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A lição do Tetra

por João Távora, em 14.05.17

Os não benfiquistas que me perdoem a sobranceria, mas creio existir alguma lição a aprender com a sucessão de quatro campeonatos ganhos pelo Benfica. Contém muito daquilo que rareia em Portugal, nomeadamente na governação ao mais alto nível. Estratégia de longo prazo, liderança, profissionalismo na gestão de topo, estabilidade, perseverança, e sobreposição do todo sobre a parte. A caminhada iniciou-se no início do século, não ontem.

Com frequência durante esta época fui dizendo aos meus amigos sportinguistas que a conquista destes títulos simbolizam mais a distribuição de dividendos resultantes da estratégia adoptada desde há anos e menos o rasgo de génio deste ou daquele. E que não vislumbro nada de substancial no horizonte que possa mudar o rumo dos acontecimentos. A Norte o passado não quer sair de cena, revelando por um lado o clássico problema de sucessão e a excessiva dependência num indivíduo. Do outro lado da Segunda Circular temos dois galos que se digladiam por objectivos de curtíssimo prazo e por palco, revelando quer o xico espertismo que tanto vilipendiamos mas que tanto premiamos, como também alguma incapacidade de trabalhar em conjunto numa óptica de complementaridade onde o defeito de um é ofuscado pela virtude do outro.

Descontando o calor da vitória que pode diminuir o discernimento, creio que o futebol português contém matéria suficiente para retirar algumas boas lições para os portugueses. Haja para isso frieza e pouca clubite.

Sugiro assim aos sportinguistas e portistas que façam bem o seu trabalho de casa. Não só para garantir campeonatos interessantes no futuro, mas também para dar bom exemplo aos nossos governantes. Não faço esta sugestão em jeito de provocação pois não quero atraiçoar o fair play e o objectivo deste texto, que mais não é que perceber de vez que pensar a longo prazo e com cabeça tende a produzir mais resultados.

E já agora sugiro aos benfiquistas que não embandeirem em arco sob pena de ter um dia de escrever um texto que não me apetece.

 

Pedro Bazaliza

Convidado Especial

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Pendurados e agachados

por João Távora, em 24.04.17

No início da década de 90 explodiu em Portugal um tipo de perfil que faleceu no decorrer do programa de ajustamento. Circulavam pelos corredores das grandes empresas dos mercados não transacionáveis (obviamente…), pelos ministérios, bancos, ou ainda por uma qualquer autarquia mais atrevida. Consideravam-se o arauto e a referência do melhor que a gestão e a ambição podiam dar ao país (ou em rigor, a si e aos seus), projectando-se na sociedade como a nata e como sendo aqueles a quem todos deviam dar as graças pelos seus valorosos e inquestionáveis méritos postos ao serviço da Nação.

Falavam de alto, mais pelo que julgavam ser do que pelo que eram. Ele era milhões para aqui e para ali. Discorriam sobre estratégia e negócios com aquele à vontade próprio do parolo que brilha perante uma plateia mais desinformada. Cegos sobre os cenários que iam imaginando e quase sempre muito resolutos, viam-se como aqueles a quem a providência se lembrara para tomar em mãos os destinos estratégicos do país, e, por inerência, aqueles a quem o topo lhes deveria pertencer como consequência da sua condição.

Para muitos representavam aquilo que, erroneamente, muita esquerda sempre quis fazer acreditar como sendo a Direita. Desmedidamente ambiciosa, arrogante, inculta, impreparada, e sanguessuga. Nem faltava o fiel séquito que costuma gravitar à volta destes círculos, sempre bajulador e refém da sua ambição mais pequenina, embora útil. Desfilava também uma meia gente agachada que aceitava a troca do princípio pela prebenda, ao que não seria alheia a influência do sabor dos amendoins para a indistinção entre miragem e realidade.

Quis pois a realidade, esse incómodo dos ilusionistas, desmontar os mitos que andavam à solta. Com o baixar da maré muitos daqueles que outrora se passeavam alteados e davam entrevistas passaram a viver ou detidos, ou a solicitar perdões de dívida, ou ainda a fazer figuras tristes em comissões de inquérito.

Eram a Direita? Não. Eram Pendurados. Ou numa família, como Ricardo Salgado, ou num partido, como José Sócrates, ou num monte de dívida, como Nuno Vasconcellos, ou numa empresa leiteira, como Zeinal Bava e Henrique Granadeiro. A lista é infindável.

Esta matéria mal organizada e desacreditada sugou muito ao país. Até naquilo onde provavelmente os próprios nunca se darão conta. Subtrairam à Direita, onde por perfil eles não cabem, argumentos para convencer a maioria dos Portugueses que existe uma Direita consciente, responsável, recta, que responde pelos seus actos, livre no pensamento, pouco dada a ilusões e outros jogos, e que pode ser bastante útil para a libertação de Portugal.

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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As perigosas crianças do BE

por Corta-fitas, em 07.04.17

be-arruada.jpg

A agremiação do BE é um fenómeno que espelha bem um certo tipo de diletantismo que invadiu a sociedade portuguesa. Vida facilitada, com poucos constrangimentos do género “levar filhos à escola”, com acesso abundante a informação processada na mecha e a muita oferta cool disponível por aí, esta desarranjada mole urbana permite-se emitir doutrina à velocidade dos acontecimentos. Na abundância destes com a arrogância daqueles medra um imenso ruído e confusão que serve bem o diletantismo de quem ousa tudo julgar sem nada ter de provar, o que, aliado à condescendência como são tratados, resulta num grupo demasiado curto no argumento e excessivamente largo no berro. A desvinculação na prestação de contas e correspondente falta de escrutínio que aos outros se exige não é mais do que a zona de conforto onde o BE respira.

Assim como certas crianças urbanas mal-educadas a quem tudo se permite, não é de estranhar que o tom arrogante e estridente de que o bloquista se socorre sejam o seu norte, pois que à escassez de Nãos (não vá o petiz traumatizar-se) por oposição abundam infinitos Sins. Para tentar acalmar o rebelde, mesmo que fugazmente, há que o fornecer com muitos brinquedos e satisfazer todos os seus caprichos sempre que a reclamação emirja. Como resultado, a malta do Bloco, como qualquer ser a quem pouco se exige e tudo pode, moldou-se para a satisfação do imediato e efémero, olhando para o “sistema” que o criou mas que ele desvaloriza como um pote sem fundo que deve estar sempre disponível para saciar o apetite do momento, ainda que este esteja em conflito com as melhores prácticas ou com o desejo da maioria. No fundo o bloquista é uma criança estragada.

O momento de ouro do BE já foi. Corria o ano de 2015 aquando da vitória do Syriza e a grande ascensão do Podemos. Aquela imagem de Marisa Matias na primeira fila da grelha a bater palmas a Tsipras quando este entrava em palco aquando da aparição após a sua vitória nas eleições de 2015 simbolizava para o BE o início de uma nova era que afinal não o foi: submeter as decisões dos crescidos à vontade das crianças. Perdendo um aliado de peso, e vendo o outro mesmo aqui ao lado perder gás e representatividade, o BE tarde percebeu que só fora do Euro terá espaço para respirar e poder brincar às revoluções. E é aqui que o BE pode ser perigoso.

Como na transição de um adolescente para a vida adulta se desembrulham algumas questões, é incontornável saber agora se o BE se syriza ou se bloqueia? E o BE já respondeu, bloqueia-se. Por ter visto que a Europa não cedeu ao Syriza e que este cedeu, logo interiorizou que dentro da zona Euro nunca poderá dar largas aos seus dislates. Só com escudos e máquinas que os possam imprimir a seu bel-prazer o BE tem futuro no recreio a que se destinou, tendo até já consultor no Banco de Portugal para o efeito.

Até à geringonça o BE tinha o seu raio de acção muito limitado, mas agora tem influência significativa no orçamento. Lá encontra-se de tudo numa pérfida união de interesses. Para além destas crianças que se estão nas tintas para o défice, encontramos os ilusionistas do PS que procuram maquilhá-lo o melhor que podem para não seguirem o caminho do PSOE e PASOK, passando pelos jurássicos do PCP que há muito só querem o escudo e que só se preocupa com os redutos sindicalistas mais arcaicos de que se alimenta. É nesta união egoísta e estroina que o BE pode fazer valer o seu objectivo. Por isso a geringonça serve o BE na perfeição, por isso o BE se agacha a tudo a que outrora berraria. E é por isto o BE pode ser perigoso. A tudo está disposto para sairmos da zona Euro.

 

Pedro Bazaliza

Convidado especial

 

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Boa-fé

por Corta-fitas, em 27.03.17

Dijsselbloem14.jpg

Muita alma por este país se ofendeu com as declarações do Sr. Dijsselbloem. Pois eu achei-as bem-vindas. Acontece que, para variar, desde 2011 que o argumento não anda a surtir o efeito desejado, e, como tal, o esgotamento da paciência de quem é de boas contas utilizou agora a metáfora como método. Felizmente esta chegou de uma forma directa e incisiva, não fosse o ilusionista invocar uma qualquer dificuldade de interpretação para fugir ao assunto. Embora a espuma do acontecimento ainda não permita bem digerir o que está em causa, a verdade é que em algum ponto não muito distante a infantilidade reinante nalguns países vai ter de ser posta à prova. E o que está em causa é ver quem fica e quem sai da zona euro.

A zona euro é uma parada muito alta e exige aos seus aderentes um comportamento nórdico. O euro não foi criado para servir os propósitos dos países do sul em atingir o nível de vida dos países do norte por via da ilusão à boleia da falsificação de contas, e à custa de viver pendurado nos outros por via de perdões de dívida. O euro foi criado com o objectivo de aprofundar a EU e de criar laços fortes entre os seus constituintes. Convém ainda reter que o Euro não tem o propósito de ser utilizado como arma concorrencial para satisfazer os dislates e as estroinices de povos menos ajuizados.

Como num casamento, os países também se vão conhecendo com o tempo. E também como num casamento existem altos e baixos. Os consecutivos resgates e programas foram uma boa resposta à crise conjugal do Euro, provando que o norte se solidarizou bem com o sul. Compete ao sul cuidar-se e aproveitar a ajuda, tomando a si a responsabilidade de fazer o que lhe compete para merecer confiança no futuro. O caminho pode ser mais ou menos sinuoso e apresentar mais ou menos dificuldades inesperadas. Mas nada que a persistência e a boa conduta não possa vencer.

Algum tempo passou, e nesta fase é crucial perceber bem que existe um ponto fundamental que se não for cumprido tem a ruptura como resultado final. Esse ponto chama-se: boa-fé. Ou percebemos e interiorizamos isto, e depois agimos em conformidade, ou então o resultado e o todo o processo serão muito penosos.

Muitos julgaram que o Euro seria um instrumento formal e eterno de uns viverem pendurados nos outros, um verdadeiro idílio para o socialista meridional. Esqueceram-se que os parceiros com quem corremos na pista andam muitos avisados, conhecem-nos melhor do que imaginamos, e sabem muito bem distinguir quem necessita de solidariedade e quem quer viver pendurado. Por outras palavras, topam-nos à distância.

Mas muito mais do que esquerda e direita, o que está em causa nesta matéria é distinguir de entre todos aqueles que julgam que viver à conta dos outros é um modo de vida e aqueles que entendem essa postura como perversa e contrária ao bom convívio entre os diferentes povos.

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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Não nos iluda!

por Corta-fitas, em 20.03.17

O Presidente da República adopta a política dos afectos. É legítimo? É. Não ocultou o facto antes das eleições, bem pelo contrário. Está carregado de legitimidade para isso.

Aparece a toda a hora e em toda a parte! É legítimo? É. Era expectável? Era.

Comenta tudo e mais alguma coisa! É legítimo? Humm, algumas doses de contenção seriam bem-vindas. É prudente? Não, longe disso.

Apoia o Governo de Portugal contrário à sua família política de origem e de onde obteve a maioria dos votos que o elegeu. É legítimo? É, e ainda bem que o faz. Exijo respeito pelo Governo da Portugal que, diga-se, tem tanta legitimidade política quanta fraqueza democrática e incompetência. Acima de tudo não espero, tão pouco quero, que o Presidente faça de oposição. Compete à oposição essa práctica. É o Presidente de todos os Portugueses.

Parece que por vezes se intromete no governo, chegando por vezes a parecer que faz parte dele. Deve fazê-lo? Não. Mas como está em sintonia com o Primeiro-Ministro só espero que haja mais cuidado para não abrir maus precedentes. É que Portugal continua.

Pessoalmente não concordo com este estilo de presidência, mas como democrata aceito, respeito e tolero tudo isto, embora com muito incómodo.

Agora vejo o Presidente da República regozijar-se perante as câmaras da TV que Portugal emitiu dívida a juros negativos. Perdão!?

 Primeiro, e muito objectivamente, exijo que não me tome por parvo. Não existe legitimidade para tomar as pessoas por parvas. Sabe muito bem o significado de emissões de curto prazo e emissões a 10 anos, pelo que valerá a pena recordar que são estas últimas a referência para estados de espírito, que já agora adianto, convêm ser de discrição por parte da Presidência, ainda que a evolução das taxas no mercado secundário fossem favoráveis, o que está muito, muito longe de ser o caso.

Segundo, não existe legitimidade na ilusão com que se pretendeu encharcar o espaço público. Este aspecto, embora subjectivo por natureza, é na minha opinião crucial nesta fase da vida de Portugal. A ilusão, como muitas vezes tenho dito, é a maior doença que grassa em Portugal, e embora sabendo que não é legítimo esperar que venha da Presidência acção directa para a cura, considero ilegítimo que de lá surjam sinais para manter os Portugueses amarrados à maleita, senão mesmo em agravar a mesma.

Porque é este assunto tão importante? Porque este é o indicador que nos conduz, ou não, a pedir outro resgate. Aqui não se brinca, é o ringue dos crescidos. É onde deixou de haver espaço para ilusões, intrigas e outros esquemas (embora antes de 2008 não fosse assim). O escrutínio nos mercados secundários de dívida a 10 anos agora fia demasiado fino. É para peixe graúdo. Champions League.

Quando recentemente emitimos dívida a 10 anos a cerca de 4% vi o Presidente contente com a cotação dos juros a 3,8% no mercado secundário logo após essa emissão! Agora que cotam a 4,3% vejo regozijo sobre emissões de curto prazo! Não nos iluda.

 Nota final: A espuma do dia-a-dia é o terreno da politiquice do político de segunda linha mais fracote. Os bons políticos de primeira linha falam de tendências. Do presidente espera-se que se esforce para que os últimos não sejam tentados a ir para o terreno dos primeiros. Muito menos que monte lá arraiais.

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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A infantilidade anda à solta

por Corta-fitas, em 08.03.17

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Por vezes vou-me questionando sobre as razões porque nestes tempos os nossos políticos de serviço insistem na ilusão e no vício como forma de condução dos assuntos sérios. Vejo pessoas com cabelos brancos, engravatados, uns com ares distintos e outros a acharem-se, professores universitários, semblantes graves, engenheiros sociais, resolutos, ministros, doutores, especialistas, vendedores de banha da cobra, sindicalistas, etc, a passarem sinais de que o crescimento económico é função da dimensão do coração de quem tem poder para decretar amanhãs que cantam a partir de um qualquer ministério. Olho para toda esta mole humana viciada, espessa e inerte, qual pedregulho intransponível, e não consigo entender como tantos que já deviam ter mais do que idade para ter juízo ainda aprovam e convivem com mentiras, esquemas, infantilidades, patranhas, malícias, e outras velhacarias ao serviço de uma quimera que não tem pernas para andar. Porquê?

Por não existir racionalidade que explique a inconsciência que nos querem vender, creio bem que é na ilusão que reside a explicação para o charco onde estes inúmeros batráquios chafurdam e brincam. Na impossibilidade de conviverem com a realidade sob pena de atraiçoarem os seus credos que falharam, os intérpretes de serviço servem-se de qualquer margem de manobra deixada pela sensatez para tentarem salvar o seu ego e acautelarem o tempo que lhes resta, numa clara atitude egoísta para com as gerações futuras.

Um caso revela bem a infantilidade de termos vendedores de ilusões como principais actores políticos. A inconsciência com que se aceita a diminuição do investimento e a subida acelerada dos juros com que nos financiamos por troca de benefícios imediatos sem garantias de continuidade, bem como a abdicação em empreender uma qualquer reforma, por mais urgente que ela seja, é prova que a tolice marca o ritmo. Este princípio, a que usualmente na vida privada associamos a pessoas mais vulneráveis e sem capacidade de discernimento, está em vigor na intelligentsia que se julga.

 Outro caso, o da CGD, é revelador do mundo em que vivem os representantes de serviço. O amadorismo com que o assunto foi conduzido e o argumentário do chefe da banda para justificar todas as trapalhadas subsequentes diz bem sobre a impunidade reinante, aspecto típico de quem se sente livre como um passarinho para a práctica de ilusionismo sem limites.

 Temos ainda a gabarolice patética com que o distribuidor de amendoins cantou vitória sobre o crescimento de 1,4% para 2016 quando para um mesmo nível de crescimento em 2015 desdenhou o número. Mais uma vez praticou “poucochinho”, o que aliás vai sendo um clássico e bem revelador da falta de vergonha da peça. Estes contorcionismos com que se baba permitem-lhe achar-se um príncipe da política, e o silêncio cúmplice e agachado do resto da banda e o interesse vindo de além-fronteiras só lhe consolida o vício. Nada que não sirva de grande inspiração aos chicos espertos espalhados por aí.

E por fim, como aliás não poderia deixar de ser, temos o fatal consumo interno. Num país com uma escassez dramática de capital, endividado até ao pescoço, seja o Estado, Empresas ou Famílias, falar em consumo interno como factor dinamizador de crescimento económico num mercado de 10 milhões quando a taxa de poupança sobre o rendimento disponível é de cerca de 3,5% raia a loucura. Só uma grande dose de inconsciência não permite desafiar esta ilusão do consumo interno. Mas como é aqui que moram os votos até na direita isto não é ainda muito bem compreendido.

Assim vai o Portugal em 2017. Mas para que o Portugal de 2018 e seguintes dê continuidade a estas e outras ilusões há que começar a preparar o afastamento daqueles que podem atrapalhar a brincadeira. Não é por acaso que os órgãos institucionais menos receptivos a entrar no jardim-de-infância como os tutelados por Teodora Cardoso e Carlos Costa estão agora sobre escrutínio dos mais radicais da seita. Nem que para isso se tenha de atropelar a democracia, o que receio venhamos a testemunhar.

 No turbilhão natural dos acontecimentos, a que a falta de rumo e o excesso de ilusões tratam complicar, não vão faltar ocasiões para que se revele com mais detalhe a matéria de que é feita esta tribo impreparada que nos pastoreia. Tudo isto é evidentemente perigoso senão mesmo meio amalucado, e temo mais uma vez não ser com argumentos que se altere o caminho para o precipício.

 Julgava eu que pessoas experimentadas e em lugares de responsabilidade não se exporiam a reincidir no erro e aprenderiam com a experiência. Senão com a deles, pelo menos com a dos outros. E nem era difícil. Bastava para isso não trazer de volta os ilusionistas para o palco. Mas não é assim. Há qualquer coisa de psicótico em vigor neste Portugal que impede que se aprenda com os erros e que por oposição teima em dar constantemente luz verde ao vício.

Desde o início da década de 90 do século passado que Portugal vive no mundo de ilusão, mas parece que o sobressalto de 2011 não foi suficiente para pôr as almas em sintonia com a realidade. Na primeira oportunidade isso revelou-se.

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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Psicologia para lidar com ilusionistas

por Corta-fitas, em 17.01.17

Costa e Marcelo.jpg

Como julgo já ser consensual, a doença profunda de que Portugal padece chama-se ilusão. Ela manifesta-se de múltiplas formas. Dívida, baixa taxa de poupança, arrogância, desproporção entre direitos adquiridos e deveres practicados, amanhãs que cantam, fuga para a frente, incapacidade de racionalizar e argumentar, e acima de tudo negação. Com esta listagem creio que, qual psicólogo, o primeiro passo a interiorizar é perceber que não é com pura racionalidade que se convence o doente, nomeadamente se utilizarmos um estilo assertivo recheado de argumentos. Adoptar esta postura só leva a que o iludido se feche e adopte uma atitude defensiva, tornando impossível a sua cura. Preferível é deixar o doente falar e facultar-lhe espaço suficiente para se espalhar, algo que só o tempo e as circunstâncias que a realidade vai impondo conseguem fazer valer. Sobra assim ao lúcido socorrer-se da paciência que este exercício impõe, o que convenhamos não é a atitude mais fácil para o actor político que no dia-a-dia é chamado ao combate político.


A prova de que a racionalidade é ineficaz pode ser encontrada na forma leviana como o nosso (des)governo* encara a evolução da taxa de juro a que Portugal se financia nos mercados. Não admite que a mesma possa reflectir a opinião racional de inúmeros agentes que, embora outrora não tenham dado mostras de total racionalidade, têm tido nos anos mais recentes atitude bem mais alerta perante as diferenças entre cada devedor. Quando confrontado com o facto o ilusionista de serviço desorienta-se e responde de modo ludibrioso e por vezes até acintoso, tal é a diferença entre o que é e o que deveria ser. Com a agravante de que na cabeça de um socialista é uma contradição dos termos o facto de serem os mercados a regularem governos desmiolados e não o seu contrário. Direi pois que mais vale flanquear o ilusionista não o confrontando directamente, uma absoluta perda de tempo, antes falando para o povo sobre as consequências das ilusões. No caso das taxas de juro, e só relativamente à última emissão, é bom ter presente que a ilusão vai ter um custo adicional para os portugueses de cerca de 660 milhões de euros (ME), ou seja, 3000 ME * 2,2% * 10 anos. Simpaticamente para as luminárias de serviço assume-se que 2,2% é a diferença entre o que pagaria um governo de qualidade mediana em comparação com o actual (des)governo. Para isso recordamos que em Fevereiro de 2015 Portugal financiou-se a cerca de 2%.


*Para o BE e PCP isto nem sequer é tema porque as dívidas para estas cabeças não devem ser pagas

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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