Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Os amigos do "Zé das Sobras"

por henrique pereira dos santos, em 17.02.17

O primeiro governo de Guterres era, na verdade, um governo de coligação PS/ Independentes, em que a maioria dos ministérios dirigidos por independentes tinham um, ou mais, secretários de estado do PS puro e duro, para manter os independentes na linha (é conhecida a famosa queixa da alma mater desse governo, Jorge Coelho, sobre o facto dos independentes serem muito imprevisíveis).

No caso do Ministério do Ambiente, a então independente Elisa Ferreira trouxe do Porto um fiel escudeiro, também então independente (Ricardo Magalhães), reservando para si e para o seu escudeiro as competências reais do Ministério. Depois entregou ao comissário partidário do Ministério, José Sócrates, as coisas que não tinham importância nenhuma, embora lhe tenha atribuído o estatuto de secretário de estado adjunto, isto é, formalmente o segundo lugar na hierarquia do Ministério.

José Sócrates, nessa altura,atribuiu-se a si próprio, mais com o sentido político que o caracteriza que com o poderoso humor da ironia, a designação de Zé das Sobras, porque realmente as competências que lhe atribuiram eram mesmo as sobras do ministério (a que mais tarde ele conseguiu dar visibilidade e importância, muito para lá do que alguma vez Elisa Ferreira teria imaginado).

Dessa altura eram conhecidas dezenas de histórias, conhecidas e contadas em todos os níveis hierárquicos, sobre a forma como Sócrates funcionava.

Os seus motoristas, como acontece sempre nestas situações, eram uma das mais divertidas fontes de informação. Lembro-me de um dia me terem contado que Sócrates teria entrado no carro em Aveiro e dito explicitamente ao motorista que tinha uma reunião dentro de hora e meia em Lisboa, o motorista que fizesse como entendesse mas que ficasse claro que as instruções que tinha dele próprio é que deveria cumprir os limites de velocidade. "E agora vou dormir, acorde-me quando chegarmos, a tempo da reunião".

Gosto desta história por ilustrar bem a minha ideia de Sócrates, um mistificador para quem a realidade era um mero cenário em que se movimentava tendo apenas uma orientação: obter o que pretendia, atribuindo a terceiros as responsabilidades pelos problemas que poderiam resultar do não cumprimento das regras a que estava obrigado.

Qualquer pessoa que tenha trabalhado profissionalmente com Sócrates confirma, no essencial, esta visão sobre Sócrates, dividindo-se entre os que admiram profundamente a sua capacidade de transformar qualquer coisa numa vantagem, valorizando este aspecto como uma poderosa força transformadora, e os que entendem que os fins não justificam os meios.

Aquilo em que o que escrevi até agora neste post me parece ter alguma utilidade, neste momento, é na ajuda que dá para formular com clareza uma pergunta: qual é o grau de tolerância à manipulação e à mistificação que tem de ter quem o tenha acompanhado de perto no seu caminho de conquista e exercício do poder?

É que muitos dos que o fizeram estão hoje no coração da geringonça e do exercício do poder. Provavelmente mantendo a mesma imensa tolerância à manipulação da realidade com objectivos políticos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

E responsáveis a quem se possa pedir a devolução do dinheiro, há?

por henrique pereira dos santos, em 15.02.17

Há anos que toda a gente sabe que isto não passa de uma maneira manhosa do Estado se financiar a si próprio através de taxas a que não corresponde qualquer serviço, portanto, uma cobrança fraudulenta de impostos.

Aparentemente o Tribunal de Contas descobriu isso agora.

Nada que impeça o actual Ministro de pegar no dinheiro para sensibilização ambiental e reservar um terço para financiar festivais de música, sem qualquer justificação (se é pela capacidade de mobilizar pessoas, mais valia financiarem os jogos de futebol ou as missas, que mobilizam mais pessoas que possam ser sensibilizadas ambientalmente).

Escrutínio público?

Zero, ou quase.

Responsabilidade pelo uso sensato de dinheiros públicos?

Zero, ou zero.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Comunicações pessoais, disse ele

por henrique pereira dos santos, em 15.02.17

Vi qualquer coisa escrita sobre o facto de algumas comunicações entre Centeno e Domingues serem pessoais (até Louçã, o institucionalista, dizia que Domingues se portou mal por expor conversas pessoais).

Tanto quanto sei, mesmo que a Caixa Geral de Depósitos fosse 100% detida por Mário Centeno as comunicações referentes ao seu Conselho de Administração dificilmente poderiam ser consideradas pessoais (podiam estar protegidas pelo segredo comercial, mas isso é outro assunto).

Em democracias mais maduras, uma alegação destas seria considerada uma enormidade e, provavelmente, haveria uma discussão muito séria sobre a violação de deveres legais do Ministro:

"Agencies that allow employees to send and receive official electronic mail messages using a system not operated by the agency must ensure that Federal records sent or received on such systems are preserved in the appropriate agency recordkeeping system."

Sim, é muito grave a nossa complacência social para com a mentira em actos fomais do parlamento (lembro-me da mais absoluta indeferença de todos os grupos parlamentares perante uma denúncia fundamentada da utilização de mentiras facilmente comprováveis por parte de João Bilhim, nas audições anuais a que era obrigado na Assembleia da República), sim, é muito grave a aceitação de produção de legislação a pedido numa negociação para a contratação de alguém (é indiferente quem redigiu o diploma, o que é grave é o Estado adoptar procedimentos pouco transparentes e tomar decisões legislativas a pedido) mas é igualmente grave a nossa bovina indiferença perante a ideia de que um Ministro, em matérias de Estado, pode invocar o carácter pessoal de comunicações que se traduzem em decisões que são tomadas em nome de todos nós.

Em Portugal dificilmente alguém teria problemas por haver um "report, from the State Department’s inspector general, has renewed scrutiny of Clinton’s email practices, which critics say ... shielded Clinton’s activities from laws designed to ensure public access to government information".

E é pena, muita pena.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Resumindo

por henrique pereira dos santos, em 14.02.17

Dois homens têm um acordo entre si, embora estejam mutuamente equivocados sobre o conteúdo desse acordo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Floresta de enganos

por henrique pereira dos santos, em 13.02.17

Um dia destes, num debate, perguntaram-me o que pensava sobre a reforma da floresta proposta pelo Governo.

Na verdade tenho sempre dificuldade em responder a esta pergunta.

Se um dia um sector económico, os texteis, por exemplo, deixarem de sem competitivos e, consequentemente, houver perdas de clientes e falências, alguém acharia normal que o Governo fizesse uma reforma dos texteis com base em dez diplomas legais sobre matérias que pouco se relacionassem com a competividade do sector?

Pois é exactamente o que se passa: o sector florestal, e dentro deste a fileira do pinho, grande parte da fileira do eucalipto e os matos, tem um gravíssimo problema de competitividade, do qual resulta falta de gestão do território e uma série de ineficiências sociais, de que o exemplo mais visível são os fogos que temos.

Para gerir este problema, o Governo resolve reformar o sector legislando sobre minudências, como saber se as autorizações de florestação (a que a esmagadora maioria do sector não liga nenhuma) devem existir acima de cinco hectares ou acima de dois hectares.

O preâmbulo de um dos diplomas propostos, exactamente o que diz respeito às arborizações, é um bom exemplo da floresta de enganos em que vive Governo: "Desde logo, cria condições mais adequadas para a implantação e expansão de espécies florestais autóctones diversas e para a melhoria da respetiva produtividade, designadamente do pinheiro-bravo e do sobreiro e da azinheira, através da concomitante restrição à expansão da área de eucalipto".

Ou seja, num sector em que uma das principais ameaças e riscos é a ausência de gestão, em que a ausência de gestão é uma consequência de não haver economia que a suporte, o Governo acha que a melhor forma de aumentar a área do pinheiro, da azinheira e do sobreiro é restringir a expansão de eucalipto.

O facto da restrição de uma espécie competitiva redundar no aumento da área sem gestão, por abandono, e do facto limitante para a fileira do pinho ser a sua falta de competitividade (nomeadamente pelo elevado risco de fogo que é potenciado pelo abandono), o facto da área de distribuição potencial da azinheira ser totalmente distinta da área potencial para a produção de eucalipto e o facto de não haver memória e registo de áreas relevantes de substituição de sobreiro por eucalipto (o eucalipto expandiu-se por substituição de pinhal e ocupação de área de matos) são, para o governo, irrelevâncias.

Para mim, qualquer reforma da floresta que assente em diplomas legais sobre questões marginais e que, sobretudo, parta do princípio de que restringir a produção de uma espécie (qualquer que ela seja) resulta em condições mais adequadas para a implantação de outras espécies com exigências ecológicas e contextos económicos totalmente distintos é uma coisa sobre a qual não tenho mesmo opinião.

Nunca me pareceu útil discutir um delírio ("falsa crença baseada em inferência incorreta sobre a realidade externa que é sustentada com firmeza apesar das crenças da quase totalidade das pessoas e apesar do que se constitui em prova incontroversa e óbvia de evidência em contrário.", segundo a definição perfeita da proposta de reforma florestal que encontrei na wikipedia).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não sabendo nada de finanças...

por henrique pereira dos santos, em 10.02.17

... e tendo uma fraca biblioteca, estou nas condições ideais para fazer perguntas de ignorante.

Esta tal inflação de 1,5%, por causa da subida dos preços dos combustíveis, não é uma espécie de imposto que todos pagamos para que alguns tenham visto o seu rendimento reposto?

E que entre esses todos estão também os mais pobres, obrigados a financiar a classe média cujos rendimentos foram repostos?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não compliquem

por henrique pereira dos santos, em 10.02.17

Pelo que percebo, estes problemas todos na Caixa Geral de Depósitos resultam da opção do governo que consiste em manter a propriedade pública da caixa mas pretender que o esforço do accionista na sua capitalização não seja considerado como ajuda de Estado.

Para isso, a CGD tem de ser gerida como uma empresa privada, embora propriedade do Estado.

Se assim é, qual é o interesse em ser do Estado, se o Estado se tem de comportar como qualquer privado na sua gestão?

Privatizam a coisa, usam o dinheiro ganho na privatização para diminuir a dívida do Estado e o accionista que vá arranjar o capital onde quiser.

Tal como a coisa está a ser gerida parece-me que irão aparecendo sempre complicações em resultado desta opção por ser e não ser, ao mesmo tempo.

Eu, enquanto accionista forçado, sinto-me com o desespero da mãe de uma adolescente com quem foi comprar roupa com um caderno de encargos muito claro: conseguir encontrar roupa que fosse igual à de toda a gente, porém, diferente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O polissémico

por henrique pereira dos santos, em 09.02.17

Pouco depois de Costa substituir Seguro, uma costista militante perguntou-me a opinião sobre Costa e sobre se ele poderia ser capaz de ter uma maioria absoluta.

Lembro-me de ter respondido qualquer coisa sobre a minha dificuldade em estimar o tempo que demoraria até que o seu sempre presente sorriso deixasse de ser visto como um sinal de simpatia e empatia e passasse a ser visto como o sempre presente sorriso de qualquer bom aldrabão. No momento em que isso sucedesse, e se viesse a suceder, a sua carreira política estaria em grandes dificuldades.

Suspeito que esse dia não é o dia de amanhã, mas em matéria de confiança entre as pessoas a única certeza é a de que a sua perda é rápida e muitas vezes imprevisível.

A famosa habilidade política de Costa é, em grande medida, o seu talento para dizer formalmente uma coisa que sabe que os seus interlocutores entendem de uma maneira, ao mesmo tempo que abre espaço para uma interpretação diferente no futuro. Combinado, naturalmente, como o seu evidente desprezo pelo valor da sua própria palavra.

Costa acorda uma coisa, que sabe querer dizer outra coisa, e espera que no momento que os que acreditaram nele se aperceberem de que fizeram um acordo diferente do que pensavam, ou seja tarde para recuarem sem perdas, ou as vantagens em manter o acordo fantasma sejam suficientes para que possa levar a sua água ao seu moinho.

A polissemia é uma grande virtude na poesia, veremos se também o é na política.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os senhores jornalistas sabem bem a diferença

por henrique pereira dos santos, em 05.02.17

Dizer que alguém vai usar "todos os meios" não é o mesmo que dizer que vai usar "todos os meios legais".

Depois queixem-se da falta de leitores e da queda vertiginosa da confiança da sociedade na profissão.

E sobretudo não fujam da responsabilidade que vos cabe por essa perda de confiança facilitar de facto o caminho aos demagogos e populistas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uso muito esta resposta de Maria Luís Albuquerque a um deputado que questionava algumas opções do governo de então.

E nestes dias, em que muitas pessoas resolveram discutir a política salarial da Padaria Portuguesa e, de caminho, criticar o Estado Português por persistir em estabelecer salários mínimos miseráveis, lembrei-me ainda com mais frequência dela.

A quantidade de pessoas que argumentam que o salário mínimo é miserável, e que as empresas que pagam salários mínimos miseráveis devem fechar, é surpreendemente grande. Para meu espanto, abrange muita gente informada e qualificada.

São pessoas que não duvidam da sua superioridade moral quando, ao mesmo tempo que defendem que o desemprego é melhor que um salário baixo (não o dizem assim, dizem apenas que as empresas que pagam salários mínimos devem fechar, despedindo todos os seus trabalhadores em vez de lhes pagar um salário baixo), me convidam a viver com o salário mínimo, para perceber o que é um salário miserável.

Na verdade grande parte destas pessoas estão convencidas de que a definição do salário do trabalhador é uma decisão livre do patrão, que só não paga mais porque não quer.

O mais curioso é que boa parte destas pessoas não querem saber para nada da informação que existe sobre o assunto, chega-lhes a paz de espírito que lhes é trazida por poderem mostrar aos amigos como são bonzinhos.

A definição de pobreza é uma complicação para os serviços de estatística, porque a pobreza é um conceito relativo.

Por exemplo, o risco de pobreza é medido pelo facto de uma pessoa ter 60% do rendimento mediano por adulto equivalente. Em Portugal, isso significa que as pessoas em risco de pobreza têm um rendimento menor que 420 euros, mais coisa, menos coisa. Note-se que grande parte destas pessoas não são trabalhadores no activo, são sobretudo desempregados, velhos e crianças (melhor dizendo, menores de 18 anos, estando este grupo muito afectado pelas famílias pobres que têm três ou mais filhos).

Ou seja, aparentemente, o ordenado mínimo não coloca as pessoas em risco de pobreza. Pode argumentar-se, bem, que sendo a definição deste limiar de pobreza dependente do rendimento mediano, podem os rendimentos do país ser tão baixos que estatisticamente as pessoas não estejam em risco de pobreza mas na verdade sejam miseráveis.

Por isso há um outro indicador estatístico que procura captar uma definição de pobreza que não está dependente do rendimento mediano do país, a privação material. Este indicador é bastante mais complexo, utiliza nove items (desde o acesso a um automóvel, ao aquecimento das casas, ao número semanal de refeições com carne e peixe até à possibildiade de pagar uma semana de férias fora de casa, por ano), considerando-se uma pessoa em privação material severa quando não consegue ter acesso a quatro dos bens ou serviços a que dizem respeito estes nove items, ou em privação material quando não tem acesso a três desses items.

Em 2016 cerca de um quinto dos portugueses consideravam-se em privação material, essencialmente por não terem acesso a uma semana de férias fora de casa, não terem capacidade de fazer face a uma despesa inesperada da ordem de grandeza de um ordenado, não terem capacidade para manter a casa aquecida. Quando se passa para a privação material severa, este número reduz-se para 8,5% em vez dos 20% em privação material.

Globalmente, para o país, estes números são maus, mas é em face deste contexto que devem ser avaliados os patrões portugueses e as suas políticas salariais: não faz sentido comparar a política salarial do café da esquina com a política salarial de uma multinacional de tecnologia.

A Padaria Portuguesa está situada no sector que mais mal paga em Portugal, o sector do alojamento e restauração, que paga abaixo do sector agrícola.

Se alguém quiser avaliar a "bondade" do patrão da Padaria Portuguesa através dos salários que paga, não pode limitar-se a dizer que o ordenado mínimo é uma miséria e que as empresas que não podem pagar mais deveriam fechar, porque isso não fecharia a Padaria Portuguesa, bem pelo contrário, eliminaria grande parte da sua concorrência, o que lhe permitiria pagar melhor, porque lhe permitiria cobrar mais aos clientes.

No caso em concreto, a empresa em causa paga melhor ou pior que a generalidade do sector? Acredito que paga mais; Dá mais garantias sociais ou menos garantias sociais que a generalidade do sector? Acredito que dá mais garantias; Usa de maiores ou menores ilegalidades na gestão do seu pessoal? Provavelmente usa menos ilegalidades.

Não digo que acredito porque ache a gestão da Padaria Portuguesa mais séria que o dono do café da esquina, mas simplesmente porque para aproveitar as oportunidades criadas pela péssima fiscalização do Estado nestas matérias o dono do café da esquina está em muito melhor posição que o dono de uma empresa média, que tem de ter mecanismos de controlo de gestão rigorosos, se não quiser falir em três tempos, o que lhe tira a "flexibilidade" do dono do café da esquina. Ou seja, paga melhor, respeita mais os trabalhadores e cumpre melhor as suas obrigações legais e, ainda assim, cresce e investe mais que a generalidade do sector. Pretender boicotar a Padaria Portuguesa por falta de respeito aos seus trabalhadores não decorre de princípios morais sólidos, mas da mera hipocrisia de se evitar saber como consegue o Esteves servir um café tão barato e tão bom.

Ainda assim pode argumentar-se que os salários mínimos não são dignos de uma sociedade decente, recolocando a questão no plano moral.

O Partido Comunista tem essa posição e por isso defende um salário mínimo de 1200 euros. Significa então que o PC é moralmente superior aos partidos que estão vendidos ao capital e por isso defendem que o salário mínimo só pode ir subindo na medida em que houver uma economia que crie mais valor e, consequentemente, possa remunerar melhor os factores de produção (capital e trabalho)?

A mim parece-me exactamente o contrário, a mim parece-me que a posição moral do PC é que é absolutamente insustentável: considerando que uma vida digna só se consegue com 1200 euros, não se importa de impôr aos seus funcionários uma vida indigna, pagando-lhes menos do que pensa ser o mínimo da dignidade.

O problema de tentar discutir salários a partir da moral e sem ter em conta a realidade do valor criado é este: ou se vai à falência material, quando o patrão deixa de ter dinheiro para pagar o que prometeu aos seus funcionários, ou se vai à falência moral, quando se acaba a submeter os que dependem de nós a condições de trabalho que consideramos indignas.

A questão é que a maioria das pessoas que conheço e que se indignaram com este assunto, na verdade indignaram-se com a liberdade de expressão do dono da Padaria Portuguesa.

Se ele tivesse ficado calado, como o Esteves, nada lhe teria acontecido porque são muito poucos os que verdadeiramente estão preocupados com as condições de trabalho de quem lhe serve um café.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O padeiro anarquista

por henrique pereira dos santos, em 30.01.17

Um padeiro resolveu dizer uma coisa relativamente simples: muitos dos meus empregados têm dois empregos porque querem ganhar mais dinheiro. Quer eles, quer eu, preferíamos que fizessem esse mesmo número de horas que já fazem mas na minha empresa. A lei proíbe-me de os contratar mais de 40 horas, embora, naturalmente, não os proiba de trabalhar mais de 40 horas, o que acaba numa situação menos eficiente para as empresas, e mais penalizadora para os trabalhadores. O padeiro conclui, portanto, que deveria ser possível que, havendo acordo e interesse do trabalhador, as empresas pudessem contratar jornadas de trabalho até 60 horas.

Caiu o Carmo e a Trindade com uma simples opinião.

Passando por cima das centenas deturpações da opinião (nunca percebi a utilidade de contestar afirmações que não foram feitas como caminho para concluir que quem não disse uma idiotice é um idiota), esta opinião tem sido contestada essencialmente com os seguintes argumentos:

1) Se o padeiro pagasse mais aos seus empregados, eles não teriam necessidade de trabalhar mais que 40 horas. O facto de haver dezenas de profissões qualificadas que praticam horários, formais ou informais, de mais de 40 horas (enfermeiros, médicos, professores universitários, patrões, etc.) parece irrelevante para quem usa este argumento;

2) É imoral aceitar a existência de horários de trabalho de 60 horas (na versão maximalista, é um retrocesso civilizacional). Que o valor do trabalho seja uma função do valor criado e não uma categoria moral parece ser irrelevante para quem usa este argumento;

3) O que o padeiro paga é incompatível com uma vida digna dos seus empregados, mesmo que seja acima (ou igual, é indiferente para o argumento) do ordenado que o Estado estabelece como mínimo, ou seja do que o Estado estabelece como mínimo decente para uma vida decente. A única conclusão consequente deste argumento é a que é tirada pelo Partido Comunista: o ordenado mínimo deveria ser de 1200 euros por mês. Que o PC, enquanto entidade patronal não pratique o que quer impôr às outras entidades patronais é um mero pormenor sem importância. Tal como o facto dos outros padeiros do país não praticarem ordenados acima dos praticados pelo padeiro anarquista é outro pormenor.

Em todas estas linhas de argumentação o que é impressionante é o desprezo pela realidade: independentemente das nossas opiniões e convicções morais e éticas, o facto é que há milhares de pessoas a fazer horários muito mais extensos que 40 horas semanais, têm é de faze-lo ilegalmente (como é muito, muito frequente em todo o país, em especial nas micro-empresas que concorrem directamente com o padeiro anarquista) ou em mais que uma entidade patronal, com perdas para todos.

É verdade que a ideia de poder estender horários de trabalho até 60 horas semanais (que não é o mesmo que dizer que jornada de trabalho é de 60 horas, mas sim que as jornadas de trabalho de 40 horas podem ser estendidas, com o pagamento devido e por acordo com o trabalhador) levanta problemas muito delicados: a relação de trabalho não é simétrica e o patrão tem, com frequência, um ascendente muito grande sobre o trabalhador que lhe permite "formatar" a vontade do trabalhador.

Uma coisa é discutir problemas reais, postos por soluções reais, para realidades existentes, outra coisa, estupidamente frequente no espaço de debate público, é pretender discutir opiniões e propostas retirando da equação toda a realidade que limita o alcance dos nossos argumentos.

Senhores jornalistas, por favor, não poderiam passar da espuma das coisas e contribuir para aprofundar o debate em vez de simplesmente alimentarem a superficialidade emocional associada a realidades complexas?

Que tal fazerem uma reportagem sobre as condições de trabalho dos pequenos cafés e pastelarias de bairro, de base familiar?

Que tal fazerem uma reportagem sobre as pessoas que fazem jornadas de trabalho de mais de 40 horas, aposto que nos vossos jornais, em que aceitam tanta gente a escrever sem lhe pagar um tostão, não será difícil encontrar quem vá fotografar casamentos, depois do horário de trabalho, quem vá escrever livros, depois de acabar a jornada de trabalho no jornal, quem vá fazer uns extras numa rádio local, numa revista institucional, etc., etc..

E que tal perguntarem aos funcionários do PC (e respectivos sindicatos) qual é o seu horário de trabalho, se cumprem escrupulosamente as 40 horas estipuladas no seu contrato?

Deixem lá o padeiro fazer o seu trabalho em paz, deixem-no ter as opiniões que tiver sobre o assunto e façam o vosso trabalho com a mesma eficiência com que o padeiro faz o seu pão: talvez assim fosse possível ver jornais a abrir com o mesmo ritmo das padarias, em vez de os ver fechar por falta de clientes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O problema é do que fica à porta

por henrique pereira dos santos, em 27.01.17

"A terminar, uma pergunta: “está em condições de dizer qual foi o saldo orçamental corrigido de medidas extraordinárias?”

"insistiu, duas vezes. “Responda à pergunta, por favor”."

"“Terá a resposta quando o diabo cá chegar”."

O problema não é termos um primeiro ministro que responde assim, trata assim o maior grupo parlamentar, trata assim o parlamento e, consequentemente, trata assim as pessoas que pagaram os impostos de que se fala nesta discussão.

Estão cumpridas as formalidades democráticas, está garantido respeito pela lei, o primeiro ministro é absolutamente livre de funcionar desta maneira, ninguém obriga, felizmente, os governantes a terem um mínimo de decência, só estão obrigados a cumprir a lei.

O que é grave é que a sociedade, em especial os seus mediadores mediáticos (passe o pleonasmo), ouçam isto, vejam isto e passem por isto como se fosse mero passo de dança, uma troca de galhardetes, uma bandarilhada.

O que é grave é a complacência, nossa e da imprensa (ou da imprensa e nossa) para com a opção do primeiro ministro entender que não tem de prestar contas aos seus cidadãos, através dos seus representantes no parlamento.

O primeiro ministro trata-nos a todos, e aos senhores jornalistas, como mentecaptos que se calam com piadas e nós, e os senhores jornalistas (naturalmente todas as generalizações têm de ser entendidas nas suas limitações) damos-lhe razão, não lhe perguntando em lado nenhum como é possível que não responda a uma pergunta destas, nem lhe perguntam como convive com tamanha falta de respeito pelos seus eleitores, nem escrevem editoriais a explicar por que razões é que responder assim é diminuir a qualidade do debate democrático e bloquear os mecanismos de limitação de poder característicos das democracias liberais sólidas.

É legítimo que o faça, mas é incompreensível que não se lhe faça notar qual é o verdadeiro significado de o fazer: o senhor primeiro ministro não é uma pessoa decente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O excelente e subtil trabalho da imprensa

por henrique pereira dos santos, em 27.01.17

Um tipo qualquer diz: "“A comunicação social deveria estar envergonhada, humilhada. E ficar de boca calada. Deveria ficar só a ouvir durante algum tempo”.

Um jornal qualquer titula: Fulano de tal "pede à comunicação social para “ficar de boca calada”.

Devo dizer que tenho gostado imenso de ver a imensa subtileza de grande parte da imprensa procurando demonstrar na prática aquilo de que é acusada, ao mesmo tempo que finge criticar os seus críticos.

O resultado calculo que seja o pretendido, levando os seus leitores a concordar com a conclusão geral "Aqui, a comunicação social é o partido da oposição. Ela não compreende este país". Sobretudo este "Ela não compreende este país", que a grande maioria das pessoas reconhece perfeitamente como verdade.

Tudo isto seria apenas muito divertido se não houvesse um pequeno problema: uma imprensa livre, que resiste à manipulação cumprindo rigorosamente as regras da profissão, é muito mais importante para a democracia que qualquer governante.

Uma imprensa da treta, que cita fontes anónimas (não é o caso nesta peça, mas exemplos não faltam), que deturpa o que é dito para encaixar nos preconceitos dos jornalistas (seguramente o caso), que passa o tempo a procurar demonstrar a maior legitimidade democrática da rua e da democracia directa, em detrimento do voto e da democracia representativa, é muito mais preocupante que um reaccionário nostálgico de um mundo que acabou, por muito poder que temporariamente tenha.

Os defeitos da democracia liberal, as constantes referências à corrupção e à casta que domina o sistema, a identificação de grupos sociais responsáveis pelos problemas da maioria, são tudo temas velhos e revelhos na imprensa, em especial em épocas de maré vaza (os bancos e os banqueiros são um must nestas épocas, usados por todos os demagogos em todas as épocas, sejam eles Filipe o Belo ou Francisco Louçã, bovinamente ampliados por uma imprensa ressentida, preguiçosa e, muitas vezes, simplesmente ignorante).

Alimentem o medo e o desespero, deslegitimem moralmente a importância do formalismo das regras democráticas e a necessidade de aceitar os seus resultados, quaisquer que sejam, prestem vassalagem a ideias românticas cheias de boas intenções sem discutir a sua aplicação prática e tratem com benevolência quem defende ideias totalitárias com argumentos de Miss Mundo.

Depois não se queixem dos outros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

E já agora...

por henrique pereira dos santos, em 25.01.17

Conv-PortPaisagemRural-WEB-v1.jpg

Para o caso de haver dificuldade de leitura, aqui fica o essencial do texto:

A Fundação Francisco Manuel dos Santos tem o prazer de convidar V.ª Ex.ª para a apresentação do ensaio Portugal: Paisagem Rural, de Henrique Pereira dos Santos, no dia 9 de Fevereiro, às 18h30, na Livraria Bertrand – Picoas Plaza.
A apresentação conta com a presença do autor, e o debate será realizado entre Carlos Aguiar e Manuela Raposo Magalhães, com a moderação de António Araújo, Director de Publicações da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Livraria Bertrand – Picoas Plaza Loja C 0.9, Rua Tomás Ribeiro Cruzamento c/Rua Viriato, 1050-225 Lisboa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fogos, eucaliptos e vacas sagradas

por henrique pereira dos santos, em 20.01.17

Para quem não tenha dado por isso, arderam 800 hectares, em fogos de mais de 30 hectares, em Novembro. Em Dezembro/ Janeiro, mais 1700 hectares. Ou seja, tendo em atenção o desfasamento conhecido entre estas medidas de satélite e a realidade, Paulo Fernandes estima que, grosseiramente, se poderá falar de cerca de três mil hectares ardidos desde 1 de Novembro até hoje.

E continuará a arder enquanto se mantiverem estas condições meteorológicas, excelentes para fogos de Inverno. Ainda recentemente, em Espanha, estava a arder, há quase uma semana, numa zona em que as temperaturas estavam seis graus abaixo de zero.

Como comentava o Laboratório de Fogos Florestais da UTAD, confirma-se que as baixas humidades podem anular o efeito das baixas temperaturas na propensão para arder, não sendo a inversa verdadeira: por mais alta que seja a temperatura, não arde grande coisa com humidades altas.

Como um destes fogos foi às portas de Vila Real, logo alguém filmou e deu origem a umas notícias de jornal e comentários inflamados nas redes sociais, por parte de quem acha um drama arderem 300, 400 ou 500 hectares de mato nas actuais circunstâncias.

Tentei explicar que a notícia destes fogos era excelente, a única parte negativa é a mania de se porem bombeiros a apagar estes fogos, em vez de simplesmente os acompanhar e conduzir, para eliminar a probabilidade, aliás baixa, de haver perdas económicas (nestas circunstâncias não há grande probabilidade de haver perdas sociais e não há perdas ambientais).

Rapidamente me estavam a chamar nomes, a ironizar sobre o que eu sabia sobre o assunto, a fazer ataques de carácter, etc..

E, inevitavelmente, a falar de eucaliptos (a arder no cimo de Montemuro e do Alvão, áreas de pastagens pobres sem aptidão para eucaliptos e os pobres de espírito a repetir mantras sobre eucaliptos e fogos, como quem reza a Santa Bárbara de cada vez que troveja).

Eu já fui um feroz opositor da plantação e da expansão do eucalipto, mas fui lendo, fui falando com quem estuda o assunto e fui verificando que grande parte do que eu julgava saber sobre o assunto não se confirmava em lado nenhum. Continuo a não gostar de eucaliptos, mas escrevo livros que  gosto que sejam lidos em papel.

Mais que isso, comecei a notar que os mais destacados militantes anti-eucalipto nunca tinham trabalhado sobre o assunto, tinham áreas de conhecimento, no máximo, próximas, mas mesmo quando eram investigadores o facto é que nunca tinham investigado nada sobre o assunto. Podiam ser, por exemplo, eminentes especialistas de solos, explicavam que sabiam muito de solos (quem diz solos pode dizer alterações climáticas, lobos, paisagem, enfim, o que se queira), usavam as suas credenciais académicas como argumento de autoridade mas, por acaso, nunca tinham mesmo estudado o assunto e os dados empíricos que usavam raramente eram abrangentes, normalmente eram sobre um pequeno factor (por exemplo, os óleos presentes nos tecidos dos eucaliptos são muito inflamáveis) para fazer generalizações e tirar conclusões totalmente abusivas. E a quantidade de asneiras por parágrafo atingia números exorbitantes sem que isso afectasse minimimente a credibilidade desses vendedores de banha da cobra.

Nada disto seria muito importante se a larga maioria dos que de facto estudam o assunto não fosse ostracizada no debate público.

Quer nos fogos, quer nos eucaliptos (mas poderia ser com o glifosato) há uma regra simples: para se ser ouvido é preciso dizer-se o que é permitido, argumentar que todos os que dizem o contrário estão vendidos aos interesses e que o mundo acaba já amanhã se não se parar a destruição a que se assiste e todos podemos ver facilmente.

Por acaso até sou presidente de uma associação de conservação da natureza, até faço trabalho concreto em matéria de conservação, até escrevo contra o mau uso de dinheiros públicos no apoio à produção (incluindo de eucalipto) em vez do pagamento dos serviços de ecossistema, mas nada do que eu faça tem a menor importância a partir do momento em que me recuso a entrar na histeria, não fundamentada, quando não mesmo errada, sobre os fogos, sobre a produção de eucalipto, sobre o glifosato e outros símbolos de pureza a que é preciso prestar vassalagem se se quiser ser considerado um bom ambientalista.

O que me parece perigoso nisto tudo não é a pequena minoria radical, muito vocal, que vocifera contra toda a heterodoxia, isso é da natureza das coisas e os sectários tendem a ser polícias do pensamento dos outros. E quanto menos importância têm, mais cultivam a pureza da linha justa e mais sectários são (o verdadeiro caso de estudo na matéria são os trotskistas clássicos).

O que é perigoso, e não se verificava de forma tão evidente há uns anos atrás, é o silêncio da grande maioria dos sabem, que pode ser voluntário (como eu os percebo, realmente há mais para fazer na vida que aturar parvos radicais e radicais parvos que não têm qualquer pejo em reduzir toda a argumentação a acusações de corrupção) mas é também, e muito, um bloqueio real que os jornalistas fazem a quem não pensar da forma certa.

E no fim queixam-se todos dos populismos que vamos alimentando com a condescendência social para com os ignorantes atrevidos a quem damos o direito de definir o que está certo e errado, não porque não saibamos que estão errados, mas porque não queremos lidar com a sua evidente agressividade e intolerância e não queremos acabar a ser acusados de corruptos, de estar ao serviço dos interesses, de ser pagos pelos malandros a quem só interessa o lucro.

Por mim, tolerância zero para o obscurantismo que me prentender impôr um pensamento único seja em que matéria for: o direito à asneira é sagrado e eu não tenho a menor intenção de abdicar desse direito só porque há uns tontos a quem as acusações saem mais facilmente que os argumentos.

Ide ver se está a chover.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dúvida existencial

por henrique pereira dos santos, em 19.01.17

Em 2015 houve eleições.

De um lado, uma coligação exaurida, que tinha gerido o país sem dinheiro, não só aplicado um duro programa de austeridade, como tinha ido voluntariamente além da troica, aplicado medidas desnecessárias e que prejudicavam os trabalhadores e pensionistas, por puro preconceito ideológico, provocado uma devastação social absurda e cruel, feito recuar o país décadas ao mesmo tempo que aumentava o endividamento e falhava todos os objectivos a que se propunha, fossem no défice, no crescimento económico ou na dívida, só para citar o que lhe eram mais queridos e em nome dos quais foram tomadas medidas austeritárias contraproducentes e irracionais. E não contente com este registo, esse governo mais não tinha feito que ser um seguidor canino da chanceler alemã, aceitando com gosto todas as humilhações que a Alemanha impôs aos países do Sul para se vingar da derrota na segunda guerra mundial.

Do outro lado, estava uma proposta responsável e moderna, com uma estratégia para a década, um programa solidamente centrado num grupo de economistas reputados, demonstrando que havia uma alternativa que passava por devolver mais rapidamente rendimentos, criando um impulso económico que desencadearia um processo virtuoso de crescimento económico que permitiria baixar o défice e pagar a dívida sem sobrecarregar os trabalhadores e pensionistas, e sem estrangular as empresas e a economia com os impostos absurdamente altos que o governo anterior tinha criado no seu desespero para respeitar o défice, como se não houvesse vida para além do orçamento.

A dúvida existencial que me tem atormentado prende-se com o critério usado para classificar o chefe do segundo grupo, que se apresentava nas condições mais favoráveis para captar votos, como um génio político e o chefe do primeiro grupo, que se apresentava nas piores condições, como um evidente inepto político, se quando se confrontaram nas melhores condições para o segundo e na piores para o primeiro, o primeiro teve mais votos que o segundo.

Haverá uma alma caridosa que seja capaz de me explicar que critério de avaliação é usado para se chegar a estas conclusões, aparentemente consensuais na imprensa?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O dito por não dito e a imprensa

por henrique pereira dos santos, em 18.01.17

António Costa, com a habitual elegância e decência para com os adversários que caracterizam as suas intervenções na Assembleia da República, disse ontem "respeitar "muito quem como o PCP, BE ou PEV sempre foi contra esta medida e continua a ser contra esta medida". E que não tem "consideração por quem dá o dito por não dito, e que hoje não quer apoiar as medidas que no passado apoiou"."

Este António Costa é o mesmo que rasgou o acordo para a baixa do IRC, com o o argumento de que prioridade era apoiar as pessoas, não as empresas, depois apresentou um programa económico com uma forte baixa da TSU, depois no programa eleitoral do PS passou a fazer depender essa baixa da TSU para às empresas à consolidação de fontes alternativas de financiamento da Segurança Social, depois assinou (assinou mesmo, não fez declarações) dois acordos que garantiam o apoio ao seu Governo em que explicitamente se comprometia a não mexer na TSU das empresas e agora aprovou um abaixamento da TSU das empresas que paguem ordenados mais baixos, que era o que estava em discussão quando resolveu dizer o que está citado acima.

A questão não é tanto como é possível agir assim, isso é natural em António Costa, é-lhe uma segunda pele e há muito quem o felicite por isso, cantando loas às suas extraordinárias capacidades negociais e de flexibilidade.

Devo dizer que não acho excessivamente grave que um político funcione assim, muitas vezes é preferível um decisor mudar de opinião a manter-se coerentemente numa posição errada e o que critico em Costa não é o facto de não ter respeito por si próprio (isso é uma questão dele, não minha) mas o facto de tomar decisões erradas que me prejudicam, prejudicam o país e, sobretudo, que prejudicam os mais frágeis e com menos capacidade corporativa (os miseráveis, os desempregados, os velhos menos letrados e de baixos rendimentos, os filhos que nascem em famílias mais pobres e menos estruturadas, etc..).

A questão está em saber por que razão pode António Costa dizer estas cavalidades sem receio dos custos políticos e mediáticos de alguém as confrontar com um percurso como o seu.

A resposta é simples e hoje Manuel Carvalho ilustra-a na perfeição num página inteira do Público:

"Ligado ao Bloco e ao PCP, o PSD integra-se agora numa aliança espúria que serve apenas para provar que a política portuguesa se tornou ela própria uma interminável "geringonça" em que a previsibilidade é inexistente, a lógica improvável e os programas relativos".

Qualquer pessoa que leia apenas este prágrafo conclui, com toda a lógica, previsibilidade e sem qualquer relatividade, que há uma gralha no texto que fez sair um D a mais.

Mas não, quem leia o texto todo não tem a menor dúvida:

"Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
 
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes."

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma pena

por henrique pereira dos santos, em 17.01.17

Como sabemos, o Público era, antes de David Dinis, um jornal pujante, em franco crescimento, com um número de leitores e vendas crescente e unanimemente visto com um jornal isento.

Agora, com a saída de alguns dos responsáveis pelos seus brilhantes resultados, vai ser o descalabro.

Uma pena.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A absurda subsidiação do eucalipto

por henrique pereira dos santos, em 16.01.17

De acordo com esta notícia, o Governo vai disponibilizar 18 milhões de euros para projectos de aumento da produtividade de eucalipto.

A opção de usar os dinheiros da política agrícola comum para apoiar actividades produtivas é uma velha teimosia do actual ministro e, quanto a mim, uma opção errada e reaccionária.

Que o aumento da produtividade das áreas de eucalipto é uma prioridade da política florestal do país, inteiramente de acordo. Que o Governo se concentre em criar condições para isso, em especial no acesso à licença e, se existisse, na extensão rural e apoio técnico aos produtores, encantado da vida.

Mas o financiamento desta opção, tal como o financiamento da fileira do leite e do porco, outras decisões do actual ministro (para "domesticar os mercados", justificou) é tão errado como andar a financiar festivais de música com pretextos ambientais idiotas.

O dinheiro dos contribuintes canalizado através da política agrícola comum deveria concentrar-se no pagamento de serviços que não podem ser apreendidos pelo mercado, os bens e serviços difusos de interesse geral cuja venda em mercado é difícil: serviços de gestão de combustíveis e consequente gestão do fogo, serviços de gestão do ciclo da água, serviços de conservação da nossa herança cultural, serviços de conservação e promoção da biodiversidade, etc..

Na medida em que a melhor maneira de obter resultados colectivos for pagar esses serviços a actividades produtivas com dificuldade de competitividade, que sejam pagos esses serviços.

Mas das duas, uma: ou a produção de eucalipto é uma actividade económica interessante (e é) e deve procurar resolver os seus assuntos no mercado, bastando que o Estado não atrapalhe, ou se precisa que o Estado a financie, nem que seja em componentes de interesse geral, como o real e verdadeiro interesse colectivo no aumento da sua produtividade por hectare, o melhor mesmo é pensarmos noutro uso para o território.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cumprir o mandato dos eleitores

por henrique pereira dos santos, em 14.01.17

Ao ouvir e ler a intensa barragem de propaganda sobre os futuros votos dos partidos sobre a TSU, lembrei-me da noite das eleições:

"O PS assume a plena responsabilidade que lhe foi acometida de garantir que a vontade dos portugueses não se perca no vazio. O PS fará tuda para cumprir o mandato que recebeu dos eleitores" (do discurso de derrota de António Costa, na noite de 4 de Outubro).

 

Com base nesta ideia de fidelidade ao mandato recebido, António Costa recusou abster-se para garantir um governo dos partidos mais votados, explicando que tinha recebido um mandato para mudar de políticas.

Foi mais longe, para assegurar essa mudança de políticas, prescindiu do programa com que se apresentou a eleições, abdicando de mexidas na TSU, uma das três exigências centrais do BE para viabilizar o seu governo.

Note-se que os partidos mais votados propuseram uma série de aproximações ao programa que o PS apresentou ao eleitorado, incluindo a adopção de medidas centrais do programa do PS no programa do futuro governo saído das eleições, como as que se referiam à TSU, para que a votação no PS se traduzisse nas alterações de políticas pretendida pelo eleitorado.

Depois disto tudo, a minha pergunta é simples: os partidos mais votados receberam algum mandato para viabilizar um governo do PS apoiado pelo BE e PC, assente em políticas que não foram a votos?

O programa do actual governo não consta nem da plataforma eleitoral do PS, nem da do BE, nem da do PC, como é normal por ser o produto de uma negociação posterior às eleições.

Se os partidos mais votados não receberam um mandato dos eleitores para viabilizarem este programa de governo em execução, qual é a questão que se levanta quando, legitimamente, adoptam o modelo de intervenção do PS e se recusam a viabilizar políticas (não são medidas avulsas, são políticas que estão em causa) que acreditam que não foram as que foram votadas nas eleições?

Autoria e outros dados (tags, etc)



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • José

    Ahahahahah! Genial!

  • Aaaaahhhhh...

    Que grande pecado!Ele escreveu putas, mas depois t...

  • Kruzes Kanhoto

    Uma chatice, essa coisa das mochilas. Um dia deste...

  • Anónimo

    Eu sou de um tempo longínquo em que já se faziam d...

  • Renato

    João Távora, não faça um ar tão enfadado com as ca...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2006
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D

    subscrever feeds