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Setembro

por João Távora, em 15.09.17

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Em Setembro vinha o tempo de férias que sobrava e se arrastava, desenganado e indolente com o sol a baixar e as sombras a crescer, dia após dia, até chegarem as primeiras nuvens e a brisa fresca, como um prenúncio do Outono, o início das aulas, o fim da festa. Eram dias em que fazíamos da rua extensão da casa asfixiante de enfado, a jogar à bola com os outros miúdos desocupados e impacientes, perante a inquietação das mães que espreitavam à janela ansiando pelo novo ano escolar. Aquele tempo era um tempo de gloriosa imprudência em que criançada, sem medos, em pequenos bandos corria pelas ruas de Campo d’Ourique, que lhes conhecia todos os segredos, do recanto que faz de baliza para jogar à bola, aos quintais escondidos entre os prédios, os figos doces que sobejavam nos ramos mais altos da figueira – que valiam tanto ou mais que o gelado que os nossos filhos, numa pausa dum jogo de consola, vão buscar comodamente ao congelador. Aquelas tardes do mês de Setembro lembram-me a minha magnífica bicicleta verde-garrafa, altaneira em cima dos seus pneus 26’ que me obrigavam a esticar todo para chegar aos pedais. Era tempo passeatas pachorrentas ou de corridas contra-relógio entre a malta do bairro a bater recordes ali na Praça Afonso do Paço, onde o rectângulo inclinado convidava a uma pedalada desafiante na subida e estonteante na descida. 

O mês de Setembro também valia umas últimas fugidas à praia, com o areal meio abandonado, de águas tépidas e melancólicas num prenúncio da insurreição das marés vivas que nos iriam devolver de volta a casa, aos longos dias de espera pelo início das aulas que tardava. O tédio é um privilégio que as novas gerações não conhecem, entre o estímulo constante dos videojogos e os canais temáticos com aventuras e animação sem cessar – obrigava-nos a inventar, a ousar e às vezes a desatinar.
O fim de Setembro era o tempo das primeiras incursões à escola ou ao liceu, em busca dos horários e das turmas, cuja publicação tardava – tempos houve depois do 25 de Abril em que as férias se arrastaram até ao final de Outubro. Vinham as primeiras chuvas, as listas do material escolar e a ansiada visita à papelaria: lembro-me do gozo que me davam o cheiro do estojo novo, os cadernos imaculados, quem sabe uma mochila para estrear. Eram dias de um estranho júbilo que disfarçavam a melancolia do fim do Verão, a noite que cavalgava pela tarde dentro, as árvores que se despiam das folhas secas a estalar debaixo dos meus pés no caminho para a escola, nos primeiros dias de um novo recomeço, de rever outros amigos. Verdadeiramente o ano terminava gasto e envelhecido, em Setembro.

 

Dedicado ao meu filhote José Maria que por estes dias começa o segundo ciclo numa escola e vida nova.

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Mais uma crónica na Estação Tola

por João Távora, em 04.08.17

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Se há altura do ano em que a conversa fiada e a especulação sobre a bola é legítima e até recomendável é nesta época estival, também conhecida como tola, em que as equipas se preparam e os adeptos se enchem de expectativas para as competições que tardam em recomeçar. Na verdade por estes dias o calendário futebolístico inicia-se cada vez mais cedo, um fenómeno que também vem acontecendo com o ano lectivo que roubou o mês de Setembro aos nossos miúdos que nem sonham como era ocioso e estruturante o longo Verão dos seus pais. Este ano o Campeonato Nacional que modernamente se chama “Liga” (os portugueses são peritos em mudar os nomes às coisas convencidos que dessa forma as mudam) começa na primeira semana de Agosto, entrando pelas nossas férias adentro, quando os adeptos deviam estar, não nas bancadas dos estádios, mas à beira-mar a ler preguiçosamente novidades sobre reforços milagrosos e as tácticas inexpugnáveis que dizimarão os adversários, atrasando a leitura do clássico que estava prometida para estas férias. 

Mas a verdadeira e grande novidade da época futebolística que se avizinha é sem dúvida o vídeo-árbitro. Este novo actor, mais do que revolucionar o futebol que passará a ter mais uma ou outra paragem inócua, que estou convencido trará mais justiça e transparência à disputa, acima de tudo promete incendiar ainda mais a indústria do comentário futebolístico em grande expansão nos canais da televisão por cabo. A coisa promete, pela simples razão de que muitas das decisões dos árbitros, mesmo com a ajuda do vídeo, continuarão a ser subjectivas e falíveis, dependendo da perspectiva (da cor da camisola) do observador: o milímetro a mais ou a menos do fora de jogo indefinido, a bola na mão ou a mão na bola dentro da grande área - ou a milímetros do seu limite; já para não falar da apreciação à intensidade do contacto do defesa que derruba – ou não - o atacante e da (in)justiça do consequente castigo máximo. Com a agravante das decisões de agora em diante provirem de uma análise ponderada. Por isso não vão faltar teorias da conspiração e toda a sorte de condenações e pressões sobre… o vídeo-árbitro. Se é previsível que o uso das tecnologias irá beneficiar a justeza das decisões em campo e o futebol atacante em geral, o vídeo-árbitro passará ele próprio a ser mais um inevitável protagonista do espectáculo, condenado umas vezes, exaltado outras tantas, em debates insanos por essas televisões afora.
Pela parte que me toca, continuarei a privilegiar o espectáculo do futebol dentro das quatro linhas, onde ele possui uma inegável e entusiasmante beleza. O seu prolongamento será feito à maneira antiga, ao vivo e com alma, à boa conversa ao balcão do café com os vizinhos, ou com os amigos numa aprazível esplanada. Venha daí então o campeonato que desta vez é que vamos ganhar.

 

Publicado originalmente por simpático convite no blogue Delito de Opinião

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A irmandade

por João Távora, em 01.06.17

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Quis o destino e os meus pais que eu tivesse crescido com um irmão e três irmãs. Não sendo eu o mais velho, quando era pequeno sentia a obrigação de ajudar a tomar conta desse rebanho caótico em que nos tornávamos nas nossas idas ao jardim Zoológico, à Feira Popular ou de comboio para uma praia da Linha do Estoril com a minha mãe. Sorte a nossa, apesar de franzina como era, ela não deixava os créditos em mãos alheias, e hoje estou em crer que foi com a ajuda de mão divina nunca apanhámos mais do que um pequeno susto nas nossas múltiplas expedições de lazer. E lembro-me bem como ela tinha de negociar duro com o motorista para viajarmos os seis num só táxi, num tempo em que não se usavam cintos de segurança. 

Deus plantou quatro irmãos na minha vida, e no princípio eram eles os principais povoadores do meu mundo de brincadeiras e ajudavam a relativizar os sucessos e frustrações vividos fora de casa. Éramos cinco, conhecidos pelas outras casas da família pelos “Abrantes”. Todos em escadinha, pouco mais de um ano diferença entre cada um, não me perguntem como, mas cabíamos num Volkswagen carocha com o meu pai ao volante e a minha mãe com a mais pequena ao colo no lugar do morto. Foi nestes preparos que viajámos algumas vezes para férias de Lisboa para Milfontes. Os meus irmãos eram o barulho à minha volta, o choro e o riso, horas e horas de brincadeiras, provocações, lutas e disputas que preenchiam o imenso tempo livre que tinham as crianças do meu tempo. Mas foram os tempos difíceis de uma crise complicada que vivemos a seguir ao 25 de Abril que nos obrigaram a crescer mais depressa e nos entrelaçaram para sempre. Por essa altura a treinar a democracia em casa, habituámo-nos a dizer uns aos outros o que nos passava pela cabeça – a sinceridade é um perigo - e foi devagarinho que a vida cuidou, com algumas zangas de premeio, de nos ensinar a preservar melhor os espaços de cada um. Mas julgo que foi também por causa dessa cumplicidade excessiva que os nossos conflitos sempre se resolveram, com a ajuda do tempo e com pedidos de desculpas, mais ou menos hesitantes, mais ou menos a contragosto. Ao contrário do que nos querem fazer crer os versos e as fotografias idílicas partilhadas nas redes sociais ontem no “Dia dos irmãos”, desconfio que ser irmão é das coisas mais difíceis que existem: se na infância a nossa “fraternidade” lúdica era muitas vezes interrompida por zaragatas épicas, com a adolescência e mais tarde na idade adulta, o nosso olhar, mesmo que inocente, começou a conter o peso da nossa história e as suas susceptibilidades. Se a relação chegada entre irmãos é tida como o modelo para a solidariedade entre as pessoas, é dessas relações que sempre nasceram discórdias de dimensão bíblica – veja-se o caso de Caim que se deixou dominar pela corrosão do ciúme e da inveja, assassinando cruelmente o seu irmão Abel. Ser irmão é um regime muito perigoso e desafiante: convivemos descaradamente no ninho, perdemos a cerimónia enquanto nos cresciam as penas, vemo-nos por dentro uns aos outros – somos feitos da mesma massa. As zangas quando acontecem são brutais. Ser irmão fora dos tempos de crise que nos une em entreajuda, exige um particular cuidado e sensibilidade.
Mas há uma atracção fatal que nos mantém unidos, e quando nos encontramos os cinco, somos bem mais do que testemunhas das décadas que nos vêm atropelando e desgastando. Certo é que todos somos parte integrante do que cada um se fez e do rumo que tomou. E que esse sentimento de pertença nos leva a marcar presença e dizer “pronto” sempre que  surge alguma urgência ou aflição - o amor às raízes acaba por falar mais alto.

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A guerra nas nossas ruas

por João Távora, em 01.03.17

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Rua de Stº Antº dos Capuchos em Lisboa

 

Antes de instalar o meu escritório em Cascais na centralíssima e animada Rua Visconde da Luz, ao lado do jardim com o mesmo nome, fui indagar sobre o eminente cascalense que se esconde por detrás do marido traído (para não usar uma terminologia vernacular) por Rosa Montufar Barreiros, amantíssima musa de Almeida Garrett, conhecida pela sua beleza lendária. Afinal não era apenas esse infortúnio que tornara célebre o oficial do exército liberal que nesta vila piscatória construiu uma casa de veraneio e plantou algumas árvores. Dos heróis derrotados dessa guerra civil, em matéria de toponímia sobrou para amostra a Bica d’el Rei D. Miguel, restaurada há pouco ali no Arsenal da Marinha, junto ao rio Tejo.

A verdade é que a maior parte das pessoas é indiferente à origem dos nomes das avenidas, praças, ruas ou fontanários das nossas terras. E no entanto, a toponímia das nossas cidades, vilas e aldeias esconde uma contenda encarniçada que com raras excepções só os vencedores admite, mesmo que eles tenham sido os mais requintados tiranos ou umas completas nulidades.

Está hoje cientificamente provado que o revisionismo de grande parte da toponímia nacional pelos republicanos de 1910 quedou-se como o seu principal legado. Em Lisboa, entre muitíssimas outras renomeações, a Avenida Rainha D. Amélia passou a chamar-se avenida Almirante Reis, o Cândido comandante da revolta que se suicidou espetando um balázio nos miolos dois dias antes da implantação da dita, convencido de que a revolução estava perdida – sem dúvida um grande feito. E temos o pobre Frederico Ressano Garcia, arquitecto das Avenidas Novas em finais do século XIX que dava nome a uma conhecida artéria que rasgava o planalto urbano em direcção ao Campo Grande: o seu nome foi descartado e a arejada avenida forçada a ser da República. Logo ali ao lado, a Avenida António Maria Avelar foi rebaptizada por avenida Cinco de Outubro. Se eu lá morasse tinha logo mudado de casa.

Bem pior é a quantidade de eminências pardas que empestam a toponímia das nossas cidades, como é o caso flagrante de Miguel Bombarda, vulgar psiquiatra e medíocre publicista republicano assassinado por um seu doente em vésperas da revolução de 1910, de que não se lhe conhece obra que se veja mas que bate Luís de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa ou outra figura pública em qualquer lugarejo deste jardim à beira-mar plantado. Se um marciano aterrasse hoje numa cidade portuguesa pensaria que Miguel Bombarda e Elias Garcia (alguém lhe conhece feito ou obra?) são as mais gradas figuras históricas nacionais.

É curioso como na cidade de Almada se cruzam ruas Catarina Eufémia, Padre Américo, Aliança Povo-MFA, Dr. António José de Almeida, rei D. Carlos, 31 de Janeiro, José Afonso e Padre António Vieira e Sagueiro Maia. Mas a suprema ironia é a história do militante e resistente monárquico Saturio Pires, um bravo da Galiza com papel preponderante nas Incursões Monárquicas e na Monarquia do Norte, que depois do exílio atingiu o final da vida em grande miséria, e foi viver para uma habitação social atribuída por Salazar na… Avenida Defensores de Chaves. Definitivamente o António não era flor que se cheirasse.

Tenho para mim que os nomes de personalidades a atribuir a topónimos deveriam ser submetidos ao crivo do tempo, quer dizer, da história; e as ganas da homenagem dos seus partidários serem contidas por cem anos, ou mais, antes de se tornarem um factor de desvalorização imobiliária, que é o que acontece antes das pessoas comuns se esquecerem quem foi o pilantra com o nome gravado em determinada tabuleta.

Ninguém se incomodará com uma rua Gil Vicente, Rua Alexandre Herculano, Rua Eça de Queirós, Rua D. Pedro V, Praça Luís de Camões ou Calçada Marquês de Abrantes. Entretanto, diante da expansão urbana, deveríamos fazer como os antigos que sabiam dar nomes bonitos partindo do mérito dos próprios locais. Rua da Alfarrobeira, Rua das Gaivotas, Rua dos Mastros, Rua Navegantes, Rua do Poço Novo, Beco das Terras, Rua da Vitória, Rua da Saudade, Rua da Bela Vista, Rua do Alto do Moinho Velho, Rua das Gáveas, Rua da Horta Seca, Travessa da Espera, Rua da Misericórdia, Rua das Mercês ou dos Fiéis de Deus — tudo nomes que irradiam encantamento e que, por isso, estou convencido, têm o condão de ajudar a fazer dos seus habitantes pessoas melhores e mais felizes...

 

Publicado originalmente no jornal i

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O factor humano

por João Távora, em 19.12.16

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Foi na quinta-feira passada que me desloquei a Coimbra, ao Tivoli, por ocasião da festa de Natal do hotel em que se celebravam os 25 anos da sua abertura, na qual numa outra vida eu participei. Foram momentos comoventes em que revi colegas e amigos de longa data passados num almoço que reuniu todo o pessoal do hotel no restaurante habitualmente exclusivo para os clientes.

Poucas pessoas terão a noção do que significa pôr um hotel acabado de construir a funcionar, e menos ainda da importância que para isso tem o factor humano. Tão importante como o edifício, o seu requinte, design e comodidades, são os diversos grupos de pessoas que, como formiguinhas, trabalham com mais ou menos discrição 24,00hs sobre 24,00hs nas ribaltas do grende "cenário".  Movem-se pelas zonas de serviço como as cozinhas, copas, andares, serviço de quartos, economatos, manutenção, escritórios de reservas, contabilidade ou comerciais; sem falar das equipas que dão a cara perante os hospedes e visitantes nos balcões dos bares, das recepções e portarias, ou a servir às mesas, na reposição das comidas, etc., etc. Um hotel é um microcosmos composto por uma larga equipa de dezenas ou centenas de pessoas, heterogenia e interclassista, por uma questão de disciplina e eficiência muito hierarquizadas. Integrados em equipas, certo é que todos os colaboradores se movem por resultados exigentes e cruzam-se nas zonas de serviço, balneários, refeitórios e sala de convívio, partilhando refeições e momentos de lazer entre os turnos, como se o hotel fora a sua segunda casa, uma casa onde se passa muito tempo, se vivem emoções fortes, frustrações e alegrias, tensões que geram conflitos e cumplicidades que se fazem amizades, como se o trabalho fora uma inevitável segunda família.
A gestão dos recursos humanos é por tudo isto o maior desafio na boa administração dum hotel. É o factor humano que ao longo do tempo imprime uma “cultura” própria à empresa, que pode cativar ou repelir o cliente. Se o marketing determinado para uma marca define um certo "carisma", as pessoas que o aplicam, no relacionamento entre si e com o cliente, vão ser sempre determinantes e condicionar o resultado.

Foi a trabalhar nos hotéis que depois de passar por diversas funções e experiências descobri a minha profissão de Relações Públicas e mais tarde de Marketing e Comunicação em que hoje trabalho. A maior parte dessa experiência de vida adquiri-a ao serviço dos nos Hotéis Tivoli, uma marca com história e genuinamente portuguesa, com um carisma muito forte, onde o factor humano foi sempre valorizado.

A cadeia de Hotéis Tivoli têm origem na Pensão Tivoli na Avenida da Liberdade fundada no final dos anos 20 da associação entre os empresários José Cardoso e Joaquim Machaz. Estes dois empreendedores construíram uma marca incontornável na história da indústria hoteleira portuguesa. Depois de várias reformulações, a partir dos anos oitenta o grupo passou pelas mãos de diferentes accionistas até chegar aos dias de hoje em que o grupo hoteleiro foi resgatado  pelos tailandeses da Minor. Certo é que o seu principal capital sempre esteve nos empregados e na cultura que geraram ao longo de décadas. Por isso não foi surpresa para mim quando na quinta-feira em Coimbra me senti parte de uma grande família que não esquece os seus. Também eu não esqueço todos os amigos que lá deixei. 

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A Casa da Avenida

por João Távora, em 18.11.16

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A «casa da Avenida», como ficou conhecida na família, deixou em mim uma marca indelével, como que um pilar da minha personalidade. Como casa da Avenida entendo não só o primeiro andar direito do n.º 232 da Avenida da Liberdade mas todo um ambiente caloroso de afectos e brilho que lhe imprimiam os meus avós, tios e todo o pessoal que lá servia, que, a seu modo, fazia parte da família.

Com esta crónica, que serve de introdução a uma biografia ficcionada que estou a escrever sobre o tema, pretendo fazer uma homenagem aos meus avós maternos, João e Chunchinha, que, com a minha bisavó, foram os grandes obreiros dessa casa acolhedora e aberta ao mundo, onde se cultivava a antiga arte da boa conversa, elegante e inteligente, como refere Augusto Ataíde no seu livro de memórias Percurso Solitário (Bertrand, 2016) ou Leonor Xavier em Casas Contadas (Asa, 2009), sem descurar a edificação dum sólido e fecundo núcleo familiar de matriz cristã onde cresceram a minha mãe e os meus tios. Ainda hoje nas reuniões familiares com a minha mãe e os meus tios se testemunha esse legado tão nobre de amizade, humor e graça, qualidades que sem mascarar dificuldades que em todo o lado existem, são sementes de civilização e carácter.

Pensando bem, aquilo que mais me marcou na Casa da Avenida foi a liberdade que me era concedida, a mesma que, pressupondo sentido de responsabilidade, fez dos meus tios e da minha mãe pessoas inteiras. Pessoa de enorme carisma, a Avó Chunchinha tinha, de facto, uma forma de relacionamento que sempre me cativou, talvez porque nunca pressenti qualquer sinal da complacência com que habitualmente os adultos se relacionam com as crianças.

Para a forte idealização daquela casa que germinou em mim ao longo da vida, contribuiu não só a enorme saudade das estadias felizes que até aos 12 anos lá passei, sozinho ou com o meu irmão José — onde éramos queridos e obtínhamos mais atenção do que aquela que poderíamos ambicionar em casa dos pais, em que a concorrência era grande —, mas também a memória do espaço físico e do fervilhar de vida circundante, ao mesmo tempo cosmopolita e de bairro, que naquela época fruía naquela zona de Lisboa ocupada por uma mistura bem equilibrada de serviços, comércio e habitação.

A Casa da Avenida foi estreada em 1892 pela minha bisavó Valentina Leitão aos quatro anos, quando para lá se mudou com os seus pais e irmãos. O elegante prédio de cinco andares com direito e esquerdo, situado no quarteirão entre a Barata Salgueiro e a Alexandre Herculano, onde então terminava a Lisboa cidade, tinha acabado de ser construído, e dele reza a lenda de ter sido o primeiro a ter instalação eléctrica de raiz. Os apartamentos eram grandes e tinham um pé direito alto como há muito não se usa.

A casa dos meus avós era atravessada por um longo corredor que ligava a parte nobre, com duas varandas voltadas para a Avenida da Liberdade, à zona de serviço, com entrada pelo n.º 77 da Rua Rodrigues Sampaio. Entre as salas da frente e a generosa cozinha e os aposentos das minhas tias e das criadas nas traseiras, ficavam mais quartos e duas casas de banho, que para um prédio do século XIX era muito avançado. O edifício também ostentava um curioso sistema acústico de intercomunicadores, numas mangueiras com bocal de cobre nos extremos, entre a portaria no hall de entrada e o interior de cada fracção.

A fachada era discreta, mas icónica me parece hoje a altaneira e pesada a porta principal, circundada de alvenaria trabalhada, cujo chiar do amortecedor antecipava um estrondo que me fazia fugir degraus acima, assustado. As escadas de madeira eram muito largas e enceradas almofadadas por uma passadeira encarnada, ladeadas de mármore de um lado e por um elegante e sólido corrimão de madeira que terminava numa estatueta graciosa, e numas largas escadas de pedra com um corrimão de bronze que precediam um hall aristocrático com elegantes frescos.

Vivia intensamente as minhas estadias naquele extenso mundo de descobertas e de liberdade. Se naquele andar tão soalheiro a vida fervilhava logo pela manhã cedo na área de serviço com os afazeres domésticos das empregadas, a chegada do barbeiro que vinha escanhoar a barba do Avô João, do padeiro, do marçano, a mulher-a-dias que esfregava ou puxava o lustro ao chão encerado, a Celeste que saía para a Praça a fazer as compras; a avó Chunchinha acordava mais tarde para, ainda deitada, me premiar com vinte-e-cinco tostões para um gelado com que me punha feliz a andar para a pastelaria Smarta. Depois, uma visita à sala verde onde se sentava a Bisavó Valentina (Avó Tina, como lhe chamávamos) a fazer crochet, dava direito a ouvir histórias, de desventuras de outros tempos que ela tão bem sabia contar, como aquela dum criado brasileiro dos seus pais que se suicidara para não ir para a guerra ou das escaramuças entre republicanos na Avenida, que obrigavam a família a deitar-se no chão do corredor para se protegerem de uma eventual bala furtiva…

Aos almoços uma ementa variada era servida na sala de jantar pela Celeste, sempre bem fardada — e como eu gostava daquela feijoada à brasileira, receita que desconfio tivesse sido importada pela minha Avó Tina. Depois do almoço abatia-se um profundo silêncio que só era quebrado pelas minhas solitárias brincadeiras com carrinhos de brinquedo no chão, pelos caminhos desenhados nos grandes tapetes, quando não tinha a sorte de ir com a Avó Chunchinha à baixa, para comprar algum prato de faiança «cavalinho rosa» para completar o serviço, ou bolachas Araruta e uma mistura de café na casa Pereira ao Chiado.

À noite, o jantar era quase sempre um momento de exaltação familiar, com a mesa cheia e boa conversa, quase sempre com uma ou outra visita de parentes ou amigos da casa, sempre acolhedora, iluminada por grandes lustres que irradiavam festa. Com sorte, os meus primos eram visita e logo armávamos em loucas correrias pelo interminável corredor, a desafiar o António na cozinha, que era noivo da Celeste. Isto até nos mandarem parar por causa de uma queixa do mítico Senhor Cruz, um vizinho muito doente que eu desconfiava ser apenas um pretexto para nos acalmar. Lembro-me do meu avô sempre elegante, com um lenço branco a sair do bolso do casaco, à conversa com os meus tios à volta duma pequena mesa de bar, servindo-se Whisky com gelo e Água de Castello.

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Ao final da noite, com a casa já toda a dormir, aquele corredor de luz fosca parecia-me assustador de atravessar, com os murmúrios vindos dos saguões que soavam da sombra que se adensava lá mesmo ao fundo, que hoje acredito serem choros e lamentos das vítimas de histórias sombrias, acontecidas ali bem perto na rotunda ou lá em baixo ao Terreiro do Paço, e que marcaram de forma tão dolorosa a vida dos meus antepassados naquela casa.

As festas eram magníficas, não por luxos, que raramente os havia naquela casa, mas pelo empenho e generosidade dos donos da casa. Todas as festas do calendário eram assinaladas na Casa da Avenida, sempre cheia de amigos, tios e primos: do Carnaval com partidas para todos os (des)gostos, à Páscoa com ovos de chocolate para todos os netos, mas principalmente a Ceia do Natal, servida depois da Missa do Galo na igreja de São Pedro de Alcântara, com peru, chocolate quente, sonhos e muitas outras delícias da época, que comíamos depois de abertos os presentes que se amontoavam junto à árvore de Natal. A cor do papel de embrulho identificava a proveniência.

Com pouco mais de sete anos dispunha-me, afoito, a explorar as redondezas com umas moedas no fundo do bolso dos calções. Começava pela tabacaria Glória, esquina da Travessa do Enviado de Inglaterra com a Rua de Santa Marta, onde podia cobiçar uma revista do Patinhas ou um carrinho Matchbox, para o qual o meu dinheiro não chegava. Descia então pela fervilhante Rua de Santa Marta, zona de serviço das casas burguesas da Avenida, passando indiferente pelas mercearias, talhos e «lugares» de frescos, por sapateiros, relojoeiros e casas de penhores, até chegar à Rua de São José, onde dava meia-volta, para aí estoirar o dinheiro num qualquer pechisbeque de plástico com rodas numa qualquer drogaria mixuruca. Voltava então a subir a infindável Rua de Santa Marta, com um apetite cada vez mais aguçado, arrependido de não ter guardado o dinheiro para comprar um bolo.

É importante uma palavra sobre o pessoal doméstico, que de facto era parte da família: tenho consciência que nesse tempo, final dos anos sessenta princípio dos anos setenta, se vivia o final de uma era e o começo de uma outra, com uma radical democratização do consumo e uma inflação que tornava proibitivos os ordenados das empregadas. Foi a época do advento dos apartamentos pequenos, a revolução dos electrodomésticos, a vulgarização dos restaurantes e do pronto-a-vestir que substituíam uma ancestral organização doméstica. Na Casa da Avenida ainda tive tempo de me afeiçoar a figuras de referência como a Conceição costureira e a Celeste. Muitas tardes passei eu a brincar na companhia da Maria da Conceição, que me contava histórias dum universo misterioso que eram as suas origens humildes, de um irmão que perdeu em criança. E era a Celeste que me vestia em pequeno, e que eu tanto gostava de acompanhar às compras ou de ficar a vê-la moer a carne no passador, ou dobrar em meias luas a massa de rissóis. Pensava na minha ingenuidade ser ela minha amiga para a vida, e estranhei muito que tivesse desaparecido sem deixar rasto depois do 25 de Abril, supõe-se para emigrar com o seu António. Há pessoas que não suportam a dor de uma despedida.

Com a morte da minha Bisavó em 1973, os meus avós não puderam renovar o contrato de arrendamento, e no ano de todas as revoluções viram-se obrigados a mudar-se para um pequeno andar — ironia do destino — na Calçada Marquês de Abrantes. Apesar da mobília e da decoração que remetiam para a memória da Casa da Avenida, num país em convulsão e já doentes, foi com muita dificuldade que os meus avós enfrentaram a nova realidade. As mortes dos meus queridos avós ocorreram espaçadas de poucos meses pouco tempo depois, desconfio que por desistência, na dificuldade se adaptarem a mais uma nova era.

Será que, apesar dessa derradeira amargura, tiveram alguma vez a noção do extraordinário legado que nos deixaram? Prometo contar-vos esta história em que estou a mergulhar com todo o detalhe e verdade que me for possível.

A estes heróis não devemos nada menos que isso.   

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Uma história de tempos felizes

por João Távora, em 06.10.16

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 Curioso como é mais fácil reavivar memórias luminosas quando estas estão registadas numa casa, num determinado sítio. E todos sabemos que a saudade vive nas casas onde fomos amados, cheias dos nossos fantasmas que às vezes somos nós próprios noutras eras

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Não sou de modas…

por João Távora, em 05.08.16

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Chegados à meia-idade conquistamos uma visão em perspectiva que nos revela a verdadeira importância das modas. Pela minha parte até chegar à da barba de três dias, em matéria de pilosidade masculina, já testemunhei diferentes usos que se banalizaram na paisagem de cada tempo: do cabelo cortado à tijela ou “à Beatle”, à cabeleira e barba hirsutas, comprida até ao peito a encobrir uma fácies cândida “imagine all the people”, passando pela recuperação nos anos 80 da sobriedade insinuante de Morrissey com poupa à James Dean, estou em crer que, com mais ou menos ombros e lantejoulas no casaco, mais ou menos justas as calças, cada moda cumpriu a seu tempo o propósito de alimentar a vital ilusão de corte ou renovação dum sentido existencial de cada geração emergente, que organicamente se impunha com uma assinatura própria à espuma dos dias imparáveis. O problema é que, como bem sabemos, a natureza humana e as suas circunstâncias são realidades essencialmente estáticas. Sobre este complexo assunto, o povo na sua sabedoria arranjou um adágio que mete moscas e excremento. 

Curioso é o burlesco que nos soa um guarda-roupa, por exemplo, quando revisitamos uma antiga (?) série, em voga dos anos oitenta, como a do muito British e europeu “Inspector Morse” ou num ataque de revivalismo revisitamos a sonoridade e paisagem do festival Woodstock, afogada em toneladas de Canábis, pilosidade e devaneios idealistas, daquela miudagem que acreditava sinceramente que a juventude era algo mais do que um efémero acidente do seu imparável processo de envelhecimento. E quanta grosseria e boçalidade não vivia disfarçada por uns óculos escuros, longas barbas, lenço na cabeça e calças à boca-de-sino. O tempo se encarregará de fazer esquecer estes egos estéreis no anonimato da demografia e das estatísticas.
Estou em crer que a moda torna-se num verdadeiro problema quando é motor da política, subjugada ao jogo mediático na conquista das massas consumidoras e democráticas; quando ela se move e se motiva embalada pela espuma dos dias, com causas vácuas de que os nossos vindouros troçarão impiedosamente. Julgo que é exigível às lideranças partidárias, jornalistas e comentadores profissionais um esforço suplementar para a produção de um discurso mais elaborado e perene. Para tanto basta não levantar demasiado os pés da realidade e das prioridades que ela reclama, tendo em conta o bem comum. Que um jornal ou noticiário de hoje não nos pareça daqui a 30 anos um anacrónico guião de um filme pimba.

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A arte de enfeirar

por João Távora, em 12.06.16

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 A Praça de Campo de Ourique 

 

Somos feitos também com memórias de acontecimentos e experiências banais, que é do que trata esta crónica. Foi quando eu era pequeno que começaram a aparecer em Lisboa os primeiros supermercados, uma revolução enorme na forma de comercialização dos mais variados produtos de uso doméstico, principalmente alimentares, que assim eram disponibilizados em grandes espaços fechados, num sistema de self-service, num ambiente limpo e de arrumação racional onde qualquer pessoa de qualquer condição social se sentia convidada a entrar. Ainda bastante pequeno, lembro-me de algumas incursões com o meu pai, que gostava de cozinhar e era um bom garfo (nos dias de hoje seria chamado “gourmet”). 

Mais comum nesse tempo eram as mercearias, pequenas e obscuras lojas o mais das vezes contiguas à residência do proprietário, que tinham um pouco de tudo, desde tabaco, detergente ou feijão seco, que dada a proximidade e familiaridade com o freguês, atendiam fora de horas por especial favor, concediam crédito e carregavam nos preços.
Mas do que guardo melhores recordações de então é das idas ao Mercado com a empregada da casa dos meus Avós. A “Praça” como lhe chamávamos, algo que os meus filhos simplesmente não conhecem, era um género de feira num gigantesco recinto semifechado que abria todos os dias menos à segunda, onde se vendiam além de toda a sorte de produtos domésticos, alimentos frescos como carne, peixe e legumes, frutas e flores, comercializados em longas alamedas de bancas pelas vendedeiras que chamavam os clientes, quase sempre donas de casa ou empregadas de servir, tratando-as por “minha querida” e “meu amor”. Então, eu acompanhava a Celeste, empregada dos meus avós, fascinado com os coelhos pendurados a pingar sangue, os pombos, patos e galinhas vivos em grandes caixotes, pelas pescadas de olhos esgazeados e bocarra aberta, molhos de carapaus rebrilhantes, o assustador tamboril, a fruta e os legumes da época, sempre na esperança de ganhar um chupa, um gelado ou chocolate de recompensa por bom comportamento. Um dia regressei a casa radiante premiado com uma jovem rola viva que por uns dias cuidei extremosamente na varanda que dava para a Rodrigues Sampaio… até o fabuloso e ingrato bicho ensaiar um voo e desaparecer nos telhados vizinhos para meu enorme desgosto. A dureza da vida também se aprende com os abandonos, e esse terá sido um dos primeiros de que me lembro.
Tenho ideia que havia um mercado destes em cada bairro da cidade e lembro-me de conhecer pelo menos os de Picoas, da Alexandre Herculano e o de Campo de Ourique onde era a casa dos meus pais. O mais curioso é como o sistema exigia à dona de casa possuir não só uma intuição especial para reconhecer a qualidade e frescura dos alimentos e não se deixar enganar nas medidas e nos pesos – na altura poucos produtos eram embalados e alguns, como os frangos ou os patos era usual serem mortos e depenados ao momento – como ainda ter a arte de regatear os preços com firmeza e compará-los entre as diferentes bancadas vizinhas. Tratava-se de uma importante contenda em que as mais experientes donas de casa disputavam autênticos troféus para no final exibirem com vaidade às vizinhas e com eles premiarem a família na mesa do jantar… como um caçador ufano da sua presa.
Vistas bem as coisas, o facto é que me parece que a realidade muda sempre mais na forma do que no conteúdo e hoje os supermercados, maiores ou mais pequenos, recriam o jogo das compras através de intrincadas promoções e cartões de descontos em que os fregueses mais sabedores podem alcançar uma semelhante sensação de glória na poupança de muitos euros. Irónico é constatarmos como, para o melhor aproveitamento dos descontos e conseguirmos uma dispensa preenchida com produtos mais baratos, temos não só que ser inteligentes como ter uma carteira bem recheada. Quem disse que a vida era justa?

Mercearia-e-Vasco-santana4.jpg

Vasco Santana no papel de merceeiro  

 

Fotografias Roubadas daqui e daqui.

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O piropo

por João Távora, em 28.12.15

El-piropo_Ruth-Orkin.jpg

 Confesso que ao contrário de algumas feministas eu gostava de ter tido direito a ouvir uns piropos. Julgo aliás que a coisa mais próxima dum piropo que alguma vez ouvi remonta aos tempos da minha tenra infância, quando eu ia ao talho ou à mercearia fazer um recado à minha mãe. Infelizmente os galanteios provinham invariavelmente de senhoras com idade para serem minhas bisavós. Verdade seja dita, a gracinha acabou antes de eu chegar à puberdade. Aliás, sempre me custou a perceber o porquê das vizinhas velhotas me acharem tanta graça ao mesmo tempo que as miúdas da escola teimavam ser sempre tão reservadas e distantes no que ao assunto diz respeito. Entendi mais tarde que havia uma questão de “papéis”: afinal competia-me a mim ser duro, destemido e cortejador. Não muito convencido disso, ainda tive esperança de usufruir de alguns benefícios da dinâmica igualitária da revolução sexual que teve particular impulso durante a minha juventude. Privilégios que fossem mais estimulantes do que lavar a loiça e cozinhar que então se juntavam aos tradicionais de ir buscar as minhas irmãs a casa das amigas, carregar com a bilha de gás e os sacos das compras. É muito azar: a revolução afinal foi demasiado lenta e não será certamente agora, pai de família careca e consumido por mais de cinquenta anos de erosão que me habilito a ouvir um piropo atrevido. 

Vem isto a propósito desta notícia do DN, referindo que desde Agosto um piropo possui carácter de "propostas de teor sexual" com relevância criminal. É uma pena: se estou convencido de que não é com decretos-lei que se irá acabar com a perversão humana, acredito que com o moralismo se pode acabar com muita boa disposição.

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Relido e revisto

por João Távora, em 13.10.15

O casamento tradicional foi "vendido"  por hollywood
à geração dos meus pais como um conto "happily ever after"
e resultou num estrondoso "baby boom".
Completamente fora de moda por estes dias,
não se prevê que eu tenha grande sucesso explicando-o aos meus filhos
como instituição ligada à responsabilidade, ao altruísmo, à perseverança e ao prazer diferido.

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Minha querida família

por João Távora, em 10.10.15

Wall familia canta 1906.jpg

Nunca ninguém garantiu que a liberdade, a escolaridade e a prosperidade democratizassem o sentido de responsabilidade ou o bom senso. Vem isto a propósito de um fenómeno que o "inverno demográfico" esconde: se é previsível que daqui a dez ou quinze anos tenhamos metade das escolas ao abandono, mais graves serão as consequências duma  crise que se adivinha na "família" como célula mãe da sociedade, capaz de corroer de forma dramática os alicerces da nossa civilização. 

Sou daqueles que teve a sorte de crescer numa família tradicional - sem dúvida um espaço alicerçado no equilíbrio entre a tolerância e repressão - daquelas com abrangência alargada, com casa dos avós, tios, primos e tudo; como que um mosaico de pequenas comunidades, mais ou menos interligadas numa rede de solidariedade, afectos e partilha de história comum - e que de forma decisiva em tempos me socorreu. É certo que para que este antigo e eficaz modelo se generalizasse na sociedade contemporânea, concorreu uma equívoca mistificação do casamento romântico na geração dos nossos pais: O casamento tradicional foi-lhes "vendido" por Hollywood como um conto happily ever after e resultou num estrondoso baby boom. Completamente fora de moda por estes dias, denúnciada a família como “instituição burguesa,decadente e repressora” pela geração do Maio de 68, não se prevê que eu tenha grande sucesso explicando-o aos meus filhos como instituição ligada à responsabilidade, ao altruísmo, à perseverança e ao prazer diferido. A verdade não vende, como não ganha eleições. 

Como bem sabemos, cada vez há menos casamentos, no sentido da formação de novas “casas”, modelo de sucesso comprovado inspirado na aristocracia liberal europeia. Consta que no ano passado, das poucas crianças nascidas, mais de metade terão sido fora do casamento. Por exemplo, durante o ano de 2014 na paróquia do Monte da Caparica na margem sul do Tejo – sei bem que é um microcosmos algo especial - realizaram-se apenas quatro casamentos católicos. Curioso como no meio conservador que frequento também são cada vez mais raros os sinais de cedência dos jovens a esse modelo, sendo frequentes as relações amorosas "liberais" prolongadas, assumidas com um pé dentro e com outro fora da casa dos pais – julgam que obtêm assim o melhor dos dois mundos. Por ironia trata-se do reconhecimento de como a casa de família que alguém edificou e mantém para eles, é afinal útil e virtuosa instituição como seu último reduto de refúgio e reconhecimento, apesar de votada à extinção.

Temo que estejamos a criar uma sociedade de indivíduos isolados e frágeis com pertenças difusas, precárias ou inexistentes até. A família como eu conheci, como um organismo intermédio, projecto perene, crivo cultural com história própria, território protector do grande monstro igualitário da cultura dominante para a formação de seres críticos e livres, atravessa uma grave crise. Essa família que ainda hoje acolhe os deambulantes jovens adultos, quais eternos filhos pródigos que adiam assumir as suas opções e uma realização plena, por troca dum prato de lentilhas ou um smartphone de última geração, símbolo da sua “liberdade individual”. Se calhar ao definir este fenómeno como se de uma crise se tratasse, estarei a ser optimista. Porque esse termo por definição designa algo passageiro – e eu estou longe de pressentir alguma mudança no rumo da história.  

 

Fotografia daqui

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Onde nos poderemos encontrar

por João Távora, em 14.08.15

Mine craft kid.jpg

 

Ao longo do paredão entre o Estoril e Cascais decorre por estes dias uma cativante exposição onde se confrontam lado a lado em grandes painéis, fotografias actuais e coloridas das diversas praias e falésias com registos antigos das mesmas vistas, concebidos naturalmente a preto e branco entre 1900 e 1960. Um gosto especial para quem como eu se sente parte duma comunidade que integra, não só uma história e uma geografia, mas uma cultura transgeracional,  que comporta os antepassados que conceberam a realidade que nos coube de presente. Foi assim que há dias quando regressava da praia com o meu miúdo pequeno, enlevado, consegui cativá-lo num jogo em que os dois comparávamos e procurávamos diferenças nos diversos elementos das paisagens. Aquela casa ali está igual, acolá não havia ainda uma estrada, naquela praia as rochas estão iguais, no outro lado o comboio era a vapor, ou os fatos de banho masculinos de corpo inteiro. Eis senão quando a minha criança, cuja cabecita voadora, apesar dos muitos serões com leituras das minhas referências juvenis, mal consigo interpretar, me assevera que a vida no meu tempo devia ser muito aborrecida. Encaixei com custo a inocente atoarda "esquerdista" do agora-é-que-é-bom-antigamente-era-o-obscurantismo. Sem lhe perguntar porquê, (talvez porque adivinhasse que a razão desse juízo devia ter que ver com o facto de no meu tempo não haver o Minecraft, um jogo de computador de que é fanático) o pequenote esclareceu-me que “as casas agora são muito mais modernas e giras”. Um fosso de incompreensão geracional rasgou-se profundo entre nós os dois.

De certa forma este episódio vem corroborar uma perspectiva segundo a qual, do nascimento à idade adulta se faz um percurso político, assim a modos de dizer… da esquerda para a direita. Explicando-me, há um caminho de redenção que se faz da total inconsciência de si no nascimento onde se inicia a construção de um ego insaciável e reivindicativo que, de protesto em protesto, em função de si e das suas necessidades a todos obriga à sua volta. Depois, no jardim-de-infância, com mais sofisticação, já a coisa resulta na bem conhecida teoria de que “tudo o que é meu é meu, e o que é teu é nosso”. É a fase revolucionária, da solidariedade obrigatória, da restruturação da dívida e da reivindicação permanente de direitos, e recusa terminante de deveres - enfim, o "bom selvagem" em potência. Esta crise só terá paralelo no pico da adolescência, que é por assim dizer o “meio da ponte” entre a infância e a idade adulta, uma fase perigosa em que muitos optam por estacionar definitivamente – mergulhados no seu guloso umbigo, com total desprezo pela realidade, nunca vão entender que já havia vida inteligente e sensível na terra antes ou para lá de si próprios (este é um perfil comum em boa parte dos militantes do PS e do Bloco de Esquerda, anarquistas e fumadores de cannabis). Com um desenvolvimento saudável a maioria vai assumindo a inevitabilidade do protagonismo que lhe cabe na sua vida, e que aquilo que do Mundo que está na sua mão "mudar" se circunscreve aos seus próprios comportamentos. Com o uso de um pessimismo metódico mas rejeitando sempre o cinismo - que não é mais do que o “conhecimento” descarnado de amor - cada um vai intuindo a estonteantemente complexa precariedade humana e de como ao longo da história da humanidade, para lá do desenvolvimento técnico, afinal as mudanças se deram mais na forma que no conteúdo. Finalmente a evolução natural resultará um dia no espírito do sereno e pacificado conservador, que é a encruzilhada da consciência onde certamente o meu filho e eu nos voltaremos a encontrar.

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Mariquices de outros tempos

por João Távora, em 17.04.15

namorar1.jpg

I’m slowing down the tune
I never liked it fast
You want to get there soon
I want to get there last

(...)

Leonard Cohen 

 

Hoje em Cascais no jardim em frente ao meu escritório o meu olhar estranhou um casal que caminhava entrelaçado em passadas lentas e alinhadas. Essa visão lembrou-me manifestações antes tão comuns que depois catalogámos de possidónias, como bailaricos ou passeios nas tardes domingueiras com roupa de “ver a Deus”, nos jardins ou avenidas, a ecoarem ao fundo os gritos das crianças a brincar e o relato da bola num transístor. Se os nossos avós que tiveram de namorar “de janela”, se conformaram a encontrarem-se só em lugares públicos com um irmão mais velho ou uma criada, a minha geração envergonhada erradicou qualquer exibição de compromisso. E agora morram de vergonha os jovens leitores: o meu saudoso pai contava que antigamente no Liceu Passos Manuel onde estudou, os bons amigos andavam de braço-dado no recreio.
Claro que a minha geração, medrosa e puritana como se fez, baniu esses indecentes hábitos sociais de gente careta, iletrada, rude  – no meu tempo do liceu, tempos revolucionários, do rock pesado e da “poesia com mensagem”, já só sabiamos dançar sozinhos e caminhar de “mão dada” tornou-se uma pieguice. 

Enfim, a mesma geração que institucionalizou o nudismo, o amor livre e toda a sorte de fantasias eróticas, envergonhou-se de namorar, um assunto que circunscreveu à poesia. Curioso como ao mesmo tempo que aprenderam a tolerar demostrações públicas em homossexuais, homem e mulher tenham desaprendido de andar de braço dado com o andar sincopado. Curioso como, com tanto sexo em prime-time, criámos uma comunidade tão estéril e fragmentada. Porque o romance para fazer história tem de ser mais longo que uma canção pop. 

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Em calhando

por João Távora, em 15.12.14

Sporting.jpg

Lembro-me bem, Filipe: vinha eu ontem de Alvalade a digerir o melão do empate com o Moreirense enquanto pelo relato da telefonia escutava os comentadores de serviço a tecer rasgados elogios à equipa azul e branca, que já falhara várias ocasiões de golo, na exacta medida em que depreciavam a postura constrangida do Benfica, esmagados que estavam com a autoridade dos donos da casa. Até que o Lima marcou o primeiro golo, julgo que pouco depois da meia hora de jogo. “Olha-me a sorte dos lampiões… calhou!” Foi o que eu pensei. Confesso que não vi o resto do jogo, que esta coisa de um pai de família quando chega a casa tem outras prioridades e contrapartidas a prestar, principalmente quando passou a tarde de Domingo precisamente na bola. 

Vem isto a propósito do estranho e súbito veredicto repetido mil vezes pelas sumidades da bola que enxameiam os canais por cabo e os jornais da especialidade ou nem por isso, que a malta consome na ânsia de prolongar o gozo da vitória ou encontrar bodes expiatórios que amenizem a depressão da derrota:  a vitória do Carnide reflectia afinal uma exibição brilhante e uma extraordinária estratégia por parte de Jorge Jesus
Ora acontece que, tão certo quanto Jorge Jesus ser um bom treinador, os resultados futebol dependem em grande medida do factor “calhar”, que os portugueses tão bem exprimem com o “em calhando”. Acontece que "em calhando" uma ou duas bolas na trave, um montículo de relva que desvia a bola, podem custar três pontos. Não, não é só do campo inclinado pelo árbitro vendido, da capacidade de liderança do treinador, da qualidade táctica e técnica de um mais ou menos harmonioso conjunto de jogadores que depende um resultado da bola. Em calhando num dia mau ou num dia feliz, perde-se ou ganha-se um jogo, essa é que é essa! Com a regra do “em calhando” perdem-se campeonatos e despedem-se treinadores. A regra do "em calhando" é preponderante e obviamente não é a única com influência no resultado, mas é precisamente essa que dá magia ao futebol: o Benfica ontem jogou pouco, mas calhou ganhar - ficaram felizes os lampiões, não há quem os ature. E a segunda parte do Sporting seria suficiente para a vitória... mas não calhou. De resto, caro Filipe, se não sabes ficas a saber que esta regra é verdade cientifica, excepto com os chatos dos alemães.

Texto originalmente publicado aqui

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Mais uma crónica moralista

por João Távora, em 19.09.14

Ontem á tarde, depois de umas voltas a pé pelo Chiado ocorreu-me o sugestivo achado de que, se até ao século XIX as crianças se ataviavam como adultos, hoje em dia os adultos querem é vestir-se como as crianças, por exemplo, com boné americano, t-shirt garrida com um excesso qualquer, calções e sapatilhas de Basquete (na melhor das hipóteses). 
De facto é especialmente durante o século XX que se verifica um crescente cuidado na diferenciação com o trajar infantil, na assunção da sua especificidade face aos adultos, expresso através de elementos coloridos e resistentes que evidenciassem a inocência dos petizes favorecendo a liberdade de movimentos que a brincadeira requer. Daí à proliferação de modistas e lojas especializadas foi um salto, e imagino que tardando em relação aos outros países ocidentais, nos anos sessenta já existiam em Lisboa pelo menos dois casos sérios na matéria, a italiana Brummel e a portuguesíssima sapataria Bambi para gáudio das mães mais extremosas e endinheiradas. Facto não despiciendo, é que o trabalho infantil só vem a ser proibido bastante mais tarde.
Democratizada como objecto de consumo acessível e transversal no ocidente, a moda é hoje inevitavelmente um reflexo do "espírito do tempo". Talvez por isso o adulto resista a qualquer formalismo e sofisticação, mais preocupado em vestir-se para chamar a atenção... pelo espanto. Idealizada a infância, acontece que ela é a representação aproximada do “bom selvagem” o devaneio de Rosseau, bem-aventurado, livre e inocente porque desligado de quaisquer normas e espectativas sociais que o corromperão (e quem é que inventou essa de que a infância é na sua natureza tempo de felicidade e inocência?!). Deste modo por estes dias a forma de vestir tende para uma cada vez maior informalidade, mas anacronicamente esmerada e até dispendiosa - todos diferentes, todos iguais, numa mensagem de emancipação e afirmação de inconsequência, exterioridade, descomprometimento, completa e inexoravelmente só. 

Em defesa deste discurso moralista tenho a dizer que me admiro tanto com uma garota de biquíni subindo a Avenida da Liberdade quanto um homem de fato e gravata no areal duma praia. E que acredito na liberdade de escolha individual como valor fundamental, e que ao fim do dia todos temos o direito de nos imaginar até um artista de rock. O que me parece trágico é que, se a evolução estética ocorrida na moda infantil durante o século XIX e XX reconhecia essencialmente a especificidades da criança com inequívocos direitos a um desenvolvimento no sentido da responsabilização e urbanidade, hoje os seus filhos ou netos parecem reclamar através das mais bizarros trajes um estatuto de total puerilidade, como uma geração que recusa ou resiste a crescer e assumir a sua quota de responsabilidade para o sustento ou avanço da civilização.
No outro dia duas pessoas à porta do colégio dos meus filhos, despedindo-se utilizavam uma expressão aparentemente vulgar e incipiente mesmo entre duas caricaturas de adultos: "Adeus, pá, porta-te mal se puderes!". Talvez pelo enquadramento a coisa deixou-me a pensar. Certamente não quer dizer nada e não me lembro de como estavam vestidos. 

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Meets e arrastões

por João Távora, em 30.08.14

Hoje foi uma das raras vezes que me identifiquei com uma ideia do Daniel Oliveira e que até concordei genericamente com uma sua crónica no Expresso (coluna que por assumido preconceito não costumo ler para não me chatear) onde ele aborda os jovens e o “epifenómeno” dos meets, tema que acalorou um pouco os dias vazios deste resfriado e agonizante mês de Agosto. Da ideia já eu fizera em tempos menção numa das minhas usuais crónicas moralistas: o “aborrecimento”, um estruturante estado emocional democraticamente distribuído às crianças e jovens do meu tempo, é hoje roubado às novas gerações de jovens e crianças, empanturrados que vivem com centenas de canais televisivos, telemóveis, jogos electrónicos e Internet, um infindável chinfrim de distracções fáceis, em desfavor da dúvida existencial e da consolidação duma “interioridade” que a apenas o silêncio, a solidão e os tempos mortos estimulam.
Quanto ao mais, meets ou “arrastões”, convenhamos que uma análise ponderada e racional descredibiliza os alarmismos de cariz xenófobo com que os tablóides exploram os medos mais básicos às pessoas. Há dias refastelado numa praia do Monte Estoril onde quando eu era miúdo molhar o pé era desaconselhado por causa dos esgotos que despejavam ali bem perto, confrontei-me com um panorama só aparentemente peculiar: o duma mistura saudável de bandos de miúdos de subúrbios de todas as cores (a linguagem é de facto aterradora), ao desfio a mergulhar do pontão para as águas límpidas, turistas do centro da Europa, filhos de emigrantes em visita à Pátria, tias, sobrinhos e dondocas da Linha, todos a partilhar um areal exíguo mas asseado, numa concessão balnear ao nível de um luxuoso hotel de cinco estrelas. O que eu quero salientar é que, apesar dos incidentes que são a excepção e confirmam a regra, é um facto que no meu País, na minha cidade e no meu bairro, a qualquer hora do dia, sinto-me seguro para me deslocar a pé, consultar o telemóvel e transaccionar um bem no espaço público sem grandes desconfianças. Tudo isto é um privilégio que não sendo um dado adquirido, constitui um precioso legado, um consenso negociado e consolidado ao longo de gerações de uma pacífica comunidade de desconhecidos aliados tacitamente, conquistado diariamente através de cedências individuais em prol de uma sã convivência e prosperidade para todos, ou tantos quanto possível. Assim saibamos preservar isto, que é o fundamental.

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Opíparo, meus senhores!

por João Távora, em 08.07.14

Os nossos leitores não sabem, mas isto de ter um blog colectivo o melhor que tem é mesmo o convívio e as jantaradas. E se Jesus Cristo fundou a Igreja à mesa com os apóstolos, nós portugueses cedo percebemos que é à mesa que se podem resgatar as almas das trevas. Afinal quando as coisas correm bem “é o que levamos daqui”, como diz a sabedoria popular.
E assim foi, debaixo de um majestoso pôr-do-sol na Praia da Poça em São João do Estoril, que decorreu ontem mais um dos já afamados jantares do Corta-fitas. Foi a segunda vez que um destes acontecimentos saiu de Lisboa, depois de uma inesquecível experiência há uns anos na Ericeira e pode dizer-se que descontando as notadas ausências da Luísa e dos correspondentes do Norte, Vasco Lobo Xavier e João Afonso Machado, foi um sucesso. De notar que mesmo assim a incidência de "Vascos" foi marcante, com os Vascos Rosa e Mina a tirarem claramente vantagem pelo facto. O Peixe-galo foi comido em saborosos filetes que é o que se aconselha a uma segunda-feira mesmo num restaurante à beira-mar. Por diversas vezes foram as conversas convenientemente interrompidas com sonoros brindes de Saúde a Ricardo Salgado, tristes compungidos e solidários que estavam os presentes com as recentes arrelias do demissionário banqueiro. Chegados aos cafés, acesos os cigarros e cigarrilhas, o Duarte Calvão não se coibiu de humilhar os presentes com um enorme charuto com que aliás acompanhou mais um brinde ao Dr. Ricardo Salgado – inteiramente correspondido com chávena em punho pela nossa especialista em assuntos de banca, a Maria Teixeira Alves.
Com o ventinho enregelado a chegar aos ossos, o José Mendoça da Cruz que percebe destas coisas, convidou os comensais para fecharem a noite com um último copo na sua acolhedora casa, gentileza bem recebida por todo o grupo, não sem antes, divididos em três carros, fazermos uma ruidosa paragem na bomba de gasolina para municiamento de whisky e tabaco. Foi quando eu me senti rejuvenescer trinta anos, e reviver por instantes os tempos da minha juventude rebelde.
Já nos aposentos do nosso anfitrião, ainda tivemos a oportunidade de, mais uma vez, beber uma saúde ao malogrado Dr. Salgado, que não lhe falte nada na velhice, amigos e consolo dos que lhe são chegados - foram os nossos sinceros votos. 

 

PS.: Da próxima levo a minha grafonola e uns quantos Foxtrots e Ragtimes que é um regalo.

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Os nossos mortos

por João Távora, em 03.07.14

Curioso como quase sempre recordamos os nossos mortos pelos seus traços principais, momentos luminosos, devidamente despoluídos das mesquinhezes, desgastantes rotinas e conflitos. É uma questão de sobrevivência pois que somos também feitos dessas memórias, e por isso resguardamos as boas, que dessa forma nos completam e animam no projecto de sermos gente pela vida fora. Só assim é possível prestarmos tributos, amar os nossos heróis, construir os nossos panteões. Chegamos à idade adulta quando não dispensamos os nossos mortos, assim idealizados e suportados nas suas grandezas, perdoadas e resolvidas as disputas e mal entendidos. Assim nos integramos numa comunhão de pensar, ás vezes até em diálogos íntimos como preces, sobre tudo e sobre nada, sábios conselheiros que eles são.
Assim pela vida fora os nossos mortos ajudam-nos a crescer. Precisamos de amar os nossos mortos, e a nossa memória encarregar-se-á de arrumar a casa toda. Distanciados pelo tempo entendemos as precariedades mundanas e os pecadilhos terrenos. Perdoando-os também aprendemos a nos perdoar, a entender o difícil caminho da santidade, esta eterna construção. Que é permanecer com os nossos, pelos nossos depois da nossa vez. No sentido da Luz. 

 

Foto: O meu irmão e eu nas docas de Alcântara por volta de 1967

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Junho

por João Távora, em 15.06.14

Tem boa onda o mês de Junho - é tempo de escola cumprida, promessa de grandes férias grandes ainda por desvendar. Junho é mês de feriados e arraiais, com fumo de assar sardinhas e cheiro a farturas com canela, sangria gelada em noites retardadas por um sol arrogante num desaforo de cores nos limites da decência. O mês de Junho desponta o corpo destapado do inverno que já toma a temperatura ao oceano: submerge com os primeiros banhos de praia num engano de emancipação, logo dissipada como a espuma duma cerveja ao final dum Domingo. Depois há toda esta comunhão planetária, euforia partilhada do futebol em horas impróprias. Uma crescente ilusão de irmandade global de afectos, como num anúncio de chuteiras em que se junta o mundo inteiro nos olhos fundos duma criança. Ou de como o chuto numa bola rasgando o espaço interrompe uma guerra, adia os negócios, diverge os amantes, acelera os corações e suspende as marés. Com alguma sorte entramos em Julho de cabeça nas nuvens.  

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