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Transportes públicos

por henrique pereira dos santos, em 10.10.17

Quando a troica aterrou, infelizmente, o problema do financiamento dos transportes públicos não foi devidamente atendido:

1) A troica queria manter o valor global do financiamento tão baixo quanto possível;

2) Sócrates queria disfarçar o mais que podia a herança que deixava, sabendo perfeitamente que boa parte da desorçamentação tinha sido feita à custa dos prejuízos e dívida das empresas de transporte.

Daqui resultou uma situação complicada: o Estado português passou a ter de reequilibrar financeiramente estes empresas quando não tinha dinheiro para mandar cantar um cego.

O objectivo principal não era resolver o pesado fardo do endividamento (que tem condicionado fortemente a gestão destas empresas e potenciado a sua degradação progressiva), isso ficaria para depois, mas equilibrar a operação, evitando o crescimento contínuo da dívida.

O governo de Passos Coelho (em especial, Sérgio Monteiro) meteu  mãos à obra e com cortes de despesa, diminuição de serviço e aumento de preços praticamente equilibrou as contas das empresas de transporte, tendo-se esforçado para chegar ao ponto em que esse equilíbrio permitisse a concessão dos transportes (na maior parte dos casos) ou a privatização das empresas (como na TAP) para lhes permitir encontrar o capital de que precisavam desesperadamente e que o Estado não estava em condições de disponibilizar.

Todo este processo foi feito com a oposição sistemática de grande parte dos partidos, dos jornais, do comentariado e dos sindicatos, quer com alguma razão (alguns suplementos remuneratórios tinham sido negociados para que os trabalhadores se reformassem, por exemplo, sendo discutível a razoabilidade da alteração contratual posterior), quer por puro combate político, em especial do PC, através da CGTP, calvagado alegremente pelo BE e pela ala irresponsável do PS.

Lembro-me, nessa altura, do barulho que foi feito com a hipótese de fechar o metro de Lisboa às onze (em vez da uma da manhã) para diminuir custos operacionais, num país em que aparentemente ninguém repara que o metro só começa às seis e meia da manhã, deixando milhares de pessoas de rendimentos mais baixos (em especial muitas, muitas mulheres suburbanas) com transportes menos eficientes para chegar ao seu trabalho nas nossas casas, escritórios, lojas, etc..

Neste processo perdeu-se alguma qualidade do serviço, o que foi prontamente atacado pelos apoiantes da actual solução governativa.

Mal este governo entrou em funções suspendeu as concessões que tinham sido sujeitas a concursos internacionais, com argumentos relacionados com a melhoria da qualidade do serviço que se pretendia fazer (argumento incompreensível, por exemplo, no metro do Porto, que já era, e é, uma concessão).

Ao mesmo tempo desviou o pouco dinheiro disponível para satisfazer as clientelas e dar poder aos sindicatos, com base na conversa da devolução de rendimentos, sem que, no entanto, tenha reposto os preços anteriores à troica e que foram considerados excessivos para efeitos de propaganda, misturando a perda de passageiros decorrente do desemprego com um suposto efeito de aumento dos preços na utilização do transporte público (como se boa parte dos seus utilizadores actuais tivessem alguma alternativa consistente).

Dois anos passados é já possível fazer um balanço: diminuição da qualidade do serviço no metro de Lisboa, diminuição da capacidade de fazer manutenção de equipamentos a sério, dificuldade de fazer a renovação de autocarros, barcos parados e supressão de carreiras, degradação da qualidade dos indicadores económicos e financeiros dessas empresas.

Ou seja, prejuízo para os contribuintes (pagam menos para receber menos serviço), prejuízo para os utentes (diminuição da qualidade do serviço), ganho de curto prazo para os trabalhores e um grande balão de oxigénio para os sindicatos, aliás uma compensação mais que justa pela paz social que tem sido dada em troca.

Um bom exemplo de como a discussão sobre privatização ou não privatização é, em algumas circunstâncias, uma mera cortina de fumo para o Estado não cumprir as suas obrigações para os com os mais pobres e frágeis da sociedade e para se deixar capturar pelos poderes fácticos.

Declaração de interesses: sou um utilizador quase obsessivo de transportes públicos e falo, portanto, dos meus interesses neste post, embora não chegando a falar do transporte a pedido em áreas de baixa densidade, matéria que, aparentemente, comove muito pouca gente no país: o que interessam uns velhos que não sabem ou não podem guiar perdidos numas aldeias sem transportes e quase sem ninguém quando comparado com o interesse dos maquinistas do metro?

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3 comentários

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De João Sousa a 10.10.2017 às 20:18

Já agora, acrescento uma coisa: prejuízo para os utentes que pagam mais E recebem a diminuição da qualidade do serviço.

Eu desde o início do governo de esquerda que ando a bater nesta tecla: o Metro é a mais evidente demonstração da hipocrisia sindical. No tempo do anterior governo, faziam greves porque "não lhes davam condições para prestar um bom serviço público". Agora, quando que as carruagens continuam a avariar, as escadas rolantes continuam a avariar, as bilheteiras estiveram semanas no ano passado sem papel e a sinalização está presa por pastilha elástica (ou seja, já é a própria segurança de circulação que começa a estar em causa), os sindicatos estão caladinhos. Pelos vistos, já não sentem falta de condições para prestar um bom serviço público.
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De Anónimo a 11.10.2017 às 16:41

Dois anos passados é já possível fazer um balanço: diminuição da qualidade do serviço no metro de Lisboa

A diminuição da qualidade do serviço vem do tempo do governo de Passos Coelho. Foi esse governo quem diminuiu a frequência dos comboios e quem eliminou o investimento em material circulante. O atual governo apenas prolongou essa situação.

Não vejo portanto razão para a expressão "Dois anos volvidos".
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De Nuno a 12.10.2017 às 17:36


O actual governo, que fez mudanças importantes de estratégia, está lá para prolongar ou para resolver a situação?


À excepção da paz sindical (visto que os trabalhadores deixaram de se manifestar contra a falta de condições para prestar um bom serviço), melhorou alguma coisa nos transportes públicos?

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