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Certidão de carácter

por José Mendonça da Cruz, em 20.10.17

Para se apreciar plenamente os contorcionismos a que os aliados da geringonça são capazes de entregar-se, não perder esta pequena confissão involuntária 

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Lamiré para os canalhas

por José Mendonça da Cruz, em 19.10.17

Por uma vez, a incompetência ululante do governo e a sua negligência criminosa deixou coibidos os canalhas das redacções. Queriam apoiar os seus perigosos amigos, mas faltavam-lhes argumentos, não sabiam que dizer, tiveram muito medo ou um resquício de vergonha. Mas agora PS+PC+BE deram o mote: criticar a incompetência e a negligência criminosas é «aproveitamento político». E eis que já vislumbramos os canalhas a porem a cabeça de fora nas notícias e no comentário: é «aproveitamento político» criticar os responsáveis por 100 mortes, dizem eles; e «habilidade» política, dizem eles, dizer que as mortes vão repetir-se. São como os seus donos, os canalhas: fazem a cama falida em que hão de deitar-se.

(E sobre os 500 mil euros doados por cidadãos para as vítimas de Pedrógão e desviados abusivamente pela Caixa para hospitais públicos, sobre isso nem um sobressalto, nem uma palavra).

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Ardam e tenham paciência

por José Mendonça da Cruz, em 16.10.17

Costaantonio-costa.jpg, esse oneroso arremedo de primeiro-ministro, preocupa-se com a quantidade de sal no pão, com a felicidade dos cãezinhos nos restaurantes, com todos os aumentos de despesa necessários para manter os apoios que o mantêm lá. Mas garante que nada pode fazer quanto à segurança dos portugueses. Arderam mais de 60 em Pedrógão, arderam mais de 40 ontem... habituem-se, diz ele, não há varinhas mágicas, ele não tem culpa, diz que disse não sei quê em 2011. Arderam 100 pessoas... Por ele, «vai seguramente repetir-se». . Entretanto, benevolentemente, oferece aquilo de que considera merecedor o povo: três dias de luto.

Constanimages.jpgça, esse farrapo choroso que verte lágrimas pelas vítimas da sua própria inimputabilidade, essa nulidade fatídica que tutelou o trágico falhanço da Protecção Civil, diz que não se demite. Lamenta-se de não ter tirado férias, visto terem ardido 60 portugueses. Descansa as famílias dos mais de 40 que arderam agora, meses depois, dizendo que fica. Promete que é sob a tutela da sua competência e saber que decorrerão quaisquer mudanças que impeçam mais portugueses de arder.

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 «Auto-protejam-se», diz Gomes, o secretário de Estado nulo. Não esperem aviões nem bombeiros, não esperem protecção de ninguém, não deduzam que o Estado socialista cumpre as funções primordiais de um Estado. Protejam-se, fujam, salvem-se, tratem de vocês como nós tratamos de nós.

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 Patrícia Gaspar foi nomeada porta-voz da Protecção Civil. «Dura, inteligente, desenrascada, com perfil militar», chamou-lhe babadamente o Observador. Vinha para «centralizar» a informação -- a terminologia socialista para significar censura de informação. Mas, hoje, Gaspar não é mais do que a cara do fracasso e inoperacionalidade terminais (e irresponsavelmente criminosos) da chamada Protecção Civil. Nem «dureza», nem «inteligência», nem «desenrascanço» a salvam desse perfil. 

A Protecção Civil lança avisos laranjas de fogo, e, perante a previsão de aguaceiros, desde logo avisos amarelos contra a chuva. É escusado. Os portugueses necessitam acima de tudo de avisos vermelhos contra tais «Protecção» e governo. 

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Filosofia do crime

por José Mendonça da Cruz, em 13.10.17

Pergunta Sócrates: «Como é que provam que o dinheiro era meu?»

Resposta: Pensando.

Poderia perguntar Sócrates: E há esperança?

Resposta: Pouca. 1 568 168  pessoas votaram em si nas eleições de 2011; 1 568 168 pessoas não pensam, mas poucas estão no sistema judicial.

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Mais carga fiscal para alívio dos funcionários

por José Mendonça da Cruz, em 13.10.17

Sobem os impostos sobre as bolachas, os biscoitos, as batatas fritas, os cereais, tudo o que os socialistas considerem que tem «sal a mais» para efeitos de colecta. Sobem os impostos sobre o preço dos automóveis, sobre a circulação de automóveis, sobre os combustíveis dos automóveis, mais ainda do que os 65% de imposto por litro actuais. Sobem os impostos sobre os trabalhadores a recibo verde (não faz mal, os «ex-precários» da administração pública já estarão a salvo nas crescentes gorduras contratadas). Sobem os impostos sobre as bebidas açucaradas, sobre as bebidas alcoólicas, nomeadamente a cerveja. Sobem os impostos sobre as grandes empresas. É tudo a bem do ambiente e da saúde.

A isto, os travestis de jornalistas dos media semi-falidos -- como os de Balsemão, que em breve estarão a pedir subsídios «cólturais» aos mesmos a quem lambem as botas -- chamam «alívio fiscal».

São aliviados os funcionários administrativos da Avoila, os funcionários do Nogueira, os funcionários e dependentes do Estado socialista. É um alívio para pagar o aumento do número de funcionários públicos, o aumento dos mesmos funcionários públicos, a melhoria da carreira dos funcionários públicos, a diminuição do horário dos funcionários públicos, o aumento do pagamento das horas extraordinárias dos funcionários públicos que a diminiuição do horário de trabalho fez aumentar, a inamovibilidade dos funcionários públicos. É para os socialistas aliviarem o PCP e o BE do facto de terem sido varridos nas eleições autárquicas (o PAN contenta-se em impor pulgas, babas e mau cheiro aos restaurantes). 

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Fernandas Câncios

por José Mendonça da Cruz, em 12.10.17

Estes fizeram parte dos governos de Sócrates e fazem parte da choldra de Costa, que era um deles e agora é o primeiro. Nunca deram por nada. Como não podem ser corruptos nem burros, então são Fernandas Câncios.

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Uns e os outros

por José Mendonça da Cruz, em 12.10.17

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As recentes advertências do FMI e da Comissão Europeia, somadas ao afã patético com que o governo de Costa dá o nosso dinheiro ao PCP, em compensação da derrota, e as vértebras da sociedade ao BE, em pagamento da irrelevância, parecem começar a abrir fracturas nas hostes dos adoradores da choldra.

Hoje mesmo Paulo Baldaia escreveu no Diário de Notícias uma coluna a dizer que isto assim rebenta. Agora mesmo, na TVi, Graça Franco mostrou-se muito incomodada com a despesa crescente e os impostos novos disfarçados.

Dois membros da plateia de aplausos de Costa que resolveram publicar hoje o seu «seguro de pudor»: quando a bancarrota vier -- como virá indubitavelmente para assombrar os bandalhos que acham que existe «uma folga» --, estes dois podem dizer: «Já em Outubro de 2017 eu dizia...»

Eis, pois, uma boa oportunidade para distinguir as vozes do dono dotadas, ainda assim, de alguma inteligência e as vozes do dono asininas.  

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Novas ideias e velhas carcaças

por José Mendonça da Cruz, em 06.10.17

Velha esperança

Há quem deseje e defenda para Portugal «uma sociedade civil forte e aberta… suficientemente autónoma do Estado e dos grandes poderes» e «um poder político que saiba separar o interesse público do privado ou particular». Esta sociedade não toleraria a existência e a zelosa blindagem de centros de corrupção, roubo de dinheiros públicos e saque de dinheiro dos contribuintes como a Caixa Geral de Depósitos, a antiga Portugal Telecom, ou um estarrecedor número de sombrias fundações. Esta sociedade não toleraria um fisco voraz e abusivo, e toleraria ainda menos que os media silenciassem todos os abusos, e, ao invés, procurassem excitadamente os raros casos de «evasão» fiscal, que nas circunstâncias actuais mais parecem legítima defesa.

Há quem deseje e defenda para Portugal «uma economia competitiva, aberta, autónoma, socialmente responsável», que não esteja tolhida pelos pequenos poderes que se acoitam nas malhas da burocracia, por uma carga de impostos que a asfixia, e depois, com o produto da rapina, oferece «apoios», «isenções» e «incentivos» aos primos, amigos e companheiros de avental. Esta sociedade não toleraria a reversão de uma reforma maioritariamente subscrita do IRC; nem o domínio de uma petrolífera que, mediante o monopólio de refinação e armazenamento, define os preços de gasolina e gasóleo (e ainda ri, sarcasticamente, nos cartazes que «informam» sobre os preços das diversas gasolineiras); esta sociedade não toleraria um Estado que sorve 60% do preço de cada litro de combustível; nem os sinuosos e casuísticos arranjos que colocaram privados e empresas a pagar a electricidade mais cara da Europa; esta sociedade não toleraria que, demonstrada penosamente a falência das intervenções proteccionistas no mercado habitacional, a elas se regressasse com arcaicos argumentos de virtude.

Há quem deseje e defenda para Portugal umas «finanças públicas que fossem responsáveis» e não submeta presente e futuro a cangas financeiras. Um Portugal assim ficaria de cabelos em pé com uma dívida pública a subir para além dos 250 mil milhões de euros, e erguer-se-ia numa fúria sagrada contra algum troca-tintas que aventasse que a dívida pública está, na verdade, a baixar.

Há quem deseje e defenda para Portugal uma sociedade inspirada por «um sentimento de justiça e equidade», que acredite que nenhum dos objectivos anteriores o contraria ou bloqueia, e que, ao contrário, são esses objectivos que abrem caminho à justiça e à equidade, e agilizam o elevador social.

Há quem deseje e defenda «uma sociedade com sentido de exigência, e de rigor e disciplina». Essa sociedade não suportaria nem um mês do mais presunçoso, desclassificado e desclassificante consulado da Educação; nem o rastejante, porém despudorado, enjeitar de responsabilidades na Administração Interna, na Defesa, nos Negócios Estrangeiros, e na Assembleia, e em São Bento. Essa sociedade sentiria asco perante um chefe de governo relapso e contumaz nos seus acessos de boçalidade e ordinarice na própria «casa da democracia».

 

Velhos lacaios

A última vez que os valores acima foram a votos, venceram com 39%. Mas os travestis de jornalistas que dominam as redacções chamam-lhes valores «passistas». É justo, literalmente, pois tudo o que está entre aspas vem do discurso de despedida de Pedro Passos Coelho, é o seu testamento político. Politicamente, porém, a escolha terminológica dos travestis é pura fraude e propaganda. Tudo o que extravase ou contrarie o seu pequeno mundo de funcionalismo, servidão, e amanhãs que nunca cantaram nem cantam é «neoliberal» ou «passista». Não sabem o que dizem – é difícil quando não se pensa –, mas como propaganda resulta. Todos os iletrados querem «apoios do Estado», e nenhum repara que é «generosamente» … «apoiado» … com o seu próprio dinheiro.

O que convém aos travestis é o que não convém ao país. E, no entanto, na sua auto-suficiência, na certeza da sua superioridade e ideário, os travestis não se coíbem de revelar o que mais lhes conviria. Durante dois anos, os travestis silenciaram ou esqueceram todo e qualquer argumento da oposição (a menos que tomado desde logo pelo seu contraditório), preferindo sempre em alternativa algum dichote de alguma Catarina, alguma catilinária de algum Galamba, alguma falácia de Costa.

Agora, de súbito, o PSD enche as páginas dos jornais, sobretudo com notícias que, por um lado, nos aconselham Rui Rio, apelidando de «passistas» todos os outros (até no Observador, que se vai revelando um dos maiores equívocos da informação dos últimos tempos, com a ilha de inteligência do comentário sitiada pelo jornalismo de manada do costume); e, por outro lado, recomendando vivamente ao PSD que, para sobreviver, seja mais como o PS. Sobre este ponto, no que toca a comentários maliciosos de travestis de jornalistas e barões ultrapassados, vem previsivelmente Pacheco Pereira à cabeça, cada vez mais submarino, cada vez menos social-democrata. (Traz Ferreira Leite de arrasto.) (Invocam todos Sá Carneiro.)

 

Velhas carcaças

Foi Santana Lopes o líder que não temeu ir a votos para substituir quem decidira ir «para a Europa» e escapar à choldra? Foi eficaz e competente o seu Governo ou deu bastos argumentos à manobra anti-democrática de Sampaio? E, sobretudo – mais para seu bem do que nosso –, não está Santana Lopes confortável na Santa Casa, onde Costa o manteve, onde com Costa negociou tapar as habilidades do Montepio com um risco irresponsável para a Santa Casa? Devia continuar por aí.

Diz o Expresso de 31 de Julho de 2013: «Hoje, quem seriam o Soares e Mota Pinto do século XXI? Certamente António Costa e Rui Rio, dois amigos que se respeitam, com cumplicidades políticas e pessoais várias, compondo um dueto que até esteve presente no Clube de Bilderberg.» «Até» no clube… Pronto. Compreendemos.

Diz a Sic Notícias de 22 de Julho de 2014, que «numa conferência sobre "A política, os políticos e a gestão dos dinheiros públicos", organizada pela TSF e pela Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (…) foi notório o bom entendimento entre ambos (Rio e Costa)» e que «Rui Rio reforçou que "o acordo principal é o acordo de regime"». O Bloco Central, portanto, com um PSD obsequiante.

Diz Miguel Sousa Tavares, em 2 de Outubro, na Sic: «Quem é Rui Rio, eu não conheço Rui Rio, não lhe conheço ideias de espécie nenhuma.» Diz bem. Tirando a demonstrada pulsão para se aliar com Costa, ninguém conhece.

Restaria Rangel para a sucessão no PSD, se não tivesse invocado razões familiares para se afastar, hoje, da corrida. Reconhecendo-se-lhe a inteligência, a cultura, a capacidade política, e o espírito crítico e combativo demonstrados como líder parlamentar, entre ocasiões diversas, teria, porém, que explicar uma frase … (peço desculpa) … obtusa do que parecia o seu discurso de candidatura publicado esta semana no Público: «A liberalização não é nem pode ser a operação através da qual os interesses que opacamente colonizam o Estado passam abertamente a colonizar a sociedade. Por isso não somos liberais.» É que, não querendo a frase dizer nada, ela só pode ter como justificação o medo de declarar-se liberal, ou a tentação persistente na direita de parecer esquerda. As duas coisas são más, as duas coisas significam um PSD a reboque do PS. Por mim, nunca ponho o voto no CDS, porque aprendi que não sei para onde o leva. E deixaria de votar num PSD cujo anseio fosse ser um PS de segunda.

É estranho que a propósito de um rumo individualizado para o partido nunca se ouça citar Sá Carneiro.

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Quem queria o meu lugar virá que bom de mim fará

por José Mendonça da Cruz, em 21.09.17

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Paulo Trigo Pereira, que o Observador acolheu a título de cronista diversificador, veio com outros economistas propor mais outra solução de esquerda em alternativa à solução de esquerda que mantém o país na cepa torta. Consiste, basicamente, em gastar ainda mais com a função pública. Com tal iniciativa, Trigo Pereira prestou à geringonça um serviço inestimável: fez que Centeno parecesse um bom ministro das Finanças. Cruel e cristalinamente esclarecedor é o facto de Trigo Pereira o ter feito inadvertidamente.

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A nossa fotografia

por José Mendonça da Cruz, em 02.09.17

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Esta é a fotografia da casa portuguesa, com certeza. Ao centro - em espontânea saudação fascista que deixa à mostra o bracinho branco, sem tónus nem manga de camisa - o suspeito de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais, recebimento indevido de vantagem, tráfico de influências e falsificação de documento. O homem que sabedoria política e literacia financeira do povo elegeram duas vezes Primeiro-Ministro: José Sócrates. Os jornalistas avençados aclamaram-no como animal feroz. Justamente. Nunca, sem ferocidade e apetite desmesurados, se concretizariam as suspeitas acima. Os jornalistas avençados celebraram o seu enorme dinamismo. Com justiça. Não conseguiria nem um défice de 11% - que os avençados juravam ser menos de 5% - nem uma bancarrota nacional quem não fosse dinâmico. E pressente-se-lhe o carisma. Ao menos o carisma suficiente para convencer os convertidos por avença, os cúmplices, os ignorantes, os iletrados e o gado ovino em geral. Foram maioria absoluta da primeira vez e mais de 39% da segunda. O nosso retrato.

Junto ao braço esquerdo do herói caminha – como soe dizer-se – um idoso. Foi um dos responsáveis pela implantação em Portugal de uma democracia representativa em economia de mercado. Contribuiu muito para esse feito. Ficou a seu grande crédito. Mas ao tempo desta fotografia, já não lhe devemos nada. Nesta fotografia já traz a boca aberta das dificuldades cognitivas, e a expressão perplexa com que, em fim de vida, renegou tudo e atacou «o capitalismo selvagem», o «imperialismo americano», os «privados» horrorosos, o «casino» dos mercados, e tudo quanto cheirasse a liberdade económica, social e política. Regrediu às ilusões e palermices da adolescência, como muitos senis fazem.

Sob o sovaco do herói segue um homem habilidoso, Costa, menos obeso do que é na actualidade, o sorriso ainda sem o esgar trocista, os beiços menos untados e ávidos. Mas já sonha suceder, e, por poucochinho e linhas tortas, sucederá. Na sua confusão de conceitos e na sua certeza das causas, os avençados chamam-lhe «hábil». É uma corruptela – passe a expressão sem segundo sentido. É, na verdade, habilidoso. Tem que ser habilidoso quem, durante anos, é braço direito e ministro do suspeito sem nunca suspeitar de nada. Tem que ser habilidoso quem, participando convicta e largamente na propagação da peste financeira, culpa a terapêutica pelas desgraças da falência. Foi habilidoso quem, com poucochinhos resultados eleitorais, equilibrou uma aliança que tem, num dos pratos, a sua sobrevivência pessoal, e, no outro, a entrega de sectores da sociedade e da economia a forças minoritárias e retrógradas.

Ao lado direito extremo da fotografia vai um tipo qualquer.

Falta um companheiro de estrada, uma figura - Marcelo, vindo para tirar uma selfie, alacremente.

Atrás dos três homens da primeira fila, mais abaixo, no putativo rasto de puns e mau hálito, fora de vista, agitados, saídos de debaixo de pedras ou pululando sobre fezes caninas avulsas, vão aos gritos os Galambas, os Cabritas, as Câncios, as Mortáguas, as Catarinas, os Teixeiras, os Baldaias e os avençados em matilha. Rosnam a quem não se junte à festa, mordem a quem descreia dela. A mesma fé de 2010.

Vem, depois, a mole indistinta (guarda-costas à parte) dos que apreciam ter um ministro das finanças para quem qualquer português que aufira mais de 1300 euros brutos mensais é altamente privilegiado. A mole invejosa concorda. A mole vive com 600 euros. Está contente, é maioria, sonha com «apoios do Estado» a que nunca chama o dinheiro dos outros. Vai vivendo, em vez de viver. Não ambiciona mais, não ambiciona muito. O que quiseram e não têm foi decerto por culpa dos outros, do liberalismo selvagem, dos privados, dos casinos, dos capitalistas, dos americanos, dos alemães, da vida. Basta-lhes o crédito para as férias, a praia de todos, esta política para as pessoas e um aumento de 50 cêntimos, a folga entre o abate do pau, uma vitória do Benfica.

 

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 Esta outra fotografia é um corolário. A reversão «estratégica» da TAP contentou sindicatos e fileiras de idiotas úteis. As reversões na educação e nos transportes devolveram verbas e protagonismo a parasitas. A reversão da reforma do IRC proclamou o programa: tirar aos produtivos para dar aos instalados. Uns tostões dados a parvos (parvos, do latim) alegraram-nos, e foram sobejamente compensados por aumentos de impostos em que os mesmos parvos não reparam. Outros agravamentos de impostos contaram com o apoio de legítimas herdeiras dos assaltos, das que querem ir buscar dinheiro aonde ele está. A dívida de Estado (a subir em flecha), empresas (estável), e privados (em queda) atinge os 725 mil milhões de euros. Mas é invisível para a mole, e os avençados só veem aquilo que lhes pagam para ver. E, por fim, a modernidade, a rentabilidade, o emprego, o contrato social da AutoEuropa, foram invadidos pelo que se vê na fotografia: o atraso, o bafio dos legítimos (embora não únicos) herdeiros de tiranos, assassinos em massa, torcionários e devastadores de economias. Eis o bafio, o sarro das cabecinhas comunistas, eis o negócio subscrito por Costa e acolhido pela mole, espelhados neste folheto. Uma das maiores empresas portuguesas, um dos maiores contribuintes para o PIB, um dos maiores empregadores e praticante de salários e regalias muito acima da média, é, afinal, para estes fósseis, o «trabalhador» com grilhetas, o «patrão» de chapéu alto em cima da bola de ferro que o agrilhoa. A mesma demagogia, o mesmo rumo à ruína. A mesma fé de 1917.

São fotografias portuguesas. Estas fotografias somos nós.  

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Sítios para respirar e onde encontrá-los

por José Mendonça da Cruz, em 03.08.17

No presente clima de spin, tolices de férias e vigarice geral -- de que Costa é o totem, César a coroa, Santos Silva o emblema, e Galamba a caricatura -- encontram-se espaços limpos e saudáveis que servem de magnífica alternativa à desinformação e omissão dos media avençados. A série Endeavour, na Fox Crime, é um desses espaços.

Titulada com o nome do protagonista, Endeavour Morse (seria como um português chamar-se, por exemplo, Empenho Marconi), a série Endeavour é medularmente séria, ao contrário da medular falta de seriedade de quem agora nos pastoreia: não ilude os problemas, não foge a eles, nem sugere que se resolvam com conversetas «sinceras» de cinco minutos, ou por se proclamar que estão resolvidos. 

Ao contrário da fina patine de cultura da canalha que por aí perora, e que estala ao primeiro tropeço ou sempre que é preciso usá-la como arma de arremesso, a série Endeavour é medularmente culta. Pode vir-lhe isso de uma cena de igreja em que uma harpa electrónica toca um estudo de Satie; ou do Wagner que o herói ouve intensamente; ou da família aristocrata que vive na grande casa (que não se chama Brideshead), e cujo apelido é Mortmaigne (não Marchmain), e cuja filha se confessa má e com maus desejos (embora não se chame Julia); ou pode vir de uma citação deliciosa de Jaws, em que a menina vai nadar à noite, o menino fica bêbedo em terra, mas quem morre às mandíbulas de uma fera é ele. O enredo policial e com gente verdadeira, contado num tempo e ritmo muito europeu e sábio, está salpicado destes adornos. Faz bem à alma e ali respira-se. A seriedade e a competência estão a léguas da indigência ética e mental que agora nos desregula.

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Estudiosos

por José Mendonça da Cruz, em 20.07.17

Agrada-me esta defesa do Sporting que vejo nos jogos de preparação. É rapaziada atenta, desejosa de aprender: seguem sempre os atacantes adversários até junto da baliza para verem de perto como é exactamente que eles metem golo. 

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Com o regresso de Costa regressou em toda a glória a fundamental falta de seriedade da governação.

«Fundamental», diz Costa, é que depois do roubo de armamento em Tancos o ministro da Defesa mantém toda a confiança do primeiro-ministro, segundo o qual fez tudo o que havia a fazer. Como em Pedrógão («foi um raio», «foi mão criminosa», «foi um downburst», «foi algo anormal», foi «o eucalipto» capitalista, foi «tudo o que era possível»), nada, portanto, se passou de relevante.

«Fundamental» é que o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas descansa em que o material roubado só vale uns 34 000 euros e que, «provavelmente», acrescenta ele, os lança-granadas-foguetes não estão em grande estado. Tudo, portanto, coisas sem importância.

«Fundamental» é que apareça o inefável Vasco Lourenço a dizer que o roubo de Tancos foi uma hsitória «mal contada», uma «encenação» feita para prejudicar o governo. Há de ser, portanto, uma conspiração da direita.

Fundamental é que as televisões comuniquem sem escrutínio que o défice está em 2,1% -- seja qual for o montante das cativações, e independentemente do dinheiro dos contribuintes metido na Caixa Geral de Depósitos para tapar vigarices antigas (sobre as quais estamos proibidos de ser informados) -- e que nada comuniquem ou escrutinem sobre a dívida pública que continua a bater recordes, e a aumentar com empréstimos a taxas de juro de 4%.

Podem todos ir para férias descansados. A bandalheira continua.

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Porque é que o DN só vende 7000 ?

por José Mendonça da Cruz, em 30.06.17

Fogos que matam, armamento à disposição dos ladrões, fugas de provas de exame. O governo nem pede desculpa nem faz ideia do que se passou. O DN fica frio.

O que interessa verdadeiramente ao DN?

Que o líder da oposição tenha pedido desculpa de um deslize infeliz. É, portanto, necessário zurzi-lo, como fizeram à uma no passado dia 27 todos os zelotas da página de opinião:

João Pedro Henriques que disse que «Passos Coelho “matou” 192 pessoas»

Pedro Tadeu, que chamou a «Passos, o bombeiro pirómano»

Paulo Baldaia, que acha que «A gula política pode resultar em suicídio», e

Ferreira Fernandes, poetisando que há «Pedrogão Grande, Pedro pequenino».

Todos no mesmo dia, na mesma página, com o mesmo zelo pressuroso.

Ups, terão pensado depois, quando viram a página monotemática: esta nossa excitação não será demasiado reveladora?

Descansem. Para os 7000 não é.

 

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A alegre bandalheira

por José Mendonça da Cruz, em 30.06.17

Ardem 60 inocentes. Presidente da República e Primeiro-Ministro dizem que foi feito o que era possível e a ministra do pelouro diz que aconteceu «qualquer coisa».

As perguntas de um exame nacional de português chegaram ao prévio conhecimento de vários examinandos através de gente do círculo sindical. O ministro da tutela diz que se fez o que se pôde, foi assim e assim fica.

Num ambiente internacional em alerta anti-terrorista, com os assassinos do EI a serem expulsos dos coitos que ocupavam, instalações militares portuguesas são deixadas sem vigilância. Num dia são roubados 44 lança-granadas, 120 granadas ofensivas e 1500 balas de 9 mm. Os militares dizem que, se calhar, foram roubadas mais coisas, não sabem bem. E o ministro do pelouro diz que «é grave» e jura com temível e tardio vigor pôr trancas à porta.

Antes dos «rigorosos inquéritos» em que «não ficará nada por levantar» e que serão levados «às derradeiras consequências» de resultado nenhum, o governo encomendou um estudo para saber se a sua popularidade sofreu. 

Não sofreu. Uma sondagem da católica diz que 74% dos portugueses estão felizes.

E muitos deles, digo eu, gostam do estado do Estado e até querem mais.

 

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A desministra

por José Mendonça da Cruz, em 20.06.17

A ministra da Administração Interna recusa ajuda galega acorrida aos desastres incendiários portugueses porque vê nessa ajuda «excesso de voluntarismo» e ausência de «enquadramento». Isto depois de, perante as câmaras de televisão, chorar obscenamente as vítimas da sua incompetência. Obviamente, devia demitir-se, mas verte lágrimas, em vez disso; mostram-se «afectos», julga ela, e fica tudo sarado. Sabe, sobretudo, que é digna do seu primeiro-ministro, e António Costa dela, ele que agora pede «esclarecimentos urgentes» directamente a serviços tutelados pelos seus ministros, que, uns, lacrimejam, outros estão «de coração destroçado». Ele, incólume, que não sabia nada, nem do seu governo, nem dos amigos, nem do Siresp, nem dos Khamov, ele que tem o mérito de tudo e nunca tem culpa de nada, como insistem os canais e jornais de reverência. Diz que há muito quem goste deste tipo de governação. Quem gosta merece-a.

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É a despudorada exploração da desgraça alheia, com câmaras deleitadas fixas sobre gente prostrada no chão, microfones atirados à cara de quem possa chorar um bocadinho aqui para as alegadas audiências.

É a ignorância descabelada, sobre fogos, sobre estradas, sobre meteorologia, sobre governo, sobre território, sobre populações, sobre políticas, sobre a própria língua, como a da jornalista (enfim...) da Sic que dizia que há carros queimados nos sentidos ascendente e descendente porque «as pessoas não conseguiram fugir deste conclave», ou a da CMtv que dizia que já não sei o quê era «profundamente essencial».

É a figura patética e despropositadamente vestida de Judite recuando excitadamente estrada fora a dizer coisas como a Georgina para terminar com um pezinho sobre o reboque que carrega o esqueleto ardido de um automóvel.

É o insuportável linguajar radiofónico, cheio de plurais arrastados e bengalas e tautologias e vacuidade -- oshecarrosshequeentãoestãoaquinestasheentãoflorestashesqueentãoexibemtodaa-a-entãoprofundidadedoshaaadramasshevividosheporessashegentesheaquiondeofogoentãolavraainda  -- a ser envergonhado pelo português articulado e bem pontuado de cada bombeiro entrevistado.

Marcelo distribui platitudes e sentimentos melados? Sim; conhece o povo melhor do que nós. Para o ano arde tudo outra vez? Sim, mas enquanto Marcelo atrair as câmaras ouvimos ao menos português de lei e somos poupados às reportagens.

 

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Justiça poética

por José Mendonça da Cruz, em 30.05.17

É consolador recordar que o júri do progama Ídolos considerou que o comportamento de Salvador Sobral em palco indiciava que ele «não levava as coisas a sério».

É especialmente consolador ver que, segundo o parecer do lamentável júri, hão-de revelar falta de seriedade interpretações diversas como esta ou esta.

Ou, de forma mais clara: é consolador verificar que há uma incompatibilidade fundamental entre o talento e os produtores de plástico.

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Salvador Macron

por José Mendonça da Cruz, em 11.05.17

«Gullible», diz-se dos facilmente iludíveis, dos que, perante os factos, no entanto se deixam embalar na ilusão de que os seus sonhos se concretizam. Gullible. Não sei porquê, a palavra parece-me quase onomatopeica, os que engolem o que se lhes dá e rejubilam.

Iludidos como gostam, os gullible vislumbraram promessas no discurso de vitória do Salvador Macron. Eu (mal, com certeza) vejo um discurso branco, perigosíssimo na sua vontade de agradar a todos e não se comprometer com ninguém. E vejo votos nulos e brancos, e abstencionistas, e a desorganização das forças tradicionais E vejo uma Marine Le Pen ferozmente intuitiva que logo compreendeu o caminho e promete refundar-se politicamente. Os gullible festejam o salvamento da Europa. Eu (mal, com certeza) vejo um Macron incapaz de reconhecer os problemas (a emigração, a ocupação islâmica, a descaracterização de França), e com isso a entregar a França a um problema terminal europeu: um governo com um programa de esquerda e extrema-esquerda a quem os gullible apelidam de extrema-direita (the horror, the horror).

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Acordo? Discordo

por José Mendonça da Cruz, em 10.04.17

Por razões profissionais fui obrigado recentemente a escrever inúmeras vezes as palavras Rio de Janeiro. De cada vez, o corrector automático «corrigiu» para Rio de janeiro. Pois é, ninguém disse que o corrector tinha que ser menos estúpido do que o «Acordo Ortográfico».

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