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Vamos hoje para a varanda? (58)

por João Villalobos, em 05.01.09

Recomeçamos o círculo dos dias. Como alguém que receia atravessar o deserto e por isso caminha em volta dos seus próprios passos, assim por exaustão se afasta o destino e o que lhe deu início, se dissolve a origem de tudo o que não chegará a ser.

Enquanto rodeamos, com excessiva cautela, as arestas de cada ausência ou por dizer repetes a palavra perdão
Mas perdão para quê?  Não há redenção para quem me tornei; morno, incapaz de exultar até mesmo perante a visível claridade que irradia este espaço, tu e eu.

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Vamos hoje para a varanda? (54)

por João Villalobos, em 14.12.08

Queres que escolha um momento, de entre os poucos que sobram retirados os muitos que nunca existiram? Há uma tarde que se repete vezes sem conta e, dentro dela, actos e gestos banais excepto para quem, como nós, apenas os imagina.

Tão diferente é a vida de outros, sem que apercebam o que não lhes falta.  

O que pretendo dizer-te é que guardo dessa tarde o seu fragmento mais quotidiano, o mais corriqueiro. Quando te sorri, sem que soubesses porquê.  

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Vamos hoje para a varanda? (52)

por João Villalobos, em 10.12.08

 

Gosto da forma como danças quando não estou a ver-te.

E também do céu que te envolve sempre que abres as mãos. 

  

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Vamos hoje para a varanda? (50)

por João Villalobos, em 08.12.08
 
Sonho é uma palavra que me cansa. E cada vez maior é a fadiga ao percorrer essas duas sílabas com a extensão do mundo.
Há um tempo na minha noite em que te estendes. Dou por ele quando  acordo, encolhido o desejo, a tua pele colada à minha como um casaco velho impossível de guardar.
E no entanto, não é um sonho esse momento em que te vivo. Chamo-lhe antes um intervalo uma ponte um aqueduto, cuja água flui apenas durante a noite, em direcção à sede.  

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Vamos hoje para a varanda? (48)

por João Villalobos, em 04.12.08

 

É um dia sem mar e apenas rastos de sal sobre a areia o vestígio de existires. Nas mãos seguro um búzio, espiral que é esse Tempo de que falas, e dentro dele sopram vozes tão longínquas como a tua, sem que as entenda.

Metálica é esta manhã sem água e o som da tua ausência. Morna é a espera de coisa nenhuma que encerra presságios de nada. Quando regressas?

Fotografia de João Alvim

 

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Vamos hoje para a varanda? (46)

por João Villalobos, em 02.12.08

Contorno os sinais do teu coração com a lentidão dos eléctricos. Falas do Inverno como algo que aconchega e da vida na contradição das sombras que acolhem o sussurro dos amantes. É isso que somos, mesmo sem alguma vez bebermos dessa taça de onde transborda a água da vida e da morte?
No bolso colecciono números de telefone e nenhum deles o teu. O silêncio é onde nos deitamos e uma janela para jardins sem música, selvagens de tão vermelhos.
Digo-te ainda: Para o que ficou por resolver de pouco serve o tempo mas de tudo a vontade. E as palavras nada.
Imagem: Red Garden, Edwina Wardle, Acrílico sobre tela.

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Vamos hoje para a varanda? (44)

por João Villalobos, em 27.11.08

À nossa frente um caminho branco mas agreste e cercado por árvores caídas. E a seu  lado outro, aparentemente mais fresco, um onde as sombras se deitam e nada ofusca ou parece cansar. 

Ambos se estendem enquanto ao longe escutamos a música de água que corre sem que se perceba de onde vem. Por momentos, hesitamos. Depois, esses momentos tornam-se dias e estes semanas. Meses, até.

Há então um pássaro que se levanta e voa, que escolhe um dos sentidos indiferente ao nosso espanto. Tomamo-lo por um presságio, seguimos a direcção das suas asas como um gesto inesperado provoca outro. É a escolha, finalmente leve...Ou assim pensamos... Até que o caminho se divida uma vez mais.

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Vamos hoje para a varanda? (42)

por João Villalobos, em 23.11.08

 

 «Como uma mentira perfeita». Assim é, na verdade, a soma destes dias por viver. 

A minha mão sobre o teu corpo que não estremece, os meus olhos que nada guardam ofuscados por essa vontade indizível, sobre eles uma venda tão inútil quanto a boca fechada contigo lá dentro.

Essa calma de que falas é uma casa aberta. Mas não sei, ao entrar, o que esperas que transporte nos braços para além do teu nome. Só tenho para dar-te pão fresco pela manhã, verdes aromas em folhas de chá, a fervura da água e dos meus beijos. 

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Vamos hoje para a varanda? (40)

por João Villalobos, em 17.11.08

Com  a chama de uma vela acendo outra. Ambas, agora lado a lado acesas, são duas metades de um mesmo fogo. Com algumas palavras acendo outras tuas e este lugar partilha um mesmo incêndio.

Crês que a luz de um acompanha a luz do outro? Que respiro ao teu lado quando dormes, com o sono agitado dos gatos quando a noite...? Não sei. Talvez vejas cada frase apenas como o aceno de alguém que adia o momento da partida. Enquanto assiste, com intuitiva clareza, ao derradeiro crepitar do coração.

 

Imagem: Gerhard Richter, Two Candles

 

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Vamos hoje para a varanda? (38)

por João Villalobos, em 09.11.08

Passei dias longe das palavras. Ou antes, elas é que recusaram vir comer à minha mão, em cada tentativa logo se apagavam, como uma escrita a giz desfeita, deixando-me apenas pó quando morriam sobre os dedos. 

O amor é o que me impede de amar-te. É somente isto o que consigo dizer-te, depois  de todo este tempo sem um sorriso teu pela manhã.

Nota bem: Foram as palavras que andaram fugidas como cães na escuridão. Não eu. Eu estive sempre aqui. À espera dessa frase que nunca veio. Essa outra que não aquela que te escrevi. 

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Vamos hoje para a varanda? (36)

por João Villalobos, em 03.11.08

 

Às vezes a distância é um postal por escrever. Momentos existem em que a tua ausência se espalha como um segredo mal guardado e arrefece até os dias que guardo por viver-te. É não estares que faz chover por dentro de quando em quando. Ontem foi uma tarde assim.

Em outras horas, na maioria delas, a distância é este barco oscilante que enviamos, de uma margem a outra, com as palavras por remos e dentro dele o Sol. Habitamos a água, não a terra. E líquidas são também as memórias que a fome nos impede de guardar.

Fotografia de Emmanuel Correia

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Vamos hoje para a varanda? (34)

por João Villalobos, em 30.10.08

 

 

Desconheço que flor, se gatos ou cães, sequer onde nasceste. Apenas conheço de ti essa luz que entregas. Não te levei ainda a um lugar onde as árvores conversam, antigas como avós. Ou até aos dias em que era pequeno e falava alto com alguém que os outros não viam. Quase como agora.
Qual a cor, qual o sabor e em que dobra secreta da tua pele acordas quando te beijam? Hoje chove. Gostas da chuva? Às vezes não sei quem és fora de mim.

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Vamos hoje para a varanda? (32)

por João Villalobos, em 28.10.08

Um origami é um trabalho de paciência enquanto os dedos esculpem a folha com exactidão. É indispensável a calma, dizem. Eu não o sei, nervoso, inábil, desacostumado à espera.

Sonhaste-me feito de papel. Talvez o seja. Aqui, um para o outro, somos apenas pássaros cartonados, incapazes de voar. Não imóveis, isso não, mas girando lentamente em círculos como cisnes num pequeno lago.

Um origami pode atingir a perfeição,  dizem também. E eu pergunto-te: Será isso o que nos resta?

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Vamos hoje para a varanda? (30)

por João Villalobos, em 17.10.08

 

Falas de futuro e eu sem que ele me ouça. Não acreditas em dias marcados mas aqui estou, vivendo com o peso de cada um deles nos passos adiados que não sei guardar. Mais ímpares do que pares foram os instantes tornados anos e hoje atravesso sem cuidado outros iguais. 

Pedes-me uma data, mas porquê? Acaso estarias tu, nessa hora marcada, à minha espera? Estendo o braço com a mão aberta e assim permaneço. Alguns minutos bastam para que o formigueiro nos dedos anuncie a  tua pele. Calor e vento se misturam e regressa na vontade de ti uma música entretanto esquecida e o riso, um riso de olhos abertos cuja mãe és só e exclusivamente tu, princípio e fim do tempo. O meio entretanto perdido por entre as linhas.   

 

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Vamos hoje para a varanda? (28)

por João Villalobos, em 14.10.08

Queres saber «de que material é feito» o meu coração. Então seja. Mas desculpa-me que te responda em inglês: Patchwork

Entendes? Espero que não, mas por ti apenas. Um amálgama de vários tecidos e diversas cores, desde a seda à lã mais áspera, do verde água ao vermelho óbvio sangue. Não minto. Ainda não te menti (Não compreendo sequer por que razão necessito de afirmá-lo). Nesse dia por ser nosso verás. 

Ah! A velocidade? Podes chegar devagar ou muito muito depressa, por vezes de surpresa e outras porque te peça. Tanto faz.

 

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Vamos hoje para a varanda? (26)

por João Villalobos, em 12.10.08

Aos poucos vou conseguindo atravessar estes dias de porcelana. Ao colocar em cada passo o cuidado necessário para contornar uma falésia aproximo-me de ti, ou assim prefiro acreditar. Múltiplas vozes observam os pássaros que pairam sobre os meus ombros e pressagiam a queda inevitável.  Depois, é outra vez manhã.

(Dir-se-ia que nunca mais chove. Estou cansado deste calor, desta espera, desta qualquer coisa que ferve, sem outro nome excepto aquele que me recuso a nomear)

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Vamos hoje para a varanda? (24)

por João Villalobos, em 07.10.08

O tempo deve percorrer com o amor todos os lugares, escreveste.  Bem tentei - nestes dias de ausência  - viver sem ti num lugar onde o amor não interrompesse o ruído do tempo, submerso pelo mar.

Foram dias de sol e vozes roucas percorrendo a areia com o contentamento dos cães. Tu não existires abria-me o apetite logo ao acordar; a manhã um espaço imenso por preencher, ou assim o acreditei.

E no entanto aqui estou, outra vez neste caminho que é apenas nosso e cansa quem simula percorrê-lo, lendo as palavras largadas ao andar, como quem toca com os dedos a cicatriz de uma ferida cuja dor nunca sentiu. Um caminho que me afasta em direcção a esse lugar onde nada me espera. Excepto, mais uma vez, recomeçar.

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Vamos hoje para a varanda? (23)

por Maria Inês de Almeida, em 03.10.08

 

 

À pergunta: Por que é que escreve? Saint-John Perse respondia com a usual naturalidade: Para viver melhor. Se calhar, também nós o fazemos por isso e para nos encontrarmos mais perto um do outro. As palavras, sem qualquer disciplina, empurram-nos para a varanda e o prazer é tão certo e virginal que não se consegue viver na quietude de não ter mais. Mas o tempo deve percorrer com o amor todos os lugares para um dia podermos ter os melhores momentos. Talvez aqui, onde tudo se funde, haja temperaturas absolutas. 

Sei que a vida, às vezes, é triste e que os dias parecem lentos, mas “só tenho a impressão que és muito contente”.

Com e sem gravata.

 

 

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Vamos hoje para a varanda? (22)

por João Villalobos, em 02.10.08

«Imensa a extensão das águas, mais vasto o nosso império nas câmaras fechadas do desejo». Foi Saint-John Perse quem o escreveu.  E ainda: «Amar é também agir». Um amor que não age é uma vontade desprezivelmente morna, não te parece?

(Repara como escrevi enfim a palavra até agora proibida).

Hoje descobri, no interior de um livro, um postal enviado por alguém cuja língua não é a nossa. Reli a frase, em português assim mesmo escrita: «Tive a impressão que não és muito contente». Doze anos passados, continuo a não ser muito contente. 

É-me impossível atravessar a imensidão das águas. As horas têm outras horas dentro delas, o tempo é uma boneca russa por abrir, selada com o teu nome.

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Vamos hoje para a varanda? (20)

por João Villalobos, em 01.10.08

 

Impossível não teres reparado em como sou incapaz de fixar os teus olhos abertos. Ao mesmo tempo e apesar desse tremor que me acobarda, só eles me guiam à medida em que percorro este labirinto de infinitas escolhas e outras tantas desistências.  
Cada dia um pouco mais cansado do que no anterior; Assim continuo esta trajectória cujo padrão desconheço. Por vezes, temo-a uma espiral descendente da razão, que tudo fique progressivamente mais escuro até os teus olhos finalmente se fecharem, impacientes.
Dizes-me que jamais, que esperarás até chegar o dia, diferente de todos os outros. Mas, sei-o bem, há manhãs que não nascem para quem vacila ou escolhe apaziguar as mãos. A esses, na curva do labirinto, aguarda-os o Minotauro.

 

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