Tem razão o João Ferreira do Amaral quando conclui, aqui em baixo, que Portugal não precisa de um chefe de Estado que assuma o propósito de fazer difícil a vida ao governo. (...) Que sentido fará eleger, por sufrágio directo e universal, o chefe de Estado, que assim carrega uma legitimidade em tudo idêntica à de outros órgãos de soberania? Não faria mais sentido que o chefe de Estado estivesse revestido de uma legitimidade diferente e historicamente qualificada? Não seria preferível termos um Chefe de Estado independente e que fosse, a cada passo, mais do que ele próprio? Que fosse ao mesmo tempo, ele e todos os que o antecederam? É que muito mais importante do que o poder - necessariamente sempre limitado- é a autoridade. E a autoridade do Rei é dos mais preciosos activos políticos.
Nuno Pombo no 31 da Armada
No princípio de Abril de 2008, o antigo presidente Jorge Sampaio deslocou-se à Universidade de Aveiro para um doutoramento honoris causa. Pregando um sermão fértil em agitação interior, Sampaio avisou que não alinhava no "campeonato das lamúrias". E acrescentou que Portugal precisava de "uma iniciativa privada que não esteja sempre com lamúrias".
Durante os dez anos em que ocupou o Palácio de Belém, Sampaio bateu-se ardorosamente contra a lamúria e os lamurientos. Num dos seus discursos afirmou: "Para quem, como eu, tem feito da luta contra a lamúria um desígnio prioritário." Estava certo. (…) Em 2005, numa visita oficial ao Chile, disse que "não é com lamúrias e braços caídos que os problemas se resolvem". Triste destino de Passos Coelho. Caso se chamasse Jorge Sampaio, teria a vida mais facilitada. (…) Só que Passos Coelho não é Sampaio. Também não é José Sócrates, que no seu tempo fez uma expedição ao Oeste, elogiando os agricultores da zona por "não ficarem na lamúria". Vergonha, José. (…)
Às vezes o que mais deprime em Portugal não é a pieguice ou a lamúria. É sermos tão previsíveis e inconsequentes, ao ponto de uns continuarem a achar que têm o monopólio do coração e outros fecharem os olhos à verdadeira desvergonha.
Pedro Lomba hoje no Público. Ler versão intergal na versão papel.
Se a Restauração vier, virá para aprofundar a liberdade e a união de todos os portugueses. Foram cem anos perdidos, de bagunça seguida de ditadura e ditadura seguida de bagunça. Que venha, pois, o tal REFERENDO.
O senhor Presidente da República acha perfeitamente normal e possível que a economia nacional seja alimentada pelo investimento e pela despesa pública e que o Estado se endivide o necessário e o suficiente para manter bem gordinhas as empresas que só sobrevivem com as obras e os consumos das autarquias, das regiões autónomas e da monstruosa administração central. (...)
A determinação (do Iº ministro em cumprir o acordo com a Troica) é boa e obviamente que um governo responsável não tem mesmo outro remédio. Mas como há muitas maneiras de levar a água ao moinho e o hábito faz o monge, é preciso avisar Pedro Passos Coelho de que aumentar impostos não é de certeza o caminho certo para Portugal, os portugueses, a economia e o emprego. Cumprir o programa pelo lado da receita é matar de vez o crescimento económico e atirar mais portugueses para a miséria absoluta. Ler mais»»»
António Ribeiro Ferreira no jornal I
Por detrás duma aparentemente equilibrada apreciação à polémica da eliminação dos feriados, o editorial de hoje do jornal i da autoria da Ana Sá Lopes esconde algumas contradições que eu gostaria de aqui salientar.
A cronista defende um esvaziamento simbólico das duas efemérides, nomeadamente que a República, “é um dado adquirido e irreversível”, cujas comemorações “já não comovem ninguém”, e na mesma lógica, uma suposta minoria de monárquicos não justifica a continuidade do dia da Restauração da Independência. Estes dois argumentos confluem num surpreendente equívoco: então porquê o ribombante remate ao texto, com a afirmação de que, a confirmar-se a eliminação dos dois feriados civis, “a derrota da UGT foi mesmo em toda a linha”? Precisamente porque estamos no âmbito do simbólico é que esta conclusão me parece contraditória.
Mas no final de contas eu até entendo a avaliação da Ana: dispersados em diferentes partidos, prioridades e causas, tantas vezes concorrentes entre si, os monárquicos de facto raramente dão notícia, são gente pacata o que é uma clara desvantagem competitiva face aos poucos republicanos: não parecem ser capazes que matar ninguém, muito menos o chefe do Estado. Apesar disso parece-me um erro subestimar o seu número e o seu potencial. E depois está errado concluir que apenas existe “o que é notícia”, para mais se considerarmos os alvoroços pueris com que se preenchem as manchetes da espuma dos dias nos media de consumo.
De resto a vida dá muitas voltas, e em 1907 a força e representatividade dos republicanos era pouco mais do que barulhenta, assim a modos como Bloco de Esquerda nos dias de hoje. Nessa altura nenhum analista ou cidadão informado se atreveria a prever o caminho vertiginoso que a História acabou tomando.
Finalmente uma palavra sobre a suposta “escandalosa submissão do governo à Igreja Católica”: até os comunistas do PREC aprenderam com a História (da 1ª República) que afrontá-la só serve para a fortalecer. A grande ameaça ao cristianismo está na decadência da Europa, e na sua negação de berço duma ética perene, valores ofuscados por uma alucinação colectiva de hedonismo estéril. Em sentido contrário, a expansão da Igreja de Cristo está, sempre esteve e estará, onde houver sofrimento humano e repressão, ou simplesmente existências inquietas, exigentes.
(...) Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado.
O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. (...) Ler mais»»»»
In Silêncio e palavra: caminho de evangelização, Papa Bento XVI a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2012.
“Conforme as regras de direito natural, e humano, ainda que os Reinos transferissem nos Reis todo o seu poder, e império para os governarem, foi debaixo de uma tácita condição de o regerem, e mandarem com justiça, sem tirania, e tanto que no modo de governar usarem delas, podem os Povos privá-los dos Reinos, em sua legítima natural defesa.” Foi assim que em 1641, no assento das cortes, justificámos a revolta e sublinhámos a legitimidade democrática de D. João IV. Escrito “aos 5 dias do mês de Março de 1641”, o texto prova que vieram dos portugueses as primeiras ideias iluministas da história [“iluminismo representa a saída dos seres humanos da menoridade que estes se impuseram a si mesmos”], anos antes da era da razão, 135 anos antes da Declaração de Independência dos EUA – “[...] sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins [vida, liberdade e felicidade], cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la” – e 148 anos antes de Paris forjar os Direitos do Homem e do Cidadão – “Nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela [nação] não emane expressamente”. Ler mais»»»
Filipe Paiva Cardoso no jornal i
(...) Se não há crianças suficientes para lhes garantir um emprego, os professores que o queiram continuar a ser, devem deslocar-se para países lusófonos onde existem milhares de crianças sem professor. Não é obrigação dos restantes portugueses subsidiar os vossos sonhos, nem financiar más decisões de carreira. É injusto pedir aos contribuintes, que na sua maioria não têm as suas profissões de sonho, que continuem a abdicar dos seus subsídios de Natal para que vocês possam ter uma profissão que não satisfaz nenhuma outra necessidade para além da vossa própria realização pessoal. (...)
Carlos Guimarães Pinto no Insurgente
(...) Não estamos apenas no período em que se discutem as causas da decadência nacional, como alertava Antero de Quental. Estamos na fase em que se terá que discutir as causas e os efeitos da dependência nacional. Já entendemos que não há almoços grátis. Quem empresta dinheiro exige algo em troca. Primeiro foram o FMI, o BCE e a EU. Agora é a Alemanha, só que com requintes de malvadez. Abrirá os cordões á bolsa em troca de soberania dos países com problemas de crédito. Em termos reais, o que quer não é uma União Europeia é uma Grande Alemanha. É neste jogo de nervos que a EU vai implodindo. Mas Portugal não tem muitas desculpas: colocou-se na boca do lobo. Gastou o que tinha e o que não tinha porque o crédito parecia ilimitado. (...)
Fernando Sobral, no Jornal de Negócios
A Joaninha Amaral Dias tem tanto de bonita como de politicamente frívola. Ornamenta muito bem tanto uma mesa quanto um manifesto ou um "novo paradigma". João Gonçalves, Lapidar.
O insuspeito Luís Naves numa invejável leitura desapaixonada sobre os indignados de ontem.
A felicidade não é uma estação de chegada, é uma forma de viajar... A ler José Luís Nunes Martins aqui no jornal I de hoje
Outro mundo: Atlântico Azul... Paixão pelo mar.
Impressões distintas (com amigos lá dentro): Polaroid
Talvez um bom princípio de vida seja não só a nossa indiferença ao que pensam acerca de nós, mas a tranquilidade de nunca termos de julgar ninguém. A ler José Luís Nunes Martins na integra aqui.

Sai amanhã 6ªa feira para as bancas a revista The Printed Blog de Setembro, cujo tema de capa é “os portugueses”, coisa que se presta a tudo e mais um par de botas e para o qual o Corta-fitas, o blogue convidado do mês, se mobilizou em peso a escalpelizar (que palavra horrível). Uma vez sem exemplo o corta-fitas em papel: só por isso vale a pena tirar as pantufas e saír para comprar um exemplar.
(...) António José Seguro mudou muita coisa em relação ao reinado de José Sócrates. Mudou a música, atirou as rosas para o lixo e foi recuperar as mãozinhas de Mário Soares, pintou o congresso de vermelho e fez muitos discursos de esquerda. Só não mudou o teleponto de Sócrates e a tentação irrestível de fazer do marketing uma alavanca da sua actuação como secretário-geral. (...) António Ribeiro Ferreira no jornal I
Espera-se quase sempre que seja o cosmos a mudar, como se fôssemos absolutamente incapazes de o fazer, nem mesmo pela nossa felicidade! (...) José Luís Nunes Martins, na integra aqui.
(...) Uma crise material pouco pode atentar contra o que é realmente importante. A incontornável insatisfação do consumismo cessa quando o sujeito compreende que, pelas contingências dos momentos de maior adversidade económica, pode e deve fazer um caminho interior; destruindo todas as camadas de superficialidade com que tentava alcançar a paz e descobrindo que afinal cada um desses fragmentos só o vai escondendo e asfixiando. Pureza não é pobreza.
O que há de bom numa crise? A descoberta de tantas coisas simples que são melhores e mais belas que aquilo que só o ouro compra.
Ser feliz é estar-se plenamente preenchido, transbordante, mas, para que isto suceda, precisa a alma de ser esvaziada do lixo que por lá possa estar entranhado. Só o coração espaçoso e arejado do humilde está preparado para receber, abraçar e retribuir o melhor da vida. A luz só brilha onde há espaço. (...)
José Luís Nunes Martins no jornal I, a ler na integra aqui.
(...) Quando os cortes verdadeiros na despesa chegarem - e vão chegar, porque não há outra hipótese - o choque será grande. Longe de ser algo inócuo, cortar na despesa vai significar uma de duas coisas: ou menos dinheiro no bolso das pessoas (que têm de entrar onde o Estado recua) ou menos serviço público (o que se verá, por exemplo, na Saúde). No documento apresentado esta semana pelo governo não há os ansiados detalhes sobre os cortes, mas está explicado onde vai cair o esforço em 2012 e em 2013: 70% do lado da despesa e 30% do lado da receita. Os famosos consumos intermédios (associados às "gorduras") valem apenas 15% da luta contra o défice - é dinheiro (1,8 mil milhões de euros), mas é menos de metade do esforço nas prestações sociais, saúde e salários no Estado (38% do esforço). Será curioso ver se as mesmas pessoas que agora clamam pelos cortes serão as primeiras a denunciar a respectiva dureza.
A demora actual até pode ser boa para todos se resultar em cortes menos cegos e mais eficazes. Veremos em Outubro se Vítor Gaspar mastiga os números tão bem como as palavras. Por outro lado, descontando a demagogia barata da taxa sobre os "ricos", os impostos adicionais justificam-se com a sensibilidade do momento e com a dimensão do ajustamento: ninguém poderia esperar que era possível cumprir este programa da troika sem mais impostos. (...)
Uma boa síntese de Bruno Faria Lopes no jornal i, a ler a integra aqui.
(...) um cristão tem o dever de lutar na Cidade, tem o dever de fazer opções públicas e políticas. (...) Sim, a política namora com o pecado e com a mentira, mas - precisamente por causa disso - a política é o terreno propício para se apurar a "pureza de coração". Só podemos testar a nossa pureza num mundo imperfeito e duro. A redoma apolítica é uma via fácil e pouco cristão.
Henrique Raposo recorda Lucas Pires aqui
Do novo esconderijo de Filipe Nunes Vicente
Imagem da Edição bilingue luxuosa, em papel couché, «Jovens Criadores 2002» publicada sob
os auspícios da Secretaria de Estado da Juventude e Desportos,
do Clube Português de Artes e Ideias e com o patrocínio doutros
mecenas do Estado como a companhia dos
Caminhos de Ferro e a Câmara de Santa Maria da Feira.
Tiragem de 1.000 exemplares, coma prefácio
do sr. secretário de Estado da Juventude e
Desportos, Hermínio Loureiro.
Tal como também havia aquele outro que pulava sem parar tentando agarrar a atmosfera com as mãos e, perguntado do que fazia, respondeu que estava a apanhar nhanhas. E cá tendes assim a amostra doutro «espaço que além de físico é conceptual»: as nhanhas.
TEXTO E IMAGEM BIC LARANJA
Ser monárquico é uma maneira diferente de ver o país, e sobretudo de estar no país. Mudando o regime pode-se mudar qualquer coisa, sobretudo a mentalidade das pessoas. (...) Não há nenhum país monárquico que tenha pedido ajuda ao FMI, todos os países que recorreram à ajuda financeira são repúblicas.
Rodrigo Moita de Deus, numa luminosa entrevista ao Jornal i em parceria com o Canal Q na integra aqui.
Ao confundirmos Portugal com o Estado caímos no truque dos que querem mais Estado e não percebendo a diferença tornamo-nos irracionais na defesa do que nem sabemos o que é.
Nas últimas semanas, devido à decisão da Moody''s de descer o rating da República, ou, dito de outra forma, a capacidade do Estado português de pagar a dívida que contraiu, voltou à baila uma confusão que nos tem prejudicado bastante. Aquela que fazemos entre país e Estado. Das páginas dos jornais às televisões, do Facebook às conversas de rua, todos falam de Portugal ser "lixo". No entanto, não há nada mais errado que esta afirmação, e, se percebermos o erro, compreenderemos porque ficamos tão indignados quando uma agência internacional nos diz que o Estado, que nos cobra cada vez mais impostos e nos presta cada vez piores serviços, foi classificado como lixo.
A crise que vivemos em Portugal deve-se essencialmente à acumulação sucessiva de défices. Devido a uma gestão que nas últimas décadas podemos classificar de péssima e nos últimos cinco anos de danosa, o Estado gastou mais do que recebeu, sustentou clientelas, grupos de pressão, lóbis, fez obras que satisfaziam certos sectores e algumas empresas, patrocinou iniciativas e meteu-se em projectos que iam muito além das funções, já de si alargadas, do Estado social. Pôs-se em xeque e fez--se mate. Faliu. E agora, o país que não é o Estado, mas Portugal, está a pagar a conta. (...) Ler mais »».
Foi uma boa surpresa encontrar o André Abrantes do Amaral numa rubrica do jornal i. Boa malha!
Subscrevo na integra esta erudita tese da Inês Teotónio Pereira. Dá trabalho (na perspectiva dos pais) e arrelias (na opinião dos Infantes) mas é assim que funciona.
Ou porquê o Estado é anafado e o País definha:
a) O Belmiro não precisa de pagar as compras que faz no Continente, porque cada euro que gasta é um euro que ganha.
b) Não faz mal nenhum o Joaquim comer as bebidas que expõe no balcão do seu café. Os produtos já são seus, não lhe custam mais por isso.
c) É normal que o grupo SONAE compre activamente o jornal Público durante a semana, porque a sua despesa é a receita do jornal.
Priscila Rego no Douta Ignorância a propósito disto
Henrique Raposo sobre a imprensa que "merecemos": Ontem, a ministra da saúde disse "os portugueses vão demasiado ao médico". Não houve polémica, não há buzz. Tiros no pé? Pois, o PS também os tem. Os média é que não ligam a esses tiros no pé socialista. Parece-me que o voto útil (do BE para o PS) também está activo nas redacções.
(...) O "French denial" e as proclamações bacocas sobre a "honra da França", misturadas com as patetices de Bernard-Henri Lévy a sentenciar que "os homens não são todos iguais" - isto na pátria da "egalité" de 1789 - revelam uma doença profunda da Europa. A América e a Inglaterra estão muito longe de ser sociedades perfeitas. Mas, neste caso concreto, Paris não vale uma missa.
O caso Strauss-Kahn e a boa imprensa latina, pela insuspeita Ana Sá Lopes, no jornal I de hoje.
(...) Ao falar como falou de Portas, Fernando Nogueira deu-lhe palco e avalizou a sua candidatura de terceira via a primeiro-ministro, que, como muitos sabem, não passa de uma estratégia de marketing eleitoral muito bem montada. Nogueira deu-lhe a peça que faltava no seu puzzle: credibilizou essa hipótese, falando dela, diabolizando-a, mas no fundo deixando bem à vista um certo recalcamento por tudo o que Portas lhe fez enquanto director d' O Independente nos idos dos anos 80 e 90.(...) Francisco Almeida Leite no Delito de Opinião
De facto. Nesse sentido recupera-se para a barra lateral o blog Eternas Saudades do Futuro, do meu amigo João Marchante.
Pela primeira vez, que eu me lembre, José Sócrates perdeu um debate eleitoral. Foi esta noite, nos estúdios da TVI, perante um Paulo Portas em boa forma que lhe disse o essencial, olhos nos olhos: este primeiro-ministro "vive na estratosfera". Vive num país só dele, que nega a realidade quotidiana dos portugueses: a dívida pública duplicou em seis anos, há hoje quase 700 mil pessoas sem emprego, o "estado social" tornou-se uma figura de retórica, Portugal viu-se forçado a estender a mão à caridade internacional. (...) Pedro Correia, no Albergue Espanhol
A ortodoxia em moda apela a que não se procurem “culpados”. Mas, se, de facto, não se procurarem “culpados”, para quem fica a culpa do tristíssimo fracasso do Portugal democrático? Para a má vontade de um Deus perverso? Para o destino? Ou para a insuficiência atávica do indígena? Era bom apurar isto, porque, se alguma destas três possibilidades (principalmente a última) ofende a delicadeza nacional, a única saída que nos resta é aceitar a ecuménica loucura dos portugueses. Quem se deixa chegar onde chegámos, levados por três dúzias de políticos, sempre reeleitos e até, às vezes, respeitados, não merece outro nome. E, pior ainda, quem desiste da verdade acaba inevitavelmente por desistir de si próprio.
Vasco Pulido Valente no Público
A dedicatória "aos jovens" da vitória eleitoral de Cavaco Silva é o exemplo supremo da hipocrisia de toda uma geração de políticos que, com palavras mansas, arruínam o presente e o futuro desses "jovens". Mostra ainda uma fantástica inconsciência da frustração acumulada por milhares de pessoas, pais e filhos, um caldo de desilusão que ferve sob o verniz da sociedade.
Cavaco Silva, o principal político português da sua geração, tem por bandeira a defesa da estabilidade. Acontece que o tipo de estabilidade que Cavaco defende - que perpetua um regime com instituições fracas, um Estado social que distorce o contrato implícito entre gerações a favor dos mais velhos e uma política laboral discriminatória - é incompatível com os interesses dos jovens a quem dedicou a sua vitória. ler mais >>>
Bruno Faria Lopes, Jornal I
Estou cada vez mais convencida de que a figura de presidente da república não faz qualquer sentido.
. Continua o esforço, mesmo noutros dias. Estás lá quase, fernanda!
Muitas razões contribuirão para o crescente desinteresse dos jovens pela política, e nenhum de nós que ajudámos a construir esta democracia se livra da sua quota-parte de responsabilidade nisso, caro Pedro Correia. Mas parece-me algo duvidoso pretender que a previsível indiferença pelas eleições presidenciais, que suspeito rondará o escândalo, longe de ter causas etárias, tem-nas bem mais complexas. Oiço e leio todos os dias os opinadores encartados nas televisões constatarem que a campanha e os discursos não geram entusiasmo, divididos entre a demagogia dos candidatos que reclamam matérias fora do seus poderes, e os que se desculpam por não possuírem prerrogativas para intervir. O problema é que os analistas chegados a este ponto bloqueiam, não desenvolvem a partir daqui, quando seria lógico questionarem o regime. Porque tem um cargo simbólico como este de ser de sufrágio universal e directo? Porque não adoptar um modelo como o da Alemanha ou da Itália em que os elegem nos seus parlamentos?
Mas recentrando-nos na questão que aqui me traz: o que receiam os operadores da política (em que incluo os jornalistas) ao não debatem o modelo da Chefia de Estado e sua eleição? Será que receiam cuspir na mão que lhes dá de comer? É o medo da mudança?
O facto é que a monarquia constitucional e as duas primeiras repúblicas caíram de podres, não se adaptaram ou desenvolveram, com as trágicas consequências que conhecemos. Estamos fartos de saber o que não funciona... Até quando vamos continuar neste circo a fingir que tudo está bem?
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