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A Pátria ficava agradecida

por João Távora, em 24.09.18

Dr. Augusto Santos Silva, desculpe-me a intromissão; mas não daria para pedir aos vossos parceiros do BE e do PCP para se servirem os créditos acumulados do seu amigo Nicolas Maduro e intercederem pela libertação dos 34 portugueses detidos em Caracas

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Domingo

por João Távora, em 23.09.18

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos

 

Naquele tempo, Jesus e os seus discípulos caminhavam através da Galileia. Jesus não queria que ninguém o soubesse, porque ensinava os discípulos, dizendo-lhes: «O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, que vão matá-l’O; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará». Os discípulos não compreendiam aquelas palavras e tinham medo de O interrogar. Quando chegaram a Cafarnaum e já estavam em casa, Jesus perguntou-lhes: «Que discutíeis no caminho?». Eles ficaram calados, porque tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Então, Jesus sentou-Se, chamou os Doze e disse-lhes: «Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos». E, tomando uma criança, colocou-a no meio deles, abraçou-a e disse-lhes: «Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que Me enviou».

 

Palavra da salvação.

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DO LIVRO DA SABEDORIA

por Vasco Lobo Xavier, em 22.09.18

 

«Disseram os ímpios: “armemos ciladas ao justo, porque nos incomoda e se opõe às nossas obras; censura-nos as transgressões à lei e repreende-nos as faltas de educação. Vejamos se as suas palavras são verdadeiras, observemos como é a sua morte. Porque se o justo é filho de Deus, Deus o protegerá e o livrará das mãos dos seus adversários. Provemo-lo com ultrajes e torturas para conhecermos a sua mansidão e apreciarmos a sua paciência. Condenemo-lo à morte infame, porque, segundo diz, Alguém virá socorre-lo.”»

 

Extraordinariamente apropriada ao que se passou esta semana, a Leitura do Livro da Sabedoria deste Domingo.

Mesmo para quem lê ou escuta com mínima atenção, é impossível não ver de um lado António Costa e o seu bando (onde se incluiu Marcelo Rebelo de Sousa), e do outro Joana Marques Vidal.

 

https://observador.pt/2018/09/21/joana-marques-vidal-aplaudida-de-pe-dois-a-tres-minutos-na-conferencia-combate-a-corrupcao/

 

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A Dona Hermingarda nunca perde a face

por João Távora, em 22.09.18

Marcelo.jpg

Sou daqueles que se surpreenderam com a posição assumida por Marcelo quanto à não recondução de Joana Marques Vidal, que me espantou de tal forma que me cheirou a traição. Agora, depois de uma rápida pesquisa na Internet temos que convir que a sua opinião nunca foi declarada, a desilusão foi culpa minha: fui eu que imaginei um braço de ferro nos bastidores da arena política entre um resoluto Presidente da República em defesa de um Ministério Público independente e António Costa refém da ressentida oligarquia socialista determinada ao despedimento da Procuradora – quem se mete com o PS leva. Fantasias, certamente.
A coisa faz-me lembrar uma história que se conta na minha família sobre um nosso parente adolescente muito malcriado, chamemos-lhe menino Zequinha e da sua mãe, uma empertigada senhora de sociedade, chamemos-lhe Dona Hermengarda, que um dia num distinto almoço que oferecia em casa foi confrontada pelo infante que para abandonar a mesa a meio da refeição e ir ter com os amigos pegou na faca para cortar uma fatia dum imponente bolo da sobremesa, gesto que a Dona Hermengarda peremptória o interditou: “se o menino quer comer o bolo, fica para a sobremesa”. O jovem dirigia-se lentamente para o bolo e a senhora sua mãe de novo o interpelou: “não corte o bolo!!”. O menino Zequinha indiferente ia aproximando a faca do bolo e a Dona Hermengarda, perante os comensais atónitos, atrapalhada exclamou mais alto, “menino Zequinha, obedeça à sua mãe, ou fica para a sobremesa ou não come o bolo!”. Ao mesmo tempo, desafiando a autoridade da sua mãe, o menino Zequinha, arrogante, ia chegando a faca ao bolo, o que fez que a Dona Hermengarda, aumentasse o tom da sua voz para ordenar quase em desespero “não corte o bolo!!!”, até que, ao mesmo tempo que o marmanjo insolente espetou a faca no bolo a Dona Hermengarda para não perder a face gritou para que todos os convidados ouvissem, “corte lá uma fatia de bolo, é uma ordem da sua mãe!!!” 

É mais ou menos nestes moldes que eu imagino que nos últimos meses tenham decorrido as “negociações” até à passada quinta-feira em que o magnânimo Marcelo deu a bênção à nomeação de Lucília Gago. Fantasia minha, certamente.

 

Foto Lusa

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30%

por henrique pereira dos santos, em 21.09.18

Raramente me entretenho com cenários do futuro, mesmo sendo eu uma pessoa do planeamento e do ordenamento do território, que entendo como disciplinas que visam manter abertas, o mais possível, as possibilidades do futuro, ao contrário da esmagadora maioria dos meus colegas, que querem, em cada plano, reduzir as possibilidades do futuro.

Dei por mim a ler este artigo de Passos Coelho, e a pensar que as notícias sobre a sua morte política me parecem manifestamente exageradas.

A coisa parece-me clara: Passos Coelho deu o tiro de partida das próximas presidenciais, em que tenciona afrontar Marcelo, sabendo que 30% é um resultado que lhe abre as portas para a eleição seguinte.

Passos sabe que são muito poucos os políticos que uma boa parte do eleitorado (no seu caso, entre 40 e 50%) caracteriza espontaneamente como "uma pessoa decente" e sabe que isso o distingue, manifestamente, de Costa e Marcelo.

30% contra a expectativa de um resultado esmagador de Marcelo é uma boa rampa de lançamento para a eleição seguinte.

Mas sabe também que, com um bocado de audácia, de sorte e de desgaste de Marcelo (e a história de Marques Vidal em cima da história de Pedrógão tem um efeito corrosivo que não vale a pena tentar esconder), pode chegar aos 35%, que somam aos 15% das carinhas larocas do BE e PC, mais 2% de candidatos desalinhados, o que faria Marcelo sofrer a humilhação de ir a uma segunda volta, mesmo que a ganhasse, como é de esperar, folgadamente.

Como de costume as elites desvalorizam esta gente sem pedigree, como fizeram com Cavaco.

Mas os resultados dessa cegueira, no caso de Cavaco, falam por si.

E Passos sabe disso.

 

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Da Joana

por João Távora, em 21.09.18

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O propósito da geringonça protegida e até liderada por Marcelo Rebelo de Sousa, amigo de longa data de Ricardo Salgado, é esconder e impedir. O propósito é esconder o verdadeiro estado do país e impedir um verdadeiro recontro jurídico com o passado. O propósito é evitar que se reforme o SNS ou o Metro, entre outras coisas, e impedir que se investigue a fundo a CGD, a TAP, o socratismo, o BES, esse caso que o “Marcelo comentador” comentava através da lente do amigo.

A geringonça que expulsou Passos, porque tinha (e tem) medo do seu reformismo, é a mesma geringonça que agora expulsa Joana Marques Vidal, porque tem medo das investigações em curso
Se o propósito é impedir e esconder, Joana Marques Vidal era uma adversária tão ou mais poderosa do que Passos Coelho. Estava escrito: a geringonça que expulsou Passos, porque tinha (e tem) medo do seu reformismo, é a mesma geringonça que agora expulsa Joana Marques Vidal, porque tem medo das investigações em curso. É só isto. Nem por acaso, Joana Marques Vidal foi logo atacada pelo ministro-sombra de Costa, Rui Rio, que se juntou desde o início ao coro liderado pelo PS e por Costa.
António Costa, político do PS e ministro do socratismo, não podia gostar de Joana Marques Vidal. Quem se mete com o PS leva! Há dias, aqui no Expresso, Luís Marques mencionou as pressões de que Souto Moura foi alvo devido ao processo Casa Pia, que acabou por envolver figuras do PS. Um dia saberemos. O certo é que, depois de Souto Moura, o PS colocou na Procuradoria uma comédia. É este mesmo PS que agora recusa reconduzir a única procuradora que nos deu a sensação de vivermos numa democracia a sério, onde os poderosos não estão acima da lei. Guardião dos interesses das clientelas eleitorais que não querem as reformas, o PS julga-se acima da lei, julga-se acima do bem e do mal. Marcelo, amigo de Salgado, é conivente.
De repente, o fedor dos anos socráticos voltou.

 

Henrique Raposo no Expresso Diário

 

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Assuntos candentes

por João Távora, em 20.09.18

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Agora a Rua Sésamo veio negar esse disparate do Egas e o Becas serem um casal, esclarecendo que são apenas dois bonecos consequentemente sem vida sexual. Em 2018 andamos nisto. Ao menos na Idade Média a bizantina discussão do sexo dos anjos era um pouco mais elevada. 

Entretanto na Assembleia da República os deputados preparam-se para discutir a proibição da caça ao Saca Rabos.

Ora digam lá se isto não anda tudo ligado?

 
 
 
 

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Trapos (2)

por João Távora, em 18.09.18

Ainda a propósito desse assunto sério que são os trapos: só daqui a umas décadas é que teremos a verdadeira noção do ridículo destas fatiotas "slim", com calças curtas coladinhas à perna que agora vestem alguns executivos mais "in". Digo eu que morro de vergonha alheia quando revejo as séries da moda dos anos 80. Onde é que andávamos com a cabeça?

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Trapos (1)

por João Távora, em 18.09.18

Então já percebi: os mesmos que por aí andam a proclamar que a roupa que se usa é simplesmente só roupa, que o protocolo é coisa fútil, vêm depois afirmar que António Costa fez muito bem levar calças de ganga porque Estado Português vem sendo miseravelmente tratado pelo governo de Angola e porque o 1º ministro à chegada ao aeroporto de Luanda foi recebido por um mero Ministro dos Negócios Estrangeiros. Afinal a escolha do traje usado tem significado ou não?

 

PS.: E vá lá, vá lá, o botão do blazer apertar já foi uma sorte.

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Domingo

por João Távora, em 16.09.18

Leitura da Epístola de São Tiago

 

Irmãos: De que serve a alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Poderá essa fé obter-lhe a salvação? Se um irmão ou uma irmã não tiverem que vestir e lhes faltar o alimento de cada dia, e um de vós lhes disser: «Ide em paz. Aquecei-vos bem e saciai-vos», sem lhes dar o necessário para o corpo, de que lhes servem as vossas palavras? Assim também a fé sem obras está completamente morta. Mas dirá alguém: «Tu tens a fé e eu tenho as obras». Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé.

 

Palavra do Senhor.

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Não cabem todos do mesmo lado...

por João Távora, em 14.09.18

É irónico como apesar do esforço de Rui Rio se colar ao "socialismo", hoje o Bloco de Esquerda e o PCP vieram perorar alto e bom som contra a "intenção do PSD privatizar o SNS" (é mentira, claro). Mas é bem feito: não serve de nada ao Rui Rio a tentativa de agradar a Gregos e Troianos. O centro esquerda está definitivamente sobrepovoado de vendedores de banha da cobra.

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Metamorfose de Narciso - Salvador Dali.jpg

Expulsa do Éden, a humanidade tornou-se escrava dos elementos, receosa da criação, desconfiada do seu olhar. O homem ganhara consciência de si, prenúncio de uma tragédia. Com o tempo, foi aprendendo (e obrigado) a olhar à sua volta, a interpretar o Mundo e assim defender-se da sua violência, iludindo a precariedade. Olhando para fora identificou as ameaças mas descobriu a Beleza onde se esconde Deus. Seduzido pelo seu reflexo, assim foi progressivamente fortificando a ideia de individualidade que o olhar de Cristo consolidou na noção de Livre Arbítrio (vontade) e na consciência da sua singularidade de criatura divinal e dramática. Esse percurso é reflectido nas artes, da literatura à pintura, passando pela música; do formalismo à exacerbação do filtro das paixões, desejos e frustrações, da genialidade com que o artista foi submetendo a realidade à sua recriação. Daí ao auto-convencimento da supremacia do seu olhar sobre a realidade em si mesma, fixado na sua auto-suficiência, o “eu” arvorou-se no fim e o princípio de todas as coisas e até a beleza caiu em desuso. Não interessa mais o que são as coisas, mas como cada um as sente, e vai aonde te leva o coração. Assim, o individuo desliga-se dos outros e da História, descarta o compromisso por troca com o efémero, todos filhos únicos, geração espontânea,  tudo é relativo, sensações, uma pedrada, uma “experiência”, um estado de espírito, o amor-próprio e outras balelas, uma "assinatura" esborratada num monumento, “ó Leonilde is lôve”, que a Arte é um direito de todos como a opinião. 

Aqui chegados, tornámo-nos todos narcisos definhando estéreis à beira do rio que flui indiferente, embevecidos (ou acabrunhados) com o próprio reflexo, que a vida são só dois dias e amanhã é o fim do mundo.

 

Imagem: Metamorfose de Narciso, Salvador Dali 

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Já aqui há dias, Vera Barros Gouveia, lúcida e sensatamente como é seu costume, explicava: "Quando se fala em tabelar o preço de venda e de arrendamento das casas está-se, imagino eu, a pensar em impor um limite que seja inferior ao preço normalmente praticado (para ser mais alto não valia a pena). Ora, isso significa que a quantidade que era oferecida acima desse tecto desaparece do mercado, até porque os imóveis não são bens que pereçam facilmente, logo é fácil guardá-los para vender em altura mais favorável".

O mesmo artigo, aliás, cita uma observação judiciosa de Fernanda Câncio: "ao deliberarem intervir no mercado do arrendamento no sentido de o tornar cada vez mais penalizador para os proprietários estão a certificar que cada vez menos gente – mesmo no BE, ahah – queira investir nele ou nele permanecer".

João Pires da Cruz também lembra que o chão não produz (no sentido económico do termo), o que produz é o trabalho que se faz nesse chão: "na realidade, o espaço não vale absolutamente nada tirando aquilo para o qual as pessoas o usam".

Claro que há sempre umas pessoas que acham que "aqueles que andam a provocar preços especulativos paguem um imposto superior àqueles que não o fazem" porque, provavelmente, acham que os preços do espaço sobem por vontade dos vendedores e da sua ambição em ficar ricos depressa.

Ora o que me interessa é que escusam de testar nos centros urbanos o que é facilmente demonstrável no mundo rural.

Um amigo meu, respondendo ao argumento frequente de que os fogos se justificam com os negócios da madeira queimada, argumentando que os madeireiros ganham muito em comprar a madeira mais barata, depois de um fogo, lembrava, bem, que compram a madeira mais barata pelo simples facto de valer menos, tal como uma casa que ardeu tem um preço mais baixo que uma casa intacta porque o fogo a fez perder valor.

O que está a acontecer há muitos anos, no mundo rural, é que o valor económicos das terras marginais (que existia enquanto o mato tinha valor, fosse para aquecimento, para estrume ou para pastoreio) tem vindo a baixar na medida em que os usos que poderiam ser feitos nessas terras deixam de ser usos competitivos (o pastoreio não paga assim tanto, a madeira de pinho tem perdido valor relativo à medida que o preço dos factores de produção sobem, o que é agravado pelo risco de fogo, a resina esteve pelas ruas da amargura e ainda não é uma actividade assim tão interessante, os produtores de eucalipto queixam-se do preço pago pela indústria, e a indústria argumenta com o preço do mercado internacional de matéria prima, etc.).

Mas, como lembra Vera Barros Gouveia, os terrenos não bens que pereçam facilmente, e portanto podem ser guardados para melhores dias, já que agora não há quem os queira comprar a preços que interessem aos seus proprietários porque o que lá se pode fazer não paga preços mais interessantes.

Como lembra Fernanda Câncio, as medidas que penalizam os proprietários apenas asseguram que cada vez menos gente queira investir ou permanecer neste mercado.

Ou seja, o chão deixa de ter valor, como diz João Pires da Cruz mas, estranhamente, os especuladores capazes de produzir preços especulativos capazes de os tornar instantaneamente milionários, não aparecem e preferem actuar em mercados muito mais arrsicados e povoados de gente, como o do imobiliários dos centros históricos de Lisboa e Porto.

O resultado final é que sem valor económico o destino do chão é o abandono.

Já foi assim nos centros históricos de Lisboa e Porto, tendo como consequência o despovoamento e a ruína dominantes não há muitos anos, com gente pobre mas muito típica, que não tinha recursos para procurar casas com condições mínimas de habitalidade e, por isso, continuava ali, no meio das ruínas, porque era aquilo que o seu rendimento permitia pagar para estar perto do seu trabalho.

É assim em grande parte do mundo rural, com a diferença de que não havendo pessoas não há actividade económica, não havendo actividade económica não há trabalho e as pessoas foram-se embora, deixando os terrenos sem gestão.

O mais extraordinário é que enquanto a discussão nos centros urbanos é uma discussão económica entre os que acham que os preços são um equilíbrio entre oferta e procura e os que acham que há especuladores que provocam preços especulativos comprando e vendendo rapidamente, a discussão sobre o mundo rural é sobre coimas, obrigações e o mau carácter dos proprietários ou, na melhor das hipóteses, sobre os amanhãs que cantariam se se resolvessem os problemas de propriedade, de associativismo, de capacidade técnica, etc..

Os negócios do fogo, de que muitos falam, são iguais aos negócios do alojamento local: ou há procura, rendimento, investimento, valor económico, e os proprietários ficam felizes por ter na sua mão um património que lhes resolve a vida e paga os estudos dos filhos, ou não há procura, não há rendimento, não há investimento, não há valor económico e é preciso ir tratar da vidinha para outro lado.

Robles especulou em Lisboa (felizmente para ele e para todos nós) mas o BE pode estar descansado: nas actuais circunstâncias, não há o menor risco de ter vereadores ou dirigentes a fazer especulação com terrenos rurais marginais, infelizmente para esses vereadores, dirigentes e para todos nós.

A verdade é que ainda não perdi a esperança de ver a discussão sobre fogos (dos que têm chama) ser feita na mesma base da discussão sobre fogos (dos que têm rendas), isto é, numa base económica minimamente sensata.

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 Rui Rio não é apenas um político medíocre. É um político com propostas e convicções empobrecedoras. Posso dizer isto do alto da insignificância do meu voto singular. Mas posso também esperar e desejar (e espero e desejo veementemente) que este homem -- que como líder do PSD já demonstrou em poucos meses mais nojo à iniciativa privada do que o Bloco e mais avidez de novos impostos do que o PS -- consiga o pior resultado de sempre do PSD nas legislativas. Desejo-lhe um desastre eleitoral. Desejo-lhe com inteira sinceridade um resultado vergonhoso, para ele e para o seu partido. Desejo-lhe uma morte política o mais humilhante possível. E a quem o escolheu como líder.

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Da lagosta e da mais valia

por henrique pereira dos santos, em 11.09.18

Uma das minhas filhas, quando estava a acabar o curso, andava à procura de uma organização para fazer um voluntariado relacionado com micro-crédito.

Essa minha filha e uns amigos acharam que não havia nenhuma organização suficientemente atractiva e resolveram fundar eles próprios uma organização e desenvolver um projecto na Ilha de Moambique que, nessa altura, era mais que paupérrima e ainda não estava a beneficiar do turismo actual.

A organização cresceu, mas na altura era muito pequenina e duas das minhas filhas bem como dois dos meus sobrinhos estiveram nos programas iniciais (na altura eram poucos os candidatos a passar uns meses no fim do mundo a ajudar pessoas a serem menos pobres), o que me fez ficar com uma boa colecção de histórias, porque são todos diferentes uns dos outros (embora todos, ao fim de algum tempo, estivessem fartos de camarão e lagosta e suspirassem por poder ir a um Mc Donalds).

Uma das histórias mais interessantes, porque ilustra muito bem as dificuldades das diferenças culturais associadas à ajuda ao desenvolvimento, era a de um empreendedor que costumava comprar produtos na ilha e ia vender mais longe, no continente, nunca percebendo por que razão o negócio não prosperava. Foi a equipa do projecto que finalmente descobriu o problema: ele vendia os produtos exactamente pelo preço que os comprava, visto que era o valor que achava justo.

Lembrei-me desta história quando ouvi hoje um político que, seguramente, teria o voto deste homem, se votasse em Portugal: "uma coisa é comprarmos e mantermos durante ‘x’ tempo e outra coisa é andarmos a comprar e a vender todos os dias só para gerar uma mais-valia meramente artificial".

O problema é ter a sensação de que há muito mais gente do que eu gostaria que olha para a mais-valia da mesma maneira.

Serão muito menos os que, coerentemente, chegam ao corolário desta visão sobre a mais valia: "propriedade é roubo".

Mas todos juntos ajudam a explicar por que razão temos tanta dificuldade em sermos um país um bocadinho mais rico.

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Objectivos e medidas

por henrique pereira dos santos, em 10.09.18

Joaquim Miranda Sarmento tem hoje um bom artigo no ECO, sobre um assunto que me interessa: mobilidade sustentável (na verdade o artigo não é sobre isso, mas há uma ligação estreita entre o artigo e esse assunto).

O que me interessa realçar é a distinção entre os méritos de um objectivo e os méritos das medidas para o atingir.

No caso concreto das medidas sobre os transportes públicos de Lisboa, não basta que haja vantagem em ter os preços mais baixos possível para concorrer com outros meios de transporte que têm externalidades negativas maiores, o que interessa é saber a resposta a esta pergunta fundamental: "Seria preferivel usar os 65M€ que dizem que a medida custa na melhoria da oferta e ou na redução do preço?"

O mesmo tipo de questões se põe, por exemplo, para a avaliação da proposta do BE que consiste em criar uma taxa sobre transacões imobiliárias de curto prazo, supostamente para combater a especulação e os altos preços das casas em Lisboa e Porto. Por mim, não vejo grande problema na especulação, mas percebo as dificuldades que preços definidos a partir do mercado internacional possam criar a quem tem rendimentos baixos, como os portugueses. O que não entendo é como quer o BE fazer baixar preços de casas aumentando os custos de transação e diminuindo a oferta.

Também eu, a propósito, por exemplo, dos sapadores florestais, tenho insistido que a sociedade poderia obter muito melhores resultados com o mesmo dinheiro se em vez de subsidiar equipas de sapadores, apoiasse as fileiras económicas que podem fazer a gestão de combustíveis. Isso não é ser contra os sapadores ou desconsiderar o seu trabalho, é apenas chamar a atenção para a definição de objectivos associados às equipas de sapadores: se existem para apoiar a gestão florestal, isso é uma coisa e nesse caso os sapadores deveriam estar todos afectos aos produtores florestais e às suas organizações. Se o objectivo é a gestão do fogo, então há maneiras muito mais baratas para obter resultados muito melhores.

Em todos estes casos, e muitos outros, ser contra medidas concretas não significa ser contra os objectivos pretendidos por quem defende essas medidas concretas, muitas vezes significa apenas que se entende que as medidas propostas são erradas para os objectivos pretendidos ou que há medidas mais eficientes para obter os mesmos resultados.

O estranho disto é a dificuldade de, com frequência, separarmos os objectivos das medidas, discutir primeiro os objectivos pretendidos e, uma vez fechada essa discussão, discutir as medidas concretas para chegar a esse objectivo, havendo uma radicalização imediata: quem é contra as medidas é contra o objectivo (e isso explica-se porque se tem interesses inconfessáveis) e, rapidamente, passa-se para a desqualificação de quem se limita a pensar coisas diferentes.

Que façamos isto num blog, em redes sociais, na tasca, não é grave, é da natureza das coisas, mas que na imprensa seja em grande parte assim que se estruturam as discussões sobre medidas de política, isso sim, já é mau jornalismo: não me lembro de ouvir um único jornalista perguntar a Catarina Martins como quer diminuir preços reduzindo a oferta.

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Domingo

por João Távora, em 09.09.18

Leitura da Epístola de São Tiago 


Irmãos: A fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Pode acontecer que na vossa assembleia entre um homem bem vestido e com anéis de ouro e entre também um pobre e mal vestido; talvez olheis para o homem bem vestido e lhe digais: «Tu, senta-te aqui em bom lugar», e ao pobre: «Tu, fica aí de pé», ou então: «Senta-te aí, abaixo do estrado dos meus pés». Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios? Escutai, meus caríssimos irmãos: Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam? 

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Onde anda a inteligência?

por João Távora, em 07.09.18

A coisa que mais me irrita são aquelas pessoas com opiniões redondinhas, editorial do Expresso, maioritárias, equilibristas, não me comprometas.
A segunda coisa que mais me irrita são as pessoas com opiniões berrantes, insensatas, irrealistas e inconsequentes, só para serem diferentes.
Isto não é nada fácil.

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Esqueci-me de vos contar, mas esta manhã no carro ouvi inadvertidamente num noticiário da TSF que um colectivo do Supremo Tribunal Indiano revogara uma lei que proibia a homossexualidade... herdada do Império Britânico. De facto a hedionda pegada da colonização é um jugo difícil de debelar, mesmo pelas mais superiores civilizações.

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Transportes e concessões

por henrique pereira dos santos, em 06.09.18

A recente proposta de Medina não nasceu recentemente e por isso talvez valha a pena olhar para a sua genealogia.

Até à chegada da troica Portugal tinha um problema seriíssimo com as suas empresas públicas de transportes, com um serviço medíocre, prejuízos operacionais imensos, dívidas colossais, mantidas artificialmente fora do perímetro de consolidação do défice do Estado e um peso dos sindicatos que simplesmente mantinham as gestões reféns da agenda política do PC.

Durante o governo de coligação troica/ Passos Coelho, esta situação foi muito alterada: o serviço continou no mesmo patamar de mediocridade, aqui e ali diminuiu o serviço prestado mas sem por em causa o essencial do serviço publico, foi atingido o equilíbrio operacional e começou-se a resolver o enorme problema da dívida, primeiro estancando o seu crescimento, depois, mais lentamente do que eu gostaria, foi-se começando a diminuir a dívida e a capitalizar as empresas.

Isto foi possível porque foram cortados rendimentos aos trabalhadores destas empresas, para além das melhorias de eficiência, nomeadamente com o fecho de serviços ruinosos.

Para além disto, o tal governo de coligação, fez a concessão dos serviços de transportes públicos de Lisboa e Porto, através de concursos internacionais, o que o PC e os sindicatos entenderam, aliás bem, como um golpe fortíssimo na sua capacidade para influenciar as políticas do país e manter a sua influência social através da manipulação política das greves no sector dos transportes, o último grande reduto (a par do ensino, mas neste caso com menos impacto social) da actividade sindical controlada pelo PC.

A então oposição e actual governo, estrebucharam o que puderam e prometeram, cumprindo, reverter a concessão dos transportes, que acusavam de estar mal feita, não garantir a melhoria do serviço prestado e essas coisas do costume. Davam até como exemplo a Fertagus, uma concessão caríssima, segundo dizem, ao contrário do que está expresso na avaliação dessa concessão. E em relação ao Metro do Porto conseguiram convencer (olá jornalistas preguiçosos) uma boa parte da opinião pública de que se estava a fazer uma concessão que alterava alguma coisa, como se o Metro do Porto não tivesse sido, desde o primeiro momento, uma concessão.

Para fazer esta reversão, o Estado central assumiu a dívida da Carris (o que é razoavelmente pacífico) e, num processo nebuloso (ao contrário dos processos transparentes de concessão a que a Câmara Municipal poderia ter concorrido se quisesse), entregou a gestão da Carris à Câmara de Lisboa, que prometeu revolucionar o serviço prestado, melhorando-o substancialmente, sem custos para os contribuintes de todo o país e assentando nos recursos próprios da Câmara Municipal.

O resultado é, até agora, deprimente.

O serviço tem estado numa degradação rápida, o Governo central, de forma muito pouco transparente, tem estado a financiar o investimento, nomeadamente em novos autocarros, através do Fundo de Carbono (e, com isso, ficando sem dinheiro para pagar os serviços de ecossistema que nos poderiam fazer ganhar controlo sobre o fogo e aumentar a riqueza criada nos territórios marginais do país) mas, como era de esperar, o dinheiro continua a ser curto para a operação, tanto mais que foram tomadas um conjunto de medidas demagógicas que aumentam o custo operacional, sem tradução em aumento de receita.

A proposta agora feita por Medina é simplesmente a forma engenhosa (em bom português, uma esperteza saloia) para voltar a ter o Estado central, quer dizer, os contribuintes de todo o país, a subsidiar a operação da Carris, através de uma medida de suposto interesse social e reforço do transporte público, como é a subsidiação dos passes sociais.

É isto que está em causa, é fechar o ciclo da reversão das concessões com a subsidiação da operação da Carris por parte de todos os contribuintes, o resto é fogo de artifício.

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