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Há coisas intrigantes

por henrique pereira dos santos, em 22.04.17

Durante todo o governo anterior, a oposição foi acusando Passos Coelho de só se preocupar em resolver os problemas dos especuladores e dos bancos, esquecendo as pessoas.

Agora que a então oposição passou a situação, Passos Coelho é acusado de não ter apoiado os bancos e, com isso, ter posto em causa a estabilidade do sistema financeiro, ao contrário do governo actual que está a resolver os problemas do sistema financeiro, como lhe compete, com o dinheiro das pessoas que antes eram esquecidas.

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Curiosidades

por henrique pereira dos santos, em 20.04.17

Vejo muita gente muito espantada porque entre os que não querem vacinar os filhos, ou que são adeptos da homeopatia e medicinas alternativas e outras coisas que tais, estão muitas pessoas qualificadas e com elevados níveis de formação.

Confesso que não percebo a admiração: o Bloco de Esquerda tem centenas de académicos, professores universitários, jornalistas e outros quadros entre os seus militantes e votantes e o que propõem como modelo de organização e soluções económicas está essencialmente ao nível da homeopatia social e económica.

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Concursos, dizem eles

por henrique pereira dos santos, em 20.04.17

A Wilder é uma revista digital interessante para naturalistas. E foi ali que fui encontrar a notícia de que estariam abertos os concursos para recuperar matas no Parque da Peneda-Gerês.

Uma notícia destas interessar-me-ia sempre, quer por curiosidade intelectual, quer porque sendo presidente de uma pequena associação de conservação estou sempre à procura de oportunidades para a fazer crescer.

É claro que vou conhecendo o meu país e sei bem como funcionam estas coisas, por isso fui verificar a informação.

Como seria de prever, trata-se de um concurso para o qual é convidado um único concorrente a apresentar uma candidatura, por sinal um organismo do Estado e o organismo do Estado que participou na definição do caderno de encargos do concurso.

Na prática trata-se de pôr os fundos comunitários a financiar directamente o Estado através de um processo fictício de concursos e candidaturas, num procedimento desenhado pelo governo anterior e prosseguido pelo actual: em matéria de financiamento do Estado fora dos processos normais há um grande consenso entre as forças políticas em Portugal.

Este é só um pequeno exemplo do POSEUR, no resto dos fundos disponíveis é essencialmente igual.

Quanto ao que estes fundos poderiam fazer se aplicados directamente a pagar os serviços de ecossistemas produzidos pelos agentes económicos e sociais que são responsáveis pela gestão do território, em vez de aplicados a disfarçar as ineficiências do Estado, fica para outro dia escrever sobre o assunto.

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Os dirigentes do Novo Tempo

por henrique pereira dos santos, em 17.04.17

No fim do cavaquismo, Guterres, num debate, anuncia que se ganhar as eleições os dirigentes da administração pública passarão a ser escolhidos por concurso, com o objectivo de despartidarizar a administração.

Quando ganha as eleições, em vez de simplesmente tornar regra a exepção da lei que permitia a escolha por concurso, lança um moroso e complicado processo de negociação com os sindicatos para produzir uma lei que regule os concursos para dirigentes da função pública (no entretanto, sei-o por experiência própria, os dirigentes de topo foram proibidos de recrutar usando a excepção prevista na lei e que permitia o concurso).

Naturalmente a lei ficou tão complicada, e tão cheia de buracos, que a nomeação de dirigentes em substituição passou a ser a regra, enquanto os concursos duravam meses, quando não anos, isto, naturalmente, no caso de serem lançados, o que nem sempre acontecia. A lei previa que estas substituições só podiam durar seis meses, mas logo a direcção geral da administração pública (não me lembro do nome exacto) fez uma interpretação a explicar que as instituições não poderiam ter um vazio de poder, portanto a substituição era por seis meses, mas enquanto não houvesse substituto as pessoas deveriam manter-se nos cargos.

Muitos anos depois, Passos Coelho resolveu mudar a lei, e inventou uma comissão especial (a CRESAP) para a presidência da qual Seguro indicou um louco convencido de que seria o king maker de Portugal, João Bilhim.

O resultado eram uns concursos folclóricos que resultavam, geralmente (na ordem dos 80%) na nomeação de quem já ocupava o cargo. Reclamações só para os tribunais (ou melhor, para se reclamar do júri presidido por João Bilhim, escrevia-se ao presidente da CRESAP, João Bilhim, que avaliava as decisões do júri cujo presidente eram João Bilhim, e portanto João Bilhim perguntava a João Bilhim se tinha cumprido a lei, ao que João Bilhim respondia a João Bilhim que sim, e estava o assunto arrumado).

Tirando o PCP, que sempre defendeu as nomeações políticas (entre 1917 e 1920 a discussão entre se deveria ser o mérito ou a fidelidade política que deveria prevalecer nas nomeações era uma das discussõe recorrentes entre Trotsky e o aparelho do PCUS, nas mãos de Estaline, tendo prevalecido a confiança política), todos os outros achavam um escândalo as nomeações do governo anterior.

O governo actual nem sequer tem qualquer interesse em esconder que embora a lei o obrigue a concursos para os dirigentes da administração, a nomeação política é prevalecente, ao ponto de uma vice-presidente de um instituto (por concurso, martelado, mas um concurso) ser demitida para imprimir uma nova orientação aos serviços (a justificação clássica) mas imediatamente ser nomeada outra vez para a direcção do referido instituto, mas agora em substituição, suponho que de si própria.

E, no entanto, ninguem parece preocupado com a partidarização da administração pública, que tem existido sempre, com todos os governos, embora com uns mais que outros.

É o Novo Tempo, a lei é um mero pormenor sem grande interesse nem, sobretudo, utilidade: para quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.

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Da subserviência

por henrique pereira dos santos, em 16.04.17

1) Quem, de chapéu na mão, foi pedir ajuda a Bruxelas foi um governo apoiado pelo actual primeiro ministro;

2) Quem conseguiu renegociar prazos e juros foi o governo criticado pelo actual primeiro ministro pela sua suposta subserviência a Bruxelas;

3) Até agora não me lembro do actual governo ter conseguido renegociar nada, não me lembro de nenhum resultado concreto de alívio de prazos, montantes ou juros de empréstimos, do que me lembro é de um governo que acatou as instruções para mudar todo um orçamento de Estado e que na sua execução foi mesmo, orgulhosamente, para além da troica em matéria de défice, para demonstrar, como foi dito pelo actual ministro das finanças, que Portugal tenciona cumprir religiosamente todas as regras.

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Espinha de gelatina

por henrique pereira dos santos, em 13.04.17

O spin do governo tenta conter os danos provocados pelas afirmações indignas de primeiro ministro, tendo até agora conseguido que a imprensa ache que a notícia é o facto das declarações terem indignado a oposição, e não que a notícia é termos um primeiro ministro indigno.

A posição dos apoiantes do governo é que as declarações não podem ser lidas literalmente, são uma figura de estilo que toda a gente compreendeu, acho até que dão como exemplo, para ilustrar este tipo de declarações metafóricas, a hipótese de um ministro de um país pretender falar das responsabilidades dos devedores na demonstração de que estão a fazer esforços para cumprir as suas responsabilidades, dizendo que não se pode continuar a pedir dinheiro emprestado para o continuar a gastar em copos e mulheres.

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De joelhos

por henrique pereira dos santos, em 12.04.17

"Infelizmente todos estamos recordados de quando os representantes do governo português entravam no eurogrupo português se ajoelhavam para falar com os colegas".

António Costa refere-se às famosas imagens de Vítor Gaspar debruçado para falar com Schauble, que está numa cadeiras de rodas.

Não me incomoda especialmente ter um primeiro ministro tão rasca que diga isto no parlamento, porque a beleza da democracia consiste na possibilidade de qualquerr ordinário ocupar temporariamente o poder, desde que tenha os votos necessários para isso.

O que me incomoda é uma imprensa de joelhos que trata esta afirmação, no contexto em que é feita, como uma mera infelicidade do primeiro ministro, como um erro menor que não deveria ter sido cometido.

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A questão central

por henrique pereira dos santos, em 11.04.17

O meu post anterior, sobre quem diz a verdade sobre a existência, ou não, de um perdão aos bancos na venda do Novo Banco, acaba por deixar de lado a questão central que se levanta quando se olha para a forma como o governo está a tratar o sistema financeiro:

está ou não o governo a usar do dinheiro dos contribuintes para resolver os problemas da banca refazendo a promiscuidade entre política e negócios que ruiu com o não de Maria Luís Albuquerque a Ricardo Salgado?

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Pois

por henrique pereira dos santos, em 11.04.17

"O que está em causa?
Quando anunciou o acordo para a venda de 75% do Novo Banco à Lone Star, António Costa garantiu que, apesar de a venda não render qualquer encaixe imediato para o Fundo de Resolução, não haveria “qualquer perdão” aos bancos.
Mas Pedro Passos Coelho, na entrevista à SIC na quinta-feira (e Maria Luís Albuquerque, uns dias antes, à Renascença) acusou o Governo de, nas vésperas do acordo com a Lone Star, ter definido condições para os pagamentos pelos bancos ao Fundo de Resolução. Estas novas condições fariam com que tivesse havido, na realidade, um “perdão” de quase metade das responsabilidades da banca associadas à resolução do BES (e do Banif). Quem tem razão?"

Edgar Caetano dedica-se a deslindar a questão acima.

Dá voltas e mais voltas mas no essencial diz que realmente há uma perdão substancial da dívida dos bancos ao Estado, confirmando que, adoptando alguns pressupostos admissíveis, Passos Coelho tem toda a razão (em linha, aliás, com a única fonte não anónima citada no texto).

Mas, diz Edgar Caetano, há uns especialistas anónimos que adoptam outros pressupostos, também admissíveis, que concluem que Passos Coelho tem razão, mas exagerou qualquer coisa (disse uma coisa esticada, na linguagem das verificações de factos do Observador).

Ou seja, Edgar Caetano conclui: "existe um favorecimento mas que não chegaria aos valores expressados pelo líder do PSD".

Para quem está a verificar factos não deixa de ser estranho que Edgar Caetano se abstenha de dizer ele mesmo qual é efectivamente a dimensão do perdão da dívida aos bancos, mas o mais curioso desta conclusão é que ela não responde à questão enunciada: Quem tem razão? Passos que diz que há um perdão de metade da dívida dos bancos ou Costa que diz que não há perdão?

Eu compreendo: por mais voltas que se dêem, é evidente que talvez Passos se tenha esticado, mas é inegável que Costa está a dizer uma valente aldrabice e, por definição, Passos não tem razão face a Costa.

Pois.

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Coelho versus Costa

por henrique pereira dos santos, em 09.04.17

Diz Vasco Pulido Valente que "O papel que cabe a Passos Coelho é mostrar um destino melhor a todo o país".

Não é o único a fazer essa crítica a Passos Coelho, há de facto muito quem diga que o papel da oposição é apresentar melhores propostas, dar um horizonte de esperança para o futuro e essas coisas todas que, no essencial, são a defesa de uma oposição política que prometa bacalhau a pataco se ganhar as eleições.

Essa crítica é muito curiosa porque não se aplica a quem está no governo: qual é o horizonte de esperança que é dado pelo governo nas medidas concretas tomadas até agora?

Substituição de cortes de ordenados ao funcionalismo público e aos pensionistas por mais impostos indirectos para todos é definir um horizente de esperança? Até sou favorável à transferência de impostos sobre o trabalho e o capital por impostos sobre o consumo, e isso sim, seria uma opção de política para o futuro, concorde-se ou não com ela. Mas isso é muito diferente de fazer pagamentos a grupos sociais definidos, à custa de impostos difusos sobre todos: isso é apenas substituir uma medida negativa visível (o corte de ordenados e pensões) por uma medida igualmente negativa mas invisível (o aumento de impostos indirectos), não é seguramente "mostrar um destino melhor a todo o país".

Reverter concessões de transportes públicos sem que se perceba para quê? Reformar florestas sem contar com quem as gere e sem se preocupar com a competitividade da produção florestal? Resolver a estabilidade do sector financeiro à custa do contribuinte e da intervenção directa na estrutura accionista de empresas privadas? Ter 50% da TAP, sem que se perceba para quê?

Tudo isso e muito mais é tudo o que o governo em funções tem feito: intervir directamente na economia com os recursos do contribuinte que foram retirados ao investimento que o Estado deveria fazer nas funções que mais ninguém pode desempenhar.

O governo em funções tem essencialmente gerido as corporações e os sindicatos de voto, em nome de interesses gerais.

Ou seja, o que distingue Coelho de Costa é que é hoje claro que onde Coelho disse não a Ricardo Salgado, Costa teria dito sim, prolongando o principal factor limitante do crescimento do país nas últimas década: a captura do Estado por sectores privados, sempre em nome de ideias nobres como a estabilidade do sector financeiro, a defesa do emprego, o reforço dos centros de decisão nacionais e outras abstracções que tal.

Como diferença de programa político para mim chega e sobra: eu seguramente votarei na mais imperfeita das opções desde que me pareça a que melhor defende um programa mínimo de libertação da sociedade da viscosa promiscuidade entre os sectores protegidos e o aparelho de Estado.

E não preciso que seja uma boa solução, basta-me que seja menos má que a alternativa, quando avaliada pela perspectiva da autonomia da sociedade face ao Estado, e vice-versa.

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Costa versus Coelho

por henrique pereira dos santos, em 08.04.17

António Costa tem-se queixado amiúde de ter de andar a resolver os problemas do sistema financeiro que o governo anterior não quis resolver e empurrou com a barriga para poder fingir que havia uma saída limpa.

Vejo hoje no Público que os bancos absorveram 50 mil milhões de euros em imparidades desde 2008. Nos anos de Passos Coelho (por facilidade, de 2011 a 2015), foram absorvidos para cima de 30 mil milhões (Passos Coelho na entrevista desta semana falou em 20 mil milhões).

Ou seja, por maior fragilidade que exista na situação do sector financeiro que Costa se queixa de ter recebido em herança, ela é 20 ou 30 mil milhões melhor que a que recebeu Passos Coelho.

A diferença essencial é que Passos Coelho foi resolvendo (na verdade, os bancos foram resolvendo) sem quase falar na herança que recebeu, mas apenas na responsabildiade que tinha, e mantendo, no essencial, a tranquilidade do sector, apesar de abalos como o do BES; Costa, que terá até agora resolvido seis mil milhões de euros de imparidades, está sempre, sempre a queixar-se do governo anterior e, muito mais grave, actua completamente focado nos ganhos políticos de curto prazo, mesmo quando isso significa instabilidade para o sistema financeiro (como alardear buracos nas contas da CGD, só para citar o exemplo mais evidente) e custo para o contribuinte.

O que os distingue é essa diferença.

Isso, e uma imprensa hostil, num caso, e muito simpática, no outro e que acha que o governo se avalia não pelo que faz pela vida quotidiana das pessoas comuns, mas pela capacidade de esmagar retoricamente o adversário.

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Chuva dissolvente

por henrique pereira dos santos, em 07.04.17

Helena Garrido chama a atenção para a herança mais grave que teremos no fim do mandato de Costa (continuando a obra inigualável de Sócrates no mesmo sentido): o enfraquecimento institucional.

E não se pense que é só nestas atitudes descritas por Helena Garrido, que são realmente graves,os sinais estão lá há muito tempo, desde o à vontade com que mentiu a Cavaco Silva num contexto absolutamente formal da discussão das soluções pós-eleitorais, à forma como Costa se comporta nos debates da Assembleia da República, até à reacção absurda (na forma, na substância, na importância atribuída e na insistência) às declarações do presidente do Eurogrupo.

A tolerância geral face ao evidente desprezo de Costa por regras básicas de comportamento institucional é ainda mais arrepiante que o desprezo em si, tanto mais que já foi uma tolerância do mesmo tipo face aos sinais evidentes de que alguma coisa teria de estar errada em Sócrates que permitiu que o problema alastrasse e chegasse tão fundo.

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Posso encomendar uma pergunta?

por henrique pereira dos santos, em 05.04.17

Ouvi boa parte da entrevista de António Costa à Renascença em que repete a ladaínha mais recente que consiste em dizer que o governo anterior andou a varrer as dificuldades do sector financeiro para debaixo do tapete por causa da saída limpa.

Curiosamente começa a enquadrar o assunto explicando que ao contrário de Espanha, o nosso memorando de entendimento resolveu não prever a resolução dos problemas da banca, e por isso o governo anterior andou a empurrar com a barriga e deixou tudo para António Costa resolver.

Da próxima vez que repetir esta história à frente de jornalistas, gostaria de encomendar uma pergunta: "Na sua (de António Costa) opinião, quando o governo que assinou o memorando, e que apoiava firmemente, não incluiu a limpeza do balanço dos bancos no memorando, isso seria porque não havia margem orçamental dos financiadores para o aumento de apoio concedido, ou seria porque o então primeiro ministro não queria entidades externas a escrutinar a banca?".

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António Costa apoia Passos Coelho

por henrique pereira dos santos, em 03.04.17

Fui esperando para ver a coisa bem explicada, mas como vai passando o tempo, talvez alguém me saiba explicar: na apresentação da venda que não é venda do Novo Banco, António Costa passou ou não o tempo a elogiar o governo anterior?

Defendeu com unhas e dentes a argumentação de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque em relação à ausência de custo para os contribuintes da resolução do BES.

Explicou muito bem explicadinho que as regras europeias de resolução, de que a do BES era um ensaio sem precedentes que a pudessem guiar, condicionavam as soluções.

Foi muito pormenorizado em explicar por que razão a nacionalização do BPN tinha sido errada, erro que não queria repetir, sendo a resolução do BES uma solução muito, muito melhor que deixar falir o banco ou nacionalizá-lo.

Onde vi divergências com Passos Coelho foi na sua demonstração de que teria sido muito melhor, para os contribuintes, privatizar a Caixa Geral de Depósitos que capitalizá-la. É certo que estava a falar do Novo Banco, mas toda a argumentação sobre custos para os contribuintes da nacionalização do Novo Banco se aplica, como uma luva, ao que foi feito no caso da CGD.

Só foi pena que na parte em falava de todo o sistema financeiro (outra divergência com Passos Coelho, a sua defesa e orgulho na interferência do Estado na gestão accionista de empresas privadas com uma argumentação que explica por que razão Salgado teria obtido deste governo o dinheiro que o governo anterior lhe negou) se tivesse esquecido de explicar o que até hoje não explicou: as suas opções no BANIF, que me parecem muito pouco coerentes com o que disse sobre o Novo Banco e os contribuintes.

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Reformar

por henrique pereira dos santos, em 26.03.17

Portugal tem cerca de 9 milhões de hectares.
Destes, dois terços, cerca de seis milhões, são espaços florestais, divididos entre um terço de matos e um terço de povoamentos florestais, ou seja, 3 milhões de hectares de povoamentos florestais.
Admite-se que uma gestão de fogo sensata e eficiente, isto é, que permita manter o fogo em níveis que evitem grandes fogos e permita ter um risco de fogo compatível com a exploração económica dos povoamentos, deverá implicar 20% de área de tratamento de combustíveis, desde que executados de forma muito estratégica (seja por corte matos, fogo ou pastoreio).
Como a gestão de combustíveis pode ser feita mais ou menos de cinco em cinco (há variações, mas agora são irrelevantes para a discussão), isto significaria um tratamento anual de combustíveis em 4% dos povoamentos (20% em cinco anos).
4% de três milhões de hectares são cerca de 120 mil hectares em que deveriam ser tratados combustíveis todos os anos.
As mais de duzentas equipas de sapadores florestais existentes tratam, na melhor das hipóteses, cerca de 20 mil hectares de combustíveis (a maior parte, pagos pelos interessados às organizações que gerem estas equipas, que em grande parte são pagas pelo Estado, portanto em grande medida isto é simplesmente uma forma encapotada de financiar autarquias e organizações de produtores, muitas delas de representatividade mais de duvidosa).
O actual governo promete uma reforma da floresta, contratando mais vinte equipas de sapadores, isto é, passaremos, na melhor das hipóteses, de um défice anual de 100 mil hectares de tratamento de combustíveis, para um défice de 98 mil hectares.
Se alguém tiver acesso fácil a quem decide no governo, talvez fosse útil fazer-lhe chegar a informação de que reformar a floresta não é pegar num sistema que não funciona e reforçá-lo em 10%.
Reformar seria acabar com a ideia de que o Estado é que vai conseguir gerir matos onde os proprietários não o fazem (por falta de viabilidade económica), passando a pagar os serviços de ecossistema a fileiras económicas como a da resina, a do pastoreio ou mesmo a da biodiversidade (declaração de interesses: esta é a minha área de actividade), como por exemplo, o serviço de gestão de combustíveis que fazem.
É que uma equipa de sapadores com cinco homens e equipamento pago pelos contribuintes gere em média 40 hectares de matos, mas um pastor sozinho, os seus cães e 150 cabras, gerem 100 hectares e ainda produzem bens transaccionáveis a partir de fontes renováveis de recursos: sai mais barato, cria mais emprego, é mais interessante socialmente e ainda tem melhor desempenho ambiental, para lá de um uso mais eficiente dos recursos dos contribuintes.

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O nível do debate público

por henrique pereira dos santos, em 23.03.17

""O Estado português dá um lucro superior ao do Estado alemão: 2,5 pontos percentuais do PIB", afirmou Mariana Mortágua, recordando que Portugal tem "o melhor saldo primário da Europa" e que isso se traduz numa sangria de recursos para alimentar a dívida."

A ser correcta esta citação (não ponho as mãos no fogo), isto significa que uma deputada, economista, considerada fora de série, exactamente pela sua competência técnica, pode ser, em Portugal, considerada tecnicamente fora de série apesar de dizer coisas destas (não é um lapso pontual, existem dezenas de citações com o mesmo nível de sofisticação intelectual).

Isto significa que o problema não está na qualidade dos deputados, que será sempre a que será, está sim na qualidade dos avaliadores de deputados, a opinião publicada.

Não admira por isso a qualidade do debate público em Portugal.

Adenda: esta verificação de factos do Observador é um excelente exemplo do nível e qualidade da opinião publicada. Depois de uma demonstração cabal de que uma coisa é falsa, a jornalista que faz a demonstração conclui que é verdadeira.

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Sócrates e os 6,83%

por henrique pereira dos santos, em 22.03.17

Um destes dias acusaram-me de querer atirar lama para cima do PS e de António Costa cavalgando o processo judicial a José Sócrates.

Vejamos então uma história muito antiga, muito antes de qualquer processo judicial, para se perceber bem quem espalha lama para cima de quem.

No início do primeiro mandato de Sócrates, o governo de então resolveu fazer uma coisa nunca vista: encarregou uma comissão, chefiada pelo governador de Portugal, de calcular o défice que se obteria no fim do ano se o governo anterior tivesse continuado a governar.

O Banco de Portugal prestou-se a essa farsa e chegou à conclusão de que o défice de 2005 seria 6,83%.

A partir desse momento o governo Sócrates passou a poder manter o défice anterior (pouco acima dos 6%) ao mesmo tempo que dizia que o tinha descido porque fazia sempre a comparação com um défice que nunca existiu, os tais 6,83%.

Nesta história estão muitas das características de Sócrates: uma noção muito clara e precisa do seu interesse político, uma imensa capacidade de usar a informação para obter vantagem política, mas também a total ausência de escrúpulo em usar os meios do Estado para montar uma fraude que lhe permitisse ganhar vantagem na comunicação e no combate político.

O que, naturalmente, só foi possível com uma imprensa que engoliu esta patranha sem a escrutinar e com uma entourage política (em que nessa altura pontificava Costa, o seu número 2) que não só aceitava esta forma fraudulenta de criar uma realidade paralela, como aceitava e aplaudia o uso ilegítimo dos recursos do Estado a favor de uma estratégia partidária (na melhor das hipóteses, hoje sabemos, mas na altura era possível que não se soubesse, que era uma mera estratégia de poder pessoal).

Não são as pessoas que denunciam o contexto partidário e social que permitiu a emergência e manutenção de Sócrates que lançam lama sobre o PS e sobre António Costa.

Foi Sócrates quem lançou lama sobre o PS e os seus dirigentes, e foi o PS, e os seus dirigentes que, com a conivência de uma imprensa domesticada, não se importaram de ser enlameados e, até hoje, ainda não tiveram oportunidade para ir tomar um banho regenerador.

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A reforma das florestas

por henrique pereira dos santos, em 21.03.17

    

 

 

 

 

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A importância da vírgula para a honestidade intelectual

por henrique pereira dos santos, em 19.03.17

Lutz Brückelmann acusa o Corta-fitas (na verdade deveria acusar-me a mim, que as outras pessoas que aqui escrevem não têm a menor responsabilidade no que eu escrevo) de desonestidade intelectual por eu considerar a frase:

"vota em Wilders, pois concorda com a expulsão dos marroquinos, todos eles criminosos para ele"

uma grosseira deturpação da frase

 "pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade."

O argumento de Lutz Brückelmann é o de que "A precisão "na Holanda" retira qualquer possibilidade de se não ter referido aos marroquinos em geral".

Saltemos por cima de que ainda que essa interpretação fosse inquestionável, nada na frase de Rentes de Carvalho permite dizer que considera todos os marroquinos como criminosos.

Mas essa interpretação está longe de ser inquestionável, porque uma coisa é dizer que se "defende a deportação dos marroquinos, que encabeçam as estatísticas da criminalidade" e outra é dizer-se que se "defende a deportação dos marroquinos que encabeçam as estatísticas da criminalidade".

No primeiro caso, defende-se a deportação de todos os marroquinos, com a justificação de que encabeçam a criminalidade, no segundo caso defende-se a deportação dos marroquinos que encabeçam as estatísticas da criminalidade, e só desses, não dos outros.

O que torna tudo isto profundamente desonesto não é esta confusão de interpretações por causa de uma vírgula, essa confusão é admissível, o problema é que existem várias outras declarações de Rentes de Carvalho em que explicitamente ele defende o segundo ponto de vista, chegando a corrigir jornalistas que exactamente o interpelam com a primeira interpretação, a de que haveria uma defesa da deportação dos marroquinos em geral.

Só que para os seus detractores é muito mais fácil chamar-lhe repugnante porque defende a deportação de todos os marroquinos por culpa de alguns, uma posição moralmente indefensável, que discutir a razoabilidade de deportar criminosos para os seus países de origem, posição que é muito mais complexa porque põe em destaque o conflito entre dois valores moralmente defensáveis: o direito à segurança das pessoas comuns e o direito a um tratamento justo para com criminosos.

Repugnante é deturpar os argumentos dos outros para obter uma posição mais favorável e justificar o sectarismo de transformar um adversário em inimigo.

 

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A face oculta do Marquês

por henrique pereira dos santos, em 18.03.17

Há curiosidades na imprensa portuguesa (acredito que não seja nenhuma especificidade nacional) que não deixam de me espantar.

José Sócrates, e a sua defesa, queixam-se permanentemente do tempo da investigação do caso Marquês.

Não faço ideia se têm alguma razão de queixa e não é isso que me interessa, o que me interessa é que uma das razões para esse atraso são as inúmeras contestações, recursos, requerimentos e etc., que são apresentados por José Sócrates e os seus advogados.

Dando de barato que José Sócrates não está a litigar de má-fé, o resultado prático é que Sócrates é um dos responsáveis pela demora da investigação de que se queixa.

Estranhamente, sublinhar este aspecto sempre que o suspeito se queixa da justiça, contribuindo para uma visão equilibrada do processo e da justiça, aparentemente não tem qualquer interesse para a imprensa.

Aqui e ali aparecem referências aos gastos de José Sócrates com o processo.

Recentemente foram os custos judiciais da quantidade enorme de recursos, contestações e etc., que José Sócrates tem perdido (17 mil euros numas contas muito por baixo, entre outras razões por não incluírem os gastos com os advogados). Antes já tinha havido contas especulativas sobre as despesas mensais de Sócrates com advogados, seguranças que por vezes aparecem, coisas desse género, e por baixo, muito por baixo, Sócrates gastaria nisso pelo menos cinco mil euros por mês. Qualquer pessoa que tenha pago um advogado para lhe resolver qualquer pendência sabe perfeitamente que ter dois advogados seniores, a tempo quase inteiro, custa muito mais que isso, mas não vale a pena tentar ser mais rigoroso.

A estas despesas há que acrescentar os gastos pessoais de José Sócrates, que não tem aspecto de quem ande a comer massa com arroz, mas admitamos que pode ser que sim, que Sócrates tenha hoje uma vida espartana, mas ainda assim, com despesas que seguramente são superiores a mil euros por mês (como Sócrates alega que pagou dívidas a Carlos Santos Silva com a venda da casa da Braamcamp, deve viver agora numa casa arrendada ou está a pagar prestações pela sua compra, com certeza).

Que se saiba, e o próprio sempre disse, Sócrates não tem nada de seu tendo, como rendimentos conhecidos, um pouco menos de 4 mil euros brutos que, com a carga fiscal existente em Portugal, representam seguramente menos de três mil euros líquidos. E, de acordo com o próprio, está a pagar os empréstimos do amigo, ao ritmo que pode.

Estranhamente, investigar de onde vem o dinheiro que mensalmente paga despesas que são, seguramente, mais do dobro do rendimento conhecido, contribuindo para uma visão mais equilibrada do que está em jogo e das razões da justiça para não acreditar facilmente na sua inocência, aparentemente não tem qualquer interesse para a imprensa.

A dimensão da estranheza pode ser avaliada imaginando que em vez de Sócrates estaria Cavaco na mesma situação.

Teria a mesma cobertura e protecção mediática?

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