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Há esperança na academia

por henrique pereira dos santos, em 03.03.21

Há dias foi a ligeira polémica desencadeada sobre uma investigação sobre a PIDE, que pôs nervosos os que se consideram donos da investigação sobre a PIDE.

Hoje li este artigo, de Nuno Palma e Jaime Reis, muito interessante, em que se discutem as razões para o sucesso da escolarização durante a primeira fase do Estado Novo, por comparação com o insucesso da primeira República no mesmo tema.

Esta ideia, por exemplo, é muito interessante e, pelo menos a mim, dá-me esperança de que as tentativas de engenharia social através da escola tenham pouca sustentabilidade, a prazo:

"The Estado Novo's ideology was undoubtedly more closely aligned with the culture of the population than had been the case under the Republic. Our view is that this led to an increase in culture-driven demand for education under the Estado Novo. The Republic had strongly promoted secularization and other values looked at with suspicion by the masses, while the Estado Novo was seen as a pro- catholic regime. This allowed parents to worry less about the perceived indoctrination effects of sending their children to school. The main ideologue behind the Republic's educational practices, J. de Barros, wrote that “The Republic liberated the Portuguese child, eliminating the Jesuit influence" (our translation, cited in Marques 1991, p.527). For the republican elites, secularization did not mean only separation of state and church but even the takeover of the church by the state; the state would administer the church while destroying its internal hierarchy (Ramos2001; Ramos et al.2009, pp.586-7). Throughout the country, priest stook the opportunity to communicate their anger in their parishes. The Republic banned crucifixes from the walls of the school, while the Estado Novo put them back, along with the slogan “God, Fatherland, Family: The Trilogy of National Education"(Rosas1992)".

Aparentemente, nem mesmo nas ciências sociais se conseguiu capturar toda a academia para as campanhas das identidades politicamente correctas, e ainda há em quem gaste o seu tempo simplesmente a estudar e a dizer o que viu pelo caminho.

Quando o Estado perde a voz

por Jose Miguel Roque Martins, em 03.03.21

A entrevista que Susana Peralta deu, em que advogou um Imposto extraordinário a quem não perdeu rendimentos com a pandemia, criou uma onda de choque e até revolta.

Olhemos um pouco para os factos. A pandemia e as suas consequências económicas , foram muito mal distribuídas pela sociedade. Por sectores e pessoas.

A maioria dos indivíduos, felizmente, não sofreu com a pandemia. Mas muitos perderam rendimento e o seu trabalho. E parte deles, os precários, nem recebem prestações sociais de apoio, nem podem trabalhar.

Assim acontece porque o Estado, mais do que por não querer, foi impotente para responder a essa catástrofe. Numa sociedade que se pretenda mais equilibrada, a proposta de Susana Peralta faz sentido: tirar um pouco a quem não sofreu, para compensar parte das perdas dos atingidos pela crise.

Mas não é só nesse aspecto que um imposto deste tipo faz sentido. A coesão social e a resposta à pandemia seria seguramente diferente se todos enfrentassem a mesma realidade. 

Se todos fossem afectados pelo combate à pandemia, seguramente não haveria dois grupos tão distantes nos seus protestos. Necessariamente afectados e extremados, pelos que  sofrem e por quem não sofre economicamente com a pandemia. Ficar encerrado no Palácio de Belém é diferente do que ficar preso num barraco. Deixar de comer, é pior do que adiar uma férias.

Mas no final, para diferentes realidades correspondem escolhas  diferentes. Para no final, termos a exploração das minorias pelas maiorias.

Um dos pressupostos do funcionamento da economia de mercado, a de que as pessoas agem racionalmente no seu interesse egoísta, é uma realidade que se manifesta nesta situação. Cada um, em função das suas circunstancias, tem um incentivo em preferir mais ou menos confinamento. Mais ou menos risco. Tal como acontece numa  economia de mercado ( não a nossa....),  ocasionalmente,  há a necessidade de regulação por parte do Estado, de forma a evitar abusos e desvios.  Tal como na Economia, o Estado na pandemia, impõe tudo e mais alguma coisa a todos.  Mas perde a voz quando estamos a falar do mais poderoso dos grupos , a maioria dos votantes.

 

 

 

Rui Bizâncio Tavares

por henrique pereira dos santos, em 03.03.21

Com a situação do ano escolar como está, ao ponto de haver uma "posição conjunta, a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), a direção do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos e a Comissão Nacional da Saúde Materna, da Criança e do Adolescente, consideram urgente que os decisores equacionem a reabertura das escolas e a integração das crianças em atividades adequadas às suas reais necessidades.", o que é que Rui Tavares acha fundamental?

Discutir a forma como o 12º ano deve contribuir para resolver os problemas causados pelos paranóicos que querem manter as escolas fechadas sem qualquer justificação.

A Rui Bizâncio Tavares, e a todos os outros que continuam a "querer matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem" eu sugiro uma coisa simples: humildade, humildade e humildade, para perceber isto:

"It is at least plausible that Ferguson and his colleagues and friends may suffer from limitations similar to those of the wildlife managers referred to by Professor Freeman. Even if they live in physical proximity to those for whom they make the rules, their lived-world experience of academia and modelling, of guaranteed income and middle-class comfort is as distant from those who suffer most from lockdowns as the managers were from the Inuit hunters. High status scientists advising the Government lack the lived experience of struggling for a living, of coping with young children in cramped accommodation without outside space for months on end, and of trying to educate children whilst lacking further education oneself.

It would be hard to accept that scientific measurements, however careful or accurate, are not fit for the task they appear to have addressed. It would require great courage to acknowledge that the projections generated by “the science” are misleading and counter-productive because they cannot capture crucial yet immeasurable existential elements".

Um copo meio cheio

por Jose Miguel Roque Martins, em 03.03.21

Há já muitas décadas, apercebi-me que as noticias que lia nos jornais sobre assuntos que conhecia bem, eram normalmente erradas. O que me levou a concluir que, provavelmente, as noticias sobre assuntos por mim desconhecidos, também não eram grande coisa.

Para todos os que sejam minimamente exigentes, independentemente das suas convicções, um assunto tão mediático e importante como a pandemia, não deixa de tornar evidente que os erros cometidos são enormes. Imagine-se, agora, o que se passa em temas obscuros e menos importantes!

É claro, com estes exemplos, que vivemos num mundo de desperdício e abaixo do óptimo ou até do razoável.

Para além da óbvia indignação pelo espectáculo da ineficiência de todos os dias,  devemos lembrar-mo nos que ela não é uma inevitabilidade. E que , nada mais mudando, apenas a sua correcção, é capaz de aumentar a riqueza da sociedade de forma substancial. Não é por acaso que estamos cada vez mais longe dos países mais ricos da Europa. Os outros não são perfeitos, mas são melhores do que nós.

O espaço para viver melhor é imenso. Bastará ter menos e melhor Estado e mais liberdade individual, O copo está meio cheio. Só falta encher.

Catarina Martins clama com o desconto na segurança de 80% no acréscimo provocado pelo aumento do salário mínimo nas contribuições das empresas.

Fica claro que não é o aumento dos salários mínimos, aliás um disparate, que importa. É o aumento do custo das empresas que mobiliza a esquerda radical, pelo menos daquelas que, milagre odioso, ainda têm lucros. O modelo económico do bloco, tal como a verdade, vem sempre ao de cima. O lucro é pecado. O Estado tem que ajudar e consequentemente controlar a actividade económica. Que sem lucros ou viabilidade, continua a ser privada apenas no nome. A colectivização surge de outra forma. 

O salário mínimo, mesmo o actual,  é de facto baixo. Mas está demasiado alto para conseguirmos o pleno emprego. Porque não, em vez de gastar recursos em projectos incompreensíveis, não complementar o vencimento de quem ganhe menos, com uma ajuda social? Ao mercado o que é do mercado, ao apoio social o que é social. Para quê complicar e empobrecer?

Se fossemos todos FPs já não eram precisos CCs

por José Mendonça da Cruz, em 01.03.21

Um Cartão de Cidadão caducava em Outubro de 2020, mas não haja problema, foi prorrogado até Março de 2021. E fica agendado atendimento presencial para entretanto. Mas o atendimento presencial foi cancelado. Os funcionários públicos não podem arriscar infecções indo trabalhar, ainda que o governo socialista garanta que o vírus não infecta ninguém em autocarros, comboios, barcos e Metro. Já no trabalho do funcionalismo, sim, afecta. Mas o cidadão não se amofine, o cidadão pode «solicitar» renovação online, para levantamento oportuno. E, sendo que o cidadão «solicita», o funcionalismo informa que o cidadão pode levantar o seu CC em Julho, daqui a 5 meses apenas. Entretanto, o cidadão deve imprimir o comprovativo enviado em anexo, e fazer-se acompanhar dele em todas as circunstâncias. Durante meio ano.

Ora, há quem critique o dr. Costa e considere excessivo que ele tenha contratado mais 19.792 funcionários públicos desde 31 de dezembro de 2019, assim «revertendo» ao mesmo número total de funcionários públicos da magnífica gestão de Sócrates. Afinal, não. A julgar pelo exemplo acima, eles são ainda poucos. O dr. Costa deve contratar o triplo. E deve contratar só socialistas, não vá alguma alma independente prejudicar o delicado equilíbrio, a visível organização e gestão, e a patente competência geral disso que agora existe. 

 

Outra vez a informação

por henrique pereira dos santos, em 01.03.21

Na sequência do meu post anterior chamaram-me a atenção para alguns aspectos que me deixaram ainda mais baralhado quanto à forma como tratamos a informação, o que é especialmente relevante em processos com elevada incerteza.

Aparentemente haverá algumas discrepânceas de informação sobre o Instituto Ricardo Jorge e a DGS no registo da incidência. Daí não vem mal ao mundo, mas a discussão sobre essas divergências, que nos permitiria perceber melhor os gráficos que uns e outros apresentam, só pode fazer-se com bonecos porque os dados não são disponibilizados e as diferentes opções para os tratar não são o cerne da discussão que permita interpretar a realidade.

A colocação do pico a 18 (Ricardo Jorge) ou a 26 (DGS) não sendo tão relevante como poderia parecer (o que interessa verdadeiramente é o momento em que a tendência de crescimento quebra, e isso é claramente por volta de 18, nos dois gráficos, tanto quanto consigo ver), é ainda assim uma base essencial para se poder avaliar o que se passou em Janeiro.

Importa, em especial, sabermos se a evolução de Janeiro decorreu de contactos no fim de Dezembro - situação que permite discutir o papel dos confinamentos com alguma substância - ou se decorreu de um conjunto de circunstâncias excepcionais, em que a meteorologia tem um grande peso - situação em que o fecho de escolas é uma medida completamente desproporcional.

Quando os dados são escassos e imperfeitos, é preciso ser cauteloso e quaisquer interpretações possíveis devem ser validadas pela verificação de factos que permitam validar as interpretações feitas.

Vou recorrer de novo a Henrique Oliveira para dar um novo exemplo de como o excesso de reverência perante os argumentos de autoridade é um problema profundo em Portugal e nos impede de optimizar socialmente as políticas públicas.

Henrique Oliveira foi chamado pela Assembleia da República na qualidade de especialista neste epidemia.

E como se pode ver aqui, a partir da uma hora e um minuto, faz uma afirmação extraordinária nas suas implicações sociais e políticas, se for verdadeira, claro.

Henrique Oliveira verifica um aumento de letalidade da covid na primeira metade de Janeiro e, sem pestanejar, atribui esse aumento às diculdades de acesso a cuidados de saúde. A ser assim, grande parte da mortalidade exepcional de Janeiro dever-se-ia ao colapso dos serviços de saúde, com o que isso representaria de responsabilidade política.

A mim parece-me normal que se faça todo o esforço para verificar a hipótese levantada a partir da verificação do aumento da letalidade. O aumento da letalidade é inequívoco, a explicação para esse aumento é que não pode ser leviana e tem de se ser verificada, tanto quanto possível, até porque não é uma hipótese absurda.

O estranho é que quase ninguém se entretenha a verificar a hipótese com base em factos objectivos.

1) A letalidade sobe muito no início de Janeiro e começa a descer antes do meio de Janeiro, e os problemas de sobrecarga do sistema de saúde foram maiores na segunda metade de Janeiro. Henrique Oliveira atribui isso ao facto de se ter conseguido expandir a capacidade hospitalar de forma a dar resposta à pressão, o que manifestamente é incompatível com o facto da maior pressão ter sido na segunda quinzena de Janeiro, primeira semana de Fevereiro;

2) A ser verdadeira a hipótese, ter-se-ia verificado uma falência brutal do sistema de saúde, ao ponto de terem ficado por atender um número muito elevado de doentes, suficiente para ter havido o dobro da mortalidade normal e ter aumentado a letalidade da doença. Não há nada que aponte nesse sentido, pressão sim, e muita, ausência de capacidade para prestar cuidados de saúde, não conheço nenhum dado objectivo que o demonstre.

3) Acresce que Henrique Oliveira mostra uma sincronização quase perfeita das curvas da letalidade nas diferentes regiões, quando não existe qualquer sincronia na pressão sobre os hospitais nas diferentes regiões;

4) De resto, procurando explicar diferenças regionais de letalidade (diferenças no valor dessa letalidade, não diferenças na sincronização temporal da variação que se verifica num período concreto), Henrique Oliveira vai procurar outras razões que não a que elegeu como razão única para explicar o aumento geral da letalidade na primeira quinzena de Janeiro;

5) Note-se que ao verificar que as hospitalizações gerais aumentaram mais que as hospitalizações em cuidados intensivos, um indicador que reconhecidamente quer dizer que os cuidados intensivos estão no limite, mas não quer dizer que há gente a morrer por isso, ou a não ser adequadamente tratada (ver a ligação do Observador acima), Henrique Oliveira faz uma ligação directa para o aumento de letalidade, mas olhando com atenção para os gráficos que apresenta, o pico de letalidade é anterior aos picos de hospitalizações gerais e de cuidados intensivos;

6) De resto, a ligação entre cuidados intensivos e letalidade é mais que duvidosa, no sentido em que a maior parte da mortalidade não ocorre em unidades de cuidados intensivos e dos doentes que entram em cuidados intensivos, um quinto a um quarto morrem, mas quatro quintos a três quartos, não. É natural que nas alturas em que sobe a mortalidade, os casos, as hospitalizações gerais e em cuidados intensivos, subam todos estes indicadores em conjunto, porque respondem à maior incidência da doença. Já é totalmente abusivo dizer que há uma relação entre a capacidade de cuidados intensivos e a mortalidade verificada: não há, em Portugal, nenhuma indicação nesse sentido, a não ser correlações estatíscas espúrias.

Resumindo, temos informação escassa, não acessível à maior parte das pessoas e quando alguém com autoridade resolve levantar uma hipótese, como fez Henrique Oliveira na Assembleia da República, pouca gente perde tempo a verificar que dados objectivos e verificáveis existem que corroborem a hipótese (começando pelo próprio), basta-nos, a quase todos, a autoridade académica (ou outra) de quem diz o que diz.

Como consequência, uma hipótese alternativa para o aumento de letalidade, como a influência do frio associado à anomalia meteorológica que começou a 24 de Dezembro e acabou a 20 de Janeiro, arruma-se nas hipóteses dos negacionistas e remete-se para uma obscura publicação sobre mortalidade, do Instituto Ricardo Jorge, a sua comprovação, sem que isso tenha qualquer efeito na formulação de políticas.

Resultado?

Escolas fechadas com base em relações causais expressas no ditado que Jorge Capelo vai repetindo adequadamente: "Chuva em Novembro, Natal em Dezembro".

A «cidadania» dos poltrões

por José Mendonça da Cruz, em 28.02.21

Um padre de Pinhel decidiu continuar a celebrar missas presenciais, com máscaras e distância física. Logo um bufo ou bufa convocou a Sic, para que registasse o que julga ser «falta de cidadania e respeito». A Sic lá enviou uma equipa jacobina de promoção do pânico e defesa do p.c., que ouviu o padre, alguns fiéis, e o bufo ou bufa. Mas, como todos os bufos ou bufas, o bufo ou bufa veio escondido, cobarde, não deu a cara, nem o nome, nem a voz, que se ouviu filtrada. Tudo em nome da «cidadania», que os bufos ou bufas não sabem o que seja, e do «respeito», que nenhum bufo ou bufa merece, já que não o têm por si próprios.

Henrique Oliveira e a sociedade aberta

por henrique pereira dos santos, em 28.02.21

João Pires da Cruz escrevia um dia destes que o que nos separava da Suécia não eram as estratégias diferentes de gestão da epidemia, mas sim a capacidade de aprender. Tinha toda a razão: nos dois sítios foram tomadas decisões, mas na Suécia foi produzida informação largamente disponível para toda a gente (ser boa ou má é uma questão diferente), fizeram-se discussões racionais sobre os resultados obtidos e eventuais erros cometidos e as decisões seguintes incorporaram os resultados (sempre precários e provisórios, claro) dessas discussões, sendo por isso diferentes das primeiras.

Pelo contrário, em Portugal a informação tem enormes fragilidades (há coisas muito boas, como o sistema de monitorização da mortalidade, por exemplo), é extremamente assimétrica, a cultura de discussão franca e aberta é mínima e o resultado é que não aprendemos, tomamos sempre as mesmas decisões, seja agora, seja no ano passado.

A mera justificação de António Costa para não abrir já a escolas, baseada na comparação dos números com o anterior período de desconfinamento, é de bradar aos Céus, um exemplo acabado de como não aprendemos, nem fazemos nenhum esforço sério para aprender, apenas nos esforçamos para demonstrar que sempre tivemos razão (todas as generalizações são abusivas e esta não foge a esta regra, com certeza as coisas não são preto e branco).

Talvez um exemplo seja útil para explicar a falta que nos faz o verdadeiro escrutínio, o debate e a substituição da autoridade pela racionalidade.

contágios henriq oliveira.jpg

Este gráfico foi apresentado por Henrique Oliveira, dentro da sua campanha para demonstrar como o fecho de escolas foi fundamental. O gráfico tem uma alteração feita por Fernando Batista que consiste em introduzir o ponto das eleições presidenciais, a verde, para levantar uma questão relevante: como é que o fecho de escolas numa Sexta-feira tem um efeito determinante quando no Domingo seguinte há umas eleições que põem em contacto milhares de pessoas, de milhares de bolhas sociais diferentes?

O gráfico foi apresentado assim: "Hoje consegui obter o almejado gráfico dos contágios em Portugal.
O pico dos contágios foi no dia anterior ao fecho das escolas. O confinamento do "postigo" conseguiu, durante dois ou três dias estabilizar os contágios a um nível elevadíssimo de 12.000 diários oficiais DGS, mesmo antes do dia 21, mas o fecho das escolas teve um efeito drástico."

Explicações úteis sobre como foi obtido o gráfico, zero, apenas um argumento de autoridade "consegui obter".

O mais interessante é que na imensa complexidade que é o desenvolvimento de uma epidemia, Henrique Oliveira consegue isolar e ter certezas sobre o efeito do confinamento do postigo, identificando exactamente o seu efeito nesta curva de contágios.

Naturalmente alguém questiona este gráfico chamando a atenção para o facto do Instituto Ricardo Jorge produzir um gráfico de casos (não contágios), que coloca o pico de casos a 18 de Janeiro, o que é evidentemente incompatível com um pico de contágios a 21, como pretende Henrique Oliveira.

insa 26 fev.jpg

O resultado de alguém questionar o primeiro gráfico, apresentando este segundo, não é o que seria normal, uma discussão sobre os dois gráficos para perceber de onde vêm e o que querem dizer, o resultado é o bloqueio de qualquer discussão, com Henrique Oliveira e Jorge Buescu (um senhor que ficou instantaneamente famoso no mundo da epidemiologia quando logo no início da epidemia previu que dentro de dias Portugal teria 12 milhões de infectados) a desconsiderarem o trabalho do Instituto Ricardo Jorge: "Eu fiz o gráfico com dados fidedignos, o pico da incidência registada é mesmo a 29 de Janeiro. ... (sobre o boletim do Ricardo Jorge) "viste o R0? Totalmente errado em todos cálculos que se possam fazer. Fazem correcções arbitrárias não justificadas na literatura das datas das incidências, etc etc etc... Enfim, este boletim corresponde à qualidade de quem o faz..." ... "O INSA repete essa asneira à exaustão desde o princípio. Em nenhuma parte do Mundo é 2. Vivem em Marte? Ignoram totalmente a literatura? Alienação da realidade?" ...  "OLha, na última reunião do Infarmed em que o BN citava o Rt como 0,67, "o mais baixo da pandemia"... estava de facto em 0,82, quer calculado por mim quer pelo Carlos, e já tinha tido um mínimo há 10 dias. Não sei que raio de contas eles fazem!" ... "usam o modelo seird mas de forma totalmente errada..." ... "Acabei de perder a fé nos cálculos do INSA, pelos menos sobre o R." ... "se o R está errado desde o início, e é fácil, imagina o resto...", etc..

Se eu gostasse de usar argumentos de autoridade, diria que não deixa de ser irónico que matemáticos que ouviram falar de epidemiologia há um ano se entretenham a dar lições ao departamento de epidemiologia do Instituto Ricardo Jorge, mas eu não tenho o menor respeito por argumentos de autoridade e acho perfeitamente razoável que se questione o trabalho do Instituto Ricardo Jorge, mais que isso, acho fundamental que isso se faça.

Tal como acho útil questionar o trabalho de toda a gente, porque é da crítica séria, desassombrada e frontal que podemos ir melhorando, incluindo questionar o primeiro gráfico que Henrique Oliveira usa para defender a sua tese.

Henrique Oliveira faz este gráfico de forma simples: pega na incidência acumulada a sete dias (aparentemente centrada), medida pelo número de casos, parte do pressuposto de que há dois dias de diferença entre sintomas e registo de teste positivo pela DGS, e mais cinco dias entre contágio e sintomas e faz um gráfico de contágios que é uma deslocação do gráfico de casos para sete dias antes.

Que problemas existem com isto?

Estabelecer dois dias de intervalo entre o início dos sintomas e o registo do caso positivo é manifestamente absurdo. Pode ser que o Instituto Ricardo Jorge, que usa uma técnica que todos as autoridades europeias usam para transformar reposicionar os casos no início dos sintomas, esteja a cometer erros nesse processo, mas o que é verdadeiramente seguro é dizer que é uma tolice dizer que apenas existem dois dias entre sintomas e registo de teste positivo.

Todos nós conhecemos, com certeza, dezenas de pessoas que testaram positivo, eu conheço, mas não me lembro de em algum dos muitos casos que conheço terem passado apenas dois dias entre os primeiros sintomas e o resultado positivo do teste.

Ou seja, o gráfico de Henrique Oliveira precisa de ser recuado pelo menos dois dias (um número que estou a definir arbitrariamente, acho que é curto, mas prefiro errar contra o meu argumento, para evitar qualquer dúvida sobre má-fé), isto é, o fecho de escolas apareceria depois da linha verde do gráfico, bem dentro da descida brutal de contágios e sem qualquer sinal de os ter influenciado.

Assim sendo, a interpretação do gráfico de Henrique Oliveira, que já era fraquinha, torna-se impossível de sustentar: o pico de contágios já não é no dia anterior ao fecho de escolas, mas três dias antes, e a tal demonstração do efeito do fecho do postigo é anterior ao dito fecho.

Tudo isto só discutindo o tempo que decorre entre sintomas e registo de caso positivo, matéria para a qual não tenho informação de qualidade, ao contrário do Instituto Ricardo Jorge que diz que é bem mais que o que diz Henrique Oliveira.

Henrique Oliveira respondeu-me que tinha as previsões fantásticas e que batiam certinhas num relatório oficial que fez. Naturalmente perguntei se podia ter acesso ao relatório.

Respondeu-me que evidentemente que não.

Henrique Oliveira, pelos vistos, desconhece que todos os documentos oficiais são públicos (as excepções estão definidas na lei) e acha normal passar o tempo a influenciar decisões que afectam milhares de pessoas sem disponibilizar abertamente a informação que usa, para que essas decisões possam ser escrutinadas e, por essa via melhoradas.

Duvido que a academia sueca esteja tão viciada como a academia portuguesa no segredo que permite usar a autoridade como argumento.

E isso é uma responsabilidade que a academia portuguesa carrega às costas e um factor brutal que nos empurra para a pobreza e para a fragilidade institucional que nos caracteriza.

O Primeiro Programa Nacional de Vacinação

por Vasco Mina, em 27.02.21

Neste tempo em o Plano de Vacinação para a Covid-19 se encontra na ordem do dia, importa recordar como e quando teve início o planeamento nacional de imunização da população portuguesa para um conjunto de doenças infectocontagiosas. Um recente artigo, no Expresso, de Bruno Vieira Amaral sobre a vacinação lembrou o primeiro Programa Nacional de Vacinação (PNV). Foi em 1965 e o seu mentor o então Ministro da Saúde e Assistência Francisco Neto de Carvalho. Este Programa contou com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e o próprio reconheceu, numa obra sua (“Do Estado Novo à Democracia” em edição póstuma da sua família) os fracos recursos financeiros que levaram o Estado a recorrer ao subsídio da referida Fundação (atualmente seria com o apoio da União Europeia).

O PNV foi um sucesso e permitiu erradicar a poliomielite e reduzir as taxas de incidência das outras doenças que passaram, igualmente, a ser incluídas no referido Plano: tosse convulsa, difteria, tétano e varíola. A grande mais valia desta medida foi proporcionar a cobertura vacinal à escala de todo o país. A par de tudo isto lançou-se a construção do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e foi instituído o Boletim Individual de Saúde o qual passaram a ser registadas as vacinas e que (ainda hoje) é um documento fundamental que a todos deve acompanhar.

Vale a pena ouvir a conferência de imprensa para lançar o PNV. O Ministro Francisco Neto de Carvalho destacou, entre outros, os seguintes aspectos: a colaboração da comunicação social na divulgação da importância da vacinação, o envolvimento das populações interessadas, a criação da consciência social para levar os portugueses a vacinarem os seus filhos e a importância de se conseguir a imunização generalizada da população (pelo menos 75%). Igualmente curiosa é a constatação da resistência de muitos aos tratamentos da tuberculose nos sanatórios. Ou seja, então e hoje, a mesma preocupação face aos que resistem às novas abordagens da medicina.

Não, não sou saudosista do Estado Novo (em 1965 tinha eu 3 anos de idade) mas importa ter (boa) memória de quando e como se iniciaram os planos de vacinação. Também a merecida homenagem ao seu autor que teve uma longa carreira se serviço público que terminou em 1991 como Juíz Conselheiro do Tribunal de Contas. Vale a pena ler o livro que citei  (com prefácio de Guilherme D’Oliveira Martins) acima pois é o testemunho de uma vida que acompanhou o Estado Novo e a Democracia.

Baltazar Nunes e as escolas

por henrique pereira dos santos, em 27.02.21

"Nós sabemos que as escolas, aparentemente, e vimos que são seguras e não houve grandes surtos de transmissão nas escolas, mas também aquilo que aprendemos é que a abertura das escolas tem efeitos colaterais, tem efeitos indirectos sobre a sociedade, porque liberta os pais para poderem ir trabalhar e vai libertando a sociedade, não é propriamente as escolas que sejam o principal factor que promove a transmissãocomo sendo as crianças os vectores dessa transmissão, mas são efectivamente um factor que confina muito a sociedade".

Esta transcrição diz respeito a Baltazar Nunes, uma das eminências pardas da estratégia de gestão da epidemia.

É director dos serviços que no Instituto Ricardo Jorge publicam o relatório sobre mortalidade que alerta para os efeitos sinergéticos entre mortalidade e covid resultantes da situação meteorológica excepcional que ocorreu entre 24 de Dezembro e 20 de Janeiro.

E mesmo sendo o director desses serviços, mesmo depois da publicação do relatório com estas conclusões, prefere omitir (ou quase omitir ao ponto de não terem qualquer relevância no conjunto da sua intervenção) as conclusões dos seus próprios serviços na reunião do Infarmed em que repete argumentos a favor do confinamento e interpretações da curva de epidémica e transmissibilidade que são mais que abusivas face à informação que o seu próprio departamento produz.

Nada de original na função pública actual, que está de pantanas e que promove uma cultura de irresponsabilidade e de subserviência ao poder como não conheço paralelo anterior (e eu trabalho na função pública há mais de trinta anos, esquecendo alguns interregnos).

Que o próprio não tenha sequer consciência da barbaridade do que está a dizer - que o fecho das escolas não se justifica pelo papel das escolas na evolução da epidemia, mas porque prende os pais das crianças em casa - diz muito mais sobre nós, sobre o jornalismo que o ouve sem o confrontar com o carácter indigno dessa opção com esse fundamento, que sobre Baltazar Nunes.

Versar-com

por João Távora, em 26.02.21
Das diferentes formas de conversa (versar-com) distingo duas. Uma de preponderância mais narcísica, autocentrada, emocional, que tende para o monólogo e exige do interlocutor uma enorme humildade e apagamento, e outra que, sendo carregada de afecto, é feita de construção, uma ponte para o encontro.

Hoje mais do que nunca reconheço o valor de uma rara, boa e sã conversa. Descomprometida e desinteressada, sem constrangimentos mas com atenção ao outro. Que se disfruta com pessoas próximas, amigos especiais ou em raros estados de graça. Conversa cúmplice que simplesmente acontece, e não se encomenda. Com a qual resolvermos os verdadeiros problemas do mundo e da existência, principalmente a dos outros. Discutindo o tudo e o nada, um livro, um autor; recordando memórias, aventuras, gaffes ou anedotas, risos e gargalhadas. Zombando dos outros, da vida e de nós próprios. Até às lágrimas, até ao silêncio, até à próxima.
 
A boa conversa é prática rara e fidalga que só os espíritos livres e superiores podem alcançar. Sem pretensões, pelo simples prazer de se estar vivo e de nos reconhecermos uns dos outros.
 
(texto reeditado)

A antevisão do jogo

por João-Afonso Machado, em 26.02.21

Da maior importância, na actualidade, o mundo do futebol está em alta rotação política. Uma verdadeira pandemia em toda a vanguarda da Divisão superior. E um novo regime que se adivinha está para, sustentadamente (como ora se diz), chegar e ficar.

Isso tem a ver com o findar - e ainda bem - do monótono império dos "3 grandes", apenas quebrado, ao longo de uns 80 anos, por proezas esporádicas do Belenenses (a bem dizer, a proeza tinha nome: Almirante Tomaz) e do Boavista (e, sobre esta, as histórias que se contam...).

A afirmação do Braga como uma quarta grande equipa, vem vindo a fazer-se. E não fora o assalto ao seu plantel, pelos mais ricos, e a saída de Rúben Amorim... não sei, não.

O F. C. do Porto, digam o que disserem, ainda é uma grande Naçom. Não tem estrelas, porque, quando as tem, aí vão elas, cadentes, para o futebol milionário. Mas com meia América do Sul a jogar lá, gigantes malianos e alguma juventude portuguesa por imigrar, sempre se desenrasca, permanece na Europa, e... «ainda há muito campeonato para jogar, o futebol é isto».

O Sporting, uma enorme surpresa! Eu diria, desde logo, com um treinador que é um predestinado; mas, sobretudo, com a gente da casa, gente nova que joga sem medo e é portuguesa. Tudo isto merece, sem dúvida, a devida recompensa.

E o Benfica... Enfim, a minha qualidade de provinciano não me permite alcançar onde foram buscar tantos milhões para tanto desperdício. Em 4º lugar, a um ponto do 5º e a quatro pontos do 3º... Onde os lisboetas não organizaram buzinões contra Cabritas, Temidos e outros que tais, ao nível do Pedro Guerra, fizeram-no contra o pobre JJ, a quem, já se vislumbra, nem Cristo valerá.

Isto sim, é política. O resto é confinamento. Aqui o nosso Famalicão já conheceu melhores dias, e se eu fosse lisboeta era do Atlético da Tapadinha. Alguém se lembra? Azul e branco, sempre! Em tudo o verdadeiramente importante, como é caso do futebol.

 

Os escombros

por João Távora, em 26.02.21

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Esta entrevista Susana Peralta teve o mérito de por "a burguesia" a olhar para a sua carteira, e quem sabe para os desgraçados que estão a pagar a factura do confinamento - que é o capítulo que se segue quando nos dispormos a olhar para os efeitos colaterais da gestão da pandemia. Por ora há gente a mais confortavelmente no sofá a comer pipocas enquanto assiste pela TV ao desastre que se agiganta do outro lado da sua porta.

"Sobem sempre mais depressa"

por henrique pereira dos santos, em 26.02.21

"sabemos que os números sobem sempre mais depressa do que descem", disse o nosso Presidente da República sobre este gráfico:

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Não contente com dizer isto, ainda acrescentou que um confinamento em Março era relevante para a incidência no Verão e no Outono.

Pouco satisfeito, justificou o confinamento de um mês do país com a necessidade de não baralhar as pessoas abrindo agora e fechando uns dias na Páscoa, para voltar a abrir depois.

E tudo isto para se substituir ao poder executivo na definição da gestão concreta da epidemia.

Que Marcelo Rebelo de Sousa, numa declaração formal ao país, nas suas funções de Presidente da República, faça afirmações manifestamente falsas, que lhe acrescente fantasias sem qualquer base, que argumente com razões de comunicação para justificar o sacrifício real que está a impor aos mais pobres, aumentando a desigualdade no país, com o objectivo de exorbitar das suas competências e se substituir ao poder executivo, é da natureza das coisas e ninguém pode negar que os eleitores sabiam perfeitamente quem estavam a eleger.

Que toda a imprensa se abstenha de assinalar o facto do Presidente da República dizer coisas falsas, facilmente verificáveis, para sustentar fantasias de hipocondríaco e argumentos sem pés nem cabeça para entalar o governo e o substituir nas suas funções executivas, é que verdadeiramente caracteriza a fragilidade das nossas instituições e explica o nosso empobrecimento e a erosão progressiva da dignidade da nação.

O Inferno é a ausência de esperança.

Adenda: ouvi agora José Manuel Fernandes, e gostaria de assinalar esta excepção

Buescu mente sobre as escolas...

por henrique pereira dos santos, em 25.02.21

... e uma imprensa acéfala repete a mentira, sem verificar os factos, e deputados mal preparados engolem a mentira sem questionar incongruências e nós todos continuamos sujeitos a medidas absurdas porque achamos o respeitinho muito bonito.

Compreendo que haja quem considere excessivo eu dizer que Jorge Buescu mente sobre as escolas, mas aos que dizem que o rio é violento, convém lembrar a opressão das margens sobre ele.

E aqui ficam as minhas justificações.

“Nós sabemos o que acontece quando abrem as escolas. Em Setembro abriram as escolas todas, portanto, se nós queremos ter a noção do efeito de abrir as escolas, é olhar, por exemplo, para o que aconteceu ao R(t), o R(t) aumentou 20 a 25% em quinze dias depois da abertura das escolas, ou melhor, seis dias depois da abertura das escolas o R(t) começou a subir e aumentou cerca de 20 a 25%, portanto, eu diria o seguinte, se nós pensarmos que vai acontecer a mesma coisa se abrirmos as escolas … nós estamos com um R(t) suficiente para que com um aumento de 20% continuemos abaixo de 1?”, disse ontem Jorge Buescu numa audição parlamentar.

Vejamos então os factos.

rt ano lectivo.jpg

Este é o gráfico de pormenor da variação do R(t) na altura da abertura do ano lectivo, com a indicação de 1) abertura do ano lectivo, foi entre 14 e 17, estou a usar o dia 15 de Setembro; 2) os tais seis dias de descida de que fala Buescu; 3) o ponto em que o R(t) começa a subir, a 26 de Setembro (10 dias, e não seis, como diz Buescu); 4) o dia 3 de Outubro, que assinalei aqui para ligar com o gráfico vou usar já a seguir; 5) O ponto em que o R(t) estabiliza depois da subida iniciada a 26 de Setembro, por volta de 9 de Outubro; 6) o ponto, a 15 de Outubro, mais coisa, menos coisa, em que o R(t) começa a descer, apesar das escolas abertas.

Não está aqui visível, mas os tais 20 a 25% de aumento de R(t) em quinze dias, na verdade são, considerando o dia com o R(t) nos mínimos deste perído (19 de Setembro) e o dia com R(t) mais elevado (10 de Outubro), menos de 20% (19%) em três semanas.

Em matéria de rigor na avaliação temporal que permite estabelecer relações de causa e efeito, estamos conversados.

Agora olhemos para este gráfico.

coronavirus-data-explorer (2).jpg

Sem surpresa, e sem qualquer ligação com os calendários escolares dos diferentes países, é no fim de Setembro e princípios de Outubro (a tal barra 4 que coloquei na curva do R(t) a 3 de Outubro) que a incidência da covid, em toda a Europa, dispara (por alguma razão os sistemas de vigilância da gripe e doenças afins são activados na semana 40 do ano que, em 2020, é a semana que começou a 28 de Setembro).

Portanto, é mentira que saibamos o que acontece quando abrimos as escolas, quer porque é preciso martelar muito a interpretação do gráfico do R(t) para encontrar uma correlação sólida com a abertura de escolas, quer porque a análise global da evolução da epidemia na Europa não autoriza qualquer relação directa entre calendário escolar e incidência da epidemia, ao mesmo tempo que mostra uma simultaneidade que não pode dever-se aos diferentes calendários escolares.

Mas há, por omissão, uma mentira muito mais grave.

Olhemos para o mesmo gráfico, mas no período do Natal.

rt natal.jpg

Neste gráfico assinalei 1) o começo das férias de Natal (ou seja, encerramento das escolas); 2) a verde, o início de uma anomalia meteorológica excepcional; 3) o Natal; 4) a abertura das escolas após o Natal; 5) o fim da anomalia meteorológica; 6) o fecho de escolas.

Aqui sim, neste período, há uma subida do R(t) de 25%, em seis dias (sensivelmente entre 25 de Dezembro e 31 de Janeiro), mas com as escolas fechadas.

Jorge Buescu, que afirma taxativamente que as alterações do R(t) de Outubro (que são temporalmente coincidentes em praticamente toda a Europa temperada e com o começo o Outono) se devem à abertura das escolas, omite toda a evolução do R(t) no fim de Dezembro e princípios de Janeiro, omite que não há qualquer descida do R(t) nas férias escolares, não há qualquer aumento relevante com a abertura a 4 de Janeiro e que a descida da terceira semana de Janeiro dificilmente pode ser relacionada com o fecho das escolas.

Olhe-se para este gráfico, também ontem apresentado na audição da Assembleia da República, mas por Carlos Antunes, que já há alguns dias o tinha apresentado como uma evidência inquestionável da relação entre o fecho de escolas e o aumento da velocidade de descida da incidência (note-se que há uma evolução relevante da posição de Carlos Antunes, que inicialmente atribuía a descida de casos ao fecho de escolas mas, perante a evidência, passou a falar apenas da sua influência no aumento da velocidade de descida, reconhecendo que a alteração de tendência se deu antes do fecho das escolas).

carlos ant.jpg

Antes da audição, que foi à tarde, na manhã de ontem, na minha página de Facebook, houve uma cordial troca de argumentos sobre o que significa este gráfico, que penso que vale a pena sintetizar aqui.

Carlos Antunes refere-se à barra da direita como sendo a evidência do efeito do fecho das escolas, relacionando a quebra da variação diária da incidência acumulada a 31 de janeiro com qualquer coisa que se passou pelo menos sete dias antes.

O que a troca de argumentos havida ontem permitiu confirmar, pelo próprio Carlos Antunes, foi que a tendência na incidência, medida pela data de sintomas, deu-se a 22 de Janeiro, acentuando-se a 24 de Janeiro e acentuando-se ainda mais a 28 de Janeiro (esta última corresponderia à tal barra a 31 de Janeiro, dependendo os desfasamentos temporais da forma como se calculam os valores).

Como o que está no gráfico é a incidência acumulada a sete dias, não centrada (isto é, contando com os valores dos seis dias anteriores e não com três dias anteriores e três posteriores), significa que a alteração de tendência identificada no gráfico deu-se, na realidade, três dias antes (três e meio, para o caso usei o meio dia contra o meu argumento), isto é, a 25 de Janeiro.

Como, por outro lado, o gráfico é de incidência por data de sintomas, significa que temos de andar cinco dias (em média) para trás, para saber quando ocorreram os contágios que dão origem a esta incidência.

Ou seja, os contágios que deram origem à evolução conhecida, nomeadamente à alteração de tendência identificada (pela incidência acumulada de sete dias, não centrada) a 22, 24 e 28, ocorrem a 14, 16 e 20, isto é, sem qualquer possibilidade de se relacionarem com um fecho de escolas na Sexta 22 (seguido de umas eleições no Domingo 24).

De resto, se houvesse uma relação clara entre abertura de escolas e evolução do R(t), o normal seria estar toda a gente à procura das escolas que abriram a 12 de Fevereiro, onde é evidente uma nova alteração de tendência, agora no sentido da subida, com as escolas fechadas.

Activistas mascarados de cientistas, jornalistas que não verificam factos, deputados que olham mais para a percepção pública que para o bem comum é uma receita infalível para empobrecermos alegremente e, o que é mais difícil de engolir, cavar maiores diferenças sociais num país tão desigual e em que o elevador social passa a vida na manutenção.

Salvar a Pátria

por João Távora, em 24.02.21

pedro-passos-coelho.jpg

O retorno à ribalta política de Pedro Passos Coelho como salvador da pátria é um assunto recorrente no debate à direita que reflecte bem a profunda crise que atravessa, com clara dificuldade de renovar-se com novos protagonistas, mas principalmente de assumir bandeiras que entusiasmem um eleitorado tendencialmente resignado – e assustado. Esse sebastianismo também espelha uma falta de autoridade e reconhecimento público das elites políticas envelhecidas que há décadas circulam desgastadas pelos corredores do poder e seus vasos comunicantes: há muito que o serviço público vem deixando de atrair os melhores, seja pela fraca remuneração duma carreira política, mas principalmente por causa do desprestigio em que esses cargos decaíram. Evidentemente que há excepções que só confirmam a regra, e percebe-se a veneração que Passos Coelho suscita numa direita inconformada com a decadência permanente dos indicadores económicos e o desprestígio das instituições do país.

Mas o seu tempo na ribalta política passou: se Passos Coelho foi o salvador da Pátria e o sucesso no resgate do País se deveu à sua heróica resistência, por esse motivo conquistou demasiados inimigos e preconceitos, e suspeito que será sempre uma personalidade desgastada pelos anos de chumbo que lhe alienaram o centro político.
Para mais, se não queremos somar aos já muitos problemas do país um choque geracional a prazo, parece-me urgente a promoção de novos actores no espaço público partidário, urge rejuvenescer as lideranças, que tragam um discurso renovado e mais afoito para denunciar os nossos vícios velhos e inspirar alguma esperança no futuro. A tralha ferrugenta que se pavoneia em comentários nas televisões são o espelho duma decadência que urge inverter.

Também é por isso que deposito altas expectativas em Francisco Rodrigues dos Santos que gostava de ver mais vezes no espaço público, para que sem complexos se dedique a uma agenda de valores conservadores e liberais, que tanta falta fazem ao equilíbrio dum debate político que se queira estimulante. Bandeiras não hão-de faltar a uma direita rejuvenescida que conseguisse emergir do pântano moral, político e económico em que estamos todos atolados.

Porquê?

por henrique pereira dos santos, em 24.02.21

"Em entrevista à RTP, António Lacerda Sales falou na importância do número de camas de enfermaria ocupadas com doentes Covid, que deve ser inferior a 1500, o número de camas em Unidades de Cuidados Intensivos, que deve ser inferior a 200, e, por fim, uma incidência cumulativa a 14 dias que deve ser de 60 casos, o que significa 400 a 428 casos por dia".

Do ponto de vista do Governo (e de grande parte da sociedade) a sociedade deve organizar-se para obter uma determinada pressão sobre os serviços de saúde, em vez de se organizarem os serviços de saúde para garantir o apoio adequado à sociedade.

Mas ainda que se faça essa opção, por que razão se devem escolher estes limites em detrimento de outros?

Durante semanas a fio de incidência relativamente baixa, por exemplo, durante todo o Verão, a questão não eram os números verificados, mas as tendências, agora que as tendências são todas no mesmo sentido, isso já não interessa, o que interessa são os números e, note-se, não os números relevantes da epidemia, mas sim os números relevantes para a gestão dos serviços de saúde.

Repare-se que a incidência referida nunca existiu desde o início de Setembro. A pergunta, legítima, é se se tenciona manter um confinamento, com escolas fechadas, até ao Verão.

Acresce que se se calcula a incidência acumulada a 14 dias, contando com os treze dias antes da data, então significa que haverá um atraso dos números em relação à realidade, o que quer dizer que o governo e os especialistas acham que abrir uma semana mais cedo ou mais tarde as escolas é irrelevante, pode perder-se uma semana de aulas pelo mero artifício estatístico de usar uma incidência acumulada a 14 dias, em vez de usar os dados do relatório semanal de incidência e transmissibilidade.

Do mesmo modo, o número de internamentos considerado fundamental nunca existiu desde o fim de Outubro, e o número de camas de cuidados intensivos consideradas fundamentais nunca foi atingido desde 20 de Outubro, ou seja, passámos todo o Outono e Inverno, até agora, sem problemas de maior com os níveis de pressão dos serviços de saúde acima do que se pretende ter agora, com excepção de Janeiro.

Mas porque em Janeiro, por razões que podemos discutir, mas razões indiscutivelmente excepcionais, houve uma pressão excepcional, passamos a achar que a sociedade não pode funcionar, que a vida de milhares de pessoas pode ser condicionada, para que os serviços de saúde funcionem com limites de ocupação que os responsáveis pela sua gestão acham confortáveis.

E acham confortáveis por razões que consideram não ter de explicar convenientemente, em especial, demonstrando a ponderação de ganhos e perdas globais para a sociedade da definição desses limites.

Isto não é governar, é simplesmente gerir o medo da facção que ocupa o poder tem de perder as eleições seguintes.

Serviço

por João Távora, em 23.02.21

Principe Carlos.jpg

(...) É inequívoco que a Monarquia tem procurado adaptar-se às novas circunstâncias – para permanecer relevante e útil a uma sociedade em que muitos procuram mostrá-la como desajustada.
O Príncipe de Gales tem sido o líder desse objectivo de modernização e de adaptação à nova realidade, como qualquer análise séria e descomprometida permitirá verificar. Tem-no feito, contudo, sem evitar os temas difíceis.
A utilidade que procurou dar ao lugar que ocupa foi a resposta a um certo vazio funcional da sua posição. Sem fazer sombra à Soberana, procurar servir o povo britânico e cumprir a divisa que acompanha o seu título: Ich dien (Eu sirvo). Maquiavel ficaria desiludido.

A ler o artigo completo aqui

A segunda derivada

por henrique pereira dos santos, em 23.02.21

A informação sobre a epidemia a que a generalidade da imprensa tem dado importância prende-se com a pressão sobre o sistema de saúde e com as previsões de um conjunto de matemáticos.

Confesso que quando vejo pessoas responsáveis dizer que as escolas não podem abrir porque ainda há muita gente em cuidados intensivos me assaltam duas perplexidades essenciais.

Uma prende-se com o absurdo de se entender que é legítimo fechar o acesso a um serviço essencial, como é a educação, para resolver as fragilidades de outro serviço essencial, como é a prestação de cuidados de saúde, sem que se ponderem adequadamente os prejuízos e benefícios de cada opção.

Uma coisa é os serviços de saúde entrarem em colapso, deixando de ser capazes de prestar assistência aos doentes, que é uma situação limite.

Outra coisa é os gestores dos serviços de saúde decidirem que só se sentem confortáveis com 200 ou trezentas camas de cuidados intensivos ocupadas com doentes covid e, consequentemente, acharem normal ter toda a sociedade, em especial as escolas, fechadas para se atingir um número de ocupação de camas que é unilateralmente definido pelos gestores dos sistemas de saúde.

A facilidade com que se propagou a ideia de que é a sociedade que tem de se organizar para proteger os serviços de saúde, em vez de serem os serviços de saúde a organizarem-se para proteger a sociedade é, para mim, um mistério insondável.

Para evitar situações limite na saúde talvez seja razoável bloquear o acesso à educação de milhares de alunos. Para dar conforto aos serviços de saúde, francamente, tenham juízo.

A outra perplexidade prende-se com a confiança que se deposita em modelos de previsão que, dia após dia, demonstram a sua inutilidade, dado o desfasamento entre as previsões e a realidade (quer por defeito, quer por excesso, isso é irrelevante, qualquer das duas situações demonstram que a modelação feita não reflecte a realidade do processo que está a tentar modelar).

Um bom exemplo é a insistência que agora se faz no excesso de pressão que ainda existe sobre o sistema de saúde: os contágios caíram, os casos diminuíram fortemente, e evidente que os internamentos e a mortalidade irão diminuir de acordo com o que se passou nos contágios. Se ainda há muita gente em cuidados intensivos, é porque a doença tem uma evolução lenta e o desfasamento entre contágio e alta dos cuidados intensivos pode ir facilmente às três ou quatro semanas (ou mais).

Seria normal os modeladores estarem agora a dizer que realmente não faz sentido nenhum estar a prejudicar milhares de alunos à espera de uma descida de internamentos que ocorrerá de qualquer maneira nos próximos dias.

Infelizmente, uma boa parte dos modeladores, deixaram há muito de funcionar como investigadores e são meros activistas.

Por isso, quando confrontados, dizem que quem os contesta não sabe de matemática, não consegue apreender bem o que significa um processo ser exponencial (esquecendo-se que depende do valor do exponencial ser um processo lento ou rápido) e não estão a ver bem a coisa porque têm dificuldade em compreender integralmente o efeito da evolução da segunda derivada.

Meus caros matemáticos, muito antes de haver matemática, muito antes de haver segundas derivadas, já as pessoas comuns sabiam perfeitamente o efeito de uma aceleração progressivamente maior ou progressivamente menor, escusam de se esconder atrás de uma suposta sofisticação matemática para fugir à discussão substancial do que está em causa.

E o que está em causa, neste momento, é uma evolução muito favorável da epidemia e um custo desproporcionalmente alto do fecho de escolas, que não tem qualquer justificação substancial.

Amanhã a tendência pode inverter-se?

Sim, pode, as probabilidades não vão nesse sentido, mas sim, pode inverter-se a tendência.

Se a positividade dos testes desatar a subir, se aumentar o factor de contágio, se a base de casos subir de forma relevante, então discutimos outra vez confinamentos e fecho de escolas.

Mas agora, na actual situação, por favor, tenham juízo e deixem de se esconder na vossa superioridade intelectual que pretende que é preciso ter um doutoramento em matemática para saber o que é uma segunda derivada e façam lá umas contas de deve e haver, pondo de um lado os custos e os riscos sanitários, e do outro, os custos de oportunidade de manter as escolas e a economia fechados.

E deixem de ser activistas da estratégia covid zero que ninguém vos elegeu para tomar decisões pelos outros. 



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