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Mofino Sócrates de Santos e Costa

por José Mendonça da Cruz, em 06.07.22

Vou comprar uma chavasca e inscrever-me no PS.

Depois, eu e três amigos meus vamos fundar uma associação sem fins lucrativos em defesa do mar e da pesca sustentável. Um dos meus amigos tem um contacto nas TVs, e quando o repórter vier vamos elogiar muito «o notável trabalho do ministério do Ambiente na defesa do meio marítimo e no enquadramento dos problemas sociais no sector piscícola, com resultados apreciáveis na respetiva resiliência» (julgo que é assim que se diz). E vamos anunciar que planeamos comprar mais 3 chavascas para recolher plástico além de pesca, e defender o polvo, o cação e a tartaruga, tudo espécies em vias de extinção, pelo menos individualmente e caso a caso.

A seguir vamos ao referido Ministério do Ambiente para, em articulação com a Economia e as Pescas, e em reconhecimento do nosso empenho e solicitude,  solicitar apoios do Estado para promoção da atividade da nossa associação, e também para a merecida divulgação da obra do governo em prol dos oceanos.

Vamos comprar 4 traineiras, e vamos baptizá-las: a «Mário Soares» vai servir para a pesca da lagosta; a «Pinto de Sousa» para atividades à margem do ramo; a «António Costa» servirá para a pesca longínqua; a «Nuno Santos» servirá para os periódicos desfiles engalanados em que anunciaremos que «estamos a perspetivar para o futuro a constituição de uma comissão que analisará as potencialidades do empenhamento em novos canais de empreendimento e novas perspetivas sociais do nosso trabalho». (Julgo que é isto, mais ou menos.) Pediremos para tal alguns apoios mais do Estado, a bem da resiliência.

Então, compramos um paquete, para a inauguração do qual convidaremos, reconhecedores e obrigados, os quatro padrinhos das traineiras. O Dr. Santos Silva e a menina Mariana podem vir em representação do defunto. Esperamos inculcar em todos a conveniência, senão mesmo a necessidade urgente, de nos atribuirem um canal de comunicação que melhor dê a conhecer a nossa obra e a deles. E também alguns apoios.

Quando amealharmos suficientes casas, carros e contas discretas, provavelmente uma comenda, e alguns milhões de dívida, cederemos as nossas empresas ao Estado pelo preço social, solidário e simbólico de 1 euro. O Dr. Pedro Nuno Santos, sendo naturalmente o primeiro-ministro eleito pelas preferências do povo, gabar-se-á desse seu negócio, mais uma lição aos privados e ao Mundo.

Se

por henrique pereira dos santos, em 05.07.22

O título do post não é nenhuma homenagem do Rudyard Kipling, é mesmo para deixar muito, muito claro, que vou falar de cenários que não podem ser levados demasiado a sério para lá de três dias (quando começou a conversa dos cenários de evolução da covid, eu terei escrito que modelos matemáticos era coisa em que eu não confiava para tomar decisões com elevados impactos e dificeis reversões, uma das minhas irmãs, que tem uma visão diametralmente oposta da minha em relação à covid, argumentou que eu confiava em modelos, o que não gostava era daqueles que contrariavam o que eu penso, mas a minha radical desconfiança de previsões meteorológicas a mais de três dias demonstra que essa alegação não tem muita base factual).

A verificarem-se os cenários meteorológicos que circulam por aí para o mês de Julho - insisto, previsões meteorológicas a mais de três dias devem ser lidas com muita cautela - a partir do dia 8 de Julho, mas mais consistentemente, a partir de 10 de Julho, há partes do país que ficarão em elevadíssimo risco de incêndio, quer porque há dias de vento Leste forte e seco - esqueçam as temperaturas, o que verdadeiramente nos deve preocupar nos fogos é a secura e a velocidade do vento -, quer porque há muita disponibilidade de combustível com elevada secura induzida atmosfericamente (pelo rigor percebe-se que estou a citar quem sabe do assunto, Paulo Fernandes, a quem informalmente pedi para me confirmar, ou não, a plausibilidade dos cenários conhecidos).

Noutras partes do país, em especial no Noroeste, talvez não seja tanto assim, quer por causa das condições meteorológicas, quer, repare-se na elegância da expressão usada por Paulo Fernandes, por causa da memória de chuva recente nos combustíveis (o Paulo só comentou cenários até ao dia 12, considera que tudo o que sejam cenários meteorológicos a mais que isto não vale o esforço de interpretação, se bem percebi).

A verificarem-se esses cenários, a existência de fogos complicados - quão complicados é mais difícil de saber - é praticamente uma certeza, a multiplicação de ignições também (não porque haja mais ignições, mas porque as condições de desenvolvimento das que existam favore a sua detecção e registo pelo sistema) e o lero-lero jornalístico e de responsáveis sobre qualquer coisa imponderável (os incendiários, as mudanças bruscas de vento, os acessos dificeis, a dispersão das construções, enfim, toda a gente sabe o jargão que se usa nos teatros de operações para justificar a projecção das forças de bombeiros e afins) será tão inevitável como os incêndios.

Eu só queria deixar aqui claro, agora, correndo o risco de me cobrir de ridículo se nada destas previsões meteorológicas se verificar, três coisas:

1) o fogo é uma inevitabilidade, e um filho do seu contexto, por ser um processo ecológico endógeno, fundamental para a evolução dos sistemas naturais;

2) gerir o fogo é gerir o seu contexto, o que no nosso caso significa gerir os combustíveis finos, o que no nosso caso (eu sei que me estou a repetir) significa encontrar meios para pagar a gestão necessária e que o mercado não remunera convenientemente;

3) pelo menos desde os fogos de 2003 (mais, até, desde 2005, entre 2003 e 2005 o que se verificou foi um braço de ferro entre protecção civil e gestão florestal, que a protecção civil ganhou por KO) que os responsáveis políticos responsabilizam os proprietários por não quererem gastar mais dinheiro na gestão que o que conseguem receber em resultado dessa gestão, e o que quer que venha a suceder tem, na origem das responsabilidades políticas e sociais que se queiram discutir, essa barbaridade.

Lembrete

por henrique pereira dos santos, em 04.07.22

Em Outubro de 2015, imediatamente depois das eleições perdidas por António Costa, o Partido Socialista tinha a seguinte posição "António Costa frisou que os socialistas terão “sentido de responsabilidade, espírito de diálogo e de compromisso”, lembrando que o PS partirá para estas conversações com todos os partidos" (verificar aqui).

Com base nisto, António Costa aceitou participar numas reuniões de negociação com Passos Coelho, com vista a encontrar uma solução de governo, apesar de ir dizendo que estava também a negociar com o BE e o PC, até porque as propostas da direita eram insuficientes "A segunda reunião entre a coligação PSD/CDS e o PS terminou num clima de impasse. O secretário-geral socialista António Costa reiterou estar a trabalhar, com o PCP e com o BE, num governo alternativo e considerou a proposta da direita “insuficiente”".

A 18 de Outubro, quase duas semanas depois das eleições, ainda Passos Coelho mandava cartas a António Costa sobre o facto de António Costa andar a fingir que estava empenhado em negociar com todos os partidos.

Pois bem, na última campanha eleitoral, num debate com Rui Rio, António Costa assegurava, mostrando uma primeira página do Expresso, da qual ele era a fonte que a jornalista omitiu - tornando-a objectivamente numa cúmplice de uma manobra manipulação da opinião pública -, que desde sempre, isto é, mesmo antes das eleições de 2015, toda a gente sabia que António Costa ia fazer a gerigonça se, perdendo as eleições, como se verificou, houvesse uma maioria de deputados hostil a Passos Coelho.

António Costa era o número dois de Sócrates quando o Partido Socialista inventou a famosa iniciativa de manipulação da opinião pública que consistiu em pôr o Banco de Portugal - dirigido por Vítor Constâncio - a calcular um défice fictício para o ano em causa, de modo a que o governo de Sócrates pudesse dizer que estava a baixar o défice, ao mesmo tempo que o aumentava.

Vem de longe a tradição manipuladora do Partido Socialista e uma das grandes vantagens de António Costa dentro do partido é a sua maestria nessa capacidade manipuladora.

É por isso que não deixo de me espantar por tanta gente levar a sério a putativa "falha de comunicação" de Pedro Nuno Santos, acreditando piamente que sabendo-se em Portugal que um Ministro decide fazer aeroportos a esmo, seja possível que António Costa não o tenha sabido imediatamente (coitadinhos, não há em Madrid uma alma caridosa que consiga entregar um papelinho urgente a um primeiro-ministro que está numa cimeira).

Quem é o beneficiário de toda a confusão?

António Costa, evidentemente.

Quer internamente, quer entalando Montenegro que fica sem grande margem de manobra para ser sensato na questão do aeroporto e, ao mesmo tempo, afirmar a sua oposição às políticas do governo (a solução apresentada é uma solução bastante sólida sob vários pontos de vista e é difícil tirar da cartola outra solução tão sólida e tão exequível, num prazo curto), António Costa reforça na opinião pública o seu estatuto fundamental: aquele que reúne o menor número possível de pessoas zangadas com a sua governação.

Consegue decidir sobre o aeroporto, pondo o ónus de eventuais atrasos no PSD e no amor incontrolável de António Costa pelo consenso, que tenta sempre até ao fim, como se viu nesta palhaçada.

Para isso é preciso um bocadinho de teatro?

O que é isso comparado com os quinze dias de teatro que se seguiram às eleições de 2015?

Ou com o teatro do pôr o Banco de Portugal a calcular um défice fictício que se adopta como referencial?

Ainda sobre a partida do nosso Vasco Mina

por João Távora, em 04.07.22

Vasco Mina.jpg

Foi há pouco mais de 10 anos que o Duarte Calvão me apresentou o Vasco Mina, como “um católico politicamente activo dentro do PSD – vais gostar”. De seguida, integrado no Corta-fitas, aproximámo-nos – tínhamos muitas cumplicidades. Descobri o casal Mina nas Equipas de Casais de Nossa Senhora, e fui acompanhando as aflições do Vasco, por causa da doença, por causa do trabalho e por causa do Corta-fitas, que lamentava não colaborar mais. Fundador dos Leigos para o Desenvolvimento com o Pe. António Vaz Pinto (que partiu para junto do Criador uns dias antes), o Vasco nunca prescindiu de lutar pela vida plena. Como pai, como marido, como profissional, como sujeito activo na vida da sua Igreja e do seu país. Foi por uma unha negra que não o converti à causa monárquica – uma trivialidade dada as circunstâncias. Nos últimos meses acompanhei com apreensão as notícias que o Vasco ia mandando, dedicado que estava a combater a sua doença. Umas vezes com mais animo, outras bastante desconsolado. Na minha casa, em que se reza com regularidade, muitas foram as orações pela sua recuperação, pelo seu conforto e consolação. Não terão sido em vão, creio.

O Vasco Mina era um bom homem, foi um bom amigo, e a esta hora estará junto a Deus Pai a torcer por nós. Havemo-nos de reencontrar.

Igreja/Saúde: «Ao 3.º dia» ajuda as pessoas «a procurar luz e sentido» na  doença (c/vídeo) - Agência ECCLESIA

A primeira vez que ouvi falar do Vasco Mina foi aqui, no Corta-Fitas, em 2018, quando se juntou aos "blogueiros" deste blog. Depois, por coincidência ou não, vim a encontrá-lo no já histórico think tank liderado por Sofia Galvão – a Nova Vaga.

Vasco Mina era um homem sem idade, jovial e ao mesmo tempo com a sabedoria dos anciãos. Ferveroso católico e conservador nos valores. Inteligente e culto como poucos se podem orgulhar. 

A única coisa que sei da vida do Vasco é isto: a sua inteligência e a sua fé inabalável, mesmo quando lhe calhou em azar a doença que põe o inimigo dentro do nosso corpo.

Lutou incansavelmente anos contra um cancro, de que falava às vezes como o desafio a superar com fé.

Na Nova Vaga, a 31 de maio, coube-lhe a sua última intervenção. Escolheu como tema "a guerra na Ucrânia, à luz das igrejas cristãs". Um tema do momento que foi pretexto para invocar o antigo e o novo testamento (e os evangelhos).

Deixo aqui um excerto de um texto que partilhou na Nova Vaga: "A lógica das religiões é na sua génese uma lógica violenta porque a aproximação ao divino pressupõe o sacrifício e o procurar contrariar o sentido natural da nossa condição humana através do jejum, das peregrinações, dos sacrifícios ou das promessas (cit. Filipe d’Avillez). Jesus Cristo vem quebrar esta lógica quando nos diz que a violência não é um princípio de atuação e, por isso, temos que estar disponíveis para suportar injustiças e para não reagir com violência à violência de que somos vitimas. É também nessa lógica que se afasta a dimensão sacrificial da religião. Abrão estava disposto a sacrificar o próprio filho (!), mas não o faz porque confia em Deus. Sabe que Deus providenciará. Já não é preciso o sacrifício para nos aproximarmos do divino". 

Adeus Vasco, até sempre.

Domingo

por João Távora, em 03.07.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, designou o Senhor setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir. E dizia-lhes: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao dono da seara que mande trabalhadores para a sua seara. Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias, nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho. Quando entrardes nalguma casa, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’. E se lá houver gente de paz, a vossa paz repousará sobre eles; senão, ficará convosco. Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem, que o trabalhador merece o seu salário. Não andeis de casa em casa. Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem, comei do que vos servirem, curai os enfermos que nela houver e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’. Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saí à praça pública e dizei: ‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés sacudimos para vós. No entanto, ficai sabendo: Está perto o reino de Deus’. Eu vos digo: Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma do que para essa cidade». Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome». Jesus respondeu-lhes: «Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago. Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões e dominar toda a força do inimigo; nada poderá causar-vos dano. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».

Palavra da salvação.

Comentário: A palavra de Deus tem como fruto a alegria e a paz, tanto para quem a semeia, como para quem a recebe. Os discípulos que Jesus enviou em missão deram testemunho de que era assim. O Senhor já os tinha prevenido disso. Mas a Palavra de Deus continua hoje com o mesmo vigor; por isso, ela oferece, hoje como sempre, aos que a escutam a mesma paz e a mesma alegria.

Operações integradas de gestão da paisagem

por henrique pereira dos santos, em 02.07.22

Ninguém me tira da cabeça que uma das razões da relativa, sublinho a relativa, pobreza de Portugal está na nossa imensa capacidade para cometer os mesmos erros vezes sem conta, com base na nossa imensa capacidade para dar nomes diferentes às mesmas coisas.

Estive a ler uma entrevista de Fernanda do Carmo - que tenho como pessoa razoável -, directora geral do Ordenamento do Território, no suplemento AgroVida, do jornal VidaEconómica.

O título da entrevista, e grande parte do seu conteúdo, gira à volta da ideia de que "a adesão dos proprietários florestais é crucial para o sucesso das Áreas Integradas de Gestão da Paisagem".

Estas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem são mais uma das declinações da mesma ideia repetida há mais de 150 anos e nunca demonstrada na prática, em Portugal: "Importa dar-lhes [aos proprietários] informação de suporte à decisão, demonstrando os ganhos de retorno económico que poderão vir a ter no futuro, face à realidade actual, cumulando investimento público disponível, o aumento da produtividade a prazo, adveniente de uma gestão com escala e profissionalismo, a remuneração dos serviços dos ecossistemas, a redução de perdas por incêndio rural alcançada com a gestão, bem como a redução de despesas avulsas de limpeza de material combustível impostas".

Ou seja, a velha ideia de que os proprietários e gestores não percebem nada do que andam a fazer e, portanto, o Estado vai-lhes demonstrar a sua estupidez e ignorância, como tem vindo a fazer nos últimos 150 anos, pelo menos, desde que o iluminismo conseguiu vender a ideia de que a gestão florestal não era uma actividade económica normal, mas um desígnio colectivo com enormes benefícios para todos.

Benefícios esses que só não se verificam hoje pelos atavismos de pastores e outros ignorantes assassinos de árvores, coligados com a ganância de produtores florestais que só pensam no seu lucro e, por isso, escolhem modelos de gestão lucrativos no curto prazo, mas muito menos úteis à sociedade que os modelos de gestão de lucro diferido para "amanhãs que cantam".

O problema é que esses matarruanos dos agricultores, pastores, produtores florestais já ouviram o mesmo canto de sereia vezes sem conta, fosse no tempo das florestações da segunda metade do século XIX e primeira do século XX, fosse nos famosos dinheiros do Banco Mundial, fosse no regulamento 280 qualquer coisa, fosse nas ZIFs, seja agora com o pomposo nome de Operações Integradas de Gestão da Paisagem.

Considerando-se a adesão dos produtores florestais crucial para processos que duram mais de vinte anos antes de dar o retorno prometido, o que significa que a confiança no que se vai passar nesses vinte anos é o ponto chave - para os ingénuos que ainda acreditam que sim, que ao fim desses vinte anos as coisas vão ter o retorno prometido hoje, como se alguém pudesse saber qual serão as condições de mercado dos produtos florestais daqui a vinte anos - o que promete o Estado, via Fernanda do Carmo?

"O contrato assinado com as entidades responsáveis pelas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem prevê o apoio financeiro à sua capacitação e funcionamento [está o produtor florestal a pensar que afinal primeiro vão ensinar os que depois nos vêem ensinar a nós e ainda lhes pagam para eles funcionarem, mas pagar-me a mim, directamente e já, os serviços dos ecossistemas é que está quieto] por um período máximo de dois anos, em curso, tendo em vista constituírem as entidades gestoras da futura Operação Integrada de Gestão da Paisagem, identificarem, mobilizarem e envolverem os proprietários, promoverem o cadastro da propriedade onde este não exista e elaborarem o projecto de Operação Integrada de Gestão da Paisagem [está o matarruano a pensar: então é fazer como nas ZIF, pagam dois ou três para eles estudarem como se faz, e depois, quando estiverem em condições de avançar, fecha-se tudo porque acabou o financiamento]. As entidades que concretizam com sucesso o que lhes está cometido nesta fase inicial de capacitação, verão a Operação Integrada de Gestão da Paisagem aprovada e garantido o financiamento das acções de reconversão e valorização a realizar no terreno nos primeiros dois anos, via PRR [e pensava o ignorante que o problema era a gestão da paisagem no longo prazo, afinal parece que o objectivo é reconverter, não é gerir, nos próximos dois anos]. O financiamento da manutenção e gestão e remuneração dos serviços dos ecossistemas nos vinte anos seguintes será por via do Fundo Ambiental".

Neste ponto os matarruanos e ignorantes gestores já perceberam tudo, e vão à sua vidinha, tratar das couves e do jantar que para histórias da carocinha sempre é melhor a telenovela ou o telejornal, tanto faz que se distinguem pouco.

Nem o Fundo Ambiental é seguro, nem tem dimensão financeira para o que se está a prometer, nem se sabe se existirá ainda daqui a meia dúzia de anos e eu vou entregar a gestão das minha terras agora à espera que algum dia aquilo tenha retorno com base em ideias extravagentes de técnicos que não põem um cêntimo do seu dinheiro naquilo que dizem que é muito rentável?

No que diz respeito à gestão de terras marginais, andamos nisto há décadas, ainda há mais tempo que na discussão da localização do aeroporto de Lisboa.

A mim só me faz lembrar os que ainda hoje continuam a defender que a felicidade e a justiça chegam com a apropriação colectiva dos meios de produção, uma ideia sempre falhada quando aplicada, mas cujo falhanço se deve a circunstâncias geríveis, não à ideia em si, essa é boa, é pena que uns homens maus a tenham sempre deturpado, quando tiveram poder para a aplicar, de acordo com os seus defensores.

Algures numa universidade qualquer, já estará a nascer um novo nome para substituir este quando, no fim dos tais dois anos de aplicação dos dinheiros do PRR, se verificar que, tal como das outras vezes, afinal os resultados não batem certo com as promessas.

Lá deixarmo-nos destes floreados e pagar, já hoje e directamente, aos gestores da paisagem os serviços que queremos obter, isso é que não, que eles são ignorantes, quando não mesmo estúpidos, pouco qualificados, atávicos e, em caso algum, devem ser deixados a tomar conta da sua vida, como se tivessem a capacidade de saber o que é melhor para eles.

Uma homenagem a Duarte de Castro (1939 - 2022)

por João Távora, em 01.07.22

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Morreu o meu Tio Duarte de Castro. Não sei se já alguma vez vos falei da importância que atribuo à família alargada, da diversidade de legado que nos concede uma comunidade de avós, tios e primos, na formação de pessoas mais livres e mais inteiras. Tenho o privilégio de ter crescido e vivido com a presença viva da família da minha mãe, que hoje se reencontra no céu com o seu irmão Duarte. Nós por cá é que ficamos mais pobres, menos amparados.

Duarte Nuno de Carvalho Gomes de Castro, nasceu a 13 de Março de 1939 em Cascais, na Avenida Emídio Navarro, morada que antecedeu a mudança dos meus avós Maria da Assunção e João António para a Casa da Avenida. Afilhado de baptismo do Senhor Dom Duarte Nuno, depois de ter frequentado o Colégio Militar, ingressou na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa no curso de 1964 onde ombreou com uma ínclita geração de juristas de que foi toda a vida amigo e cúmplice. Graças a isso sempre me foram familiares nomes como os de Alberto Xavier, António Sousa Franco, Augusto Ataíde, Augusto Ferreira do Amaral, Diogo Freitas do Amaral, Duarte Ivo Cruz, Eduardo Santos Silva ou Martim Albuquerque, rapazes cuja inteligência iluminou muitos serões da Casa da Avenida. Esta, foi uma geração que se empenhou no serviço a Portugal, seja embalada pela esperança na Primavera Marcelista ou na consolidação duma democracia liberal depois do 25 de Abril.

Do Tio Duarte, além do sportinguismo, do gosto pela boa conversa, interesse pela política e pela História, herdei a paixão pelos livros do Tintim, colecção que os possuía num armário do seu quarto de solteiro, que amiúde eu assaltava para me maravilhar com os feitos daquele nosso impoluto e jovial herói – como o eram os meus tios, na minha imaginação.

Foi a 18 de Setembro de 1971 que casou com Eugénia Torres Bastos de Morais acontecimento do qual me assaltam memórias do Copo d’Água no Turf, clube de que foi frequentador assíduo toda a vida. Dessa união ganhei quatro queridos primos direitos; são eles o João, o Vasco, a Mariana e o Bernardo. Quis o destino que o casal fosse morar para a Calçada Marquês de Abrantes, na casa em que, depois da morte dos meus avós, por muitos anos teve lugar a Ceia de Natal que era pretexto de reencontro da família Castro, e dos muitos parentes e primos direitos que nessa ocasião se reviam. O Tio Duarte, com a Tia Gena, teve o mérito hoje pouco valorizado de construir uma família sólida e estruturada nos valores cristãos.

O Tio Duarte, pessoa tão discreta como erudita, foi sempre monárquico assumido, sócio da primeira hora da Real Associação de Lisboa, e era como já referi, sportinguista, clube de que foi tesoureiro na presidência de João Rocha. Foi secretário de Estado dos Desportos do VII Governo Constitucional, aquele executivo AD de vida curta formado em 1981 após a morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa, liderado por Francisco Pinto Balsemão. Amigo muito chegado do meu pai, conquistou o coração e a inteligência deste seu sobrinho, que hoje chora a sua partida. Saibamos nós, que ficamos, dar sentido ao bom legado que a todos nos deixou, em amizade, exemplo e façanhas.

Imagem: Do livro de curso de 1964 da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa - caricatura não assinada. 

Literatura

por José Mendonça da Cruz, em 30.06.22

O Príncipe.Ter os amigos perto e os inimigos ainda mais perto. Agora o PM Costa tem ao lado, em vez de um (não tão) jovem lobo de voz grossa e alto querer, um cordeirinho cordato (e talvez sem espinha nem tomatinhos).

Fábulas. Há sapos e sapos para deglutir. Que saúde terá Santos depois de engolir o sapo Costa?

A Vida e o Destino. Pedro Nuno Santos ficou, talvez porque, como a maioria dos governantes socialistas, não tem para onde ir. Mas talvez pudesse gerir a empresa do pai...depois de nacionalizada, evidentemente, já que «o privado» e «a ganância do lucro» são coisas horríveis.

Constituição. O que governa um governo em que um ministro despacha despachos anulados no dia seguinte? Que ministra um ministro cujas decisões não se escrevem, e, caso sejam escritas são anuladas?

Portugal e o Futuro?  Portugal e o quem?!

 

Concepção e confusão

por João-Afonso Machado, em 30.06.22

A propósito da polémica decisão do Supremo Tribunal americano acerca da interrupção voluntária da gravidez, tenho lido e ouvido, ultimamente, um tipo de argumentação contestária para mim novidade e, afinal, demonstrativa do que é (o estado de espírito pró) realmente.

O fraseado e as imagens já só proclamam qualquer coisa como «a lei não manda no nosso corpo» (entenda-se, no das mulheres).

Aquando, porém, da discussão do tema em Portugal, os partidos e organizações similares centravam-se na questão, mais material, de condenar os nascituros a uma vida miserável, esfomeada, sem condições educacionais. Abortar - para fugirmos a eufemismos - era poupar uma criança à miséria e ao descalabro.

Dizia eu, então, - falamos agora mais sinceramente do egoísmo de uma mulher/mãe e da negação da sua vontade de o ser.

Como em tudo, manda o Direito Positivo, manda o legislador, manda a maioria ou a demagogia. Mas, ainda no seguimento dos iniciais argumentos (aliás, escritos e, por isso, irrebatíveis), muito se debateu acerca do momento considerado o do início da vida humana. Para aquém, o aborto seria lícito, para além já não.

É claro, depois fomos percebendo, o prazo limite fixou-se nas 8 semanas, depois nas 12... O ser humano cada vez nascia mais tarde. No maior dos desplantes, acrescente-se, tendo em conta a protecção que aos nascituros prevê o Código Civil, nesta matéria nunca alterado.

Do que sei do célebre aresto americano, a legislação sobre a interrupção voluntária da gravidez será atribuída à vontade deliberativa os diferentes estados da Federação, ou seja, a agitação social disseminar-se-á por 50 estrelinhas desses imensos EUA.

Por cá, não há ainda alterações quaisquer. Mas é óbvia a barulheira que descerá às ruas. De 8 para 12 semanas, o nosso PS, se farejar o voto, não hesitará em saltar de mais tantas para tantas. Não em nome do futuro dos nascituros e da sociedade (esses seriam os argumentos de Hitler, Mengele, Estaline ou Mao) mas, mais liberalmente, dos direitos da mulher. Estamos ditos.

Salvo num aspecto em que critico a Igreja Católica (da qual sou membro), mais as suas vigílias, velinhas e orações no escadório de S. Bento. Há que discutir a questão com base na Ciência e no Direito. Se a vida humana começa com a concepção, a morte de um nascituro constitui um facto ilícito; mas se a menina rica se excedeu com o namorado e tem dinheiro para abortar - no uso dos seus direitos de mulher - a senhora pobre, pobríssima, que assim age não atinge o mesmo grau de culpa. Decerto atinge nenhum. E um crime resulta sempre da valoração destes dois elementos: o objectivo (a ilicitude) e o subjectivo (a culpa).

Faça-se justiça!

Cavar trincheiras

por henrique pereira dos santos, em 29.06.22

Algures pelo fim dos anos 50, em Paris, uma mulher fica grávida.

O homem com quem tem uma relação amorosa intensa pressiona-a fortemente para faça um aborto, a mulher não quer abortar, e as tensões daí resultantes põem seriamente em risco a relação entre os dois, havendo uma séria possibilidade de que a mulher deixe o homem.

É por serem estas as circunstâncias que Jacques Brel diria mais tarde que "Ne me quitte pas" não era uma canção sobre o amor mas sobre a cobardia de um homem.

Quem ouça hoje as discussões sobre o enquadramento legal do aborto estranha a situação descrita.

O aborto sempre existiu e sempre existirá, independentemente do que diga a lei.

Durante muitos anos havia um largo consenso social na classificação do aborto como qualquer coisa negativa em si mesma, e os defensores da descriminalização do aborto centravam o grosso dos seus argumentos nos problemas sociais do aborto clandestino, socialmente muito desiguais, quase unanimemente reconhecidos pelos defensores de um ou de outro enquadramento legal.

A discussão parece hoje estar diferente e opõe duas morais irredutíveis e irreconciliáveis, o que torna tudo socialmente mais difícil.

De um lado, a moral que considera que a vida começa no momento da concepção e, consequentemente, um aborto é um homicídio que deve ser tratado como tal (estou a simplificar, não me macem com as complexidades na formulação deste ponto de vista, que eu sei que existem).

Do outro, a moral que considera que não há vida autónoma antes do nascimento e que, até lá, é tudo corpo da mulher, da sua inteira responsabilidade e em que mais ninguém tem de ter opiniões sobre o assunto (estou a simplificar, não me macem com as complexidades deste ponto de vista, que eu sei que existem).

Vou saltar por cima das situações limite - a miúda que é repetidamente violada pelo pai, o tio, o amigo lá de casa e acaba por engravidar - e dos cenários hipotéticos - quantos processos de paternidade podem ser perdidos por mulheres com o argumento de que o nascimento de uma criança é uma opção exclusiva da mulher, desde que engravida até que a criança nasça - para não sair do que me interessa: o que deve a sociedade fazer perante estas morais irredutíveis e irreconciliáveis e como deve ser o máximo consenso moral possível codificado na lei?

Para os defensores mais radicais - no sentido de ir à raíz - destas duas morais, a solução passa pela lei impôr a todos a sua moral, que consideram indiscutível (direitos humanos, dizem os dois lados, falando de direitos diferentes que se chocam nesta matéria).

Por mim, isto é cavar trincheiras, é fomentar sociedades mais polarizadas, como agora se diz e vou tentar argumentar que há caminho a fazer, se se partir do princípio de que a base pode não ser a moral de cada um tornada universal, mas o respeito pela moral do outro, por maior que sejam as diferenças.

Um mulher pobre, pouco qualificada, com características pessoais comuns, digamos, cabo-verdeana, foge da sua condição miserável, entrando ilegalmente em Portugal e sujeitando-se a todo o tipo de trabalhos que considera compatíveis com a sua dignidade e que lhe permitam resolver as suas necessidades.

Algures, num momento qualquer, engravida.

Não tem recursos, a família está longe, vai perder o seu trabalho e, eventualmente, o direito de residência e trabalho em Portugal, que conseguiu ao fim de alguns anos a fugir das autoridades, se decidir voltar para a sua terra e família, provavelmente para a miséria de que fugiu.

Não me interessa discutir qual é o seu dever moral face à gravidez, nem me interessa muito discutir a sua responsabilidade sobre a situação, o que me interessa é que, pesando tudo, a mulher decide fazer um aborto, independentemente do que esteja escrito na lei.

A pergunta que me interessa é se devemos, como sociedade, considerar criminosa esta mulher e, sobre as dificuldades que já tinha na vida, lançar o sistema penal sobre ela.

Mesmo que partilhasse a moral que considera que a vida começa no momento da concepção, mesmo que considerasse a responsabilidade da mulher na criação da situação em que se viu envolvida, penso que eu não conseguiria condenar uma mulher "em estado de necessidade", tal como aliás acontece em relação aos homicídios, em que o tribunal pesa todas as circunstâncias antes de definir uma pena e ainda existem indultos para casos excepcionais, para não falar da guerra, que aceitamos apesar de ser uma evidente violação do direito à vida para milhares de pessoas.

O mais que me vem à cabeça é o "vai, e não tornes a pecar" bíblico, por mais agnóstico que eu seja, como sou.

Eu sei que definir "estado de necessidade" será sempre difícil e complicado, podendo envolver uma publicitação de circunstâncias num assunto de evidente delicadeza, mas manter esta espécie de guerra civil embrionária entre duas morais - que não se manifestam apenas neste assunto, embora eu reconheça a singular complexidade moral que decorre da discussão de direitos de entidades autónomas, o feto e a mãe (vamos fingir que os pais não são para aqui chamados, aceitando como generalizada a sua cobardia nesta matéria, de que falei acima) - não me parece menos complicado e parece-me muito menos útil.

A mim, um radical de centro em muitas matérias, parece-me que quanto mais a lei se focar no problema social real que se pretende que a lei ajude a resolver, e menos nas morais antagónicas que lhes estão associadas, mais probabilidades temos de ter sociedades melhores para vivermos.

Não sou jurista, mas tenho a intuição de que a lei é, sobretudo, codificação de opções morais (e matemática, acrescentam juristas encartados).

No entanto, quanto mais moralmente enxuta for a lei, procurando os grandes consensos morais e o maior respeito possível pelas diferenças morais de cada um, menos trincheiras estaremos a cavar e mais espaço fica para o chão comum de que precisamos para ter comunidades em que nos reconhecemos.

Empresas a patrocinar abortos

por João Távora, em 28.06.22

mulhergravida.jpg

O artigo de hoje da Helena Garrido no Observador foi para mim como um pontapé na barriga. Talvez porque tenho em boa conta as suas opiniões em geral e sobre economia em particular, e esta seja favorável à banalização do mal na comunicação empresarial que é matéria do meu ofício – na sequência da decisão do Supremo Tribunal várias grandes empresas prometem patrocinar viagens das suas empregadas a outros estados para abortarem. Se sou capaz de entender os conflitos éticos e morais que comporta a opção do aborto, recuso-me a entendê-lo como um “direito humano”. Ao contrário um aborto é uma solução bárbara, que na maior parte das situações pode ser evitado por pessoas providas de vontade.
A questão é: não seria melhor para a reputação das empresas mencionadas no artigo, Disney, JP Morgan e Citi, Levi Strauss, Microsoft e a Apple, patrocinarem a boa utilização dos contraceptivos e uma vida sexual saudável entre os seus colaboradores? Não, porque isso não traz boa imprensa, e porque - suspeito - as consciências da maioria dos seus clientes não suportam enfrentar complexo conflito de valores que encerra uma gravidez acidental sem o resolver literalmente ao pontapé. Afinal tudo se resume a um umbigo. E à facturação, evidentemente. 

Ilídio de Araújo

por henrique pereira dos santos, em 28.06.22

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Ontem, ao fim do dia, ali no Palácio da Independência, fui à apresentação deste livro.

Cerca de 25 pessoas numa sala para a apresentação de um livro não é mau, mas apenas 15 paisagistas, praticamente todos pelo menos tão velhos como eu, na apresentação deste livro, a mim incomoda-me.

Ilídio de Araújo era um caso singular na arquitectura paisagista em Portugal, sob muitos aspectos.

Começando pelas suas origens: ao contrário da generalidade da primeira geração de arquitectos paisagistas - e, convenhamos, durante quase todo o tempo em que funcionou o curso livre de arquitectura paisagista, no ISA, totalmente assente no Professor Caldeira Cabral - que eram pessoas superiores, como Ilídio de Araújo também era, e vinham, quase invariavelmente, de boas famílias tradicionais, ao contrário de Ilídio de Araújo.

Como o próprio dizia, era filho de agricultores e o gosto pelas flores e pela vegetação vinha-lhe da mãe, não sendo indiferente o facto do seu contacto com a vegetação ter começado quando tinha a cara a menos de 40 cm do chão, o que, na sua opinião, lhe dava uma intimidade muito maior com esse mundo que a que alguma vez teria quem começasse a olhar para as plantas com os olhos a um metro e meio do chão.

Quando eu estava no curso, Ilídio de Araújo era uma espécie de mito longínquo, o único que estava lá para o Porto (na verdade, algum tempo depois, havia um segundo arquitecto paisagista, Manuel Ferreira, muito mais novo), num certo isolamento que sempre cultivou, e muito associado à história da arte dos jardins.

Explicou-me mais tarde que essa ideia resultava de um equívoco - o facto de por acaso o único livro que tinha publicado ser "Arte paisagista e arte dos jardins em Portugal" - que tinha resultado de um conjunto de circunstâncias fortuitas.

Ele próprio entendia que essa área da profissão que se lhe tinha colado não era, sequer, das que mais lhe interessavam e em que mais trabalhava. Isso não o impedia de ser o melhor nessa área, acrescento eu. Era, no entanto, uma fama injusta e que o diminuía, na sua própria opinião, mas era assim que olhávamos para ele, quando eu estudei no fim dos anos setenta, princípios dos anos 80.

Mais tarde, quando trabalhei com Ilídio de Araújo, percebi bem como era redutora a imagem que tinha criado dele durante o curso, sendo das pessoas com quem mais aprendi sobre paisagens, de uma maneira a  que provavelmente livro nenhum fará justiça: a capacidade para ler a paisagem, in situ - do Noroeste de Portugal, em especial, mas qualquer outra - era assombrosa.

Trabalhar com Ilídio de Araújo estava muito, muito longe de ser fácil, embora eu não tenha muita autoridade moral para fazer comentários sobre essa matéria. Nem mesmo o facto de o meu sogro ter sido seu colega no liceu de Braga e, mais tarde, em Agronomia, unindo-os pelo menos a condição de exilados minhotos em Lisboa, filhos de pequenos agricultores, facilitava a relação profissionalmente tensa e pessoalmente civilizadíssima.

A grande quantidade de interesses que tinha, a permanente curiosidade sobre tudo o que dizia respeito à paisagem, e a dúvida permanente que o levava a estar sempre a estudar pontos de vista diferentes sobre tudo, fazia com que muitos dos que trabalhavam com ele, em especial os jovens paisagistas que queriam estagiar com ele, desistissem, concluindo, acertadamente, que "o Ilídio não orienta, desorienta", como ainda recentemente ouvi.

Sempre lhe conheci um tom amargo sobre o rumo de evolução das paisagens.

Essa característica foi-se acentuando, sendo difícil convencê-lo a falar sobre paisagens, gestão de paisagens, ordenamento, em grande parte dos últimos anos da sua vida, embrenhado nas suas interpretações sobre a proto-história e a paisagem (sempre a paisagem, e sempre a procura de entender melhor o que via).

Não admira, por isso, que quando aceitou apresentar o meu primeiro livro no Porto, em que, ao arrepio do que já era a sua atitude geral de recusa de falar sobre paisagens, aproveitou para dar uma boa lição sobre paisagens, eu tenha optado por publicar grande parte desse texto neste post da Ambio.

Ilídio tinha o dom de dizer o que queria, da maneira como queria e, ao mesmo tempo, ser percebido por toda a gente, quer se concordasse ou não, com o que dizia:

"Naquele tempo eu andava pelas nossas paisagens à procura de problemas; hoje fujo deles como de perturbadores pesadelos ... só ... me fez quebrar o voto de não mais falar publicamente de «paisagens» num país cujos governantes confundem econometristas com economistas, desenhadores com urbanistas, idiotas com doutores. E para quem os problemas das paisagens são problemas de lana caprina que nada têm a ver com a produtividade final do nosso trabalho colectivo.

...
o progresso técnico, a explosão demográfica, o progresso humano e social, e a globalização mundial da economia, fizeram recair sobre a Administração Pública um volume imenso de tarefas de previsão e de coordenação, que eram imprevisíveis há 60 anos – quando a ambição máxima de desenvolvimento que se propunha para cada português não passava de uma cabana, uma horta e sete palmos de terra no cemitério paroquial (emprestados por quatro ou cinco anos). Hoje qualquer idiota doutorado em contas de mercearia e mestre escola incapaz de escrever um postal sem dar uma dúzia de facadas na ortografia da sua própria língua reclama do Estado o direito adquirido a uma infinidade de serviços mais ou menos gratuitos, e de um menu de mordomias e privilégios, acrescentado com vencimentos mensais de milhões de euros".

Tenho a certeza absoluta de ir chocar com muitas discordâncias, algumas repetidas das discordâncias de há quase quarenta anos, quando trabalhámos juntos, (frequentemente assentes na visão dirigista do mundo de Ilídio de Araújo por contraponto à minha visão mais liberal), no livro que comprei ontem e de que fui lendo uma coisa ou outra, mas também tenho a certeza de que não darei o meu tempo por perdido ao confrontar-me com essas discordâncias.

Do que tenho pena, e na realidade me espanta, é dos meus colegas mais novos acharem que ter a possibilidade de ler Ilídio de Araújo não valha uma ida ao Palácio da Independência, ainda para mais com a apresentação do livro por Alexandre Cancela de Abreu, ao ponto de não estar lá quase nenhum dos meus colegas mais novos.

Fazeis mal, camaradas, fazeis mal, não saber de onde se vem dificulta muito saber o que fazer no futuro, qualquer que ele venha a ser.

"A paz, o pão, habitação, saúde, educação"

por henrique pereira dos santos, em 27.06.22

O título deste post, de um refrão de Sérgio Godinho, é entendido por muitos dos meus amigos mais esquerdistas como sendo o que define as pessoas de esquerda, as que apoiam o acesso universal a estes bens, das pessoas que não são de esquerda, as que não se incomodam com as diferenças de acesso a estes bens.

Na verdade esta ideia é uma completa mistificação, mesmo que se lhe acrescente o que vem depois "só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação, quando pertencer ao povo o que o povo produzir", este programa é o programa mais transversal que existe na sociedade: salvo franjas marginais da sociedade, toda a gente está de acordo com ele.

No essencial, o que distingue a generalidade das propostas políticas não são as diferenças de objectivos - em especial objectivos tão genéricos como estes - mas as diferenças sobre a maneira de lá chegar.

Nestes cinco objectivos há duas notáveis convergências e três pontos de divergência muito relevantes no papel que o Estado deve desempenhar no caminho para obter estes bens.

Quanto à paz, quase toda a gente defende que é uma matéria mais bem tratada pela Estado que pelos privados, praticamente não havendo quem defenda a privatização da diplomacia, da segurança colectiva e afins.

Quanto ao pão, há mais gente que defenda a apropriação colectiva dos meios de produção, mas as experiências que foram feitas com base nesse princípio correram (correm, ainda há muito país no mundo que vive na ficção de que a existência de propriedade colectiva da terra, fora da esfera de influência da comunidade que directamente depende dela, produz menos fome que o respeito pela propriedade privada e o livre comércio de produtos alimentares), dizia, correram tão mal, mas tão mal, que hoje quase ninguém defende que ter um sistema de padarias do Estado sirva melhor as pessoas que o actual modelo privado, da terra à distribuição e venda, de produção e disponibilização de alimentos.

Quanto à educação e saúde, a discussão segue generalizada, e a experiência empírica portuguesa, de reforço da dualidade dos sistemas de educação e saúde é de tal maneira eloquente que, como agora, às vezes me falta a vontade para discutir o que me parece gritante. E eu estou do lado dos privilegiados, calculo que para os que estão na metade prejudicada, seja ainda mais gritante.

Um artiguinho no Público de um dia destes "Um bom negócio para os privados mas mau para o Estado", de Sónia Alves (Investigadora do Instituto de Ciências Sociais, who else?) fez-me querer fazer uns comentários sobre habitação e o seu acesso.

A habitação é um direito fundamental e é, ao mesmo tempo, um negócio altamente regulamentado pelo Estado, em nome de outros bens comuns como o ambiente, a protecção dos solos, a eficiência colectiva, a qualidade do espaço público, etc..

Reconhece-se o direito à habitação de qualquer pessoa, mas nega-se a qualquer pessoa o direito a materializar esse direito através da criação da sua própria habitação, uma actividade totalmente dependente da autorização do Estado, numa clara limitação do direito de propriedade.

É pois este o contexto em que Sónia Alves resolve falar de bom negócio para os privados mas mau para o Estado, a propósito da transferência da propriedade estatal de habitações para os respectivos utilizadores, uma opção de muitos governos, especialmente conhecida no caso do governo de Margaret Thatcher (cerca de um terço da população vivia em habitações sociais, antes da grande alienação de património habitacional feita a partir de Margaret Thatcher).

A pergunta que Sónia Alves formula é uma pergunta central (desta, ou de qualquer outra política pública): "Qual é a eficiência desta medida no médio e longo prazo"?

Sónia Alves parece muito preocupada com o facto das casas vendidas pelo Estado aos que as habitam acabarem no mercado de arrendamento ou de venda a preços especulativos. Como não se define o que são preços especulativos, vamos esquecer esse nariz de cera, e concentremo-nos na pergunta que interessa face a esta objecção: qual é o problema de o Estado se livrar de casas que não consegue gerir apropriadamente - é aí que reside o problema, milhares de casas tinham péssima manutenção, estavam em péssimo estado de conservação, eram um sorvedouro de dinheiro e não serviam os seus habitantes convenientemente, como acontece em Portugal e em quase todo o lado em que existe habitação social de promoção directa pelo Estado -, cobrando um valor que considera adequado, os compradores investirem nelas o seu esforço e capital e depois, as colocarem no mercado com mais-valias que os novos compradores e arrendadores consideram adequadas?

Ganharam os vendedores, isto é, pessoas comuns, ganharam os novos utilizadores, que passarem a ter acesso a um bem por um preço que acharam justo, e isso é um problema face a uma situação anterior em que ninguém tinha o seu problema resolvido?

Sónia Alves responde que como os valores dessa venda - de casas que, em grande parte, estavam em mau estado de conservação e eram mal geridas, não cumprindo a sua função de dar uma habitação condigna aos seus moradores - e o capital necessário para construir novas casas é muito diferente, o que impede a substituição do stock de casas do Estado o que aumenta o número de sem-abrigo nos municípios com necessidades de habitação mais acentuadas.

Vamos esquecer a discussão das razões da existência de sem-abrigo, para nos concentrarmos na pergunta base: por que razão não investe mais o Estado na construção de casas para quem não as pode pagar?

Quantas casas o Estado constroi e quantos sem abrigo existem (os números são tão desproporcionais que é completamente ridículo atribuir à venda de casas aos seus moradores a existência de sem-abrigo, que são muito menos que o stock de casas do Estado entretanto criado)? E em que medida o facto de ao mercado terem chegado as tais casas vendidas aos moradores pressionou os preços para baixo, por aumento da oferta?

Infelizmente números não é o forte do artigo, e não há respostas para estas perguntas, excepto para quem for ler o livro que é dado como referência no artigo, que demonstra como é ridículo o número de sem-abrigo face aos números de novas casas construídas todos os anos pelo Estado.

Como de costume neste tipo de argumentos há um axioma que não é discutido: é bom o Estado ter casas para garantir o direito à habitação dos mais pobres que não podem pagar os preços de mercado.

Este axioma segue o mesmo caminho intelectual da ideia de apropriação colectiva dos meios de produção: nunca se verificou na realidade, mas isso não é porque a ideia seja má em si, é apenas porque nunca foi bem aplicada.

E, enquanto reforçam o sistema para que um dia venha a funcionar bem, os mais pobres vivem como vivem, nas circunstâncias em que vivem, nas escolas que frequentam, recorrendo aos serviços de saúde a que recorrem, esperando, espero que ao menos sentados, os amanhãs que cantam.

O pão, felizmente, não lhes falta porque o sistema de terras do Estado, com alfaias do Estado, apoiado em armazéns do Estado, que fornecem padarias do Estado, o faz chegar à sua mesa.

Acho que me perdi na argumentação, não tenho a certeza de ser assim que o pão lhes tem vindo a chegar à mesa, mas agora isso também já não interessa nada, toda a gente sabe que o pão é uma coisa demasiado importante para ser um negócio nas mãos de privados que só pensam no lucro.

Domingo

por João Távora, em 26.06.22

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram a Jesus: «Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?». Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os. E seguiram para outra povoação. Pelo caminho, alguém disse a Jesus: «Seguir-Te-ei para onde quer que fores». Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Depois disse a outro: «Segue-Me». Ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar meu pai». Disse-lhe Jesus: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus». Disse-Lhe ainda outro: «Seguir-Te-ei, Senhor; mas deixa-me ir primeiro despedir-me da minha família». Jesus respondeu-lhe: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus».

Palavra da salvação.

Comentário: Desde agora, o Evangelho apresenta Jesus a caminho da Paixão. Esta caminhada de Jesus é entendida, de maneira diversa, pelas várias pessoas que dela têm consciência ou que Jesus até convida a segui-l’O. Seja qual for a situação de cada um, só há uma atitude certa: seguir o Senhor, como fez Eliseu quando Elias o chamou, como fez S. Paulo e os outros Apóstolos, e todos aqueles, que, um dia chamados, souberam escutar a sua voz.

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O problema do bacalhau à Braz

por henrique pereira dos santos, em 25.06.22

Desta vez, Graça Freitas tem menos responsabilidades das que lhe atribuem no acessório, mas mantém intactas as responsabilidades que lhe cabem no essencial.

"Não sei se têm a noção que no Verão há muitas infecções tóxico-alimentares colectivas.Tradicionalmente em Portugal - eu vou dizer uma que é absolutamente verdadeira, quando nós investigamos - o grande responsável é o bacalhau à Braz. Aqueles grandes convívios, pic-nics, excursões, uma das coisas mais usadas é o bacalhau à Braz, que está pré feito desde manhã, e depois aquece-se, não chega a aquecer à temperatura suficiente e que leva ovos. E aqueles ovos são uma cultura das salmonelas do melhor que há. E portanto, grande parte - até é pouco estimulante para investigar e estudar - as toxinfecções alimentares, invariavelmente, são bacalhau à Braz e salmonelas".

É claro que Graça Freitas pelo meio fala em pic-nics, mas o que está a dizer é cristalino: naqueles grandes convívios, excursões e etc., não está propriamente a falar de pic-nics familiares e afins, note-se, por exemplo, que refere explicitamente o facto do dito bacalhau à Braz ser aquecido antes de servido, o que manifestamente não corresponde ao que chamamos pic-nics normalmente.

Ou seja, o destaque dado pela imprensa aos pic-nics é da responsabildiade da imprensa, não de Graça Freitas.

Já o resto da conversa, a apresentação de um plano "Juntos por um Verão seguro 2022" ser apresentado pela Directora Geral de Saúde, da forma como é feito, e com as características que tem, isso sim, é da sua responsabilidade.

A forma como a DGS nos trata a todos como se fôssemos todos tontos, a conversa infantil que inclui piadas e descrições sobre o bacalhau à Braz, em que se misturam pic-nics, grandes excursões e falta de interesse para os investigadores - senhora directora-geral, a sua Direcção Geral existe para resolver problemas das pessoas comuns, não para estimular investigadores e estudiosos - ao mesmo tempo que se omitem dados concretos (por que razão não diz taxativamente que x% das infecções toxico-alimentares correspondem a este tipo de situações, y% a outra coisa, z% a uma terceira?) é exactamente o modelo de comunicação que sempre foi usado durante a epidemia de Covid.

Muita opinião, muito argumento de autoridade, um tom muito maternal - confesso que me incomoda muito mais o tom untuoso com que se refere ao seu Secretário de Estado, ou até ao nosso Secretário de Estado, que esse seu tom maternal - para os meninos se portarem bem.

Informação concreta sobre os assuntos, dados e, sobretudo, sabendo que o uso de ovos mal cozinhados é um problema de primeira grandeza, que tipo de acções preventivas e fiscalizadoras a sua Direcção Geral vai fazer, isso é que já é mais difícil, não é?

E, já agora, para que raio é preciso um programa pomposo para este Verão, apresentado pela Senhora Directora Geral?

Isto não é a actividade normal da sua Direcção Geral? As acções específicas para o Verão não são actividade normal que um subordinado seu consegue desenhar, executar, acompanhar e comunicar, sem grande espalhafato, incluindo um balanço de acções específicas depois do Verão, com lições aprendidas para o ano seguinte e para a actividade futura da sua Direcção Geral?

Ou continua convencida de que o papel da sua Direcção Geral é levar as pessoas a ter os comportamentos que a sua Direcção Geral entende que são os ideais, em vez de se focar nos comportamentos da sua direcção geral para atingir os objectivos definidos com bases sólidas?

Claro que ter campanhas para que as pessos lavem as mãos, ou evitem ter ovos mal cozinhados ao calor demasiado tempo, até cabem na missão da sua Direcção Geral, mas não deixam de ser meras acções de suporte de estratégias claras, bem fundamentadas, para a defesa da saúde geral da população, em que o essencial continua a ser ter um sistema de saúde funcional em qualquer parte do país, estejam ou não as pessoas na sua área de residência, acções de fiscalização dos agentes económicos onde existe maior risco de saúde pública, como nos prestadores de serviços que servem bacalhau à Braz mal manuseado, e outras coisas que tais.

E deixe-se de piadas e conselhos maternais sobre o que os outros fazem, que isso não nos leva a lado nenhum, pessoalmente não tenho interesse nenhum em saber quanta água carrega na sua carteira para que eu passe a andar também com garrafas de água atrás, como lhe parece a si que seria a minha obrigação.

Faça o que tem a fazer como Directora Geral de Saúde e deixe lá o que faz a senhora Graça Freitas, que isso não é matéria de interesse público.

Jéssica

por João Távora, em 24.06.22

jessica.jpg

A propósito do hediondo caso de tortura e assassinato de uma menina de 3 anos em Setúbal que a todos nos vem martirizando as consciências, Marcelo Rebelo de Sousa relevou o sinal de miséria moral que o caso evidencia e que nos deve fazer reflectir. Desta vez confesso que estou de acordo com o ângulo da perspectiva do comentador, que acedo a aprofundar. Se por estes dias se ouvem muitas vozes genuinamente indignadas com a falha do Estado e dos seus organismos, julgo que esse é o ponto menos relevante, independentemente de reformas e aperfeiçoamentos que eles mereçam. No meio do choque e incredulidade com os meandros da macabra história, julgo ser necessária a lucidez de aceitar que a maldade sempre existiu e existirá em potência e (ainda bem) que nos consegue surpreender desta maneira mais brutal – porque é contra-natura e antinatural, um acontecimento raro, portanto. E que a única forma que temos de precaver a ocorrência casos de crueldade indizível como estes é o estreitamento da malha social, através das instituições orgânicas que a compõem e estão em profunda crise, as comunidades num processo de atomização voraz e consequente desenraizamento humano. Colocar no lugar da família alargada, da comunidade de proximidade, da paróquia, ou de outros organismos intermédios, uma máquina de vigilância estatal que actue como um colossal polvo policial, é no meu entender um erro grave, não só porque a sua eficácia será sempre risível na gestão do conflito de valores que este tipo de matéria sempre gera, mas porque nada consegue substituir as relações de proximidade duma comunidade estruturada e com valores morais. O “policiamento” dos núcleos familiares problemáticos por entidades estatais é por natureza propensa ao erro e ao abuso, estou em crer. O que eu quero dizer é que temos sorte de não sermos mais vezes confrontados com outros casos chocantes de bestialidade humana como o de Jéssica, tendo em conta a solidão e miséria moral que grassa na sociedade que emerge da modernidade individualista e hedonista que construímos.

Deus receba a menina Jéssica no seu colo acolhedor, tenha piedade dos seus malfeitores e nos perdoe não a termos salvo.

Como contar

por José Mendonça da Cruz, em 23.06.22

Todos os cursos de jornalismo deveriam incluir (mas não incluem) esta pequena lição sobre como se relata um drama. Um dia, uma professora de liceu perguntou às meninas e meninos da sua turma mista se gostavam ou não de caça. Os meninos e as meninas manifestaram-se todos contra com grande ênfase e algazarra. «Então», disse a professora, «escrevam uma redacção sobre isso, explicando porque não gostam da caça. Amanhã lemos as melhores.»

Mas, no dia seguinte, afinal, a professora só leu uma redacção. Resumiu 29 das 30, que eram todas iguais. «Ah, a caça é muito má, os homens são cruéis, matam os animaizinhos inocentes só para se divertirem e ganharem dinheiro, não pensam nas ninhadas que ficam orfãs, não pensam na dor de um casal quando um deles é morto, querem é explorar a natureza, não têm respeito por nada, nem pelo sofrimento dos animais, nem pelo ambiente.» E assim por diante.

A professora leu, no entanto, a redacção de um dos meninos. Dizia assim: «O caçador apontou bem e disparou. A bala fez um som surdo quando atingiu o veado e levantou pó no pelo. As mãos do veado estremeceram, dobraram-se, ele tentou levantar-se, mas teve uma convulsão, e ajoelhou, e o peito e o focinho bateram no chão. Depois caiu a garupa. O veado tombou inteiro numa nuvem de poeira. O caçador saiu do esconderijo e aproximou-se. O veado arfava, o buraco que a bala fizera jorrava golfadas de sangue e da boca do animal saía uma aguadilha, uma mistura de baba e de sangue. Os olhos do veado estavam cheios de medo, o caçador viu-os, mas depois o veado resfolegou, vomitou mais sangue com baba, e deixou de respirar e os olhos, muito devagarinho, deixaram de olhar, e depois perderam o brilho, e depois ficaram baços.»

Quando a professora acabou de ler a redacção deste menino -- que não tinha dito para proibirem a caça, nem para matarem os caçadores, nem para ilegarizarem as espingardas, nem proclamara que os veados são a mais bela criação do mundo, nem jurara que a caça mata o ambiente e o ambiente nos vai matar a todos -- quando acabou de ler a redacção os meninos e as meninas choravam baba e ranho todos.

Ora, embora correndo o risco de, com considerações deste género, estar a educar alguns fanáticos de «causas», eu faço-as ainda assim. Porque julgo que os fanáticos de causas não aprendem nada, nem sequer o que seria eficaz para eles. Não, o meu propósito é mais modesto: é evitar que numa reportagem sobre uma cidade ucraniana deserta e devastada o jornalista comece por dizer que «é como o dia a seguir a uma festa» ou «como a estação quando o comboio já partiu». É que, como os dos meninos excitados, há textos armados em lintratura ou pô-é-zia que não são só vãos e indignos, são estúpidos.

Sonho numa noite de Verão

por João Távora, em 22.06.22

Ronaldo.jpg

Neste período difícil de absoluta inactividade futebolística de interesse, quando há que arregaçar as mangas da imaginação para especular algo de jeito que cative o leitor ávido de futebol, usam-se as peripécias mais manhosas para encher os chouriços que são as páginas de jornais desportivos e os painéis televisivos sobre bola. Das diárias notícias sobre promessas de contratações sonantes e vendas milagrosas há uma em especial que me consegue desviar a atenção dos meus afazeres: a promessa do retorno a Alvalade de Cristiano Ronaldo. Confesso-vos uma coisa: o meu maior sonho era ver o Sporting Campeão Nacional com Cristiano Ronaldo na equipa e Ruben Amorim aos comandos. Já pensaram bem o que seria? Uma época com o estádio cheio sempre a cantar.

Post publicado originalmente aqui

Propaganícias

por José Mendonça da Cruz, em 20.06.22

Revela na Sic, hoje, o primeiro-ministro que as pensões vão ter um aumento «histórico», em cumprimento de uma lei cujo autor não lhe ocorre. É para 2023.

Um membro do Governo diz, hoje, na Sic, que o Siresp vai entrar em funcionamento. Custa 75 milhões e mais 150 de aperfeiçoamentos. Estará em pleno em 2026.

Outro membro do Governo anuncia, hoje, na Sic, que o pagamento do abono de família vai passar a ser simples e automático. Em 2028, sem falta.

Devemos esperar para amanhã o hidrogénio verde para 2070, o TGV para 2080, o novo aeroporto para 2085, a perspetivação para o futuro da previsão da possibilidade de eventuais lucros na TAP?

2023?! 2026?! 2028?!

Serão propriamente notícias, ou uma barragem de propaganda veiculada pela informação do irmão do primeiro-ministro para distrair do caos no SEF e no SNS? Ou uma coisa e a outra serão sinónimos?



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