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Uma entrevista fundamental e fabulosa

por henrique pereira dos santos, em 25.06.17

Obrigado ao António Salgueiro, pelo que diz, obrigado à Carla Castelo pelas perguntas que faz mas, acima de tudo, pela genuína vontade de compreender que é patente na entrevista.

Talvez mais de metade dos posts que tenho escrito aqui criticam, às vezes acidamente, a comunicação social, mas neste momento gostaria de realçar a poderosa demonstração do que é a utilidade do jornalismo e da comunicação social.

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Mea culpa

por henrique pereira dos santos, em 24.06.17

Num primeiro momento, desvalorizei o enésimo comentário a responsabilizar o neoliberalismo e o capitalismo pelos fogos, mas depois percebi que era só preconceito meu: se o chavismo conseguiu por a Venezuela com escassez de petróleo, seguramente conseguiria por Portugal com escassez de fogos.

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Eucaliptocratas, diz ele

por henrique pereira dos santos, em 24.06.17

Normalmente não perco grande tempo com o que escreve Francisco Louçã, mas nestes dias tenho-me cruzado com uma ou outra coisa que escreve sobre fogos, como aconteceu hoje como texto que está no Público onde usa o neologismo que eu trouxe para o título do post.

Resolvi pois fazer um post sobre a profunda ignorância em que assentam discursos como este que, se fossem apenas de Louçã, não traziam mal ao mundo.

Infelizmente, por razões históricas e sociais, a diabolização do eucalipto tem fundas raízes sociais, acabando por influenciar o desenho de políticas públicas de uma forma completamente irracional.

Ouçamos pois os intocáveis (na intensa cobertura noticiosa, quantas vezes foram ouvidos bombeiros da Afocelca, operacionais das celuloses, responsáveis pela gestão do eucalipto, responsáveis por agrupamentos de produtores, como a Unimadeiras ou a Abastena, grupos de certificação florestal das associações de produtores?), através de uma mistura entre comentários informais do meu amigo Henk Feith, penso que director florestal da Altri Florestal (uma das duas celuloses que existem no país), que assinalarei entre aspas, e comentários meus, sem aspas. Mesmo tendo havido situações em que o meu português já foi corrigido, e bem, pelo Henk, num ou noutro pormenor pode haver um certo desvio do padrão da língua, dado que a língua materna do Henk é o neerlandês (holandês para os amigos, mas não para os próprios falantes da língua).

"se tirarmos os eucaliptos da paisagem portuguesa, também tiramos a única corporação profissional de bombeiros florestais do país da equação. Sabiam que 95% das intervenções de combate a incêndios da corporação Afocelca são fora do património das empresas de celulose. Já imaginaram as estatísticas dos incêndios em Portugal sem Afocelca? Estive estes dias no incêndio de Gois. Os únicos bombeiros que eu vi combater os fogos na floresta foram os Espanhois,que estiveram connosco a combater. Os colegas Portugueses estavam todos juntos às casas à espera do fogo lá chegar. É assim que está definida na estratégia da ANPC. Eu não discordo das prioridades estabelecidas, discordo com a estratégia para as concretizar. Para defender as casas, é preciso combater o fogo na floresta, e não ficar á espera dele junto das aldeias."

"Estivemos trÊs dias a combater e o dano (em propriedades da Altir, entenda-se) ficou limitado a 14 hectares numa propriedade de 600, dos quais 200 de pinheiro bravo e 400 de eucalipto (Propriedade Vale Lapão, por sul do parque eólico). Mas o que travou o incêndio foram as plantações de eucalipto, porque quando o incêndio la bateu em força vindo do sul, rapidamente abrandou e foi controlado por nós. Estivemos três dias a combater o incêndio fora da propriedade, sem apoio de ninguém a não ser os Espanhóis na segunda feira, em áreas abandonadas, com eucaliptos e pinheiros. Quando chegou à área devidamente gerida (por nós), o assunto ficou resolvido em poucas horas. E sim, passámos lá mais 24 horas para controlar reacendimentos, algo que também mais ninguém faz. E sim, meus colaboradores tiveram lá 36 horas seguidas a combater, a defender a sua casa, sem olhar para cansaço nem família. Porque eles sim acreditam na floresta Portuguesa e estão dispostos para a defender contra tudo e todos. Como era costume no mundo rural há décadas"

"Para nós, uma taxa de incêndio de 0,5% é aceitável em termos de gestão empresarial (é um KPI clássico). Acima disto, o dano por incêndio começa a constituir-se uma ameaça à sustentabilidade da nossa atividade empresarial. Ficámos acima deste valor em 2003, 2005, 2016 e 2017 (já). Mas em média estamos abaixo deste valor. Bem abaixo (0,3%). Estou convencido se a floresta que nos vizinha fosse gerida como a nossa, ficávamos facilmente abaixo dos 0,1%. Extrapola isto para o panorama nacional..."

"em 2017 estamos já acima dos 0,5%. Em Figueiró e Penela fomos fortemente atingidos. Estive lá. Foi impossível de travar devido à falta de gestão de grande parte da área que ardeu. Curiosamente, uma plantação nossa de 2015, Feteira, passou intocado enquanto tudo em redor ardeu. Em breve voupublicar no YouTube um vídeo sobre o efeito benéfico das plantações recentes nos incêndios, com um exemplo correto de um incêndo em 2016 em Castelo Branco"

Por umas contas que fiz aqui em cima do joelho, se a média nacional de área ardida ficasse pelos 100 mil hectares previstos (e não fica), a taxa de incêndio que teríamos no país, para comparar com os 0,3% desta empresa de celulose, seria um pouco mais de 1,5% se contarmos os matos, e entre os 3 e os 3,5% se contarmos só os povoamentos. Fiquemos pelos 1% (se é verdade que o que interessa é a área total de povoamentos, também é verdade que tipicamente mais de 50% da área ardida são matos) para comparar com os 0,3% e concluímos que o Senhor Louçã, do fundo do seu sofá, responsabiliza pelos fogos em Portugal os que ele chama de eucaliptocratas, isto é, as pessoas que conseguem ter uma taxa de incêndio de 0,3% para comparar com o que nós, como sociedade, temos para apresentar em termos nacionais, 1% (contas muito por baixo).

"eu defendo uma visão de "créditos de biodiversidade", em que as espécies produtivas como eucalipto, pinheiro bravo, pinheiro manso e sobreiro suportam a gestão das espécie "não-comerciais". Um pouco como o mercado de carbono, mas para floresta nativa. Uma fábrica que emite CO2 tem de comprar créditos de carbono; uma floresta comercial pode ter de comprar créditos de floresta de conservação. Quem planta 10 ha de floresta de produção tem de ter ou financiar 1 ha de floresta de conservação. Assim, o investimento florestar impulsiona a conservação da floresta. Em vez de proibir, promove-se o equilíbrio."

Ou seja, o eucaliptocrata que anda há três dias a bater com os costados no meio do fogo (não, não é na estrada, à volta das aldeias, é mesmo lá, nos sítios em que sabem que há oportunidades criadas pela gestão para parar o fogo), afinal defende uma solução de onerando a exploração permite financiar a conservação, mas o senhor Louçã, do fundo do seu sofá, acha que o mais eficaz é proibir a actividade económica que permite a libertação de recursos para a gestão, entregar mais não sei quantos milhares de hectares ao abandono que potenciam a dimensão social catastrófica dos fogos, liquidar a mais eficiente e a única estrutura profissional de bombeiros florestais e diminuir o rendimento de 400 mil pequenos proprietários.

Eucaliptocratas, diz o senhor Louçã. Obrigado Henk, obrigado Tiago Oliveira, e muitos outros, direi eu.

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Tais quais, oliveiras, olivais

por henrique pereira dos santos, em 23.06.17

"eucaliptais intensivos jogam na mesma equipa que olivais intensivos em matéria de esgotamento de solos, biodiversidade, etc. Mas não tem, de perto nem de longe, o mesmo comportamento em fogos!"

Este comentário foi-me feito por uma pessoa informada, séria, bom rapaz e com formação e conhecimento em gestão de paisagem, a propósito do facto de eu ter dito qualquer coisa sobre a quase irrelevância da questão do eucalipto para a gestão dos fogos.

Vale a pena comentá-lo porque traduz um conjunto de mitos que toldam a discussão racional da gestão do território.

Olivais intensivos, eucaliptais intensivos, milharais intensivos, pomares intensivos, pecuária intensiva, etc., são tudo opções dos produtores que devem ser livres num mercado livre.

Mas é perfeitamente razoável que sejam impostas restrições quando a decisão de interesse individual colide com o interesse público: se, de facto, os eucaliptais tivessem alguma importância decisiva para a gestão racional do fogo, poderia fazer sentido limitar a sua expansão (na realidade, o que seria aconselhável, nesse caso, seria o seu arranque, e não meramente a limitação da sua expansão, porque a situação existente, pelos vistos, já seria incomportável). Não havendo qualquer relação relevante entre gestão do fogo e a presença de eucaliptos, faz tanto sentido aprovar a limitação à sua expansão como atirar balões de água para as frentes de fogo.

Mas poderia fazer sentido aprovar limitações à expansão de eucalipto como à expansão de olivais intensivos se, como é dito no comentário, houvesse perdas relevantes para o solo, a biodiversidade, etc..

Grande parte da fundamentação para este tipo de afirmações baseia-se num método de análise absurdo que consiste em comparar a biodiversidade de espaços produtivos com espaços não produtivos, concentrando-se num dos lados da equação (por exemplo, a biodiversidade) mas omitindo o outro lado da equação (o valor económico).

Os espaços produtivos são simplificações dos sistemas naturais (mais ou menos profundas depende do modelo de gestão desses espaços) e por isso, inevitavelmente, têm um menor grau de naturalidade e, normalmente, um maior valor económico. Há sempre uma troca entre estes dois valores, portanto o que faz sentido não é comparar os dois extremos do gradiente de "naturalidade" mas sim procurar encontrar pontos de equilíbrio que sejam socialmente óptimos, satisfazendo necessidades económicas e ambientais.

Comparar os efeitos dos eucaliptais intensivos (que são uma minoria dos eucaliptais do país) com os dos olivais intensivos é interessante.

Nos olivais intensivos existe rega, o que desde logo corresponde a uma alteração muito mais profunda dos sistemas, mas a existência de água permite arrelvar as entrelinhas, o que pode ser mais interessante para alguns grupos de fauna (por exemplo, coelhos, invertebrados, etc.). Por outro lado, com operações constantes e cargas humanas maiores no olival, para além de um maior uso de fitofármacos e adubos de síntese, é muito mais fácil encontrar grandes rapinas em eucaliptais, à procura de tranquilidade, que em olivais intensivos.

Portanto, do ponto de vista de biodiversidade não é nada verdade que os eucaliptais intensivos joguem no mesmo campeonato dos olivais intensivos: os dois têm, de maneira geral, uma relativamente baixa diversidade biológica, mas os primeiros são mais úteis para espécies mais ameaçadas e os segundos são mais úteis para espécies comuns, podendo, no entanto, ser importantes por produzirem uma base da cadeia trófica mais robusta.

Em relação ao solo os problemas são muito diferentes, mas quer num, quer noutro, os efeitos negativos, e a sua magnitude, dependem essencialmente das técnicas de gestão (por exemplo, haver ou não arrelvamento da entrelinha no caso o olival, passar uma grade de discos ou fazer um fogo controlado no caso do eucaliptal, podem gerar consequências bem diferentes na qualidade do solo).

O interessante disto, e as comparações com pomares de pera rocha ou campos de milho iriam dar ao mesmo, é que enquanto conseguimos discutir todas estas questões numa base relativamente racional para quase todos os usos do solo, o eucalipto tem um estatuto à parte: não é, objectivamente, uma espécie florestal cujo uso deva ser discutido com base na melhor informação disponível e de forma racional, é simplesmente uma bandeira política que se defende, ou não, sem qualquer relação com os factos verificáveis.

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A cínica e indecorosa montagem mediática a que o IPMA se prestou

por henrique pereira dos santos, em 22.06.17

Tenho procurado evitar, agora, a discussão de responsabilidades políticas no fogo de Pedrógão Grande: é cedo, tenho pouca informação e prefiro não correr o risco de ser injusto.

Mas o que é de mais é moléstia.

O Governo num primeiro momento ensaiou a clássica estratégia mediática de contenção de danos, desvalorizando o que se estava a passar. Até aqui está dentro do cinismo típico de quase todos os governos nestas circunstâncias. E a probabilidade de ter sucesso nesta operação de comunicação seria muito elevada, não se desse o caso de ser impossível desvalorizar a dimensão da catástrofe humana.

Rapidamente o governo virou a agulha e passa agora todo o tempo a procurar consolidar a ideia de que condições meteorológicas excepcionais e imprevisíveis ocorreram e ninguém pode estar preparado para o desconhecido.

Nessa tentativa de manipulação (infelizmente não há jornalista que pergunte "se assim foi, o governo está a dizer que quando houver outra vez condições extremas como estas, as pessoas comuns que se amanhem porque o Estado não sabe o que fazer?") desempenha um papel essencial a credibilização científica da teoria de que ocorreram condições meteorológicas absolutamente excepcionais e imprevisíveis ("um nevão no Algarve em Agosto", para usar o exemplo de João Miguel Tavares).

É absolutamente indecorosa a utilização de serviços técnicos do Estado, como o IPMA (António Costa fez parte de um governo que usou o mesmo esquema com o Banco de Portugal a calcular défices virtuais para abrir espaço político ao aumento do défice do primeiro ano dos governos Sócrates, portanto sabe muito bem como isto se faz e acha normal) da forma como está a ser feita, prestando-se o IPMA e o seu presidente a colaborar no embuste.

O que o IPMA tinha a fazer era simplesmente dizer o que é tecnicamente razoável, que sim, que houve condições meteorológicas extremas, relativamente raras, mas que sempre existiram e sempre existirão.

Ao prestar-se à pura manipulação política como a que foi montada, com o primeiro ministro a fazer perguntas formais retóricas e o IPMA a mandar respostas encenadas (quem não se lembra das encenações de Costa fingindo estar a negociar com a coligação que ganhou as eleições, ao mesmo tempo que montava uma solução alternativa que pressupunha a ausência de resultados dessas supostas negociações), o IPMA diminui-se a si próprio e mina a sua credibilidade, contribuindo para a desconfiança das pessoas comuns em relação a um Estado completamente enfeudado à conveniência política do governo.

O IPMA resolveu contribuir para a chuva dissolvente que cai sobre as instituições públicas em Portugal, infelizmente.

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António Salgueiro

por henrique pereira dos santos, em 22.06.17

Nestes dias, em que até eu, seguramente não especialista em fogos (o que estudei é evolução da paisagem e os fogos surgem no meu caminho apenas pela sobreposição que existe nos dois assuntos, procurando eu usar a melhor informação disponível nas matérias que não conheço directamente, sobertudo servindo-me do trabalho de Paulo Fernandes e José Miguel Cardoso Pereira), devo ter dado mais de dez entrevistas, em diferentes formatos, a diferentes jornalistas, António Salgueiro não tinha dito nada até hoje.

Sei que não foi por falta de esforço dos jornalistas envolvidos na produção de informação sobre fogos porque eu próprio sugeri a vários que falassem com António Salgueiro, que esteve sempre na lista de pessoas que vale a pena ouvir sobre o assunto de cada vez que me pediam indicação de quem poderia contribuir seriamente para a discussão. Muitas vezes ouvi de volta que o António não queria falar naquele momento.

Mas hoje tem uma entrevista ao Público e à Renascença, que provavelmente lhe vai sair cara do ponto de vista pessoal e é fundamental neste momento.

O que eu queria era mesmo agradecer publicamente a coragem do que é dito, a ponderação do que é dito e a liberdade de espírito do António.

Obrigado.

 

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Da falta de vergonha

por henrique pereira dos santos, em 21.06.17

"Aos microfones do Fórum TSF, Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, revelou acreditar não ter sido a trovoada a causadora do incêndio de Pedrógão Grande. Até prova em contrário, o presidente diz-se convicto de que o fogo teve origem criminosa.
“O incêndio já estava a decorrer há cerca de duas horas”, disse Jaime Marta Soares, acrescentando: “Eu tenho para mim de que o incêndio teve origem em mão criminosa.”".

O vergonhoso aqui não é o que diz Jaime Marta Soares, na verdade não se pode esperar das pessoas mais do que podem dar.

O vergonhoso é que afirmações deste tipo, sem qualquer base, sejam acefalamente repetidas pela imprensa.

Que Jaime Marta Soares diga isto no Fórum TSF é uma questão que apenas lhe diz respeito, mas que imediatamente isto seja repetido por grande parte da imprensa já é uma coisa que nos diz respeito a todos.

Desde quando propagar boatos é função da comunicação social?

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Da responsabilidade moral e da irresponsabilidade

por henrique pereira dos santos, em 18.06.17

Hesitei em escrever este post, por respeito pelas vítimas e pelo risco de ser entendido como a utilização da morte de terceiros para obter ganho de causa.

Ou melhor, ontem à noite, quando me deitei, não sabendo que havia mortos nos fogos que estão a ocorrer, tinha planeado escrever hoje de manhã um post sobre a responsabilidade moral nas tragédias que ocorram nos incêndios de Verão.

Não porque seja possível evitar todas as tragédias, mas porque estas tragédias, previstas repetidamente por quem estuda seriamente a gestão do fogo, são enormemente potenciadas por uma doutrina de gestão de fogo completamente absurda face ao que hoje se sabe.

Países como os Estados Unidos, a Austrália e outros com territórios no lado Ocidental dos continentes, perto do paralelo 40 (como é o nosso caso), há muito que abandonaram a ideia de suprimir o fogo e insistem em políticas de gestão do fogo através da gestão dos combustíveis.

Mesmo noutros contextos geográficos, há a adopção de mudanças substanciais na doutrina, como fez recentemente o Ontário (depois de um fogo, de características diferentes dos nossos, de meio milhão de hectares).

O problema central é que em Portugal parece ser admissível que um governante diga, como terá dito ontem o secretário de estado da administração interna, que o comportamento do fogo não se prevê, o que há é uns académicos com umas teorias sobre isso.

Tal como parece ser normal o presidente da liga dos bombeiros, que há anos que diz disparates sobre a gestão do fogo (incluindo o clássico "nunca um fogo ficou por apagar"), aparecer sistematicamente nestas situações a repetir a defesa de opções erradas e que estão na base de tragédias como a desta noite.

E que o presidente da AIMMP seja sistematicamente convidado para falar de fogos, com um discurso completamente ignorante e absurdo sobre incendiários, sem qualquer ligação com a realidade conhecida e estudada.

E que o presidente da Protecção Civil diga que correu tudo bem num ano em que há um fogo de trinta mil hectares, tendo como objectivos para o ano seguinte (2017) não ter perdas de vidas.

E que qualquer presidente de Câmara diga que não sabe como é possível o que está a acontecer, quando qualquer curioso que estude o assunto com um mínimo de atenção, e recorrendo a quem sabe do assunto, lhe explica em três tempos que em condições meteorológicas extremas o seu concelho vai ser palco de uma tragédia, mas que isso tem solução se se quiser empenhar nas políticas de gestão de combustíveis a sério, em vez de fazer declarações patetas sobre as origens dos fogos.

Estes senhores são moralmente responsáveis por transformar os bombeiros em carne para canhão, quer defendendo e aplicando a doutrina do Portugal sem fogos, quer mantendo uma estúpida oposição à profissionalização dos bombeiros e respectiva integração entre gestão de combustíveis e combate.

Tal como declarações totalmente irresponsáveis de académicos respeitados, mas que nunca estudaram ecologia e gestão do fogo, bem visíveis neste artigo de 2010 (refiro-me, naturalmente, às declarações irresponsáveis de Helena Freitas, e não à sensatez habitual de Paulo Fernandes, que infelizmente é menos ouvido no país, e pelos decisores, do que seria bom para nós), ajudam a suportar a ideia estúpida de que o fogo é um inimigo que pode ser vencido, em vez de olhar para o fogo como um elemento natural que precisa de ser gerido de forma economicamente sustentável, em que o Estado se empenha em suprimir as falhas de mercado de um sector com graves problemas de competitividade na maior parte do território.

Por respeito e em memória das vítimas decidi pois escrever este post, dizendo que o fogo é previsível, estas tragédias são uma questão de tempo até se repetirem se mantivermos a doutrina do "Portugal sem fogos" e se insistirmos em assentar a gestão do problema em corpos de voluntários sem qualquer ligação com a prevenção estrutural feita no Inverno.

Nada me move contra os corpos de voluntários, são muito úteis e, provavelmente, imprescindíveis, mas precisam de uma estrutura profissional que conheça o território, crie e conheça oportunidades para parar os fogos onde podem ser parados e que enquadre devidamente a generosidade dos voluntários.

Já chega de pura irresponsabilidade e de um discurso obscurantista que desvaloriza o conhecimento existente e a sua aplicação em contexto real.

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Cumprir promessas eleitorais

por henrique pereira dos santos, em 17.06.17

Tenho uma discussão recorrente com um dos meus amigos que acha que alguém que se candidata com um programa eleitoral e, depois de eleito, executa outro, deveria ser removido do poder, se preciso, por via judicial.

Eu tenho defendido que prefiro alguém que executa o programa certo, a alguém que executa um programa errado, apenas porque foi o que prometeu nas eleições.

As minhas razões de fundo são duas: 1) não acredito que a maioria dos eleitores vote por causa dos programas eleitorais apresentados em campanha e muito menos acredito que a maioria das pessoas acreditem piamente que alguém os vai executar exactamente como apresentados na campanha, logo, não dou muita importância a essa coisa dos eleitores enganados; 2) não faz sentido executar políticas erradas quando se conclui que são erradas, só porque foram as prometidas nas eleições.

Estou convencido de que a maioria das pessoas sabem que um discurso sobre o futuro, como são sempre as campanhas eleitorais, é intrinsecamente falível porque o futuro é demasiado incerto e estão portanto disponíveis para as adaptações que vão sendo feitas, sejam elas mais pontuais ou mais estruturais.

De resto, a maioria das pessoas que me lembro de se indignarem com o suposto logro de Passos Coelho na campanha de 2011 (um argumento que nunca entendi porque a maioria dos que manifestavam essa indignação não tinham votado nos partidos da anterior maioria, logo, não tinham sido enganadas), estão muito satisfeitas com a actual situação de governo que nunca foi a votos: os programas que estão em execução, quer o que é usado na retórica, quer o que é posto em prática, não são nenhum dos programas apresentados a eleições, são a resultante das negociações pós-eleitorais, no caso do programa retórico, e a resultante das negociações com a  Comissão Europeia, no caso do que é aplicado na prática.

O mesmo se passa com algumas das pessoas que se irritam com Trump por estar a aplicar (mais ou menos) o que prometeu em campanha (quanto a mim, infelizmente, mas a democracia não é o sistema que escolhe as melhores soluções, é apenas o sistema em que se pode remover o governo em funções sem efusão de sangue).

É por isso que, passando por cima da deselegância de nunca se reconhecer o esforço e resultados do governo anterior, estou muito satisfeito por este governo se ter deixado de fantasias e ter passado a aplicar o essencial do que vinha a ser feito.

Há diferenças de pormenor (por exemplo, o governo anterior preferiu cortar salários e pensões no Estado para evitar maiores aumentos de impostos, o actual governo optou por beneficiar dois grupos sociais que lhe são favoráveis, os funcionários públicos e os pensionistas, transferindo o custo para a generalidade da sociedade através de impostos indirectos e cortando no investimento público) mas, no essencial, o caminho de consolidação orçamental está lá na mesma.

Tudo isto é feito ao arrepio do prometido nas eleições?

Sim, é, mas para a sociedade isto é incomparavelmente melhor que aplicar políticas que iríamos pagar amargamente só com o putativo objectivo de credibilizar os processos eleitorais.

Continuo a achar que se está a correr demasiados riscos, que o governo está a ser imprudente, que era possível fazer melhor (por exemplo, concordo totalmente com as políticas de transferência da taxação dos factores de produção, capital e trabalho, para a taxação do consumo, mas isso é muito diferente de capturar impostos indirectos para pagar a grupos sociais específicos, o que faria sentido seria fazer corresponder ao aumento de imposto sobre combustíveis uma baixa do IRC e do IRS, e não comprar votos, como foi feito) e, sobretudo, preocupa-me que a principal linha de reforma do governo anterior esteja totalmente em causa: o combate à captação dos recursos públicos por interesses privados de que o maior símbolo é o "não" que foi dado a Ricardo Salgado.

A promiscuidado entre o poder e a economia está outra vez em crescendo e esse é um problema que nos vai custar muito caro a resolver outra vez, daqui a uns anos.

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"Maltratar e humilhar os Portugueses"

por henrique pereira dos santos, em 16.06.17

O Governo anterior tem vindo a ser reconhecido, muito a custo, como um governo razoável, tal como o programa de ajustamento tem vindo a ser reconhecido como tendo sido útil.

O défice externo (a fonte de todos os problemas) desapareceu desde o meio do programa de ajustamento, a melhoria dos indicadores do emprego e desemprego (o principal custo social do programa de ajustamento) tem vindo a ser reconhecida como influenciada pelas reformas feitas sob os auspícios da troica (e que o actual governo não se tem atrevido a reverter), as condições de financiamento do Estado português (a corda que partiu e levou ao pedido de ajuda) estão em condições razoáveis porque o actual governo tem demonstrado que na prática vai prosseguir as políticas do governo anterior e do programa de ajustamento e a famosa devastação social afinal não existiu e os problemas sociais decorrentes do desemprego foram sendo geridos e começaram a ser revertidos já em 2013 (em especial na medida em que o desemprego começou a descer).

Mas na actual maioria há uma linha de comunicação política absolutamente clara: nunca, em tempo algum, se pode reconhecer que afinal não era verdade o que foi dito ao longo deste tempo todo sobre o governo anterior, porque essa é a única base em que assenta o governo e a maioria conjuntural que o apoia.

É por isso que mesmo sabendo a figura ridícula que resulta desta opção (já nem falo de João Galamba a dizer que outro partido qualquer se tornou num partido estruturalmente aldrabão), Centeno não se coíbe de querer convencer-nos de que quando Schauble diz que "o programa de assistência português “é uma história de sucesso”"quer na realidade dizer que "se conseguiu mais neste ano e meio (que nos anteriores), em particular na credibilidade".

Que a actual maioria continue com este discurso sem que a imprensa questione seriamente este tipo de afirmações absurdas, mas que se repetem mecanicamente, só demonstra o estado deplorável da discussão de políticas públicas que existe.

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El Cordobés parecerá um amador

por henrique pereira dos santos, em 06.06.17

Até agora, as pessoas que rodeavam, apoiavam, propagandeavam Sócrates, muito para lá das fases iniciais da sua ascensão, têm sabido executar umas faenas notáveis que restringem os problemas do socratismo ao próprio, alguns sócios e amigos chegados.

Os outros estavam ali só para ver passar os comboios e nunca deram por qualquer promiscuidade entre política e negócios, nunca viram o menor sinal de captura do Estado pelos interesses privados, não faziam ideia do que se passava.

Com o caso da EDP/ Manuel Pinho a corrida vai subir de nível e a casa virá abaixo com os aplausos que, seguramente, serão desencadeados pela qualidade das faenas para garantir que não se passava nada, que não era nada de sistémico, que não havia uma opção de reforçar o capitalismo de compadres que nos caracteriza.

O que se passa é apenas que em qualquer grupo, como em qualquer família, há sempre umas ovelhas negras por cujos actos nenhum dos que os apoiaram, promoveram, incentivaram, pode realmente ser responsabilizado.

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Imprensa dormente

por henrique pereira dos santos, em 05.06.17

Sim, a fonte está muito, muito longe de ser independente, mas é avassaladora a quantidade de factos deste artigo.

Se são verdade ou não, não sei, o que me impressiona é o desprezo completo da imprensa pela quantidade de lebres levantadas com o que parece ser um mínimo de objectividade.

É que não é a primeira vez que muitas destas lebres vão sendo referidas  aqui e ali.

"Para lá da insensibilidade, não direi boçalidade, dos sucessivos comentários sobre a falta de alegria do Dr. Passos Coelho que, em boa verdade, dizem muito de quem os profere, não há argumentação política em Portugal. Vivemos intoxicados em felicidade. O nosso debate construtivo está parado na avaliação de quem diz as melhores larachas."

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Terrorismo florestal, diz ele

por henrique pereira dos santos, em 03.06.17

"Estamos a fazer faixas de contenção em 16 hectares, com pinheiros, sobreiros e carvalhos, numa zona primária de defesa contra os fogos. Só vamos ter lucro daqui a 50 anos. Nos restantes terrenos em 300 hectares que são da junta, alguns foram arrendados a Portucel que tem a sua mata de eucaliptos cuidada, com intervalos entre as árvores e com os caminhos limpos. "Foi num terreno da empresa que conseguimos travar o fogo de agosto passado, em Rio de Maçãs", contou Pedro Vidal.”
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar como tenciona Pedro Vidal gerir os tais 16 hectares para que não ardam vez nenhuma em 50 anos, numa região que tem fogos com intervalos entre 10 a 15 anos.
“As únicas matas limpas e ordenadas da região são as das celuloses, garante o autarca.”
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar por que razão pensa o senhor autarca que as matas das celuloses são diferentes das outras áreas de eucalipto.
“O incêndio alastrou num ápice, por causa dos ventos de 100 quilómetros hora que varriam tudo e projetavam casca de eucalipto ardida e fagulhas pelo ar. "Começou a subir e houve logo três projeções de um para o outro lado da encosta. Passado meia hora, o fogo começou a ficar perto das habitações. Ninguém se segurava aqui com o vento".”
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar se assim é, que diferença faz ter melhores acessos, mais pontos de água e melhores equipamentos?
"Há zonas que podiam ser mais protegidas e termos melhor acesso ao fogo se houvesse estradões que é oque falta nos terrenos.”
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar como é que o problema são os acessos se o fogo se consegue parar nas matas das celuloses e não nas outras matas, que muitas vezes até têm melhores acessos?
“Há 50 anos instalada ali, assistiu à chegada das fábricas e à debandada dos trabalhadores agrícolas para a indústria. "Os campos andavam cultivados e arranjados, havia muitos animais, não havia fogos grandes destes", lamenta.”
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar se há cinquenta anos os acessos eram melhores, havia mais pontos de água e se os bombeiros estavam cheios de carros novos e equipamentos sofisticados e quantos aviões combatiam fogos nessa altura.
“"Estava tudo pronto para se poder vender. Dava mais de 100 mil euros se fosse tudo vendido", lamenta. Esta propriedade florestal, tal como muitas outras na zona, estava entregue ao crescimento selvagem, como a própria dona assumiu. "Como aquilo tinha sempre muito mato há tempos fomos lá ver se dávamos com os marcos, mas o pinhal, as silvas e os tojos estavam tão grandes que não se conseguia passar lá. Não víamos os marcos para cada um vender as suas leiras.”.
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar por que razão, tendo um valor de 100 mil euros na mão, os donos não o geriam.
“Temos 90% de voluntários no país … Exigimos que houvesse um aumento de 2 euros na compensação de 45 euros para que se chegasse, entre 2018 a 2012, ao valor de 50 euros por 24 horas de serviço.”
(Comentário) À jornalista, infelizmente, não lhe ocorreu perguntar a Jaime Marta Soares se os voluntários pagos a mais dois euros por dia resolveriam o problema dos fogos, ou se não seria melhor pegar no mesmo dinheiro e pagar a sério profissionais a sério, chegariam talvez 10% do número de voluntários que temos, que estivessem o ano todo no terreno, a preparar o território para a intervenção no Verão. O sistema passou de um custo de 30 milhões por ano para 100 milhões por ano, sem que se veja qualquer alteração de resultados, talvez o problema não seja a falta de dinheiro, mas a forma como se gasta o dinheiro que existe.
Infelizmente é isto, uma quantidade de gente a dizer coisas sem o menor sentido, e uma quantidade enorme de pés de microfone a repetir o que ouvem, sem o menor sentido crítico.
Em matéria de fogos a falta de escrutínio e avaliação de resultados é gravíssima, o que só é possível pela forma leviana, muitas vezes ignorante, como a generalidade (há excepções, e é bom que se reconheçam essas excepções, mas são casos pontuais) do jornalismo embarca em discursos emocionais, sem qualquer relação com a realidade e a racionalidade, aceitando qualquer patacoada sem qualquer base factual empírica que encaixe nestas ideias de terrorismo florestal, Portugal sem fogos e outras tolices do mesmo tipo.

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Abertura solene da época de caça ao incendiário

por henrique pereira dos santos, em 28.05.17

Decorre hoje a abertura solene da caça ao incendiário, promovida pela associação patronal dos bombeiros.

O programa para a época que se segue foi claramente enunciado pelo presidente da referida associação patronal, a Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, comentando o processo reivindicativo que está em curso, no sentido de se aumentar o desvio de recursos de todos para as organizações de bombeiros (não confundir a captação de recursos pelas organizações de bombeiros com a captação de recursos para os bombeiros, isso seria o mesmo que dizer que o apoio à capitalização das empresas é um apoio aos trabalhadores portugueses, relacionam-se, mas não são a mesma coisa): "Quanto aos meios mobilizados para o combate aos incêndios deste ano, constituem "o dispositivo possível", para o presidente da Liga. "Está preparado para uma média de 200 a 250 fogos por dia. O problema é que num país como o nosso, em que andam à solta os incêndiários criminosos, ocorrem 300 a 400 e às vezes até 500 fogos por dia"".

Comecemos por um rasgado elogio à política de comunicação da associação patronal dos bombeiros que conseguiu a notável conquista de convencer toda a gente que a Liga dos Bombeiros Portugueses é uma associação de bombeiros e não, como efectivamente é, uma associação das associações de bombeiros. Com este passe de mágica (que seria semelhante à CIP convencer a sociedade de que é legítima representante dos trabalhadores portugueses e, consequentemente, apoiar a CIP é apoiar os trabalhadores portugueses) a Liga dos Bombeiros Portugueses consegue transformar o esforço voluntário e generoso de milhares de pessoas no seu principal activo económico e político, quando reivindica mais dinheiro do Estado para os seus associados (as corporações de bombeiros, não os bombeiros em si), que é a sua principal actividade.

É essa notável campanha cerrada de comunicação que, pelos vistos, constrange os jornalistas a fazer perguntas básicas sobre as afirmações que são feitas por Jaime Marta Soares, um homem muito económico no uso da verdade quando discute fogos.

A pergunta central que qualquer jornalista informado deveria fazer é a seguinte:

"Se, como diz, o sistema está preparado para 200 a 250 fogos por dia, se a variação diária de fogos depende essencialmente das condições meteorológicas, se os dias em que há 300 a 400 fogos, o mesmo 500, são os dias de condições meteorológicas extremas, e se é nesses dias de condições meteorológicas extremas que arde 80% da área que arde num ano, a sua afirmação significa que o dispositivo só está preparado para os dias em que não faz grande falta, não estando preparado para os dias em que é preciso, é isso?".

O jornalista informado poderia acrescentar:

"É então isso que explica que o objectivo principal do Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Florestais não tenha qualquer relação com a defesa da sociedade em relação aos efeitos negativos dos fogos em condições extremas, mas sim um objectivo de auto-preservação: ter baixas zero."

Colérico como é o actual presidente dos patrões dos bombeiros, o mais natural é que respondesse em altas vozes, dizendo qualquer coisa sobre os 35 a 40%  dos fogos nocturnos que demonstram que isto é tudo obra dos incendiários, e que sobre isso os bombeiros não podem fazer nada (aliás, sempre que lhe fazem perguntas difíceis, o patrão dos patrões dos bombeiros saca de um argumento cuja resolução não diz respeito aos bombeiros).

E poderia até citar a autoridade do Senhor Secretário de Estado da tutela, que acha que "33% dos incêndios começam entre as oito da noite e as oito da manhã. Um terço dos incêndios em Portugal começar de noite é preocupante. Isto quer dizer alguma coisa".

Na verdade esta afirmação (que quase todos os secretários de estado do sector acabam por repetir de cada vez que a situação foge do controlo) só quer dizer que o Senhor Secretário de Estado não estudou bem o assunto, nem sequer foi ver a informação produzida pelos serviços, como estes gráficos:

fogos por hora.jpg

Se os senhores secretários de estado, e o senhor presidente da associação patronal dos bombeiros, quisessem deixar de ser demagógicos, em vez de falar de um terço de fogos à noite, explicariam didacticamente que o período da noite é definido administrativamente, das oito da tarde, às oito da manhã, o que significa que, no Verão, inclui muitas horas diurnas.

Explicariam também que a distribuição horária desses fogos não é uniforme, pelo contrário, concentra-se, como é normal, nas horas do fim do dia, sendo a maior parte nas duas ou três primeiras horas do tal período nocturno, a maior parte do qual ainda é dia.

Explicariam também que a hora a que um fogo é registado é a hora a que é detectado, não tanto a hora a que realmente começa, podendo haver desfasamentos importantes (de várias horas, mas muito frequentemente de uma a duas horas, o que é perfeitamente normal).

E que dos famosos 35 a 40% de fogos nocturnos que alimentam as teorias de conspiração que alimentam os orçamentos das entidades patronais dos bombeiros, em especial a ideia de que o problema não é a inadequação do dispositivo às necessidades mas sim os incendiários (apesar de 1% das ignições darem origem a mais de 90% da área ardida), dos 35 a 40%, dizia, apenas cerca de 5% ocorrem entre as duas e as seis da manhã, a maior parte sendo, provavelmente, reacendimentos que são reportados como novos fogos.

Que Jaime Marta Soares defenda os interesses das corporações de bombeiros (o que não é o mesmo que defender os interesses dos bombeiros, repetirei sempre) eu entendo, está no seu papel (só não entendo como nunca ninguém achou que havia um conflito de interesses entre ser presidente da câmara a tomar decisões que beneficiavam a corporação de bombeiros a cujos orgãos sociais pertencia).

Que os secretários de estado, aflitos, digam qualquer coisa para se esquivar politicamente a um problema politicamente irresolúvel, porque resolvê-lo significa afrontar directamente os interesses das corporações de bombeiros e das autarquias, o que ninguém quererá fazer, eu também compreendo.

O que não compreendo é um jornalismo tão pobre, tão pobre que se satisfaz com teorias de conspiração que não resistem à mínima análise empírica de factos, cujos resultados estão disponíveis e são facilmente acessíveis.

Para quem acha que é assunto que não lhe diz respeito, será bom lembrar que tudo isto é um dos exemplos mais clássicos e bem documentados do velho princípio de que quando se atira dinheiro para cima de um problema, uma das duas coisa desaparece, mas raramente é o problema: o dispositivo custava trinta milhões, hoje custa mais de cem milhões, sem que na análise dos dados se consiga detectar a menor alteração de resultados na gestão do fogo em Portugal.

ADENDA: para o caso de alguém perceber melhor o atraso que está associado ao discurso do Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, dos responsáveis pela protecção civil, dos responsáveis pelo Governo que tutelam os fogos em Portugal, talvez seja útil ver este video dos serviços florestais americanos, que é excelente.

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Fundo ambiental aprova projectos de 20 milhões

por henrique pereira dos santos, em 27.05.17

A vergonhosa utilização de fundos com objectivos específicos, que o Estado usa para se financiar em vez de financiar as pessoas e a economia, está profundamente enraizada, de maneira que nem deputados, nem jornalistas, nem associações empresariais, nem ONGs, nem simples pessoas comuns parecem hoje incomodar-se com este abuso.

Infelizmente não vejo absolutamente ninguém interessado em discutir a separação das águas, definindo-se com clareza que o Estado se deve financiar via orçamento de Estado e que a utilização de fundos com objectivos específicos deve estar vedada a todas as entidades em que o Estado tenha mais de 25% do capital.

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Do medo de reconhecer o mérito do governo anterior

por henrique pereira dos santos, em 25.05.17

Manuel Carvalho faz um invulgar reconhecimento dos méritos do governo anterior ("teve coragem, energia e determinação para traçar um rumo. Governou o país na mais terrível conjuntura em décadas e deixou-o melhor para o primeiro-ministro que lhe sucedeu. Deixou-o com um défice controlável e, principalmente, liberto da sensação de que o Estado estava capturado por figuras como Ricardo Espírito Santo ou empresas como a Ongoing.").

Mas simplesmente reconhecer que o governo anterior cumpriu essencialmente o seu papel, entregando um país melhor que o recebeu, é o caminho certo para o abismo de um jornalista, a ruptura com as suas redes de influência, profissionais e de amizade, por isso é um passo que não pode ser dado pelas elites da imprensa.

Por isso, para fazer o reconhecimento de que o governo anterior foi um governo normal e que cumpriu o essencial das suas obrigações, é preciso acrescentar que o governo actual é igual ao governo anterior (sem nunca, mas nunca, fazer notar que os resultados governo actual não resultam da alteração das políticas anteriores, mas sim da sua manutenção, apesar da retórica demagógica que tenta demonstrar o contário) e que Passos Coelho e Costa são essencialmente iguais.

Como na verdade não são iguais (quando Passos Coelho demonstrava "coragem, energia e determinação para traçar um rumo", Costa empenhava-se em atacar as políticas que agora aplica com base em argumentos demagógicos, quando Passos Coelho evitava estar sempre a atirar responsabilidades para o governo anterior, que lhe deixou o país como deixou, Costa continua a falar sistematicamente da herança que recebeu, recusando-se a discutir seriamente a evolução que houve entre o que Passos herdou e o que deixou em herança, etc.) Manuel Carvalho vê-se obrigado a uns truques de retórica.

O culminar desta vontade férrea de evitar reconhecer que Passos Coelho foi muito melhor governante do que Costa tem demonstrado até agora, talvez sejam estes dois passos do artigo que Manuel Carvalho escreveu:

"o líder do PSD põe-se em bicos de pés e tenta que o ouçam com a mensagem de sempre - "não podemos cometer os mesmos erros", disse outra vez esta segunda-feira".

"a verdade é que este marco (a saída do procedimento por défice excessivo) do final de um ciclo só será mesmo importante se, como prometeu António Costa, esta "for a última vez que passamos por um processo tão traumático"".

Ou seja, Manuel Carvalho acha que tudo só será importante se, tal como dizem Coelho e Costa, esta for a última vez, mas Passos Coelho dizer isto é a demonstração de que é um idiota a pôr-se em bicos de pés, ao passo que Costa dizer o mesmo é a demonstração do comportamento responsável de Costa, provavelmente, acrescento eu, tão responsável como quando apoiou as políticas que nos levaram ao resgate e como, durante o resgate, fingiu que havia uma estratégia de empobrecimento absolutamente ilegitima provocada por um governo de masoquistas por mera cegueira ideológica e como hoje nega qualquer responsabilidade do governo anterior na melhoria da situação do país.

Eu entendo, é preciso fazer pela vida, e dizer simplesmente que Passos Coelho foi um razoável governante é um risco que qualquer jornalista é obrigado evitar, se quiser continuar a ser considerado pelos seus pares.

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Do boato

por henrique pereira dos santos, em 24.05.17

Vários jornais informam-me que Schauble terá dito que Centeno é o Ronaldo do Ecofin.

É-me completamente indiferente que o tenha dito ou não, o que me interessa é que estes jornais citam uma outra publicação on-line que diz que há uma fonte portuguesa anónima que diz que Schauble diz que Centeno é o Ronaldo do Ecofin.

Em tempos isto era apenas um boato, agora parece que os boatos, desde que sirvam a linha justa, também são notícias.

É pois natural que o Correio da Manhã, que tem mais notícias que os outros, venda mais que os outros: apesar de tudo custa um bocado pagar para ouvir conversas de porteiras.

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A prudência de António

por henrique pereira dos santos, em 23.05.17

António anunciou, urbi et orbi, que ia rapidamente levar a namorada a casa e já voltava.

Metade dos amigos, por serem seus amigos, tentaram demovê-lo, explicaram-lhe como era imprudente ir levar a namorada a casa depois de ter bebido uns copos a mais. Os mais dramáticos disseram mesmo que se ele pegasse no carro no estado em que estava, era o Diabo.

A outra metade dos seus amigos, que estavam interessados em se ver livres do chato do António, diziam-lhe que não ligasse a esses medricas, que fosse rapidamente levar a namorada e até aproveitasse para dar uma volta.

António, com medo que a namorada o achasse fraco, meteu-se a caminho.

Por mais copos que tivesse bebido, António não era parvo, foi guiando devagarinho, meteu-se por ruas com menos trânsito e mais largas e, mal deixou a namorada, encostou o carro e resolveu dormir um bocado.

No dia seguinte, quando António pontificava outra vez no grupo de amigos, a segunda metade ria-se da primeira metade dos amigos, concluindo que António tinha feito muito bem em não dar ouvidos aos desmancha-prazeres que queriam que optasse entre beber uns copos ou guiar o carro, pelo que daí em diante todos passariam a deixar de ligar aos copos que bebiam antes de guiar.

O simples facto de há vários dias ver toda a imprensa a fazer um raciocínio igualzinho a este, apenas substituindo o carro pelo governo, diz mais sobre a imprensa que sobre a prudência.

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O assunto agora é mais sério

por henrique pereira dos santos, em 17.05.17

António Costa resolveu fazer uma boa piada tomando conta dos filhos de João Miguel Tavares.

Mas o assunto de Eduardo Jorge é bem mais sério: o Estado entende que a vida independente de quem depende dos outros é um assunto menor e resolveu que o melhor é garantir a institucionalização das pessoas que dependem de terceiros.

"Ainda recentemente foi assinado o novo acordo de cooperação entre o Estado e os representantes da economia social, e por cada pessoa com deficiência o Estado atribui mensalmente ás IPSS mais de 1.000,00 por frequência de um lar residencial, e a um Centro de Atividades Ocupacionais 500,00.

Já para uma pessoa que tem a seu cargo, na sua casa, uma pessoa dependente o Estado atribui por mês aproximadamente 100,00".

Eduardo Jorge, com uma coragem de que provavelmente eu não seria capaz, decidiu entregar-se aos cuidados do Presidente da República, do Primeiro Ministro ou do Ministro da Segurança Social (e só deles) nos próximos dias.

Talvez estivesse na altura dos jornalistas de causas olharem para esta causa e do Primeiro Ministro se deixar de piadas com filhos de jornalistas e levar este assunto a sério.

É certo, os recursos não são infinitos, é certo que o argumento de que a dignididade não tem preço não é um argumento sério, mas também é certo de que é inaceitável que o Estado, no mínimo, não faça equivaler o apoio numa instituição ao apoio em casa (para já não falar da inacreditável restrição que discrimina negativamente as famílias face aos estranhos).

A mim parecem-me desarmantemente simples dois princípios centrais:

1) o apoio para ficar em casa deve ser pelo menos igual ao apoio à institucionalização;

2) a liberdade de escolha do que é melhor para mim é inalienável, sendo completamente inaceitável que o Estado restrinja a liberdade de quem já tem restrições que cheguem na sua vida, com base em argumentos dos especialistas que acham que sabem melhor que eu o que é melhor para mim.

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Incoerências discursivas

por henrique pereira dos santos, em 16.05.17

As afirmações recorrentes de que a oposição ficou sem discurso porque as boas notícias sobre o país o desmentem, fazem-me lembrar as minhas recorrentes discussões sobre a conservação do lince ou sobre fogos florestais.

Na verdade, quer na economia, quer nos linces, quer nos fogos, a relativa irrelevância da nossa capacidade para conduzir processos complexos é tratado no discurso dos responsáveis sempre da mesma maneira: quando as coisas correm bem é porque somos muito bons e estamos a trabalhar bem, quando as coisas correm mal, é porque há uns factores externos que não controlamos que estragam tudo.

Não há pois grande novidade neste ponto: quando a população de lince aumenta é por causa da política de conservação e quando diminui é por causa das doenças dos coelhos; quando o ano vai favorável em matéria de fogos é por causa da boa gestão do dispositivo de combate aos fogos, quando vai desfavorável é por causa dos incendiários; quando a economia nos dá boas notícias é porque o governo tem as políticas certas, quando nos dá más notícias é a crise internacional ou a austeridade ou a herança que nos é imposta pelos outros.

A única curiosidade menos vulgar é haver um grande consenso de que as últimas notícias sobre a economia liquidaram  o discurso da oposição (até há um jornalista a falar em xeque mate) e, aparentemente, ninguém dar pelo facto de, pelo mesmo critério, o discurso do PC, do BE e da esquerda do PS sobre a dívida e a impossibilidade de haver crescimento sem reestruturar a dívida ou, pelo menos, alterar as políticas europeias, ter ficado completamente vazio.

Infelizmente para nós, o essencial não são estes jogos florais mas a realidade que é muito mais difícil de influenciar que o que nos pretendem fazer crer, exigindo trabalho continuado, de longo prazo e assente em informação tão objectiva quanto possível e com a profundidade temporal adequada.

Uma maçada.

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