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A demonização do saldo estrutural

por Maria Teixeira Alves, em 11.02.16

Li este artigo (algo maçador) da Mortágua no Público: Défice estrutural: magia negra, que não começa mal, mas depois perde-se em fórmulas e conceitos que não estão ali a fazer nada para a conclusão que tira, e que é esta: "Independentemente do ângulo, a resposta é sempre a mesma. Tanto na forma do seu cálculo, como na avaliação técnica que depois é feita do seu cumprimento, o défice estrutural é uma medida discricionária que serve um propósito claro: controlar politicamente os orçamentos nacionais, mesmo que cumpram genericamente as regras europeias, consoante a cor, direcção e poder do governo em causa". Isto não é do Louçã?! Tenho a sensação de já ter lido isto.

O artigo que melhor responde às criticas da Mortágua ao défice estrutural é este de um economista, Pedro Romano, e está neste blog.

Reparem na simplicidade, na inteligência e na lucidez deste artigo sobre o mesmo tema:

Em defesa do Saldo Estrutural

Nunca pensei que houvesse tanta gente com opinião formada acerca do Saldo Estrutural. Na verdade, nunca pensei que houvesse sequer tanta gente a conhecer o Saldo Estrutural.

Mas há, e a opinião geral é a de que a ideia não faz muito sentido. Ontem, na SIC Notícias, Bagão Félix sintetizou os principais problemas deste indicador: é preciso calcular um PIB Potencial, estimar elasticidades, decidir o que é e não é one-off, identificar despesas cíclicas e, horror dos horrores, assumir hipóteses. O Saldo Estrutural não é visível, não é palpável, nem é verificável. É uma entidade abstracta. Sem a qual, presume-se, todos estaríamos melhor.

Eu levo muito a sério algumas destas questões – tão a sério que estou desde 2013 a chamar a atenção para as implicações que erros de medição podem ter na condução da política orçamental (I, II, III). Mas também não me parece prudente abandonar metas ou regras orçamentais. E, se o saldo estrutural não é uma boa métrica, então o que será?

 

A alternativa óbvia é o défice orçamental simples: défice/PIB. Mas o próprio PIB é ele próprio um indicador problemático. Medir o PIB implica atribuir, através de hipóteses e convenções, um valor de mercado a actividades não mercantis, como a produção de serviços públicos. Obriga a imaginar qual seria a renda que um detentor de habitação pagaria se quisesse arrendar a casa que possui. Exige uma imputação de produtividade a actividades que apenas conhecemos por via indirecta, através de inquéritos ao emprego (inquéritos!). Nalguns países, quase um terço do PIB é invisível e tem de ser imputado.

Pior ainda: há várias formas de calcular o PIB. Ah, e as três dão valores diferentes. Se só conhecemos um resultado isso é porque os institutos de estatística se encarregam de limar os números até que todos batam certo uns com os outros (excepto nos EUA, onde há mesmo dois PIB’s). Calma, ainda não acabou. Em 2006 o PIB grego cresceu 25% devido à inclusão na contabilidade da… prostituição (e outras coisas, vá). Uma operação similar fez a Itália ultrapassar o Reino Unido no PIB per capita nos anos 80. Estes exemplos sugerem que o PIB partilha a maioria dos problemas de que padece o Saldo Estrutural.

Talvez o melhor seja olharmos apenas para o défice público nominal, sem o PIB no denominador. Mas que défice? Será o défice em contabilidade pública, reportado pela DGO? Ou o défice em contabilidade nacional, reportado pelo INE? E o que é que significa o público ali de cima? Contamos as empresas públicas no saldo final? Ou deixamo-las de fora, como a Caixa Geral de Depósitos? E se incluirmos a CGD por que não contabilizar também o Banco de Portugal? Já agora, acham que as despesas assumidas mas não pagas (isto é, dívidas a fornecedores) devem ser défice ou não?

Isto não está a ser fácil: já lá vão quatro parágrafos e ainda não me livrei de hipóteses, escolhas e subjectividade. Mas esperem: e se contarmos apenas o dinheiro que o Estado efectivamente deve? A dívida é como notas e moedas: tangível e palpável – e, no final, há sempre alguém a reclamá-la. Será desta?

Ao procurar os números da dívida descobrimos, contudo, que há não uma mas várias dívidas. Aliás, a coisa é tão complicada que o Eurostat até fez um manual a explicar como é que se compilam os dados. E, apesar de não ter tido tempo para ler tudo, a coisa deve ter muito que se lhe diga: no caso da Noruega, por exemplo, há dois valores que divergem entre si por uma margem de  quase um bilião de coroas norueguesas, ou… 280% do respectivo PIB. Não é reconfortante.

Podemos ficar nisto o dia todo, mas penso que consegui clarificar a ideia. Todos os indicadores económicos assentam em hipóteses, recorrem a convenções e implicam escolhas metodológicas. Abandonar o conceito de Saldo Estrutural, só porque não nos chegou às mãos como um número impoluto, revelado por intervenção divina, faz tanto sentido como deixar de falar da dívida, do PIB ou da produtividade. A questão não é se o conceito é perfeito – claro que não é, e talvez seja muito mais do que os outros -, mas sim se é útil e se acrescenta informação relevante.

E é quase impossível responder que não. O Saldo Estrutural diz-nos em que medida é que o valor do défice está positiva ou negativamente influenciado pela posição cíclica da economia. Será que Portugal precisa de cortes para assegurar a sustentabilidade da sua dívida? Ou será que a retoma será suficiente para produzir uma melhoria automática da posição orçamental? Será que o excedente orçamental da Espanha em 2007 era suficiente para a insular de períodos de turbulência? Ou esse excedente resultava em boa medida de um PIB muito mais alto do que o PIB Potencial, o que recomendariaainda mais excedentes do que os que se verificaram?

Estas questões não só são relevantes como serão necessariamente discutidas por quem faz política. E quando elas forem colocadas a resposta acabará sempre por nos obrigar a formar uma ideia acerca daquilo que é o nível de desemprego cíclico da economia, o potencial de crescimento a curto prazo e a elasticidade das receitas face ao PIB. Estaremos, para todos os efeitos práticos, a falar do Saldo Estrutural – mesmo que tenhamos efectivamente banido o conceito dos nossos quadros macroeconómicos.

Vejamos a situação de outra forma. Muitas das pessoas que criticam o Saldo Estrutural perdem imenso tempo da sua vida a falar do desemprego, do desperdício de recursos e da destruição de potencial produtivo da economia. E defendem que políticas contracíclicas podem reverter pelo menos uma parte destas perdas. Por vezes, até defendem que bastaria a economia retomar o crescimento para que o défice baixasse muito. Em suma, argumentam que o défice que ‘vemos’ é muito mais o resultado da debilidade da economia do que da posição ‘estrutural’ das finanças públicas. Mas o que é isto senão uma definição para leigos de saldo estrutural? Por muito que expulsemos o nome pela porta da frente, o conceito acaba sempre por regressar pelas traseiras.

Atenção: não estou a dizer que o cálculo do Saldo Estrutural não tenha problemas. Claro que tem, e alguns estão mais do que identificados. Mas isso é um argumento para melhorar o seu apuramento, não para o eliminar do discurso.

Finalmente, das muitas opiniões que li fiquei com a ideia de que uma boa parte das críticas resultam do facto de se achar que o Saldo Estrutural é apenas um pretexto para a Comissão exigir mais cortes (Francisco Louçã, por exemplo). Na verdade, funciona exactamente ao contrário. O Saldo Estrutural é um argumento para os países em maior debilidade fazerem menos cortes, por sugerir que o saldo orçamental real é melhor do que aquilo que aparece nas contas finais, e que portante irá melhorar naturalmente, sem que seja necessário continuar a cortar no Orçamento.

Resumindo: A crítica da Mortágua/Louçã à importância que é dada ao défice estrutural (num artigo do Público, que fica a meio caminho entre o ideológico e o pedagógico, mal sucedido em ambos, e com complexidade técnica desnecessária e até de certa forma desligada da conclusão) -  tem por base o facto de este saldo  estar sujeito ao efeito ciclo, e por essa via ao chamado PIB Potencial  que é uma abstração que mede a quantidade de produto que se obtêm com uma unidade ponderada de todos os factores de produção. Neste caso os factores de produção são o stock de capital, e a quantidade de factor trabalho, e o ponderador é a elasticidade do produto face à utilização do factor trabalho. 

Mas,  e como me confessou um economista reputado da nossa praça, "Com todos os defeitos, se não fosse o saldo estrutural, os ajustamentos seriam muito mais graves, sem espaço para os estabilizadores automáticos funcionarem".

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O aumento dos impostos é indispensável num país que tem falta de produtividade, e onde a flexibilidade legislativa é diminuta. 

Ora o aumento de impostos escolhido pela esquerda (a chamada austeridade da esquerda) é mais prejudicial à produtividade do que a austeridade da direita o que vai agravar o problema mais à frente.

Mas o mais à frente não é daqui a uns anos, é já ali ao virar da esquina. António Costa ainda poderia respirar de alívio se as metas orçamentais se mantivessem para 2017. Os limites de défice não vão ser os mesmos, vão ser mais baixos. O caminho avança rapidamente para um défice muito baixo e isso significa que o Orçamento de 2017, para além de não contar com grande folga de 2016 ainda tem de ser mais austero. Cortes, atrás de cortes, aumentos de impostos atrás de aumentos de impostos. Como convencer Bruxelas? Como convencer os partidos de esquerda?

 

Esta descida da sobretaxa é um oásis e temo que não se vá repetir mais. 

Entretanto a baixa da TSU para os salários mais baixos já desapareceu para todo o sempre. 

As 35 horas para a Função Pública é outra miragem.

Este Orçamento retira qualquer margem a António Costa para 2017. Não tem nada para dar no próximo ano.

António Costa terá de romper o acordo à esquerda e deverá tentar ir a eleições antecipadas para as ganhar e não precisar do PCP e do Bloco. É isto que eu suspeito. A geringonça é um empecilho para António Costa e para as suas negociações com Bruxelas. Os compromissos sindicais também o limitam.

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Isto é um bom negócio para o Estado?

por Maria Teixeira Alves, em 06.02.16

Governo e accionistas privados da companhia assinam um memorando de entendimento em que o Estado paga 1,9 milhões de euros (nadamos em dinheiro) para ficar com 50% das acções e escolhe o presidente do conselho de administração, que passa a ter voto de qualidade. 

A comissão executiva da TAP permanecerá assim aquela que foi designada pelo consórcio, com Fernando Pinto a presidi-la e David Pedrosa, filho de Humberto Pedrosa, como CFO. A gestão da TAP fica desta feita, pela via do CEO, do CFO, e de um acordo, nas mãos dos privados.

Mas o Estado passa a ter 50% das acções da TAP e o conselho de administração será paritário (seis elementos nomeados pelo Estado e seis pelo consórcio). Ena!

Por outro lado o consórcio Atlantic Gateway, que comprou 61% da companhia no ano passado, terá agora 50% do capital, menos as acções que vierem a ser adquiridas pelos trabalhadores (até um máximo de 5%). Ou seja, os privados podem acabar com apenas 45% do capital.

 

Para além dos 1,9 milhões de euros que o Estado tem de pagar aos privados por 11% da TAP ainda vai contribuir para o plano de capitalização da empresa. O Estado vai subscrever 30 dos 120 milhões do plano.

Explica assim o ministro ao Expresso: “A empresa precisa de recuperar resultados financeiros e fica numa situação mais forte até haver algum tipo de dispersão do capital. Nessa fase, o Estado terá o equivalente a 18,75% desses direitos económicos, desde que subscreva – e temos intenção de o fazer – €30 milhões de um empréstimo obrigacionista convertível em acções da TAP”. “O consórcio vai subscrever €90 milhões (de um empréstimo de €120 milhões que estava previsto), mas em condições de paridade, com base nos mesmos valores. Isto ao contrário do actual processo de privatização, em que daqui a dois anos o Estado podia ter 0% de acções”. 

O acordo estipulado pressupõe também que a distribuição de direitos económicos só ocorra daqui a pelo menos cinco anos e caso haja uma operação de dispersão do capital em bolsa. Nesse caso, o Estado terá 18,75% dos direitos económicos, caso opte por subscrever parte do empréstimo obrigacionista convertível em acções previsto para os accionistas privados, em situações de mercado idênticas.

O que ganha o Estado ? Sete lugares para nomear boys. Um deles de Chairman, que é aquele lugar conhecido por ser o de "rainha de inglaterra". Paga para isso 1,9 milhões de euros e ainda investe 30 milhões num empréstimo obrigacionista que se converte daqui a cinco anos em capital.

"O governo não pretende intervir na gestão do dia-a-dia da TAP, por isso a gestão fica com a Gateway. O que cabe ao Estado é garantir a perenidade da visão estratégica e que a TAP garantir sempre a ligação dos portugueses ao mundo", diz António Costa, com um ar visivelmente satisfeito de quem acaba de fazer um bom negócio.

 

Devo ser eu que estou a ver mal. Mas a Gateway, manda na mesma, recebe 1,9 milhões que é o preço por lá ter uns socialistas no board, e ainda recebe 30 milhões para o plano de investimento que permite a compra de 53 novos aviões e a renovação da frota da Portugália.

Para garantir a ligação dos portugueses ao mundo bastavam as cláusulas jurídicas no contrato de privatização, digo eu, e sempre saía mais barato.

 

P.S. Este negócio não é bom para nenhuma parte, Não é carne, nem é peixe, à boa moda socialista. Mais cedo ou mais tarde vai criar situações de impasse. Ainda me lembro do "bom acordo" Galp/Eni, feito pelos socialistas, e do acordo Camargo Correa/Votorantim na Cimpor, feito por outro governo socialista. Acabaram todos em grandes impasses com elevados custos jurídicos

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Nem há nome...

por Maria Teixeira Alves, em 04.02.16

Os socialistas, de cada vez que falam em público sobre o Orçamento, até têm dificuldade em referir-se ao PCP e BE enquanto aliados. Começam sempre por dizer parceiros, para depois corrigirem para "partidos que suportam o governo".

Chamem-lhe geringonça. De qualquer maneira o nome já pegou.

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Hoje vem esta notícia no Correio da Manhã: Passos mete 90 milhões no banco de Relvas. Ao principio pensei que se trataria de poupanças (tantas?!) e depois vi do que se tratava: do dinheiro gasto na reestruturação do Banco Efisa para a sua venda. Ora evidentemente que a notícia tem um título para vender jornais. Mas a realidade é que se podia fazer aquele título com qualquer comprador do Efisa. 

Os 90 milhões são o somatório dos aumentos de capital que a Parparticipadas fez em dois anos. O dinheiro serviu para amortizar créditos concedidos pelo BPN, que o BIC rejeitou no acordo de compra. Portanto não tem nenhum problema os 90 milhões, nem a realidade é o que parece.

Mas é preciso ver se o concurso de venda do Efisa correu os trâmites legais. Faltou uma certa transparência, na minha opinião. É preciso saber quanto ofereceram os outros candidatos e que condições estavam nas propostas, para saber se a escolha da Pivot SGPS foi uma escolha séria ou se houve algum tipo de favorecimento. 

Eis aqui a primeira entrevista do presidente da Pivot SGPS (sociedade que terá Miguel Relvas como accionista) quando comprou o Efisa.

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O rei vai nu

por Maria Teixeira Alves, em 28.01.16

Eis a realidade do Orçamento de António Costa:

O Governo considerou no esboço do Orçamento do Estado para 2016 as reversões das medidas de austeridade como medidas extraordinárias, erradamente segundo a UTAO, e foi essa forma de contabilização que permitiu apresentar a Bruxelas uma redução, ainda que de apenas 0,2 pontos percentuais, do défice estrutural. Segundo os técnicos, se as medidas forem consideradas da forma habitual, como dizem as regras, não existe uma redução, mas sim um aumento do défice estrutural.

A identificação indevida de medidas one-off de agravamento do défice orçamental, i.e. operações que aumentam despesas ou diminuem receitas, contribui para melhorar artificialmente o esforço orçamental,interferindo com a medição da variação do saldo estrutural conforme estabelecido no Pacto de Estabilidade e Crescimento e refletido na Lei de Enquadramento Orçamental”, dizem os técnicos que trabalham junto da comissão de orçamento e finanças.

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Contra-corrente

por Maria Teixeira Alves, em 28.01.16

Sobre esta coisa das estátuas serem tapadas em Itália, durante a visita do Presidente iraniano, Hassan Rouhani, e em França o Hollande ter cancelado o almoço com Rouhani porque não podia ter vinho. Só tenho a dizer uma coisa: quem recebe tem de agradar o convidado. O resto são tretas, más educações e obsessões desnecessárias.

Um rei se receber um convidado que come com as mãos, deve também ele comer com as mãos para não fazer o convidado sentir-se mal.

 

Gostava ainda de lembrar que a Michele Obama (mulher do presidente dos Estados Unidos) quando foi em visita de Estado à Arábia Saudita foi de cabelo destapado. 

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Cavaco Silva sai com chave de oiro

por Maria Teixeira Alves, em 25.01.16

O Presidente da República vetou a adopção pelos homossexuais e as alterações à lei do aborto. É a medida que se impunha. Fê-lo no dia a seguir às eleições que escolheu o seu sucessor, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem em comum os mesmos valores. 

Podemos tirar daqui uma de duas conclusões. Cavaco Silva sabia que ia vetar as leis que a esquerda se apressou a aprovar assim que conseguiram tirar o PSD/CDS do Governo (de tal maneira é a coisa mais importante para a esquerda que foi a primeira medida a ir ao Parlamento - que obsessão!).

Se o fizesse antes podia prejudicar a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente e por isso (combinado) anunciou o veto quando a eleição já não estava em risco.

Pode também ser visto como um presente envenenado que Cavaco Silva deixa ao seu sucessor. Até onde vai a ditadura do consenso de Marcelo? O consenso pode muito bem ser uma ditadura. Dada a falta de liberdade que lhe pode estar subjacente. Marcelo, o homem que marchou contra o casamento gay na manifestação pela família em 2010, como vai ser a sua posição? 

Cavaco Silva argumentou que falta um “amplo e esclarecedor debate público” sobre a adopção plena por casais do mesmo sexo para que se possa introduzir uma alteração tão “radical e profunda” na lei. Eu na minha parte acho que não falta debate nenhum, é evidentemente uma lei que não defende as crianças, mas sim os adultos. Mas o importante é vetar a lei. Não ceder à força do marketing, às pressões da moda, à intimidação dos defensores. Foi isto tudo Aníbal Cavaco Silva, e isso dignifica a sua passagem por este mundo. O seu papel na política portuguesa é inegável. Aníbal Cavaco Silva é sem dúvida uma personagem incontornável da História de Portugal das últimas décadas. Poucos se podem orgulhar de tal. É um homem da velha guarda, com um casamento de amor, estável e duradoiro, que lhe deu uma família feliz. Cavaco Silva pode orgulhar-se da sua vida, somou triunfos pessoais e profissionais invejáveis. 

O mundo que Aníbal Cavaco Silva conheceu quando entrou na vida política portuguesa como primeiro-ministro mudou muito, não necessariamente para melhor. Mas disso pouco se-lhe pode atribuir.

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Voltou a ganhar o candidato em que votou a direita

por Maria Teixeira Alves, em 25.01.16

Mais uma vez o candidato que tem base eleitoral PSD/CDS ganhou as eleições (desta vez as presidenciais). Isto apesar das críticas e convicções dos comentadores que consideram que o PSD/CDS são os parentes próximos do diabo. Há uma indignação generalizada das estrelas mediáticas com a vitória recorrente da direita, apesar das críticas, do escárnio e maldizer.

Estas eleições voltam assim a revelar que a sociedade civil está divorciada dos comentadores.

A base eleitoral de Marcelo é do PSD/CDS, não se pode falar de um candidato apartidário, como bem realçou Marina Costa Lobo, na RTP, perante o desagrado e desconsideração expressada pelas caras de alguns dos comentadores/jornalistas habitués que estavam no mesmo fórum. Estes quiserem fazer passar a mensagem que esta não era uma vitória do PSD/CDS, que esta não era uma vitória de Pedro Passos Coelho, que não era uma vitória da direita.

António Costa perdeu mais umas eleições (não que Marcelo lhe desagrade em termos práticos), mas isso não foi tido em conta pelos eleitores. 

Tal como António Lobo Xavier salientou na Quadratura do Círculo, os votos de Sampaio da Nóvoa e de Maria de Belém somados tiveram um resultado miserável. O PS está a perder votos, e parece estar a perdê-los para o Bloco de Esquerda. 

O poder do PS está hoje ancorado no ódio da esquerda, quer dos políticos, quer de alguns comentadores (jornalistas incluídos), a Pedro Passos Coelho. Mas no dia em que Passos Coelho sair da liderança, o PS perde o seu actual leitmotiv, e lá se vão as coligações negativas. 

Outra conclusão destas eleições é que a ala segurista do PS acabou antes de começar. 

Há também a salientar um outro fenómeno social. A derrota eleitoral de Maria de Belém com 4,2% dos votos. Será que revela que o clássico PS já não tem palco? O PS tradicional, o PS de Manuel Alegre, de Jorge Coelho, etc, está a desaparecer para dar lugar a um PS que radicaliza à esquerda (Sampaio da Nóvoa)? Ou será que revela que as mulheres que não sejam as rebeldes, freaks-da-passa chique, estilo guerrilheiras de esquerda – Marisa Matias foi a terceira mais votada com 10,1% dos votos – são completamente desconsideradas pela sociedade portuguesa dominada por homens que olham para a opinião das mulheres com uma certa condescendência a raiar a chacota? Sobretudo se são mulheres conservadoras, tradicionais, bem-comportadas, com ar maternal e familiar, ou com ar de quem vai à missa ao Domingo, ou de quem viveu em Cascais, na Lapa, ou na Avenida de Roma. Os homens portugueses não levam a sério as mulheres quando toca a lugares de poder.

Reparem no que têm em comum Maria de Belém, Manuela Ferreira Leite, Assunção Cristas (esperem para ver o desiderato de que vai ser alvo), e todas as mulheres com alguma projecção mediática, quer a nível de opinião, ou de acção política, que sejam o estilo conservador/tradicional? E depois vejam se há alguma admiração/respeito/consideração da parte dessa nata de opinion makers que por aí espalham comentários. Este país é machista sem ser marialva (entendendo por marialva o homem que trata a mulher como um ser frágil que é preciso amar e proteger) porque os homens portugueses não são apaixonados por mulheres. Quanto muito, gostam da mulher deles e pouco mais. Os políticos portugueses não casam com Carlas Bruni, nem fogem de mota a meio da noite para se encontrarem com amantes. Os políticos portugueses, ora têm casamentos acomodados com mulheres resignadas e do establishment, ora não têm mulher, nem casos de amor apaixonados que justifiquem a solteirice. Bem dizia a Agustina que os homens portugueses estão mais perto de repudiar a mulher do que a amar. 

Há outro fenómeno revelado neste resultado eleitoral: a fraca votação do candidato do PCP. O Partido Comunista está desorientado na sua génese e isso vê-se nos resultados eleitorais. Hoje que motivo há para se votar no PCP, se há o Bloco de Esquerda e o PS com os mesmos princípios? O PCP perde na comparação: o PS tem mais hipótese de chegar ao poder e o Bloco de Esquerda tem mais juventude, para que raio há-de servir o PCP? Alguma coisa o distingue do Bloco, por exemplo? Isto é muito importante e pode marcar o futuro do Governo de António Costa.

Tal como li nas redes sociais: O PCP fica o partido do táxi, e se não se livra do Costa desaparece. E ainda "Costa estás lixado. Não pelo Marcelo, mas sim pelo PCP. Os comunistas vão mudar de discurso e de forma de estar já amanhã".

De resto há a salientar que a direita votou contrariada em Marcelo Rebelo de Sousa, porque não quis a presidência nas mãos do socialismo radical de Sampaio da Nóvoa, embora muitos se revissem mais no gestor da Marinha Grande, Henrique Neto - gestor com experiência empresarial, que conhece no terreno as fraquezas e forças do país. Até lhe desculparam a raiz socialista. Mas o medo de uma segunda volta que unisse a esquerda prejudicou-lhe a votação que se ficou pelos 0,8%.

Já Antonio Costa, no seu discurso, não pareceu muito chateado com a vitória de Marcelo. Não era o ideal mas serve-lhe. Talvez por isso tenha optado por não se comprometer com o apoio a nenhum candidato de esquerda.

O Tino de Rans, na sua pureza popular, valeu mais do que o demagogo lutador anti-corrupção, Paulo de Morais. Vitorino Silva é uma espécie de Jorge Jesus da política, embora bem menos genial. 

Vou ter saudades das frases lapidares do Jorge Sequeira, o psicólogo, orador motivacional. Ainda me lembro de algumas como: "Tudo se perde quando nada se transforma"; "a arte não deve ser popular, o povo é que deve ser artístico (Oscar Wilde)"; "eu não tenho um salário, tenho um se calhário"; "heróico no ser humano é não pertencer a nenhum rebanho". Ficou com 0,3%

Francamente fraco foi Cândido Ferreira, queixou-se muito do tempo de antena, mas faltou-lhe ideias e estilo.

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No OE de 2016, não haverá algum desnorte macroeconómico?

por Maria Teixeira Alves, em 23.01.16

Confesso que não sou especialista em fiscalidade. Mas assim de relance parece-me que há algum desnorte nas medidas fiscais no draft do Orçamento de 2016. Este Governo parece não ter uma política macroeconómica. Tanto tributa o capital (poupança) como o consumo. Tributa os ricos e poupa nas heranças. 

Aquilo é gerido assim: quem é que o António Costa tem de agradar? Então esses não são atingidos pelo aumento de impostos. É por isso que não sou socialista. Não gosto de irmandades, lojas e internacionais.

P.S. A subida do Imposto de Selo não vai apenas afectar o crédito ao consumo, vai afectar todas as operações que cobrem imposto de selo (seguros, contas bancárias, etc)

 

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Alerta laranja para o Novo Banco

por Maria Teixeira Alves, em 21.01.16

A notícia mais relevante do dia é esta: Podem estar em risco de incumprimento não cinco, mas 50 linhas obrigacionistas do Novo Banco no valor de 18 mil milhões de euros em dívida.

O que se passa é que hoje está a decorrer em Londres uma reunião da ISDA  - Associação Internacional de Swaps e Derivados que visa decidir se há ou não um “evento de crédito” (incumprimento de obrigações) e se devem ser accionados os respectivos seguros para cobrir as perdas em default (incumprimento) de obrigações.

Isto quer dizer que os grandes investidores institucionais - Bank of America, Barclays Bank, BNP Paribas, Citibank, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Morgan Stanley, Nomura, Mizuho, a Société Générale e cinco fundos de gestão de capitais como AllianceBernstein, BlueMountain Capital Management, Citadel, Pimco (Pacific Investment Management Co), Cyrus Capital Partners, Elliott Management - estão a discutir se a decisão do Banco de Portugal de pôr as obrigações seniores do BES, que estavam no Novo Banco, de regresso ao banco que as emitiu e que está em liquidação (bail-in para recapitalizar o Novo Banco) constitui ou não um event of default (evento de incumprimento de obrigações) do próprio Novo Banco.

Se tal vier a acontecer torna todas as obrigações do Novo Banco imediatamente vencíveis e o banco tem de as pagar. Segundo fontes, como muitas obrigações são cupão zero e estão no balanço muito abaixo do valor nominal, a perda com o pagamento seria incomportável e o Novo Banco não sobreviveria.

Estariam em causa 18 mil milhões de euros.

O painel externo, constituído por grandes bancos internacionais, do Comité de Avaliação de Derivados de Crédito (ISDA) está reunido desde quarta-feira em Londres para decidir isso. Para os investidores (que já estão a penalizar até a dívida soberana) o que aconteceu com as cinco linhas de obrigações seniores do Novo Banco pode ser classificado como um "evento de crédito" porque não foram cumpridas as regras de igual tratamento dos credores (clausula pari passu).

As consequências poderão ser dramáticas. O que significa, muito provavelmente que o Banco de Portugal vai recuar, ou compensar os investidores que detinham aquelas series de obrigações que por decisão do regulador regressaram ao balanço do BES (bad bank). 

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Confesso que, assim que a notícia da recapitalização do Novo Banco com obrigações seniores do BES saiu, pensei imediatamente: Nunca mais um investidor institucional compra uma obrigação de um banco português. Foi um pensamento imediato, mas não menos legítimo. O pensamento de que o mercado monetário interbancário se iria fechar para os bancos portugueses por causa da decisão do Banco de Portugal (imputada só a ele ainda por cima, e não ao BCE) de aplicar uma versão suis generisda lei de Resolução que iria entrar em vigor em 2016 (a diferença, já a escrevi aqui, é que na lei europeia os obrigacionistas passam a accionistas obrigatoriamente, e aqui tratou-se de retirar do balanço as obrigações seniores e pô-las num bad bank que vai ser liquidado), não é desprovido de sentido, pois obedece às leis da lógica. Mas a lógica pode falhar quando não se tem todos os dados da equação. Foi o que aconteceu. 

Falhou-me os dados das emissões de obrigações de bancos. É que de, pelo menos, há três anos para cá que os bancos não vão ao mercado monetário interbancário - mercado de emissões de dívida - para se financiarem. Em primeiro lugar porque desde então que é caro emitir. É mais barato para os bancos financiarem-se através dos depósitos, ou através do BCE do que através da emissão de obrigações. Depois porque com as exigências da troika a desalavancagem dos bancos levou a balanços mais equilibrados. Os rácios de transformação de depósitos em crédito nos bancos em Portugal em geral são hoje abaixo dos 100%, isto é, há mais depósitos do que crédito. Porque os depósitos subiram e o crédito caiu bastante.  Como as taxas de juro estão baixas os depósitos tornaram-se a forma mais barata de os bancos se financiarem. O BCE, com o seu quantitative easing tem ajudo ao financiamento dos bancos e isso repercute-se no preço baixo do dinheiro. Pode dizer-se o BCE é curto prazo. É. Mas como os bancos estão sempre lá, é curto prazo que na prática é longo. 

As emissões de dívida sénior de bancos tem sido muito esporádicas, para não dizer inexistentes, dizem fontes dos bancos com quem falei. Mesmo as emissões de dívida que vencem em breve não serão refinanciadas com outra emissão, os bancos não precisam de liquidez.

Não há por assim dizer um mercado de obrigações seniores activo que tenha sofrido abruptamente com a decisão do Banco de Portugal (por muito que seja criticável) de retirar algumas séries de obrigações seniores do BES do balanço do Novo Banco, o que ajudou a reforçar os capitais. Por muito que a Pimco e a BlackRock tenham perdido e estejam com toda a razão furiosas com Portugal. A verdade, segundo os especialistas, é que se o bancos quisessem emitir, mesmo antes da decisão relativa ao Novo Banco já ia ser muito caro, por outros factores de conjuntura económica e política, e não compensaria. Por isso os bancos não se aventuravam por esse mercado.

A curto prazo o trauma, chamemos-lhe assim, do investimento em obrigações seniores só atinge o mercado secundário de obrigações porque as desvaloriza e nessa medida faz disparar as yields (taxa de juro). 

É mais preocupante para os bancos as alterações regulatórias do BCE que ainda não estabilizaram (agora fala-se da possibilidade de estipular um tecto para os bancos investirem em obrigações soberanas - que são usadas como colateral para financiamento no BCE, e ainda admite-se que se obrigue a considerar o risco dos países nessas emissões), do que propriamente esta decisão do Banco de Portugal. Voilá!

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Há uma nuance que ninguém está a ver na aplicação ao Novo Banco da lei europeia. Já lá iremos.

Comecemos por lembrar que está tudo muito indignado com a discrepância entre a solução/resolução que foi adoptada para o Banif e a segunda resolução que foi adoptada para o Novo Banco. 

É certo que parece um paradoxo que por um lado se tenha poupado os detentores de obrigações do Banif (dívida senior, que é aquela que primeiro é paga num conjunto de credores) e penalizado os contribuintes e por outro se critique o uso desta mesma dívida para recapitalizar o Novo Banco. O BCE se por um lado se descarta da opção do Banco de Portugal de ter recapitalizado o Novo Banco recorrendo à transferência de emissões de obrigações séniores do BES para o banco mau, depois de já terem selado no balanço os activos (património) do Novo Banco contando com estes títulos. Essa opção do Banco de Portugal pode ter custado a credibilidade das instituições financeiras nacionais para se financiarem no mercado monetário interbancário. Por outro o BCE manda dizer que o Estado [ver Expresso] podia ter poupado até mil milhões de euros no montante que injectou no Banif, caso tivesse optado por imputar perdas aos investidores com obrigações seniores, em vez dos contribuintes. Isto é um contra-senso aparentemente. Por um lado deve-se usar as obrigações séniores de um banco para evitar pesar nos contribuintes através de um bail-out; por outro a decisão do bail-in não era a que defendiam para o Novo Banco.

A notícia do Expresso provocou mesmo uma resposta do Ministério das Finanças que diz que: "Na sequência de algumas notícias que afirmam que o Estado poderia ter poupado entre 500 mil a 1.000 milhões de euros em dívida sénior do Banif, o Ministério das Finanças faz o esclarecimento [de que] esta informação é falsa, já que a participação de dívida sénior na cobertura de prejuízos atingiria no máximo 169 milhões de euros e qualquer valor superior implicaria a perda de depósitos", lê-se no comunicado hoje divulgado pelo gabinete liderado por Mário Centeno. O Governo afirma que a resolução do Banif, em Dezembro, foi feita tendo em conta a necessidade de preservar a estabilidade financeira e que uma solução como a referida "poria em causa a confiança dos investidores e aforradores no sistema financeiro português, com consequências nefastas sobre a estabilidade financeira e o bem estar dos portugueses".

Mas o paradoxo não está apenas na diferença de resolução que o BCE defende para dois bancos portugueses, Banif e Novo Banco, mas ainda no facto de afinal a lei de recorrer ao dinheiro dos obrigacionistas para recapitalizar os bancos, em detrimento do uso de dinheiro público ou com custos para o Estado, ser ela mesma europeia. 

Mas aqui há uma nuance. A lei de Resolução de bancos que está já em vigor [aquela que chama os depósitos e obrigações seniores ao resgate]  não é a mesma que foi aplicada ao Novo Banco. O Novo Banco viu transferir as obrigações seniores para um bad bank. No modelo europeu as obrigações seniores são convertidas em acções do banco (capital). Aqui não foi assim, foram retiradas ao balanço o que parece ser a assumpção de que o balanço inicial do Novo Banco estava enganado. Para os investidores não é a mesma coisa perder todo o dinheiro que tinham investido em obrigações de bom risco e ficar ainda com acções que poderão depois vender no mercado, mesmo que com perdas.

Mas porque é que então o Banco de Portugal recorreu a um mecanismo que pode criar uma crise de financiamento aos bancos? Porque o Fundo de Resolução português não tem capital. Está esgotado com o Novo Banco. Os bancos do Fundo de Resolução não podem aumentar a exposição ao Fundo que detém o Novo Banco. Se fosse aplicada a lei europeia à letra isso diluiria o capital do Fundo de Resolução e não evitava as perdas deste. A operação do Banif teve um olho posto na situação do Fundo de Resolução que está focado no Novo Banco.

Quando tudo falha na gestão de um banco, ou quando o BCE determina que assim é, o que importa é encontrar uma qualquer solução de viabilidade. A certa altura vale tudo e não há opções perfeitas. É preciso capital num banco, alguém tem de pôr o dinheiro. Mas o que é verdade é que tudo, o BCE incluido, parece contribuir para uma sensação de insegurança. As leis e os seus agentes parecem autênticos fora-da-lei.

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Como o IGCP desvendou a factura socialista

por Maria Teixeira Alves, em 14.01.16

Não há milagres quando toca a balanços. Receitas (activos) de um lado, despesas - que quando superam as receitas são financiadas com dívida - (passivo) do outro. 

As promessas do Governo, as benesses, as reversões, os aumentos, tudo custa dinheiro ao Orçamento de Estado. Então o que pensou o bom do Costa e o bom do Centeno? "A gente dá já e paga depois. Se calhar já não estaremos cá nós para pagar. Logo se vê. A gente dá já, e ganhamos o eleitorado para irmos a eleições e ganharmos".

Assim vejamos:

A redução do défice público será mais lenta. O reverso da medalha é que entre 2016 e 2019 será necessário financiar nos mercados mais 10,9 mil milhões de euros

Os défices orçamentais previstos pelo Governo para o período 2016 a 2019 exigirão que o Estado português financie nos mercados 17,1 mil milhões de euros, o que representa um acréscimo de 10,9 mil milhões de euros face aos planos tornados públicos há apenas quatro meses (6,2 mil milhões, quase três vezes menos). O aumento é notado pela UTAO, a unidade técnica a trabalhar no Parlamento na sua última nota de análise à dívida pública.

Estes dados ficaram públicos (grande maçada) porque o IGCP, liderado por Cristina Casalinho, fez uma apresentação aos investidores onde consta aquele mapa.

O défice público será de 2,8% do PIB este ano, o que compara com a anterior previsão de 1,8% do PIB; e baixará para 1,5% em 2019, o que contrasta com a anterior previsão de um excedente orçamental nesse ano.

Segundo a UTAO isso significa em termos de necessidades de financiamento acrescidas: "O défice orçamental do Estado fixar-se-á em 5 mil milhões de euros, 3,8 mil milhões de euros e 3,1 mil milhões de euros em 2017, 2018 e 2019, respectivamente", o que configura "uma revisão em alta face à última previsão [comunicada pelo IGCP aos investidores em Setembro]". "Em termos acumulados, entre 2017 e 2019, será necessário financiar cerca de mais 9 mil milhões de euros do que o previsto em Outubro de 2015".

O Estado atira ainda 6,6 mil milhões de dívida do FMI para pagar depois da legislatura (sendo o custo médio da dívida do FMI de 4,7% e estando nos 2,6% os juros da nossa dívida a dez anos no mercado). Pois o Estado previa pagar antecipadamente ao FMI 16,9 mil milhões de euros, e agora diz que só vai reembolsar 10,3 mil milhões de euros.

Segundo o Negócios: «Como o défice previsto para este ano foi também revisto em alta de 3,2 mil milhões de euros para 5,2 mil milhões de euros, mais dois mil milhões de euros, conclui-se que, na legislatura, o acréscimo de necessidades de financiamento face à anterior previsão será de cerca de 11 mil milhões de euros, que terão de ser financiados nos mercados. Estas não são as necessidades totais de financiamento do Estado. Ao défice orçamental, será necessário adicionar compras de activos e as amortizações de dívida. Ao todo, entre 2016 e 2019, o IGCP terá de financiar 73 mil milhões de euros, quase tanto como o dinheiro pedido emprestado à troika. Este valor representa um aumento de 9 mil milhões de euros face aos planos de há quatro meses».

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Vem aí a grande crise?

por Maria Teixeira Alves, em 13.01.16

Como a decisão do Novo Banco pode provocar uma crise financeira em Portugal?

A decisão do Banco de Portugal de usar as obrigações seniores do BES para recapitalizar o Novo Banco está em vias de se traduzir num problema maior. Os bancos e fundos estrangeiros (BlackRock e Pimco incluidos) deixaram de confiar e não voltam a comprar obrigações de bancos portugueses. Deixem-me pôr isto nestes termos, se os bancos deixarem de conseguir colocar obrigações perdem uma importante fonte de financiamento. Resta-lhes os depósitos, os empréstimos do BCE e do Banco de Portugal. O Mercado Monetário Interbancário fica seriamente ameaçado. 

Aliás, esta medida europeia de usar a dívida sénior para recapitalizar bancos a que são aplicadas Medidas de Resolução poderá acelerar a crise financeira que quer o Royal Bank of Scotland, quer o Societé Generale já vaticinam para 2016.

Ver aqui e aqui os relatos dos dois bancos de investimento.

Basicamente a nova crise que aí vem tem várias frentes de contágio.

A moeda norte-americana tem valorizado à boleia da subida da taxa de juro em meados de Dezembro, determinada pela Reserva Federal (Fed) depois de analisar os dados económicos.

Os reguladores voltam a criar gatilhos para a crise financeira, em vez de a travar (por exemplo a lei que chama os depósitos acima de 100 mil euros e as obrigações seniores de bancos ao resgate, em caso de resolução podem ser gatilhos da crise de financiamento).

A deflação está mesmo à nossa vista e os bancos centrais não a vêem.

O petróleo a 30 dólares o barril, acrescido do facto de o FED ter retirado o estatuto de contraparte a bancos angolanos - A Reserva Federal dos Estados Unidos decidiu suspender a venda de dólares a bancos sediados em Angola por sistemática violação das regras de regulação do sector e suspeita de que o país possa estar a financiar redes de terrorismo - o que retira a capacidade de indexar o kwanza ao dólar (deverá passar a ser usado o euro), não ajuda o investimento angolano, sobretudo o investimento externo. Há quem diga que Isabel dos Santos poderá já ter mudado de lado no xadrez do poder do BPI, dizem que agora quer vender.

Na verdade o baixo preço de petróleo agrava não só a crise angolana mas também a crise económica do Brasil.

O Royal Bank of Scotland diz que as bandeiras encarnadas deste novo ano são claras: a queda contínua dos preços do petróleo – que pode chegar aos 16 dólares o barril -, a volatilidade na China(em vias de recessão), e diminuição do comércio internacional. A isto juntam-se ainda reduzidos créditos às empresas e o risco de deflação, problemas que foram já notórios nesta primeira semana de Janeiro.

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A explicação de Centeno para resolver o Banif

por Maria Teixeira Alves, em 13.01.16

"Perante a sucessão mais recente de circunstâncias e desenvolvimentos havidos neste processo, designadamente perante a incapacidade de construir um cenário de viabilidade a médio prazo para o Banif que fosse aceite pela Comissão Europeia, mas também perante o incumprimento já verificado nas condições da respetiva solvabilidade, com tendência acesa de agravamento face à possibilidade de ser ordenado ao Estado Português a recuperação do auxílio concedido em 2013, não parece restar alternativa outra que não passe pela resolução do Banif”.

Sobre as seis propostas para a compra do Banif:

O Ministério das Finanças, de Mário Centeno, informou o supervisor que não “tinha sido possível concretizar a venda do BANIF no âmbito daquele processo de alienação”, porque todas as propostas apresentadas implicavam auxílio de Estado adicional, conduzindo a que a alienação tivesse que ser realizada no quadro da aplicação de medidas de resolução.

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Houve alma na Mesa Marcada no Honorato

por Maria Teixeira Alves, em 12.01.16

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O Duarte Calvão é o anfitrião deste fantástico evento que distingue os melhores restaurantes e chefes. Decorreu em Lisboa, no Honorato do Chiado. 

Os vencedores são os clássicos Belcanto do José Avillez; o Ocean que fica no Algarve; e o Feitoria no Altis Belém. Houve um prémio para o restaurante "mais em conta", que foi parar à Taberna da Rua das Flores, num painel onde constavam a Cevicheria; o Ramirez; o Salsa e Coentros e a Tasca da Esquina (está a faltar-me um). Houve prémios revelação para o Cevicheria; para o Alma do Henrique Sá Pessoa no Chiado como novo Restaurante do ano e para o chefe revelação Leonardo Pereira (que cozinha no Restaurante São Gabriel). 

Uma boa iniciativa, acompanhada de excelente catering e vinhos, que promove a arte que é a cozinha. 

 

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David Bowie, até os génios morrem

por Maria Teixeira Alves, em 11.01.16

Morreu o ícone do meu tempo, da minha geração. Na verdade já era o ícone da geração anterior, quando eu nasci, Bowie já era rei (com o seu Space Oddity, com o Starman, com o Life on Mars); quando eu era adolescente o Bowie era o traço de bom gosto no gosto musical. Os fãs de Bowie eram outra coisa e prometiam ser qualquer coisa que se visse no futuro. 

Bowie também era pop, com o seu Let´s dance (no auge da minha recém-chegada adolescência), onde emana a frase que até hoje ecoa na minha cabeça, "because my love for you, will break my heart in two". 

Fui a um concerto de David Bowie em Lisboa. Penso que foi o último que deu cá.

Havia os músicos da década e havia o Bowie que entrava na categoria de génio. 

Tudo jogava a seu favor. A voz, as letras das músicas (lindas, como não tremer ao ouvir As long as we're together
The rest can go to hell I absolutely love you), a sensualidade da sua expressão corporal, os olhos, até a virilidade que emanava da sua figura franzina e hibrída. 

Como esquecer um refrão com esta letra "With your kiss my life begins, You're spring to me, all things to me
Don't you know, you're life itself".

No seu último album (Blackstar), lançado poucos dias antes de morrer, David Bowie cantou a própria morte. Não conheço melhor maneira de deixar este mundo.

David Bowie atravessou as últimas décadas, anos 70, 80, 90, morre em 2016. É um fim de uma era, o fim da era Bowie.

e ainda:

 

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António Costa regressa à Quadratura do Círculo para se justificar e defender o seu acto "democrático" de tomada de poder (será uma espécie de catarse?). O melhor de tudo é a cara impávida e seráfica de António Lobo Xavier de tão incrédulo. 

Pacheco Pereira começa ao ataque ao Governo do PS pela decisão do Banif. Costa vai levar pancada de Pacheco Pereira? Isto é uma novidade.

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Nóvoa versus Rebelo de Sousa

por Maria Teixeira Alves, em 08.01.16

Hilariante este debate. Vale a pena pela irritação de ambos os candidatos e os ataques mútuos em directo sem papas na língua. 

Sampaio da Nóvoa a tentar colar Marcelo Rebelo de Sousa às políticas do governo anterior. Penso que Sampaio da Nóvoa esqueceu-se que o governo anterior ganhou as eleições e que há mais pessoas a favor dessas políticas do que pessoas a favor de António Costa, de quem tem o apoio. Marcelo em vez de assumir com orgulho esse apoio, tentou escapulir-se dele. Mas de qualquer maneira, entre os dois não há dúvida. Nóvoa Never! 

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