A CGTP e a UGT, em reunião solene, procederam à análise da conjuntura actual e concluiram que a sua gravidade não lhes deixava alternativa à solução extrema e extraordinária da greve geral. Acontece que vai para mais de três décadas que as centrais sindicais organizam greves gerais todos os anos, em resposta a todas as conjunturas. O facto indiferencia a conjuntura actual das que a precederam, desdramatizando, saudavelmente, o momento que vivemos. Obrigada, CGTP e UGT, por esta vossa mensagem ("enviesada" que seja!) de optimismo e de confiança.
Vejo as manifestações dos "indignados" e também eu fervo de indignação. Só que a minha indignação dura há quase seis anos. Nesse interminável período de revolta íntima, foram soando os alarmes de quem sabe da vida mais do que eu para as consequências funestas do caminho que a nossa governação de então estava seguindo. Ainda assim, o voto nas urnas avalizou aquele caminho. A minha indignação já pedia desfiles e protestos há quase seis anos. E até há seis meses, teria preparado um cartaz. Mas agora, não. Sair à rua agora, munida da raiva e da teatralidade esquerdóide das alegorias e dos esqueletos fantoche, depois de ter feito ouvidos moucos aos que nos diagnosticaram o estado comatoso e propuseram terapêuticas que rejeitámos, parece-me extemporâneo, inútil e profundamente injusto. A não ser que essa indignação reclamasse o castigo - e um castigo de que ficasse exemplo e memória - dos que nos trouxeram de tão má-fé até aqui.
Não conheço nenhum processo de explicação de um acto humano - por natureza, resposta a um estímulo - que não se faça pela caracterização da situação de partida - o tal estímulo ou O PASSADO - e da situação de chegada - a meta ou o futuro. Exigir, portanto, de um governo que explique as medidas que propõe, e acusá-lo depois de invocar o passado, mesmo que com a objectividade impessoal dos números, porque encapotadamente culpabiliza os seus predecessores, violando o compromisso de o não fazer, é outra das manifestações da "esquizofrenante" inépcia de algum do nosso jornalismo.
Aí temos o orçamento para 2012. Prevê grandes sacrifícios que vão muito além dos que vínhamos amargando no plano intelectual das expectativas e das ansiedades. Agora sim, ir-nos-ão aos bolsos. Agora sim, os sacrifícios terão expressão material. O facto é preocupante, porque estávamos habituados a viver sem ter de contar os tostões. Mas o facto propõe também algo de novo, uma mudança nos padrões de vida, cuja evolução me desperta, confesso, a maior curiosidade; uma mudança que me parece, a mim, conter em si algo da reclamada "estratégia" de relançamento económico, reduzindo os custos do nosso principal factor de produção, o trabalho, liberalizando o emprego, aumentando os tempos de laboração, banindo os espartilhos que há muito amedrontavam o investimento estrangeiro, reforçando, enfim, as nossas condições de competitividade externa. Que mal haverá nisso? Pessoalmente, não o vejo; ou ainda não o vejo. Nesta Europa caduca, arrogante e desgovernada, sinto que devo ser um pouco chinesa...
Ontem, numa operação "stop", um jovem polícia solicitou que exibisse a minha documentação, observou-a atentamente e, não descobrindo "defeito", declarou: "A carta verde precisa de ser assinada!" Acrescentou, depois, num sussurrro, quase a contragosto: " De resto, tudo bem." Há dias, numa repartição de Finanças, um funcionário avaliou um contrato que eu tinha elaborado nos precisos termos da lei e não resistiu a apontar-lhe a falta de elementos não exigíveis, para poder recusar-me o respectivo registo e obrigar-me a refazê-lo e a voltar ao local. Os elementos - moradas dos contraentes, necessárias para eventuais notificações, explicou - inseri-os na versão então actual mas hoje desactualizada - eram contraentes em "trânsito" - e o contrato lá foi finalmente aceite, com perda de duas tardes e uma infinita reserva de paciência. Ah, como abomino as tentações de afirmação e abuso destes "pequenos poderes"!
Questionava-se há pouco a Maria, no nosso Corta-fitas, sobre o paradeiro da ASAE. Diz que entreviu, num dos bares do Corte Inglês, uma barata, o que a levou a concluir que o prestígio de um estabelecimento não é garantia de coisa nenhuma, que "no melhor pano cai a nódoa" e que todos devem ser zelosamente fiscalizados a bem da clientela incauta. A questão colocada pela Maria não poderia ser mais oportuna. Porque incauta estava eu esta tarde no bar da FNAC, a ler Dostoievsky e a saborear um sumo de laranja, quando vislumbrei, flutuando na bebida, o que veio a revelar-se uma lagarta: uma lagarta minúscula, reboludinha e certamente rica em proteínas, mas ainda assim, uma lagarta! Esta lagarta pôs o ponto final na minha ingestão do sumo e na minha frequência do bar. E será um ponto final sem parágrafo, se a ASAE não se apressa a passar por ali...
Uma médica de família afecta a movimentado Centro de Saúde da nossa capital atendia, há dias, um paciente diabético. A criatura apresentara-se a tratamento das sequelas de um acidente de trabalho sem nenhuma relação com a sua diabetes, acidente que, não tendo causado danos visíveis, sempre lhe perturbara o funcionamento de não sei que específico membro, mão ou dedo. A médica estudava a opção medicamentosa mais barata, quando o paciente, algo impaciente, a interpelou: " Não se preocupe, Doutora. Como diabético, estou isento e não pago nada." A médica não se conteve: "Não paga o senhor, mas pagamos todos nós!" E o paciente afinou, já se vê. Só ao cabo de vinte e quatro horas, em nova consulta para ocupação de tempos livres, acedeu enfim, por especial intercepção da sua senhora, a reatar o diálogo com a impertinente clínica.
Moral da história? Claro que sou favorável às taxas moderadoras! Claro que concordo com o seu ajustamento aos rendimentos de cada beneficiário! E claro que subscrevo a ideia de que as pessoas isentas por doença também as paguem, quando não estejam em causa, directa ou indirectamente, efeitos da doença que justificou a isenção. A utilidade e a equidade destes procedimentos não me oferecem, nas actuais circunstâncias, quaisquer dúvidas... mesmo se duvido da sua boa execução.
Na televisão, um denominado "politólogo" analisava a entrevista de não sei que figura de proa da nossa governação. Ser-se "politólogo" - pude concluir - é ser-se uma espécie de áugure da velha Roma. Este lia no canto das aves. O primeiro lê nas palavras dos políticos. Mas tal como as aves, também os políticos pairam sobre as realidades básicas da nossa condição humana, de que, a sorte querendo, mantêm as distâncias. O jogo dos "politólogos", como o dos áugures, resume-se, portanto, a um mero exercício de adivinhação.
Para o National Geographic, e para os cientistas que compuseram o documentário que vi na televisão, parece não haver dúvidas sobre os motivos que levaram à repentina extinção dos dinossauros há sessenta e cinco milhões de anos: o choque de um asteróide das dimensões do monte Everest com o planeta azul que habitamos. Quero crer que acontecimentos desta natureza não são o "pão nosso de cada dia". Mas, pelo que deduzo do que a vida me tem ensinado, regem-se pelas leis do puro acaso.... como um totobola! O que significa que a nossa existência é por todas as razões já sabidas e também por essa, infinitamente mais precária do que consigo, sequer, conceber. Gozar cada dia como se fosse o último é, portanto, a filosofia do prazer desesperado que os anos e o conhecimento nos vão impondo, a par de um crescente pudor em fazer planos.
Adenda: depois do grande acidente de percurso chamado Sócrates, um Seguro é, seguramente, um seguro. Mas convém não esquecer as palavrinhas miúdas que há sempre no verso das apólices...
Não queria escrever sobre o 11 de Setembro, porque já tudo foi escrito e dito. Mas é o tema do dia - ou de há vários dias... Acresce que, passados dez anos, tenho ainda dificuldade em compreender o que foi que me impressionou tanto naquela sequência de acontecimentos. Não foi, penso eu, a perda de vidas, porque a História é fecunda em tragédias desta ou de maior dimensão e já quase nos insensibilizou aos grandes números. Sei que não foi o seu carácter terrorista. O terrorismo contemporâneo ensinou-nos a não esperar dele senão a mais absoluta desumanidade. Suponho que tenha sido a vulnerabilidade daquilo que julgava indestrutível: as duas torres, dignas representantes da solidez arquitectónica do moderno «International Style», ruindo como castelos de cartas (algo que sugere o episódio Titanic...). E terá sido a dúvida, que desde então me desassossega, sobre o que distingue o que é do que parece ser, uma espécie de desconfiança «metódica» de tudo e todos, corolário da impressão de que o terrorismo tem expressões pouco evidentes, porque quem edifica torres que abatem como castelos de cartas (adulterando, avaramente, as estruturas ou os materiais) não é, talvez, menos «terrorista» (ou aterrorizante) do que quem lança contra elas um par de aviões.
(... à beira-rio)
Nos «media», a austeridade continua no cerne do debate. Há gente que, nem perante as evidências de um estado de calamidade, se conforma. E o primeiro argumento é sempre que não pagam todos: não pagam os detentores de juros e dividendos (que são a classe média trabalhadora!), não pagam os detentores de acções, não pagam as empresas... Subjacente, o eterno «complexo do tanso», o nosso mais arreigado e inibidor complexo, que não me canso de analisar. O complexo impõe-nos, desde logo, que não façamos nada, para que terceiros, que também não fazem - para não ser tansos -, não beneficiem, nem possam rir-se de ter beneficiado do que poderíamos ter feito... Deste modo se estabelece a infinita cadeia de inacção, responsável, desde há uns anos, pelo caminho do subdesenvolvimento que trilhamos a passo estugado. Talvez sejam a pequenez e a periferia (vulgo «provincianismo») que nos fazem assim. Ou talvez não. O certo é que estamos dispostos a tudo - ou quase tudo - para não sermos tansos. Para não sermos tansos, somos desconfiados, egoístas e cépticos. Para não sermos tansos, não investimos um átomo de energia em causas colectivas, receosos de que o resto não entre na marcha. Para não sermos tansos, não trabalhamos nem mais, nem melhor, mas só para «ganhar o nosso». Para não sermos tansos, «vamos com calma», usando, de preferência, da boa velha «chico-esperteza». Felizmente, há no mundo uns quantos que não se importam de ser tansos e que, de quando em quando, aparecem a dar-nos a mão. Mas nós, que tansos não somos, nem mesmo enfiando a esmola ao bolso aceitamos lições de brio de quem quer que seja, muito menos pressões! O caminho vai-se fazendo, cheio de vagares, pontuado de queixumes. Para uns, emburrámos desta maneira na espera do D. Sebastião. Mas para mim, emburrámos na espera uns dos outros.
(... em S. Pedro de Alcântara)
Vejo frequentemente colocada, em inquéritos a figuras públicas, a questão sobre qual o pior defeito que encontram nas pessoas. A mim, naturalmente, nunca ninguém ma colocou, mas eu - no que é, realmente, um desabafo - vou responder. E não, não respondo com as clássicas falsidade, hipocrisia, meia sapiência… O pior defeito, para mim, é maltratar, abusar, desconsiderar ou trair a confiança dos mais fracos, decorra essa fraqueza da idade ou do estado de saúde, decorra ela da posição social ou profissional, de uma subalternidade ou de uma subordinação. Quem violenta a fragilidade alheia revela, para mim, a mais inominável mesquinhez.
(... no Guincho)
É universalmente reconhecida a nossa «criatividade» – talvez não apenas nossa... – nos domínios contabilísticos. Os tempos recentes atestaram-na. Como é do conhecimento geral que, já no passado, essa «criatividade» se expressou noutros campos, entre os quais o último número da «l’Histoire», dedicado ao Brasil, salienta a geografia e a cartografia. O tratado de Tordesilhas, que deslocou em mais 270 léguas para oeste o meridiano que dividia o planeta entre portugueses e espanhóis, não terá sido o produto de um capricho inocente ou de um erro de percepção do espaço. D. João II sabia e escondeu aos seus vizinhos a existência das terras de Vera Cruz. O que para mim é um dado novo é que, também em 1750, quando as fronteiras brasileiras já coincidiam, no essencial, com as actuais, o mapa que utilizámos à mesa das negociações do Tratado de Madrid, para a clarificação dos limites dos impérios sul-americanos das duas nações peninsulares, apresentava uma deformação longitudinal significativa, fazendo surgir à direita daquele meridiano todo o território por nós ocupado à sua esquerda, que se alargava até perto dos Andes e às margens do Paraná. Temos, definitivamente, estas «criatividades» na massa do sangue. Por sorte, a História nem todas leva a mal.
(... no Parque das Nações)
Fui, há pouco, informada de que um conjunto alargado de elementos das nossas forças policiais, em protesto contra o castigo de dois colegas, decidiu boicotar o serviço, mas tratou de apresentar outros tantos atestados médicos falsos para se poupar aos concomitantes cortes salariais. Quem pratica esta forma de protesto «enviesado» – muito frequente em processos grevistas -, quem não assume todas consequências dos seus actos afigura-se-me completamente desprovido de verticalidade. Assusta-me, por isso, saber que a minha segurança repousa – pelo menos em parte – no arbítrio de invertebrados.
Não pode haver qualquer magnanimidade com terroristas. Ser terrorista não é um imperativo de moda ou um impulso irreprimível de esquizofrenia colectiva. Ser terrorista é uma opção pessoal e - arriscaria – vitalícia. Quem não hesita em matar dezenas ou centenas dos seus semelhantes, mesmo que a coberto de uma ideologia, mesmo que em resposta a um comando, não o faz porque o mundo não lhe oferecia outros caminhos, mas porque escolheu esse caminho, porque odeia tudo e todos, e porque não resiste à volúpia de dispor da vida alheia. Estas pessoas, felizmente poucas, são uma ameaça que não dorme. Enquanto existem, não desistem. Para estas pessoas, que estremecem as minhas convicções na bondade da razão humana, seria capaz de defender a pena capital.
(... no Parque Eduardo VII)
O noticiário televisivo apresentou, esta noite, uma peça de fôlego sobre a questão que dominou a comunicação social na última quinzena: a questão do «desvio colossal». A peça aprofundava as origens da expressão, a fidedignidade das fontes, as deduções dos analistas – merece registo, pela sua espantosa ousadia especulativa, o entendimento de uns quantos de que o Governo, ao cabo de um mês, já falava a duas vozes – as críticas das oposições, o «turmoil» político, a mentira da verdade, a verdade da mentira, etc., etc., etc. A peça dava ainda – um pouco a contragosto... – a questão por resolvida e a ordem, a quantidade, as propriedades e as relações das palavras empregues cabalmente esclarecidas. Com o que o país, de respiração suspensa durante a quinzena, pode, enfim, suspirar de alívio. Pela minha parte, vejo no processo uma enorme virtude: a de ter contribuído para arrancar às páginas esquecidas dos dicionários de língua portuguesa o único adjectivo, «colossal», capaz de caracterizar a dimensão da toleima de algum do nosso jornalismo.
O Corta-fitas tem procurado, desde a sua origem, animar as Sextas-feiras com uma fotografia (desta feita, temos Claudia Schiffer!) Pessoalmente, apreciando, embora, a intenção, respondo ao estímulo com ânimo moderado. É que, para mim, «nem tudo o que luz é ouro» e nem tudo o que é ouro luz. Há uma miríade de formas de beleza que transcendem, em muito, a qualidade do recorte músculo-esquelético; e ainda há dias, no julgamento Murdoch, entrevimos uma delas, quando a mulher do velho magnata da comunicação social se ergueu contra o sujeito da espuma de barbear. São estas «belezas», que dispensam fotografia, que me proponho aqui evocar, também às Sextas-feiras – esperando, com isso, contribuir para que a animação do dia se reforce perante as recônditas virtuosidades da natureza feminina.
*****
Estou a acabar um livrinho, que julgava perdido nos meandros da biblioteca do meu Pai e que, felizmente, deu à costa: «As Lobas do Escorial», de Michel del Castillo. A primeira metade da obra debruça-se sobre a vida da «loba» feroz que foi Maria Luísa de Parma, mulher de Carlos IV de Espanha. A História recorda-a como uma rapariga gentil, que envelheceu precocemente; uma figura polémica, de temperamento apaixonado e vicioso, adepta dos métodos mais ínvios de exercício do poder, desinibida praticante da intriga e particulamente vulnerável ao «charme» dos elementos constituintes da sua guarda de corpo. Teve catorze filhos, nem todos do mesmo pai. Não obstante o retrato sombrio, Maria Luísa teve um grande amor, Manuel Godoy. E por esse amor fez tudo o que pode, digna e indignamente, fazer-se: cumulou-o de favores, abriu-lhe todas as portas, incluindo da governança no período conturbado do expansionismo napoleónico, e alçou-o à categoria de príncipe, Príncipe da Paz; e, para o salvar da vingança popular que às vezes segue a queda de um incompetente, acabaria por abdicar do trono e aceitar o exílio, numa fase em que o amor evoluira já para uma amizade ilimitada e ilimitadamente complacente. Quanto a Manuel Godoy - que, no auge da paixão, usava de mão leve para com a soberana - soube, no final, mostrar-se grato, apoiando carinhosamente os seus últimos momentos. Há qualquer coisa de regenerador nesta enorme capacidade de amar... qualquer coisa que do feio faz bonito, muito bonito!
(... em Santa Apolónia)
O que é precisamente a Europa? É, desde logo, um continente. É, depois, o sonho político de uns quantos visionários que, sobre as sementes da paz lançadas à terra no rescaldo de 39-45, germinaram a ambição de um grande Estado aglutinador, capaz de responder aos desafios da globalização e de equilibrar nos pratos da balança os poderes jovens, sôfregos e incontidos da América e das economias emergentes. E a Europa é isto; só isto. Para ir além disto, continente e sonho, não bastariam nunca as vontades daqueles quantos, poucos, visionários. Seria necessária uma identidade europeia, que não bebesse apenas da contiguidade geográfica, menos ainda dos interesses mercantis, que dividem, mas que se fundasse numa cultura e numa língua, que unem. Seria necessário que as paredes do edifício se alicerçassem numa qualquer afinidade entre as gentes e que a ausência de fronteiras significasse muito mais do que o mero fecho dos postos de controlo das entradas e saídas. Infelizmente, os visionários, na sua pressa de ver obra feita, começaram a construir o edifício pelo telhado. E pelo telhado ficaram: não há paredes, nem há alicerces. É por isso que a palavra «solidariedade» me parece, nas actuais circunstâncias, tão hipócrita. Os meus sentimentos pelos alemães frios e disciplinados que têm subsidiado o meu país são reservados. A simpatia dos alemães por povos que consideram madraços e pedinchões tem de situar-se abaixo da linha de água. E a «abominável mulher das neves», Senhora Merckel, limitar-se-á, com toda a probabilidade, a dar voz aos pontos de vista de quem a mandatou.
(... nos Jardins da Gulbenkian)
A televisão transmitia, há momentos, o debate parlamentar sobre uma qualquer proposta do PC respeitante à nossa dívida – tema tristemente incontornável por estes dias - e eu olhava sem ver para o bisonho hemiciclo, quando a câmara, num «volte-face», se fixou na mesa da presidência. E, de repente, passei a ver. Naquela mesa, onde nem há dois meses se sentavam uns «jarrões» – respeitáveis jarrões, mas sempre jarrões – floresciam agora três vistosas florinhas em gentil e sofisticado «bouquet». Naquela mesa, só mulheres! E mulheres loiraças, «produzidas», elegantes! O que é que semelhante facto pode significar para o nosso futuro colectivo não sei dizer. Mas adivinho que coisa má não é, com certeza!!!
He was found by the Bureau of Statistics to be
One against whom there was no official complaint,
And all the reports on his conduct agree
That, in the modern sense of an old-fashioned word, he was a saint,
For in everything he did he served the Greater Community.
Except for the War till the day he retired
He worked in a factory and never got fired,
But satisfied his employers, Fudge Motors Inc.
Yet he wasn't a scab or odd in his views,
For his Union reports that he paid his dues,
(Our report on his Union shows it was sound)
And our Social Psychology workers found
That he was popular with his mates and liked a drink.
The Press are convinced that he bought a paper every day
And that his reactions to advertisements were normal in every way.
Policies taken out in his name prove that he was fully insured,
And his Health-card shows he was once in hospital but left it cured.
Both Producers Research and High-Grade Living declare
He was fully sensible to the advantages of the Instalment Plan
And had everything necessary to the Modern Man,
A phonograph, a radio, a car and a frigidaire.
Our researchers into Public Opinion are content
That he held the proper opinions for the time of year;
When there was peace, he was for peace: when there was war, he went.
He was married and added five children to the population,
Which our Eugenist says was the right number for a parent of his generation.
And our teachers report that he never interfered with their education.
Was he free? Was he happy? The question is absurd:
Had anything been wrong, we should certainly have heard.
W. H. Auden
(... na Sé)
[...] Os gregos têm isto há vinte anos, pelo menos. E os gregos não acreditam de todo. Há 20% de pessoas que votam nos anarquistas, que são mesmo anarquistas, não são como os nossos. Temos aqui uns «esquerdóides», coitados, a que a gente dá uns copos e ficam contentes. [...]
(João César das Neves, no programa A Torto e a Direito)
(... no Monte Agudo)
No Verão de 2008, a respeitável ONU apelou à adesão dos seus funcionários ao estilo de vestimenta «casual», sem gravata, como forma de aliviar o calor e de reduzir o recurso aos poluentes ares condicionados. Mas faz mais de um século que Eça de Queiroz, nos seus «Ecos de Paris», já registava e aplaudia iniciativa do género:
«A moda, ou antes aqueles que a fazem, acaba de tomar uma resolução sapientíssima. Paris, de ora em diante, fica sendo considerado, durante os meses de Verão, para todos os efeitos sociais, como campo e não como cidade. É permitido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao teatro, etc., de chapéu de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo. Era com efeito absurdo que Paris nos servisse 30 graus à sombra – e que os parisienses continuassem a sofrer a tirania da sobrecasaca apertada e do duro chapéu alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e permitir a tanga. O vestuário foi inventado por causa da temperatura, e deve, portanto, variar com ela harmonicamente. A neve pede peles, peles suplementares, arrancadas a animais. O Sol do Senegal ou de Paris em Julho, só pede a própria pele – sem mais nada, além de uma folha de vinha. Esta seria a lógica das coisas. A moda não ousou ser tão radical – e foi só até à palha e à alpaca.»
Caso para repetir (evocando o velho título de Erich Maria Remarque): a Oeste, nada de novo...
(... em S. Vicente de Fora)
Gostei de ouvir Rui Moreira, há dias, na entrevista que concedeu a Mário Crespo. Rui Moreira é um observador arguto, experiente e desassombrado da nossa realidade, e comentou, expressivamente. «O novo imposto [...] é o preço que nós, as formigas, vamos ter de pagar pelo lastro que as velhas cigarras nos deixaram». Uma ironia tanto mais contundente, quanto é certo que algumas dessas «velhas cigarras» já reivindicaram, nos seus cantares de antanho, o estatuto de formigas. Nunca, em Portugal, La Fontaine foi tão prestadio! Num único ponto discordei de Rui Moreira. O passado, para mim, ainda não está julgado. O julgamento das urnas não me basta, enquanto não compreender todas as razões da situação em que nos encontramos, ou enquanto não conseguir libertar-me da desconfiança de que houve dinheiros públicos que serviram fraudulentamente interesses privados. O meu farmacêutico, homem melhor informado do que nenhum outro neste mundo, já me falou de umas transferências para contas suíças, revelando nomes, anos e valores. E só não revelando – o que se lastima – NIB's. Mas chamem-se os serviços secretos e o enigma deslinda-se. E se o pessoal dos serviços não chegar, reforça-se-lhes o quadro. Pelo volume de investigação a fazer, será um bom contributo para a redução das taxas de desemprego.
(... no Terreiro do Paço)
1. Todos os países têm serviços secretos. Para que servem? Não sei. Presumo que investiguem o passado e o presente de pessoas individuais ou colectivas em prol da segurança do Estado que os criou. Também todos os países têm um Governo. Para que serve? Tenho dúvidas. Mas não tenho a menor dúvida de que, estando em causa o exercício de um poder naturalmente forte sobre um povo naturalmente fraco, os seus elementos devem ser pessoas idóneas e acima de qualquer suspeita, e que, nesse sentido, nenhuma investigação às suas vidas públicas e até privadas (dentro de certos limites) é demais. Não compreendo, por conseguinte, onde se está a querer chegar com esta ridícula exploração mediática do caso Bairrão.
2. O imposto extraordinário para 2011 foi anunciado há coisa de um mês (em meados de Junho, portanto). Os termos precisos da sua aplicação foram esclarecidos, de forma exaustiva e suficiente, há coisa de uma semana (em meados de Julho, portanto). E entretanto, já todo o mundo opinou sobre a sua necessidade, a sua oportunidade e a sua justiça, incluindo responsáveis do anterior [des]governo. Posto o que, sabendo-se que só no final do ano se fará a execução da medida, aqui formulo o desejo – na falta de esperança – de que a comunicação social consiga arranjar, para os seis meses que ainda restam até ao momento fatal, outros temas de «conversa».
(... Nova Iorque)
Não sou uma entusiástica, nem sequer complacente «obamista». Se fosse cidadã americana, teria, em devido tempo, votado McCain - mesmo apreciando o valor simbólico da eleição do democrata. E nunca, por conseguinte, acreditei no «milagre Obama», nem que a face da Terra mudasse, com grande proliferação de pombas e erradicação de falcões, pelo simples facto da subida ao poder da personagem. Obama tem-me parecido, nestes anos entretanto passados, uma espécie de actor, e não dos que trocam – ou já trocaram - o brilho de Hollywood pela sobriedade da Casa Branca, mas dos que trazem Hollywood para a Casa Branca. Confesso também as minhas reservas quanto a alguns dos papéis que ali tem representado, incluindo aquele de um eufórico «assassino» de moscas. Assim sendo, não encontro explicação, nem para a surpresa que tive, nem para o incómodo que senti com a sua recente referência a Portugal. Talvez, afinal, esperasse mais do homem... ou contasse que os anos entretanto passados lhe tivessem alargado o «mundo» e apurado o tacto diplomático. Mesmo notando que Obama se excede na auto-confiança oratória e é, por isso, pessoa para, em situações de aperto, não travar no discurso o que quer que seja que lhe venha à cabeça.
(... na Avenida da Liberdade)
Quando alguém, doravante, estiver em dificuldades financeiras, deve tomar de imediato algumas providências:
1) Ir comprando fiado como se nada fosse, apelando à solidariedade do merceeiro;
2) Lamentar junto dos amigos a conspiração que os comerciantes andam a fazer no sentido de modificarem os termos da relação;
3) Ameaçar o caixa do Banco que alerta para a circunstância de o dinheiro estar a acabar;
4) Lamentar junto da família o facto de ter de se pagar a comerciantes – a falta de solidariedade que representa o facto de não quererem fornecer à borla, ou fiado;
5) Lançar eurobonds, ou seja, convencer a vizinhança a avalizar umas letras para serem endossadas aos comerciantes impiedosos, por forma a que os comerciantes possam tomar por reféns esses vizinhos;
6) Lamentar, junto dos comerciantes, a falta de solidariedade dos vizinhos que não mostrarem entusiasmo pelos eurobonds;
7) Tentar regressar, o mais depressa possível, ao ponto 1).
(... em Ourém)
[...] Disse muitas coisas com que eu concordo. Disse muitas com que eu discordo. E até lhe digo mais: disse muitas com que eu concordo e discordo, porque se contradisse várias vezes. [...]
(Paulo Rangel, comentando uma intervenção do Bastonário da Ordem dos Advogados)
(... nas Janelas Verdes)
Perpassa pelos noticiários um tom indisfarçadamente escarninho quando se fala das medidas assumidas pelo actual Governo de combate à despesa: viagens em classe turística; não nomeação de novos governadores civis e directores-gerais, etc., etc., etc... Anuncia-se agora o incentivo à utilização de roupa informal, incluindo a dispensa de gravata, como meio de limitar o recurso aos ares condicionados. São «peanuts» face à dimensão da poupança requerida, oiço comentar. E são realmente «peanuts»! Mas não escondo a simpatia pela abordagem, simplesmente porque verifico que entronca nas teses do meu Pai na matéria: o difícil, dizia ele, nunca é controlar as grandes, mas as pequenas despesas. E eu concordo; a minha experiência confirma-o. Razão por que estou convicta de que as conhecidas e «colossais» derrapagens orçamentais, no Estado e nas obras públicas, resultam, essencialmente – a par de eventuais fenómenos de «amizade pelo alheio» - da desatenção a essas pequenas despesas, que valem «peanuts», mas que, somadas, perfazem milhões. Admito até que, se cada funcionário pagasse do seu bolso as chamadas pessoais que faz do telefone do trabalho, conseguisse sustentar o seu próprio emprego.
(... Paris)
Num dos últimos números da revista «l’Histoire», coloca-se, a propósito da tomada da Bastilha que hoje se celebra, a sempre interessante questão: «What if?». É sabido que a fortaleza, que em 1789 albergava o número perturbador de sete prisioneiros e cuja destruição estava prometida desde 1784, devendo dar lugar a uma Praça Luís XVI, era considerada inexpugnável – e sê-lo-ia, decerto, para as forças populares que, em 14 de Julho daquele 1789, a assaltaram. E é também sabido que a sua perda se deveu à sucessão de erros tácticos do seu indeciso governador, o Marquês de Launay, um homem que tentou conciliar o inconciliável, e cujo esforço inglório acabaria por proporcionar a Desnot, um cozinheiro desempregado que «sabia trabalhar com carnes», a «honra» de lhe cortar a cabeça e de inscrever o seu curto apelido na História. Resta saber se, com outro governador e uma defesa congruente, a Bastilha teria resistido e, resistindo, a Revolução Francesa teria acontecido. «l’Histoire» admite que, sem a queda da Bastilha, o jogo fosse outro, e que a carnificina provocada por uma poderosa canhonada da fortaleza pudesse arrefecer, pelo menos temporariamente, o calor da aposta revolucionária. Mesmo sendo um facto – acrescenta – que as cartas de Versalhes já não prestavam.
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