Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Manual para arranjar inimigos

por henrique pereira dos santos, em 25.01.20

"Se tu olhas para uma mulher com a cara toda esmurrada e começas logo a procurar justificar aquilo que lhe aconteceu, desculpando quem lhe fez aquilo, és uma besta" (André Solha)

"Para mim ser liberal também é isto: na dúvida assumir a posição de defesa do indivíduo quando do outro lado está uma organização - o Estado - que tem o monopólio do uso da força." (Carlos Guimarães Pinto)

"Se a senhora foi esmurrada já depois de algemada, dentro do carro da polícia, o seu cadastro interessa zero e a duração dos murros também" (João Miguel Tavares)

Três citações que parecem inquestionáveis (enfim, a do meio, de Carlos Guimarães Pinto, só é inquestionável para liberais).

E uma boa base para discutir o papel do jornalismo no combate ao racismo.

Estas afirmações são perfeitamente compreensíveis e admissíveis como comentários a uma situação "que por violenta e injusta/Ofendeu o coração de um pintor chamado Goya/ Que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor" (sim, poderia ter parado a citação em "coração", o que a tornaria mais compreensível neste contexto, mas achei que, embora menos evidente, valia a pena lembrar que a raiz da ofensa é a injustiça, se perde na origem dos tempos e tem uma expressão muito maior que a causa concreta a que cada um dos corações ofendidos dedica mais afecto).

Para os jornalistas de causas, o seu papel é apenas o de amplificar "a fúria e amor" dos ofendidos e deserdados, por isso este registo emocional chega-lhes e sobra, tanto mais que, frequentemente, confundem a injustiça com a desigualdade, com o que isso acarreta de viés.

Em matéria de racismo o Público tem um bom exemplo neste tipo de jornalismo e por isso, sobre o assunto em torno de Cláudia Simões tem três artigos, em três dias seguidos, assinados pela mesma jornalista (Joana Gorjão Henriques), ilustrados sempre com a mesma fotografia da tal cara esmurrada citada acima. Em dois dos três artigos, Joana Gorjão Henriques repete textualmente "Peixoto Rodrigues, que foi candidato na lista do líder de extrema-direita de André Ventura às eleições europeias, lidera o sindicato ao qual pertencem 16 dos 17 polícias da esquadra de Alfragide que foram a julgamento acusados de racismo e tortura contra seis jovens da Cova da Moura  - oito foram condenados por agressão e sequestro" (para este tipo de jornalismo, a proposito de Cláudia Simões, o importante é publicar, em dois dias seguidos, este texto manifestamente marginal para o que está em causa). Claro que para este tipo de jornalismo é irrelevante que, em julgamente, as acusações de racismo e tortura tenham caído para os 17 acusados e que nove dos acusados tenham sido ilibados das acusações porque os factos interessam menos que a agenda anti-racista e o importante é passar a ideia que se quer defender.

Um jornalismo sério (e, por isso, anti-racista) teria feito algumas coisas básicas: pedir a médicos experientes que interpretassem os sinais da cara esmurrada de modo a que tivéssemos informação sólida sobre o tipo de agressões que lhe poderão estar na origem (eu, ignorante me confesso, não sou capaz de saber a gravidade das escoriações a partir do que vejo, nem que tipo de agressão as poderá ter provocado), teria feito todos os esforços para ouvir o motorista em causa (já agora, há notícias de um motorista da Vimeca agredido ontem, não havendo certezas sobre a sua identidade, o que é suficientemente grave para chamar a atenção para a limitação do princípio, com que concordo, enunciado acima por Carlos Guimarães Pinto, e que se prende com as consequências da fragilidade das instituições na defesa dos outros indivíduos envolvidos nesta história), teria procurado outros passageiros (para além do sobrinho da vítima) e, jamais, poderia ter assumido como factuais as versões das diferentes partes envolvidas (a vítima e a polícia). A ideia de que os testemunhos das vítimas merecem ser mais credibilidade que os outros é uma ideia perversa em crescimento, confundindo-se atenção (que, essa sim, é devida mais às vítimas que a quaiquer outros) com credibilidade.

O jornalismo sério ter-se-ia concentrado naquele "se" de João Miguel Tavares, que é a questão chave.

Que existem abundantes exemplos de uma polícia pouco transparente e capaz de fazer o que a advogada de Cláudia Simões diz que aconteceu em relação à primeira queixa feita contra o polícia, não há qualquer dúvida (a única referência da queixa à actuação da polícia seria ao mata-leão e nada sobre agressões, mas isso dever-se-ia ao facto da polícia não ter registado adequadamente a denúncia que, em qualquer caso, foi assinada por Claudia Simões, no dia seguinte de manhã. Uma pessoa pode sempre assinar coisas sem as ler convenientemente, mesmo 11 horas depois dos factos, porque está com pressa para ir para o hospital depois, como foi o caso). Isso é verdade e é um problema estrutural das nossas instituições (não escrevi da nossa polícia, porque é uma questão bem mais geral, e as nossas instituições, incluindo os nossos jornais, são férteis na manipulação de testemunhos e na falta de respeito pelas pessoas concretas que confiam nelas).

Por exemplo, ainda esta noite o Diário de Notícias (Suzete Henriques) dizia que a fita do tempo da ocorrência refere três minutos entre a saída do carro patrulha da paragem do autocarro e a chamada telefónica para o 112 a pedir "assistência para uma cidadã detida com escoriações no rosto", o que é totalmente incompatível com uma hora de espancamento referido por Cláudia Simões, não na denúncia registada e assinada por ela na Segunda de manhã, mas nas versões que foi apresentando depois, já com apoio do SOS Racismo (voltemos à cara esmurrada, o que vejo também me parece incompatível com um espancamento dessa dimensão, mas não sou médico, nem jornalista, posso escrever isto aqui porque sei que ninguém lhe atribui mais importância que a devida a um mané qualquer que tem uma opinião não fundamentada sobre um assunto que desconhece). E o Diário de Notícias, e bem, tem o cuidado de explicitar as suas dúvidas: "Uma questão que se coloca e que não foi possível ainda esclarecer com os bombeiros é, caso esta fita de tempo esteja correta, porque demorou praticamente uma hora entre a chamada e a entrada no hospital".

E esta é a questão, caro João Miguel Tavares: se houve espancamento de uma pessoa presa, é evidente que o curriculum das pessoas ouvidas é irrelevante, mas para saber se esse "se" é provável ou não, o curriculum das pessoas e instituições ouvidas não é nada irrelevante.

O problema central em Portugal é que quer a polícia, quer os jornais, nesta matéria, justa ou injustamente, são considerados como fontes pouco idóneas de informação, havendo muita gente a achar que têm mais cadastro que curriculum.

E, aí, voltamos à citação de Carlos Guimarães Pinto: para um liberal, fazer das instituições do Estado entidades confiáveis é, seguramente, uma das principais prioridades políticas em Portugal. Isso não se faz contra o Estado, mas discutindo seriamente as regras que regem as relações entre as pessoas comuns e o Estado: neste caso, desde o primeiro momento, há um conjunto de informações (incluindo a famosa fita do tempo das ocorrências) que me parece que deveriam ser de acesso público e fácil.

Quanto aos jornais, enfim, são o que são e não vejo muita forma do corporativismo dos jornalistas aceitar um verdadeiro escrutínio que permita separar o trigo do joio na profissão.

CDS: mudar ou morrer

por João Távora, em 24.01.20

"O que está em causa, pois, no próximo Congresso não é apenas a escolha de perfis de candidatos mais ou menos competentes, com quem temos maior ou menor empatia. O que está em causa é a própria razão de ser do CDS. Se não formos provocação, sinal de contradição, corremos o risco de ser dispensados."

A ler a opinião de Filipe Anacoreta Correia aqui

Da ideologia de género

por João Távora, em 23.01.20

“Assim como para assegurar a eliminação das classes económicas é necessária a revolta da classe mais baixa, o proletariado, e numa ditadura temporária a tomada dos meios de produção, também para assegurar a eliminação das classes sexuais é necessária a revolta da classe mais baixa, as mulheres, e a tomada do controlo da reprodução. Assim como a meta final da revolução socialista não era apenas a eliminação do privilégio da classe económica, mas da própria distinção da classe económica em si mesma, também a meta final da revolução feminista deve ser não apenas a eliminação do privilégio do homem, mas da própria distinção sexual em si mesma.”

Shulamith Firestone, 1970

"A ideologia de género entende-se como um conjunto de ideias anticientíficas que com propósitos políticos extirpa a  sexualidade humana da sua realidade natural e a explica somente pela cultura."

Agustin Laje

Selfies e Flores

por José Mendonça da Cruz, em 22.01.20

Os habitantes da ilha das Flores, nos Açores, receberam em Janeiro os produtos tradicionais do Natal, e ficaram até Janeiro com as prateleiras vazias nas despensas, nas mercearias e nos supermercados. Havia barco ou avião para o presidente ir jantar com socialistas e tirar umas selfies por lá apesar dos ventos e dos mares. Para transportar víveres essenciais é que não.

Está, portanto, na hora de algum personagem exótico do lamentável governo português ou do seu irmão açoriano, dizer uma graçola qualquer. Não o primeiro-ministro, claro, que deve reservar o alto verbo para platitudes ou disparates sobre Portugal, em particular, e o Mundo em geral. Mas podia vir algum dos abundantes ministros e ajudantes dizer, por exemplo, que está na altura de os habitantes das Flores vagarem aquelas paragens e irem para um sítio qualquer mais à mão. Ou lembrar que os Florianos têm lá relva e hão-de ter vacas e galinhas, pelo que só não comem porque não querem, ao menos leite e bolinhos. 

Negócios de Santos

por José Mendonça da Cruz, em 22.01.20

Teremos que esperar sentados para que apareçam nas notícias sobre Isabel dos Santos (antes tão lisonjeiras e agora tão justiceiras) alguma coisa sobre isto, que corre nessas «redes sociais» de que os criados do poder nos media têm tanto medo.

negócios de santos.png

O Polígrafo da Sic e do Expresso, pressuroso, classifica esta notícia de imprecisa. Sabem porquê? É que está tudo certo, mas os milhões dos contribuintes não foram mil milhões, foram cerca de três mil milhões. Diz muito sobre esta gente do Polígrafo, da Sic e do Expresso, não? Insistindo: nas notícias da Sic, da Tvi e da RTP sobre Isabel dos Santos, que tem 40% doBic, hoje EuroBic, ouviram falar do nome de Teixeira Santos? Não?

Domingo

por João Távora, em 19.01.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João


Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu encontro, e exclamou: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. É d’Ele que eu dizia: ‘Depois de mim vem um homem, que passou à minha frente, porque era antes de mim’. Eu não O conhecia, mas foi para Ele Se manifestar a Israel que eu vim baptizar na água». João deu mais este testemunho: «Eu vi o Espírito Santo descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre Ele. Eu não O conhecia, mas quem me enviou na baptizar na água é que me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito Santo descer e permanecer é que baptiza no Espírito Santo’. Ora, eu vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus».

Palavra da salvação.

Joacyne no recreio

por João-Afonso Machado, em 19.01.20

Saltou como uma pantera negra assanhada para o pulpito e desatou aos berros: que eram todos uns mentirosos, como se atreviam!...

Depois foi sempre confundindo o singular com o plural, consoante lhe dava mais jeito. Sem ponta de gaguejo, sempre vociferando, - ora como ousava o partido trair a confiança nele depositada pelos eleitores, ora como podia ela ser acusada de actuar à revelia do partido?

Não tropeçou a descer a escada do pulpito, prosseguiu gesticulando, urrando, e, já no seu assento, não sossegava, voltada para trás, ameaçando não sei quem. 

O Livre entreolhou-se assustado. Joacyne acabara de o conquistar sob mão de ferro. A decisão de lhe retirar a confiança política foi imediatamente suspensa e a emissão televisiva também.

Manifestamente pouco à vontade, Ricardo Sá Fernandes tentou explicar o inexplicável. Até a uma pretensa «diferença cultural» se agarrou (ah, mas afinal não somos todos iguais?); e a questões de feitio, outrossim, (ah, mas afinal não é suposta a urbanidade dos congressistas, a sua educação?)

E a um canto, calado como um ratinho de coração aos pulos, o tótó da turma - o menino Rui Tavares.

O que vale a vitória de Rio?

por João-Afonso Machado, em 19.01.20

Contra todas as suas expectativas, o baronato do PSD perdeu as eleições internas. O forte sismo sentido entre eles a 8 de Janeiro, replicou-se ontem: Rio é preferido pelos militantes. Estou absolutamente convencido, pelo eleitorado também.

Será, por isso, o homem certo na hora certa no mais incerto partido social-democrata. Essa a grande fatalidade: o que há de fazer Rio das suas profundas convicções ideológicas, entre uma multidão cada vez menor e mais esparsa?

Ouvi-o ontem apelar à união de esforços, ao apaziguamento do partido e à conquista do País político. Que cessassem as querelas intestinas, proclamava Rio.

Em resposta, Montenegro, depois dos cumprimentos da praxe, deixou a sua ameaçazinha, adaptada do célebre dito de Mark Twain - «As notícias da minha morte são manifestamente exageradas»...

Costa ouviu e citou Napoleão - «Estamos contentes convosco».

Pensamento mágico

por José Mendonça da Cruz, em 18.01.20

Uma maioria relativa de portugueses, ajudada pelo descaso dos abstencionistas, a apatia da direita,  e um número indeterminado de ovinos confiou aos socialistas a gestão da coisa pública. Os socialistas passaram, portanto, a crer-se donos disto tudo, e vê-se que consideram que não há nada que os trave.

Nos momentos de serenidade e boa disposição, fazem como um ministro que manda povoações mudarem-se de sítio para evitar cheias provocadas pela incúria e a incompetência; ou como o secretário de Estado que, para remediar o caos e a espera nos hospitais públicos recomenda que se sirva chá e bolos a quem espera; ou, então, como a inenarrável patroa desse secretário, mandam criar um gabinete ou um observatório qualquer para darem mais uns lugares aos amigos, e fingirem que assim resolvem problemas como o da violência contra o pessoal dos hospitais.

Nos momentos de irritação e destempero, chamam nomes aos empresários que resgataram o país do fosso de onde eles o meteram, como o trauliteiro Santos Silva; ou, como o senhorito Fernando Medina, resmungam contra quem critica a apropriação de dinheiro alheio (da Segurança Social, desta vez) para investimentos úteis como propaganda, mas medíocres e irresponsáveis financeiramente; ou dizem uma patetice diária com um esgar sorridente, e depois, na calma dos gabinetes, põem fim a todas as PPPs hospitalares que garantem bom serviço aos utentes com poupanças para o Estado, para as entregarem a clientes e primos.  Se os criticam, exaltam-se contra tudo e todos, de reizinho na barriga.

Chefia-os, nas boas e nas más horas, um homem que esta semana na Assembleia da República se espantou com sugestões de baixar os impostos para reanimar a economia, por as considerar «pensamento mágico». Portugal vai sendo ultrapassado por países que praticam, exatamente, esse «pensamento mágico», ou seja, uma governação não socialista, e resvala firme e consistentemente para a situação de país mais pobre da Europa. Mas por cá estamos assim; gostam deste caminho e deste destino uma maioria relativa de portugueses, o descaso dos abstencionistas, a apatia da direita e um númeroindeterminado de ovinos. 

Rua das Pretas vítima de racismo

por José Mendonça da Cruz, em 16.01.20

img_800x533$2020_01_16_18_30_52_917430.jpgTomando para mim a ponderação, o conhecimento e a inteligência de um Mamadou Ba e das suas confrades do Bloco, declaro que a Rua das Pretas vem sendo vítima de racismo por parte da Câmara de Lisboa, que permite inundações frequentes naquela artéria com total desprezo e indiferença.

Mais declaro, fazendo meus o a-propósito e a sapiência do inultrapassável ministro do ambiente que, dada esta situação, a Rua das Pretas devia mudar-se imediatamente mais para cima, ou seja, muito apropriadamente para o Campo dos Mártires.

Do 28 Congresso do CDS

por João Távora, em 16.01.20

28 congresso.jpg

A minha irrelevância dentro do CDS é um facto, não levo a mal: não estarei no Congresso de Aveiro porque não consegui merecer um lugar elegível na lista única de delegados por Cascais, segundo me constou por não ter participado muito na vida da Concelhia. Tenho consciência de que outros compromissos que considero prioritários me limitaram a disponibilidade para a vida partidária, para a qual porventura não tenho vocação. Sem ressentimentos portanto. 
Resolvida essa questão, não posso deixar de manifestar a minha profunda preocupação com o aperto por que passa o meu partido de (quase) sempre. E tenho a confessar que fui daqueles que chegaram a se entusiasmar com Assunção Cristas, cuja estética política (e de vida) corresponde em boa medida à minha. Tenho dificuldade em compreender a dinâmica de derrota que no último ano se foi evidenciando, e acho que a “questão dos professores”, tendo sido um erro grave, não justifica o descalabro verificado, que porventura vinha de trás, dos tempos do resgate da Troika mas que estava mascarado. Gostava de deixar expresso que fico agradecido a Assunção Cristas pelo empenho e entrega que demonstrou na liderança do CDS nos últimos anos, e tenho dúvidas que nos tempos mais próximos apareça alguém com as suas qualidades políticas, intelectuais e humanas.
Quanto ao futuro, confesso que nenhum dos cinco candidatos pré-anunciados me consegue seduzir por aí além e receio que a travessia do deserto que espera a direita moderada - o ar do tempo não está para moderados e a inteligência sempre teve dificuldade de se fazer ouvir – signifique a dissolução do partido. Acho pouco plausível que surja uma boa surpresa em Aveiro mas estou disponível para admitir o engano. Para a semana ficarei por cá pelo Estoril a torcer pelos meus amigos, e vou rezar para que a disputa pelo partido não dê cabo do que resta dele (o espectáculo que se vem assistindo nas redes sociais não é um bom indicador). Afinal é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.

Tags:

Um bocado de sentido crítico seria útil

por henrique pereira dos santos, em 13.01.20

Numa peça do Observador, lê-se: "No Irão, o estratega militar Soleimani era uma das figuras mais amadas, um herói do regime. Prova disso foi o funeral do general, presidido por Khamenei e com a presença de milhares de iranianos nas ruas, que choraram a morte de um líder.".

Estas coisas acontecem, é certo, e eu não gostaria de ser injusto para com o jornalista, mas admitir como prova de amor do povo a um dirigente, a presença de milhares de pessoas no funeral de um dirigente de um regime autocrático, parece-me que é ir longe de mais para um jornalista.

Por essa ordem de ideias, quase todos os ditadores do mundo são amadíssimos pelos seus povos, a julgar pelas milhares de pessoas em manifestações promovidas pelos respectivos regimes (os exemplos não faltam, desta a triunfal deslocação de Marcelo Caetano a África, já quase nas vascas do regime, até ao enterro de Fidel Castro).

Teresa Andresen e Gonçalo Ribeiro Telles

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Este é um post invulgarmente longo (parece que coisas deste tamanho não se escrevem em blogs) porque essencialmente reproduz o discurso de Teresa Andresen na aceitação da primeira edição do prémio Gonçalo Ribeiro Telles.

De meu tem apenas a introdução que é irrelevante para o essencial, mas que preferi fazer para deixar claro o que penso numa matéria sobre a qual quem me conhece poderá ter dúvidas.

Hoje, à procura de um outro texto, tropecei no que escrevi em 2012 sobre Ribeiro Telles: "Ao passar à porta de um café vi Ribeiro Telles sentado a ler os jornais do dia. Quem tem lido o que escrevo sabe que, de maneira geral, onde estiver Ribeiro Telles eu estarei na oposição. Mas nunca confundi as minhas divergências de opinião com a genuína simpatia que tenho por Ribeiro Telles pelo que, apesar do tempo contado, entrei no café e fiquei por ali dez minutos a conversar sobre o projecto da Faia Brava ou sobre o que estamos a fazer em Vila Pouca de Aguiar com o controlo de combustíveis através do pastoreio dirigido. Como sempre a curiosidade de Ribeiro Telles, as perguntas que faz, o interesse pelo que desconhece é cativante e saí dali, atrasado (coisa que me incomoda profundamente) mas a achar que tinha valido a pena." e, depois, encontrei um texto de 2011 em que era mais explícito no que são as minhas divergências conceptuais com Ribeiro Telles, mas também o respeito inequívoco que merece, a que Teresa Andresen, com muito mais propriedade, dá corpo neste discurso que acho notável e subscrevo praticamente na íntegra.

Senhor Presidente da República
Conselho de Administração da FCGulbenkian
Caros membros do Júri do Prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem
Senhor Presidente do Conselho de Gestão do Instituto Superior de Agronomia, Professor António Guerreiro de Brito
Senhora Presidente da Direção Nacional da Causa Real, Teresa Lobo de Vasconcellos Corte-Real
Senhor Presidente do Colégio Nacional de Eng. Agronómica da Ordem dos Engenheiros, Eng. Fernando Manuel Moreira Borges Mouzinho
Senhor representante da Família Ribeiro Telles, Miguel Ribeiro Telles
Senhor Presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas, arquiteto paisagista Jorge Cancela

Quatro instituições que representam interesses e causas diferentes e um representante da família Ribeiro Teles uniram-se em torno de Gonçalo Ribeiro Telles para perpetuar o nome e o legado de uma figura singular e uma referência incontornável na vida pública portuguesa. Criaram um prémio para o Ambiente e Paisagem por ele inspirado.
Agradeço a decisão do júri pela distinção que me fizeram. Gostava de lhes dizer que é de forma muito sentida que lhes expresso o meu reconhecimento e louvo a vossa iniciativa. Não escondo que foi com surpresa e emoção que recebi a notícia da atribuição do prémio a mim.
Gonçalo Ribeiro Telles é um homem com uma vida intensa dedicada à intervenção pública, empenhado em diversas causas cívicas. Partilho com Ribeiro Telles uma formação em engenharia agronómica e em arquitetura paisagista no Instituto Superior de Agronomia, uma combinação que nos preparou para um modo próprio de compreender o mundo, em que a prática profissional se torna uma forma de estar na vida. A formação recebida instrui-nos e responsabiliza para a intervenção, educa a mente e, em particular, educa o olhar e a capacidade de ler os sinais inscritos na paisagem. Aproveito para testemunhar o meu apreço ao Instituto Superior de Agronomia e aos mestres que aí tive e que continuam a ser uma referência na minha vida. Fui professora durante 30 anos, dos quais dois anos no Instituto Superior de Agronomia. A muita alegria e motivação que vivi na sala de aula, ao longo de 30 anos de ensino universitário em Aveiro e no Porto, deveram-se em grande parte a esses mestres.

Gonçalo Ribeiro Telles é um nome maior da arquitetura paisagista portuguesa. Para ele, o exercício da arquitetura paisagista e a luta política como que se confundem. No 40º aniversário da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas, aqui nesta sala a pedido de Jorge Cancela, seu Presidente, proferi uma palestra fazendo uma síntese sobre o percurso da arquitetura paisagista portuguesa. Disse então que Gonçalo Ribeiro Telles tinha o enorme mérito de ter transposto para o discurso político português a frescura e o vanguardismo da teoria e prática da arquitetura paisagista, da causa ecológica, da sustentabilidade avant la lettre. Referia-me concretamente ao legado de uma legislação decisiva nos domínios do ordenamento do território, do ambiente e da conservação da natureza. A paisagem portuguesa de hoje – apesar das vicissitudes – deve muito dos valores que nela perduram à visão e a gestos maiores de Gonçalo Ribeiro Telles. Nessa ocasião, disse ainda que só por isso, ele já merecia o nosso reconhecimento e que se não tivesse feito mais nada, já tinha feito muito. Acrescentei que – “no entanto, Gonçalo Ribeiro Telles tinha ainda feito muito mais do que isso”. Daí o nosso imenso reconhecimento.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo de cidadania ativa. Recorro-me das palavras do voto de saudação da Assembleia da República a Gonçalo Ribeiro Telles, por ocasião do seu aniversário já depois dos tremendos incêndios rurais de 2017: “o que o País e os Portugueses mais lhe continuam a dever é essa capacidade permanente de sonhar e acreditar num futuro melhor e mais justo, ensinando-nos que a construção da Paisagem é uma exigência cívica e uma obrigação das mulheres e dos homens livres.”
Recebo assim este prémio que tomo como um compromisso que aqui assumo de promover este legado. Gostaria de o fazer conjuntamente com o júri do prémio Gonçalo Ribeiro Telles para o Ambiente e a Paisagem.
A 1ª vez que ouvi falar de Gonçalo Ribeiro Telles foi um momento marcante da minha vida. Pertenço àquela geração que fechou o ciclo dos exames de admissão ao liceu no dia 31 de julho de 1967. Passei assim ao lado das reformas educativas. Nos princípios da década de 1970, tomei a decisão de enveredar pela alínea g) para ingressar na Faculdade de Economia do Porto. Eis senão quando a minha Mãe me diz que eu deveria ser arquiteta paisagista como um senhor chamado Gonçalo Ribeiro Telles, que tinha feito um jardim lindo que ela tinha visitado no Algarve. Com minha Mãe aprendi a jardinar num enorme quintal, na Praia da Granja, que ela converteu num jardim. Minha Mãe já não assistiu aos mil tormentos porque passei para abandonar a tal alínea g) das Ciências Económicas e conseguir ingressar no Instituto Superior de Agronomia para ser arquiteta paisagista.
No ano em que nasci, Gonçalo Ribeiro Telles terá tido o maior revés da sua vida profissional pois entrou em conflito com a Câmara Municipal de Lisboa. A rainha Isabel II de Inglaterra visitava Portugal coincidindo com as obras da Avenida da Liberdade. Francisco Caldeira Cabral e Gonçalo Ribeiro Telles eram os autores da execução do projeto de renovação da avenida e Gonçalo Ribeiro Telles, que era então funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, depois da partida da rainha, recebeu ordens para desfazer a obra que tinha sido feita... Gonçalo Ribeiro Telles opôs-se a cumprir a ordem. O sistema e o establishment reagiram à ousadia do projeto deles. Gonçalo Ribeiro Telles deixou a Câmara Municipal de Lisboa .... Mesmo assim, a cidade de Lisboa esteve sempre no centro da intervenção de Gonçalo Ribeiro Telles.
Que coincidência estarmos aqui hoje, a escassas horas da inauguração da Lisboa Capital Verde Europeia 2020. Quanto este prémio que a cidade de Lisboa recebeu deve a Gonçalo Ribeiro Telles!
O meu cruzamento com Gonçalo Ribeiro Telles aconteceu em Lisboa em ambiente familiar nos finais da década de 1970. Eu estudava no Instituto Superior de Agronomia e Gonçalo Ribeiro Telles dava os primeiros passos na então jovem Universidade de Évora na criação da nova licenciatura em arquitetura paisagista. Quando a Fundação Calouste Gulbenkian em 2001, me convidou para fazer a exposição “Do Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Caldeira Cabral e a 1ª geração de arquitetos paisagistas” adquiri um vasto conhecimento sobre a obra projetual de Gonçalo Ribeiro Telles. Impressionada com o elevado número de projetos para a cidade, e em particular com a exemplar intervenção na envolvente da Capela de São Jerónimo em Lisboa, perguntei-lhe qual o projeto que mais tinha gostado de fazer. A resposta que Gonçalo Ribeiro Telles então me deu teve um grande impacto em mim e, hoje, partilho-a aqui convoco. Disse-me: “O último”.
O jardim é o ecossistema de partida do arquiteto paisagista. Do jardim para a paisagem, a paisagem total. O arquiteto paisagista que pratica a arte do jardim e da paisagem é portador de um conhecimento ancestral. Não podemos permitir que se dispense ou apague conhecimento seja qual for. No exercício da jardinagem e da arte do jardim e da paisagem estamos sempre a ler sinais, a interpretar, a dialogar, a experimentar, a fruir ...
O jardim pode ser visto como um microcosmo a partir do qual se entende o macrocosmo. A construção das grandes cidades nasceu da experiência da construção dos jardins. Os jardins são laboratórios de aclimatação de plantas, guardando soluções para a adaptação às alterações climáticas. Os jardins são redutos para a contemplação, intrínseca à condição humana. São lugares de encontro dos seres humanos com a natureza. Os jardins são um dos poucos redutos do belo na sociedade contemporânea. Gonçalo Ribeiro Telles é um homem que sabe sobre muitas coisas e que tem o jardim bem no centro da sua intervenção e inspiração.
No entanto, a arquitetura paisagista é uma pequena profissão - uma profissão de poucos, em contraste com engenheiros, médicos ou advogados. Isso faz dos arquitetos paisagistas uma comunidade em modo de resistência e sobrevivência. Tornamo-nos um alvo vulnerável nos momentos de afirmação da mudança de políticas.... Depois de 40 anos de organização associativa, não conseguimos igualar as outras profissões – inclusivamente algumas bem recentes - e ver a Ordem dos Arquitetos Paisagistas reconhecida. Na academia, quando chega o momento de os órgãos de gestão tomarem decisões tíbias e se permitem a gestos pretensamente assertivos, o ensino da arquitetura paisagista é extinto ... Não tem sido fácil nem será fácil. A adversidade leva ao combate e fortalece-nos, cria oportunidades. Mas não devia ser sempre assim ... Vamos resistir, atentos aos sinais ... Sabemos que as comunidades pequenas são vitais – pelo conhecimento e prática que transportam, pela possibilidade de renovação e inovação que representam, porque podem fazer a diferença.
Gonçalo Ribeiro Telles é um exemplo marcante desta circunstância, o seu estatuto de monárquico, arquiteto paisagista, ecologista colocou-o sempre no combate, tantas vezes desigual, mas tanto consenso que ele foi gerando!
Gonçalo Ribeiro Telles tem uma alegria inata e contagiante e é um esteta. É um homem que sonha. Como ele, eu também ainda sonho e procuro o belo.
Gostava de ver as instituições do ensino pré-escolar motivadas para educar jardineiros. Os meninos deviam passar horas a jardinar ... a ler e a interpretar os sinais da horta, do jardim, da mata, da paisagem ... a pintar, a fazer música, a brincar ...
Gostava de ver os nossos parques naturais, os nossos parques e jardins públicos, os nossos corredores verdes e azuis, os nossos jardins históricos amados como lugares únicos e sagrados. É preciso dizer não à sua “disneylandização” ....
Gostava de ver a figura de “paisagem cultural” há mais de 20 anos consagrada na Convenção do Património Mundial da UNESCO transposta para o quadro legal português.
Gostava de ver políticas dirigidas para o património que dessem uma oportunidade à perpetuação da diversidade e da sustentabilidade das nossas paisagens enquanto obras combinadas do homem e da natureza.
Gostava de ver as políticas públicas com uma forte base territorial.
Gostava de construir uma política pública de agricultura e floresta para Portugal que fosse simultaneamente um instrumento ordenador do território.
Gostava que as politicas públicas atacassem o âmago do problema da nossa paisagem contrariando o abandono da gestão da paisagem, promovendo o cultivo sustentável da paisagem, inventando novos modelos de apropriação, e que se deixassem de pequenos gestos imediatos de reconstruir o edificado depois de atingido por flagelos naturais quando se sabe que casas, fábricas e fabriquetas não devem permanecer ali ...
É necessário olhar para a paisagem. É necessário ler os sinais da paisagem ... A paisagem fala-nos, quando estamos predispostos a ouvi-la. A paisagem é um arquivo da nossa identidade e nela residem também as soluções para o nosso futuro viável ... No entanto, as soluções estão cada vez mais em nós. O caminho que temos pela frente reclama desprendimento, inteligência, reinvenção, ousadia, e parece sem fim.
A causa ambiental e da paisagem sustentável não nos pode deixar distraídos nem alheados. Gonçalo Ribeiro Telles esteve sempre alerta e agindo. Hoje, a tragédia que vivem os cidadãos australianos, os coalas, os cangurus, os corais do reef, as suas florestas não é mais um problema deles, lá longe – também é nosso, aqui nesta sala. Reunidos em nome de Gonçalo Ribeiro Telles.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles por tudo o que aprendemos consigo. Devemos-lhe um pedido de desculpa coletivo por as vezes que nos alertou para a causa ambiental e da paisagem sustentável e não o ouvimos ou o levamos a sério. Mas, as suas lições e os seus gestos permanecerão.
Obrigado Gonçalo Ribeiro Telles.
Lisboa, 10 de janeiro de 2020
Teresa Andresen

Porque é que os blogues são importantes?

por João Távora, em 12.01.20

Screenshot_2020-01-12-19-13-43.png

 

O Facebook bloqueou qualquer ligação ao blog "Portugal Profundo" de António Balbino Caldeira, o blogger que em 2007 denunciou a falcatrua da licenciatura de José Sócrates. A isto chama-se censura e é absolutamente lamentável.

Domingo

por João Távora, em 12.01.20

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


Naquele tempo, Jesus chegou da Galileia e veio ter com João Baptista ao Jordão, para ser baptizado por ele. Mas João opunha-se, dizendo: «Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?». Jesus respondeu-lhe: «Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça». João deixou então que Ele Se aproximasse. Logo que Jesus foi baptizado, saiu da água. Então, abriram-se os céus e Jesus viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e pousar sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência».


Palavra da salvação.

Em veículos eléctricos, Senhor Primeiro Ministro?

por henrique pereira dos santos, em 12.01.20

Parece que ontem o Senhor Primeiro Ministro anunciou, no contexto do lançamento de Lisboa capital verde da Europa 2020 (não fui verificar o nome certo, mas a ideia é esta e, de qualquer maneira, qualquer nome que eu escolha não deve ser pior que os cartazes e o logo que escolheram), que neste ano e no próximo os senhores ministros, nas suas deslocações urbanas, o farão em veículos eléctricos.

"“É a prenda simbólica que o Governo gostaria de dar à cidade de Lisboa ao longo deste ano, mas também para servir de exemplo para todos os outros”, salientou."

Na verdade estou a deturpar voluntariamente as declarações (onde está veículos, o Senhor Primeiro Ministro disse viaturas) para poder dar publicidade ao judicioso comentário de João Pires Cruz: mas isso (acrescento eu, isso é a prenda que o Rei Sol, na sua magnanimidade, oferece à cidade de Lisboa) é o que fazem todos os dias milhares de pessoas em Lisboa, deslocam-se num veículo eléctrico que se chama Metro.

Há já bastantes anos, propuz, sem qualquer êxito (como de costume) ao Governo que adoptasse uma política simples de mitigação climática, que não exigia mais nada que uma decisão própria: todos os membros do Governo (no sentido alargado que inclui os membros dos gabinetes) assumiam o compromisso de 10% das suas deslocações serem em transportes públicos (incluindo bicicletas, na altura não havia trotinetes, que se podem também incluir agora, ou mesmo motas), excluindo desta contabilidade os aviões.

Senhor Primeiro Ministro (e, já agora, senhores jornalistas presentes que não fazem perguntas e senhores ambientalistas presentes que não fazem comentários), isso de pôr os seus ministros a andar de carro eléctrico é para meninos (na verdade, em qualquer caso, quem tem de resolver os problemas dos carros são os motoristas e quem paga é o desgraçado do trabalhador têxtil do Ave que tem mesmo de ir de mota para o emprego, por falta de alternativa, e sustena, na bomba de gasolina, o Fundo Ambiental que paga os carros eléctricos do Governo), deixe-se de mariquices e ponha toda a gente a andar de transportes públicos (ou a pé, grande parte das deslocações do seu Governo em Lisboa estão perfeitamente ao alcance de qualquer pessoa que decida andar a pé).

Menos que isso é simples treta.

Se quer dar o exemplo, dê exemplos que possam servir as pessoas comuns, ou acha que alguém vai passar a andar de carro eléctrico porque vislumbrou um ministro a passar de carro eléctrico quando esperava o sinal na passadeira que ia atravessar para chegar à paragem do autocarro?

"Para os nossos cuidadores de doentes"

por João-Afonso Machado, em 10.01.20

A costumeira descontração dos portugueses, para não se trair, não deu por isso – o mundo muda aceleradamente. A todos os níveis e, designadamente, no plano das relações familiares. Cá em Portugal, ante a euforia profissional e o fracasso do desemprego, as gentes procuravam a sua independência, o apartamento mais funcional, a cidade, o desenrascanço. E para trás foram ficando, no antigo casario onde haviam criado os seus filhos, - os idosos; cada vez mais, em quantidade e longevidade, os idosos.

É de todos hoje sabido – vive-se mais tempo, o mundo laboral é mais absorvente, os solavancos da nossa economia não se compadecem com os regalos campestres de outrora. Os nossos dias são uma selva e não é justo sigamos as teorias de Darwin acerca da sobrevivência dos mais fortes.

Um trajecto imparável, este que refiro. Mas que só agora começa a ser patente. Como não acredito na bondade do Estado, acrescento a fatalidade da falha de meios para darmos albergue, bem-estar e alegria que dignifiquem os nossos idosos. Valham-nos muitas coisas, à cabeça das quais a Santa Casa da Misericórdia e os seus lares e instituições afins!

Entretanto, confrontamo-nos com o Presente e – sempre à portuguesa – ao improviso que ele nos impõe. Quase todos se deparam já com pais e avós incapacitados, desprovidos de autonomia, e a aflição que é zelar por eles entre as incontornáveis obrigações do trabalho e dos empregos. Quantos não abdicam desta fonte de rendimento para tratar do seu velhinho acamado, alimentá-lo à colherada, tratar da sua higiene! Ouvimos nas caminhetas, recorrentemente, histórias de quem passa o seu tempo à cabeceira de um doente entrevado; ou as aflições dos que têm a seu cargo pessoas já atacadas pela demência, em maior ou menor grau…

Foi neste contexto de emergência (face à ausência de respostas capazes dos poderes públicos) que, há meses atrás, nasceu a Associação da Casa da Memória Viva, iniciativa de um grupo de meia dúzia de famalicenses. Totalmente direcionada para a terceira idade, maxime, daqueles que já vão padecendo de doenças do foro neurológico, com todas as inerentes consequências.

A Casa da Memória Viva tem objectivos amplos, e um deles passaria pela criação de um «alfarrabista», um espaço de coisas antigas que os ajudasse a viverem um tempo que não é actual mas foi o deles: que os ajudasse a guardarem essa noção do tempo e do espaço, o lugar que por direito lhes assiste na vida mediante o emergir das suas recordações.

E, também, a desenvolver, reforçar e acautelar uma nova noção, um novo affaire surgente na nossa sociedade – o dos “cuidadores”. Pessoas que, remuneradamente ou não, abdicam de si para acompanhar – cuidar – de quem necessite.

Tarefa custosa, a requerer preparação específica. Formação. Tranquilidade e resistência psicológicas. Por todos os motivos de justiça, o seu retorno à vida de antes, uma vez dispensados os seus serviços. E os modos possíveis de descanso – trata-se de uma profissão de “rápido desgaste”…

Faltam meios. Falta gente. A Casa da Memória Viva carece de apoio, de financiamento e de uma sede em local adequado aos seus propósitos. O projecto é de Famalicão e para Famalicão. E esta crónica um apelo à diligência e ao contributo de todos os famalicenses.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas, in Opinião Pública de 09.JAN.2020)

 

 

Remédio santo

por Corta-fitas, em 09.01.20

HSM.jpg

Este avolumar de casos — tornados públicos, mas haverá outros... — de médicos e enfermeiros agredidos em hospitais e centros de saúde é certamente mais uma das arestas da crise do serviço público de saúde, mas é muito mais do que isso: é a prova de que se criou um ambiente social de aquisição de direitos e de redução drástica de deveres (o primeiro dos quais o respeito pelos outros e a cordialidade), num espectro muito vasto de percepções individuais, de grupo ou clã. O abuso de alguns — que perceberam que agindo colectivamente alcançam efeitos persuasivos e amedrontam interlocutores em serviços públicos que por definição devem ser iguais para todos — deve ser travado com absoluta firmeza, sem tornar hospitais e centros de saúde uma espécie de coliseus para confrontos físicos em larga escala, como o sempre imprudente ministro Cabrita parece pretender ao anunciar que defesa pessoal será instruída aos funcionários hospitalares.

Talvez tudo se resolva de maneira muito mais simples: indivíduos identificados em tais distúrbios, abusos e ataques físicos (e bastará a vídeovigilância) passarem a ser impedidos, e seus agregados familiares, de usufruir de quaisquer beneses dos contribuintes portugueses — perdendo por cinco anos o direito a subsídios de desemprego (?), reinserção social (— oi?), isenção de taxas moderadoras, etc.

Quem sabe se assim haveria menos espalhafato abusivo e se garantia a integridade de quem faz tanto por todos.

Vasco Rosa 

trump irão

Esta mensagem do discurso de Donald Trump parece-me muito importante. Uma vez que revela o desfecho esperado pelos Estados  Unidos deste conflito. Mas a surpresa é que talvez seja também o desfecho esperado pelo Irão. Não do Irão de Ali Khamenei, mas provavelmente do Irão de Hassan Rouhani.  

Irão falhou alvos norte-americanos de propósito?

Enquanto Donald Trump se preparava para fazer a declaração ao país - o Presidente norte-americano falou mais de 30 minutos depois da hora prevista - a agência Reuters avançava que o Irão tinha falhado deliberadamente os alvos norte-americanos no ataque que ocorreu na madrugada.

De acordo com a agência internacional, que cita fontes norte-americanas e europeias anónimas, o Irão quis evitar baixas entre as tropas norte-americanas que estão destacadas em Erbil e Al-Asad, as duas bases norte-americanas que foram visadas pelo ataque. O Irão terá então evitado atingir determinadas zonas das bases militares de forma a evitar a morte de soldados norte-americanos.
A Reuters explica que "eles pretendiam responder, mas não queriam uma escalada".
 
Isto é apenas uma teoria, não se baseia em nenhum conhecimento profundo de Geopolítica, mas a minha intuição diz-me que a morte de Soleimani dá jeito ao Irão que quer libertar-se o mais depressa possível das sanções dos EUA. Há uma fação do Irão mais ocidentalizada que tem hoje, pós-Soleimani, um caminho mais aberto para um acordo com os Estados Unidos. 
 
A minha teoria, e só eu respondo por ela, é que o Irão quis livrar-se do maior obstáculo a um acordo com os EUA para pôr fim às pesadas sanções que assolam o país dos persas.

Isso explicaria a retaliação cirúrgica do Irão no Iraque, sem vítimas mortais, sem pôr em causa esse caminho da pacificação.

Um dia se descobrirá que houve mão amiga de alguém do Irão na morte cirúrgica de Soleimani. Um dos terroristas do Médio Oriente.

Hoje Trump mostrou abertura à paz, mesmo tendo ameaçado com mais sanções o Irão que já está estrangulado economicamente. 
 
O Presidente dos EUA disse hoje que não vai dar gás à escalada de tensão com o Irão, na sequência do ataque iraniano a duas bases militares norte-americanas no Iraque. Recorde-se que este por sua vez surgiu na sequência da morte do general Qassem Soleimani, comandante da força de elite iraniana Al-Quds, num ataque aéreo contra o carro em que seguia, junto ao aeroporto internacional de Bagdade, ordenado pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A declaração do Presidente dos EUA surge na sequência do Irão ter lançado vários mísseis terra-a-terra contra duas bases iraquianas, onde estão instaladas as tropas norte-americanas. A operação “Martir Soleimani” aconteceu nas bases aéreas de al-Asad, a oeste de Bagdad, e em Erbil, no Curdistão iraquiano.

Ao contrário do que todos os europeus parecem defender, eu acho que o presidente dos EUA sabe o que faz. Aliás logo após o ataque que tirou a vida a Soleimani, Trump veio dizer que com esta morte “estava a acabar uma guerra e não começar uma guerra”. Donald Trump sabia que não estava a desencadear nenhuma guerra mundial, pelo contrário, estaria provavelmente a traçar o caminho para a paz.

Se dúvidas houvesse, eis que horas depois da declaração de Donald Trump na resposta aos ataques contra bases aéreas norte-americanas no Iraque, o Ministério suíço dos Negócios Estrangeiros relevou que Teerão e Washington trocaram mensagens através de um canal diplomático suíço antes da comunicação ao país. A informação é avançada pela CNN.

"De acordo com a CNN, os dois países trocaram mensagens através de um canal diplomático suíço, avança a RTP. Há várias décadas que o Irão e os Estados Unidos não têm representações diplomáticas e recorrem a canais alternativos de comunicação. Segundo a notícia da CNN não se conhece o conteúdo destas mensagens nem quando o contacto ocorreu, mas a informação do MNE suíço surge depois das declarações de Donald Trump.
 
O presidente dos EUA disse também que o Irão "parecia estar a recuar" e apelou à negociação de um novo acordo sobre o programa nuclear.
 
O Presidente norte-americano não descartou novas ações de retaliação, mas a resposta limita-se, pelo menos para já, à imposição de novas sanções contra Teerão. 
 

Trump revelou que Soleimani esteve por trás do terrorismo no Médio Oriente, e treinou exércitos terroristas, incluindo o Hezbollah, no Líbano, e esteve envolvido nas milícias xiitas no Iraque e Afeganistão. Os serviços secretos dos EUA não são de subestimar e conheciam ao detalhe Soleimani e o seu papel na Síria, no Líbano, no Iraque, etc. 

Soleimani  era visto como possível sucessor do ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão, e foi o grande estratega da expansão da influência iraniana no Médio Oriente.

Mas há quem queira a paz com o Ocidente no Irão. 

Donald Trump disse esta quarta-feira que os EUA estão “prontos para abraçar a paz”. Teerão quer pôr fim às sanções para salvar o país da agonia económica. Hoje esse caminho estará certamente mais perto.

Há 12 ou 13 anos calhou estar em trabalho em Budapeste. Às 20 horas, estando o meu grupo a preparar-se para jantar, eu, fumador, pobre de mim, saí para a rua. Ao fim dela, na praça em que desembocava, havia um ajuntamento festivo. Passeei até lá, e sentei-me admirando uma pequena e simpática multidão. Juntara-se à porta do teatro onde aguardava para entrar e ver a récita de uma ópera italiana, A Tosca, julgo lembrar-me. Perdi a noção das horas, porque me senti em boa companhia. Em todas e todos os presentes se sentia expectativa e boa disposição. E o conjunto delas e deles era ao mesmo tempo comovente, contagiante e animador. A Hungria ainda não tinha saído há muito tempo de sob a bota comunista que se abatera sobre ela em 1945, nem da escravidão e do massacre com que em 1956 os comunistas lhe mataram a ilusão de liberdade; mas agora a Hungria era livre. Aquela gente, eles e elas, não era manifestamente rica, e era comovente por isso mesmo: tão bem ataviados para o momento alegre e solene que anteviam, mas ataviados com sapatos e roupas e adereços de qualidade tão modesta. Por toda a Budapeste havia já sinais de progresso, lojas novas, convites ao turismo, edifícios clássicos em obras para acolherem os novos hotéis das grandes cadeias. E havia sinais de alegria como aquela pequena multidão, e por isso ela era contagiante. Era animador aquele ambiente, por ser tão visível o ânimo e a esperança de quem deixa de ter sobre os ombros a canga do Estado que em tudo se mete, do Estado que proíbe e castiga (e asfixia, e desencoraja, e malbarata, e tortura e mata), de quem sente que agora pode fazer e progredir.

Lembrei-me desta cena no outro dia, na sala de espera do dentista, folheando impressionado as páginas da revista Caras. A Caras pertence a um grupo da elite portuguesa, o grupo Balsemão, que detém uma televisão de reverência socialista, e um semanário de reverência socialista, o tipo de reverências com que a nossa elite se faz merecedora das isenções de concorrência e das vantagens da cumplicidade. Essa elite acomodou-se numa receita fatal: é discreta, porque não quer que reparem nela; é imobilista, porque o Portugal medíocre e rentista convem-lhe. E é sonsa. A Caras é apenas um indício de como é sonsa. É que na Caras, a elite verdadeira (a discreta e imobilista) anuncia e tenta fazer crer que a elite portuguesa é aquilo que vem naquelas páginas. E aquelas páginas, ao contrário da pequena multidão húngara, são confrangedoras, repulsivas e desanimadoras. Estão cheias de «empresários». Qualquer acompanhante de uma modelo, de uma animadora, de uma estrelinha televisiva, é «um empresário». A Caras está cheia de modelos, animadoras, estrelinhas, de mulheres de várias idades e estatutos, que cabem todas na designação de «famosas». Fizeram uma telenovela, ou um programa qualquer, ou fizeram pouco, ou não fizeram nada, ou estão de esperanças e dizem que «deu-me uma nova perspectiva da vida», ou sentem-se «uma pessoa nova», ou vão separar-se «com amizade», mas saem nas páginas da Caras porque são famosas, coisa que são por sairem nas páginas da Caras, razão por que, naturalmente, voltarão a sair nas páginas da Caras. As roupas, as delas e as deles, são muito menos modestas do que as dos alegres espectadores húngaros da Tosca; brilham, resplandecem, mostram. Mas são toscas, e, portanto, mais pobres, menos vivas, menos animadoras.

Lembrei-me da multidão simpática, esfusiante e expectante à porta da ópera de Budapeste. Lembrei-me das gentes que desfilam nas pobres elites que a arcaica elite promove. E, não sei porquê, tive a certeza triste, tristíssima, de que não será apenas a Irlanda, a República Checa, a Eslovénia, a Estónia, a Lituânia, a Eslováquia, a Letónia... Não. A Hungria desse Viktor Orban, tão detestado pelo Portugal velho, arcaico, socialista e pobre, também nos vai ultrapassar em breve.



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Mentiroso. Não foi Vitor Gaspar a assinar o memora...

  • Luís Lavoura

    Peço desculpa pelo meu erro, não é "Monte das Flor...

  • Anónimo

    Embora não conhecendo nada de política entendo que...

  • Anónimo

    Muito bom. Gostei bastante de ouvir. Parabéns por ...

  • Antonio Maria Lamas

    No dia que um PS for apanhado a 200 na autoestrada...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D

    subscrever feeds