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1) 80% das ignições ocorrem num raio de 2 kms das aldeias;
2) A variação do número de fogos nocturnos (e convém perceber que nocturno quer dizer entre as oito da noite e as oito da manhã, o que inclui muito dia e muita hora em que há actividade humana) é explicada pela meteorologia e corresponde a um número em torno dos 40% de fogos diários;
3) O fogo é registado quando se torna suficientemente grande para ser visto (o que de noite é dificultado pelo facto da coluna de fumo ser menos visível), não quando se dá a ignição original, que pode ter ocorrido horas antes;
4) A investigação sistemática dos fogos postos, pela polícia judiciária, permite ter uma ideia clara quer do perfil do incendiário, quer das suas motivações, e nada do que até hoje se verificou permite sequer pôr uma vaga hipótese de qualquer organização;
5) A variação regional das ignições (e da área ardida) é explicada pela meteorologia (e, em parte, pelo número de anos ocorridos desde o último fogo);
6) Acima de tudo, 1% das ignições são responsáveis por 90% da área ardida.
Se quiserem continuar a discutir soluções para o problema a partir das ignições, o máximo que posso fazer é desejar-lhe boa sorte para encontrar boas soluções a partir de premissas erradas.

Adenda:

Via Paulo Fernandes, chega-me este mapa com a densidade de ignições em Julho e Agosto deste ano. Reparem bem onde está a maior densidade de ignições e depois lembrem-se de por onde andaram os grandes fogos.

Só alguém com muita imaginação poderá pensar que diminuindo as ignições no Porto passa a arder menos em Mação ou no Fundão.

densidade ignições.jpg

 

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Um comentário num jornal

por henrique pereira dos santos, em 21.08.17

Fiz hoje, no Observador, um comentário a um texto que reflecte muito do que está na base da mitologia sobre os bombeiros voluntários que temos.

E resolvi fazer desse comentário um post:

"Eu compreendo o texto e as emoções que lhe estão na base.
Mas há uma questão central em que o texto, e é natural que assim seja, é omisso: "Os bombeiros foram seguindo o incêndio que estava já a queimar em direção ao Tejo.".
Do ponto de vista do combate esta é a demonstração de que, estrategicamente, há um problema sério de doutrina: os grandes fogos florestais não se seguem nem se combatem directamente (o que é diferente da situação de defesa de situações específicas, como a descrita, que não é uma operação de gestão de um grande fogo florestal, é uma operação de protecção civil), os grandes fogos florestais preveêm-se e levam-se à extinção retirando-se-lhes o combustível da frente que se pode prever.
Por mais heróis que sejam, e muitos são, o facto é que precisamos de bons profissionais e não de heróis, tal como nos hospitais, há cem anos, se percebeu que não eram as enfermeiras, heroínas e voluntárias, que nos permitiam salvar mais vidas mas sim enfermeiras preparadas e profissionalizadas.
Não precisamos de bombeiros florestais que seguem incêndios, correndo atrás deles, precisamos de bombeiros que saibam como vai evoluir o fogo e escolham a posição certa para esperar por ele nas melhores condições para o obrigar a extinguir-se.
Estes que temos agora são muito bem vindos para operações de protecção civil como a descrita, mas não são os bombeiros florestais de que precisamos, mesmo sendo, como muitos são, heróis."

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Tudo certo, como 2 e 2 são cinco

por henrique pereira dos santos, em 20.08.17

Em Outubro do ano passado uma petição promovida pela QUERCUS (mas que reflecte o que muitos conservacionistas pensam sobre o assunto), terminava assim:

"A Quercus apela a toda a comunidade para abraçar a causa da proteção dos Carvalhos e dos Carvalhais em Portugal para que se possa criar legislação que conduza à sua proteção efetiva e, que inclua a proibição do corte destas árvores sem licença expressa das autoridades competentes para o efeito, à semelhança do que já acontece para o sobreiro e para a azinheira."

A QUERCUS é a mesma organização que, em sede de audição parlamentar, defendeu explicitamente o investimento dos proprietários na florestação com espécies autóctones. De resto, essa é uma defesa que é comum a mais ou menos toda a gente do mundo conservacionista.

Agora só falta explicar aos proprietários por que razão devem investir em espécies que se pretende que venham a ser protegidas e cujo corte não dependerá das opções de gestão do proprietário mas do que entender o Estado.

Boa sorte para as campanhas de sensibilização.

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Elvis está vivo, versão José Gomes Ferreira, na SIC

por henrique pereira dos santos, em 18.08.17

Não vi o programa todo, há limites para a insanidade envolvente e de vez em quando tenho de me impôr alguma reclusão em matérias de fogos, para poder manter um mínimo de racionalidade.

Uma coisa é dizer asneiras, certamente digo muitas nesta matéria (até porque o fogo não é o objecto do meu trabalho, é apenas um factor que interage com outros no objecto do meu trabalho, a paisagem), outra coisa completamente diferente é fazer um programa de televisão, em horário quase nobre, a defender que Elviz Presley está vivo.

Um jornalista encartado, considerado da elite do jornalismo, começa um programa a estranhar que o governo desvalorize o facto de Elvis estar vivo, passa depois uma peça de um motorista de taxi que garante que o transportou numa corrida desde o aeroporto ao Chiado, convida para o estúdio um indivíduo que vive de vender fotografias desfocadas de Elvis Presley na actualidade, um empresário respeitado que não faz ideia de quem seja Elvis, um académico que nunca ouviu falar de Elvis Presley e um jornalista que fez a cobertura de todas as convenções que juntam os que acreditam que Elvis está vivo e faz um debate sobre o assunto.

Factos concretos? Nenhum. Razões que expliquem por que razão Elvis estaria vivo mas isso se manteria em segredo? Nenhumas. Uma discussão de opiniões extraterrestres guiadas pelo jornalista encartado que, não se sabe porquê, está mesmo convencido de que Elvis está vivo e não precisa de respeitar qualquer regra básica da profissão para o dizer em antena, em horário quase nobre, simplesmente porque essa é a sua fé.

Foi, no essencial, o que vi na quarta feira à noite, num programa em que José Gomes Ferreira, com a maior das latas, inversamente proporcional à racionalidade da tese, resolve desenvolver em directo uma teoria de conspiração, ao nível dos chem trails, sobre a existência de criminalidade organizada que gera os fogos que têm acontecido em Portugal.

Indícios da existência de criminalidade organizada?

Parece que sim, que existem: alguns fogos são registados pelo sistema de vigilância de fogos a horas que se consideram impróprias, onde há um fogo pode haver outros e coisas que tal.

E sobretudo um argumento muito forte: eu sei muito bem que o primo da mulher do vizinho do terceiro andar, que está metido nisto até às orelhas, comprou três dúzias de caixas de fósforos na drogaria da esquina porque a minha mulher dá-se muito bem com a cabeleireira que é a amante do dono da drogaria.

De resto, explicar a racionalidade económica do negócio, identificar sinais dessa organização terrorista nas investigações judiciais, encontrar as ligações entre os seus membros, etc., isso é coisa para meninos, a José Gomes Ferreira isso não interessa nada, basta-lhe a sua convicção para, em antena, montar um programa que pretende demonstrar a sua tese: na base dos fogos actuais está a criminalidade organizada.

Admito que nos intervalos deste esforçado trabalho, José Gomes Ferreira se queixe da crise do jornalismo e de como é difícil fazer bom trabalho jornalístico para públicos tão pouco exigentes, cultos e sabedores.

Enfim, pérolas a porcos, mas como poderia ser diferente para quem só sabe produzir pérolas, qualquer que seja o público.

É pena tanta grandeza ficar confinada na fatalidade de se ter nascido num país pequeno e pobre, incapaz de reconhecer globalmente o brilho intenso de tanta genialidade jornalística.

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Os mitos não são inofensivos

por henrique pereira dos santos, em 16.08.17

Este ano tem estado na moda partilhar fotografias de ilhas no meio de áreas ardidas, com interpretações mitológicas sobre o efeito de umas e outras espécies na gestão do fogo.

Em si mesmo é um exercício relativamente inocente: se alguém se sente confortado com a ideia de que há umas espécies que têm um efeito mágico sobre o fogo, o que espero que é que essa pessoa seja feliz nesse mundo mágico.

O problema só começa a existir quando se repetem acriticamente este tipo de argumentos, começam a ganhar dimensão social e depois se adoptam políticas erradas, frequentemente contraproducentes, lançando os cavalos contra moinhos de vento.

Uma canseira, um desperdício e, sobretudo, tomar o caminho do Sul para ir para Norte.

Resolvi por isso trazer aqui três fotografias tiradas por estes dias (não por mim).

IMG_20170816_094816.jpg

O que aqui se vê é uma mata mista de Sobreiro e Carvalho Negral, ardida como qualquer outra mata.

A fotografia não demonstra nada de especial, a não ser que existem exemplos de matas de folhosas autóctones que ardem com um fogo tão intenso como parece ter sido este. O exemplo não é nenhuma aberração, é o normal nas condições de acumulação de combustível existente, sendo inclusivamente muito mais difícil fazer um bom rescaldo, por causa da acumulação de folhada, do que seria num eucaliptal.

Por outro lado um eucaliptal, em condições de grande intensidade do fogo, cria projecções que vão mais longe que as criadas nestas matas, o que torna o combate mais complicado, sobretudo com um dispositivo de combate que não leu  Sun Tzu e por isso não sabe da vantagem em escolher a posição mais favorável e esperar pelo inimigo nas melhores condições, em vez de o perseguir incessantemente, à mercê das condições criadas pelo inimigo.

No primeiro plano desta nova fotografia pode ver-se a acumulação de combustível, com a área ardida em fundo.

IMG_20170816_095058.jpg

 É por estas razões que escolher fotografias a gosto não serve para dar racionalidade a uma discussão de fenómenos complexos, não são situações pontuais que nos permitem ter uma ideia generalizada do problema.

A única coisa que uma fotografia pode fazer é negar uma teoria geral, se a fotografia a negar, mas não se pode fazer teorias gerais a partir de fotografias pontuais, escolhidas para demonstrar uma tese preconcebida.

Isto também acontece em matas de autóctones.

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É uma grande perda, do ponto de vista natural? Não, nem por isso: na próxima Primavera a esmagadora maioria destes sobreiros e carvalhos estarão a rebentar de novo, com maior ou menor afectação de alguns.

Há muitas razões para se gostar de ter matas de folhosas autóctones, desde a qualidade paisagística, à amenidade, à produção de biodiversidade, etc.. Mas entre essas razões o fogo é uma razão muito tardia: só muito anos depois, e muitos fogos pelo meio, permitem um ensombramento que traga algum controlo dos matos, à custa de uma acumulação de combustíveis na folhada.

Um fogo controlado neste carvalhal há menos de quatro ou cinco anos teria permitido uma menor afectação das árvores e do povoamento, mas quantas pessoas estariam disponíveis para assinar a autorização para o fogo controlado no carvalhal?

Muito poucas, porque quase todas estariam a pensar que a alternativa não é entre arder ou não arder, mas entre arder onde queremos, quando queremos e como queremos ou arder assim como ardeu: nas piores condições.

E, provavelmente, estariam convencidos de que os carvalhais não ardem, por isso não é preciso prepará-los para o fogo que forçosamente virá um dia.

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“Ditosa Pátria que tal filho teve!”

por henrique pereira dos santos, em 16.08.17

A comparação é injusta.
D. Dinis não fez reforma florestal nenhuma, até porque herdou de seu pai um país quase sem árvores.
Limitou-se, isso sim, a mandar pôr árvores nuns milhares de hectares de areias que se tinham acumulado na costa de Portugal, desde que as arroteias da Alta Idade Média peninsular empurraram milhões de metros cúbicos de sedimentos pelos rios abaixo.
Não prometeu um cadastro de jeito, não alterou pela sexta vez em pouco mais de dez anos um sistema de defesa de floresta contra incêndios, não proibiu a expansão de nenhuma espécie de árvore, não inventou um sistema kafkiano para garantir uma área de fogo controlado acima de qualquer objectivo realista, etc..
D. Dinis limitou-se a florestar, com o seu dinheiro, uns terrenos maninhos, uma coisa que nem de perto nem de longe se aproxima da grandeza do que agora se propõe: obrigar terceiros a gerir terrenos de outros terceiros com o dinheiro de terceiros terceiros.
Quem assume galhardamente os louros de Alqueva, sem medo de chamar a si decisões que foram essencialmente de outros, decretando uma unanimidade nacional sobre o assunto – confesso o meu anti-patriotismo que quebra a unanimidade, ainda hoje acho Alqueva um erro, mesmo sabendo dos seus efeitos positivos, que também os tem – não tem medo de críticas, leva reformas até ao fim, contra tudo, contra todos.
É um orgulho ter governantes que se orgulham de fazer reformas que têm o grande mérito de serem explicitamente contra o que dizem os cientistas, essa corja de inúteis que desconhece as virtudes da ignorância aplicadas à política e que se recusa a aceitar as sábias palavras de Mário Centeno: “Não tente transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre”.
Claro que quem assim assume responsabilidades em Alqueva, sabe bem que pôr em paralelo Alqueva e a actual Reforma Florestal faz todo o sentido.
Alqueva é um projecto concreto de investimento no território, que captou 11% de todo o dinheiro disponível para o mundo rural, para o aplicar em pouco mais de cem mil hectares, numa evidente recriação do paraíso capitalista: socializar os custos e privatizar os benefícios.
A Reforma da Floresta não tem orçamento definido, muito menos 11% do disponível para o mundo rural por cada 100 mil hectares – compreende-se, para aplicar a mesma lógica de Alqueva aos 6 milhões de hectares de espaços florestais seria necessário investir mais de 500% do disponível – e na verdade pretende fazer o inverso de Alqueva: privatizar os prejuízos e socializar os benefícios, embora haja alguma indefinição sobre que benefícios resultarão da Reforma Florestal.
Não saber que benefícios se vão alcançar com a Reforma Florestal não passa de um pormenor, os benefícios, mesmo que não estejam explícitos, são óbvios e só não os vê quem não quer.
E os que não os querem ver são os mesmos que produziram mais de seiscentas participações na discussão pública da Reforma da Floresta. Agora queixam-se de não verem nenhuma alteração resultante dessa discussão nos documentos posteriores à discussão pública e são incapazes de ver os benefícios que se abaterão sobre o país a partir da Reforma Florestal.
Já para não falar dos que, como eu, não se deram ao trabalho de fazer qualquer contributo formal para a discussão dos diplomas da Reforma da Floresta, apenas escrevendo aqui ou ali sobre o assunto, porque já sabem do que a casa gasta, sabem bem o que o actual ministro fez às agro-ambientais (e à generalidade dos dinheiros para o mundo rural), ou na discussão do financiamento da Rede Natura 2000, para evitar que o dinheiro fugisse das suas clientelas (o leite, o porco, os cereais, enfim, gente que vale votos) para as necessidades reais de gestão do território que produz bens difusos, mas não dá retorno em votos.
Tudo gente sem qualidades, tudo gente que não sabe reconhecer o valor dos outros, tudo gente incapaz de ver a gigantesca Reforma da Floresta que está em curso.
Tudo gente que apenas insinua que foi exactamente a opção de concentrar recursos em Alqueva e outros projectos afins, no apoio à produção, no apoio aos rendimentos históricos dos produtores de cereais, no estabelecimento de um preço político para a água do regadio de Alqueva, em detrimento de um preço real que reflicta todos os custos, foi essa opção de concentrar todos os recursos na produção agrícola que implicou o abandono dos espaços rurais produtores de serviços de ecossistema, mas com problemas sérios de competitividade.
Não têm razão, agora, graças a umas leis, tudo vai mudar, o abandono vai desaparecer e a gestão florestal vai florescer como floresce o olival intensivo no perímetro de rega de Alqueva.
Os proprietários, as indústrias do sector, os investigadores do sector, toda essa gente não sabe o que diz quando diz que a Reforma Florestal “é sempre um esforço inútil, um voo cego a nada”, como diria o Reinaldo Ferreira.
Falando nisso, se fosse vivo, Reinaldo Ferreira provavelmente seria uma boa opção para gerir a Reforma Florestal porque pelo menos reunia a principal qualidade que parece ser necessária para a apoiar: não fazer a mínima ideia do que é gestão florestal.

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254 (ou da inovação avaliada por reaccionários)

por henrique pereira dos santos, em 03.08.17

Este é um post em causa própria (não como profissional mas como dirigente pro bono de uma ONG interessado no assunto).

Há já uns anos que tenho andado envolvido, quer profissionalmente, quer civicamente, na defesa do pastoreio como instrumento de gestão da paisagem e contributo para uma resposta socialmente útil às alterações sócio-económicas das últimas décadas, que estão no origem do regime de fogos que existe em Portugal.

Nada me prende a uma visão saudosista, folclórica, etnográfica e reaccionária do pastoreio de percurso tradicional, ou a outras formas de pastoreio que eram fundamentais na gestão da fertilidade até à descoberta da síntese industrial da amónia, permitindo a produção barata de adubos azotados, a base em que assenta a actual alimentação da humanidade.

A única vez (sou sobretudo um intelectual, não sou um realizador) em que consegui estar envolvido na apliação prática destas ideias, com a Aguiar Floresta e financiamento do Fundo EDP de Biodiversidade (que descanse em paz), conseguimos fazer uma avaliação bastante concreta de três questões centrais:

1) Existem, ou não, maneiras simples, baratas e eficazes de fazer contenção de cabras, em cercados amovíveis, em territórios difíceis como os das nossas serras?

2) A aplicação de elevados encabeçamentos (no caso, cerca de 800 cabras por hectare) por períodos curtos tem implicações ambientais negativas relevantes, quer para a flora e vegetação, quer para o solo?

3) Os custos de gestão usando a técnica de pastoreio dirigido são comparáveis às alternativas para a gestão de combustíveis (corte ou fogo)?

Tal como estive eu envolvido neste projecto, há outras pessoas envolvidas noutros projectos que usam o pastoreio como instrumento de gestão, como é o caso do Hugo Novo, da 5ª Lógica, do Júlio Ricardo, na cooperativa Terra Chã, José Mota, na URZE, Joaquim Dantas, Território Com Vida e vários outros que podem expandir a ideia e a prática de um pastoreio de gestão ou que podem dar solidez a este trabalho, avaliando-o, escrutinando-o e produzindo resultados palpáveis e replicáveis.

Este conjunto de organizações juntaram-se para fazer uma candidatura a uma medida de apoio ao mundo rural, os chamados grupos operacionais, medida essa que tem como objectivo promover "O funcionamento de Grupos Operacionais que desenvolvam, em cooperação, um plano de ação para realizar projetos de inovação que respondam a problemas concretos ou oportunidades que se colocam à produção e que contribuam para atingir os objetivos e prioridades do Desenvolvimento Rural, nas áreas temáticas consideradas prioritárias pelo setor tendo em vista a produtividade e sustentabilidade agrícolas, conforme consideradas na PEI".

Numa primeira apreciação as brilhantes cabeças que tomam decisões sobre milhões atribuíram zero de inovação ao que esta parceria propunha porque o ""Grupo Operacionais"não conduz à inovação de um novo produto, processo/tecnologia ou marketing face aos existentes atualmente. Verifica-se que o plano de ação assenta no desenvolvimento de metodologias de pastoreio dirigido como estratégia para a otimização da produtividade e do incremento da caprinicultura em sistema extensivo em articulação com a aplicação de boas práticas de gestão ambiental. Conclui-se assim que o plano de ação não tem como objetivo introduzir um novo produto no mercado, atendendo a que não é feita qualquer referencia direta a um novo produto. Quanto à avaliação de um novo processo ou método de produção, considera-se que o plano de ação não apresenta na metodologia de abordagem a identificação de um método ou prática de produção novos ou melhorados, não se verificando alterações significativas ao modo de produção animal já existente, nomeadamente no que respeita às técnicas de pastoreio. Salienta-se que o plano de ação incide maioritariamente em medidas de "avaliação", não sendo apresentado um plano de pastoreio efetivo e diferenciado do já praticado. Não é apresentada uma nova estratégia de marketing de posicionamento junto do consumidor ou em mercados previamente identificados".

A profunda ignorância dos avaliadores não lhes permitiu sequer perceber que em qualquer das experiências que listei acima havia uma experiência única de transformação de uma actividade tradicional num instrumento contemporâneo de gestão do território que respondia a uma das mais graves falhas de mercado do mundo rural português: a ausência de gestão de quase dois terços do território, por falta de retorno para os gestores e proprietários.

Depois da reclamação feita, demonstrando que esta avaliação não tinha pés nem cabeça e que violava objectivamente a definição de inovação que estava nos regulamentos, foi-nos dada parcialmente razão e passámos a saber que há, em Portugal, 253 projectos para a criação de grupos operacionais que são mais inovadores e relevantes para o mundo rural que ter uma rede de transformação da pastorícia num instrumento contemporâneo de gestão dos territórios marginais, contribuindo para a solução de um problema a que a sociedade e o Estado não têm sabido dar resposta: a gestão socialmente útil do fogo nas nossas paisagens.

Contra todas as regras, a lista dos 253 projectos (e dos mais não sei quantos mais mal classificados que este sobre o qual escrevo) ainda não está disponível, não sendo por isso possível ainda entender que inovações maravilhosas existem em Portugal que não existam na Galiza, onde um projecto de pastoreio estará em primeiro lugar no mesmo tipo de candidaturas, e que sejam mais relevantes e inovadores para o mundo rural.

Mas a julgar pelo enlevo e carinho com que foi tratada a fantasia de andar a fazer monitorização de espécies com drones (não estou a ser irónico, um milhão de euros aprovado para isso) restam-me poucas dúvidas sobre a responsabilidade da loucura normal que campeia nos decisores dos fundos comunitários nos resultados desastrosas na gestão do mundo rural e do fogo: ter uma organização a brincar aos drones é muito, mas muito mais sexy e inovador que um monte de cabras a comer mato e estrumar montes de forma sustentável e, sobretudo, muito mais relevante para o país e as pessoas que por aqui vivem.

Não faço a menor ideia de quem são as pessoas que tomam estas decisões, mas espero que consigam dormir de noite quando perceberem a responsabilidade concreta que lhes cabe no desespero de quem tem de viver lado a lado com os barris de pólvora que ajudaram a encher.

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A querela da propriedade a propósito de gestão florestal

por henrique pereira dos santos, em 02.08.17

Há muitos anos que a nossa escola florestal levanta a questão da propriedade como questão central para uma gestão correcta dos recursos.

Há razões históricas para que assim seja - a nossa escola florestal nasce da escola alemã de silvicultura -, há vantagem técnica em alguns modelos de exploração florestal mais intensivos, mas a verdade é que não há evidência empírica de que a dimensão da propriedade seja central nas nossas condições.

Por um lado, a grande maioria do valor acrescentado da produção florestal em Portugal está nas regiões de minifundio (não porque haja vantagem da pequena propriedade para a produção florestal, mas porque as regiões com maior produtividade primária favoreceram historicamente o parcelamente da propriedade), por outro as economias de escala são relevantes quando o investimento é elevado e os custos de operação são baixos, como acontece na actividade florestal da generalidade da Europa, nomeadamente na mãe Alemanha em que os nossos florestais foram buscar os fundamentos da sua profissão, mas não é o caso nas nossas condições.

Como a generalidade dos nossos florestais sempre trabalharam para o Estado, as considerações económicas sempre andaram atrás das considerações técnicas na sua actividade e, esse já é um problema mais geral do país, a avaliação de resultados sempre foi miserável, levando a que a experiência não tivesse conduzido, como deveria, a uma maior adaptação dos princípios da silvicultura da Europa central às nossas condições.

Ora, nas nossas condições, os custos operacionais são muito elevados porque a gestão de matos tem de ser feita em intervalos curtos, dada a nossa elevada produtividade primária, o que elimina grande parte das vantagens do aumento de escala: uma operação deficitária feita a grande escala só aumenta a escala do prejuízo, não resolve o problema do prejuízo, excepto se esse aumento de escala permitir baixar o custo dessa operação.

É o que acontece na exploração intensiva de eucalipto feita pelas celuloses, em que a escala da propriedade é uma condição necessária para permitir operações pesadas e mecanizadas de controlo de matos. Mas sendo uma condição necessária, não é suficiente, é preciso que as condições do terreno permitam o uso dessas técnicas (o que pode não acontecer em zonas muito declivosas, com elevada pedregosidade, etc.) e é preciso que o preço de venda dos produtos pague os custos globais de gestão. Apesar da diminuição relativa do preço do controlo de matos por hectare esta última condição está longe de acontecer em grande parte das zonas que não têm boa produtividade de eucalipto.

É neste ponto da discussão que normalmente me dizem: "De igual modo é oportuno perguntar-te como lidarás com os proprietários que não desejem ter um aceiro nem um corta-fogo nos seus prédios, por quererem maximizar a sua produção lenhosa".

Eu fico sempre pasmado com este argumento, porque a EDP e a REN demonstram todos os dias como se faz: o estabelecimento legal de uma servidão (como acontece com as linhas eléctricas), um edital, uma negociação com os proprietários, o pagamento das perdas de rendimento, a gestão directa ou contratada com o proprietário da vegetação por baixo das linhas e as linhas eléctricas passam sem problemas de maior nas zonas de minifundio.

O problema é que o Estado quer fazer as coisas de maneira diferente, quer estabelecer de facto uma servidão administrativa para as zonas em que entende que deve haver gestão de combustíveis para uma gestão sensata do fogo mas, e aqui está o busílis, quer passar os custos dessa opção para os proprietários.

E portanto inventa essa ideia absurda de que a propriedade deve ter dimensão suficiente para que o proprietário consiga absorver estes custos na gestão global da propriedade, sem cuidar do facto da exploração da restante propriedade, se não for uma produção de eucalipto intensiva, uma ou outra zona de pinhal e algum montado de sobro (porque do de azinho é melhor não falar muito), ser, ela própria, deficitária.

Não, não é um problema de propriedade que nos tolhe na gestão do fogo, é antes um problema de falta de rentabilidade da actividade de produção florestal, a que se soma uma grande falta de respeito do Estado pela propriedade e pelos proprietários.

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Da superioridade moral

por henrique pereira dos santos, em 31.07.17

Equilibradamente, alguém cita o seu próprio trabalho científico, mais que escrutinado internacionalmente pelas regras normais: "a estrutura florestal, incluindo a quantidade de combustível disponível para arder, é muito mais relevante q a composição do estrato arbóreo. Por isso é que pinheiro, eucalipto e sobreiro não se distinguem entre si, o que se distingue entre si são as variantes estruturais de aberto-alto, denso-fechado, etc. q se sobrepõem à espécie".

Muita gente de boa-fé e interessada em contribuir para uma gestão sensata e socialmente útil do fogo em Portugal retira ilações das conclusões citadas, a principal das quais é dizer que muito mais que a espécie arbórea dominante, é para a gestão dos povoamentos que interessa olhar com atenção.

Esse olhar com atenção pode suscitar inúmeras linhas de actuação e diferentes políticas, há quem defenda a remuneração dos serviços de ecossistema prestados pelos gestores do território (como eu), há quem tenha abordagens mais técnicas limitando-se a apontar as condições de boa gestão, mas sem se preocupar muito com custos e proveitos, há quem esteja convencido de que o que faz falta é legislação e repressão que obrigue os proprietários a fazer o que é sua responsabilidade social, enfim, há um conjunto muito largo de hipóteses para a definição de políticas, partindo dos mesmos factos, os que estão descritos no primeiro parágrafo.

E depois há o pensamento mágico.

Parte-se uma premissa (como Lysenko partiu da premissa de que a genética tinha de estar errada por ser contrária a princípios fundamentais do marxismo, conduzindo milhares de pessoas à fome e à morte), recusa-se qualquer discussão sobre a premissa, com base em argumentos do tipo "só não vê quem não quer" ou "quem diz isso é porque está a ser pago por eles" e coisas que tal, e desenvolve-se uma estratégia que permita proteger as conviccções do confronto com os factos.

A primeira fase consiste, normalmente, numa argumentação suave e amiga no sentido de que, ainda que seja verdade, não se pode dizer o que diz o primeiro parágrafo porque isso beneficia o eucalipto.

Se alguém argumenta que quando morrem 64 pessoas é demasiado mesquinho centrar-se na oportunidade que isso constitui para fazer avançar a agenda política relacionada com o controlo do eucalipto, rapidamente se passa a uma contra-argumentação agressiva e muito centrada em comentários pessoais.

O passo seguinte, porque os factos são o que são, é transformar o argumento inicial, que está no primeiro parágrafo (e que é irrefutável com conhecimento hoje existente) num argumento que seja facilmente contestável, fazendo equivaler o argumento inicial a um argumento conveniente: "arde tudo igual, as espécies ardem todas da mesma maneira". É tentador porque parece uma mera simplificação do que está dito no primeiro parágrafo, mas é uma grosseira deturpação que permite assacar a terceiros um argumento totalmente errado e facilmente contestado através da demonstração de que as espécies não ardem de forma igual.

A partir daí o Céu é o limite na argumentação, podendo facilmente chegar onde se quer: "Quantitativamente o mato é mais importante que a espécie arbórea directriz...ok...e daí!? Sim há mais reacendimentos em floresta autóctone...e daí!? O que interessa é termos um território heterogéneo...bem ordenado com descontinuidades...e andamos apenas a vociferar que (quantitativamente) a culpa não é do Eucalipto...Quantitativamente n é...mas em termos de ordenamento é...e n é porque meia dúzia de eucaliptais abandonados desenvolvem giestais e medronhais que o" eucaliptal" eqt sistema florestal de produção é tão ou mais biodiverso ou tão ou menos fire prone".

Num passe de mágica passa-se de uma discussão racional sobre fogos, estruturada com base no método científico, para uma discussão sobre os efeitos globais da produção de eucalipto no território, estruturada num pensamento mágico e afirmações desconexas que visa usar o problema da gestão do fogo no avanço da agenda anti-eucalipto ou na agenda de um mítico paraíso de biodiversidade na terra cuja gestão ninguém tem de pagar.

Mediaticamente funciona na perfeição.

Mas no próximo fogo trágico, e ele virá, mais tarde ou mais cedo, não se esqueçam do que andaram a dizer e fazer e do esforço posto no desvio de atenções e recursos da verdadeira resolução do problema para fazer avançar a vossa agenda política.

As boas intenções sempre foram armas de destruição maciça quando a sua aplicação passou a ser mais importante que os seus efeitos reais sobre a vida concreta das pessoas comuns, em nome de amanhãs que cantariam eternamente.

Essa é a vossa responsabiilidade.

A que escolho é centrar-me nas melhores das soluções exequíveis para que as pessoas possam viver a sua vida com mais dignidade no sentido de que "não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá".

Se há coisa que recuso é reconhecer a superiodade moral de que se reivindicam os bem intencionados que preferem carvalhos a eucaliptos.

Primeiro por nisso nada nos distingue. Segundo porque não há nenhuma superioridade moral em proclamar boas intenções, mas sim em as praticar consequentemente.

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E umas perguntas, pode ser?

por henrique pereira dos santos, em 30.07.17

"Quando fui responsável pela reforma que foi feita, deixei bem claro que este esforço enorme que a administração interna iria fazer era para criar condições para a reforma da floresta, visava comprar tempo para que essa reforma fosse feita. Devo dizer que fico chocado, dez anos depois, por verificar que essa reforma não foi feita”.

António Costa tem repetido esta ladainha pelo menos desde o Verão passado.

Aparentemente ninguém se lembrou de lhe perguntar:

1) A que reforma da protecção civil se refere?

2) Que acções dessa reforma compraram tempo, e de que maneira?

3) Por que razão a reforma da floresta precisava desse tempo?

4) E como é que o Governo pretende reformar uma floresta que não lhe pertence?

O que me faz confusão não é ter um primeiro ministro que diz coisas como as que estão no primeiro parágrafo e que não fazem sentido nenhum, o que me impressiona mesmo é que nem mesmo com a repetição desta ideia durante um ano inteiro, não haja nem jornalista, nem deputado, nem ninguém que lhe pergunte exactamente o que está a querer dizer com o que disse e que avaliações sérias do que foi feito sustentam a ideia de que foi bem feito e é para continuar.

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A excelência

por henrique pereira dos santos, em 28.07.17

""Tenho confiança neste sistema. Embora não consiga debelar todas as situações em ataque inicial, ou seja, nos primeiros 90 minutos, e sendo verdade que há ocorrências de incêndio que fogem a esse ataque inicial e tomem dimensões muito grandes, como tem sido o caso dos últimos incêndios, apesar de tudo tem-se conseguido debelar estas situações, tentando sempre em primeiro lugar e, tendo como prioridade, a segurança das pessoas", disse a ministra."

Não se pense que esta ideia é muito original e caracteriza a Ministra de turno. Esta ideia tem atravessado todos os governos e caracteriza muitas das declarações dos responsáveis da protecção civil: somos muito bons porque resolvemos mais de 90% das ocorrências (na verdade, acrescentam os mais afoitos, 100% das ocorrências, porque não há memória de algum fogo não se ter apagado).

O problema é que 1% das ocorrências dão origem a 90% dos problemas, é o 1% das ocorrências que dão origem aos grandes fogos, aqueles em que o nosso sistema de protecção civil colapsa.

Quase se poderia dizer o SIRESP é simplesmente uma metáfora do nosso sistema de gestão do fogo: tirando o 1% das situações extremas em que realmente era muito importante que não falhasse, é um sistema excelente.

O problema não é um ministro ou os responsáveis da protecção civil serem estes ou outros (há uns melhores que outros, claro, mas não é a questão essencial), o problema é uma doutrina de gestão do fogo que, quaisquer que sejam os responsáveis, não pode dar outro resultado que não este.

Para os que se convencem melhor com coisas escritas em estrangeiro, o que não faltam são parágrafos como este: "In response to the 2013 forest fires in Slave Lake, Alberta, a report by a review committee submitted to the Alberta Minister of Environment and Sustainable Resource Development warned that there was an increased risk of catastrophic fires in Alberta’s boreal forest, in part because a large proportion of forests are mature and over-mature as a result of fire suppression".

Foi tirado de um pequeno sub-capítulo ("The Legacy of Aggressive Fire Suppression") do documento de política que formaliza o abandono da política de supressão agressiva do fogo no Ontário. Escolhi-o por o ter à mão e por ser relativamente recente, mas há dezenas de documentos a dizer a mesma coisa, em vários países do mundo, quer em documentos de política, quer em documentos científicos, incluindo em Portugal.

E, no entanto, a larga maioria dos decisores portugueses, deputados, ministros, altos quadros da administração, continuam a achar normal as afirmações que transcrevi no primeiro parágrafo, que eles próprios fariam se fossem a Ministra da Administração Interna.

Porque a larga maioria das pessoas pensam assim e por que a larga maioria dos intermediários profissionais de comunicação pensam também assim e não estão preparados para perguntar à senhora Ministra (esta, ou outra): para que serve então um sistema de protecção civil que é muito bom para "viver habitualmente" e colapsa nas situações excepcionais?

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Responsabilizar os proprietários

por henrique pereira dos santos, em 26.07.17

Recentemente, numa pequena conversa para que me convidaram, sobre fogos, voltei a dizer (eu repito-me muito, em especial nesta matéria) que me parecia que a questão do cadastro, sendo relevante para muitas outras coisas, era uma falsa questão para a gestão do fogo.

Como de costume argumentei que não é porque não se sabe quem é o proprietário que não se cria riqueza, e portanto não se ganha gestão, é exactamente porque não se cria riqueza a partir de um terreno que ele deixa de ter gestão e dono, sendo irrelevante mudar de dono se não se mudar a circunstância da ausência de interesse económico.

A resposta habitual surgiu nessa conversa, mas é recorrente: o cadastro é fundamental para responsabilizar os donos dos terrenos.

É um argumento que vale a pena avaliar com atenção.

Como comentário prévio, refira-se que a Sertã não tem cadastro e Mação tem o cadastro completo (de acordo com informação de João Adrião, que não confirmei mas em que confio) e isso não faz a menor diferença no fogo que por lá anda há dias.

Quando se fala em responsabilizar os proprietários, fala-se de que responsabilidade?

Imaginemos que eu tenho um terreno num leito de cheia. Imaginemos que o meu vizinho constrói a sua casa no mesmo leito de cheia, mas um pouco mais recuada em relação ao rio. Passa pela cabeça de alguém responsabilizar-me a mim por não ter o meu terreno em condições de impedir que a cheia chegue ao terreno do meu vizinho? Claro que não.

Mas em relação ao fogo parte-se do princípio de que eu sou responsável pelo fogo ter chegado ao meu vizinho, no caso de não ter limpo o terreno (é certo que se o fogo entrar de copas, mesmo tendo eu limpo o terreno, ele chega ao meu vizinho, mas não compliquemos o argumento).

As normas de defesa da floresta contra incêndios determinam que os terrenos devem ser limpos num raio de 50 metros à volta das casas, atribuindo essa responsabilidade aos donos dos terrenos, sem cuidar que se trata da defesa da casa em relação aos fogos que chegam da floresta, e não da defesa da floresta contra os incêndios.

Isto é, o beneficiário da limpeza dos terrenos é o dono da casa, que até a pode ter construído depois de eu lá ter o meu terreno mas o custo de gestão é-me atribuído a mim.

A defesa da floresta contra incêndios institucionaliza o velho princípio de que "uns comem os figos, aos outros rebenta-lhes a boca", mas sendo esse princípio profundamente injusto, a justiça, naturalmente, não se consegue obter pela aplicação da lei e, consequentemente, a lei é pouco aplicada.

A minha sugestão é simples: esqueça-se o argumento da responsabilidade dos proprietários (as segundas maiores vítimas do regime de fogos que temos, logo depois dos bombeiros), e institucionalize-se na lei o que é de justiça: os beneficiários que paguem os benefícios de que precisam.

Dito de outra maneira, pague a sociedade aos donos dos terrenos o que entende ser justo para ter o benefício de um regime de fogos socialmente úteis e a probabilidade de se ir fazendo o que é preciso aumenta exponencialmente.

Tem uma casa? Quer protegê-la do risco de fogo? Limpe, ou pague a limpeza dos vinte metros que a rodeiam (não são precisos 50), faça a limpeza coercivamente se quiser e o dono do terreno que se queixe dos prejuízos ao tribunal, se achar que eles existem.

Acha que ter eucaliptos é um crime incendiário que merece o fogo eterno do proprietário? Muito bem, pague ao proprietário os custos de gestão para obter um belo carvalhal, ou um rebanho, ou uma zona de caça, ou a extracção de resina, seja o que for que entender que pague uma gestão que acha melhor para si e para a sociedade.

Para mim, responsabilizar os proprietários tem um significado diferente daquele que está na lei: é responsabilizar os proprietários (e, já agora, os consumidores e contribuintes) pelo pagamento dos benefícios de que precisam, em vez de se pretender que uns tenham os benefícios e os outros que os paguem.

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Carvalhal de Reboredo

por henrique pereira dos santos, em 25.07.17

carvalhal de Reboredo 2003.jpg

Carvalhal de Reboredo, em 2003 (a fotografia é de Paulo Fernandes).
Desde essa altura, o carvalhal terá continuado a evoluir e amadurecer até 2017.
Em 2017, em grande parte (dizem-me que sensivelmente metade), ardeu no fogo de Moncorvo.
Para o carvalhal é um acidente pouco importante, vai com certeza recuperar rapidamente.
Para a discussão sobre fogos deste ano, muito centrada nas espécies que ardem ou não, é uma boa demonstração da ociosidade dessa discussão.
Sobretudo se comparada com a discussão, essa sim, útil, sobre que medidas de gestão do carvalhal poderiam ter sido adoptadas, não para evitar que arda (pretende-lo seria estultícia) mas para o preparar melhor para o pós fogo, para o preparar para uma recuperação mais rápida e mais orientada para a criação de um carvalhal maduro, umbroso e biodiverso.
E, de caminho, como usar as oportunidades de combate que seriam criadas com essa gestão.

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António Louro

por henrique pereira dos santos, em 25.07.17

Conheci António Louro há uns anos quando comentou uns posts sobre fogos no blog Ambio.

Eu disse uns disparates, António Louro corrigiu, eu argumentei, as contra-respostas eram sólidas e consistentes e, como habitualmente faço, disse que mais valia discutir o assunto no terreno. Marcámos uma visita e andei por Mação um dia inteiro, guiado por António Louro, demonstrando que o que dizia estava mais certo que o que eu pensava.

Depois fomos tendo contactos esporádicos por mail ou outros meios virtuais, sobretudo por causa de fogos e gestão florestal, mas também porque Mação tinha um projecto de "transporte a pedido" que eu gostaria de conhecer melhor e saber os resultados. Os contactos foram tão esporádicos que cheguei ao ponto de passar a vergonha de o encontrar numa ocasião social sobre gestão florestal e fogos e não o ter reconhecido (em minha defesa tenho a minha péssima memória que me faz trocar e esquecer os nomes dos meus filhos, mas poucas vezes me senti tão envergonhado por não reconhecer uma pessoa que evidentemente tinha obrigação de conhecer e por quem tenho um manifesto respeito).

Ultimamente, a frequência das suas intervenções públicas por causa dos fogos e da gestão florestal - para além de Vice-Presidente da Câmara de Mação, é Presidente do Fórum Florestal - permitiu que confirmasse a solidez do que diz e o raro bom senso do que vai dizendo sobre fogos (e isso é independente de eventuais diferenças de pontos de vista num ou noutro aspecto).

Noto particularmente uma intervenção sua, penso que no Expresso da Meia-Noite, em que o elogio do jornalista ia no sentido de dizer que desde que a Câmara de Mação tinha aprendido com as lições de 2003 e adoptado uma série de procedimentos alternativos, não ardia grande coisa em Mação.

Em vez da atitude habitual de um político, que seria confirmar a bondade da sua acção política, atribuindo-se a si próprio os méritos pelos resultados em Mação, António Louro foi claríssimo a responder que era uma questão de tempo até voltar a ter grandes fogos em Mação. Aconteceu logo no dia seguinte ao programa em causa, mas sobretudo ontem e hoje.

O que me parece relevante é o que aparentemente (não tenho informação mais sólida que a dos jornais, o que não me deixa seguro) está descrito nesta peça: uma clara noção de riscos, uma clara noção de prioridades e uma organização preparada para não pôr pessoas em risco de vida.

É tão raro ouvir um Presidente de Câmara ser tão lúcido como neste parágrafo: "“Não há combate nem estratégia que valha durante a noite, com este vento que se fez e faz sentir. A nossa principal preocupação é proteger e salvar pessoas e bens”, disse Vasco Estrela" que achei por bem assinalar que há exemplos que demonstram que trabalhar com bases sólidas parece ser bem mais útil que a habitual fanfarronice dos meios, dos teatros de operações, das projecções das equipas em triangulação e outros narizes de cera habituais.

Obrigado, António Louro.

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E se?

por henrique pereira dos santos, em 18.07.17

Tenho visto muita gente decretar a morte política de Passos Coelho, e para a generalidade da imprensa pelo menos desde 2013 que Passos Coelho é um cadáver político.

Uns dizem que vai perder as eleições autárquicas e eventualmente demitir-se, abrindo as portas à renovação da direita.

Outros acham que se arrastará penosamente até às legislativas de 2019, que perderá fragorosamente, obrigando à sua demissão e consequente renovação da direita.

Outros, como Nuno Garoupa, estão sempre a demonstrar, matematicamente, que a direita ficará muito, muito tempo na oposição, se Passos Coelho não desamparar a loja.

E se Passos Coelho estiver de acordo com a ideia de que a direita vai ficar muito tempo na oposição e não achar que isso seja um problema de maior?

E se Passos Coelho entender que tem melhores políticas para o país que a actual maioria, mas serenamente aceitar que só são aplicáveis quando as pessoas quiserem, preferindo esperar que tenha condições para aplicar essas políticas a adaptar as políticas às necessidades eleitorais?

E se Passos Coelho entender que as eleições são o mero instrumento de escolha das políticas, e não um fim sem si mesmo?

E se Passos Coelho estiver disponível para esperar uma, duas, três legislaturas para poder ter a legitimidade política e a força eleitoral para aplicar políticas que sabe que serão rejeitadas no curto prazo mas que está convencido de que são aquelas de que o país precisa?

Eu sei a resposta a todas estas perguntas: o partido nunca aceitará estar tanto tempo na oposição.

Só que essa resposta implica que alguém ganhe o partido a Passos Coelho, não porque ele se foi embora, mas porque ganhou eleições internas contra Passos Coelho.

Eu não poria dinheiro meu nessa hipótese, se tivesse que apostar.

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Controlo passivo de combustíveis

por henrique pereira dos santos, em 17.07.17

Espero, com este post, fechar um conjunto de posts sobre o mito da estreita relação entre fogos e espécies.

O que tenho vindo a escrever, insistentemente, é que o essencial são os combustíveis finos, que se relacionam mais com os modelos de gestão que com as espécies arbóreas que dominam o povoamento.

Para além de acusações sobre a forma desonesta como estou a defender os eucaliptos e os interesses das celuloses (o tipo de argumento de quem não tem grandes argumentos), há um comentário recorrente que se prende com os benefícios para a gestão do fogo que haveria se tivéssemos uma muito maior área de carvalhais adultos.

O argumento tem uma parte em que está certo e é razoável: os povoamentos maduros das nossas folhosas, quando suficientemente densos, criam um ensombramento profundo que limita o crescimento dos matos e dos outros combustíveis finos que alimentam as frentes de fogo.

Ao contrário dos modelos de gestão sobre que tenho escrito, não se trata de uma gestão activa destes combustíveis finos (por corte, fogo ou gado) mas sim da criação de condições para que o crescimento dos matos seja muito limitado pelo ensombramento, sem que seja preciso fazer o seu controlo activo: nessas circunstâncias a ausência de gestão não tem o efeito de aumentar o risco de incêndio.

É aliás a este ponto, em que não precisamos de gerir para obter o que procuramos (biodiversidade, amenidade, qualidade paisagística, diversidade económica potencial, etc.) que procuramos chegar na gestão dos terrenos que estão sob gestão da associação de conservação a que pertenço.

Há portanto vantagem, do ponto de vista da gestão do fogo, em aumentar a área de povoamentos densos de folhosas maduras.

Se assim é, por que razão não se faz um grande esforço nacional para ter esses povoamentos e resolver de vez o problema dos fogos?

Em primeiro lugar sabemos pouco como se comportam estes povoamentos quando o fogo entra de copas, isto é, quando a progressão do fogo não se faz pela transmissão da chama através dos combustíveis finos junto ao solo, mas sim pela transmissão da chama copa a copa. É provável, quer pela história natural que temos, quer pelos exemplos da Califórnea, que este povoamentos ardam também, em condições meteorológicas extremas, quando o fogo entra de copas.

Apesar de tudo seria uma situação bem mais fácil de gerir que a actual (não o fogo de copas que esteja a ocorrer, mas a sua fragmentação à escala da paisagem).

O problema é que entre o momento em que se decide ter um carvalhal maduro e o momento em que ele realmente atinge as características citadas no início (uma sombra profunda e contínua), podem passar muitos anos, dificilmente menos de vinte, nas situações mais favoráveis, seguramente acima de trinta, na grande maioria das situações.

E durante esses muitos anos, um carvalhal é tão susceptível ao fogo como os matos altos, pelo que não vale a pena discutir qualquer solução de aumento da área de carvalhal (que está a ocorrer naturalmente, em paralelo com o padrão de fogo que temos, mas demorando muito tempo a chegar ao ponto em que o carvalhal pode ser útil no controlo de matos e outros combustíveis finos) sem discutir como se gere a transição entre a situação actual e a situação desejável: que gestão é necessária para encurtar o tempo até se atingir o objectivo, quanto custa, quem paga, quando, de que maneira, a quem? e por aí fora, como se faz em qualquer projecto de investimento.

A experiência que tenho é a de que são precisos muitos recursos (António Giestas, um proprietário de Vouzela, tem uma gestão exemplar orientada para este objectivo: há trinta anos que mantém consistentemente esta linha de orientação, financiada por si próprio, não pelo retorno que lhe é dado pelo carvalhal, está numa das zonas mais favoráveis a esta opção, mas ao fim de trinta anos, tem menos de 30 hectares de carvalhal) para que seja possível reduzir de forma consistente o tempo que o carvalhal demorará a chegar a um ponto de "não gestão" aceitável, sem que exista grande contrapartida em retorno financeiro do investimento.

Ou seja, sim, é bom que haja uma área maior de carvalhal maduro para nos ajudar a gerir o fogo, não, não é uma solução nem imediata, nem fácil, nem generalizável.

E não, não basta querer, é condição sine qua non querer, mas não é condição suficiente, é mesmo preciso saber onde ir buscar os recursos para isso, sabendo que não há, nem pode haver, recursos suficientes para que esta opção jogue um papel relevante na gestão do fogo nos próximos trinta ou quarenta anos, com excepção de situações pontuais e, mesmo nessas, que não dispensam uma gestão atenta aos resultados e que saiba fugir das ideias feitas sobre o assunto, para evitar gastar recursos à procura de milagres que, provavelmente, não acontecerão.

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O mito da relação entre espécies de árvores e fogos

por henrique pereira dos santos, em 16.07.17

A longa história dos fogos rurais, tal como os conhecemos hoje, começa por meados dos anos 50 do século XX quando se dá início a uma grande migração no mundo rural português.

Esta migração, deixando os campos ao abandono e, sobretudo, desvalorizando totalmente as pastagens pobres (o que foi potenciado pela introdução dos adubos industrais), é a raiz da alteração do padrão de fogo que existia - fogos muito frequentes, mas em mosaico e pouco severos - para o padrão que hoje existe - fogos menos frequentes, mas muito mais extensos e severos.

Esta relação entre as alterações económicas e sociais dessa altura, e o crescente problema dos fogos, que se manifesta mais ou menos a partir de meados dos anos 70 do século XX (um desfasamento temporal que se compreende facilmente que exista dado que os efeitos do abandono não são imediatos), só muito mais tarde foi compreendida e, ainda hoje, é dificilmente aceite, mesmo por parte dos que compreendem a racionalidade da explicação - e a sua evidência empírica - mas que acabam por dar mais peso a outros factores nas explicações que procuram para a dimensão do problema em Portugal.

Um dos primeiros grandes fogos, o fogo de Macinhata do Vouga, em 1972 (se não me engano), determina o fim do comboio a vapor no vale do Vouga, porque foi esse o bode expiatório.

Em 1975, as responsabilidades foram atribuídas à política de terra queimada do Partido Comunista, pelos seus adversários, ou ao boicote ao Processo Revolucionário Em Curso, pelos da outra barricada, mas em qualquer caso a moda desse anos era justificar politicamente os fogos.

Mais tarde eram os madeireiros, porque assim compravam a mandeira mais barata, esquecendo-se, grande parte das pessoas, que se eu queimar a casa do meu vizinho é natural que a compre por um preço mais baixo, mas porque a cada passa a valer menos depois de ardida, não ganhando eu grande coisa em comprar a casa mais barata.

Depois veio a moda dos meios de combate, que acabou quando já era difícil equipar mais os bombeiros.

Mais tarde a moda era atribuir a responsabilidades ao negócio do fogo, em especial ao chorudo negócio das horas dos meios aéreos, o que teve com consequência o Estado comprar uns Kamovs e fazer uma empresa de meios aéreos, tendo-se verificado a circunstância clássica de que quando se atira dinheiro para cima de um problema, uma das duas coisas desaparece, mas raramente é o problema.

Depois eram as ignições e os incendiários, já sem justificação específica, esquecendo-se muita gente de olhar para os números e verificar que 80% das ignições são num raio de 2 quilómetros à volta das aldeias e que 1% das ignições são responsáveis por 80 a 90% da área ardida.

Este ano a moda são os eucaliptos e as árvores bombeiras, uma funesta ideia, na opinião do homem que inventou o termo, numa brincadeira no Facebook para falar de situações muito específicas em que o fogo se auto-extingue. Perdeu-se completamente o controlo da expressão, que entrou rapidamente no jargão do pensamento mágico que domina grande parte das conversas sobre fogos.

Esta fotografia notável, de Paulo Novais/ Lusa, é um bom exemplo de como ter esta ou aquela espécie à volta do que quer que seja, conta muito pouco como instrumento de defesa contra incêndios:

incêndio.jpg

Esta outra, em que se vêem uns eucaliptos em primeiro plano, é muito clara sobre a forma como pode arder um sobreiral, que é o que está a arder ao fundo, em Monchique.

sobreiral a arder monchique.jpg

E esta outra, mostra como arde um carvalho isolado, em algumas circunstâncias

carvalhos ardidos 2.jpg

Estranhamente, para mim, o facto de se dizer o que está dito acima é interpretado, por pessoas conhecedoras e com informação, como estando a dizer-se que "as espécies ardem todas da mesma maneira". 

Mas não, não se está a dizer isso, nem está correcto dizer-se que arde tudo igual, quer na quantidade de combustível disponível em diferentes povoamentos, quer na velocidade do fogo em diferentes povoamentos, quer nas projecções de fogos que incêndios especialmente violentos provocam (as famosas bolas de fogo que alguns interpretam como a demonstração de que são fogos postos, mas que apenas demonstram que quem pensa assim sabe pouco do que está a falar), em que, por exemplo, o eucalipto bate largamente a concorrência na distância a que lança projecções (chegando quase dez vezes mais longe que outras espécies).

A questão é outra: em condições meteorológicas extremas essas diferenças inerentes às diferentes espécies ficam muito esbatidas, porque todas ardem muito bem e, muito mais importante, o peso dessas diferenças na forma como o fogo evolui é incomparavelmente menor que o peso da estrutura de combustíveis finos presentes (matos e folhadas), que depende muito mais do modelo de gestão que da espécie arbórea dominante.

A asneira, agora frequente, de que há umas árvores bombeiras que podem proteger as casas não teria importância de maior - o direito à asneira é sagrado - não se desse o caso de haver a possibilidade de alguém acreditar nessa mezinha, cujo nível de eficácia é semelhante ao das rezas do professor Karamba, e desatar a pôr umas árvores à volta de casa, criando uma falsa sensação de segurança que diminui o incentivo para que faça o que deve ser feito: uma gestão adequada dos combustíveis finos (matos, ervas e folhagem) do espaço envolvente da casa, seja qual for a espécie que lhe fica mais próxima.

Para além desta nova moda servir, como serviram as modas anteriores, para nos desviarmos do essencial: 1) aumentar a capacidade de auto-protecção ao nível de cada aglomerado; 2) integrar prevenção e combate aos fogos; 3) pagar o preço justo pelos serviços ambientais que algumas economias e opções de gestão nos prestam a todos e que hoje ninguém paga.

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O inquérito já foi aberto?

por henrique pereira dos santos, em 16.07.17

Estou aqui com uma dúvida: um agente político faz declarações de grande impacto público susceptíveis de influenciar o valor das acções de empresas cotadas em bolsa.

A CMVM já abriu um inquérito para investigar quer a fundamentação, quer os efeitos e eventuais beneficiários dessas declarações de maneira a excluir a hipótese de se tratar de uma manobra de manipulação das cotações em bolsa com base em informação privilegiada?

A bolsa é um assunto sério e seria muito mau sinal que fosse a CMVM a dar cobertura a actuações destas, desvalorizando-as como se não se passasse nada.

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Mas e os carvalhos, os castanheiros, os sobreiros e as nogueiras?

por henrique pereira dos santos, em 14.07.17

Com frequência me dizem: já percebi os seus argumentos, mas afinal que floresta devemos ter no país?

Confesso que apesar da frequência da pergunta, estranho-a sempre.

Para mim é o mesmo que me perguntarem que tipo de sapatos devemos fabricar, ou que culturas devemos ter no país, ou que teatro, ou outra coisa qualquer.

Depois procuro responder seriamente: não sei, não faço ideia e, na verdade, não me parece que valha muito a pena perder tempo a pensar nisso porque independentemente do que cada um de nós pense que deveria ser a floresta do país, ela continuará o seu caminho, indiferente aos nossos desejos.

Nós teremos a floresta que os donos dos terrenos quiserem e os donos dos terrenos farão a floresta que acharem melhor, em cada momento, para os objectivos que têm e com os incentivos económicos que existam (sejam eles de mercado, como os preços dos produtos e serviços ou a vontade dos consumidores, sejam eles incentivos criados pelo Estado).

Tomemos o meu exemplo.

Tenho algures um terreno talvez entre dois e três hectares (nunca tive curiosidade em saber) que em tempos recuados terá sido terra de cultura (quando o conheci já não era), foi um pinhal que lentamente foi evoluindo para um eucaliptal, com umas plantações feitas pelo meu pai, sobretudo para marcar as estremas, com uma espécie esquisita de eucalipto, numa altura em que pouca gente plantava eucaliptos (o meu pai chegou a produzir amendoim na Beira Alta, não era, portanto, representativo do padrão).

Desde que me lembro, eu diria, há pouco mais de quarenta anos, o meu pai sempre foi acarinhando os carvalhos, mesmo quando cedia o mato para a cama do gado, mas um proprietário ausente, mesmo quando interessado, acaba por ter menos influência do que se pensa na gestão dos seus terrenos.

O terreno arde periodicamente, nós (eu só sou dono de um nono) fazemos um corte de eucalipto entre cada fogo, agora estão umas acácias a entrar com mais força no terreno (o estranho é não ter acontecido mais cedo e lá me entretenho eu a descascá-las, se são grandes, ou a arrancá-las, se são pequenas, quando calha), fazemos um corte de matos uns anos depois de cada fogo e fazemos alguma selecção de varolas de eucaliptos.

Os carvalhos, castanheiros, sobreiros que aparecerem são bem vindos e acarinhados, o princípio é aquilo não consumir grande dinheiro em gestão, mas ninguém espera que aquilo dê nada.

É portanto uma floresta mista de eucalipto e pinheiro, com bastante regeneração de carvalho roble e sobreiro e uma carga combustível razoável, embora não das piores.

À volta da propriedade há umas propriedades que não têm qualquer gestão e estão a ser progressivamente invadidas de acácias, há muitos anos. Hoje poderemos classificá-las como acacial. Os donos não têm objectivos para o terreno. Há outras propriedades que têm maior intensidade de gestão, isto é, os donos querem optimizar o rendimento, e são portanto eucaliptais mais ou menos monoespecíficos (naquela região nada é monoespecífico, em bom rigor).

Ora a floresta que teremos, naquele bocadinho, será a que resultar dos objectivos de cada proprietário, em função dos estímulos externos: o preço das diferentes madeiras, o peso que o rendimento do terreno tem (ou pode ter) no conjunto dos rendimentos do proprietário, os usos alternativos possíveis que possam remunerar uma compra de terreno por outras pessoas e muitos, muitos outros factores.

Algumas pessoas argumentam que isto não pode ser, que isso é um risco para toda a sociedade.

Admitindo o argumento (e ele não é linear), vamos admitir que a sociedade tem o direito de se defender e impôr aos proprietários uma gestão que seja optimizada socialmente.

Então, volta a pergunta, o que devemos fazer, ou melhor, que floresta devemos ter?

Se o meu terreno fosse um carvalhal maduro, de copado denso, criando o ensombramento necessário para que o mato não cresça muito, seria socialmente mais interessante, neste caso em que nem eu, nem os meus irmãos, nos oporíamos a isso. Desde que não fôssemos nós a pagar a gestão para lá chegar. Não há problema se não houver rendimento, mas não nos peçam para pegar no dinheiro que nos faz falta para educar aos filhos, acudir às aflições ou ir à opera ou ao futebol, para o enterrar num suposto bem comum que os beneficiários não querem pagar, nem directamente envolvendo-se numa qualquer organização que queira fazer a gestão da propriedade (a associação a que pertenço não o pode fazer porque estatutariamente não pode haver acordos desses com membros dos orgãos sociais), nem através de novos impostos.

E, na verdade, apesar do carinho do meu pai, e depois meu, pelos carvalhos e sobreiros que vão aparecendo, ainda vai demorar muitos anos a chegar ao tal carvalhal maduro. Ou então, são precisos recursos para encurtar o tempo e, mesmo assim, apesar da elevada produtividade primária da região, ainda demoraria uns vinte ou trinta anos a dar qualquer resultado do ponto de vista da gestão do fogo.

Os meus vizinhos que hoje não sabem sequer o estado em que estão as suas propriedades, e que as venderiam de bom grado, não têm quem as compre porque o rendimento esperado e o risco de incêndio inibem potenciais investidores.

E os meus vizinhos que estão concentrados no rendimento, são os que na verdade têm as suas terras com menor risco de incêndio, mas o rendimento não é de tal maneira que se entusiasmem a comprar mais uns tapados, até porque sabem bem que aquilo só dá porque não fazem contas ao tempo que gastam no monte.

Eu faço parte de uma associação que compra, ou gere por acordo, terrenos marginais para reconstruir neles carvalhais e mosaicos, mas também nós temos a nossa acção limitada pelos recursos que somos capazes de mobilizar.

A floresta que devemos ter é pois uma discussão que não interessa nada, o que interessa é saber o que devo eu fazer, no mercado, na sociedade civil, no Estado central e no Estado local para optimizar socialmente a gestão.

No mercado é seguramente aumentar a eficiência e criar valor, porque essa é a condição base para que o mercado traga gestão para o mundo rural. Isso não se faz com a kafkiana lista de obrigações legais dos proprietários florestais, que só não tem piores efeitos porque os únicos que ligam alguma coisa à legislação são os da certificação florestal, visto que cumprir a lei é o primeiro requisito da certificação. Os outros, saudavelmente, estão-se nas tintas para a legislação florestal, e fazem muito bem.

Na sociedade civil é concentrar esforços naquilo que nos parece útil (no nosso caso, criar matas adultas e mosaicos biodiversos), fazendo, avaliando, demonstrando e replicando. Quem passa uma noite no nosso carvalhal tem mais vontade de contribuir voluntariamente para que o façamos amadurecer e expandir-se, mas demora tempo a ter resultados visiveis e com algum significado. Para já o que temos são resultados mais simbólicos que outra coisa qualquer, mas que mesmo assim valem a pena.

No Estado central, o melhor é adoptar o mínimo de medidas: 1) proibir taxativamente o Estado de recorrer a outros fundos que não os do Orçamento do Estado para a sua actividade, libertando os fundos autónomos, nacionais (como o Fundo Florestal Permanente ou o Fundo Ambiental) para o financiamento da gestão concreta por parte dos operadores económicos e sociais, em vez do Estado os capturar, como faz actualmente; 2) aumentar o peso da produção de serviços de ecossistema no financiamento do mundo rural, mesmo que isso signifique cortar nos fundos para a produção; 3) e não complicar, pelo contrário, reactivar os serviços de proximidade que em tempos se chamaram de extensão rural, para apoiar tecnicamente os produtores, em vez de ter formulários de candidatura absurdamente complicados, ou regras e planos, mais planinhos e planetes que não servem para nada.

No Estado local, basta que estejam quietos e deixem de sistematicamente defender os interesses das suas corporações de bombeiros, para passar a defender o bem comum, que nem sempre coincidem.

É o que consigo dizer sobre os carvalhos, os castanheiros, os sobreiros, as nogueiras e etc.: são bons, são úteis, mas quem os quiser, que faça por isso, em vez de mandar os outros fazer.

A verdade é que há muitos e muitos proprietários absolutamente disponiveis para ceder a terceiros a gestão dos seus terrenos, sem outra contrapartida para além de saberem que estão a contribuir para o bem comum, com uns magníficos carvalhais maduros (daqui a trinta anos, se forem geridos de forma constante, pode ser uma gestão de baixa intensidade, mas tem de ser constante).

Assim haja terceiros com recursos para isso e em que os proprietários confiem, o que seguramente não inclui o Estado: porque não tem recursos e porque não é de confiança.

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Uma imprensa inútil para os leitores, mas muito útil para o poder

por henrique pereira dos santos, em 14.07.17

“Receio bastante que a forma irresponsável como foi feita aquela privatização [pelo anterior Governo PSD/CDS-PP] possa dar origem a um novo caso Cimpor..."

A frase é de António Costa, mas o acrescento entre parêntesis é de jornalistas e espelha a ideia que a generalidade da imprensa tem e propagandeia do que foi dito por António Costa.

O problema é que o governo anterior não privatizou a PT, quem privatizou a PT foram vários governos, ao longo do tempo, sendo na grande maioria desse tempo governos de que António Costa fazia parte ou, pelo menos, apoiava notoriamente.

A única coisa que o governo anterior fez foi vender uma golden share, por imposição de um memorando de entendimento subscrito por Sócrates, golden share essa cuja única utilidade, aparentemente, foi ter permitido a algumas pessoas, notoriamente apoiadas por António Costa, meter uns milhões ao bolso em luvas através da venda do poder conferido ao Estado pela golden share.

Agora imaginem que em vez de António Costa era Passos Coelho a dizer uma coisa destas sobre estes factos e percebemos bem a disfunção real que existe na nossa democracia: não, o problema não é a disfuncionalidade dos partidos (que existe) o problema central é mesmo a disfuncionalidade da imprensa.

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