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O BPI já não é o que era

por Maria Teixeira Alves, em 05.03.15

O BPI já não é o que era.

Foi um banco que nasceu e cresceu com a entrada de Portugal na CEE, hoje União Europeia, que nasceu no tempo das oportunidades, no tempo dos horizontes económicos, no tempo em que a iniciativa privada dava os primeiros passos depois de anos de economia estatal. Nasceu como banco de investimento. Foi crescendo por aquisições durante toda a década de 90, à boleia de privatizações e da moda das fusões e aquisições. M&A era um rótulo sexy, todos queriam gabinetes de M&A (mergers and acquisitions). Não foi há muito tempo, mas parece ter sido há uma eternidade. Artur Santos Silva era o banqueiro do pós-25 de Abril, que, a par com Jardim Gonçalves, dominavam a banca portuguesa moderna. Nessa altura regressavam também as velhas famílias de banqueiros, espoliadas pela revolução do proletariado, ou seja, pelo PREC. Espírito Santo, Champalimaud, Mello, partilhavam agora o estatuto de banqueiro com estes dois bancos novos, o BPI e o BCP. Os dois novos-bancos tinham em comum uma raiz accionista nortenha. Os empresários do norte eram parte da estrutura accionista fundacional. 

O culminar dessa fase de M&A chega com uma tentativa de fusão entre o BPI e o BES de Ricardo Salgado, decorria o ano 2000. No rescaldo da venda dos bancos do Grupo Champalimaud ao Santander e ao BCP Artur Santos Silva e Ricardo Salgado tentaram uma fusão. Mas excessos de protagonismo e/ou escassez de transparência da estrutura accionista do BES, condenam o entendimento entre os dois banqueiros. 

Foi exemplar a escolher a sucessão, Artur Santos Silva, quando em 2004 escolhe para sucessor Fernando Ulrich. O ex-jornalista, irreverente e destemido banqueiro, que se tornou conhecido por ser o l´enfant terrible da banca. Disse sempre o que pensava, foi sempre adepto da frontalidade e incomodou muita gente. É memorável a  reacção que teve à Oferta Pública de Aquisição que o BCP de Paulo Teixeira Pinto lhe lança de surpresa. Estávamos em Março de 2006. Fernando Ulrich, em plena conferência de imprensa diz sobre Paulo Teixeira Pinto que "para quem chegou à gestão bancária há pouco mais de um ano, está muito atrevido".

Durante a OPA as tentativas para romper a aliança dos três accionistas do BPI – então La Caixa, Itaú e Alianz – foram insistentes e quase estóicas. A Oferta Pública de Aquisição começou por ser lançada a 5,7 euros por acção, e durou mais de um ano, tendo em Abril de 2007, sofrido uma revisão do preço para uns estonteantes 7 euros por acção. Mesmo assim a aliança dos três grandes accionistas não foi quebrada. Não venderam e o BCP não comprou o BPI. Nunca mais os accionistas tiveram uma oportunidade de vender acções do BPI a 7 euros. Mas isso não abalou a confiança deles na comissão executiva de Fernando Ulrich.

Essa aliança accionista era o alicerce daquela equipe de gestores.

Em Outubro desse mesmo ano, a equipe de gestão do BPI propõe em alternativa uma fusão ao BCP. As negociações acabam sem sucesso no fim de Novembro desse ano. Os motivos foram vagamente mencionados. A imprensa tinha dado conta que o BCP pretendia que Filipe Pinhal, na altura presidente do BCP, fosse o CEO do futuro Millennium BPI e queria alterar o rácio de troca proposto pelo BPI para um que fosse mais favorável aos accionistas do BCP. Na proposta de fusão que apresentou ao Conselho de Administração do BCP, o BPI previa a entrega de uma acção do BPI por cada duas do BCP, um rácio que no mercado raramente se chegou a verificar.

Mas o BPI propunha ainda que fosse o banco a nomear o presidente da Comissão Executiva do Millennium BPI, ou BPI Millennium, e o BCP o "chairman". 

Por esta altura, o BCP chega aos 10% do BPI e este chega aos 5,2% do BCP. O que mais tarde vai ter um sabor amargo, porque em 2008 a crise do subprime arrasa a confiança no sector financeiro e as acções dos bancos caem a pique. As perdas nos balanços dos dois bancos foram pesadas. É mais ou menos nesta altura e na sequência da tentativa de se livrarem desta participação cruzada, que o BCP, já sob o jugo de Carlos Santos Ferreira, vende 9,69% que detinha no BPI a Isabel dos Santos, que passa a ser o terceiro maior accionista. Por essa altura a La Caixa detém 29,4% do banco e o Itaú 18,9%. E os direitos de voto continuavam limitados a 17,5%.

A entrada dos angolanos no capital do BPI leva a que em 2009, o limite de voto seja alterado e suba para 20%. A Sonangol era já uma accionista de referência do BCP. 

 

 A vida do BPI seguiu o seu curso paulatinamente, com resultados cada vez mais dependentes do banco que tinham em Angola, o BFA.

A crise de dívida soberana chega em 2010, e Portugal pede a intervenção da troika em 2011. Portugal passou a ser um incómodo para os investidores estrangeiros. Os brasileiros apressaram-se a abandonar o barco e saem do BPI.

O banco Itaú, histórico accionista do BPI, vende a sua participação em 2012. No final desse ano, o La Caixa era dono de 30,1% do BPI, e o Itaú tinha 18,9%. A Santoro tinha 9,99%. A Allianz continuava com os seus quase 9%. Em Abril, os brasileiros acabam por vender sua posição ao CaixaBank/La Caixa. Na altura, os catalães ficaram com os 18,87% do Itaú e sobem a posição para 49%. No entanto, a blindagem dos direitos de voto a 20% permitiu que não fosse lançada uma OPA. De seguida, o CaixaBank alienou uma fatia das acções a Isabel dos Santos, descendo a sua posição para os actuais 44,1%. Quanto à empresária angolana assegura o lugar de segundo maior accionista, com 18,6%.

A saída do Itaú e entrada da Santoro para o seu lugar de segundo accionista estratégico, vê-se hoje, provocou uma mudança irreversível. O BPI deixou de ter um núcleo de accionistas coesos. 

Nem os accionistas do norte (vide grupo Violas), agora já nas segundas gerações, são os fortes aliados da administração, nem o La Caixa é já o garante da vontade de Fernando Ulrich e Artur Santos Silva. Ambos querem crescer por aquisições mantendo o banco como está em termos de estrutura de gestão. A OPA do La Caixa servia esse propósito. Mas hoje não está lá um Itaú. Está lá uma empresária de um país que acaba de perder o estatuto de equiparável a banco europeu. O BCE excluiu os bancos angolanos da elite credível do sistema financeiro. Tudo graças ao caso BESA. Não podem querer banir um angolano de um mercado sem que ele retalie com a tentativa de controlo desse mercado. A resposta à situação do BCE ter passado a considerar o Banco Nacional de Angola como contraparte não-equiparável a bancos europeus, é esta expressa nas palavras do presidente da Santoro Mário Leite Silva: "Queremos criar o maior banco privado português"!

A proposta de fusão do BCP/BPI é essa demárche de guerra, contra a rejeição do BCE e contra a subestimação do La Caixa. 

Mas hoje, ao contrário de outrora, a voz de Isabel dos Santos contra a OPA, e a oposição de accionistas minoritários, forçou a administração do BPI a chumbar a OPA do La Caixa. A OPA que Fernando Ulrich queria. O preço é agora o argumento válido. Ao contrário do que aconteceu em 2007, quando nem 7 euros demoveu os accionistas de referência, agora o dinheiro conta. 

O conselho de administração do BPI recomendou hoje aos accionistas do banco que não aceitem a Oferta Pública de Aquisição (OPA) lançada pelos espanhóis do CaixaBank, tudo porque o conselho de administração "entende que o preço de 1,329 euros por acção oferecido pelo CaixaBank através da Oferta não reflecte o valor actual do BPI". E indica mesmo que o preço que reflecte o valor actual do BPI é de 2,04 euros por acção, a que "deverá ser adicionado o valor resultante da partilha (50/50) das sinergias anunciadas pelo Oferente, correspondente a 0,22 por acção". Chega-se assim a um total de 2,26 euros por acção, considerado justo pela administração do BPI. Um valor que é 70% mais alto do que o oferecido pelo CaixaBank no anúncio preliminar da OPA, a 17 de Fevereiro.

Veremos agora o grau de lealdade do La Caixa à gestão do BPI. Se se mantiver a força de outrora, os espanhóis sobem o preço. Se não for assim mantêm o preço e a OPA cai, ou deixam o BPI à mercê dos angolanos. Se isso é bom ou mau para o BPI? Se essa fusão com o BCP, liderada pela Sonangol, Santoro, Interatlântico, é bom para o país, e para os bancos, é outra conversa. Sobre isso, falar-se-á mais tarde. 

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Aspectos intrigantes da auditoria forense ao BES

por Maria Teixeira Alves, em 05.03.15

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 1 - «A comercialização de dívida emitida por entidades do ramo não financeiro do GES, a clientes do segmento "Private" não deve ser considerada como um incumprimento para efeitos das determinações das Cartas do Banco de Portugal ADM/2014/0016, de 14 de Fevereiro de 2014, ADM/2014/0033, de 25 de Março de 2014 e ADM/2014/0044, de 4 de Junho de 2014, na medida em que estes clientes não são classificados internamente pelo BES no segmento "Retalho"»

2 - A palavra CONFIDENCIAL no documento

3 - Na página 19 do relatório de auditoria especial - WB1 é referido sobre o «Despacho da carta do Banco de Portugal ADM/2014/0016 datada de 14-02-2014» que diz o seguinte: «o despacho da carta do Banco de Portugal ADM/2014/0016 datada de 14-02-2014, assinado por um Administrador do BES, refere o seguinte: "As medidas recomendadas nesta carta respeitam fundamentalmente ao ESFG e ao GES pelo que dadas as preocupações manifestadas na reunião do Conselho de 12 do corrente mês, não se considera justificado distribui-la por todos os membros do CA". O referido despacho menciona que foi dado conhecimento a um outro Administrador do BES.»

Comentários:

Porque carga de água é que os clientes do segmento private banking (portanto os que têm mais dinheiro, os mais ricos) não são considerados clientes de retalho? São institucionais??? E porque raio é que o Banco de Portugal aceita que os clientes de private banking não sejam considerados clientes de retalho? Por acaso não são clientes particulares como os outros? Ou há alguma discriminação ao facto de serem ricos? É que a justificação para não proteger os clientes institucionais (empresas) é precisamente a questão do conhecimento dos instrumentos financeiros e mecanismos subjacentes ao investimento em dívida. Um cliente institucional está habituado a emissões de dívida. Está habituado a analisar balanços de empresas e demonstrações de resultados. Sabe o que é um rating, o que é uma avaliação do risco, etc, por isso tem obrigação de saber que está a investir num título de dívida de uma empresa e dos riscos que está a incorrer. Agora um particular pode muito bem não saber. E tanto faz se tem uma conta de mil euros ou se tem uma conta de 300 mil euros. Não há, a meu ver, qualquer justificação para excluir estes clientes do "private" da protecção imposta pelo regulador, mas que entretanto que acabou por se desfazer para todos. 

Quanto à palavra Confidencial, é apenas uma gracinha. Apetece dizer que se não tivessem posto o carimbo de confidencial se calhar tinha sido mais confidencial. 

Um último comentário a esta decisão de Ricardo Salgado de esconder dos outros administradores a carta do Banco de Portugal que proíbe o BES de vender dívida do GES no Retalho. «As medidas recomendadas nesta carta respeitam fundamentalmente ao ESFG e ao GES pelo que dadas as preocupações manifestadas na reunião do Conselho de 12 do corrente mês, não se considera justificado distribui-la por todos os membros do CA». Hoje percebe-se que é nesta omissão que reside o cerne de toda a desobediência ao Banco de Portugal para prejuízo de milhares de clientes que foram enganados e por isso roubados.

P.S. Prometo uma análise mais detalhada a todo o documento.

 

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Não se me acaba o espanto

por Maria Teixeira Alves, em 05.03.15

Li esta notícia do Público que diz que o "Antigo primeiro-ministro [José Sócrates] entra na polémica de Passos sobre dívidas à Segurança Social". José Sócrates, directamente da choldra por suspeitas fundadas de corrupção enquanto era Primeiro-Ministro, está a escrever cartas aos jornais a fazer oposição política a Pedro Passos Coelho. A sério?!

Não se me acaba o espanto! Nem é só indignação pela lata, pelo descaramento autista, pelo topete do senhor (que na verdade não é inédito), mas sobretudo estranho este PS que devia ser o primeiro a dizer àquele seu irmão, associado, ou o que lhe queiram chamar, que não interfira no debate político porque não está em condições de o fazer. É acima de tudo muito suspeito este protagonismo que Sócrates recebe, apesar de estar preso. Para o PS voltar ao poleiro do poder neste país vale tudo?

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Fusão BCP/BPI, a epifania de Isabel dos Santos

por Maria Teixeira Alves, em 03.03.15

A proposta de fusão da sociedade de Isabel dos Santos, entre o BPI (onde a Santoro tem 18,6%) e o BCP onde a Sonangol, petrolífera angolana, tem 19,44%, é a alternativa que a empresária angolana propõe à OPA do espanhol La Caixa. Aliás, não é por acaso que o primeiro ponto da carta que a Santoro escreve aos CEO do Caixa Bank, BPI e BCP, é a reafirmação que é entendimento da Santoro que a oferta do Caixa Bank não reflecte correctamente o valor do BPI, nem por si só, nem o seu potencial de crescimento, nem o adequado valor das anunciadas sinergias. Por isso desde já a OPA do La Caixa não conta com o voto favorável da Santoro. Nem no Conselho de Administração que se realiza amanhã, quarta-feira, nem na Assembleia Geral que teria de ser convocada para votar a desblindagem de estatutos (condição de sucesso da OPA). 

Por isso esta OPA a este preço, de 1,329 euros, está já chumbada. Não tem condição de ter sucesso. O que resta ao La Caixa? Subir o preço, mas depois de negociações à priori com a Santoro. 

Mas Isabel dos Santos vai mais longe. Propõe uma fusão BCP/BPI. Porquê?

Todos sabemos que o BPI está num beco com estreitas saídas. Porque tem de vender dívida pública angolana, e ao mesmo tempo esta é uma fonte de receita essencial, ou tem de vender acções do BFA e descer abaixo do domínio e deixar de consolidar integralmente o banco comercial angolano nas suas contas e isso é um forte revés nos resultados, porque a actividade doméstica não é muito promissora para o banco liderado por Fernando Ulrich.

Ora para resolver este assunto o BPI precisava de comprar o Novo Banco (ainda assim talvez não chegasse para diluir o risco de Angola no balanço, mas já se verá). Para comprar o Novo Banco o BPI tem de aumentar o capital. O Novo Banco deve ir à praça lá para Junho. 

Ora os maiores accionistas do BPI são os grandes investidores numa operação de aumento de capital para comprar o Novo Banco. Preferia a Santoro acompanhar o BPI num aumento de capital onde teria de entrar com 18,6% do investimento? Não parece provável que esse cenário agradasse a Isabel dos Santos. Seria uma vez mais investir muito para mandar pouco. Angola, como se sabe, vai ter um ano difícil. 

O BCE, depois do que aconteceu ao BES Angola, passou a considerar o Banco Nacional de Angola como contraparte não-equiparável a bancos europeus.  Os activos angolanos passaram, a partir de 1 de Janeiro de 2015, para uma ponderação de risco de 100%. Isto significa, em primeiro lugar, uma pesada contracção do financiamento da banca internacional a Angola por força de um significativo aumento dos “spread”. A isto associa-se a queda do preço do petróleo. Os EUA passaram a produzir petróleo e o rácio oferta/procura puxou os preços para baixo. Abaixo dos 65 dólares por barril a Sonangol perde dinheiro, dizem os entendidos, baseando-se para isso nos custos de exploração do petróleo. 

A redução da procura chinesa e o fim do quantitative easing nos EUA (que levou à subida das taxas de juro e por isso os investidores trocaram commodities por activos financeiros com juros) também vem ajudar à queda dos preços do petróleo, o que se revelará uma tragédia para a economia angolana. O petróleo  representa 95% das exportações e 75% da receita fiscal de Angola. A dificuldade de investir fora de Portugal (implica a saída de dinheiro do país) é notória neste quadro macro-económico. Por isso Isabel dos Santos não tem grande interesse em ser um accionista minoritário de um banco português, se isso implicar ter de investir mais uns milhões. Por isso o La Caixa é o único que apareceu a suportar o financiamento da compra do Novo Banco. Mas para isso tem de votar com tudo o que investir. Se vai ter a maioria das acções quer a maioria dos votos. O fim da blindagem de votos a 20% no BPI é o grande busílis da questão. Mas para isso precisam do agreement de Isabel dos Santos. 

Mas a filha do presidente de Angola não está contente com esta solução. Ou o La Caixa lhe oferece um preço que compense sair do BPI (e na carta a Santoro diz que a sua participação no BPI não é meramente financeira, mas sim estratégica), ou então domina ela uma operação de fusão. Mas como tem pouco dinheiro para investir fora de Angola, teve uma epifania. Porque não negociar com a petrolífera do seu país, que é dona de quase 20% do BCP e conjurarem uma fusão. Bastava que os accionistas de ambos os bancos (La Caixa incluído) aprovassem a fusão em Conselho de Administração, depois levariam os termos da fusão à AG de accionistas. Em cada banco a fusão teria de ser aprovada por 75% dos votos emitidos em AG. 

Por fim criariam a sociedade da joint-venture, para onde os accionistas envolvidos na fusão passariam as suas participações - faziam a chamada fusão jurídica, precisando para tal de apenas ir ao notário - depois, a sociedade da joint-venture lançaria uma Oferta Pública de Troca aos accionistas, com termos de troca e, com sorte, com alternativa em dinheiro. 

A Sonangol (com a Interatlântico) e a Santoro (ou esta última se comprasse a participação à Sonangol) controlariam o novo banco nascido da fusão e logo a seguir, como segundo maior accionista, viria o La Caixa. Depois têm de escolher entre Nuno Amado e Fernando Ulrich para banqueiro o que não será tarefa fácil. Este cenário da fusão é o que mais convém a Isabel dos Santos e com ela tudo estaria bem. Não investiam muito (trocam acções basicamente) e ganhavam um colosso financeiro no país irmão. O La Caixa quer isto assim? Não. Se a fusão passasse o la Caixa vendia e saía de Portugal, quase de certeza.

Um coisa é certa, a compra do Novo Banco pelo BPI corre o risco de ficar comprometida para sempre. A complexidade de soluções que se apresentam ao BPI, e com o tempo que isso demorará a resolver-se, não deixa grande margem para chegar a tempo da venda do ex-BES. 

No cenário de o La Caixa vender, os angolanos teriam de arranjar dinheiro para comprar ao banco catalão a sua posição accionista. Isso também não é lá muito conveniente para os angolanos.

Em termos legais:

O BCP não pode participar em fusões porque está sob o jugo da Direcção da Concorrência Europeia, por causa de ter pedido ajuda ao Estado que ainda não está totalmente paga. Faltam 750 milhões. O BCP não os tem para pagar de antecipação. 

Aliás o banco do Nuno Amado, ao contrário do que sugerem os sites de notícias, não está muito entusiasmado com a proposta. Até porque acaba de passar por um período de dois anos de cortes de pessoal, para chegar aos 7.500 trabalhadores que tem hoje, e a fusão com o BPI voltaria a engordar os custos com pessoal cima do que ganharia em "income". O cost-to-income (rácio de eficiência) degradar-se ia de forma substancial. Os balcões duplicariam quase, e há substancial overlap de balcões entre os dois bancos. 

No comunicado o banco de Nuno Amado disse que «havendo interesse do Banco BPI, a Comissão Executiva do BCP manifesta a sua disponibilidade para analisar a referida operação, com respeito pelo circunstancialismo regulamentar aplicável». Refere-se aqui às necessárias autorizações do Governo português, da DGCom, dos reguladores nacionais e internacionais, da Concorrência nos vários mercados. Depois levaria certamente à venda de activos como remédios da Concorrência. O Governo português tem de pesar bem os prós e contras, e os despedimentos que daí surgiriam não são de descurar. Este será sempre um processo moroso, caso esta fusão entusiasme os accionistas dos dois bancos.

Mas o banco de Nuno Amado apressou-se a acrescentar: «mais se informa que o acima referido não pode ser entendido como garantia de que a operação venha a efectuar-se ou como significando que tenha sido tomada qualquer decisão relativamente à mesma». Ou seja, não se entusiasmem muito com isto.

Depois o BPI, enquanto instituição que está sob pendência de uma OPA, não pode tomar decisões quanto à fusão porque tem os seus poderes limitados à gestão corrente. Por isso a administração do BPI não pode votar esta fusão enquanto a OPA estiver a correr.

O La Caixa já fez o pedido de registo pelo que a OPA não pode ser retirada, a não ser que as condições de lançamento ou de sucesso não se verifiquem. O que pode acontecer se o La Caixa chumbar a OPA a este preço, assumindo que sem a Santoro não haverá condições para fazer passar a desblindagem dos votos.

Resumindo:

A fusão BCP/BPI poderá não passar de uma miragem. A não ser que o La Caixa dê o seu aval, mas só o daria se pudesse sair do capital vendendo os seus 44% no BPI, ou posteriormente vendendo a sua participação na joint-venture

A OPA só avança com um entendimento (dinheiro) com a Santoro. No limite a sociedade de Isabel dos Santos pode mesmo usar esse dinheiro para investir noutro banco. 

Para ambos os cenários serem realistas dois accionistas, pelo menos, têm de se entender: La Caixa e Santoro. Mas não chega. Nem assim chega. 

O Novo Banco corre cada vez mais o risco de ir parar à Fosun ou ao Bank of China. 

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À atenção da esquerda

por Maria Teixeira Alves, em 25.02.15

O candidato do PS teve um momento de redenção. Depois do elogio à postura inicial do Syriza – quando este estava na moda por ser muito irreverente contra o Eurogrupo, quando todos os opinion makers vaticinavam o fim da troika; do poderio alemão e do fim da austeridade, por decreto e vontade de Tsipras e de Varoufakis – António Costa viu-se indexado à derrota destas promessas (o governo grego percebeu que tem de ficar no euro e tem de cumprir a austeridade). O resultado das negociações dos gregos com o Eurogrupo prova que em países que têm dívidas excessivas, não há alternativa à austeridade.

Ora depois de ter pronunciado frases como esta "esta política de austeridade fracassou", António Costa apercebeu-se que estava a percorrer o caminho do Syriza, pois iria, mais cedo ou mais tarde, engolir as suas próprias palavras. Hoje surpreendeu tudo e todos quando, no Casino da Póvoa, diz que Portugal está a vencer a crise: “A situação de hoje é bastante diferente da de 2011″. Ora aí está. 

Já agora gostava de esclarecer que, a propósito de se dizer que a dívida pública está maior, é preciso distinguir a dívida bruta da dívida líquida. 

As emissões de dívida não são forçosamente reflexo de gastos versus receitas do Estado. Emite-se dívida porque os juros a pagar são bons e depois deposita-se esse dinheiro (a render juros) para usar quando for preciso (pagamentos que o Estado tem de fazer no futuro). Portanto à dívida emitida tem de se subtrair os activos (dinheiro aplicado), para se saber qual é então a dívida líquida (e esta está a baixar). 

De uma vez por todas usem o indicador Dívida Líquida para avaliar o grau de endividamento do país!

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Pode o BPI ainda sonhar com o Novo Banco?

por Maria Teixeira Alves, em 25.02.15

Vamos fazer as contas aos prazos da OPA do CaixaBank ao BPI?

O que diz a lei? Diz que a sociedade visada está limitada a actos de gestão corrente. O que à partida exclui aquisições, distribuição extraordinária de dividendos, etc.

A partir do momento em que tome conhecimento da decisão de lançamento de oferta pública de aquisição que incida sobre mais de um terço dos valores mobiliários da respectiva categoria e até ao apuramento do resultado ou até à cessação, em momento anterior, do respectivo processo, o órgão de administração da sociedade visada não pode praticar actos susceptíveis de alterar de modo relevante a situação patrimonial da sociedade visada que não se reconduzam à gestão normal da sociedade e que possam afectar de modo significativo os objectivos anunciados pelo oferente.

O anúncio preliminar foi lançado no dia 17 de Fevereiro último.

A lei diz que o Caixabank (oferente) tem de: Requerer o registo da oferta no prazo de 20 dias, prorrogável pela CMVM até 60 dias nas ofertas públicas de troca. 

Assim o Caixabank tem de pedir o registo da oferta (o que implica a CMVM ter de aprovar antes o prospecto) até ao dia 9 de Março. Se tudo correr normalmente. 

O registo de oferta pública de aquisição implica a aprovação do respectivo prospecto e baseia-se em critérios de legalidade.

A CMVM tem um prazo para dar o registo e o comunicar: A aprovação do prospecto pela CMVM, bem como o registo ou a sua recusa devem ser comunicados ao oferente no prazo de oito dias, em oferta pública de aquisição.

Os prazos referidos no número anterior contam-se a partir da recepção do pedido ou das informações complementares solicitadas ao oferente ou a terceiros.

Assim, a CMVM tem até ao dia 17 de Março para aprovar o registo. Se tudo correr sem contratempos e sem adiamentos dos prazos. 

O anúncio de lançamento da OPA pela CaixaBank deve ser publicado, em simultâneo com a divulgação do prospecto.

A lei diz ainda que:

O órgão de administração da sociedade visada deve, no prazo de oito dias a contar da recepção dos projectos de prospecto e de anúncio de lançamento e no prazo de cinco dias após a divulgação de adenda aos documentos da oferta, enviar ao oferente e à CMVM e divulgar ao público um relatório elaborado nos termos do artigo 7.º sobre a oportunidade e as condições da oferta.

Depois da aprovação do registo a administração de Fernando Ulrich tem aparentemente até ao dia 17 de Março para elaborar o relatório sobre a OPA. Isto é, para avaliar a OPA do seu accionista Caixabank. 

O que disse o BPI?

Nos termos previstos pelo artigo 181º do Código dos Valores Mobiliários, o Conselho de Administração do Banco BPI, S.A. deverá elaborar um relatório sobre a oportunidade e as condições da oferta no prazo de oito dias, contados a partir da data em que receba do oferente os respectivos projectos de prospecto e de anúncio de lançamento. Independentemente dos desenvolvimentos do processo da Oferta, o Banco BPI prosseguirá sem alterações e com inteira normalidade o seu plano de actividades, incluindo a anunciada candidatura à aquisição do Novo Banco, nos termos estabelecidos pelas Autoridades.

O Banco BPI garante que prossegue a candidatura ao Novo Banco.

Ora, há 15 instituições pré-qualificadas no processo de venda que têm até 20 de Março para apresentarem propostas não vinculativas

Ou seja, a proposta, sendo não vinculativa não obriga à aquisição, logo o BPI não está impedido de apresentar uma proposta não vinculativa à compra do Novo Banco apesar da circunstância em que se encontra (sob OPA). Ou seja, esta oferta não vinculativa não viola a "Limitação dos poderes da sociedade visada" (artigo 182º do CVM) aplicável a quem está na pendência de uma oferta pública.

Mas, e para a proposta vinculativa?

Há sempre a possibilidade de a OPA estar resolvida antes do fim do concurso do Novo Banco.  Isto é, se a oferta vinculativa à compra Novo Banco se fizer depois do apuramento do resultado da oferta.

É provável este cenário?

O prazo da oferta pode variar entre 2 e 10 semanas pois a CMVM, por sua própria iniciativa ou a pedido do oferente, pode prorrogar a oferta em caso de revisão, lançamento de oferta concorrente ou quando a protecção dos interesses dos destinatários o justifique.

Se a OPA demorar duas semanas entre fim de Março e princípio de Abril pode haver um desfecho da OPA. Se demorar 10 semanas, só lá para 25 de Maio estaríamos a apurar os resultados da OPA do Caixabank. Nessa altura ainda poderia estar a decorrer o prazo para apresentação das propostas vinculativas à compra do Novo Banco? É o que não se sabe.

Mas há excepções legais. Que nuances legais que podem ajudar à operação de compra do Novo Banco?

A lei prevê que a administração do BPI aprove actos que não sejam de gestão corrente, desde que se convoque uma Assembleia Geral do BPI para tal. Para isso essa reunião tem de ser convocada com 15 dias de antecedência (prazo mais curto que o normal). Depois da entrega da oferta não vinculativa, o BPI pode convocar a AG para este feito.

O BPI terá ainda de convocar uma Assembleia Geral para votar a desblindagem de estatutos, antes do fim do prazo da OPA, pois que é uma das condições de sucesso da oferta. Penso que o prazo entre a convocação e a realização da AG terá aqui de ser um mês.

Aparentemente terão de ser convocadas duas AG. Pois a excepção ao 182º, definido no número 1, alínea b, exige uma AG exclusiva para a excepção às limitações a que está sujeita a sociedade visada - o BPI - na pendência de uma Oferta. Ou sejam, a discussão da oferta vinculativa à compra do Novo Banco, terá de ser feita numa AG diferente daquela que votará a desblindagem dos estatutos do BPI para que a OPA prossiga. 

Ambos os temas exigem 75% dos votos emitidos em AG. 

 As deliberações da assembleia geral (...) bem como as relativas à distribuição antecipada de dividendos e de outros rendimentos, apenas podem ser tomadas pela maioria exigida para a alteração dos estatutos. Os estatutos dizem que são precisos 75% dos votos expressos. Mas diz também que todos os votos do BPI são emitidos e depois não são contados os que ultrapassam os 20%. Ou seja os votos do La Caixa são emitidos e são expressos na totalidade, mas apenas são contados em 20%. Votos emitidos ou votos expressos são a mesma coisa. Aliás a lei é explicita: 2 - Os estatutos das sociedades abertas sujeitas a lei pessoal portuguesa (...) não podem fazer depender a alteração ou a eliminação das restrições referentes à transmissão ou ao exercício do direito de voto de quórum deliberativo mais agravado do que o respeitante a 75 % dos votos emitidos. Isto é, 75% dos votos expressos não podem tornar mais difícil a desblindagem do que 75% dos votos emitidos. 

Há ainda outra questão em análise. O facto de o oferente ser espanhol está sujeito à lei espanhola.

O mesmo artigo (182º) do CVM, no número seis, diz que O regime previsto neste artigo [182º] não é aplicável a ofertas públicas de aquisição dirigidas por sociedades oferentes que não estejam sujeitas às mesmas regras ou que sejam dominadas por sociedade que não se sujeite às mesmas regras.

Aqui teremos de ver que regime legal rege o Caixabank, o oferente. 

Penso que o BPI pode avançar para o Novo Banco no que à lei diz respeito. Mas a grande dependência da OPA resulta do factor capacidade financeira. Aquisições exigem capital e o BPI terá de o pedir aos seus accionistas. A oferta vinculativa sobre o Novo Banco terá de ter no horizonte a capacidade financeira efectiva para a compra, caso venha a ser o vencedor do concurso. Isto é, o BPI terá de fazer um aumento de capital a tempo de concluir a aquisição. Se a OPA se atrasar, isso pode comprometer a demonstração da capacidade financeira na oferta vinculativa ao Novo Banco. 

O BPI terá de fazer uma oferta vinculativa ao Novo Banco já com a OPA do Caixabank a caminho do sucesso, ou já resolvida. A AG que votará a desblindagem deverá de ter em agenda uma autorização para um aumento do capital do BPI. 

Se a OPA falhar, o BPI só pode avançar para a compra do Novo Banco com o agreement dos accionistas para um aumento de capital. É preciso que os três maiores accionistas votem a favor desse aumento de capital.

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A vitória grega

por Maria Teixeira Alves, em 22.02.15

Encontrei esta boa análise (pela ironia) ao resultado das negociações entre a Grécia e o Eurogrupo, que decidi partilhar. Encontrei no mural de um amigo (Pedro Caçorino), que por sua vez citava um amigo. O autor do texto está citado em baixo.

 

ORA BEJÂMOS A GRANDE BITÓRIA DO SYRIZA !!!

1-Já não vai negociar com a troika, mas com as "instituições".
Os senhores que irão a Atenas já não são da troika, mas sim das "instituições". A parte chata é que são os mesmos e irão fazer exactamente o mesmo, culpa da nossa Ministra das Finanças
Mas, hey, houve uma mudança, grande Tzipras!

2-Os gregos já não irão cumprir o "programa", mas sim as medidas que constam no programa. Parecendo que não, é muuuuito diferente :))))). O Varoufakis é mesmo um génio, força, força companheiro Fakis, nós seremos a muralha d'aço, não rima mas a rima é um formalismo burguês, castrador e neoliberal

3-A vitória é certa, garante o valente Tzipras, mas por agora vamos ter de fazer um bocadinho de austeridade, um esforço revolucionário e patriótico. Antes também havia a tal austeridade, mas não era revolucionária. Agora o Papadopoulos ( O Zé lá da Grécia) sabe que estará um tudo nada pior, mas o amanhã cantará. Não se sabe quando, mas talvez ainda no séc XXI, a avaliar pelo progresso cubano ou venezuelano.

4- Má, muito má, a nossa Ministra das Finanças porque, em vez de defender a agenda do Syriza, resolveu, egoisticamente, tratar dos mesquinhos interesses dos portugueses.

A luta continua, a vitória é certa, a terra a quem a trabalha, e abaixo a burguesia e o grande capital neoliberal e isso.

José António Rodrigues Carmo

 

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BPI, BFA e Santoro que futuro?

por Maria Teixeira Alves, em 18.02.15

Vamos cá pensar na lógica desta OPA do Caixabank ao BPI e da relação que essa operação tem com o excesso de exposição do BPI a Angola desde que os investimentos naquele país passaram a ser ponderados pelo risco a 100 por cento e não a 20% como era antes da decisão do BCE. Esta decisão regulatória, que resulta do facto de o BCE ter retirado aos bancos angolanos o estatuto de equiparado a banco europeu, abriu no BPI uma fenda no capital de mais de três mil milhões de euros.  Isto porquê? Porque cada banco só pode ter 25% do capital em risco para cada devedor. Ora com o ponderador do risco em Angola a disparar o BPI terá de reforçar o capital ou reduzir a exposição a Angola. 

Quanto é que o BPI precisa de capital a mais para manter a maioria do BFA, e continuar a consolidar integralmente? Precisa de aproximadamente 12 mil milhões de euros. Ora a integração do Novo Banco dá-lhe o quê? Mais ou menos 5,5 mil milhões, porque são os 4,9 mil milhões, mais os impostos diferidos de cerca de 600 milhões. Mais coisa, menos coisa, pois que ainda poderão haver outras pequenas operações de libertação de capital no Novo Banco.

Ou seja, a compra do Novo Banco não chega per si para resolver o gap de capital provocado pelo excesso de riscos angolanos. O BPI terá de reduzir a participação no BFA para uma posição inferior a 50%, para deixar de consolidar integramente e passar a consolidar por equivalência patrimonial (linha a linha e não todos os activos e passivos). Em alternativa poderá vender dívida pública angolana (3,8 mil milhões é o que tem), mas nesta altura quem é que quer comprar essa dívida?

Serve isto para dizer que em troca de Isabel dos Santos (Santoro) votar a favor da desblindagem no BPI (e eventualmente vender acções na OPA) o banco de Fernando Ulrich "dá-lhe" uma fatia do BFA. É o que parece decorrer daqui.

Se o La Caixa tiver sucesso na OPA ao BPI, terá de haver dois aumentos de capital, um logo no La Caixa e outro no BPI para este comprar o Novo Banco. 

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Agora o Governo do Syriza diz que vai afinal pedir a extensão do empréstimo mas não do programa da troika. A Grécia "não se deixa chantagear com ultimatos”, dizia o primeiro ministro grego. Tsipras recusou um prolongamento do programa de assistência financeira à Grécia. Mas o  Schäuble foi contundente: “Enquanto o Governo grego não quiser nenhum programa, não preciso de pensar em opções”.

Isto quem manda é quem tem o dinheiro. 

Mais um bocado e o Syriza mantém a irreverência apenas para o uso da gravata

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Honi soit qui mal y pense

por Maria Teixeira Alves, em 17.02.15

Li este título: António Costa quer devolver carnaval aos portugueses

De repente assustei-me. 

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Teoria de tudo

por Maria Teixeira Alves, em 17.02.15

A história fabulosa e bem realizada (por James Marsh) de Stephen Hawking talvez não chegue a ganhar a estatuteta de melhor filme, mas nunca nos sairá do coração.

Várias coisas surgem à ideia quando se conhece melhor Stephen Hawking, o brilhante fisico teórico e cosmólogo britânico, emblemático ateu que considerava que Deus não cabia nas explicações da origem do mundo. O pai da teoria do buraco negro, depois por si própria rebatida, e da teoria do Big Bang na criação do mundo.

O mais curioso do seu ateísmo é ter casado com uma mulher crente e religiosa, que cantava no coro da igreja, Jane Wilde casou com ele apesar da doença esclerose lateral amiotrófica que lhe foi detectada e que lhe dava dois anos de vida em condições trágicas. O amor e a vida que teve apesar dessas circunstâncias são só por si a prova evidente da existência de Deus. Stephen Hawking teve uma família fabulosa (três filhos) como muitos não têm e foi reconhecido pelo seu brilhantismo em toda a sua carreira como investigador. É, claro está, britânico. Tivesse ele tido o azar de ter vivido em Portugal e teria tido uma vida trágica. Nunca teria casado, seria abandonado e ninguém lhe daria créditos para as suas teorias e estudos. 

 

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La Caixa com BPI para o xeque mate à compra do Novo Banco

por Maria Teixeira Alves, em 17.02.15

A chegar ao ponto de ter de apresentar ofertas para comprar o Novo Banco, e estando na corrida mais catorze concorrentes e entre eles estando o "abonado" Santander e o determinado grupo chinês Fosun, é chegada a hora da já esperada OPA do La Caixa ao BPI. Só com o La Caixa podia o BPI comprar o Novo Banco. E o Novo Banco, se por um lado permite ao BPI ter aquela posição de destaque que apenas ao de longe aspirou, por outro e desde que foram introduzidas alterações regulatórias ao sistema bancário angolano, permite resolver um problema urgente ao banco português: o BPI precisa de reduzir o peso relativo do BFA no seu balanço e uma forma de o fazer é aumentar o seu balanço. 

Vamos ver então se a OPA ao BPI tem condições de sucesso ou não. Os espanhóis do CaixaBank lançaram uma OPA sobre o BPI, propondo 1,329 euros por acção, e propõem-se a pagar pelas acções que ainda não têm 1,082 mil milhões de euros. 

A oferta, a pagar em numerário, está condicionada a que o CaixaBank supere os 50% do capital do BPI e à eliminação do limite de 20% dos direitos de voto no BPI. Para a supressão deste limite é necessário o voto favorável de 75% do capital representado na Assembleia Geral de Accionistas do BPI que se convocará para o efeito, no qual o CaixaBank apenas poderá votar por 20%. O histórico recente do BPI é de forte participação nas assembleias-gerais dos accionistas. Na última esteve presente 85% do capital (cerca de 64% do capital do banco teria de votar a favor da desblindagem). O catalão Caixabank é actualmente o maior accionista, com 44,1%, ou seja só precisa de comprar 5,9% para superar os 50% que exige na OPA. Mas ainda tem de fazer passar a desblindagem e o BPI tem ainda dois fortes accionistas, a Santoro de Isabel dos Santos com 18,6% do capital e os alemães da Allianz com 8,4%. No total estes três accionistas têm 71,1% do capital do Banco BPI.

A forma como esta OPA está construída sugere que o La Caixa deixa em aberto que a Santoro e a Allianz se mantenham no capital do BPI e participem na aventura da aquisição do Novo Banco. Mas para isso é preciso que seja o La Caixa a mandar. Estará Isabel dos Santos de acordo? Soube Isabel dos Santos desta intenção de OPA? Muito provavelmente sim. Seria difícil que Fernando Ulrich, que está obviamente de acordo com a OPA (daqui a 8 dias haverá o relatório do Conselho de Administração a pronunciar-se sobre a oferta), não avisasse uma das suas principais aliadas em Angola, onde o BPI tem a maioria do maior banco angolano. 

Já o grupo alemão aparece como um subtil aliado, pois no comunicado do banco espanhol é referida a intenção de manter  vigente a actual aliança de bancaseguros do BPI com a seguradora Allianz. 

O CaixaBank acredita que a oferta sobre o BPI poderá estar concluída no segundo trimestre de 2015. As instituições pré-qualificadas para a compra do Novo Banco têm até 20 de Março para apresentarem as suas ofertas de compra não vinculativas. Vamos ver se desta vez o BPI se funde com o ex-BES.

A ver se acabamos esta história dizendo a célebre frase: Que estranho caminho teve o BES de percorrer para chegar até ao BPI.

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Vão se ver gregos

por Maria Teixeira Alves, em 16.02.15

Reunião do Eurogrupo acaba sem acordo para a Grécia. Razão tinha Pedro Passos Coelho quando dizia que ideias e pretensões do novo governo grego eram conto de crianças.

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A maldição do Papel Comercial do GES

por Maria Teixeira Alves, em 16.02.15

Já se percebeu que a única via para pagar o papel comercial aos clientes do BES é conseguir vender o Novo Banco acima dos 4,9 mil milhões de euros. Se conseguirem, o remanescente (que reverte obrigatoriamente para o BES) será usado para pagar aos clientes do BES que foram induzidos a comprar papel comercial da ESI, Rioforte e ES Property, e para o qual havia uma provisão imposta pelo Banco de Portugal, mas que acabou na sucata.

Para serem ressarcidos na totalidade o Novo Banco teria de ser vendido por 5,6 mil milhões de euros, mais coisa, menos coisa. O que hoje toda a gente garante ser muito pouco provável. Mas também não é disparatado esperar um haircut nesse reembolso. 

Esta venda de papel comercial, quer aos balcões do BES e dos seus bancos (por exemplo BES Espanha), quer aos balcões dos bancos da ESFG (que era na altura a entidade supervisonada pelos reguladores) - por ex. Privée Suíça, ES Dubai, ES Bank of Panamá, etc - é o Calcanhar de Aquilles da actuação do Banco de Portugal. É aqui que reside a falha do regulador. Pois há pessoas que compraram papel comercial mesmo depois de 14 de Fevereiro de 2014, altura em que supostamente o Banco de Portugal tinha proibido de se vender tais títulos. Não se percebe porque é que o Banco de Portugal não proibiu completamente a venda de papel comercial do GES (em nome do tal risco reputacional, pelo menos), seja cá, seja fora, seja privado, seja empresa. Nem se percebe porque não tornou pública essa proibição. É o pecado mortal do Governador. De resto Carlos Costa não é o culpado da falência do BES, o culpado dessa falência são os accionistas e gestores do banco. O culpado da falência do BES e do GES é Ricardo Salgado claro, pois se era ele o responsável máximo. Não se pode branquear a culpa e chutar culpas para quem atacou o problema. 

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Dúvidas para Vítor Bento

por Maria Teixeira Alves, em 15.02.15

Neste artigo e especialmente nestas suas duas sentenças Vítor Bento parece defender uma espécie de fundo comunitário para pagar subsídios de desemprego e defende politicas keynesianas para "salvar" a Europa dos desequilíbrios estruturais.

A insistência dos Excedentários – por razões inerentes às suas funções de preferência social – em não prescindir de excedentes externos, contornando o seu dever de ajustamento, tem duas possíveis consequências. Insistindo-se na eliminação unilateral dos défices dos Deficitários, toda a zona euro ficará excedentária e o excedente será reciclado para financiar a procura e o emprego no Resto do Mundo, com sacrifício do bem estar social na Eurozona. Mas se, por outro lado, este bem estar quiser ser salvaguardado, então terá que se aceitar que aqueles excedentes terão que ser espelhados em défices noutros países da união monetária e que deverão ser reciclados (de preferência através de investimento e transferências) para financiar esses défices e colmatar a falta de procura global na zona euro.

(...)
 
O que coloca um importante desafio, cuja resposta deve constituir a principal preocupação da política económica da zona euro: como conciliar a necessidade de ajustamento das finanças públicas de cada país com a necessidade de promover a procura interna no conjunto da zona euro? Um maior orçamento (redistributivo) federal, com capacidade de endividamento da própria União e a reconciliação de alguns excessos de endividamento público individuais com um endividamento globalmente sustentável de toda a zona euro (como é o caso), serão condições necessárias, embora não suficientes. Por sua vez, a federalização dos subsídios de desemprego poderá ser um bom começo para a primeira, e um programa de despesa pública (preferencialmente na forma de investimento) suportado no orçamento comunitário e financiado pelos Excedentários será uma boa forma de reciclar internamente os seus excedentes externos.

 

Defende Vítor Bento uma teoria puramente monetária do ciclo económico? Isso não cria a ilusão que a inflação permanente cria crescimento económico eterno?

Espera Vítor Bento pôr os Estados a financiar a economia com o investimento público? Mas a procura justifica esse investimento?
E como é que espera dinamizar o investimento público sem agravar o défice público? 
Em alternativa defende que os países excedentários devem financiar o consumo nos países deficitários, isto significa que acredita no consumo como motor do crescimento económico por excelência? Defende Vítor Bento a política do dinheiro fácil? Não foi o excesso de crédito? E o crédito barato que conduziu à crise de dívida soberana?
No dia em que a procura dentro da Europa parar de aumentar o que é que acontece? A oferta e a procura equilibram-se? E o que acontece à Economia nessa altura? Nova deflação?
Não há no aumento das exportações esse aumento da procura que Vítor Bento aponta como sendo o busílis da questão?
Defende Vítor Bento que pôr a Alemanha a pagar o subsidio de desemprego dos gregos vai criar crescimento económico na Grécia?
 
Vítor Bento não fala da medida de quantitative easing adoptada recentemente pelo BCE. Não há nesta medida uma resposta a parte dos problemas apontados por Vítor Bento?
 
Será mesmo a crise europeia uma conflito entre nações ou será entre sectores económicos? Ler Michael Pettis.
Poderá a política monetária transformar uma Argentina num Japão? Ler Michael Pettis 

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João Duque sobre Varoufakis

por Maria Teixeira Alves, em 14.02.15

O (des)equilíbrio de Nash Varoufakis

No filme de Ron Howard “Uma Mente Brilhante”, John Nash está num bar com três amigos quando entram quatro raparigas, entre as quais uma loura fulminante que, com um olhar, arrasa, simultaneamente, os quatro jovens. Um deles cita Adam Smith: “Num ambiente competitivo as ambições individuais servem o bem comum”, isto é, cada um por si e logo veremos quem conquista a loura. Os rejeitados iriam depois ‘atirar-se’ às restantes.

Nash, inteligentemente, diz: — Adam Smith está errado e precisa de ser corrigido! — O quê? Como? — Se formos todos à loura, bloqueamo-nos uns aos outros e nenhum de nós a conquistará. Depois, iremos ter com as amigas. Mas elas, despeitadas por terem sido a segunda escolha, também nos rejeitarão. Hum... E se nenhum fosse à loura?... Nem nos atrapalharíamos uns aos outros nem desconsideraríamos as outras. Esta é a única maneira de vencermos e de todos conseguirmos uma miúda!”

Para concluir, Nash resumiu: “— Adam Smith disse que o melhor resultado para o grupo sucede quando todos se esforçam para obter o melhor proveito individual. E isso está incompleto, porque o melhor para o grupo sucede quando cada um faz o melhor para si e também o melhor para o grupo.”

Há situações em que, quando dois jogadores se defrontam e escolhem, cada um, o melhor para si, acabam por obter o pior para ambos, quando poderiam ter alcançado muito mais se, cooperando, atingissem uma posição de equilíbrio de Nash. Isto é, em que a escolha de uma opção aparentemente pior para cada um, ao ser a escolhida por ambos resulta no melhor para os dois e cada um individualmente…

O ministro das finanças grego é professor de Teoria dos Jogos e ensina aos seus alunos o equilíbrio de Nash. Na sua análise à situação grega já afirmou que, se a Europa insistir numa estratégia de confronto acaba no desastre da sua saída do euro e ambos perdem (Portugal e Itália seriam os primeiros a serem chacinados) e o euro desfaz-se como um baralho de cartas. O melhor seria a Europa aceitar o que ele quer, ganhando a Grécia e a Europa.

Mas, em lugar de ter apresentado o problema como um equilíbrio de Nash, apresentou-o como a única solução devolvendo o problema à Europa do mesmo modo que criticou quando lhe impuseram o resgate. E será este um equilíbrio de Nash? Isto é: 1) Será que o que é melhor para a Grécia, tal como propõe, é também o melhor para a Europa? 2) E se Varoufakis e Schäuble forem ao mesmo tempo à loura, será que se iriam atrapalhar um ao outro ou, pelo contrário, não correria ela para os braços do alemão, deixando o grego só e abandonado também pelos despeitados investidores?

 

Expresso, 14 de Fevereiro

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Dia Mundial da Rádio II

por Maria Teixeira Alves, em 13.02.15

 

A Menina da Rádio, no tempo em que ainda se chamava telefonia.

 

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A melhor maneira de celebrar o Dia Mundial da Rádio

por Maria Teixeira Alves, em 13.02.15

Os Dias da Rádio, by Woody Allen

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Varoufakis troca gravata por cachecol Burberry

por Maria Teixeira Alves, em 11.02.15

É conhecido o orgulho do partido de esquerda grego que está no Governo de banir as gravatas. Deduzo que o aspecto simbólico da gravata tenha a mensagem de se apresentar como anti-capitalista. Mas esqueceu-se de banir o cachecol Burberry, ícone do luxo inglês. Cada cachecol custa quase 400 euros, só para esclarecer.

Psst Varoufakis, esse cachecol fica péssimamente com essa camisa....

FMI. Lagarde dá a mão a Varoufakis

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Paulo Portas entre duas mulheres

por Maria Teixeira Alves, em 11.02.15

Por esta (de estar a ser motivo de duelo entre duas mulheres) é que ele não esperava. Caramba!

E ambas do mesmo partido, imagine-se. 

Será que é razão para estar orgulhoso?

Moral da história: Isto só podia acontecer no PS.

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