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Ainda ignições e afins

por henrique pereira dos santos, em 20.10.17

Todos os dias há milhares e milhares de ignições no mundo rural, das mais variadas origens, desde o tipo que vai queimar o pinhal do vizinho porque acha que ele dorme com a sua mulher, até às faíscas da lâmina do corta-matos que bate numa pedra, passando pelo escape de motores de combustão (que não são só de motas e carros, são de motoroçadoras, motosserras e etc.), queima de sobrantes, queimadas de pastores, operações de manutenção de parques eólicos (refiro explicitamente esta por esta ter sido a origem de um fogo de milhares de hectares há uns anos), limpeza de bermas de estradas, mais o habitual cortejo relacionado com o recreio, pic-nics, cigarros, brincadeiras idiotas, etc., etc., etc..

Mas não são estas as ignições de que se fala quando nos referimos às mais de 500 ignições de Domingo, mas apenas da pequeníssima percentagem delas que dão origem a focos de incêndio suficientemente visíveis para serem registadas no sistema.

O que faz variar a quantidade de fogos que se tornam visíveis em cada dia não é a quantidade de ignições originais, que se admite que seja mais ou menos estável num nível muito elevado, mas sim as condições de propagação do fogo, isto é a meteorologia e os combustíveis disponíveis.

Com as condições meteorológicas de Domingo, 500 ignições é valor que se pode esperar sem surpresa.

Provavelmente uma boa parte foram reacendimentos dos fogos dos dias anteriores com rescaldos mal feitos, já que com o vento forte e seco que se fez sentir no Domingo muito facilmente geram novos focos de incêndio. Estes reacendimentos são cerca de 10% das causas de fogos, mas naquelas circunstâncias é bem possível que tenham sido mais.

Tal como as queimadas de pastores e as queimas de sobrantes agrícolas terão tido um peso maior que o habitual dada a altura do ano e a previsão das primeiras chuvas.

E até pode ter havido uns fogos postos por meia dúzia (ou uma dúzia, é irrelevante o número) de doidos, bêbados, pessoas de maus fígados e outros que tais.

O que se passou nesse Domingo é absolutamente fora do normal, não pelas ignições, mas pelas circunstâncias meteorológicas (vento forte e muito forte, seco e numa direcção que não é a mais habitual nos dias que ardem, criando um potencial para arderem áreas que habitualmente não ardem tanto e têm combustível acumulado) e pela continuada secura dos combustíveis, fazendo com que em dois ou três dias tenha ardido o dobro do que é a média anual.

Existindo, como existe, continuidade de combustíveis, nenhum dispositivo de combate a fogos florestais, por melhor que fosse, teria deixado de colapsar.

Questão diferente é a dos fogos de Agosto (Alvaiázere, Mação, Nisa e etc..) onde a dimensão das áreas afectadas parece ter sido influenciada por um dispositivo com um desempenho muito abaixo do que seria necessário para um combate florestal eficaz.

Que a propósito disto, da absoluta excepcionalidade do fim de semana passado e respectivas consequências, haja quem cave trincheiras partidárias a partir das quais procura explicações mirabolantes para obter ganho de curto prazo, ou limitar estragos, é um mistério para mim.

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Livro de reclamações

por henrique pereira dos santos, em 19.10.17

Passei por uma agência da Caixa Geral de Depósitos e pedi o livro de reclamações (pedi mesmo, escrevi mesmo, não é uma figura de estilo para introduzir o texto que ficou no livro de reclamações, à espera de uma resposta).

"Tive conhecimento de que a CGD decidiu entregar meio milhão de euros do fundo de apoio às vítimas dos incêndios aos hospitais de Coimbra.

Parece-me uma atitude absolutamente indigna.

1) As pessoas que contribuíram com certeza queriam apoiar directamente as vítimas e não o Estado que lhes falhou;

2) Esta decisão corresponde a desviar meio milhão de euros da economia destas regiões deprimidas para uma das zonas mais ricas do país, investindo num serviço que esmagadoramente serve as populações urbanas não afectadas;

3) Financiar o seu accionista nesta base é vergonhoso".

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Fogo furtivo

por henrique pereira dos santos, em 16.10.17

É razoavelmente impreciso saber se vai arder este terreno e não o terreno a 3 quilómetros de distância, é razoavelmente impreciso saber até onde irá a intensidade de um fogo que se declare, é razoavelmente impreciso, a algum tempo de distância, saber o dia, o mês ou mesmo o ano em que vai arder e a região em que vai arder.

Mas é perfeitamente possível saber quais são as áreas de maior risco estrutural, isto é, aquelas onde a acumulação e continuidade de combustíveis finos garantem que, em condições meteorológicas extremas, qualquer ignição, seja ela originada pelo que for, produz uma progressão rápida e intensa de um fogo.

E é também possível, com alguns dias de antecedência, saber com bastante precisão, onde irão ocorrer condições meteorológicas extremas, susceptíveis de originar, nas tais áreas de risco estrutural elevado, fogos brutais, aumentando a precisão dessa previsão meteorológica na medida em que diminui o tempo que nos separa do momento que queremos avaliar.

No essencial, o que podemos dizer é que, nas nossas condições, o fogo é uma certeza, não é uma probabilidade, o que é uma probabilidade é o momento em que esse fogo vai ocorrer num determinado sítio, mas é uma questão de tempo até que esse fogo ocorra.

Paulo Fernandes, das pessoas com quem mais aprendo sobre fogos e que ouço quase religiosamente quando fala do assunto, perguntava-me num comentário: "estando o contexto presente é preciso agir em conformidade. É mais fácil, rápido e barato sensibilizar e vigiar o povo e ter prontidão ou gerir giga toneladas de combustível?".

É uma pergunta fulcral para os próximos meses e vale a pena explicar o contexto da pergunta.

Num post sobre o facto de mesmo em circunstâncias meteorológicas como as de ontem e hoje, com grande parte do país (e da Galiza, onde também houve mortos) a arder ser muito vulgar encontrar dezenas de pessoas a fazer pequenas queimas nesta altura do ano, sejam pastores ou agricultores, eu insurgi-me contra a ideia central do post e, sobretudo, dos comentários subsequentes, que punham a tónica nas ignições em vez de se concentrar totalmente no contexto que as tornas importantes, referindo eu que já em meados do século XIX o Relatório Geral da Arborização  do Paiz se insurgia contra essas queimas (vamos esquecer a estupidez da mão criminosa e das organizações terroristas e parvoíces dessas, estou mesmo a falar da falta de sensatez no uso corrente do fogo em mundo rural).

A pergunta do Paulo reaje ao meu comentário.

O contexto que temos no país é especialmente favorável à ocorrência de fogos e há já vários anos que vou escrevendo que temos tido sorte em não ter havido, ainda, um episódio de quinze dias ventos fortes de Leste (na verdade não foram exactamente quinze dias de Leste porque num dos dias o vento rodou e voltou depois à direcção anterior, o que tem um efeito brutal no aumento da dimensão dos fogos), como em 2003, porque quando isso acontecer, aquilo a que estamos a assitir agora pode muito bem ser rapidamente relegado para um segundo plano, porque a situação será verdadeiramente assustadora e devastadora.

Daí a relevância da questão do Paulo que resume as opções políticas com que estamos confrontados como sociedade: sendo este o contexto, o que podemos fazer rapidamente, enquanto mudamos as políticas estruturais (admitindo que existe capacidade política para fazer alterações estruturais na política para o mundo rural, do que tenho as minhas dúvidas).

Embora a pergunta do Paulo parece ter duas opções, na verdade tem três linhas de trabalho substancialmente diferentes:

1) Reduzir as ignições. Educar, reforçar a aplicação da lei e essas coisas todas, ideia em que se encontram quer os lunáticos da mão criminosa, quer os sensatos do combate ao uso negligente do fogo;

2) Melhorar o combate;

3) Alterar as condições estruturais de acumulação e continuidade de combustíveis.

É absolutamente consensual que a terceira linha de trabalho, sendo a prioritária, será sempre a menos urgente, a que não tem visibilidade social, a que não gera ganho político, daí o meu cepticismo em relação ao que virá a ser feito neste domínio que, para mim, passa, para usar uma forma ligeira de pôr o assunto, por transferir os apoios ao mundo rural da produção dirigida aos mercados, para a produção de serviços de ecossistema que o mercado não remunera, resolvendo a falha de mercado que está na origem do padrão de fogo que temos;

Melhorar o combate é razoavelmente consensual, embora com uma linha de clivagem social muito marcada: a) as pessoas ligadas aos bombeiros e protecção civil acham que é preciso pôr mais músculo num sistema que deve ter como objectivo liquidar todos os fogos à nascença, a ideia absurda e trágica que nos tem guiado até aqui; b) as pessoas ligadas à gestão do fogo e do território, que sabem que o fogo é um elemento natural que não pode ser retirado do sistema, tem defendido a profissionalização e autonomização do combate florestal em relação às dimensões de protecção e socorro, ao mesmo tempo que defende que essa profissionalização, assente em maior conhecimento do fogo e do seu comportamento, permite que o combate faça um uso inteligente das acções de prevenção, o que actualmente não ocorre.

Onde estou quase isolado é na ideia de que insistir nas ignições é perder tempo e dinheiro, desresponsabilizando politicamente qualquer governo pelas suas falhas nas duas dimensões que referi antes.

Eu tenho um verdadeiro pavor de todas as soluções que parecem lógicas e sensatas mas que têm, como condição prévia, fazer um homem novo.

Ora se é verdade que existe muita, muita margem para um uso mais sensato do fogo no mundo rural, isso faz-se sobretudo com apoio aos produtores, com trabalho de proximidade, com extensão rural se se quiser, faz-se reforçando os laços de confiança entre as pessoas e o aparelho do Estado.

Continuar a insistir que as ignições são um problema de legislação, de coimas mais pesadas, de fiscalização eficiente, de aplicação da lei, tem sobretudo um efeito: o crescimento exponencial do "fogo furtivo", isto é, do uso do fogo para actividades ancestrais, nas quais o fogo sempre foi um instrumento de trabalho normal, e que o Estado tem vindo a criminalizar e a impôr uma pesada carga burocrática a que as pessoas normais respondem como respondemos todos os que somos normais: ignorando o Estado, tanto quanto possível.

O que implica usar o fogo ilegalmente, o que implica usar o fogo em circunstâncias que não são escolhidas pela sensatez e pelo conhecimento, mas em circunstâncias que são definidas pelo medo da repressão do Estado.

Essas são as piores e mais perigosas circunstâncias para usar um instrumento com o poder destrutivo do fogo.

Infelizmente a psicose das ignições é um consenso nesta matéria e por isso temo que o uso furtivo do fogo seja a consequência natural da nova geração de políticas de gestão do fogo que, forçosamente, começaram ontem.

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Sobre mim, a propósito de outros

por henrique pereira dos santos, em 12.10.17

Em 30 de Janeiro de 2009 escrevi um post sobre Sócrates e a sua forma de actuar.

A data é relevante, porque é muito, muito anterior à sua queda, é mesmo anterior, quase um ano, às segundas eleições que ganhou, é ainda do tempo de apogeu e poder absoluto de Sócrates.

Há nesse post um esforço de contenção racional para impedir a sua contaminação pelas as minhas convicções não fundamentadas em factos verificáveis, e por isso digo claramente "que deixo à polícia o trabalho de seguir o rasto do dinheiro e só quero discutir modelos de decisão pública que vão para além disso".

A conclusão do post, limitada pela expressa vontade de não fazer juízos que estão para lá do que me seria possível demonstrar a partir de factos verificáveis, ainda hoje é o essencial do penso sobre Sócrates, para lá do que a investigação judicial tem vindo a apontar: "A Sócrates cabe a responsabilidade de um método de actuação voluntarista, determinado por objectivos pré-definidos mas que desconsidera a forma da decisão e a sua correcção processual. E cabe também a responsabilidade de criar um clima em seu redor que se funda na fiel aplicação da velha máxima: “Se o príncipe não puder ser amado e temido igualmente, é melhor ser temido” e que inegavelmente contamina a cúpula da administração pública. Estas são responsabilidades políticas com virtudes (há quem defenda que só assim é possível fazer reformas em Portugal).
Mas também com fragilidades ao criar uma informalidade de decisão e uma ausência de escrutínio que permite que qualquer escroque que ganhe a confiança de Sócrates use este clima e a falta de rigor nos procedimentos em proveito próprio."

O que aqui me traz não é exactamente lembrar a minha razão de há quase 9 anos, agora que é fácil dar pontapés em José Sócrates.

O que me traz é constatar que as conclusões a que cheguei não são de quem alguma vez esteve no inner circle de Sócrates, mas de quem, embora tendo tido alguma proximidade funcional a Sócrates (fui eu o responsável pelo parecer negativo ao Freeport, que levou ao meu afastamento imediato do processo e ao bloqueio da minha carreira na função pública até hoje, ao mesmo tempo que os responsáveis por esse tipo de procedimento, ilegítimo, continuam por aí, beneficiando dessa subserviência canina: ainda nestas eleições o responsável mais directo por este exemplo de submissão da administração pública a interesses privados foi o cabeça de lista do PS à Câmara de Bragança), estava longe de ver de perto a actuação de Sócrates.

O que me conduz a uma pergunta legítima: se eu, que de longe, naquele tempo, escrevi o que cito acima, como é possível que quem tenha estado ao lado, dia a dia, não tenha dado por nada?

Não falo da corrupção e do circuito do dinheiro, como é evidente, isso é muito difícil de ver (mesmo tendo indícios claros de desfasamento entre rendimentos e padrão de vida, não é fácil ter a certeza de que exista alguma coisa de ilegítimo nesse desfasamento, normalmente explicado com base em histórias fabulosas em que todos gostamos de acreditar, quando queremos desesperadamente afastar o incómodo de reconhecer que as pessoas de quem gostamos não são perfeitas e, provavelmente, são ainda mais imperfeitas do que queremos admitir).

O que falo é do mesmo que já falava no post que cito: como é que não deram pelos métodos de actuação? Como nunca viram a prepotência? Como nunca viram as entorses aos procedimentos? Como nunca sentiram a clássica ilegitimidade da norma geral de governação das nossas elites: "proteger os amigos, perseguir os inimigos e aplicar a lei aos restantes", classificando-se como inimigos todos os que simplesmente não eram por ele?

Não falo dos mais próximos dos próximos ("when your heart is on fire, smoke gets in your eyes" diriam os Platters) mas sim dos que têm por profissão e obrigação perguntar, investigar, ir à procura para lá das aparências.

O inquietante é saber que esses são os mesmos que ainda hoje são elite do jornalismo, os que escolhem os títulos, os que escolhem a perspectiva das notícias, os que escolhem o que é, ou não é, de interesse jornalístico, os que promovem os Artur Baptista da Silva só porque dizem o que queremos escrever sem comprometer a nossa reputação na profissão ou os que são "generais prussianos".

Ou seja, o que é inquietante é que, até agora, o processo Marquês não serviu absolutamente nada para melhorarmos as nossas defesas em relação a demagogos brilhantes que estejam do lado certo da paisagem política.

Não há nada na nossa imprensa que me dê o alívio de saber que não existe hoje, no topo do Estado, uma rede de cumplicidades e interesses tão densa e profissional como a que criou e sustentou José Sócrates.

"Espero, ardentemente espero" que essa rede não exista, estou convencido de que não existe, mas não é seguramente o jornalismo que temos que me ajuda a ter essa esperança, é a mesma fraqueza humana dos mais próximos de Sócrates que os impediram de ver o que realmente não queriam ver: mesmo sem a absoluta lucidez de que se queixava Álvaro de Campos, as coisas já são suficientemente difíceis.

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Transportes públicos

por henrique pereira dos santos, em 10.10.17

Quando a troica aterrou, infelizmente, o problema do financiamento dos transportes públicos não foi devidamente atendido:

1) A troica queria manter o valor global do financiamento tão baixo quanto possível;

2) Sócrates queria disfarçar o mais que podia a herança que deixava, sabendo perfeitamente que boa parte da desorçamentação tinha sido feita à custa dos prejuízos e dívida das empresas de transporte.

Daqui resultou uma situação complicada: o Estado português passou a ter de reequilibrar financeiramente estes empresas quando não tinha dinheiro para mandar cantar um cego.

O objectivo principal não era resolver o pesado fardo do endividamento (que tem condicionado fortemente a gestão destas empresas e potenciado a sua degradação progressiva), isso ficaria para depois, mas equilibrar a operação, evitando o crescimento contínuo da dívida.

O governo de Passos Coelho (em especial, Sérgio Monteiro) meteu  mãos à obra e com cortes de despesa, diminuição de serviço e aumento de preços praticamente equilibrou as contas das empresas de transporte, tendo-se esforçado para chegar ao ponto em que esse equilíbrio permitisse a concessão dos transportes (na maior parte dos casos) ou a privatização das empresas (como na TAP) para lhes permitir encontrar o capital de que precisavam desesperadamente e que o Estado não estava em condições de disponibilizar.

Todo este processo foi feito com a oposição sistemática de grande parte dos partidos, dos jornais, do comentariado e dos sindicatos, quer com alguma razão (alguns suplementos remuneratórios tinham sido negociados para que os trabalhadores se reformassem, por exemplo, sendo discutível a razoabilidade da alteração contratual posterior), quer por puro combate político, em especial do PC, através da CGTP, calvagado alegremente pelo BE e pela ala irresponsável do PS.

Lembro-me, nessa altura, do barulho que foi feito com a hipótese de fechar o metro de Lisboa às onze (em vez da uma da manhã) para diminuir custos operacionais, num país em que aparentemente ninguém repara que o metro só começa às seis e meia da manhã, deixando milhares de pessoas de rendimentos mais baixos (em especial muitas, muitas mulheres suburbanas) com transportes menos eficientes para chegar ao seu trabalho nas nossas casas, escritórios, lojas, etc..

Neste processo perdeu-se alguma qualidade do serviço, o que foi prontamente atacado pelos apoiantes da actual solução governativa.

Mal este governo entrou em funções suspendeu as concessões que tinham sido sujeitas a concursos internacionais, com argumentos relacionados com a melhoria da qualidade do serviço que se pretendia fazer (argumento incompreensível, por exemplo, no metro do Porto, que já era, e é, uma concessão).

Ao mesmo tempo desviou o pouco dinheiro disponível para satisfazer as clientelas e dar poder aos sindicatos, com base na conversa da devolução de rendimentos, sem que, no entanto, tenha reposto os preços anteriores à troica e que foram considerados excessivos para efeitos de propaganda, misturando a perda de passageiros decorrente do desemprego com um suposto efeito de aumento dos preços na utilização do transporte público (como se boa parte dos seus utilizadores actuais tivessem alguma alternativa consistente).

Dois anos passados é já possível fazer um balanço: diminuição da qualidade do serviço no metro de Lisboa, diminuição da capacidade de fazer manutenção de equipamentos a sério, dificuldade de fazer a renovação de autocarros, barcos parados e supressão de carreiras, degradação da qualidade dos indicadores económicos e financeiros dessas empresas.

Ou seja, prejuízo para os contribuintes (pagam menos para receber menos serviço), prejuízo para os utentes (diminuição da qualidade do serviço), ganho de curto prazo para os trabalhores e um grande balão de oxigénio para os sindicatos, aliás uma compensação mais que justa pela paz social que tem sido dada em troca.

Um bom exemplo de como a discussão sobre privatização ou não privatização é, em algumas circunstâncias, uma mera cortina de fumo para o Estado não cumprir as suas obrigações para os com os mais pobres e frágeis da sociedade e para se deixar capturar pelos poderes fácticos.

Declaração de interesses: sou um utilizador quase obsessivo de transportes públicos e falo, portanto, dos meus interesses neste post, embora não chegando a falar do transporte a pedido em áreas de baixa densidade, matéria que, aparentemente, comove muito pouca gente no país: o que interessam uns velhos que não sabem ou não podem guiar perdidos numas aldeias sem transportes e quase sem ninguém quando comparado com o interesse dos maquinistas do metro?

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Mortágua

por henrique pereira dos santos, em 09.10.17

Há muitos anos que as autoridades locais de Mortágua se gabam do que fizeram para controlar os fogos e de como resolveram o problema, com intervenções pesadas associado a um combate eficaz, a uma central de biomassa e à exploração de eucalipto.

Também há muitos anos que acompanho o assunto naquele concelho para avaliar se é certo que resolveram o problema ou se têm tido sorte (mesmo dando de barato que a sorte tenha dado muito trabalho). Se é verdade que o eucalipto gerido pelas celuloses tem um índice de fogo que é um quarto da média nacional, também é verdade que a maioria da área de produção de eucalipto do país não tem gestão de espécie nenhuma, ou tem uma gestão de baixa intensidade, o que não torna os eucaliptais resilientes ao fogo.

Estranharia se essa não fosse a situação dominante em Mortágua.

Este fim de semana o fogo deu-me razão: em grande medida era sorte, um fogo valente andou pelo concelho.

É verdade que não ardeu tanto como ardeu em Mação em Agosto, mas também é provavelmente verdade que só não ardeu assim porque as condições meteorológicas, sendo difíceis, não eram muito dramáticas (o vento, por exemplo, não era forte).

Mais uma vez, as soluções milagrosas acabam por se revelar não soluções, com o decurso do tempo.

Talvez por se perceber isto (a hipótese alternativa seria admitir que quem trata do assunto não faz a menor ideia do que se passa, uma hipótese que infelizmente não pode ser descartada) lá voltou em força a conversa dos incendiários.

Era evidente que este fim de semana iríamos outra vez ouvir falar de fogos (fiz um post no facebook a dizer isso mesmo, ainda antes de estarem estes fogos todos do fim de semana em pleno, e eu não sou bruxo nem percebo muito do assunto, era só para avisar os meus amigos que andavam no monte), mas o Senhor Secretário de Estado veio logo com a teoria de que eram tudos fogos postos, embora não o pudesse provar.

E agora é o Senhor Ministro: ""Tive oportunidade de ver na comunicação social uma multiplicidade inusitada de incêndios e, ao que parece, uma boa parte deles deflagrados durante a madrugada, que é precisamente quando não podem ser combatidos e quando dão a garantia de que só várias horas depois, com o amanhecer, é que não podem ser combatidos”, apontou."

E andamos nisto, ano após ano.

Andar até andamos, mas não saímos do mesmo sítio.

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Pensa em grande, Mamadou

por henrique pereira dos santos, em 07.10.17

"Se dúvida houvesse que a existência da estátua em homenagem ao Padre António Vieira é uma inaceitável provocação, a presença neste momento dos skinheads nazi no largo da Trindade dissipa todas as dúvidas."

Mamadou, para quê ficares por um pequenina estátua do Padre António Vieira?

Marca rapidamente umas manifestações para retirar cada uma das estátuas e os nomes das ruas e praças, ou mesmo de estádios de futebol, que homenageiam Afonso Henriques, uma evidente provocação a todas as vítimas de violência doméstica.

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O mau candidato do Porto

por henrique pereira dos santos, em 05.10.17

Tendo o PSD perdido as eleições, a verdade é que a percepção da dimensão dessa derrota foi muito condicionada pelos resultados de Lisboa e Porto (que foram de facto muito maus para o PSD e mauzitos para o PS).

Em Lisboa o PSD tinha uma má candidata (em que votei por razões de política geral), no sentido em que não demonstrou grande preparação, já era vereadora sem que se lhe conheça grande intervenção ou interesse no governo da cidade, não tem um curriculum que a recomendasse especialmente para a função, para além das questões pessoais sobre empatia e etc., que são relativamente relevantes mas que não me interessam muito.

No entanto, tem-me espantado muito a qualificação, sem mais, de Álvaro Almeida como um mau candidato.

Álvaro Almeida é um profissional qualificado, com um longo curriculum que envolve muita dedicação à causa pública, com experiência de gestão de topo na administração pública (e bom desempenho, dizem-me) e genericamente bem considerado pelos seus pares. Sim, também tem handicaps nessas áreas da empatia e tal, mas considerar esse o principal critério para definir um bom candidato é dar razão ao PS na escolha de Inês de Medeiros para Almada, ou à escolha de Ventura, Isaltino, Valentim Loureiro ou Ágata.

Ou seja, aceitar, sem mais, que uma pessoa qualificada, sem grande envolvimento partidário e uma vida profissional consistente e sem dependência partidária é um mau candidato, é correr o risco de termos cada vez mais cromos mediáticos como candidatos a cargos para cujo o exercício não demonstraram previamente a menor qualificação.

Note-se que isto não significa que depois, no exercício dos cargos, alguns não se venham a revelar muito melhores que a encomenda, como me parece claro que foi o caso de Passos Coelho em 2011, mas essas são as excepções. Também acontecem às vezes nas empresas, em que os filhos estroinas do dono ganham juízo e se fazem empresários competentes, mas basear a sucessão das empresas nessas lotarias é um risco enorme que, na maior parte dos casos, tem consequências dramáticas para as empresas e os seus trabalhadores.

No momento da escolha de Álvaro Almeida, o PS ia apoiar Rui Moreira e portanto faria sentido ter um candidato que é a sua antítese, concentrando os votos dos que não se reconhecessem em Moreira, o que, em princípio, garantiria uns 30% de votos, mais que suficientes para uma leitura positiva dessa votação na noite eleitoral.

Estaria preparado o caminho para uma futura candidatura ganhadora, se o desempenho concreto de Álvaro Almeida fosse, como seria de esperar pelo seu curriculum e preparação, um bom desempenho na vereação. Ou seja, admitindo estes pressupostos, Álvaro Almeida era seguramente um bom candidato, demonstrando capacidade de renovação do PSD, capacidade de alargamento da base de apoio com a captação de pessoas qualificadas não oriundas do partido e sua envolvente, etc..

Aparentemente o que aconteceu foi que o PS se apercebeu do risco de aparecer na noite eleitoral a perder 10% (dez pontos percentuais, para os puristas da linguagem que têm dificuldade em perceber que o rigor mal aplicado pode gerar problemas de comunicação) em Lisboa e desaparecer no Porto, diluído na vitória de Rui Moreira.

Inventou por isso uma querela, deitou às malvas tudo o que tinha feito e dito sobre Rui Moreira e, como de costume, preferiu garantir o ganho político de curto prazo sobre a decência, rompendo acordos estabelecidos, com pretextos infantis, sem o menor problema em destratar o parceiro do dia anterior.

Pensei que a votação no PS seria uma votação residual (eu sou um ingénuo que persisto em ter uma visão moral do mundo) porque qualquer pessoa decente se recusaria a caucionar isto.

Mas aos poucos fui vendo gente decente a caucionar esta forma de actuação política, a candidatura foi crescendo à boleia do apoio ao governo actual, ao ponto da eleição de Rui Moreira ficar em risco, o que teve o efeito de concentrar nele todos os votos das pessoas que não queriam que o PS ganhasse.

A vítima (sim, é verdade que um candidato excepcionalmente dotado para a intriga palaciana poderia contrariar melhor o carácter florentino deste processo, por exemplo, um António Costa, e nesse sentido "vítima" é um pouco excessivo) disto tudo foi Álvaro Almeida, que se revelou um mau candidato para contrariar esta forma canalha de fazer política.

Mas isso não faz dele um mau candidato, é apenas um bom candidato que teve um mau resultado por não ter sabido, ou podido, responder politicamente a um processo amoral que não previu.

Francamente acho que é bom que se apresentem bons candidatos, mesmo que tenham maus resultados em processos deste tipo, mas será um esforço vão se não forem utilizados, a partir de agora, para reforçar as possibilidades de pessoas decentes ganharem as eleições, empenhando-se seriamente no governo da cidade nos próximos quatro anos.

As golpadas são normais em política, com frequência dão muitos bons resultados eleitorais no curto prazo, mas há mais marés que marinheiros.

E isso permite manter a fé de que umas vezes ganhará o arranjinho, outras vezes ganhará a decência, sendo bom que se possa dizer, por ser verdade, que Álvaro Almeida foi um bom candidato, com algum desfasamento em relação às circunstâncias em que decorreu aquela eleição específica, é certo, mas com possibilidade de obter melhores resultados noutras circunstâncias.

A bem da decência, espero não estar totalmente enganado.

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Pulhas

por henrique pereira dos santos, em 03.10.17

"Ainda terá hesitado, até porque ainda não teria alternativas profissionais".

Depois de meses (anos) a fazer bulying sobre o suburbano de Massamá que empobreceu os portugueses por puro sadismo, faltava um requinte final na notícia da sua derrota: insinuar que só estava onde estava por falta de emprego alternativo.

Isto é, acima de tudo, uma pulhice, mas acessoriamente é profundamente estúpido dizer isto de uma pessoa que nos próximos dois anos, se quiser, tem o lugar de deputado assegurado, o que é tempo mais que suficiente para encontrar trabalho.

Há quem chame a isto jornalismo.

Eu acho que é só mesmo uma profunda estupidez associada à mais completa falta de carácter.

Adenda: Vejo que os dois autores da notícia retiraram a frase, o que só lhes fica bem, mas sem fazer qualquer referência ao facto e sem um pedido de desculpas, o que só lhes fica mal

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"Caminhando contra o vento"

por henrique pereira dos santos, em 03.10.17

Como a larga maioria das pessoas, eu voto por exclusão de partes: começo numa ponta, vou excluindo, excluindo, excluindo até não haver em quem votar.

Nessa altura volto atrás à procura da menos má das soluções que rejeitei, de acordo com os critérios que defini previamente.

E vou fazendo isto ao longo do tempo, até ao dia das eleições.

Está na altura de recomeçar a rebobinar as opções existentes que me garantam a maior prudência possível na gestão da dívida (desde que num quadro democrático e de um Estado de direito).

Não tenho a certeza se os dois anos que há pela frente até às próximas eleições sejam suficientes para este processo de fixação do voto esteja terminado a tempo das eleições.

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A defesa do molho de bróculos

por henrique pereira dos santos, em 02.10.17

João Miguel Tavares tem um comentário sobre as eleições que é muito interessante por corresponder, no essencial, ao que pensam muitas pessoas, mas por raramente ser expresso de maneira tão clara.

"A partir do momento em que os resultados foram muito piores do que as mais baixas expectativas, Passos Coelho deixou de ter qualquer margem de manobra. A única saída é a demissão da liderança do PSD."

Até aqui, nada de novo, há vários anos que esta ideia é expressa de muitas maneiras diferentes e em muitas circunstâncias. O interessante vem depois, quando João Miguel Tavares exprime o que raramente é expresso como a consequência natural da premissa citada acima.

"Qualquer que seja o sucessor de Passos Coelho, aquilo que tem diante de si, com altíssima probabilidade, é uma via sacra de seis anos na oposição e de grandes convulsões internas ... A liderança do PSD é, desde a noite de Domingo, o emprego mais difícil do país."

Com uma cristalina candura, João Miguel Tavares põe-se do lado da cobardia de Guterres e de Durão Barroso, aconselhando Passos Coelho a tratar da vidinha, deixando atrás de si um molho de bróculos para que alguém resolva, em vez de exigir a Passo Coelho que, como qualquer general que se preze, fique com os seus homens nos momentos das derrotas, aprendendo o que tiver a aprender com essas derrotas.

E que, quem achar que faz melhor, que se apresente com outra visão que não a de um molho de bróculos, explicando tin-tin por tin-tin, o que quer, como quer e o que pretende fazer para lá chegar.

PS O erro tático de Passos Coelho não apoiar Cristas em Lisboa, que se saldou por um resultado miserável do PSD e por perda de 10% dos votos no lado da geringonça, fazendo Medina perder a maioria absoluta, tem sido considerado, justamente, um erro colossal de gestão das percepções públicas. Já o erro tático de António Costa ao romper com Rui Moreira no Porto, que se saldou por um resultado miserável do PSD, mas também por uma maioria absoluta de Rui Moreira e a perda total da forte influência do PS no governo da cidade, aparentemente, nem sequer um erro é, do ponto de vista das percepções públicas. Talvez a leitura pública que está a ser feita destes dois erros, esmagadoramente monolítica, explique muito mais os problemas de Passos Coelho que os seus próprios erros, e explique melhor o êxito mediático e eleitoral de António Costa, apesar dos seus próprios erros.

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Critério de voto

por henrique pereira dos santos, em 29.09.17

Em poucos sítios, o meu critério de voto seria claramente positivo, isto é, se eu votasse da Covilhã, por exemplo, votaria Adolfo Mesquita Nunes, independentemente de considerações de política geral.

Mas na generalidade dos casos, incluindo onde voto mesmo (Lisboa) o meu critério de voto, como o de muita gente, é o mais banal e desinteressante. Voto por exclusão de partes, tendo como referência as questões de política geral, já que nenhum dos candidatos relevantes me promete a única coisa com que acho que um candidato a uma câmara se deve comprometer seriamente: que todas as sarjetas funcionem decentemente em qualquer momento.

imposto per capita.jpg

Este gráfico, que traduz a evolução dos impostos per capita, tendo como fonte a Pordata, ajuda a perceber quais são então as minhas razões de carácter geral, visto que demonstra a grande aldrabice que está incluída na meia verdade, muito repetida, de que o actual governo baixou os impostos. O que se verifica é que os impostos aumentaram, sendo verdade que os impostos directos diminuíram qualquer coisa, em especial para as pessoas de maior rendimento, ao mesmo tempo que os impostos indirectos subiram para todos.

Diga-se que sou defensor, há bastante tempo, de uma transferência de impostos sobre factores de produção (trabalho e capital) para impostos sobre o consumo, portanto até estou parcialmente satisfeito com essa opção por parte deste governo.

Mas preferia que isso se fizesse num quadro de baixa geral da carga fiscal, isto é, a proporção de impostos sobre o consumo aumentaria por baixa dos impostos sobre o trabalho e o capital, e não por mera transferência, mantendo ou aumentando a carga fiscal.

E, sobretudo, preferia que um governo sério o fizesse por clara opção política e não para poder dizer meias verdades ("baixámos os impostos") que escondem mentiras de facto ("trocámos impostos directos sobre os maiores rendimentos por impostos indirectos para todos porque sabemos que a percepção dos eleitores é mais sensível aos primeiros que aos segundos").

O que digo para os impostos é verdade para muitas outras situações, como a famosa devolução de rendimentos, que na verdade é uma devolução de rendimentos para os funcionários públicos e pensionistas mais bem pagos, à custa de uma menor eficiência dos serviços públicos e uma menor competitividade da economia.

Ou a ocupação partidária do Estado, em que o governo opta deliberadamente pela excepção das nomeações de substituição em detrimento da regra do concurso público.

Ou a maioria do capital da TAP que não é bem uma maioria na decisão e cuja utilidade social está por demonstrar.

Ou a não concessão de transportes públicos, tendo como resultado maiores custos para os contribuintes, a degradação do serviço prestado mas a paz com os sindicatos e a manietação da CGTP.

Os exemplos, como digo, são muitos, incluindo a pressão sobre empresas privadas (como a PT ou a Porto Editora) por meras razões de gestão partidária de curto prazo ou de controlo da imprensa.

Há vantagens, como a progressiva descredibilização dos sindicatos da CGTP, que se deixaram apanhar numa ratoeira em que, não podendo servir ao mesmo tempo dois senhores (o PC e os trabalhadores) são obrigados a alienar influência junto dos trabalhadores, como está a acontecer no sector da saúde.

Mais grave de tudo é a imprudência face à possibilidade de se alterarem as condições externas e termos, outra vez, problemas sérios de financiamento da nossa enorme dívida, apesar de, e bem, o governo estar firmemente a aplicar a linha mestra de orientação de Vítor Gaspar, isto é, procurar, a qualquer custo, reforçar a credibilidade junto de quem nos financia, assegurando que o caminho da consolidação das contas públicas é sério e sólido.

Tudo visto e revisto, o meu critério de voto é simples: em qualquer circunstância, votarei no que quer que seja que me pareça o voto que mais enfraquece a actual solução de governo.

Por mais defeitos que encontre nas alternativas, e encontro com certeza, não tenho ideia nenhuma de que as alternativas existentes (interessam-me pouco as alternativas ideais que têm o pequeno problema de não serem exequíveis ou não existirem de facto) fariam um pior trabalho que o que está a ser feito pelo actual governo.

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Fogo e sociedade

por henrique pereira dos santos, em 28.09.17

Uma das dificuldade de gestão do problema dos fogos por parte de qualquer governo é a discrepância entre o peso social dos fogos no Verão e a sua irrelevância no resto do ano.

No ano passado, depois de arderem perto de trinta mil hectares na zona em que a Montis tem, por enquanto, grande parte da sua actividade, resolvemos promover um passeio, mais ou menos de dois em dois meses, com pessoas que sabem do assunto, pelas áreas queimadas.

A ideia era ir falando do fogo fora da pressão dos fogos de Verão, demonstrar que o fogo não é todo igual, mostrar, no concreto, que há diferenças grandes dentro de áreas ardidas, mostrar que não são um deserto uniforme e, ao mesmo tempo, ir acompanhando a recuperação das áreas ardidas.

A ideia central é aumentar a capacidade de compreensão do fogo, os mecanismos que geram o padrão de fogo que temos e explicar como evolui a vegetação após fogo, no sentido de aumentar a capacidade crítica sobre as políticas de gestão do fogo e do mundo rural.

O programa tem sido executado, já estiveram connosco Manuel Rainha, Paulo Fernandes, António Salgueiro, Hélia e Elisabete Marchante, os três primeiros altamente qualificados no uso do fogo e as duas últimas altamente qualificadas na gestão do problema das espécies invasoras, porventura o mais grave problema ambiental associado aos fogos.

O maior elogio chegou-me um dia destes numa mensagem lateral ao assunto, por parte de um dos participantes, bombeiro e que conheço mal, dizendo-me que quando participou no passeio com Paulo Fernandes e me ouviu falar pensou "este gajo é burro" mas que com o tempo e o que se passou este ano achou que afinal as coisas pareciam fazer mais sentido.

Sabendo que a Montis é uma pequena organização de conservação, que as suas actividades se dirigem essencialmente aos sócios, procurámos, na altura, que se aproveitasse a elevadíssima qualidade das pessoas envolvidas, produzindo conteúdos para orgãos de comunicação social, ou pela presença de um jornalista, ou podendo nós produzir informação que os jornalistas usariam como entendessem.

Ninguém mostrou o mínimo interesse em tirar partido desta produção de informação concreta, com pessoas muito qualificadas, sobre o assunto que aparentemente interessa a todos e, ainda por cima, de forma muito barata.

Continuamos com o programa de visitação e discussão do fogo, fora da época alta dos fogos, e neste dia 14 de Outubro lá teremos o Henk Feith connosco. Seremos os mesmos do costume, entre os cinco do passeio menos concorrido, aos vinte e poucos do passeio mais concorrido.

E seremos o espelho da forma como a sociedade se relaciona com a gestão do fogo: aos milhares quando é para correr atrás das chamas, uma dezena quando é para compreender o que podemos fazer para não ter de correr tanto atrás das chamas.

Declaração de interesses: sou o presidente da Montis

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Meter notícias nos jornais

por henrique pereira dos santos, em 28.09.17

"Não é de bom-tom estar a meter notícias nos jornais com especulações sobre a vida interna do partido".

O extraordinário nesta frase de Rui Rio não é a sua relação com as questões internas do PSD, mas a naturalidade com que se encara a ideia de "meter" notícias nos jornais.

Claro que todos os jornais do mundo publicam coisas que lhes são trazidas pelas mais variadas pessoas ou instituições, isso é razoavelmente normal.

O que se espera é que a escolha de publicar ou não, de investigar ou não, o que chega à secretária do jornalista seja uma opção livre do jornalista, orientada pela sua ideia de interesse jornalístico e pelo escrutínio dos factos.

O exemplo que motivou o comentário de Rui Rio é, desse ponto de vista, muito elucidativo sobre a forma lamentável como os jornais portugueses trabalham (são os que conheço, provavelmente é uma questão geral no mundo), tanto mais que sobre esse assunto vi primeiro uma coisa no Observador, no dia seguinte mais ou menos a mesma coisa no Público e vi um título do Expresso que parecia apontar no mesmo sentido, ou seja, parece ser um assunto de interesse generalizado.

É mais ou menos indiferente se Rui Rio está ou não em campanha para mandar no PSD, se ganha ou perde essa guerra e por aí fora: o que for se verá e especular antes dos factos não tem qualquer interesse de especial (tal como a onda de comentários e afirmações sobre os resultados das autárquicas e seus efeitos futuros, antes de ocorrerem, apenas baseados em sondagens).

O que é relevante é que o tipo de coisas que vi nos jornais eram um conjunto de afirmações feitas por jornalistas, baseados em fontes anónimas com potencial interesse directo no assunto.

Não está em causa se é verdade ou não o que dizem essas peças, isso ver-se-á no futuro e, mais que isso, mesmo sendo verdade no futuro, nem sequer é linear que seja verdade hoje, mas sim o facto dos leitores serem impedidos de verdadeiramente fazer um juízo autónomo sobre o assunto na medida em que não sabem se quem segreda isto, ou quem segreda o contrário, o faz por ser uma fonte realmente independente ou até, dizendo o contrário do que seria o seu interesse, porque está convencida de que é verdade, ou o assessor de um dos interessados na matéria cujo objectivo seja mesmo condicionar o futuro "metendo" notícias nos jornais.

Todos os jornalistas que conheço são unânimes em reconhecer que o anonimato das fontes só é justificável quando a fonte pode correr riscos se for identificada (por um exemplo, um funcionário que relata um caso de abuso de poder do seu superior, um membro de um grupo criminoso que denuncia as actividades, etc.) e nunca, em caso algum, quando a fonte tem interesse pessoal directo na divulgação da informação (ou em moldar a forma como a informação chega ao público), como é o caso dos agentes políticos.

Eu sei qual é a resposta clássica dos jornalistas da área da política, em especial os que se especializaram no diz que disse dos bastidores políticos: se não respeitarmos o anonimato das fontes, não só não temos esta notícia em concreto, como ficamos em desvantagem em relação aos outros jornais para o futuro.

E, de qualquer maneira, dirão, não há grande problema porque os jornalistas não se prestam a fretes e não há razões para não ter confiança no que escrevem.

O problema deste argumento é que as regras existem exactamente para reduzir a possibilidade do jornalista ser enganado peas suas próprias convicções, tornando-o muito mais manipulável do que pensa.

E o meu problema é mesmo o de que não quero delegar no jornalista a confiança que reservo ao meu julgamento: eu tenho o direito a saber quem anda a dizer isto ou aquilo sobre os seus amigos e adversários para ser eu, e não o jornalista, a fazer o julgamento sobre a confiança que devo atribuir ao que é dito.

Como lembra bem esta citação, conhecer quem diz é tão importante como ouvir o que é dito: "“Aonde vos achais sei que dizeis sempre mal de mim; eu, pelo contrário, não perco ocasião de dizer louvores vossos: porém, quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós há-de dar crédito”.

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O perfeito irresponsável

por henrique pereira dos santos, em 26.09.17

"Foi um erro, nós empobrecemos, vimos os salários cortados, as pensões cortadas, a carga fiscal aumentada" (António Costa, 24 de Setembro, 2017).

"Além dos cortes nos rendimentos, que vão oscilar entre os 3 e os 10% para os salários superiores a 1500 euros, o Governo vai ainda reduzir os encargos com a ADSE, congelar as promoções e as progressões, reduzir as contratações na administração pública e ainda aumentar em 1% as contribuições para a Caixa Geral de Aposentações. ... Sócrates justificou o corte nos salários com a necessidade de fortalecer a "imagem internacional". "É indispensável, porque estamos a ser penalizados por sermos o único País que ainda não baixou salários na função pública." ... As medidas atingem ainda o Estado social. Além do já anunciado corte de despesas no Serviço Nacional de Saúde (que incluem reduções das comparticipações dos medicamentos), o Governo vai cortar ainda em cerca de 20% as despesas com o rendimento social de inserção. No total, o Governo espera reduzir a despesa em 1,7 mil milhões de euros no próximo ano. ... Além da despesa, o Governo lançou várias medidas para aumentar a receita, nas quais se destacam as da área fiscal: o estabelecimento de um tecto para as deduções fiscais no IRS, o aumento do IVA para 23% e a aplicação do Código Contributivo, que aliás já estava previsto no PEC." (Diário de Notícias de 30 de Setembro de 2010).

"Consolidar as finanças públicas, reduzirmos o défice e a dívida, ... isso significa boa governação. ... E governar bem significa termos finanças públicas sólidas, diminuirmos o défice, e diminuirmos a nossa dívida, isso é absolutamente essencial. Quem nega esta prioridade pode querer capitalizar com facilidade o natural descontentamento das pessoas. Nós não andamos de olhos fechados, nós sabemos bem que em Portugal, há muita gente que está a sofrer, há famílias que estão no desemprego, há famílias que sofrem perdas de rendimento, há empresários que vêem as suas empresas a fechar, há pessoas que olham para amanhã e têm medo do que lhes pode acontecer amanhã. Mas há uma coisa que nós sabemos, é que o nosso dever é sermos solidários, o nosso dever é não ignorar a realidade, mas o nosso dever, em primeiro lugar, para com Portugal, para com os portugueses e para com esses que estão a sofrer é, com toda a determinação, toda a coragem, atacarmos o mal prioritário: reduzir a dívida, reduzir o défice, consolidar as nossas finanças públicas. ... podemos e devemos agradecer aos nossos governos, aos governos de José Sócrates as medidas que tomaram para consolidar as finanças ... caro Zé, querias saber se estamos contigo? Estamos contigo, conta connosco! (António Costa, 9 de Abril de 2011).

Não, o perfeito irresponsável não é quem poderia parecer lendo estes três parágrafos, o perfeito irresponsável é cada um dos jornalistas que acompanham António Costa na campanha sem que, em nenhum momento, lhe pergunte o que se passou entre 2011 e 2017 para que o que António Costa considerava o dever de atacar "o mal prioritário" passasse a ser simplesmente "um erro".

Essa é a responsabilidade dos jornalistas, não é repetir e amplificar o que em cada momento dá jeito ser dito pelos actores políticos.

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Fogos e incentivos

por henrique pereira dos santos, em 25.09.17

Um dia destes um amigo do Facebook perguntava-me se pagar por horas de vôo, em vez de pagar por disponibilidade, não era um incentivo aos fogos.

Disse imediatamente que não, não me parecia que o problema se pusesse assim, e que a variabilidade interanual era muito grande, portanto descartei a hipótese em duas penadas, no que diz respeito aos meios aéreos.

Mas depois fiquei a pensar: e se a mesma lógica se aplicasse ao dispositivo das corporações de bombeiros, valeria a pena?

O pagamento às corporações de bombeiros tem, se não me engano, três grandes gavetas: 1) o pagamento estrutural, com base numa fórmula complicada em que entra, por exemplo, o números de saídas (esqueçamos agora o que isso pode significar de empolamento das famosas ignições); 2) o pagamento de infra-estruturas; 3) o pagamento de despesas incorridas (quilómetros percorridos, refeições servidas e coisas assim).

Saltemos por cima das minudências e salto eu por cima do que defendo: a separação do combate aos fogos florestais da protecção civil (os fogos florestais são um problema de gestão de perdas económicas que deve ser feito por quem sabe de gestão florestal e conhece bem o comportamento do fogo naquelas circunstâncias, é por isso uma tarefa muito qualificada e que requer conhecimento de gestão florestal), a profissionalização do combate aos fogos florestais e a criação de um corpo profissionalizado único de bombeiros florestais, o que penso que não será feito por nenhum governo, pelo menos sem ser muito gradualmente e com pezinhos de lã.

Resta por isso ir vendo o que pode ser mudado aos poucos no que existe, o que abre espaço ao uso do financiamento das corporações de bombeiros como incentivo.

Na verdade, se em vez do complicado ressarcimento de despesas, que exige um pesado sistema burocrático de controlo e é, necessariamente, muito permeável a abusos e fraudes, as corporações de bombeiros fossem pagas por disponibilidade, deixava de ser indiferente fazer muitos ou poucos quilómetros, ter muitos ou poucos homens num fogo, etc., pelo contrário, quanto mais eficiente fosse o combate, menores seriam as despesas para uma receita igual.

Talvez valesse a pena estudar esta hipótese a sério.

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David Dinis, André Ventura e os outros

por henrique pereira dos santos, em 22.09.17

O título do editorial do Público do dia 20 é luminoso: "Teríamos de falar sobre André Ventura. Hoje é o dia".

Li, reli e voltei a ler. Não queria mesmo acreditar que falar ou não falar de um candidato autárquico justificasse um editorial e um editorial a procurar justificar a opção do jornal em falar do candidato.

"O primeiro erro é sempre o mesmo: dar palco a um populista é dar palco a uma polémica".

"O segundo erro é o inverso: fingir que não existem".

"O terceiro erro é ignorar quem está do lado de lá".

"Só não podemos cair [no erro] capital: o da indiferença, o do medo de explicar".

Qual é então o problema com Ventura, que leva o jornal a ter tantas dúvidas?

"Um candidato primário que não mede fronteiras ou consequências ... tudo o que Ventura faz é puxar pelo pior dos homens sem se colocar no lugar do outro, é construir muros, no lugar das pontes que lhe cabia levantar".

Compreendo o problema.

Por exemplo, um agente político que pretenda distinguir acumulação de riqueza de poupança, com o objectivo de aumentar impostos, sem medir fronteiras e consequências, puxando pela pior inveja dos outros, sem nunca se pôr no lugar dos que duramente conseguem poupar parte da riqueza que criaram, será, seguramente, um agente político que o Público e David Dinis tratarão como André Ventura, é isso?

Outro exemplo, um agente político que diga que a austeridade é uma escolha ideológica, com o objectivo de obter o poder, sem medir fronteiras e consequências, puxando pelo ressentimento dos eleitores atingidos pela dureza de um processo de ajustamento absolutamente essencial, sem nunca se pôr na pele dos que sofreriam ainda mais duramente as consequências da recusa de austeridade, como acontece na Grécia, será um agente político que o Público e David Dinis tratarão como André Ventura?

Outro exemplo, um agente político que se sirva das crianças que desmaiam na escola por falta de pequeno almoço, ou dos velhinhos que passam a ter de comer papa Nestum por não ter dinheiro para se alimentar convenientemente, como ilustrações das consequências da austeridade e depois devolva rendimentos aos que mais ganham, compensando em impostos indirectos que são pagos por todos, manipulando as percepções públicas da austeridade, apesar de a tornar mais pesada para o mais pobres, aligeirando-a para os mais ricos, será um agente político que o Publico e David Dinis tratarão como André Ventura?

Outro exemplo, um partido político que envia condolências às vítimas pela morte do seu algoz, como fez o Partido Comunista por ocasião da morte que Kim Jong-il, é um partido incapaz de se colocar na pele do outro e, por isso, ostracizado pelo Público e David Dinis?

Não, David Dinis, André Ventura não tem uma importância por aí além, é apenas mais um populista à procura de votos, e, se tiver muitos, será útil perceber por que razão os eleitores premeiam uma campanha daquelas para que possamos responder mais sensata e racionalmente aos problemas que preocupam os eleitores.

André Ventura é apenas um sintoma da falta de qualidade do debate público e, consequentemente, do debate político.

Muito mais relevante é saber por que razão um jornal como o Público abraça, consistentemente, os discursos mais populistas das pessoas ou do campo político de que os seus jornalistas gostam mais.

Eu guardo religiosamente a manchete do Público, faz agora quatro anos, que garantia em toda a primeira página que Bruxelas estava a trabalhar num novo resgate a Portugal.  Ou a outra, faz no próximo mês cinco anos, que garantia que o PIB em 2013 teria uma queda de 5,3% (foi de pouco mais de 1%), com base numas contas absurdas feitas pelos jornalistas do Público, só para reforçar a história da carochinha da espiral recessiva, sem medir consequências e fronteiras, sem se pôr no lugar dos outros a quem as expectativas negativas roubaram o emprego, etc..

Não, caro David Dinis, o problema não é André Ventura, o problema mesmo é a permeabilidade do jornalismo aos discursos populistas do BE, do PC e da ala irresponsável do PS (para usar uma expressão que não é minha) que hoje sustentam o poder de um governo claramente populista, e o efeito que essa permeabilidade tem na confiança dos leitores nos jornalistas.

É porque os jornalistas fazem escolhas como as descritas no seu editorial, totalmente ilegítimas, entre os bons e os maus, escolhas essas que me cabem a mim e ao Zé das Iscas, e não ao David Dinis enquanto director de jornais, que discursos como os de André Ventura, tão rigorosos como os de António Costa ou Catarina Martins, passam a ter o mesmo grau de credibilidade que discursos efectivamente rigorosos como os de Vítor Gaspar ou de Álvaro Santos Pereira, por exemplo.

Distingam o trigo do joio porque reconhecem o trigo e o joio, e não porque confiam mais neste agricultor que naquele, e os agricultores que trazem mais joio, como André Ventura, terão a sua vida bem mais dificultada.

Até lá, para os leitores e os eleitores, é tudo joio e o que distinguirá uns de outros é apenas ser um bom ou mau vendedor da banha da cobra e não a qualidade dos produtos que vendem.

E boa parte da responsabilidade é sua.

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Uma observação lúcida

por henrique pereira dos santos, em 20.09.17

Luís Aguiar-Conraria escreve (e bem) hoje:

"O PSD queixou-se de que a geringonça custou ao país 2 anos de espera, parecendo não ter noção de que com a PàF isto seria ingovernável. Possivelmente nem um orçamento conseguiriam aprovar."

Esta observação é de uma lucidez gelada, e é muito interessante a forma como todos olhamos para ela com relativa indiferença, como se fosse um facto normal da vida, como a chuva ou o sol.

E, no entanto, o que esta observação diz é que os resultados eleitorais legítimos estão reféns do poder minoritário que pode tornar isto ingovernável: o comando sobre sindicatos cuja representatividade e democraticidade é mais que discutível.

Eu sei que parte desta ingovernabilidade viria directamente dos resultados eleitorais, através da irresponsabilidade dos partidos que entendem que a governabilidade não deve ser assegurada a quem ganha eleições, mas essa irresponsabilidade avalia-se nas eleições seguintes, a questão de fundo é mesmo a ingovernabilidade criada a partir da rua, que é eleitoralmente inimputável.

Na prática isto significa que os 10% de votos do PC são mais que suficientes para bloquear as soluções legitimamente saídas de eleições gerais, enquanto for possível manter activo um poder sindical que não decorre da representatividade desses sindicatos, mas de regras sociais que livremente estabelecemos e que conferem aos sindicatos um poder claramente desproporcionado em relação à sua representatividade (por exemplo, na Autoeuropa, apenas 17% dos trabalhadores são sindicalizados).

Não tenho nada contra o poder das organizações representativas dos trabalhadores, bem pelo contrário, em especial das que têm uma base claramente assente na empresa, como as comissões de trabalhadores. Tenho das empresas uma noção social que reconhece que as relações empregador/ trabalhador são desequilibradas e é bom que os interesses dos trabalhadores, a quem a vida da empresa interessa tanto como aos seus donos, sejam apoiados pelas regras gerais de funcionamento das empresas.

Mas tenho também poucas dúvidas de que uma das grandes reformas sociais de que precisamos é a da alteração das regras da actividade sindical, deslocando o centro do poder das estruturas de cúpula para as estruturas de empresa, e liquidando todas as regras que conferem poder aos sindicatos e sindicalistas, quando esse poder não emana directamente da representatividade dos trabalhadores directamente afectados, incluindo assentar todo o financiamento, directo e indirecto (incluindo o tempo de trabalho dos sindicalistas e benefícios fiscais), nas quotizações dos trabalhadores.

É absurdo que aceitemos a possibilidade de um resultado eleitoral ser ilegitimamente minado pela ingorvernabilidade artificialmente criada por uma central sindical comandada por um partido que representa pouco mais de 10% da população.

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Eu não entendo

por henrique pereira dos santos, em 18.09.17

Joaquim Sarmento é absolutamente claro e o que diz neste artigo pode ser verificado, linha por linha, em fontes independentes, levando-o a escrever:

"Refira-se que não é sério achar que a subida de notação se deve apenas ao que ocorreu nos últimos dois anos. Recorde-se que em 2007 Portugal tinha “AA-” de notação. Depois, a notação foi sendo revista em baixa, e antes das eleições de 2011 era já de BBB (ainda “investment grade”, mas tinha descido seis notações). Logo após as eleições, desceu mais três notações (numa única revisão), passando para lixo. Só muito dificilmente se poderá entender que essa descida, ocorrida em julho de 2011, se deveu a um governo que nem um mês de funções tinha. Pelo contrário, essa descida, que nos colocou como “non investment grade” (“lixo”) foi o corolário do desastre económico, financeiro e orçamental desde 2008.
Assim, entre 2011 e 2016, o défice nominal (sem “one-offs”) desceu de um valor de 11% (em 2010) para um valor de 2.5%. O défice estrutural desceu de um valor em torno de 8% para um valor próximo dos 2%. Entre 2011 e 2015 desceu dos 8% para 2.5%, ou seja, uma descida de 5.5 pontos percentuais (p.p.). Entre 2016 e 2017, desceu menos de 0.5 p.p. Ou seja, quase 90% do esforço orçamental dos últimos anos ocorreu antes deste governo tomar posse".

António Costa é absolutamente confuso e o que neste artigo dizem que diz é completamente desmentido pelos factos reconhecidos por qualquer fonte independente:

"Nós não tivemos só resultados diferentes, nós seguimos um caminho diferente para atingir estes resultados ".

"António Costa lembrou que se dizia que, para poder controlar as finanças públicas, “era necessário encerrar os serviços públicos, desinvestir na educação, desinvestir na saúde e, sobretudo, cortar salários, aumentar impostos e cortar nas pensões”.
“O que nós fizemos foi precisamente o contrário. Repusemos os vencimentos que tinham sido cortados e que as pessoas tinham direito a receber, aumentámos as prestações sociais, devolvemos aos pensionistas as pensões a que tinham direito e não fizemos o corte de mais 600 milhões de euros que a direita se preparava para fazer se hoje estivesse no governo”".

Ora a minha pergunta é esta: como é possível que mentiras evidentes como estas sejam ditas publicamente e repetidas sem qualquer censura social, quer por parte de muitas pessoas comuns (o que ainda entendo, todos nós gostamos mais de acreditar no que nos faz feliz que nos que nos obriga a uma vida mais dura) quer, sobretudo, pelos intermediários cujo trabalho é introduzir factualidade e racionalidade no debate público.

Com tanto jornalista a acompanhar a campanha, não há um único que pergunte, por exemplo, se António Costa pode explicar melhor em que medida é que o aumento de impostos anterior foi errado, por desnecessário ao equilíbrio das contas, mas a carga fiscal global se mantém ao fim de dois anos do seu governo?

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Uma diferença

por henrique pereira dos santos, em 16.09.17

Passos Coelho, e a direita em geral (há sempre tontos em todo o lado, com certeza, mas estou sobretudo a falar de quem tem maiores responsabailidades), tem reconhecido as boas notícias, como, por exempo, a melhoria da classificação da dívida pública, como aquilo que são, boas notícias.

Depois atribui parte dos méritos ao desempenho do governo anterior, diz que o que permitiu isto foi o facto do actual governo, no essencial, ter mantido as políticas de prudência orçamental que vinham de trás e, pelo meio, acusa a actual situação de demagogia, dizendo uma coisa e fazendo outra.

Estas interpretações são discutíveis, com certeza, mas há uma base comum de discussão: a situação está a melhorar e o governo actual faz bem em continuar neste caminho de prudência orçamental, mesmo que diga que faz o contrário.

António Costa, e a esquerda em geral (a mesma nota que no primeiro parágrafo), pelo contrário, não reconhece (eu não me lembro de alguma vez ter ouvido esse reconhecimento) o contributo do governo anterior para a situação actual, nomeadamente no que diz respeito ao equilíbrio das contas externas (que depende menos do governo) e  para o equilíbrio das contas públicas.

Mesmo boas notícias, como por exemplo, o fim do programa de ajustamento sem necessidade de um segundo programa de apoio, não são reconhecidas como tal, mas desvalorizadas com teorias sobre a maquilhagem das contas e etc..

Ainda agora, a propósito da decisão de classificar melhor o risco da dívida pública portuguesa, que, como lembra Luís Aguiar-Conraria, é a demonstração de que todos aqueles que disseram que a dívida pública era impagável sem uma reestruturação estavam errados e, mais que isso, é a demonstração  de que não só é pagável, como é possível fazê-lo com crescimento, quer Catarina Martins, quer Pedro Nuno Santos (outros foram menos explícitos, como Costa, mas, mesmo não indo tão longe, foram o suficiente para evitar reconhecer o contributo do governo anterior para a situação actual), vieram dizer que a melhoria do rating a república só tinha sido possível porque o governo tinha feito o contrário do que diziam as agências de rating.

É uma mentira tão infantil que só há uma possibilidade: acreditam mesmo no que estão a dizer.

E isso é muito mais assustador que pensar que se trataria de meros aldrabões porque significa que não fazem a menor ideia do mundo sobre o qual tomam decisões.

Esse realismo que permite classificar como boas as notícias que indiscutivelmente os são, é uma diferença abissal para uma esquerda que se recusa a reconhecer a realidade para não dar trunfos aos adversário.

Não é uma diferença pequena nem dispicienda.

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