Desde domingo que procuro entender por que carga d'água (para não dizer outra coisa) dedicou o Público a capa e oito — oito! — das quarenta páginas da sua revista do último fim de semana ao perfil de Isabel Moreira, uma replicante pele e osso, feia e incomestível (a expressão é grosseira, desculpem, mas não vejo outra tão precisa quanto esta) que decidiu tatuar no braço esquerdo uma data: a data em que o casamento gay foi autorizado no nosso país. A brutalidade estética da tatuagem é tremendamente chocante. Qualquer oxigenada mandaria fazer menos pior.
No jornal, até os títulos são delirantes: «a enfant terrible do PS» e «a deputada descalça», logo ela que na fotografia de toda a página seguinte nos aparece dominando a escadaria do antigo convento, vestida de roxo (a carácter, diz-se no Brasil), botas pelo joelho e mãos na cintura. (Não, não se está propriamente na Praça de Espanha em Roma… Ainda não lá chegaram… Algum equilíbrio jornalístico faltou claramente… Por alguma razão terá sido!)
Uma mulher? Permitam-me uma réstea de liberdade, e evite esse qualificativo que muito prezo, estimo e admiro…
Isabel Moreira, não duvido, tem feito por esse tipo de liberdade que valoriza, e isso é sempre bom. Mas não vejo motivos para que se fale dela com parangonas, para mais num folhetim cor-de-rosa arraçado a gay, que faz o elogio da jurista combativa mas nada nos diz acerca do seu trabalho quotidiano como parlamentar, em comissões e no plenário. Ou o seu cargo e remuneração de deputada são apenas e só o prémio por serviços prestados?
Mesmo no jornal que leio sempre com gosto e estímulo, aparecem-nos estes cromos que nos deixam a pensar: mas que é isto, tomam-nos por parvos?!…
Liberdade é intimidade, não é espectáculo nem feira de vaidades.
Isabel é filha de Adriano Moreira, um Senhor — educado e tolerante (não pouco execrado no passado menos longínquo que se faz crer, o que é omitido). Nesse sentido, digamos até, a verdadeira razão da reportagem seria ele, capaz de estimar muito («ela é fantástica, não é?») a filha que escolheu os seus antípodas. Mas isso, claro, seria pedir de mais…

Há pouco, na saída do metropolitano perto da BN, uma equipa da emergência médica tentava a reanimação cardíaca dum homem enorme, diante duma pequena multidão atenta e certamente nervosa, também ela. São esses médicos os maiores heróis contemporâneos, e todos dias levam para casa o soldo dos meus jubilantes sucessos ou então dos seus tristíssimos fracassos, no fio da navalha dessa linha maravilhosa e frágil a que chamamos vida.

O Regicídio continuou em Coimbra, logo após o 5 de Outubro de 1910: um retrato de D. Manuel II, da autoria do grande António Carneiro, foi alvejado a tiro em plena Sala dos Capelos, da vetusta Universidade.
Caso para dizer: como nos orgulhamos dessa centenária república!!

Parece impossível, mas não é. A Estufa Fria de Lisboa, junto ao Parque Eduardo VII (um nome que ainda não foi republicanizado), esteve encerrada cerca de dois anos por causa da reparação dita urgente da sua cobertura, que arriscava demoronar. Aquilo custou X vezes mais do que previsto. Mas como se fosse pouco, voltou a fechar, para reforço das protecções laterais da dita cobertura. Quem vem por cima e observa, percebe que há um circuito de andaime que foi criado nesse sentido. Fora o caso de se saber por que não foi feito tudo numa única campanha, acontece que agora está encerrada a EF e as obras estão paradas, como há um mês verifico diariamente: nem um só operário ali trabalha. Portanto, o prejuízo tornou-se duplo: encerrada não é usada e não cobra ingressos (haveria de ser grátis). Quem responde por esse imbróglio e essa perda para uma vida prazeirosa na cidade?
Quem passa a caminho da Rua Castilho também verifica que ali é um ponto de encontro de muitos turistas, para viagens de cityrama. Cruzo-me todos os dias com dezenas deles, que esperam de pé, e a maioria são idosos, a entrada nos respectivos autocarros. Mas não há na Câmara quem ali mande colocar uns bancos corridos e consertar a calçada, esburacada e torta, e melhore a vedação metálica, torta, enferrujada e feia?!
Um magnata dinamarquês recentemente falecido, dono dum empório de transitários marítimos, Arnold Maersk Mc-Kinney Møller, deixou obra filantrópica de grande gabarito. Porque é que estas figuras exemplares não merecem maior destaque na imprensa, como incentivo a um sentido comunitário intenso? A demonização dos muitos ricos só pode afastá-los duma partilha que seria um benefício social. O caso Champallimaud demonstra quem, no final, tem razão.

Em artigo publicado na revista Ler ontem saído às bancas, Eduardo Pitta (na foto) comenta a obra de Raul Brandão, a partir da próxima exibição em Cannes duma adaptação de peça teatral ao cinema por Manoel de Oliveira. No espaço de duas páginas nem tudo se pode dizer, é claro. Por isso, surpreende, ou não surpreende de todo, afinal, mas custa um bocadinho a crer e a aceitar, que EP venha exigir a Raul Brandão a condenação — que ele não fez — da censura aos livros homolibertinos, homoeróticos (ou como é que isso se chama) de Judith Teixeira, António Botto e Raul Leal. Pobre Brandão, perdoa-lhe que não sabe o que faz!!
Há de facto um patrulhamento efectivo, um julgamento sectário constante, uma agenda de costumes que se quer impor. Até mesmo num simples artigo de revista, onde, de resto, e isso preocupa-o certamente muito menos, o autor comete vários lapsos cronológicos e demonstra que não leu nada sobre Raul Brandão publicado nos últimos quinze anos, pois todas as suas referências são bem antigas...
Não seria melhor cada um viver da melhor maneira possível no seu canto íntimo, privado, e fazer disso a sua irredutível liberdade?...
São estes os novos censores, são estes os novos inimigos da liberdade!!

A Casa Fernando Pessoa acaba de anunciar que vai fazer um colóquio sobre Orlando da Costa. Não tem um livro editado, não se fala dele, nem haveria especial necessidade ou motivo, talvez uma minúscula nota de rodapé na história literária — mas o facto de ser o pai de António e Ricardo Costa, que mandam na CML e num semanário de província, parece bastar para que o ressuscitem.
Vão fazer outro em atenção a José Osório de Oliveira? Deve ser!
Vivemos dentro dum pântano de pequenos poderes absurdos, troca de favores de pandilhas, perante a complacência generalizada dum povo ignorante que assiste distraído a esta opera bufa.

Uma campanha do Banco Alimentar, graficamente muito simpática, propõe que cada tonelada de papel velho doada resulte em 100 euros para apoio a carenciados. Pensei naqueles editores que há anos não sabem de todo o que estão a fazer e inundaram os seus dispendiosos armazéns de inutilidades ruinosas, levando ao desastre uma das colunas da vida cultural e da capacidade intelectual duma nação.
Agora que o assunto é sobreviver, pois que reciclem aquela demonstração da sua incapacidade e arrogância. Livram-se até dum duplo peso, se é que algo lhes pesa...
Afinal, livros são alimento. Mais cedo ou mais tarde, pouco importa.
Esta noite vai haver num famoso bar de Lisboa (que já conheceu melhores dias, ou antes, melhores noirtes!) um debate sobre o regime político, república ou monarquia. Não tenciono ir, ainda que isso represente o reencontro com velhos amigos que talvez lá apareçam. Não vou porque debate significa diálogo e não uma sucessão de monólogos mais ou menos bem elaborados que esgrimam posições desde sempre claras e clarificadas. A república tresanda a uma noção absurda de pátria e de povo, e aqueles que ali vão defendê-la são os mesmos que há pouco tempo não levantaram um dedo sequer de reticências quanto à celebração demagógica da primeira república. Sendo assim, vai ser perder tempo. Por outro lado, gostava de dizer isto: quem serve o rei não busca protagonismo mediático.

Passei há dias à porta da sede do Partido Socialista, instalado num palacete do Largo do Rato, que certamente não foi construído com a vontade, o gosto e o dinheiro dos actuais ocupantes. E confrontado com as mãos fechadas que agora servem de puxadores da porta, pensei: mas a que propósito vem isto? Será um sinal específico de uma associação secreta? Será para avisar-nos de que o PS não revela os escondidos podres da era Sócrates e quadrilha associada? Será para dizer que já cá canta, que já ninguém nos tira (o enriquecimento desavergonhado de gente despreparada)? Ou será apenas a tontice do costume?

Grande escândalo com um debate televisivo, ontem. Digo há anos e anos que a única coisa de que verdadeiramente dependemos do Estado é a saúde. Educação, cultura, ética, portuguesismo, em tudo isso verdadeiramente dispensamos esse monstro que se alimenta dos nossos impostos pelo trabalho e pelo consumo, mas quando estamos fracos e carecemos de especialistas e de cirurgiões, nada nos resta senão o estado — Portugal não tem tradição de medicina privada nem planos de saúde que salvaguarde os idosos, por exemplo. Não podemos defender a Vida e por outro lado maltratá-la com discriminações sociais e económicos — proteger cada português, por desafortunado, desprecavido e tonto que seja haveria de ser uma regra de ouro, além de um factor de coesão social numa sociedade esquatejada pela ideologia de maioria e minorias.
Também é verdade que os cuidados com a saúde só recentemente tiveram uma visibilidade social capaz de advertir seriamente quem tenha hábitos sedentários ou tóxicos. Velhos alentejanos que passaram vidas de pobres mas honrados merecem atenção. Outros, descambados por maus hábitos alimentares ou outros, precisam de alento e de compaixão. Não se exibe brutalidade tecnocrática diante daqueles a quem a Vida já pouco vai dar. Os outros serão capazes de aguentar e entender. Mas estes não.

No fim do ano, sem que nada o fizesse imaginar e depois de ter escrito isto no seu blogue — «Parada de fim de ano. Volto no dia 11. Feliz 2012 para todos nós» — um dos mais importantes jornalistas culturais do Brasil, Daniel Piza, faleceu de ataque cardíaco aos 41 anos. Colunista e editor do Estado de São Paulo, biógrafo de Machado de Assis, o que não é pouco, o seu desaparecimento devia consternar todos aqueles que querem uma aproximação cultural de Portugal e Brasil. Se não erro, apenas João Pereira Coutinho noticiou entre nós esse tremendo infortúnio, o que dá um ácido retrato da ignorância, da ingratidão, da decadência de quem pode e deve cuidar dessas coisas, por obrigação pública ou profissional. Vi os jornais e blogues, esperei reacções, comentários, e nada. João, estamos sozinhos, nada que te surpreeenda, eu sei mas eu, que sou ingénuo, espero e cobro. Cobro? Não.
Simplesmente não há interlocutores a quem. É nisso que estamos. E sabes quanto o lamento!
Que o PS venha apresentar no parlamento propostas sobre corrupção é duma hipocrisia absoluta.
Não há no serviço nacional de saúde —com taxas acessíveis a políticos— consultas de psiquiatria que trate essa esquizofrenia?
Então esses senhores não se calaram no consulado socrático e despertaram agora duma letargia cúmplice e suicidária?
Parece impossível, realmente!!

Sinais dos tempos — ou efeito do tempo?

Estranha coisa essa de a cimeira europeia ser tão decisiva que nos lança numa lógica de castelo de cartas ou efeito dominó arrasador. Sobretudo pensando que os caminhos traçados de uma maneira ou de outra o são por políticos que muito pouco têm de estadistas na acepção que estas palavras haveriam de ter, e que as decisões tomadas têm apenas o efeito de balão de oxigénio ou kit de asmático, até ao próximo risco de colapso. Não é fácil!
O delírio com Fernando Pessoa levou a directora da Casa, a palavrosa Inês Pedrosa, a convidar artistas e escritores nacionais e estrangeiros a dormir no suposto quarto e cama do poeta. O quarto é mínimo e a cama inaceitável por alguém de bom senso!. Só por estupidez, masochismo e vaidade, uma mulher ou um mulher podem sujeitar-se a tal exercício — mas a vontade de fama e de éclat de certas personagens é de tal magnitude que uma noite certamente mal dormida e delirante é preço baixo a pagar por esse exercício insano, com a tortura e o frete adicionais de narrá-lo...
Gente que não conhece limites merece cair dessa cama. Pensando que está na borda da Boca do Inferno! Pobre Fernandinho, o que fizeram de ti!....

Há sem dúvida países que se esforçam por serem aprazíveis, bons vizinhos e até exemplares na comunidade internacional. Buscam exibir as suas boas intenções com cordialidade, diplomacia, respeito e bom senso, e nessa medida merecem todas as simpatias daqueles que noutras partes do urbe partilham dos mesmos critérios e métodos. O parentesco é largo mas a família reconhece-se além fronteiras, porque têm um património comum de acções mediáticas e de estratégias muito definidas. Por isso, modestamente embora, gostaria de sugerir que a parentela lusitana se junta aos iranianos que hoje demonstraram as suas intenções com eloquência. Podem fazer as suas traquinices naquele pleno ambiente de liberdade política e de imprensa que tanto prezam. Viajam em low coast e ajudam a economia.
Está a ser lançado, pela Editorial Caminho, um grande dicionário sobre Camões coordenado por Vítor Aguiar e Silva, que nos últimos anos renovou a leitura do nosso Épico, com ensaios que foram reconhecidos e até premiados. O livro tem mil páginas, promete tornar-se a grande referência actualizada, e mereceria por todas as razões honra de destaque nos jornais e televisões. Que é o fado diante dos Lusíadas e da Lírica? Que assim não seja revela e confirma o estado de decadência e desatenção em que nos afundamos lenta e consentidamente.Precisamos nós dum tremendo abanão, dum Adamastor aterrador que nos dê a adrenalina indispensável a uma reacção forte e determinada? Não deveria ser assim!!

Depois do lixo televisivo que consistiu na «reportagem» da manifestação (vulgo propaganda) indignada nas escadaria do parlamento, ontem — que deu em provocações, empurrões e uma dose cavalar de demagogia e falso entretenimento político, e como se não bastasse ocupar boa parte da programação televisiva nessa inutilidade que deveria ser comprimida a quatro linhas de rodapé, atendendo ao muito maior mundo em que vivemos, que devemos conhecer e avaliar — é uma pena que ninguém reporte na imprensa ou na televisão que ainda esta tarde, pelas 17h, quando eu ali passei, pelas calçadas se visse o lixo deixado pelos furiosos, até pedaços de cartazes, e na base das escadaria se visse claramente as duas extensas manchas de sangue geradas nos confrontos.
Câmara e assembleia da república unidas, um dia depois da greve dita geral, no desleixo e na complacência, para não dizer mesmo, na indignidade diante do sangue humano, cuja privacidade, digamos assim, haveria de ser defendida. Mas não!!
Meia hora depois, Mário Soares viajava no carro que lhe pagamos numa faixa Bus a caminho do Marquês. Ah, ele pode tudo!

Tenho a maior consideração por José Sarmento de Matos, que pessoalmente muito estimo e cujos trabalhos sigo com o maior interesse, e por isso sinto-me particularmente livre para recusar o tom amável, não frontal e polémico, com o qual condescende diante do que considero ser uma gestão autárquica de Lisboa com efeitos negros sobre o pulsar presente e futuro de cidade. (Basta sair à rua, ver — e cheirar.) Algumas das suas sugestões ficaram sem resposta, como a da reinstalação da linha de eléctricos do Arco do Cego ao Cais do Sodré ou ao Largo do Carmo, e mesmo assim JSM continua a contemporizar. No Público de domingo passado, dedica a sua crónica ao Urban Award 2012 concedido a Lisboa, sem sublinhar quanto a reabilitação urbana, tão incipiente benza-a Deus, continua presa no seu quase nó górdio, mas sem a qual a potencialidade natural da cidade (de que JSM é um bom historiador) não se tornará cultural, capaz de habilitá-la como «um lugar simpático para quem gosta de cá viver». Se há alguém que pode pensar e resolver organicamente os problemas de Lisboa, essa pessoa deve chamar JSM como principal conselheiro. E pedir-lhe que seja absolutamente sincero e drástico. Não que aceite, negue, tape os erros actuais que tanto nos afligem, e a ele certamente também.
Na Rua da Horta Seca, onde fica certo ministério, a economia dos recursos humanos encavalitados na coisa é de desperdício. É comum este espectáculo, que envergonharia qualquer dono de empresa, precisado de lucros para pagar salários, comprar matérias-primas e maquinaria, pagar seguros e juros, de estarem na rua, na conversa de mãos nos bolsos, vários motoristas ou lacaios doutro foro. Quando passo por ali, nunca falha. Isto foi na sexta às três da tarde.
Não se lhes pode dar ocupação? Só para disfarçar, pelo menos?! Ou isto é a prova provada do tal pastel?

Outros tempos, e outra gente, claro.
D. Pedro V, o rei muito amado, cuja obra em diversos domínios foi notabilíssima, mandou pôr à porta do seu palácio uma caixa verde, cuja chave guardava, para que o seu povo pudesse falar-lhe com franqueza. O povo que sabia escrever, bem entendido.
Hoje todos o sabem, digamos assim, mas temos um presidente que não ouve e, mais ainda, fala do passado como se doutra pessoa se tratasse. Não me refiro aos amigos próximos dele, seus colaboradores de anos que desenvolveriam invulgar currículo sujo, mas ao que ele fez como primeiro-ministro: pescas e agricultura borda fora, auto-estradas desertas conduzindo a lugar nenhum.
É de facto impossível comparar um PR a um rei. Mas se reflectirmos nisso, talvez algo possa mudar...
Veio a saber-se que o Partido Socialista gastou nas últimas eleições, quando parecia evidente que perderia, mais 2 milhões de euros do que previsto. Não é pouco. Duplicou simplesmente o valor anunciado. Confere com a irresponsabilidade socrática, lá isso não se pode negar!
Mais do que discutir as razões desse inútil desespero propagandístico, importa tornar público se essas dívidas já foram liquidadas, como estão a ser liquidadas e se o partido fará um compungido peditório interno para honrar os seus compromissos.
Parece muito difícil que o faça, lembrando o que ficou da campanha de Manuel Alegre.
E no entanto, esse devia ser o caminho.
Porque não vale indignar-se com cortes de subsídios dum lado, e do outro deixar empresas (e portanto, também trabalhadores) aflitas com calotes.

Há dias elogiei aqui uma campanha publicitária. Por gentil cortesia do operador Optimus, recebi depois as imagens que não pude mostrar. Aqui vai a minha preferida. Um luxo gráfico e de comunicação que não deve passar despercebido.
Esta fotografia não é de hoje, mas a situação repete-se há semanas, meses, anos, para terror e humilhação de todos aqueles que acreditam que há uma linha de civilidade e de portugalidade (no caso, respeito pelos símbolos nacionais) que é imprescindível não ultrapassar, sob pena de nítida decadência.
Que o Largo do Camões, o Chiado e o Bairro Alto tenham sido tomados por uma trupe de indigentes, bêbados e vagabundos, que incomodam quem ali está ou por ali passa parece não perturbar as polícias, pública e municipal, mas os resultados estão à vista e são estes.
Até quando é que eu gostaria de saber!

Viver é fazer opções, e viver em tempo de crise é fazer opções especiais. A partir dos nossos gestos pessoais podemos, à nossa escala, influenciar a roda da fortuna e ao mesmo tempo dar-nos alentos que contrariem a amargura prevalecente em redor.
Ontem comprei no mercado biológico em que me abasteço um pequeno ananás micaelense, tão bom e no ponto perfeito para ser saboreado, que até o meu filho Tomás declarou o melhor que jamais havia provado. Valeu cada cêntimo dos 5 euros que custou!
Pensei que por carga de água ou falso comodismo prático haveremos nós de genuflectir diante do império ou até da ditadura de Continente, Pingo Doce e derivados, que apostaram em baixar a fasquia da qualidade dos produtos, a ponto de termos de ir a um estrangeiro, o Corte Inglés, para encontrarmos os produtos portugueses mais genuínos, e a produção dos pequenos? Sabendo até que essas grandes superfícies forçam condições tirânicas e quase ruinosas aos seus abastecedores agrícolas.
É também nesse small is beautiful alimentar que podemos reencontrar ufania pela nossa terra, sua qualidade, originalidade e diversidade.
E o ananás açoriano, com a sua coroa, é um belo símbolo dessa autonomia consciente e dessa preferência animadora...
Sou cliente Vodafone mas tiro o chapéu a duas das actuais campanhas publicitárias da Optimus — a televisiva que magnetiza os lisboetas jovens e menos jovens num levada musical cinco estrelas, mas sobretudo aquela que colocou nos mopis urbanos, com criações de meia dúzia ou dezena de artistas plásticos, criadores de moda e ilustradores que estão realmente a transformar o panorama visual português. Lamento não conseguir mostrá-los aqui, mas sugiro que reparem bem neles nas ruas por aí.
No meio do negrume surgem cintilações que nos fazem sorrir de esperança.
Um (pequeno) esforço, Portugueses!
Verdadeiramente surpreendente para mim, a reacção tempestuosa com que duas dúzias ou mais de professores comentaram em rajada um post meu que reclamava por a uma sexta-feira dois professores univesitários faltarem às suas aulas em vésperas de um fim de semana prolongado.
Dei-me conta de duas coisas: a primeira que se trata de uma classe profissional ainda à beira dum ataque de nervos, a precisar de um reconhecimento social que no entanto não lhe pode advir sem provas dadas numa actividade certamente muito exigente mas também especialmente nobre, a que todos eles aderiram conscientes certamente do que teriam pela frente, mas parece que não...; alguns comentadores chegaram ao extremo de dispararem contra quem não conhecem insultos covardes, numa exacerbação que cria perplexidade; a segunda é que em nenhum dos comentários recebidos encontrei uma vontade de servir a Escola e a sociedade, seguindo ao invés aquela lógica insana de que se tem um emprego e não um trabalho a cumprir, o que significa esforço, até muito esforço.
Não houve um único que além das aulas e dos testes a corrigir, que lhes ocupam os fins de semana, falasse do tempo indispensável à leitura e actualização bibliográfica das matérias que administram, o que faz todo o sentido, obviamente. Nada como aquelas universidades em que o padrão de exigência para todos não deixam a mínima dúvida a ninguém!

Sim, coitados dos professores... Hoje sexta, com a ponte até terça, os dois professores do dia do meu filho simplesmente faltaram. Lição do dia: o ano mal começou mas o exemplo já está dado! Não se lhes pode exigir atestados médicos ou comprovativos de emergência familiar ou algo aceitável? (a imagem é doutra época...)
José Rodrigues dos Santos tem toda a liberdade de escrever o que quiser e de tentar ser uma versão provinciana dum escriba tornado milionário por sensacionalismo policial. Pode tentar a sua sorte mas não lhe chamem literária nem a ele escritor, porque não é disso que se trata obviamente. Seria o mesmo que dizer que basta rabiscar umas cruzes num papel pequeno para se tornar rico. Por outro lado, um jogador de roleta no casino pode apostar todas as suas fichas investindo toda a sua sorte ou azar numa casa apenas e aproveitar para fazer alarde da sua novidade delirante, da qual dependerá em absoluto. Também se aceita, como hoje se aceita muita coisa. O que eu pessoalmente acho menos aceitável é que seja um editor culto, atento, que publicou Daniel J. Boorstin em Portugal (e muito mais), com ideias sobre educação e ensino (entre outras), a curvar-se diante dum negócio do mais básico marketing: o que rende fortunasa partir da ignorância e na credulidade das massas. Que pena, caro Guilherme Valente, eu tenho em vê-lo nisso!

Ontem estive na Biblioteca Nacional a ver o jornal O Imparcial, dirigido em 1910 por Raul Brandão. Não me surpreendeu que ele, a 28 de Setembro, dedicasse o editorial à Rainha Dona Amélia, abrindo-o com uma evidência absoluta: «Passa hoje o aniversário de Sua Majestade a Sra. D. Amélia, e se outros títulos não houvesse para que esta data não corresse despercebida para este jornal, bastaria o dever em que nos achamos constituídos de prestar homenagem rendida do nosso respeito pela senhora a quem um irreparável desastre arrebatou com o trono, a doce alegria de viver, que nem é compatível com a saudade de um bem que não volta mais, nem com as torturas de um terror que nada extingue.»
Valeria a pena transcrever o texto na íntegra, mas este não é o lugar para isso. A razão deste comentário é sobretudo a de constatar (e de protestar contra) o facto de que, afinal, as comemorações do centenário republicano gastaram rios de dinheiro em propaganda e doutrinação, mas não fizeram o essencial: preservar e salvaguardar a memória exacta sob a forma dos jornais do tempo. Haveria que tê-los microfilmado e expurgado, pois estão uma lástima! Esses e muitos outros, certamente. Mas o sentido da coisa não era esse...
E a propósito de buracos e de inquéritos, para quando uma vistoria rigorosa às contas desse desperdício? Não foram alguns milhões? Ou é assunto tabu?...

Escritores de quinta categoria (entre eles Rui Zink, Patrícia Reis e Inês Pedrosa, todos umas finas estampas do melhor, pulsando sensualidade a rodos!!) palrearam há dias num restaurante dito de luxo sobre Sexo e Literatura. Parece que se anunciou com & para ser até mais picantemente contorcionista! Aquilo fica mesmo diante da prisão penitenciária, o que me sugere dizer que nem cumprindo as mais duras penas, de pesada corrente nos tornozelos, eu assistiria a tão ignóbil certame. É que a erudição literária desta gente, mais perfumada que o melhor dos vinhos, é reconhecida por todos!!!
*Fotografia do blogue de Eduardo Pitta, também participante.

Um ensaio sobre Comunicação que foi dado a ler na universidade (nas primeiras semanas de aulas, após um 12.º cujo lustro se adivinha...) ao meu filho Tomás, da autoria de JM Frade (que sempre me pareceu bem sobrevalorizado e que a sua morte precoce elevou a píncaros de genialidade), é de tal maneira ininteligível e precisamente anticomunicante, benza-o deus, que o mínimo que posso dizer é que a sua leitura por um rapaz de 18 anos equivale ao esforço inútil dum adulto de cabelos grisalhos para traduzir e ler gaélico ou dinamarquês antigo. É de ir à escola perguntar se estão a brincar com tudo isto!! (Ou pedir ao professor que traduza o que aquele arrazoado quer dizer, se é que quer dizer alguma coisa.) Ai vida! Ai Portugal!
Vejam-se as diferenças dos dois últimos discursos dos PM de Portugal...
— Ó Luís, vê lá...
A crónica de ontem de Vasco Pulido Valente no Público merece especial atenção, que ainda não teve e é pena. Porque podia ser a chispa para uma reavaliação histórica de toda uma geração, a dele — sendo que ele, como poucos outros, entre os quais Victor Cunha Rego, um pouco mais velho, ou José Cutileiro, idem, mas os dois de especial valor, ainda por reconhecer, como habitualmente sucede, viram entrar em cena e fazer o espectáculo toda uma trupe de gente sem cuidado nem estofo para dirigirem o país que vinha duma tutela antiga e estabelecida para as vantagens do liberalismo democrático.
Se essa história política dos independentes não for feita, se uma avaliação ainda que melancólica dos erros do passado recente for preterida, mais dificilmente saberemos julgar o nosso desenho, o nosso caminho. e se não mudá-lo ao menos perceber porquê. Espero que VPV possa fazer essa história cultural e política, tão distinta da qye moveu Bénard da Costa a dado momento. Bénard quis ser do poder e foi um poder, até nepótico. Valente não.

Ontem fui visitar o palácio de Monserrate, em Sintra, que após anos de trágico abandono, iniciou um processo de restauro, absolutamente merecido. Fotografias em cada sala documentam o trágico estado em que tudo estava. Na biblioteca é que fui encontrar uma placa metálica totalmente inesperada, mas que diz tudo da vaidade e do despudor de quem a fez lá colocar ou consentiu que fosse colocada: indica que José Socrátes presidiu ali, um dia, a um conselho de ministros dedicado ao ambiente no dia do mesmo. Ah, se eu tivesse ali um canivete suíço haveria de desaparafusá-la e deitá-la no primeiro caixote do lixo que encontrasse!!!
Ontem tive o prazer, a sorte e a honra de co-entrevistar Gonçalo Ribeiro Telles, a pretexto da reorganização dos municípios, tema da actual agenda política. A idade do arquitecto pouco menos (catorze anos) é do que a soma das idades dos dois que o ouviam, preocupadíssimo com a situação do país enquanto território, a desqualificação dos políticos e autarcas e até com a falácia da universidade. Para ele, nada do que se projecta fazer vai ao fundo do assunto, coloca o dedo na ferida, que a cada ano piora. Continua atento aos flagelos país afora. Trouxe escritos antigos, com as suas ideias claras sobre um ordenamento baseado nas regiões naturais e no saber acumulado que a História demonstra. Não conheço em Portugal ninguém como ele, que contra o vento fala com acerto e saber técnico do que precisa ser feito para reverter um caminho de clara destruição da nossa terra, que tendo impacto suicidário é sobretudo ignorante e ambicioso de lucros imediatos. Uma ideia fica: só se ama o que se conhece. E sem ouvir os sábios, estudar as ciências, ter visão comparativa, ninguém pode decidir seja o que for em que domínio for. E como não conhecem/estudam a sua terra, os políticos não podem amá-la, o que significa protegê-la. Constroem-se estradas que vão dar a sítio nenhum, como a certa altura disse o João. — Ouvindo Ribeiro Telles, dei-me conta que a sua tão intensa relação de pertença só podia advir de ser ele monárquico: causa ou consequência disso, pouco importa!

Um lavrador numa feira agrícola disse ontem que este ano haveria de ser extraordinário no vinho e nas frutas deliciosas e perfumadas. No meio desta derrocada, que seja o húmus pátrio a reclamar o nosso esforço expondo as graças do seu exemplo e generosidade, parece-me tão notável que nem sei dizê-lo como deveria. Que venham pois o nosso sol e o nosso bom clima dizer-nos que isto não pode ficar assim e todos têm uma parte a fazer, aqui e agora, sem um dia a perder. A perder-se, afinal. As árvores, já notaram, têm uma plasticidade que lhes permite sacudir-se pelo vento sem quebrarem. Assim sejamos nós: árvores flexíveis e resistentes, dando bons frutos, saborosos e perfumados. Uma boa semana de trabalho para todos nós.

Reabre, lá isso, reabre — e com falhas graves mas escondidinhas: todo o fundo literário, cota L, só fica acessível a 1 de Novembro; História e Geografia, daqui a um mês. Seria bom que a Biblioteca Nacional dissesse publicamente a quantos livros correspondem estes lotes, que pequenos não são de certeza! E por que não foi dada prioridade a estas disciplinas, que me parecem centrais nos interesses de estudo dos leitores.
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