor Maior, pois no Rosto de Maria podemos ver, sentir e experimentar, tudo o que ao nosso amor mais falta faz: coerência e mais consistência; inteligência e um sempre melhor discernimento; aprofundamento e continuidade, mesmo quando isso implica roturas ou saltos existenciais. Maria, a Senhora da Assunção, sendo Mãe e Mestra, Luz e Guia, pode, desde logo num dia como o de hoje, aqui e agora, dar-nos tudo o que de melhor precisamos: paciência e determinação, coragem e abnegação, disponibilidade e empenho. Este, na verdade, é um grande dia no calendário litúrgico da Igreja! Em Portugal, sem dúvida, mas também na Itália e no Brasil, bem como em outros países deste nosso vasto mundo, este é um dia em que numerosas comunidades, ora grandes ora mais pequenas, celebram de forma particularmente festiva a sua identidade cristã e a sua devoção mariana. A quem lê, desejo que o dia de hoje fique, de uma forma ou de outra, marcado pela alegria que derivamos do mistério da Ressurreição, o mesmo que celebramos em cada encontro com Cristo, como, desde logo, na Eucaristia.

Pe. João J. Vila-Chã, daqui

Sobre o ensino e a liberdade

por João Távora, em 15.08.22
A escola não deve doutrinar, nem ensinar nenhuma matéria relativa à vida privada dos cidadãos, às suas escolhas pessoais, às suas preferências religiosas, à expressão dos seus sentimentos, à sua sexualidade ou ao desenvolvimento afectivo da sua personalidade. Os sentimentos não fazem parte da cidadania, não constituem capítulos dos direitos, deveres e garantias dos cidadãos, não fazem parte do elenco de dispositivos constitucionais. Há disciplinas onde essas matérias podem ser tratadas: em Biologia e ciência naturais; em História; em Psicologia e Sociologia. Mas não devem constituir matéria à parte nem disciplinas próprias, de modo a evitar vários perigos. Por exemplo, a doutrinação ideológica ou religiosa. O condicionamento da vida privada e da escolha individual. O contrabando ideológico e cultural ao sabor das modas e do oportunismo dos professores. E finalmente a confusão entre vida privada e vida pública, cuja distinção é crucial para a liberdade individual e a vida em comunidade democrática (…) Tudo o que se queira fazer na escola, artes, letras, jogos, natureza, solidariedade, filantropia, expedições, limpeza de ruas, ecologia e afectos pode ser feito fora das horas de aulas, até nas instalações e com os professores, mas sem leis, sem programas impostos, sem obrigatoriedade e sem avaliação. A escola deve ser democrática, mas não impingir a democracia.

António Barreto no Púbilco

Domingo

por João Távora, em 14.08.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um baptismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra».

Palavra da salvação.

Comentário: Jesus vem, sem dúvida, trazer a paz. Ele disse que nos deixava a sua paz. Mas nem todos sabem aceitar esta paz que vem d’Ele. Quando o olhar não é límpido e o coração não é recto, o que se destinava a ser aceite como fonte de paz, pode transformar-se em motivo de discórdia. E então Jesus acaba por Se tornar ocasião de divisão. Foi assim já durante a sua vida mortal; continua a sê-lo hoje na sua Igreja.

Daniel Oliveira

por João Távora, em 13.08.22

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Mesmo conhecendo o seu enviesamento ideológico, deixa-me muito incomodado e perplexo final do primeiro parágrafo do artigo do Daniel Oliveira, publicado no Expresso desta semana, com honras de pág. 3. Diz assim: "(...) Mas os católicos que se sentem chocados com estas revelações têm, antes de tudo, de pôr a mão na sua consciência. Nada disto é surpresa. Porque o permitiram durante tanto tempo? Porque tiveram os denunciantes, fossem vítimas, familiares ou outros padres, de lidar com a indiferença ou incompreensão das suas comunidades? Com tanto ativismo para reprimir o sexo consentido entre adultos livres e impedir que se fale de sexualidade na escola, porque não se mobilizaram mais católicos para protegerem as crianças do abuso na sua própria Igreja?" É impressão minha ou ele acusa-me a mim (como integrante em diferentes épocas da minha vida em diferentes comunidades católicas) de cumplicidade pelo silêncio nos casos? Ora, nos anos mais recentes, o confronto com estas notícias tem sido para mim um profundo choque. Precisamente porque na experiência de vida que levo na Igreja - a ralação com padres, catequistas, movimentos, paroquianos - nada alguma vez me fez suspeitar que tais anormalidades pudessem acontecer. A minha estranheza só se compara com a revolta e tristeza que sinto com esses comportamentos que evidentemente não são padrão na igreja, que é a mensagem que o autor quer fazer passar. Como é que eu, e milhões de católicos como eu, podem ser acusados de cumplicidade? Ou porque Daniel Oliveira não conhece minimamente a dinâmica inorgânica da igreja ou por profunda má-fé. De resto, não servindo de todo de consolação, fiquemos com a frase final da crónica do Henrique Raposo na mesma edição do jornal: "quando nos revoltamos contra os pecados da Igreja, estamos na verdade a olhar para o nosso rosto reflectido num espelho".

Nota curta

por henrique pereira dos santos, em 13.08.22

Desde 1975, a área ardida no Parque Natural da Serra da Estrela anda pelos 270 mil hectares (não inclui os cerca de 15 mil destes dias, naturalmente).

Ou seja, ardeu o triplo da área do Parque Natural.

Claro que médias são médias e há áreas que arderam bastante mais que três vezes nesse período e outras que podem não ter ardido uma única vez, isso não é de espantar.

O que é de espantar é que apesar desta evidência verificável, persista o discurso catastrofista que sobre as perdas de património natural homéricas e irreversíveis, em consequência de cada fogo (por favor, procurem no google qualquer coisa como Yellowstone recovery fire 1988, e vão lendo o que aparecer na busca. Provavelmente o que vos aparece primeiro começa assim "We often hear about an area “recovering” from a wildfire. This implies that fire is unfortunate and unwelcome, a sentiment probably based on an instinctive fear. And it should go without saying — fires that burn structures or humans fit that description. But vegetation fires in remote areas should be evaluated with different criteria. Yes, a fire can drastically change the appearance of a landscape. Most people visiting national parks, for example, would prefer to take pictures of a mature green forest than a recently burned hillside that is beginning a new fire return cycle. But those two ends of the cycle and everything in between are natural.").

Não admira, por isso, que em textos deste tipo se fale na extinção do esturjão a propósito de um fogo na serra da Estrela.

Uma questão de doutrina

por henrique pereira dos santos, em 12.08.22

"todas as redes primárias de gestão de combustíveis que deveriam ter retardado o incêndio e até afunilando a cabeça do incêndio, simplesmente não funcionaram".

Esta frase, de um formador da escola nacional de bombeiros, aparece num post (em rigor, nos seus comentários, uma discussão entre bombeiros sobre o fogo da serra da Estrela), não público, e pedi autorização ao seu autor para a usar por me parecer um belíssimo exemplo do que permite explicar uma das maiores ineficiências na afectação de recursos na gestão do fogo em Portugal (outros países não sei como funciona, vi um comentário que, a propósito de um grande incêndio em França, falava do facto do fogo já ter passado seis ou oito faixas de gestão de combustível).

O fundamento técnico para a criação de uma rede de faixas de gestão de combustível é simples.

Com a quantidade e estrutura de combustiveis adequada e as condições meteorológicas mais favoráveis ao fogo, qualquer incêndio florestal rapidamente ultrapassa a capacidade de extinção, isto é, é impossível, quaisquer que sejam os meios usados, extinguir a cabeça do incêndio.

O que se pretende, com uma rede de faixas de gestão de combustíveis, é criar compartimentos de paisagem, delimitados pelas tais faixas de gestão de combustíveis, em que a quantidade e estrutura dos combustíveis é gerida (como o nome indica) de modo a que os incêndios, naquela faixa, ocorram dentro da capacidade de extinção.

Ao contrário do que é frequentemente admitido - e que a frase com que começo o post ilustra optimamente - as faixas de gestão de combustível não têm como função impedir a progressão do fogo, têm como função criar uma oportunidade de combate.

Para que sejam úteis, é preciso duas coisas, do lado do combate: 1) capacidade de avaliação do fogo, antecipando, em uma, duas, três ou mais horas, a evolução do fogo de forma a que as oportunidades criadas sejam claramente identificadas e, se for caso disso, potenciadas por intervenções nessas faixas de gestão, seja com máquinas de rasto, ferramentas manuais ou fogo de gestão; 2) que os meios sejam posicionados de forma a que seja possível aproveitar a oportunidade, isto é, que haja meios de combate que estejam na faixa de gestão e a usem para aproveitar a quebra de intensidade do fogo, por diminuição de combustível disponível para a progressão do fogo (isto é, com menos de 0,5 cm de diâmetro), para extinguir essa frente (nada disto tem grande utilidade para outra coisa, que é a gestão das projecções).

Ora a doutrina de protecção civil que temos hierarquiza, e bem, as prioridades de intervenção: 1) salvar vidas; 2) salvar edificado e infraestruturas; 3) salvar património natural; 4) salvar activos florestais (essencialmente, povoamentos florestais com valor comercial); 5) diminuir a área ardida.

Note-se que o principal indicador que usamos na discussão dos fogos é a área ardida, que é a última das prioridades, mas passemos por cima desse pormenor que parece ser também uma boa ilustração da fragilidade do nosso sistema de avaliação de desempenho nessa matéria (para a prevenção estrutural usamos indicadores de processo, como euros gastos, ou quilómetros executados, mas não usamos indicadores de resultado, como frequentemente fazemos em políticas públicas, infelizmente).

Partindo desta doutrina de protecção civil, é inevitável que o combate florestal seja a última das prioridades do dispositivo de combate (José Miguel Cardoso Pereira escreveu um texto notável sobre isto, que espero que publique brevemente) e, consequentemente, seja mais racional usar os recursos em função da prioridade de defesa de vidas e bens construídos ou de infraestruturas, que usá-los nas faixas de gestão de combustível e outras oportunidades de controlo da frente de fogo (mais uma vez, José Miguel Cardoso Pereira, há anos que diz que ao contrário do nome oficial "defesa da floresta contra incêndios" o que temos é um sistema de "defesa em relação aos incêndios que vêm da floresta").

Pessoalmente, sem ser a minha área de trabalho, e portanto admitindo que me falte informação, parece-me cada vez mais evidente a necessidade de separar duas funções distintas e atribuí-las a duas organizações diferentes: 1) funções de protecção civil, atribuídas às corporações de bombeiros, largamente assentes em voluntariado e em associações humanitárias; 2) funções de combate florestal, atribuídas a corporaçõe de bombeiros florestais profissionais, que trabalham todo o ano na mesma área, ou sob as mesmas orientações, durante o Inverno na prevenção, durante o Verão no combate florestal.

Sem esta separação funcional, não vejo como alguma vez um comandante queira correr o risco de ser acusado de desguarnecer a defesa de vidas e povoações por alocação de meios a uma faixa de gestão de combustiveis perdida no cimo de uma serra, com o objectivo, sempre incerto, de travar a cabeça de um incêndio no meio de nenhures.

Mesmo em seca, o Governo continua a regar

por João-Afonso Machado, em 10.08.22

É o ponto onde a minha gente é realmente beneficiada: na questão das águas e da fertilidade dos solos. Hoje ainda, verifiquei a fonte do jardim, a cantilena das suas bicas e da do tanque, conquanto seja notória a quebra nas maiores reservas e no seu caudal. Mas o milho não tem de se queixar e as vinhas também não. Uma terra santa, o Minho! E, felizmente, liberto das regadelas governamentais.

Li, há pouco, a Ministra da Agricultura, em Portimão, ante a aflição dos agricultores algarvios e alentejanos, usou os habituais artifícios: o Governo «está a fazer tudo» para apoiat o sector, com o qual já há «comprometidos» 100 milhões de euros...

Não há! E se houvesse, o Governo não estaria a «fazer tudo» - já tinha feito. Lograra já o maneio bastante para suprir as expectáveis consequências da seca em quase todo o País.

Manifestando a sua habitual indiferença, o Governo vem a público dar seca à lavoura com as suas regadelas. Como se esses 100 milhões de euros não custassem loucuras de burocracia, o ónus dos juros e as restantes costumeiras artimanhas que bloqueiam uma actividade em que as margens são ínfimas e o apoio tem de assumir um cariz essencialmente social.

Aguardemos. Vamos tentando descobrir por onde rabiarão esses 100 milhões de euros...

Partindo do fogo da Serra da Estrela

por henrique pereira dos santos, em 10.08.22

É relativamente raro eu discutir fogos concretos por uma razão simples: eu não percebo grande coisa de fogos, percebo alguma coisa de evolução de paisagens e acabei rotulado como "especialista" em fogos, aqui e ali, apenas porque, sendo o fogo um filho do seu contexto, e sendo a paisagem o contexto dos fogos rurais, acabei a tentar perceber, com quem realmente sabe de fogos, as relações entre evolução da paisagem e evolução do padrão de fogo.

No dia 7, Paulo Ferreira (o post é público, portanto não será nenhuma inconfidência), um jornalista com raízes em Viseu, comentou, com umas belas fotografias de há dois anos, o fogo que andava pela Estrela "Os carvalhais da região de Manteigas há dois anos, no Outono. O fogo anda agora por ali. São décadas de património natural que se vai num fósforo".

Fiz um daqueles comentários genéricos a dizer que não era bem assim, que os carvalhais geralmente recuperavam muito deperessa  - dependendo das condições em que tinham ardido - o que deu origem a uma resposta referindo a esperança de que eu tivesse razão "embora para um ignorante no assunto como eu seja muito difícil de acreditar que daqui a cinco anos já teremos as árvores altas e frondosas como as que vi há dois anos nos locais que estão a arder".

Entretanto já me tinha posto em campo, à procura de informação sobre as condições em que estava a arder - não me parecia que as condições fossem extremas, portanto talvez a intensidade do fogo não fosse nada de especial, o que reforçaria a esperança numa rápida recuperação dos carvalhais, em especial a sua rebentação de copas e não apenas de toiça - e disseram-me que havia alturas a arder com muito intensidade, durante o dia, que à noite nem por isso e havia perspectivas de que, estando o fogo a entrar numa zona em que as perdas seriam maiores, o faria descendo a encosta. O que tende a ter como resultado uma menor severidade - a intensidade é a energia libertada pelo fogo, a severidade é a afectação da vegetação e depende da intensidade do fogo e do estado da vegetação.

O que me fez andar com este post na cabeça até ter oportunidade de o escrever foi o facto de diferentes fontes de informação confirmarem que este fogo é uma boa demonstração do falhanço do sistema de combate. Não, não estou a falar de voltas a Portugal em bicicleta e coisas do mesmo tipo, estou a falar de coisas bem mais concretas como o fogo, em determinada altura, bater de frente com faixas primárias de gestão de combustível perfeitamente funcionais, mas não estar lá a dispositivo para aproveitar a oportunidade de parar aí o fogo, provavelmente por erro na apreciação do potencial do incêndio logo de início, e porque a doutrina de combate está hoje totalmente focada em não deixar perder vidas e arder casas de primeira habitação, abandonando quase por completo o único combate a fogos flroestais realmente eficaz: o que se faz com os pés no chão e ferramentas de cabo de pau na mão.

Sem surpresa, ouvi, mais tarde, na rádio, um responsável a dizer que não havia perdas materiais, quando o fogo já lavrava há horas em pinhal maduro, provocando perdas materiais substanciais (e, essas sim, graves e com efeitos futuros bem preocupantes, a forma como desvalorizamos o que está a acontecer ao pinhal, por causa do regime de fogos que temos, é arrepiante).

Não sei discutir se foram tomadas, ou não, as melhores opções o que sei é que vejo frequentemente análises de evolução do fogo, quer durante os fogos, quer em análise posterior, que, para mim, são bem mais informativas que as palermices permanentes sobre o teatro de operações, o número de bombeiros (procurem no google a entrevista de que transcrevo este bocadinho, que vale bem a pena "Ese concepto del bombero como un peón forestal está caduco. Hay que subir ese conocimiento y esa toma de decisiones. Tiene mucha más capacidad de influencia un bombero bien formado que 200 bomberos mal formados y 50 aviones."), o número de meios aéreos ou de viaturas.

Com certeza haverá fogos com um combate bem gerido e haverá fogos com combate muito mau, o drama é que nós, como país, como sociedade, tendemos a não os distinguir.

Aparece sempre alguém a pedir responsabilidades, a demissão ou julgamento deste e daquele, mas pessoas a pedir simplesmente um sistema independente que faça a avaliação do que correu bem e correu mal em cada fogo, isso já nos parece uma coisa impossível.

E, no entanto, essa seria, provavelmente, a melhor forma de evoluirmos serenamente para um combate cada vez melhor, cometendo erros, com certeza, mas evitando repeti-los muitas vezes, e evitando prolongar políticas públicas que, manifestamente, não dão os resultados esperados.

Um bom exemplo, no caso dos fogos, é o da prevenção estrutural: é defensável, tecnicamente, que intervenções estratégicas tenham uma relação custo-benefício mais favorável.

Mas há uma condição básica para que assim seja: que o combate esteja suficientemente integrado com a prevenção estrutural, de modo a usar as oportunidades criadas de forma eficiente.

Manifestamente, por cada exemplo em que isso tenha acontecido, há dezenas em que isso não acontece.

E isso não nos tem impedido de continuar a gastar rios de dinheiro numa prevenção estrutural que a gestão do combate não reconhece como útil.

Os cães ladram...

por João Távora, em 10.08.22

É uma grande notícia o retorno do João Gonçalves à blogosfera no seu Portugal dos Pequeninos, que desta forma desperta de um coma profundo. Acossado pelo algoritmo e por uma tropa fandanga de delatores que constantemente o silenciam no Facebook e no Instagram, acredito que para uma pessoa tão livre e prolixa quanto irascível e sofisticada como o João Gonçalves, a escrita será certamente mais fecunda nos blogs. Ficamos todos a ganhar - não te doam os dedos, João!

Consolação

por João Távora, em 09.08.22

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Uma das palavras que mais gosto é “consolação” por causa dos seus significados. Lembrei-me disso, a banhos na praia do Medão, ou Supertubos como é conhecida agora por causa dos surfistas, a meio caminho entre Peniche e a Praia da Consolação. Esta, delimitada a sul por uma falésia é encimada por um forte com o mesmo nome, deve-o à Capela quinhentista existente nesta localidade de Atouguia da Baleia, dedicada a Nossa Senhora da Consolação. 
 
Analisemos então a sua semântica. Se “consolação” não significa exactamente Conforto, Felicidade, Prazer, Alegria, Contentamento ou Estado de Graça, pode-se associar a qualquer destes sentimentos. Mas é muito mais importante e presente que qualquer um deles: a consolação é uma sensação dinâmica, que é precedida de certa maneira por um estado de espírito negativo, associado a sacrifícios ou à ansiedade – pode ser inquietação, dor, medo, cansaço, etc., em manifestações mais ou menos intensas. É na sequência destes padecimentos que podemos ser agraciados por um momento de consolação, que naturalmente não significa que o mal que nos afectava tenha sido erradicado - "enquanto o pau vai e vem folgam as costas", diz o povo na sua crueza. Consolações são, no fundo, acontecimentos singelos da vida quotidiana: a notícia de que o nosso filho entra para a universidade, ou aquando num hospital recebemos a visita de um velho amigo. Mas também pode ser uma refeição feliz com a família e amigos, o término de um trabalho exigente, uma cerveja fresca num fim de tarde quente. Mas se é certo que um prazer pode ser um consolo, uma e outra são coisas bastante diferentes. Ouvir uma peça musical que gostamos muito ou saborear um pitéu, serão certamente prazeres sem caberem propriamente na categoria do consolo. Os consolos não se inserem na ordem dos nossos desejos carnais ou intelectuais, mas antes possuem um vinculo divino, são-nos inteiramente oferecidos - surpreendem-nos. Eu explico-me: é coisa mal-aceite na ordem histriónica vigente, mas absolutamemte incontestável, que a vida é essencialmente feita de padecimentos e consolações: uma consolação é o que nos impele a continuar a ultrapassar as dificuldades que o destino nos desafia diariamente. Consolação não se confunde imediatamente com alegria, que é um sentimento mais intenso, exterior, por vezes eufórico – a alegria é sedutora e mundana, já o consolo é espiritual e reflexivo. O máximo com que se exprime o consolo – a consolação não obriga à expressão - é com um suspiro ou talvez sorriso discreto. Porque raramente partilhamos um autêntico consolo, sem que o outro nos seja íntimo e cúmplice. É um consolo chegarmos a casa depois de umas férias agitadas, é um consolo chegarmos a casa depois de um dia intenso de trabalho, é um consolo fazermo-nos entender sobre um tema complicado. É um consolo uma palavra amorosa da nossa cara-metade ou o sono angelical do nosso bebé. É um consolo uns minutos de oração no silêncio de uma igreja vazia numa tarde de Verão. É um consolo terminarmos uma crónica sobre um tema que há muito tempo nos estava a inquietar e reclamava ser escrita.
 
A falta que nos fazem consolações...
 
Crónica dedicada à Tia Teresa de Castro Simas, que nos seus 87 anos de idade partilha comigo o gosto de reflectir e debater estes temas complexos e fundamentais.

Domingo

por João Távora, em 07.08.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino. Vendei o que possuís e dai-o em esmola. Fazei bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos Céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que esperam o seu senhor ao voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada, felizes serão se assim os encontrar. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». Disse Pedro a Jesus: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?». O Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas se aquele servo disser consigo mesmo: ‘O meu senhor tarda em vir’, e começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo chegará no dia em que menos espera e a horas que ele não sabe; ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis. O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas. Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito acções que mereçam vergastadas, levará apenas algumas. A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».

Palavra da salvação.

Comentário: Na continuação do espírito da primeira leitura, também esta leitura evangélica nos coloca como que em atitude de vigília pascal: sobre esta Terra, esperamos e aguardamos o Senhor, que virá. Celebrando o mistério pascal em cada Eucaristia, não recordamos apenas os acontecimentos pascais do passado, mas nós próprios nos colocamos em atitude espiritual de vigília, como, de maneira mais significativa, o fazemos, uma vez por ano, na noite santa da Páscoa. A atitude contínua da Igreja é a de vigília.

O Estado na paisagem e o estado da paisagem

por henrique pereira dos santos, em 06.08.22

Um dia destes vinha eu no carro e ouvi uma diatribe de Domingos Patacho (que conheço há anos) sobre o facto de num projecto apoiado pelas celuloses estar prevista a plantação de medronheiros mas afinal estarem lá eucaliptos.

Nessa altura nem me apercebi que a Acréscimo - uma associação unipessoal que se entretém a vingar o despedimento do seu único membro conhecido e, por consequência, seu presidente, de um cargo remunerado pelos produtores de eucalipto para fazer lobbying a favor da produção de eucalipto - estava metida ao barulho e conheço o suficiente Domingos Patacho para ter a noção de que não inventaria uma história destas, razão pela qual me interessei por saber o que realmente se tinha passado.

Menos de 24 horas depois tinha o essencial da informação sobre o assunto que me merecia credibilidade: num projecto envolvendo mais de quarenta proprietários e 130 hectares, tinha havido um proprietário que na sua parcela de 4 hectares tinha arrancado os medronheiros que tinham sido plantados de acordo com o projecto a que aderiu, tendo-os substituído por eucaliptos, à revelia do que tinha sido aprovado e de todos os acordos existentes sobre isso.

As celuloses (chamemos-lhes assim, é mais simples) não só não têm qualquer responsabilidade nessa decisão do proprietário em causa, como imediatamente solicitaram ao Estado que desencadeasse os mecanismos para garantir a legalidade no caso concreto, com arranque dos eucaliptos e reposição da plantação de medronheiros.

A atitude das celuloses percebe-se bem: com um problema reputacional brutal e complicado, a última coisa que pretendem é que projectos apoiados por si contenham espertezas saloias deste tipo (até por terem um longo historial dos efeitos que essa lógica teve na operação do seu negócio, bem ilustrado pela velha piada que se conta no meio, em que os pareceres dos primeiros projectos de plantação que impunham a plantação de folhosas na envolvente das linhas de água eram escrupulosamente cumpridos, plantando eucaliptos, que são folhosas), ao mesmo tempo que pretendem resolver o problema de abastecimento das suas fábricas, ajudando a aumentar a remuneração da actividade de produção de eucalipto através da melhoria da sua eficiência, diminuindo a pressão para que as celuloses subam o preço a que pagam o metro cúbico de rolaria (pelo menos é assim que vejo o assunto, a partir de fora).

No caso, empresas com interesse económico no assunto mobilizaram meios para obter uma melhoria de gestão florestal, com dominância da espécie que lhes interessa, mas integrando outras coisas, e como a sua reputação é muito má, o escrutínio público é muito elevado, permitindo a detecção de ilegalidades e outros problemas de forma bastante eficiente.

Olhemos agora para a área Norte de Ourém. É uma das áreas de actuação, por excelência, de Domingos Patacho, e por isso escolhi este exemplo, mas há por aí mais umas dezenas que são semelhantes.

Cinco anos depois de Pedrogão, e quase cinco anos depois dos fogos de Outubro de 2017, foi recentemente (3 de Agosto) criada uma associação - cujos membros não consegui perceber quem são, mas em que a Câmara Municipal tem um papel dominante, tanto quanto percebo - que irá gerir quase quatro mil hectares, com base em dinheiros do PRR, tendo objectivos semelhantes aos do projecto que citei acima (melhor gestão florestal e uma convivência mais serena com o fogo, havendo com certeza divergências quanto às espécies a usar nesses projectos).

Naturalmente não há aqui ilegalidades a discutir porque, até agora, nada foi feito, para além de papéis. No terreno, está tudo como dantes.

Quem são os proprietários, que compromissos assumem, como se garante a execução do que venha a ser definido, nada disso se sabe, apenas se sabe que há uns dinheiros do PRR para fazer umas coisas num prazo que não ultrapassa os cinco anos, e uma vaga promessa de que Fundo Ambiental pagará a gestão futura da área, sem que ninguém saiba em que termos.

Para quem pense que tudo o que é feito no interesse pessoal não gera benefícios sociais e, ao mesmo tempo, esteja convencido de que o Estado é o garante do bem comum, é fácil escolher o segundo caminho, face ao primeiro.

Olhemos para a realidade tal como ela é.

As celuloses andaram relativamente depressa, de forma mais concreta, envolvendo proprietários concretos - e respectivas idiossincrasias, como demonstra o que combinou uma coisa e fez outra - mobilizando recursos que estão alinhados com os seus interesses, é certo, mas também com os interesses dos proprietários e, aparentemente, estão a obter resultados que são melhores que os da situação de partida: melhor gestão, menos eucalipto, mais mosaico, gestão activa e mais ordenada.

O Estado anda entretido numa matriosca de planos que se unem pelo facto de terem na sua designação "gestão integrada da paisagem", falando com os representantes dos proprietários e autarquias (que também são o Estado) mas não fazendo acordos concretos com proprietários concretos, alocando meios contingentes, e limitados no tempo, para obter resultados estruturais e prolongados no tempo e, até agora, tem muito pouco de concreto para mostrar no terreno.

As celuloses são melhores que o Estado na defesa do bem comum?

Nada disso, nenhum deles afecta os recursos em função do bem comum - que provavelmente nenhum deles consegue definir e concretizar à priori, nem eles nem ninguém - os dois afectam os recursos em função dos seus interesses próprios: o lucro, no caso das celuloses, o voto, no caso do Estado (e a propósito disso convém sempre repetir Marx e lembrar que o Estado é um instrumento de repressão nas mãos das classes dominantes).

O que acontece é que os interesses das celuloses estão alinhados com os interesses dos produtores florestais, em grande medida (convergem no sentido de haver melhor gestão do fogo, divergem no magno problema do preço da rolaria à porta da fábrica, por exemplo, no geral há grandes áreas de convergência entre os interesses das celuloses e dos produtores florestais) mas os interesses do Estado estão mais alinhados com os grandes produtores de votos, os habitantes das cidades, pelo que a gestão florestal é um assunto sem grande interesse e em que o retorno em votos, dos recursos alocados - incluindo conhecimento e inteligência -, é sempre baixo.

Acresce que os interesses urbanos na gestão das áreas florestais é dominantemente alinhado com a necessidade de dar "grandes passeios ao Domingo" e não com a remuneração da gestão.

Corolário: do que precisamos não é de chatear as celuloses mais do que merecem - e frequentemente fazem por merecer um bom bocado -, do que verdadeiramente precisamos é que os interessados no pinho, os interessados na cortiça, os interessados no pinhão, os interessados no pastoreio, os interessados na conservação, os interessados na caça, os interessados na filantropia, etc., ponham os olhos no que vai funcionando, percebam as razões de sucesso e falhanço em cada caso, e procurem reproduzir o que parece ser o relativo sucesso das pequenas e recentes iniciativas das celuloses: alinhar incentivos próprios com os incentivos de quem pode realmente fazer a gestão que nos faz falta.

A invisibilidade do outro

por henrique pereira dos santos, em 04.08.22

Praia cheia, um casal com aspecto perfeitamente normal resolve passear dois belos pastores alemães sem os levar pela trela.

Passam entre mim e cinco dos meus netos e comento que me parece óbvio que as crianças estão assustadas.

O senhor responde-me perguntando se acho óbvio, encolhe os ombros e prossegue sem o menor gesto para controlar os cães (aliás, educadíssimos e bem treinados).

Pergunto-lhe se não vê o resultado do que está a fazer e as crianças em pânico.

Responde-me que nem ele nem os cães fizeram mal a ninguém.

Insisto que isso é irrelevante, as crianças estão assustadas e os cães andam à solta, aproximando-se, mansamente, é certo, o que faz com que fiquem mais assustadas e, por vezes, a chorar de medo.

O resto da história não interessa, o que me faz confusão é a atitude que penso que tem, na base, uma opinião clara dos senhores: as crianças terem medo de cães é um erro de educação e o que é preciso fazer é ensinar as crianças a não ter medo de cães, não é respeitar o medo dos outros e evitar levar cães para o meio de uma praia onde há gente de toda a maneira e feitio, incluindo os que não gostam de cães, os que têm medo de cães e os que consideram os cães como membros da família.

Algures no tempo, talvez tenhamos perdido a noção de que a base da educação é o respeito pelos outros, tal como eles são.

Ou eu, simplesmente, estou desfasado deste mundo: não consigo perceber como se considera normal que o que eu penso sobre o mundo é mais relevante que a minha obrigação de respeitar as diferenças do outro em relação a mim.

Milfontes

Crónicas de Verão

por João Távora, em 04.08.22

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As primitivas memórias que guardo dos verões em Milfontes fazem sentir-me velho. Nos anos 1960, exceptuando o café da Barbacã, que tinha televisão e gelados, e talvez nalguma casa que eu ignoro, a iluminação utilizada era gerada por lamparinas de petróleo. Foi nessa época em que os rebuçados custavam meio-tostão, que, numa bancada da feira de Agosto, cobicei um reluzente bimotor Douglas em folha-de-flandres. Todas as tardes, nós, crianças, éramos cruelmente condenadas a infindáveis horas de sesta que eu suportava impaciente, de olhos esbugalhados no escuro, mas com os ouvidos atentos aos sons da tarde mole, que se arrastava lá fora, na rua a estalar de calor.

Foi nessa altura que tomei consciência do mundo; os americanos tinham chegado à Lua, e atravessava-se o rio Mira numa chata que o sr. Joaquim Viola remava com um só remo alçado sobre a ré.

Conhecida como Princesa do Alentejo, a terra das três mentiras (não é vila, não é nova nem tem mil fontes) era uma aldeia de pescadores que tinha apenas umas dezenas de casas à volta do forte seiscentista. Muito poucos eram os forasteiros que usufruíam daquela encantadora praia, encimada por um areal imenso de dunas altas.

Todos os anos naquela pequena aldeia, durante umas semanas valentes, sentia-me incomensuravelmente feliz: com o nariz e as bochechas empastadas de Caladril, uma pomada cor-de-rosa para as queimaduras, passava todo o tempo possível dentro de água. Diariamente, pela manhã (aqui presto devida homenagem à minha mãe, que tão perseverantemente pastoreava um rebanho de cinco rebeldes criancinhas), lá íamos todos para a praia junto do rio, que então era suficientemente espaçosa para as poucas famílias de veraneantes habituais. (Hoje, essa praia encontra-se rasgada por uma estrada de alcatrão e o areal recuou pela erosão das marés, tornando-a impraticável, pelo menos no Verão.)

Uma certa manhã de Agosto, no dia dos meus anos, acordei estremunhado e espremido pelas eufóricas meiguices do meu pai. Chegara de Lisboa e trazia embrulhado de presente um minúsculo insuflável encarnado que (mal ele sonharia) me proporcionou uma das melhores férias de sempre. Eu encaixava que nem uma luva no barquito, que com as palmas das mãos remava com destreza. Na minha imaginação, possuía um autêntico veleiro com o qual alcancei a Índia, cheguei a África e ao topo do mundo. Tirarem-me da água é que era uma carga de trabalhos.

Ano após ano, fui aprendendo a conhecer as águas e as marés daquele rio, que cheguei a atravessar a nado muitas vezes. E recordo com saudade as vezes que passeava orgulhoso ao lado do meu pai no seu Volkswagen, aos abanões pelas dunas dos Aivados. E havia o nosso guia Jacinto, um pescador autóctone que auxiliava o meu pai em façanhas piscatórias e que nos acompanhava no Canal à lota do peixe. No último ano que passámos juntos nessa aldeia alentejana, o meu pai comprou uma velha barca que deixou à guarda do Jacinto, para o imprescindível restauro. Depois do 25 de Abril, ele não voltou a Vila Nova, e eu nunca mais soube o que se passara com o nosso barco, com o qual tenho a certeza ambos sonhámos divertidas aventuras e passeios numas férias que jamais aconteceram. Talvez por mero pudor, nunca falámos do assunto.

Hoje, por lealdade e caturrice, ainda reservo todos os anos uma parte das férias com a família em Milfontes, um destino que afinal se tornou numa pequena selva de betão, paredes-meias com dois enormes parques de campismo. Contra isso vale-nos uma casa que alugamos de costas para a vila e sobranceira ao rio, onde nos podemos abstrair da feira que fervilha lá atrás, e de noite ouvir o chapar dos barcos na água ou uma cigarra a trinar. E depois há as dunas e as ondas do Malhão. Os miúdos tomaram-lhes o gosto. E há os amores e os amigos de Verão, que se querem sempre reencontrar, nem que seja só por duas semanas e para o ano que vem.

Texto reeditado e recuperado daqui

Parto sem dor

por henrique pereira dos santos, em 03.08.22

Se eu aceitasse a treta do "lugar de fala", nunca escreveria uma linha, claro, porque o parto é uma experiência pessoal que me está vedada (felizmente, direi eu, mas haverá quem discorde destas diferenças de género que beneficiam sempre os mesmos).

Acontece que a treta do "lugar de fala" por um lado pretende impedir uns grupos sociais de falar sobre assuntos que algumas pessoas consideram que apenas podem ser enunciados por quem elas escolhem ser moralmente qualificados para falar deles, para além de partirem do princípio de que as ideias e pontos de vista de cada pessoa estarem automaticamente definidos pela pertença a um grupo.

Acresce que conheço de gingeira onde nos levam essas tretas morais baseadas em identidades de grupo: o mais jurássico dos partidos portugueses, o Partido Comunista, sempre aplicou essas tretas, em especial a regra de ouro da maioria operária do comité central - uma evidente aplicação prática do "lugar de fala" - mas, como seria sempre inevitável, acabou nas mistificações de considerar, ainda hoje, Jerónimo de Sousa como operário e Mário Nogueira como professor, para conseguir manter essas ficções destinadas à manipulação destinadas a impedir que os factos influenciem as ideias das pessoas envolvidas.

Entremos então no assunto dos partos, sabendo que essa ser-me-á uma experiência vedada.

Envolvi-me recentemente em duas pequenas trocas de argumentos à volta da senhora que perdeu o bebé no fim do tempo do parto, tendo andado de hospital em hospital.

É uma história triste de uma mulher que faz opções sobre o seguimento da sua gravidez, por razões que nos são desconhecidas, de uma médica que faz opções no seguimento dessa gravidez, por razões que nos são desconhecidas, e de um sistema de ermgência médica que não terá respondido como seria de esperar.

Não sabemos se o desfecho do caso poderia ser outro com outras opções, mas em vez de seguir o velho conselho de Gilberto Gil ("Quando uma pessoa chora seu choro baixinho/ De lágrima a correr pelo cantinho do olhar/ Não se pode duvidar/ Da razão daquela dor/ Não se pode atrapalhar/ Sentindo seja o que for"), algumas pessoas acharam por bem discutir a guerra entre privados e públicos na saúde, acabando, em alguns casos, no argumento de que os privados fazem muitas cesarianas porque dá mais dinheiro.

Estranhei, e estranho, o argumento, porque a decisão - salvo em situações de urgência médica - ser sempre da mulher, e portanto tenho sempre dificuldade em aceitar, sem mais, argumentos que implicam que há muita gente estúpida a tomar decisões contra o seu interesse, manipulada por gananciosos.

Acho até um argumento que menoriza as mulheres e a sua capacidade de tomar decisões pela sua cabeça e estranho também que feministas encartadas ouçam este argumento sem imediatamente assinalar como lhe falta respeito pelas mulheres.

Deixei de discutir quando a argumentação chegou a este nível: "uma cirurgia faz se quando é necessário não deve ser feita por conforto nem por decisão da mulher. Quem não quer ter filhos opta por não os ter e além disso há outras formas de tornar o parto mais confortável que não passam por uma cirurgia. Obviamente que os preços de um parto natural e de uma cirurgia são diferentes e sim, há médicos nos privados com taxas de cirurgia absurdas porque dão lucro. São aliás pressionados para o lucro".

As dificuldades dos sistemas de saúde lidarem com o facto de ser cada vez mais caro prestar cuidados de saúde a todos não é uma especificidade portuguesa, mas a esse plano geral, soma-se em Portugal uma dificuldade acrescida dos sistemas estatais lidarem com as consequências das decisões de gestão que são tomadas.

Muitas dessas decisões têm efeitos dificilmente detectáveis nas estatísticas - por exemplo, a nova presidente do IPO vem do gabinete da Ministra. Pode ser a pessoa mais competente do mundo, e mais adequada ao lugar, mas é inevitável que, a juntar a todo o desconforto do pessoal de saúde, a proveniência da senhora junte um sentimento de desconfiança às razões que estão na base da nomeação, alimentando o desalento que ali grassa - outras têm efeitos muito concretos e visíveis, como a decisão de acabar com a PPP na saúde, por meras razões de gestão de mercearia do governo: Costa precisava de ir dando uns rebuçados ao Bloco para manter viva a sua carreira política.

No tal plano geral, obstetrícia parece ser uma das especialidades que mais problemas têm vindo a ter pelo mundo fora e não percebo nada do assunto para saber quais são. Por exemplo, dizem-me que vários médicos da especialidade preferem concentrar-se na área da fertilidade, onde se ganha muito mais dinheiro e há muito menos pressão profissional, o que retira médicos daquilo que eram as suas tarefas predominantes no que diz respeito a grávidas e partos, e tal nunca me tinha passado pela cabeça.

Mas o que verdadeiramente me fez escrever este post foi isto: "uma cirurgia faz se quando é necessário não deve ser feita por conforto nem por decisão da mulher. Quem não quer ter filhos opta por não os ter".

Isto é um ponto de vista moral sobre decisões de terceiros, partindo de um ponto de vista sectorial e tecnocrático, o do sistema de saúde, e desvalorizando totalmente a vida das pessoas concretas e das suas circunstâncias, incluindo o seu direito a errar nas decisões que tomam.

Isto é o que está na base da nossa aceitação da ideia, para mim absurda, de que as pessoas se têm de comportar assim ou assado para poupar o sistema de saúde, ou para gerir os fogos e, se preciso for, devem impor-se coercivamente comportamentos individuais que assegurem a protecção de bens comuns.

Um dia esta rampa deslizante da desvalorização do indivíduo a troco do que em cada momento as classes dominantes consideram o bem comum talvez chegue o ponto em que procurar prolongar a vida o mais possível passará a ser moralmente inadmissível por não proteger a segurança social.

Talvez nesse dia a maré comece a mudar de novo.

O que aconteceu à canção francesa?

por João Távora, em 31.07.22

Nos meus tempos de juventude, o gosto musical era moldado pela música que os nossos pais ou tios ouviam no gira-discos, mas principalmente pela música que passava nas estações de FM em programas mais ou menos comerciais ou elitistas. Certo é que, aqui chegados, a música popular francesa desapareceu quase completamente do espaço público português. É verdade que ao invés temos mais e muito variada oferta nacional e a música popular brasileira continua a dar cartas, mas é estranho que a canção francesa se tenha eclipsado. Os novos modos de consumo não justificam tudo.

Domingo

por João Távora, em 31.07.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?». Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. Ele pensou consigo: ‘Que hei-de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? Vou fazer assim: Deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos. Descansa, come, bebe, regala-te’. Mas Deus respondeu-lhe: ‘Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?’. Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

Palavra da salvação.

Comentário: Jesus não olha para o mundo e a vida com a amargura do sábio de Israel (primeira leitura). Mas, através de uma meditação austera, faz-nos compreender que não é no espírito de ganância, pelo qual todos, ricos e pobres, somos tantas vezes levados, que está o verdadeiro sentido da vida, mas em cada um “se tornar rico aos olhos de Deus.”

Insiste, insiste

por henrique pereira dos santos, em 30.07.22

Na sequência do meu post anterior, gostaria de reproduzir duas fotografias de Marco Ribeiro, que fui buscar a uma publicação do Paulo Fernandes.

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As duas fotografias correspondem a dois pinhais ardidos por estes dias, no mesmo fogo, o de Vila Pouca de Aguiar.

Para quem está menos habituado a estas imagens (e eu percebo pouco disso, mas à força de tanto ouvir, sempre consigo ver um bocadinho mais do que via há uns anos), repare-se bem nas copas dos pinheiros num e noutro caso e, já agora, na medida do possível, no solo.

No primeiro vemos uma afectação relevante da copa dos pinheiros - não estão totalmente consumidas, mas estão castanhas quando não consumidas - no segundo vemos uma afectação relativamente marginal das copas, que estão evidentemente verdes.

Isto significa que a severidade do fogo (o efeito do fogo sobre a vegetação e o solo) foi muito diferente nestes dois locais, como provavelmente terá sido diferente a intensidade (a quantidade de energia libertada, que naturalmente condiciona a severidade, em combinação com as características da vegetação e solo existentes).

Qual é a diferença fundamental entre estes dois pinhais?

O de baixo tinha sido tratado com fogo controlado há algum tempo (em Fevereiro de 2020), porque é um pinhal gerido, com intervenções técnicas qualificadas.

Em duas imagens, uma ilustração expressiva do que se quer dizer quando se diz que falta gestão ao nosso mundo rural para podermos ganhar controlo sobre o fogo.

Com um dispositivo de combate mais atento e mais empenhado no combate ao fogo florestal, provalmente as oportunidades criadas pela gestão que se referiu acima até teria permitido que tivesse ardido bastante menos, mas esse é outro assunto.

Um caso prático

por henrique pereira dos santos, em 30.07.22

Tenho insistido - e eu sou muito insistente, é verdade - que o mais urgente e prioritário - e as duas coisas podem ser muito divergentes, é verdade - na gestão do fogo, é injectar economia no sistema.

Esta ideia nem é minha, nem levanta grandes objecções, tirando uns maníacos das políticas musculadas, que preferem injectar polícia no sistema, a ideia é largamente aceite.

As divergências acentuam-se quando se tenta passar à prática a ideia, sendo a maior fractura entre os que dizem que a exploração florestal - em sentido lato, inclui a exploração de matos e pastagens pobres - é intrínsecamente rentável, e o problema está nas condições externas - sobretudo a dimensão da propriedade e o risco de fogo - e os que dizem, de forma minoritária, que a exploração florestal é muito pouco atractiva como actividade económica, em grande parte do território.

Por pouco atractiva não se pretende dizer que a pastorícia não é rentável, provavelmente é, em grande parte do território, o que se pretende dizer é que o rendimento que se consegue tirar não paga o esforço das pessoas envolvidas, pelo menos face às alternativas que as pessoas têm para governar a sua vida e o que consideram justo.

Os primeiros tendem a defender políticas à escala da paisagem para gerir o fogo - uma rede de faixas de gestão de comsbutível para criar grandes compartimentos de paisagem que impeçam os fogos de lavrar livremente por extensões imensas - e políticas que visam alterar a estrutura da propriedade - alteração do regime sucessório, cadastro, sistemas de gestão agregada, como ZIFs e afins, etc., para além de subida na escala de valor dos produtos que resultam da actividade.

Os segundos tendem a pôr a tónica no pagamento público dos serviços de ecossistema (praticamente todos defendem isso, trata-se apenas de uma hierarquização diferente das políticas).

Eu estou no segundo grupo e sou dos mais radicais na matéria: grande parte dos problemas identificados e que limitam a competitividade no sector, incluindo o risco de fogo e a questão da propriedade e o acesso à terra, parecem-me sintomas da falta de valor da terra, em resultado da falta de competitividade das actividades que a têm como factor de produção essencial.

Por isso tenho defendido o pagamento directo, sem complicações, aos proprietários e gestores, de um valor a definir - 100 euros por hectare de três em três anos, é o meu ponto de partida -, sempre que os terrenos tenham menos de 50 cm de altura de combustíveis finos.

Francisco Oliveira Miguel sugeriu a simplificação das minhas propostas anteriores, que propunham candidaturas e verificação de resultados pelo Estado, com base na inclusão das organizações de produtores como intermediários na auditoria e processamento de pagamentos após verificação das condições de pagamento, eliminando candidaturas e avaliações: sempre que o proprietário ou gestor acha que está em condições de receber o dinheiro faz um pedido de pagamento à organização de produtores mais próxima, esta verifica que as condições estão cumpridas e paga, tendo o Estado como origem do pagamento e garante de todo o processo.

Ontem, ao ver Marco Ribeiro no jornal da noite, da SIC, a dizer que tinha perdido 15 mil bicas de resina no fogo de Vila Pouca de Aguiar, perguntei-lhe se a empresa aguentava as perdas (não há seguros que aceitem cobrir estes riscos).

Conheço o Marco há já algum tempo, quando trabalhava com António Salgueiro em fogos controlados, tenho acompanhado o que tem vindo a fazer desde que António Salgueiro teve de parar o trabalho da GIFF, a empresa de gestão integrada de fogos florestais que geria, e o Marco criou a Raízes In, que trabalha nos mesmos sectores: gestão integrada de fogos florestais, incluindo uma componente expressiva de produção de resina, um negócio manifestamente no limite da viabilidade comercial, mesmo nas melhores zonas resineiras do país.

Quer António Salgueiro, quer Marco Ribeiro deram um apoio fantástico à Montis nos fogos controlados que foram feitos, e foi durante a realização desses fogos que mais aprendi com eles (eles queimavam, eu fazia perguntas sobre o que ia vendo).

Por tudo isto, dei por mim a avaliar mentalmente os efeitos dos diferentes tipos de medidas propostas para a gestão do fogo, num caso como o do Marco Ribeiro.

Todas as medidas relacionadas com cadastro, regime sucessório, acesso à terra e afins, e as medidas de criação de faixas de combustíveis, mesmo que tenham os resultados esperados, demorariam muito a ter qualquer efeito que a empresa do Marco pudesse sentir, numa altura em que um fogo coloca a actividade resineira da empresa no limite da falência (digo eu, o Marco diz que tem apoio à contratação de dois resineiros, tem algumas prestações de serviços relacionadas com a manutenção de faixas de gestão de combustível, portanto se a produção e os preços não forem um desastre, acha que se aguenta).

Mas o pagamento de 100 euros por hectare gerido pela empresa, onde é feita gestão de combustíveis, tinha um efeito imediato e efeitos de médio e longo prazo que dariam perspectivas muito diferentes à empresa.

É certo que há uma parte relevante dos investimentos e gestão que deve ter sido feita com apoios comunitários e, portanto, seria preciso acautelar os duplos pagamentos, mas também é certo que a Raízes In viu negada a aprovação de projectos de gestão de combustíveis, não sei se próprios, se como prestador de serviços, com base em regras a que falta sensatez.

O exemplo mais evidente, para mim, é a restrição, feita frequentemente pelos serviços de conservação da natureza, à forma como se faz a gestão de combustíveis, impondo que em algumas áreas apenas possa ser feita por meios moto-manuais, em vez de apenas impôr uma restrição de não afectação da camada superficial do solo. Parece uma minudência quase irrelevante, toda a gente concorda com a necessidade de garantir a conservação do solo, mas a diferença entre uma e outra formulação é que na primeira o fogo controlado e o pastoreio são técnicas excluídas, apesar dos efeitos se conservação do solo serem os mesmos e o seu custo ser um quinto a um décimo da limpeza moto-manual. E essa pode ser a diferença entre ser possível gerir de forma sustentada uma área, ou deixá-la ao abandono.

Com este exemplo, talvez excessivamente técnico, apenas quis realçar que não há soluções simples para a gestão sustentada do fogo, mas o que verdadeiramente me interessa é tentar perceber o efeito de médio e longo prazo (o imediato já vimos) de uma medida como a que tenho defendido.

Se o rendimento da actividade for reforçado nos termos que tenho defendido, com base no interesse colectivo de gestão de combustíveis, o que acontece à empresa do Marco é ganhar solidez e margem para absorver os choques provocados pelos fogos, ou seja, diminui o risco associado ao fogo - já não contando com a diminuição de risco global pelo aumento de área gerida - e ganha capacidade para expandir a actividade para áreas que hoje não consegue gerir por não serem rentáveis, aumentando a área de combustíveis gerida.

Com isso temos mais emprego, mais produção, mais gestão e, consequentemente, uma gestão mais sensata do fogo.

É certo que estes resultados se obtêm com base em dinheiro dos contribuintes.

Assim sendo, e verificando-se que os mercados actuando livremente - eu sei que podem ser melhorados, diminuindo os custos de transação da terra, diminuindo as taxas e impostos relacionados com estas actividades, tornando mais eficientes os mercados, nomeadamente através do aumento de informação aos consumidores sobre os efeitos das suas opções de consumo, da melhoria dos canais de comercialização e da orientação das políticas de compras do Estado para a inclusão de factores de decisão relacionados com a gestão de combustíveis, etc. - não conseguem dar resposta à necessidade social de gestão do fogo, o que resta discutir, na definição de políticas públicas, é a eficiência de cada euro dos contribuintes gasto na gestão do problema.

Sem ser economista, sem saber fazer bem as contas, a minha intuição é a de que as propostas que tenho vindo a defender não só têm efeitos imediatos, ao contrário da resolução da magna questão da propriedade, como são muito mais eficientes na obtenção de resultados: o aumento de área com gestão de combustíveis finos por cada euro gasto dificilmente é maior com qualquer das outras propostas de políticas públicas em discussão.

Resta a questão do efeito diferenciado desse aumento quando é estrategicamente localizado no território ou quando é atomisado como é forçoso que aconteça com as propostas que defendo, mas tenho as maiores dúvidas de que o efeito da localização estratégica da intervenção ultrapasse o efeito de aumento global da área gerida, sobretudo com um dispositivo de combate que não está treinado para aproveitar as oportunidades que a gestão cria e que desistiu do combate florestal para se concentrar na protecção de casas.



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