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Pressão na mola

por João Távora, em 24.11.20

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Quem me conhece melhor sabe que para mim a celebração do Natal não é uma questão fútil, de comeres e beberes. É com algum espanto oiço na radio Observador um “especialista” daqueles que, por sua vontade já nos encerrava a todos em casa como em Março (escolas e tudo), a recomendar que a festa este ano seja passada nesses termos. As notícias dão conta que noutros países já se equaciona limitar as celebrações natalícias a um determinado número de indivíduos por agregado, e ensaiar novas engenharias sociais de resultado mais que duvidoso. Estou cansado de ouvir especialistas a dizerem uma coisa e o seu contrário – já há algum tempo que para minha sanidade evito o sensacionalismo dos telejornais e não tarda corto também com as rádios.
A questão que eu gostaria de ver respondida é: pretende a DGS fechar de novo os nossos templos ao culto especificamente no Natal? Qual a avaliação e a métrica que as autoridades pretendem aplicar para limitar os encontros familiares? Em que ciência se baseiam?
Como poderá facilimamente verificar com as industrias, comércio, ginásios, escolas e igrejas abertas, a saúde biológica não é, não pode ser um valor absoluto - terá sempre de se pesar em confronto com outros de igual ou peso superior. Para isso é que existem governos e políticos, e não somos governados por uma junta médica que naturalmente recomendaria uma quarentena ao país inteiro, além da proibição de fumar.
A ver se me explico: a forma discricionária e incompetente como o nosso governo tem gerido a crise sanitária compromete a sua autoridade, justificando a minha apreensão com as decisões que estará a preparar, desta vez ligadas aos mais profundos sentimentos, crenças e tradições das pessoas. Nomeadamente minhas, que a paciência de obedecer a incompetentes está a chegar ao limite. Cuidado como apertam a mola ...ou esticam a corda.

Suplentes que não querem jogar

por Jose Miguel Roque Martins, em 24.11.20

A propósito de um destacamento de 500 militares para reforçarem os serviços de rastreio da pandemia, a associação de sargentos foi lembrando, de acordo com o Expresso, que “os militares não podem ser sempre pau para toda a obra”.

Fiquei surpreendido, já que sempre achei que os militares sentiriam orgulho em contribuir da forma como pudessem para a sociedade. E não tenho visto assim tantos exemplos de serviços públicos pelos militares que expliquem a exaustão implícita no recado dos sargentos. Não percebo a afirmação, mas espero que implicitamente não tenham apenas dito, “só faltava porem-nos a trabalhar!”

Este episódio lembrou-me uma questão que sempre me perturbou: porque razão temos tantas instituições preparadas para estados de excepção? Em Portugal, e na maior parte dos países desenvolvidos, temos 3 instituições: as forças armadas, os bombeiros e a protecção civil, que só são accionadas em caso de necessidade (guerra ou acções humanitárias, fogo ou acidentes e catástrofes).

Não há dúvida que o ideal é ter 3 robustas instituições, já que é sempre possível virmos a ter guerra, catástrofes e incêndios ao mesmo tempo e sem pré-aviso. Mas... não será um luxo de ricos ?

Apesar de forte diminuição de contingentes nos últimos anos, não estamos a falar de pequenos números. De acordo com o Pordata, eram mais de 23.000 militares e 27.000 bombeiros em 2019.

Durante a maior parte da história da humanidade, não existiam nem corpos militares ou corpo de bombeiros permanentes.  Quando deles havia necessidade, constituíam-se de forma mais ou menos formal. É evidente que não era o ideal. E o aumento da sofisticação e conhecimentos técnicos aumentou num nível que não permite que em poucos minutos ou dias, seja possível a alguém travestir-se em especialista de guerra, de fogo, ou de catástrofes.

Obviamente não sou especialista em nenhum destes sectores. Mas até cumpri o serviço militar e passei fins de semana de serviço integrado numa brigada de prevenção para incêndios. E apesar de criativo, não consigo imaginar que  haja assim tanto para fazer, estudar e preparar em tempos de paz ou quando não há incêndios, para não ter disponibilidade para fazer alguma coisa no entretanto.

Sempre me questionei porque as forças armadas não eram soldados da paz quando não estamos em estado de guerra. Gerações de militares, felizmente, nunca viram o teatro de guerra. Simplesmente nunca exerceram a sua profissão. Apenas se prepararam. Porque precisamos de duplicar recursos importantes e valiosos, para estarem na maior parte do tempo á espera de serem necessários?

Certamente não poderíamos ficar apenas com o numero de um dos contingentes. Há claramente missões e funções no exercito e sobretudo na força aérea e marinha, que não podem ser aproveitadas no combate a incêndios e acidentes. Embora quanto à protecção civil, em Portugal com mais de 10 vezes os generais para o mesmo numero de soldados do que no Reino Unido, poderíamos certamente constituir um elenco de luxo.

Poderão existir razões que desconheço e que expliquem este fenómeno em tantos países. E nem sequer importa se esta solução é exequível. A questão é se a sociedade se pode dar o luxo, da injustiça,  de ter suplentes que não estão disponíveis para jogar, quando finalmente podem ir a jogo.  

Confesso, fiquei mal disposto,  com a tirada da associação dos Sargentos. Como aliás fico normalmente com as reivindicações de associações de interesses, que só olham para o próprio umbigo.

Paulo Guilherme diz que vendeu unidades do Montepio com "prejuízo"

O Banco Montepio é hoje uma equação impossível. Como limpar o balanço, crescer o negócio sem capital? 

Se a flexibilidade do BCE para o capital regulatório, no fim da crise, acabar, como é que o Banco Montepio vai reconstruir as almofadas de capital regulatório? É um quadratura do círculo.

A Associação Mutualista tem 600 mil associados que têm aplicações em produtos de poupança, cujo o ativo que os alimenta é o banco. Logo o Banco Montepio não pode ser vendido. A maioria do capital do banco tem sempre de ser da Mutualista.

Mas se for preciso um aumento de capital a Mutualista não tem dinheiro para subscrever. Como é que se resolve este enigma? 

Como se capitaliza o Banco Montepio e se prepara o banco para o que vem aí?

Se o banco for resolvido não são apenas os credores do Banco que perdem tudo, são também os mutualistas, que são os acionista do banco, são os reformados que têm os produtos de poupança regulados pela Segurança Social e que ficam sem nada.

Agora se percebe o erro que foi a oposição política (do Bloco de Esquerda e do PCP, mas não só, a direita também alinhou, incluindo o PSD de Rui Rio e até o CDS) à entrada da Santa Casa da Misericórdia no capital do banco. Um erro colossal, que vai custar caro e que ninguém nunca vai admitir.

Todos os que impediram, com todas as forças, a entrada da Santa Casa da Misericórdia com 200 milhões no Banco Montepio ponham a mão na consciência, porque ali podia estar a salvação da instituição. Se a Santa Casa fosse acionista e injetasse dinheiro no Banco Montepio, o banco teria sempre alguém que capitalizasse a instituição financeira. O banco teria dinheiro para limpar o balanço e podia crescer a atividade e até dar lucros que justificassem o investimento da Santa Casa.

Mas há ideias boas que são condenadas por preconceitos ideológicos. Portugal é sempre muito mais eficaz a criar bloqueios do que a criar soluções. E assim nunca saímos da cepa torta e qualquer mudança é sempre para pior.

Não nos fiquemos por aqui. A situação do banco representar 80% dos ativos da Mutualista também é uma factura a passar aos governos (aos ministérios da segurança social) que o permitiram. Assim como os DTA (ativos por impostos diferidos) que o Ministério das Finanças permitiu para recapitalizar contabilisticamente a Mutualista, ainda seja parca a possibilidade de existência de lucros futuros que justifiquem esses créditos fiscais. Tudo coisas que não devem ficar esquecidas se o futuro do Banco Montepio não correr bem (e esperemos que não aconteça o pior). 

Nessa altura, onde vão estar os críticos que atiraram pedras aos governos que foram contemporâneos dos casos BES e Banif?

O tempo ainda nos revelará como a oposição à entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital do Banco Montepio foi um erro crasso. Mas na altura vai tudo assobiar para o lado e acusar quem mais for mais conveniente e estiver mais à mão.

 

Muita política, poucas realizações

por Jose Miguel Roque Martins, em 23.11.20

Apenas olhando para a resposta a esta pandemia, o que vemos:

Comunicados e medidas para o povo cumprir: abundantes, de eficácia duvidosa

Apoios suficientes para os atingidos: inexistentes

Apoio medico a outras doenças: mortes excessivas abundantes

Preparação da segunda vaga: invisível

Distribuição das vacinas para a gripe: lamentável

Preparação da vacinação covid: atrasada

 

Infelizmente, em Portugal,  temos muita política mas muito poucas realizações. Assim não vamos lá!

Cansaço

por henrique pereira dos santos, em 23.11.20

"Não havia grandes dúvidas que a segunda vaga iria atingir a Europa depois do verão, quando as pessoas retomassem as atividades normais, os empregos voltassem a ser maioritariamente presenciais e os alunos voltassem às escolas."

Há séculos, para não dizer milénios, que se pensava que havia um padrão sazonal nas mais importantes doenças infeciosas respiratórias nas regiões temperadas.

Há séculos, para não dizer milénios, que se pensava que as mais importantes doenças infecciosas respiratórias, nas regiões temperadas, diminuiam na época quente e aumentavam na época fria.

Mas agora parece que isso afinal não é assim, as pessoas no Verão estão sempre em casa, não se juntam, não se deslocam, não estão com a família, não se divertem em zonas cheias de gente e, por isso, a actividade viral diminui.

O resultado é conhecido e o esperado.

Quando as pessoas voltam à vida normal no Outono/ Inverno, a actividade viral aumenta, impulsionada pelos contactos que toda a gente sabe que ficam suspensos no Verão, como se está a verificar, de maneira que a conclusão é evidente para qualquer pessoa de boa fé: é preciso voltar ao padrão de contactos do Verão, que é o que se pretende com as medidas administrativias que estão a ser tomadas.

Penso não me estar a enganar com a interpretação do primeiro parágrafo deste post, que retirei de uma peça de hoje do órgão oficial do apocalipse, mas cujo conteúdo tenho visto repetido incessantemente pelos mais reputados especialistas que têm falado publicamente sobre o assunto, em especial os que estão ligados a Manuel Carmo Gomes ou a Baltazar Nunes.

Domingo

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

por João Távora, em 22.11.20

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’. E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna».


Palavra da salvação.

A menorização das pessoas e a escolha da pobreza

por Jose Miguel Roque Martins, em 22.11.20

Constantemente agredidos por medidas e opções ridículas, esquecemos muitas vezes as razões profundas da nossa mediocridade e insatisfações colectivas. Sem olharmos para os nossos vícios estruturais, não vamos mudar nada de importante.  E por isso importa, de quando em vez, lembrarmos alguns dos nossos grandes erros.

Um dos grandes vícios em Portugal é a criação e manutenção de postos de trabalho que não criam qualquer riqueza. Apenas a distribuem. Basicamente significam trabalhos dobrados, para o mesmo serviço. Quem perde com isso? A sociedade, que vê pessoas desperdiçadas em trabalhos que nada acrescentam, em vez de produzirem algo com valor. Quando essa pratica é muito visível, a desculpa é tão fácil como errada: que não faz mal, porque de outra forma essas pessoas estariam desempregadas. E assim faz-se de conta que estão a fazer alguma coisa de útil. Como se o desemprego fosse uma inevitabilidade  numa sociedade funcional.

No sector privado, a concorrência e pressão sobre os resultados, encarrega-se de ir eliminando o desperdício social do subemprego. Por exemplo, o movimento de consolidação que estamos a assistir na Banca ou no sector automóvel tem a ver com a eliminação de trabalhos dobrados. É o que acontece numa fusão, em que juntando duas estruturas, temos pessoas que passam a não ser necessárias para produzir exactamente o mesmo. Quem ganha? Os consumidores, ou seja todos,  que vão comprar as mesmas coisas mais barato, e a sociedade que liberta recursos valiosos ( pessoas)  que vão produzir outras coisas. Quem perde? Aqueles que foram despedidos até encontrar um novo meio de vida. Um custo necessário para o progresso geral. Numa economia de mercado, há uma socialização dos benefícios e uma concentração dos prejuízos, que normalmente são eliminados rapidamente.   

Já no Estado e em todas as actividades administrativamente protegidas, essas correcções não acontecem. Porque não são necessárias: ninguém vai à falência. E por isso, desperdiçam-se recursos com grande prejuízo para a sociedade. Esqueçamos, por hoje, o Estado, o ogre do desperdício. Olhemos para o que se passa no mundo do sector não lucrativo.

Vejamos o que se passa nos vários direitos autorais na Música: compositores, interpretes e editores. Não entrando no ( muito questionável) mérito e na forma como o dinheiro recolhido chega aos interessados,  que justificam a existência destes direitos.

Inicialmente, apenas os direitos de autor eram reconhecidos. E a sociedade de direitos de autor passou a ser responsável pela cobrança a quem, por lei, tinha que pagar essa taxa. Depois, também os direitos de edição e dos interpretes passou a ser reconhecido. Já que, na pratica, são exactamente as mesmas entidades que têm que pagar os três direitos que passaram a ser consagrados, faria sentido que apenas uma entidade cobrasse, para todos, os direitos. Ou seja, recebesse mais de cada entidade, o que não promoveria aumento de custos administrativos. Em vez de x, a cobrança seria de x+y.  O que aconteceu? Criou-se uma nova entidade, que cobra os novos direitos. Quem perde? Os músicos que se queriam proteger ( que pagam mais custos de cobrança) e a sociedade, que duplicou uma estrutura não necessária. Quem ganha? Apenas aqueles que passaram a ter um trabalho com mais regalias ou menos trabalho do que se não existisse esta nova estrutura.

Um posto de trabalho está muito longe de ser um sinónimo de criação de riqueza para a sociedade. Muitos deles são apenas veículos de distribuição de riqueza e de empobrecimento da sociedade.  

Em Portugal, justificamos o desperdício, admitindo que o desemprego seria inevitável se não houvesse tantos empregos não necessários. Erro puro, como se pode observar no que acontece em países mais ricos, como, entre outros, na Escandinávia. E esta é apenas uma das formas como produzimos desperdício. A forma como dificultamos o trabalho, outro drama em si mesmo, é mais graves que este tipo de fenómeno.

A nossa aproximação aos empregos dobrados, não é apenas errada. Menoriza quem tem empregos “por favor”, sem qualquer utilidade económica e social. E condena a sociedade a uma pobreza relativa, já que promove o desperdício do recurso mais precioso numa economia, o trabalho humano.

Zandingas

por henrique pereira dos santos, em 22.11.20

No dia 11 de Novembro fiz um post que começava assim:

"António Diniz, pneumologista e membro do grupo que acompanha a covid na ordem dos médicos, diz que daqui a 15 dias vamos ter, por dia, 125 novos doentes com covid nos cuidados intensivos.

Manuel Carmo Gomes, biólogo e professor de epidemiologia, diz que vamos ter 10 mil casos de covid por dia, no princípio de Dezembro, 530 internados em UCI uma semana depois e uma mortalidade à volta das cem pessoas por dia na primeira quinzena de Dezembro.

Eu, porteiro do hotel Alcazar, digo que dentro de uma semana, ali por meados do mês de Novembro, estaremos a parar o crescimento do número de casos diários e portanto não vamos chegar aos números citados acima (sendo mais preciso, um dia ou outro com dez mil casos não significa nada fora desta minha previsão Zandinga, uma média a sete dias de 10 mil casos, sim, significa que a previsão está errada).

Agora é simples, é deixar correr o tempo e ver quem fica mais próximo da realidade (errar vamos todos errar, isso é seguro)."

Estava à espera dos quinze dias ou do princípio de Dezembro para olhar para estas previsões feitas a 11 de Novembro por diferentes Zandingas, mas como o Governo resolveu tomar decisões com base no que seria a epidemia se o Governo a não controlasse, vou fazer um post intermédio e logo veremos no princípio de Dezembro se volto ao assunto.

Mais ou menos 11 dias depois da previsão do pneumologista António Diniz, em quem a ordem dos médicos confia para dizer coisas sobre a epidemia, a sua previsão de haver 125 pessoas por dia a entrar em cuidados intensivos, confrontada com a realidade, revela-se o que sempre foi: ver o gráfico abaixo, é verdade que houve uns dois dias com aumentos de 25 ou 26 pessoas em cuidados intensivos, é verdade que é possível que ainda venha haver subidas diárias relevantes em cuidados intensivos, mas estar à espera de 125 pessoas de aumento por dia nos cuidados intensivos, só para lunáticos.

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Nota sobre este gráfico: note-se o desfasamento entre a inclinação da curva de internados e a inclinação da curva de cuidados intensivos, um padrão que se encontra praticamente em todos os países mas que aparentemente não é muito valorizada pelos lunáticos.

Manuel Carmo Gomes, entretanto, já refez a sua previsão (escassa meia dúzia de dias depois), baixando a média de dez mil casos diários para sete mil. A realidade, neste momento, é de alguma estabilização ligeiramente abaixo dos seis mil, ou seja, a previsão dos sete mil para início de Dezembro é razoável, a previsão dos dez mil, feita ali por 10 ou 11 de Nombembro, parece fora de causa.

E eu, o porteiro do hotel Alcazar, previ nessa altura que uma semana depois estariam a estabilizar os números, previsão que terei falhado por dois ou três dias, talvez, e a previsão de que não íamos chegar aos números previstos pelos outros zandingas parece certa em relação ao número de casos, é mais duvidosa em relação aos internados UCI de Manuel Carmo Gomes (530 parece perfeitamente possível, estamos com 485) e a mortalidade de 100 pessoas em meados de Dezembro não é descabida (estamos por volta dos 75 diários, parece haver alguma estabilização, mas é muito cedo, é normal um desfasamento em relação ao número de casos e esta estabilização parece ser temporã).

Aqui o porteiro do hotel Alcazar sabe mais que os outros Zandingas por ter feito previsões mais certas, neste caso?

Claro que não, apenas foi por outro caminho: o primeiro achou que andar na lua era o mais adequado para falar do futuro, o segundo usa métodos mais sólidos de previsão, que assentam na mera projecção de tendências para o futuro, e o porteiro do hotel Alcazar usou o padrão de evolução da epidemia noutros países.

O que me espanta é que ao fim deste tempo todo os que fazem previsões lunáticas, e os que fazem previsões seguindo os mesmos métodos mas de forma mais sólida, nomeadamente evitando projectar tendências muito mais que uma semana, continuem a ser ouvidos como oráculos de Delfos e não como o que são: pessoas a tentar prever o futuro.

E os que usam padrões matemáticos de situações que se podem considerar similares, sejam simplesmente classificados e tratados como negacionistas.

A diversidade é uma coisa boa, ajuda-nos a gerir melhor problemas complexos, não há vantagem nenhuma em querer calar os que simplesmente usam caminhos diferentes dos nossos para pensar.

De Marcelo a Cabrita, passando pela Esquerda toda

por João-Afonso Machado, em 21.11.20

Logo em Março deste ano, o BE pulverizou o País com tarjas e cartazes apelando à salvação do SNS. Estava assim, mesmo à nascença, politizada a pandemia Covid19.

Na exacta medida que servia já como pretexto na velha querela, sustentada pela Esquerda, em que a Direita é acusada de favorecer os interesses privados, os hospitais dos "ricos".

Evidentemente, ninguém, no seu perfeito juízo, não deseja um sistema público de saúde. Assim ele exista: assim o Estado o saiba gerir e nele investir em recursos, eficácia, segurança. Por forma a que a confiança dos utentes seja uma realidade, o que de todo não acontece com o nosso SNS.

Só para exemplificar, aponto o caso actual de Paços de Ferreira: o hospital de recurso está pronto; mas o Ministério não tem médicos e enfermeiros para enviar para lá...

Imediatas congeminações, estas, quando ouvimos o Presidente Marcelo arengar à República, perante uma Nação estupefacta. (Marcelo não dispõe, realmente, o dom de lograr a unidade nacional...) Tudo espremido, tratou-se de avisar a malta de que o Natal este ano não seria para famílias numerosas e para agitar o fantasma de uma "terceira vaga" em 2021.

Entrementes, segundo o mais recente na ciência, os locais preferidos de transmissão do vírus são os grandes aglomerados de estranhos - mesmo os dos estranhos camaradas congressistas. E é por isso que ontem, na votação parlamentar sobre o estado de emergência, o BE lavou as mãos como Pilatos e o PCP pronunciou-se contra. Enquanto o inconcebível Cabrita recolhia os votos PSD, CDS e Chega, e se indignava por «a direita e a extrema direita», ao se manifestarem contra a realização do Congresso PCP, quererem «impedir a democracia»!

Somos isto. Impossivelmente, com esta gentinha política, deixaremos de ser isto.

Foge cão que te fazem barão

por Jose Miguel Roque Martins, em 21.11.20

Ainda a procissão vai no adro e as coligações negativas , na discussão na especialidade do orçamento, já aprovaram mais de 10 medidas contrárias ao proposto.

Uma coisa é quando um governo minoritário precisa de uma fatia de queijo. Outra é quando precisa de vários queijos. António Costa perdeu o controlo. E lembre-mo-nos que falta de habilidade ele não tem.

A ideia dos últimos anos, é de que a fragmentação partidária não iria ser um problema. Informalmente entraríamos num sistema bipartidário, a Esquerda e a Direita. Sendo que os grandes partidos do centro, atirando umas iscas aos pequenos partidos, mesmo aos radicais, continuariam, no essencial a governar. Pela amostra recente, isso não vai acontecer.

Ou acontece um qualquer milagre.

Ou os partidos do centro se transformam numa caixa de ressonância dos seus partidos de apoio. Conseguem a maioria para governar, mas apenas para implementar um qualquer aborto político.

Ou o status quo, anterior à "grande coligação de esquerda" e agora à coligação com o Chega, regressa. O que significa o regresso do centrão cada vez mais monocórdico.

Foge cão que te fazem barão, para onde que me fazem visconde!

A descrença, ou o vírus mais letal

por João Távora, em 20.11.20

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Se a história dos 68% dos casos de Covid19 terem origem no meio familiar a justificar o recolher obrigatório instaurado raiava o absurdo – como se o vírus nascesse de geração espontânea dentro das nossas casas - agora que sabemos que afinal só 10% dos casos ocorrem comprovadamente nas famílias e que mais de 80% dos casos de coronavírus em Portugal são de origem desconhecida, fica claro que estamos a ser governados de improviso por incompetentes: assim são implementadas medidas placebo para que se mantenha a ilusão na comunidade de que a propagação do vírus está sob o controlo dos políticos e da ciência. De nada interessa que ontem tenham sido reportados 6994 novos casos de infecção, o segundo na escala desde o inicio da pandemia, que surge mais de três semanas depois de ter entrado em vigor o tão ansiado uso obrigatório de máscara, e duas semanas depois de declarado o estado de emergência. Referia muito bem há dias Marcelo Rebelo de Sousa que as medidas não servirão para nada se as pessoas não acreditarem nelas. O problema é que o vírus também nelas descrê e faz o caminho a que estava destinado, pouco tendo sido feito pelos governantes para adaptar o SNS ao esperado embate.
Se admito que, por falta de estudos sérios e concludentes, crer ou descrer na utilidade das medidas restritivas que vêm sendo implementadas é um acto de fé, o descalabro que grassa na nossa frágil economia é uma evidência, que ao contrário do que muitos nos querem fazer crer não se limita ao sector do turismo e à hotelaria. Percebo que para grande parte dos portugueses que têm rendimento garantido ao final do mês, custe a perceber o que é cumprir um plano de negócios, gerir uma empresa, criar riqueza, cumprir com os compromissos e pagar ordenados. Desses portugueses instalados também começo a duvidar que se lembrem o que é a vida daqueles que têm todos os dias de se levantar de madrugada para, com o seu suor, levar algum sustento para casa, e os equilíbrios precários de que depende a “dignidade” da sua existência. Desconfio que já não elegem ninguém, mas um dia destes ainda os vamos ver na rua em desespero.
Evitemos contactos sociais supérfluos, obedeçamos ao protocolo respiratório, lavemos as mãos e usemos máscara onde o distanciamento físico não seja possível, mas não façam de nós parvos com a improvisação de engenharias sociais catastróficas para a nossa subsistência económica, sanidade psicológica e coesão social.
Vai ser necessário uma enorme energia e espírito de missão para liderar a fase de reconstrução que aí vem. Mas duvido muito que isso seja possível com os actuais protagonistas.

Em defesa do PCP

por Jose Miguel Roque Martins, em 20.11.20

Por todos os lados se multiplicam as criticas ao PCP. Celebrou o 25 de Abril, o primeiro de Maio, fez a festa do Avante e vai agora realizar o seu Congresso. Enquanto isso, outros Portugueses vão ficar infelizes e enclausurados.

Uma raridade. Um partido político que luta pelos direitos constitucionais. Que não assume que a pandemia é motivo para deixar de se viver. E que luta pelos seus objectivos e ideais, a maior virtude deste partido.

Aqueles que pensam que o confinamento é o único caminho, podem criticar os comunistas. Embora, na minha opinião, estejam centrados apenas em si mesmos e não considerem os direitos de quem pensa de forma diferente.

Aqueles que pensam como o PCP na questão pandémica,  só podem apoia-lo e criticar o governo, pela sua noção muito particular dos direitos e garantias dos cidadãos.E, já agora, tentarem lutar pelo que consideram ser os seus direitos. 

Em (demasiadas) questões o PCP está em contra-mão com o razoável. Na luta pelos seus direitos, não!

 

Uma nova exploração do homem pelo homem

por Jose Miguel Roque Martins, em 19.11.20

Passados todos estes meses de pandemia, já sabemos que as medidas ao seu combate, provocam mortes excessivas por outras doenças, a pobreza galopante, impactos na educação,  na felicidade e saúde psicológica da população.

Não sabemos quais os benefícios que resultaram das políticas de saúde publica. Nem se consegue saber o que teria acontecido sem elas.

A discussão passou a ser uma questão de convicções, já que ciência, ainda há muito pouca.

Mesmo que soubéssemos tudo, continuaríamos a ter perspectivas diversas. Porque são diferente as circunstâncias e custos de cada um. Porque o percepção do valor de cada vida, em abstracto, é pessoal.

Estamos destinados a não nos entendermos.

O que espanta é que, quando assim acontece, não se permita e consiga que cada um viva como considera adequado. O argumento de que a liberdade de cada um acaba quando começa a liberdade do outro, tem dois lados. Haverá algum completamente inatacável numa perspectiva menos egocêntrica?

Alguns, Covid temerosos, precisam de sair à rua para trabalhar. E não parece razoável que a rua seja um antro de contagio. Mas também não parece razoável impor que outros, que querem trabalhar, não o possam fazer. Mas é o que acontece. Esta é a questão difícil e interessante. Infelizmente não faz sentido discuti-la. O Estado decidiu por nós. E decidiu mal.

Qualquer que fosse o rumo seguido, o principio da igualdade de oportunidades e de distribuição dos impactos não foi tido em conta. Não se evitou aprofundar as desigualdades dos impactos que decorreriam naturalmente da Pandemia. Não se compensou quem foi prejudicado. Apenas se aprofundaram desequilíbrios.

O que temos é mais do mesmo. A preservação dos direitos dos instalados. O aumento do numero e do sofrimento dos que ficam fora do sistema, desempregados, falidos e esquecidos.

Quem diria que a exploração do Homem pelo Homem, fosse um apanágio de um governo Socialista?

"Os pombos da senhora Alice"

por henrique pereira dos santos, em 19.11.20

É um livro de Ana Catarina André, para a colecção retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

É mais jornalismo que literatura e vale a leitura: a velhice é tramada para muita gente, e convém ter isso presente quando se decide gastar o dinheiros dos impostos a impedir a TAP de falir, a promover o hidrogéneo em fases precoces da tecnologia, a desenhar paisagens sonhadas que se pagam a através de programas de transformação da paisagem orientados pelo Estado, etc..

Sendo as coisas o que são, gastar dinheiro num sítio é sempre tirá-lo de outro.

E financiar instituições é sempre limitar o financiamento das pessoas que usam estas instituições, levando as instituições a responder aos seus financiadores em vez de responder aos seus utilizadores potenciais e reais.

Apontamentos sobre o estado da choldra

por José Mendonça da Cruz, em 18.11.20

O governo escolheu 300 funcionários públicos, que «poderão ser 500», para monitorizar a situação de infectados do coronavirus, funcionários esses que «deverão começar» a trabalhar «durante o mês de Dezembro».

O surto de legionella que já matou 5 pessoas no Norte está «perto de ser identificado».

A Segurança Social cometeu erros ao retirar dinheiro a beneficiários, «mas promete corrigi-los».

Centeno foi o Ronaldo das Finanças (cito com pedido de desculpas a Ronaldo), gabou-se de uns orçamentos fantasiosos, manipulou dados para dizer que a dívida desceu, mas a UE adverte que Portugal é dos países onde está mais em risco a sustentabilidade orçamental a médio prazo, e vai ser objeto de «avaliação aprofundada».

Conflitos de interesses

por henrique pereira dos santos, em 18.11.20

Quando hoje li a peça do Público em que se põe em causa a fundamentação científica da decisão da Relação de Lisboa sobre testes não queria acreditar que o Público tinha achado adequado pedir uma opinião sobre o assunto ao dono de um dos laboratórios que mais beneficiam com a política de testes existente.

Miguel Esteves Cardoso escreveu recentemente uma crónica sobre uma senhora que, em tribunal, quando o advogado de um dos acusados a confrontou com o facto do seu cliente negar que tinha ido para a cama com ela, como ela tinha testemunhado, respondeu qualquer coisa como, "nunca diria que sim, não acha?".

Pelos vistos no Público não lêem as crónicas que publicam e acharam bem perguntar ao dono de um laboratório se os testes que faz eram mesmo bons e servem para o que se pretende (uma declinação da habitual pergunta sobre se a mousse é mesmo caseira).

Como dizia Luís Aguiar-Conraria, exactamente a propósito de um comentário sobre este assunto em que se defendia a honorabilidade de Germano de Sousa, é bom ter bem presente que identificar conflitos de interesse não depende da honorabilidade das pessoas envolvidas e é evidente o conflito de interesses entre o facto de se ser um dos principais beneficiários da política de testes adoptada e qualquer opinião, que se pretenda independente, sobre a utilidade dessa política.

Isto não diz nada sobre a honorabilidade de Germano de Sousa, apenas diz sobre a agenda do jornalista do Público (prefiro partir do princípio de que alguém tem uma agenda a partir do princípio que é tão incompetente que não consegue identificar um conflito de interesses desta dimensão).

Para o que eu não estava verdadeiramente preparado era para ficar a saber agora que a segunda pessoa que a peça do jornalista cita é um investigador que tem dois financiamentos que dependem da mesma política de testagem.

Neste caso a questão é um bocado diferente porque o investigador escreve um artigo de opinião no Público on-line, o que o jornalista do Público cita na peça em papel, sem o investigador se lembrar de escrever uma linha, por pequenina que seja, a avisar os seus leitores do que está escrito nesta imagem.

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Portugal tem um problema sério, muito sério, de qualidade institucional.

O problema com este exemplo não é o facto de Vasco M. Barreto se pronunciar sobre a área que é objecto da sua investigação, parece-me muito bem vinda a atitude dos investigadores participarem da vida da Pólis, o problema é não ser capaz de identificar a necessidade de fazer uma simples declaração de interesses neste caso.

Com o que se passou com Centeno e a quantidade de gente incapaz de ver o conflito de interesses associado à sua transferência directa do Ministério das Finanças para o Banco de Portugal, a questão não é este exemplo que cito acima, é mesmo o grave problema de um país em que as instituições estão capturadas pelos "devoristas" e as pessoas comuns acham isso normal.

Ainda acham que vai tudo ficar bem?

por João Távora, em 18.11.20

Sempre fui daqueles que achava o nosso sistema político desequilibrado sem uma ala direita robusta e descomplexada, assumidamente conservadora, liberal e reformista. O que eu nunca pensei é que essa facção emergisse através de um oportunista agarrado a causas tão bizarras quanto a castração química de pedófilos, a segregação dos ciganos ou o anti-parlamentarismo (amigos garantem-me que é um visionário que isso dos ciganos e da castração quimica são só velhos truques para dar nas vistas e que tem um programa político sofisticado para a nossa salvação, mas nunca o ouvi a falar disso). Mas a realidade é aquilo que é, não há vazio em política, e a direita, atordoada com a epidemia entrou em processo de autofagia. Começa-se a parecer demasiado os monárquicos depois da implantação da república: eram muitos e bons, tão bons que não se conseguiram entender. Até hoje...
Enquanto isso, António Costa passeia-se entre os pingos da chuva, o socialismo cristaliza-se no poder e o processo de empobrecimento dos portugueses acelera de forma assustadora. Com a nossa frágil economia praticamente estagnada e incapaz de gerar os recursos que inevitavelmente terão que ser despendidos para evitar uma tragédia de proporções bíblicas. Entretanto a Comissão Europeia “reforça alerta sobre elevado endividamento de Portugal". Triste destino este de ser português nos tempos que passam em que o político cuja inteligência sobressai do debate morno e aparvalhado parece ser o jacobino do Sérgio Sousa Pinto.

Nova York, et alii

por henrique pereira dos santos, em 18.11.20

Grande parte da argumentação contra a adopção de uma estratégia epidemiológica clássica, como a defendida na declaração de Great Barrington ou pelas autoridades suecas, assenta em especulações sem grande base empírica.

Uma das teses centrais pode resumir-se e simplificar-se nesta frase: "se cumprissem o que lhes pedimos e evitassem os contágios as coisas poderiam ficar abertas".

Outra das teses centrais é a de que uma protecção focada nos vulneráveis não protegeria eficazmente os vulneráveis, é preciso quebrar as cadeias de contágio para que a infecção não chegue aos vulneráveis.

Comecemos por avaliar este segundo argumento, avaliando se a estratégia dominante em curso tem protegido eficazmente os vulneráveis, porque esse é o cenário base contra o qual deve ser avaliada a hipótese da protecção focada, como alternativa à busca pela quebra generalizada de contágios.

À volta de 40% tem sido a mortalidade em lares, e continua a ser. Vamos esquecer as primeiras fases da epidemia em que em várias das zonas afectadas os lares foram usados como instalações de suporte aos hospitais (Lombardia, Madrid, Nova York, Bélgica, por exemplo) com resultados dramáticamente negativos.

Já depois de abandonada esta prática, os lares continuam a ser a grande origem da mortalidade, mesmo concentrando neles os esforços de protecção. Os 40% acima devem ser lidos com cuidado: na Suécia, onde para além dos 40% em lares avaliaram a mortalidade das pessoas mais velhas que tinham apoio domiciliário dos serviços sociais, a percentagem da mortalidade, somando as duas situações, ronda os 70%.

Note-se que, com uma doença que afecta sobretudo os mais frágeis dos mais velhos (não entendo as sistemáticas referências deste tipo "Os jovens em geral não morrem. Mas os idosos sim. E a sua morte é dada como certa." pela ansiedade injustificada que criam em milhares de pessoas fragilizadas: nove em cada dez pessoas com mais de setenta anos não morrem quando são infectadas, e sendo verdade que 10% é uma percentagem elevadíssima que  não pode ser desvalorizada, também é certo que quase todos esses 10% têm outras fragilidades para além da idade, sendo completamente escusado andar a assustar pessoas de 90 anos que não têm, à partida, nenhuma razão para supôr que um teste positivo, que era melhor que não existisse, é um anúncio da sua morte certa e próxima) é natural que as percentagens de mortes de pessoas que estão em lares ou recebem apoios sociais sejam muito altas, porque são as pessoas com menos autonomia que, maioritariamente, estão em lares ou precisam de cuidados de terceiros para o seu quotidiano.

Ou seja, em primeiro lugar, convém ter muito clara a ideia de que a actual estratégia também não tem protegido eficazmente os mais frágeis e, dito isto, gostaria de deixar claro que não tenho nenhuma certeza de que seja possível ser doutra maneira, o que me interessa é apenas discutir se concentrar esforços a tentar fazer isso não será mais útil que dispersar esforços a parar o vento com as mãos.

Discutamos agora a ideia de que "se cumprissem o que lhes pedimos e evitassem os contágios as coisas poderiam ficar abertas".

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Estes quatro gráficos dizem respeito a duas regiões vizinhas do mesmo país: o estado do Illinois, um estado sem ninguém com umas cidadezinhas rurais simpáticas, como Chicago, e o estado de Nova York, uma cidade de perdição em que as pessoas se misturam em altas densidades.

Não esqueçamos que a comparação entre casos até Abril e Maio e daí em diante é estultícia, porque a disponibilidade de testes e opções de testagem são completamente diferentes, mas é útil a comparação dos diferentes estados na mesma altura, para além da mortalidade que, apesar de tudo, é um indicador relativamente fiável.

Ora o que verificamos é que ou as pessoas de Nova York não cumpriam nada e as de Chicago cumpriam tudo em Março/ Abril e agora inverteram os comportamentos, ou simplesmente a evolução da epidemia tem outras forças modeladoras mais fortes que essas explicações simples e simplistas.

Aliás o padrão verifica-se abundantemente pelo mundo, com as localizações mais poupadas na primeira fase a ter incidências e mortaldidades na segunda época (é o que acontece na Europa de Leste, por exemplo, mas também me muitos estados americanos), as zonas mais afectadas inicialmente a suportar melhor a segunda época (aparentemente o vírus não lê o que se escreve sobre a inexistência de uma progressiva imunidade de grupo) e uma zonas de transição, medianamente poupadas no primeiro Outono/ Inverno e agora medianamente afectadas no segundo Outono/ Inverno, como Portugal ou, surpresa das surpresas, a Alemanha, que hoje chegou à media de sete dias de 198 mortes diárias, semelhante às 200/ 220 da mesma média em Março/ Abril.

Provavelmente há quem acredite que os Alemães não aprenderam nada da Primavera para agora e deram em malucos promotores de festas e jantares de família, sendo por isso que estão, em mortalidade, nos níveis semelhantes aos da Primavera passada.

Pessoalmente acho que há simplesmente um viés que impede pessoas inteligentes, cultas e informadas de ver o que está à frente no nariz.

Vasco M. Barreto, um comentador de muito bom nível deste blog, que teve a paciência de fazer uma série de posts sobre mim no seu próprio blog, só para demonstrar como tudo o que eu dizia da epidemia era uma patetice (depois deve ter percebido que ao contrário do princípio, em que para além de André Dias e eu, pouca gente mais apresentava dúvidas sobre o modelo de gestão da epidemia que estava a ser adoptado, que eu não tinha importância nenhuma e as dúvidas entretanto se tinham espalhado à boleia dos vários cientistas credenciados que lhes iam dando visibilidade e credibilidade) dá hoje, no Público, uma das melhores demonstrações desse viés que já vi.

Duas juízas do tribunal da relação fazem um acórdão demolidor para a gestão da epidemia, como referi no meu último post. O Público, que primeiro ignorou o acórdão (como ignorou a manhosice da licenciatura de Sócrates), acabou por deixar de o poder fazer, e portanto fez uma peça a descredibilizar o acórdão (não vou fazer nenhum comentário sobre o paralelismo com a licenciatura de Sócrates).

Para isso convida uma pessoa com interesses fortíssimos no negócio dos testes - Germano de Sousa - e Vasco M. Barreto para comentarem o acórdão.

Diz o acórdão (ao contrário dos jornalistas, eu cito o original, e não a citação escolhida pelo Público): “A um limiar de ciclos (ct) de 25, cerca de 70% das amostras mantém-se positivas na cultura celular (i.e. estavam infectadas): num ct de 30, 20% das amostras mantinham-se positivas; num ct de 35, 3% das amostras mantinham-se positivas; e num ct acima de 35, nenhuma amostra se mantinha positiva (infecciosa) na cultura celular (ver diagrama). Isto significa que se uma pessoa tem um teste PCR positivo a um limiar de ciclos de 35 ou superior (como acontece na maioria dos laboratórios do EUA e da Europa), as probabilidades de uma pessoa estar infectada é menor do que 3%. A probabilidade de a pessoa receber um falso positivo é de 97% ou superior”. Note-se que esta citação é uma mera tradução de um artigo científico cujo original está reproduzido no acórdão, em nota de rodapé.

Vasco M. Barreto considera as afirmações das juízas falsas e irresponsáveis e, no caso concreto desta citada, argumenta (de acordo com o que o Público diz que Vasco M. Barreto diz): "a informação não é precisa. Por exemplo, no Cedoc, onde Vasco M. Barreto trabalha, para 42% dos testes positivos foram precisos apenas 25 ou menos ciclos e há evidência científica da alta capacidade de propagação do vírus de casos "positivos" a menos de 25 ciclos".

Ou seja, Vasco M. Barreto não diz nada sobre o que quer contestar, confirma que só acima de 25 ciclos é que 58% dos testes são positivos, ou seja, confirma o que dizem as juízas: um teste positivo com 35 ciclos ou mais não dá garantias suficientes para se pôr alguém em prisão domiciliária porque é infecciosa.

E estamos nisto há meses: repetições absurdas que argumentos a que falta sustentação empírica, com base nos quais se tomam medidas com efeitos sociais e económicos negativos demonstrados empiricamente, para lá de qualquer dúvida razoável.

Nestas circunstâncias, o que acha Sakelarides e outros que recentemente têm escrito?

Que não é altura para ter opiniões, o que é preciso é perfilarmo-nos todos atrás do caudilho e é inaceitável que se dê tanto espaço mediático a quem tem dúvidas sobre a bondade de uma sociedade se perfilar atrás de um caudilho, adiando toda a capacidade crítica para quando o caudilho nos levar outra vez às terras onde corre o leite e o mel.

É admirável a democracia na América

por Jose Miguel Roque Martins, em 18.11.20

Nos EUA, Trump continua a demitir responsáveis por ele nomeados, por estes confirmarem os resultados das eleições.

O que faz uma democracia robusta, é muito mais do que uma arquitectura institucional adequada.  São as pessoas que as representam e os valores que são criados,  partilhados e entranhados na população.

Estes muitos Republicanos que validaram a justiça das eleições, sabiam que iriam ser despedidos. Mas acredito que nem pensaram duas vezes na hipótese de mentirem.

É admirável a democracia na América.

 

PS: Prova-se , também que a polémica sobre a maioria de juízes nomeados por republicanos no supremo tribunal não passa de uma histeria. 

O estado da imprensa

por henrique pereira dos santos, em 17.11.20

Há já vários dias que é conhecido um acordão do Tribunal da Relação de Lisboa que é arrasador para a gestão da epidemia, quer porque questiona a legalidade da quarentenas, quer porque questiona a utilidade dos testes PCR, tal como têm vindo a ser usados.

O acordão chegou ao meu telefone há 4 dias, no dia 13 de Novembro.

Aparentemente parte do jornalismo achou irrelevante o facto de um tribunal fazer equivaler as quarentenas a detenções ilegais, fora o resto. A Sábado, honra lhe seja, e talvez outros que eu não tenha visto, trataram do assunto há três dias.

Mas hoje o Jornal de Notícias faz manchete de primeira página com esse acordão (não sei o que diz a notícia) e, em consequência, quer o Observador, quer o Público, finalmente perceberam que o acordão existe e a sua importância.

Em qualquer caso, o Público e o Observador (foram os que li) omitem qualquer referência à contestação da utilização dos testes feita pelo Tribunal da Relação de Lisboa, apenas noticiando as questões relacionadas com a ilegalidade das quarentenas.

Calculo que o Jornal de Notícias omita também as referências a esse aspecto bem relevante do acordão.

A razão para eu pensar assim é deprimente: os dois jornais que li, para fazer as suas peças, que assinam - apesar de em grande parte do texto serem iguais, portanto calculo que sejam basicamente trabalho da Lusa - não têm o menor pejo em citar o Jornal de Notícias, sem nunca dar a menor ideia de que tenham lido o acordão, como um dia destes disse que fez uma jornalista do Público que, em vez de ir às fontes primárias - nesse caso, o ECDC, neste o acórdão - preferem citar jornais que citam as fontes primárias.

Raios vos partam, caramba, se querem leitores que vos garantam o ordenado trabalhem com um mínimo dos mínimos do respeito pelos vossos leitores, façam alguma coisa de jeito, ou acham que é por afirmar muitas vezes que fazem serviço público que ficam dispensados de fazer bem feito o vosso trabalho?



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