Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



António Manuel Venda

por Pedro Correia, em 25.06.08

Pelo fim da manhã

 

 
 
Foi pelo fim da manhã; uma manhã de Fevereiro de 1968, enquanto decorria mais uma reunião do executivo da câmara, em Monchique. Vivia-se o tempo pachorrento do costume, numa terra oficialmente despreocupada com as guerras de África, salvo nas casas de quem nessas guerras tinha alguém. Por muitas que fossem, as casas, nelas sofria-se em silêncio com os tormentos da incerteza. A bem, ao que se dizia, da nação. Pouco antes do meio-dia, ainda com vários assuntos por discutir, alguém interrompeu a reunião e chamou o presidente de parte. Sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido, posto o que ele voltou para o lugar, mas só para avisar de que tinha de ir rapidamente para o hospital. Voltaria assim que pudesse, mas o mais certo era só se despachar depois do almoço.
Da câmara ao hospital a distância não era muita, cerca de um quilómetro. Dificilmente poderia ser mais, numa pequena vila de província do estado novo português, bem no interior do Algarve. Um estado com um ditador velho, sempre pacóvio, maldoso, cínico e decadente, ainda que longe de imaginar que mais mês menos mês haveria de se estampar com a própria cadeira. Acabou por acontecer em Setembro, de noite. Transportado numa limusina negra, pelo meio do trânsito desordenado de Lisboa, foi mandado parar pelo sinaleiro no Cais do Sodré. Ao lado do condutor ia um detestável figurão chamado Fernando Eduardo da Silva Pais, o director da PIDE, a polícia política do regime. Assim que o viu, o sinaleiro pareceu ficar sem voz.
– Avance! Avance! – terá ordenado Silva Pais.
E o motorista conduziu a alta velocidade para o Hospital de S. José, o primeiro poiso do estampado Salazar antes da convalescença na clínica da Cruz Vermelha, em Benfica. Haveria de morrer dois anos depois, pensando que continuava como presidente do conselho.
Em Monchique, a caminho do hospital onde ia nascer mais um bebé, naquele final de manhã de Fevereiro de 1968, o presidente da câmara também conduzia depressa. Mas ninguém lhe fez sinal para parar. Ia num Fiat, um carro dele, não do Estado, que ser presidente de câmara, nomeado pelo governador civil, ainda não dava para grandes luxos. Talvez alguns anos depois… O presidente ganhava a vida como médico, de manhã quase sempre no hospital, onde era o director, e à tarde em casa a dar consultas particulares. A presidência da câmara tinha-lhe sido entregue por se tratar de uma das figuras mais prestigiadas da terra.
Quando chegou ao hospital, estava na hora para o parto. Era para isso que o tinham chamado. Pouco passava do meio-dia. A mulher tinha chegado na noite anterior, indo logo para o quarto onde funcionava a maternidade. Ainda haveria de ficar mais três ou quatro dias no hospital, mas já num dos quartos particulares. O presidente da câmara por pouco não chegava a tempo, mas ainda fez o parto, com as enfermeiras a assistirem. Tudo acabou em bem por volta do meio-dia e meia e o presidente da câmara pôde ir dizer ao homem que aguardava à porta que tinha mais um menino. Só já depois da uma é que deixou o hospital.
Até essa altura, o presidente da câmara ficou a acompanhar o trabalho das enfermeiras com o bebé. Não sabia bem se ainda se justificava passar pela câmara, para a continuação da reunião do executivo. Os outros elementos, provavelmente, tinham aproveitado para almoçar. Se continuassem da parte da tarde e despachassem as coisas cedo, ainda poderia ir para casa a tempo de atender alguns doentes. Aquele parto tinha-lhe complicado a agenda, assim como as dos colegas na câmara. Mas no pachorrento tempo de 1968, ainda por cima na serra algarvia, a velocidade da vida não era muita. Tudo haveria de se arranjar.
O presidente da câmara, mesmo sem saber bem o que fazer, não dava mostras de estar preocupado. E o recém-nascido, no quarto, também não. Haveriam de passar muitos anos até ele começar a perceber certas coisas.
Terá sido algum bebé importante? Para originar tanta labuta, seria bem possível. Mas não. Pelo fim daquela manhã de Fevereiro de 1968, no hospital de Monchique, nasceu um bebé que depois haveria de ser registado com o nome de António. Era eu. Apenas eu.
 
António Manuel Venda (do blogue Floresta do Sul)

Autoria e outros dados (tags, etc)

António de Almeida

por João Távora, em 22.06.08

Fumar ou não fumar


Duas iniciativas legislativas aparentemente não relacionadas entre si merecem alguma reflexão: estou a referir-me à lei do tabaco entrada em vigor no início do presente ano e às alterações que o governo pretende introduzir no código do trabalho. Imagine-se alguém que tendo desempenhado as suas funções sem qualquer problema até 31 de Dezembro passado, fumador inveterado, cujo local de trabalho é por exemplo um 6º andar, impossibilitado de fumar nas instalações onde exerce funções, se desloca durante um dia de trabalho umas cinco ou seis vezes à rua, estamos a falar dum médio fumador, dez minutos cada cigarro, mais elevador, subir e descer, irá gastar cerca de hora e meia diária com o seu vício, agravadas pela quebra de ritmo, pelo que será previsível uma baixa de produtividade de tal trabalhador.

Será legítimo que a sua entidade patronal, face à quebra de produtividade do seu empregado, o vá penalizar em termos salariais, podendo inclusive ponderar a sua substituição por outro isento de hábitos tabagísticos? Será exigivel à entidade patronal continuar a suportar os custos e actualizar se possível o salário de tal trabalhador quando o mesmo já não apresenta os resultados anteriores? E se tais resultados eram absolutamente necessários à sobrevivência da empresa? Ficará esta amarrada à manutenção deste funcionário, obrigada a contratar um terceiro para fazer parte das tarefas que o primeiro até aqui assegurava? E se a empresa apenas conseguir honrar um dos compromissos salariais?

Permitirá o código do trabalho, a bem da sobrevivência económica duma empresa, discriminar alguém apenas por ser viciado em cigarros? Despedido o trabalhador, iremos todos enquanto sociedade suportar os custos do subsídio de desemprego a tal cidadão, e ainda onerar o SNS com consultas de desabituação tabágica, acrescidas da despesa que a SS irá realizar na comparticipação dos medicamentos?

De todo este problema que aqui apresentei, o qual poderá estar a ocorrer num qualquer escritório perto de nós, qual terá sido a variante da equação capaz de causar todo um drama? Porque se a empresa decidir tolerar o hábito do seu funcionário sabemos as multas em que incorre e quem são os ninjas de serviço prontos para a acção, bem como os rostos que irão justificar tal actuação.


António de Almeida (do blogue Direito de Opinião)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Carlos Manuel Castro

por João Távora, em 20.06.08

À espera de Copérnico antes que chegue Godot


A palavra (sentimento?) que mais palpita nestes tempos é crise. Pelo petróleo, pela comida e pela vida. Por isto, aquilo e aqueloutro.

Talvez estejamos mesmo na dita cuja. Mas talvez ainda não estejamos tão aflitos quanto se pensa. Afinal, quando ela aperta mesmo, deixamos de lado as palavras e procuramos mais os actos que nos sirvam para, pelo menos, minorar a condição declinada.

De qualquer modo, a crise, do Ocidente, entenda-se, pois é dessa que falamos, é um sinal destes tempos. Como se pode falar de crise noutros pontos do globo, se muitos tudo dariam para ter a crise que nós temos? Que para algumas bem significaria o paraíso!

O pulsar do globo começa a mudar. Vivemos num tempo de profunda transformação. Como nunca se verificou desde os tempos de Roma. Os centros de poder, decisão e influência começam a dar os primeiros passos de transferência.

As margens do Atlântico norte dão por si, paulatinamente, a perder poder. Que margens no Índico e no Pacífico ganham. E, a médio prazo, perspectiva-se que o Atlântico Sul também obtenha mais proveitos.

Enquanto isto sucede, o Ocidente vai sofrendo nestes dias com o sentimento do tapete escapar-lhe do chão. E pensa-se, e foca-se, apenas, nas questões nacionais, como se fossem estas, isoladas do enquadramento global, o problema. Mas não são. São questões transversais e comuns. E, nada de ilusões! Apesar do aparente e apelativo convite dos nacionalismos, com as suas respostas simples, sem sentido nem fundamento, esses argumentos foram a forma mais célere e desastrada para o infortúnio.

Por mais que se resista e/ou não apreciem estes tempos, os desafios são comuns aos blocos geográficos e culturais. E as respostas que se pretendem dar, isoladamente, a qualquer desafio, estão condenadas ao fracasso, porque uma nova realidade, multipolar, está a emergir como nunca se verificou antes.

É por isso que precisamos de um Copérnico na política europeia, que refira e nos faça sentir, a nós, europeus, que o globo já não gira à volta apenas e para o apêndice asiático que controlou o mundo durante séculos. Nem considerar, como o pensamento ancilosado da Guerra-Fria ainda dominante em alguns círculos europeus, que na outra margem está uma potência rival e sem problemas. O Tio Sam também está a sentir certas coisas a fugirem-lhe da esfera de controlo.

É preciso mudar de paradigma, para que não fiquemos à espera de Godot.

 

Carlos Manuel Castro (do blogue Palavra Aberta)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Carlos Leone

por João Távora, em 19.06.08

O convite

 
Só mesmo por convite escrevo em blogs. Assim no Esplanar, assim no Peão, assim, agora, em O Amigo do Povo. E, de momento, no Corta-fitas. Os convites pressupõem um reconhecimento, mais do que apenas conhecimento. Isto é, conhece-se alguém pelo que faz e reconhece-se nisso algo de valioso. O que vale para quem faz o convite e para quem o aceita. No meu caso, aceitei o convite do João Pedro por motivos de amizade. No ano seguinte, o tempo no Peão foi um equívoco sem grandes consequências, mas afortunadamente passei a conhecer o Hugo Mendes (ver blog Véu da Ignorância II). E junto dos amigos do povo faço o papel de ateu de serviço, o que tem a sua piada e razão de ser.
O convite do Corta-fitas coloca um embaraço. Eu conheço este blog desde o «dia 1». Por uma coincidência, o FAL escreveu-me a anunciar o blog no mesmo dia em que entrei no Esplanar. Em 2006, até houve bastantes links recíprocos. E não foi pela mudança de pouso que eles diminuíram. Foi pela tal questão do reconhecimento. Por um lado, o género de coisas que eu faço (fazia, cada vez mais), coisas quase sempre argumentativas, não pesa muito na economia do Corta-fitas. Por outro, o género de comentário (não de análise) do Corta-fitas não me motiva. O reconhecimento não desaparece, mas esvai-se.
Isto não me impede de ler o CF de quando em vez, sem as surpresas de que necessitaria para mudar de ideias (um João Villalobos não faz a Primavera). Ainda recentemente, o «caso FAL-JPP» mostrou os limites do modelo «comentário». Menos bocas ao Governo «socialista» sobre a alegada pressão contra jornalistas e outros vícios afins teria dado autoridade para indignações contra a sugestão descarada de despedimento feita no Abrupto. Mas a profusão de posts «olhem para nós que somos de Direita», deu nisto: quando uma coisa grave acontece, já se gastou as munições em guerras de alecrim e manjerona (antes do Abrupto, o deslinkado tinha sido o Câmara Corporativa, espécie de CF ao contrário, mas se prezassem mais a honorabilidade teriam deslinkado outros primeiro). É, genericamente, o problema (meu) com o convite (e com o CF): muita agitação e certezas, pouco argumento e autocrítica, muita vontade e pouca imprevisibilidade. A seu modo (que não o meu), outro convidado já se referiu a isto (foi o Pitta). Podia alongar-me, mas isto do «reconhecimento» é hegeliano o bastante para eu evitar falar no problema que é ficarmos presos ao olhar que o «outro» tem de nós, no «mau infinito», etc. E nem os blogs servem para conversas destas, realmente.
Pela minha parte, gostei do convite (surpresa, para mim) e de corresponder. O CF é um caso de estudo das tendências da «bloga» nacional e, pela actividade dos seus animadores, da comunicação social portuguesa. Como o parágrafo anterior regista.
Parabéns pela ideia e boa sorte para o futuro.
 
Carlos Leone (do blogue O Amigo do Povo)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gabriel Silva

por João Távora, em 18.06.08

Corta-Fitas

 
Corta-fitando no corta-fitas, não faço fitas nem cortes. Fitas faço para que não hajam cortes. Nem fitas cortadas. Fitei o corta-fitas, e não me cortei. Cortei toda a fita, sem medo de ser cortado. Mas não, há o Corta-Fitas onde se pode corta-fitar. Eu também fico no Corta-Fitas. Ainda que seja só um Fita. Ou um só Corte. Hei-de de voltar ao Corta-Fitas para cortar a Fita. Outra vez. Outras Fitas. Todo os dias, o Corta-fitas é de cortafitar. Fitemos então, sem cortes. Cortemos, então, sem fitas. Corta-fitas.
 
Gabriel Silva (do blogue Blasfémias)

Autoria e outros dados (tags, etc)

André Azevedo Alves

por João Távora, em 16.06.08

 

A selvajaria do "Estado Social"
 A breve reflexão que se segue, foi motivada por este post do João Luís Pinto, que toca (e desenvolve) um ponto essencial que, infelizmente, continua a ser largamente ignorado em Portugal (incluindo à direita): o "Estado Social" que tudo procura açambarcar para as suas estruturas burocráticas e a sobre-regulação da economia e da sociedade são poderosíssimos mecanismos promotores de comportamentos anti-sociais.
Longe de ser um garante contra a imaginária "selva" do mercado (como muitas vezes se ouve por aí repetir), o intervencionismo estatal é na verdade um indutor de "selvajaria". E não apenas através dos incentivos perversos directos associados a muitas políticas sociais. Há também importantes mecanismos indirectos através dos quais as políticas intervencionistas estimulam comportamentos anti-sociais.
Primeiro, porque quanto maior a intervenção do Estado, mais decisivo se torna controlá-lo e influenciá-lo. Quanto mais socialismo, mais decisivo se torna obter regimes de excepção, subsídios, licenças ou - simplesmente - ter influência junto de quem controla o aparelho de Estado. O intervencionismo mina não só a economia de mercado como o próprio Estado.
Segundo, porque cada intervenção falhada tende a gerar uma dinâmica favorável ao aumento do intervencionismo para resolver os problemas entretanto criados ou agravados pelo Estado. Se a dinâmica intervencionista não for invertida, o Estado tende a envolver-se num número crescente de sectores e a negligenciar as suas funções primordiais, com o prejuízo que daí necessariamente resulta para a ordem social.
Terceiro, porque o alargamento da acção coerciva exercida pelo Estado a um número crescente de sectores leva a uma crescente valorização das demonstrações de força e violência - por oposição às transacções voluntárias no mercado. O outro deixa de ser alguém com quem pretendemos chegar a um acordo mutuamente benéfico e passa a ser alguém que precisamos de intimidar ou esmagar pela força para garantir a nossa posição e fazer valer os nossos interesses através do jogo político.
O resultado do avanço do intervencionismo - como o João muito bem assinala - tende por isso a ser a ruptura gradual das regras gerais de conduta que permitem a convivência social alargada. Por outras palavras: o avanço do socialismo conduz à desagregação progressiva da ordem e da paz social.
 
André Azevedo Alves (do blogue O Insurgente)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Luís Carmelo

por João Villalobos, em 15.06.08

Do Miniscente para vós

 

Houve um tempo em que blogar se traduzia por um frenético delírio. Como as guitarras eléctricas a meados dos sixties. Som pelo som, imagem pela imagem. Fluxo pelo fluxo. Assim aconteceu ao sabor da redenção instantânea, da edição própria e ainda das névoas baixas que, nas cidades portuárias, sugerem as maiores proximidades. E paixões. Todos nos conhecíamos – por vezes, horroriza-me este átono “nos” –, como se o neo-botequim veneziano aproximasse a pele, as canduras, os olhares e a espuma líquida do ser. As polémicas sabiam a pouco. E grande parte do afã tornava-se num esforço menor, tal era a intensidade que a descoberta do novo meio ia suscitando. A mais bela ilusão das auroras boreais, pois então. E foi assim que, de um momento para o outro, o “link” se tornou na síndroma da novíssima coerência. Ou na deusa voadora que tramaria a inocência de qualquer misantropo mais desprevenido. Correctíssimo: pecava todo aquele que não decidisse “linkar” (houve mesmo quem generosamente propusesse o verbo “lincar”). Os mandamentos imploravam resposta, não diria urgente, mas, no mínimo, soprada e moldada no agora-aqui. Com fulgor irrequieto, resoluto e imediato. Todas estas transpirações foram feitas de pura paixão, de procura de tom e de alguma – mínima – adequação. Sim, houve a necessidade de encaixar as linguagens herdadas a um meio para o qual não haviam sido afinal inventadas. Foi essa, também, a grande paixão. Pela rede pessoalizada. Pelo oceano da expressão radicalmente autónoma: essa matéria que fez disparar o corpo para além do corpo e que transformou a vertigem numa estalactite sem gruta, nem direcção. Estalactite omnipresente. E tão fértil. E agora? Agora, sem meta nem corredor que se possam medir, a blogosfera aportou. Ancorou. E a palavra já circula a bordo do cais e, ao mesmo tempo, no éter intempestivo e no vácuo. A palavra e as imagens a que as neuro-aparições chamaram blogue. É verdade, a blogosfera está cansada da paixão e só já quer que a deixem em paz. Que a deixem os princípios, as polémicas esvaziadas, as metalinguagens das tartarugas, os ‘sitemeters’ e as compulsões adolescentes. A blogosfera só já quer que lhe dêem conforto (reparem como foi incorporada pelos media formatados: jornais, sites e portais de televisões, etc.). Hoje, ser blogue passou a ser ‘ser gente’. E não mais ‘ser visionário à beira de um quebra-gelos ilimitado’. Hoje a blogosfera cansou-se de ser uma coisa extraordinária, ímpar e incomum. Hoje a blogosfera pede que a alimentem com a mansidão dos ninhos primaveris. A blogosfera está cansada e é por isso, muito provavelmente, que, só ontem, dois blogues - far-se-ão ver em breve! - me convidaram para enviar um texto, digo… um post. Sem parágrafos. Cá vai ele. Com prazer, já agora. Do Miniscente para todos vós.

(do blogue Miniscente)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Helder Franco

por João Villalobos, em 14.06.08

Taninos e sabores frutados

 

Problema número 1 - “Caros senhores, recebi com surpresa e agrado o vosso convite para cortar uma fita aí na vossa elegante mansão”, respondi ainda atordoado. Ao júbilo do primeiro momento foi-se acrescentado o pânico e a dúvida, algo me gritava aos ouvidos “não estás a ver que eles se enganaram?”, pelas reduzidas capacidades do meu cérebro, agora ainda mais reduzidas pelo choque do e-mail acabado de ler e que “só pode ter vindo parar à morada errada ou então é spam, já não me chegava ter a Brenda, e Ana e a Patricia a prometerem um “penis enlargement” de fazer inveja ao John Holmes, agora também recebo disto”.

Estava a meio caminho de atirar com a mensagem do "Desassosego" para o lixo quando um último relampejo de socialidade e fé no futuro me soprou para os ouvidos “olha lá o melhor é responderes ao remetente, o Pedro Correia não vai ficar chateado contigo por isso, quando muito confirma-te as suspeitas”:
- Caro Hélder Franco por razões que não lhe consigo explicar esse e-mail chegou à sua caixa de correio, na realidade pretendia convidar o Omar Telo, do blogue Ónus do Vil Metal, mas o corrector ortográfico fez das dele. (…)
Puro engano, ou uma generosidade do outro mundo, a resposta foi na realidade: “contamos consigo”. Ora esta mensagem entregou-me ao problema número dois: “Mas o que raio vou eu escrever?”. No meu quadro de ardósia mental, escreveram-se tópicos, assuntos e parvoíces – por azar vieram mesmo calhar a esta última as decisões finais desta missiva. Política – Deus me livre, isso era o mesmo que assinar o meu pedido de extradição para um gulag na Sibéria; Ferreira Leite e Pacheco Pereira – lembra-te de não fulanizares a coisa que eles conhecem os senhores em questão muito melhor que tu; Cinema – isso era coisa para levares uns 7-1 –deixa mas é de ser parvo; Desporto – ah e tal e coisa e não sei quê, quando isso sair já os teus dotes de professor Karamba estão desactualizados e a selecção voltou para casa, carregada em ombros pela energia positiva de quem empurra o autocarro que o gasóleo está caro.

Depois de cinco dias nisto desisti. Mandei um e-mail ao Pedro Correia em que fiz questão de agradecer o convite e lembrei-me da única coisa que poderia fazer a quem tão amavelmente me recebeu: fica já guardada uma garrafa de Quinta de Sant’Ana 2006 para que estejam etilizados o suficiente na hora de apreciar este texto. Azarado como sou, o Duarte Calvão ainda me vai trucidar com os taninos, aromas frutados e outras coisas que tais, porque isto na realidade há dias em que nem os textos devem sair de casa.


Helder Franco (do blogue Os Anos do Metal

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fernando Madaíl

por João Villalobos, em 12.06.08

 

 

Tulipas & gramofones

 

Mesmo um ilhéu cibernético tenta sempre imitar o que qualquer cavalheiro há muito aprendeu: recusar convite de gentleman requintado é o mesmo que dama espezinhar flor oferecida.
E se o convite for para abandonar o arquipélago de silêncios e escrever em página de “panegíricos e vitupérios” como esta, que quase nem precisava das belas e desnudas sextas-feiras – muitas delas capazes de tentarem qualquer Robinson a morrer na sua ilha sem nome se tivesse tal companhia... –, tal recusa seria o cúmulo da deselegância.
Esgotei as linhas que um post deve ter – se se pretende que alguém o leia – a elogiar este sítio em que as palavras marcham constantemente, qual jornal d’ideias, e que tem o poder de um tigre a passear no galinheiro da blogosfera indígena.
E, leitor d’início, aqui regressarei sempre, em busca de uma tulipa da madrugada, de um sorriso de mulher bonita, de qualquer memória de gramofone.


Fernando Madaíl (do blogue Ilhas Sem Farol)

Autoria e outros dados (tags, etc)

João Espinho

por João Távora, em 12.06.08

 Bilhete de Identidade

 

Quando recebi o convite do Pedro para participar com um texto aqui no Corta-fitas, fiquei a pensar com os meus botões sobre o que escrever e que interessasse à plateia urbana que frequenta esta casa.

Eu, um tipo da província – já lhe chamaram Alentejo profundo e mais recentemente deserto – que isco poderia lançar para atrair os habituais e mais alguns leitores?

Colocou-se-me logo uma questão: se faço uma coisa muito bonitinha, vou fazer crescer as audiências do Corta e, assim, dar mais visibilidade à concorrência.

Sim, o que é que pensam? Isto de andar a escrever em blogs é, para além do que se possa pensar na Câmara Municipal de Santarém, uma luta desenfreada na conquista de cliks e page views. Sem uma Entidade que regule o que por aqui se passa – há entidades que não regulam bem, mas isso fica para a resposta ao próximo convite do Pedro (se for a Cristina FA também não me importo), sem definição exacta do prime time blogosférico, isto de escrever em blogs, dizia eu, é uma verdadeira selva e uma grande chatice, para além dos riscos que acarreta uma exposição assim descontrolada.

A propósito de riscos – e isto é um pequeno parêntesis – sabem que há uns tempos o meu carro foi por várias vezes atacado por vândalos que lhe deixaram marcas por todo o lado? Pois, é o que dá andar a escrever coisas em blogs e ainda por cima daquelas coisas que irritam os directores das nossas freguesias,

Mas adiante.

Retomando o primeiro parágrafo, a dúvida principal que se me colocou foi: escrevo em português, alentejano ou em alemão? Vou arriscar-me na nova ortografia ou deixo-me estar como estou?

A parte de escrever em alemão até me agradou. Ninguém – ou poucos – iria entender do que se falava, linkava o texto na comunidade fotográfica a que pertenço mas, mais uma vez, cá estava eu dar milho à concorrência. Não, isso é que não, apesar de poder depois pegar no texto (auf deutsch!) e levá-lo ao meu chefe dizendo-lhe que havia suplantado os objectivos, pelo que a classificação do desempenho profissional deveria reflectir-se num pequeno suplemento monetário, que a vida não está fácil e a gasolina está cara.

Às voltas com o tema para esta crónica, também pensei em falar sobre a minha aldeia, dos fregueses que ainda cá sobrevivem, do aborrecido que se tornou viver longe das filas da 2ª circular ou das que alimentam a auto-estrada para o Algarve no primeiro de Agosto, também me passou pela cabeça debitar aqui sobre a diferença entre açorda e migas, entre paio e chouriço ou, calcule-se, sobre os prodígios da hortelã-da-ribeira, que muitos confundem com poejos, ervas que ainda não foram alvo das entidades reguladoras ou das autoridades que pugnam pela nossa segurança alimentar. São sabores e aromas que poderão experimentar, se pagarem, numa bela almoçarada, regada com néctares alentejanos e onde, espero, haja os sons do meu Alentejo.
E assim, aos trambolhões no pensamento, decidi-me por escrever sobre o tudo e o nada, que é uma prática muito em voga nas terras do interior e até mesmo nos montes onde a Internet ainda é só uma ideia muito simplex.
Aqui fica a crónica possível, onde não falei de sexo nem do Cristiano Ronaldo, coisas que, como todos sabemos, trazem muitas visitas aos nossos blogs.
 
João Espinho (do blogue
Praça da República)

Autoria e outros dados (tags, etc)

José Bandeira

por João Távora, em 11.06.08

Só estavam juntos por causa do gato

 
Todas as manhãs, antes de sair para o escritório, ele deixava no chão da cozinha uma tigelinha de leite. Ela, que saía um pouco depois, deitava fora o leite e colocava no pires bolachinhas em forma de coração. Telefonavam a toda a hora dos seus empregos e lançavam mimos ao bichano através do gravador. Competiam para ver quem chegava mais cedo a casa e lhe fazia a primeira festinha da tarde. Atiravam-lhe cada um a sua bolinha de brinquedo, a dele em papel de alumínio, a dela em lã colorida. Levantavam-se de noite para o aconchegar no cestinho.
 
Um dia, o gato abandonou-os.
 
José Bandeira (do blogue Bandeira ao Vento)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hugo Ramos Alves

por João Távora, em 09.06.08

Projecções

 

Na essência, o Cinema surgiu com uma missão simples: documentar a realidade. Captar fragmentos da vida e projectá-los na alvura da tela. Depois veio a necessidade de distracção e, por arrastamento, a magia deslumbrante e a capacidade inesgotável de nos fazer sonhar com as peripécias de todos aqueles que foram sendo projectados no ecrã e se foram alojando na escuridão íntima de todos nós.

Ficamos na fronteira entre o mundo que vivemos e o mundo que foi projectado. Apesar de tudo, acabamos por nos deixar seduzir pela sala escura: é o fascínio, a mística, enfim, a curiosidade da criança que temos em nós. E será sempre com um brilhozinho nos olhos que veremos a sucessão de bonecos de luz fluir.

É um Mundo que satisfaz os nossos desejos e, ao mesmo tempo, espicaça a nossa curiosidade. Fugimos da vida que ficou à porta, junto à bilheteira, e passamos a fazer parte de outra. Uma vez acabada a projecção e acesas as luzes, abandonamos o nosso santuário e ora somos abraçados, ora somos esbofeteados pelo frio da avenida, voltando à espuma dos dias que tão bem conhecemos, mas de forma ligeiramente diferente.

O Cinema não acabou com o fim da projecção. Continua em nós, atormentando-nos e consolando-nos e, também, fazendo-nos interrogar a realidade que sentimos: desde o engraxador que nos lembra Umberto D, passando pelo empregado de balcão cujo sorriso malandro lembra Alberto Sordi, bem como a criança de olhar vazio colada ao vidro como Antoine Doinel. Visões excêntricas? Então o que dizer de famílias sentadas à mesa como nos filmes de Ozu ou de funcionários de gesto maquinal, tal e qual como um modelo de Bresson? Mais importante: actua sobre a realidade e faz com que teçamos analogias com aquilo que bem conhecemos. Basta pensar no homem que, a abrir Sicilia!, contempla a imensidão do mar, tal como nós, lusitanamente habituados a hiperbolizar o passado e a amaldiçoar o presente, negando-o.

Eis a grandeza do Cinema: agir sobre nós, dominando-nos e fazendo-nos habitar um mundo de espectros projectados na nossa alma, enquanto vamos aplicando à realidade aquilo que vimos. Sempre assim: entre a realidade e a ficção. Um manto diáfano que mais não é do que uma forma de filtrar o que os nossos olhos vêem e aquilo que a nossa vontade quer ver, fazendo com que, voluntária ou involuntariamente, acabemos por criticar o mundo que conhecemos. E assim continuamos, vagueando pela imensidão da cidade como o Samouraï de Melville, ou, em bom rigor, como uma personagem de Antonioni. À procura da vida que a monotonia do quotidiano nega.

 

Hugo Ramos Alves (do blogue Amarcord)

Autoria e outros dados (tags, etc)

André Moura e Cunha

por Pedro Correia, em 08.06.08

Alheamento do Inferno

 

  

Já não ouvem e nem se fazem ouvir. Dezasseis criaturas aprisionadas a um discurso de um só líder. Magnânimo mas irritadiço, democrata impiedoso, munido da sua aura mágica de mestre de indução do êxtase político; ele garante-lhes a sublime perfeição do rumo por que vão enveredando. Seguem às cegas – já não precisam de ver –, sem bússola ou outros instrumentos de navegação. A tecnologia provém da inesgotável fonte da sua sabedoria.
Estamos no bom caminho, ele diz-lhes para dizerem, porque ele também diz e anuncia, cria e inaugura, promete e já não se preocupa com a sua realização – já não necessitam de resultados palpáveis, basta a promessa de cumprimento de um conjunto de promessas e uma poderosa máquina de perpetuação da sensação do dever cumprido. Alguém lhe disse que uma boa mente, permeável, alimentada de sonhos e de quimeras é o sustento necessário e suficiente do corpo, porque a alma de cada corpo, sugada e mortificada, partiu há muito, envergonhada.
Espectáculo indecente, grotesco, de mortos-vivos vencidos pela acédia.
Empreender, crescendo na imponderabilidade.
À volta do timoneiro e dos seus dezasseis seguidores, foi-se formando uma leve, translúcida e hermética película, que medida após medida, diapositivo após diapositivo – ou slide como por lá chamam os criadores de tecnologia –, soltou amarras rumo ao firmamento. Ambiente ionizado, (ele prometeu-lhes) onde moram os grandes decisores, imersos no éter do serviço desempenhado com notável orgulho em favor da humanidade. Vivem do insípido néctar sagrado que nasce a jorros por cada nova ideia: já não necessitam do palato. Julgam-se gordos no revérbero da sua eminência. Todavia, elegantes fiando-se na teoria da imagem virtual reflectida pela concavidade das paredes espelhadas do seu habitat em forma de bolha. Lá em cima, vogando no espaço, já não sentem o cheiro da miséria que se vai decompondo em mais miséria. (Enchem-se de esperança – talvez se transforme em húmus, terra fértil, como um seguro para quando um dia para cá voltarem). E, embora não confiando na desprezível fé divina do Homem – foram orgulhosamente descontaminados por um processo de escrupulosa descrença –, sabem… haverá Aquele (quem?) que pela Sua força (qual?) os poderá fazer cair como anjos em desgraça. Sem juízes ou promotores de justiça, sem espiões ou corpo policial, sem banqueiros, autarcas, cobradores ou criados burocratas.
Pura distracção. Estiveram sempre nas cercanias da famigerada porta.
Ignorantes…
E então, sem ouvir, ver, palpar, saborear ou cheirar… não, não sentem, e as emoções por lá rareiam, mas recordam-se daqueles nove versos que terminam com uma sentença aterradora
(Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate):
Por mim vai-se à cidade que é dolente,
por mim se vai até à eterna dor,
por mim se vai entre a perdida gente.
Moveu justiça o meu supremo autor:
divina potestade fez-me e tais
a suma sapiência, o primo amor.
Antes de mim não houve cousas mais
do que as eternas e eu eterna duro.
Deixai toda a esperança, vós que entrais.

 

Porreiro, pá!
 
....................................................................
Referência: Dante Alighieri, A Divina Comédia (I Inferno: Canto III: v. 1-9). Venda Nova: Bertrand, 5.ª edição, Dezembro de 2000, pág. 47; tradução de Vasco Graça Moura; obra original: (La Divina) Commedia, 1307-1321.

 

André Moura e Cunha (do blogue Nunca Mais)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tiago Barbosa Ribeiro

por Pedro Correia, em 07.06.08

Os indisputáveis

 

Manuela Ferreira Leite venceu as directas do PSD, as primárias de Rui Rio, mas isso de pouco lhe valerá. A disputa interna não disputou coisa nenhuma e os 30% de Pedro Santana Lopes significam que, muito para além de uma corrente interna, o ex-presidente tem um PSD interno. Um partido radicalmente diferente do partido que venceu e que, quando foi vencedor, nunca deixou de ser algo radicalmente diferente do partido vencido. Parece um jogo de palavras, mas não é: sucedem-se as eleições internas e ali permanece um magma ideológico inamovível, "indisputável", que mais cedo ou mais tarde ditará a cisão do PSD. Ela já anda por aí, há anos.

 

Tiago Barbosa Ribeiro (do blogue Kontratempos)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Filipe Moura

por Pedro Correia, em 07.06.08

 

Sócrates, Paulo Bento e a imaginação do poder

 

Há muitos aspectos incompreensíveis do Maio de 68, mas o que sempre mais me intrigou foi querer levar "a imaginação ao poder". Imaginação ao poder, para quê? Quem exerce o poder em princípio é um político.
Alguma vez um político precisa de imaginação? Dêem-me um exemplo de um político na história que se tenha distinguido pela sua imaginação.
Assim de repente não me estou a lembrar de nenhum. Os políticos com imaginação são como o Peter Pan: recusam-se a crescer e a ver a vida como ela é. Vivem numa espécie de Terra do Nunca, e julgam que a praia está debaixo da calçada. A imaginação é para o John Lennon: do que um político precisa é de ideias (que é diferente de imaginação), vontade política e, sobretudo, bom senso. É por isso que eu, que não simpatizo nada com Nicolas Sarkozy, espero que no seu projecto de acabar com a herança do Maio de 68 ele não seja bem sucedido em muitos aspectos, mas que o seja pelo menos neste: o de acabar com a ideia peregrina da "imaginação ao poder".
Vendo bem as coisas, tivemos recentemente um primeiro-ministro (não
eleito) aparentemente cheio de imaginação: refiro-me evidentemente a Pedro Santana Lopes. E digo "aparentemente" porque Santana é cheio de ideias (muito pouco concretas) e em qualquer campanha onde se meta avança sempre com grandes projectos, alguns deles por sinal bem mirabolantes. Creio tratar-se mesmo do político português mais imaginoso (ou rodeado pelos assessores mais imaginosos). Só que viu-se o que era a imaginação com o santanismo no poder. O país sem rumo, sem nenhuma coerência governativa, e o governo sem fazer ideia de como pôr em prática nenhum dos imaginosos projectos.
Foi por isso que, assim que em boa hora lhe foi dada a oportunidade para isso, o país se livrou do turbilhão imaginoso santanista e elegeu um primeiro ministro que é a antítese da imaginação. Monótono, previsível, assim é José Sócrates. Com Sócrates sabemos sempre com o que podemos contar e não há surpresas. É por isso que eu gosto dele.
No Sporting a situação é análoga. Aliás os recentes treinadores do Sporting são parecidos com alguns dos últimos primeiros ministros de Portugal. Fernando Santos foi o Guterres do Sporting, boa pessoa, católico e medroso. Já Peseiro era o Santana: estava sempre a inventar nas tácticas e não oferecia confiança nenhuma aos adeptos. Mas fazia-os sonhar: imaginavam que, jogando sempre ao ataque e descurando a defesa, venceriam muitos troféus, Viu-se o que ganharam com ele. O balneário era uma desorganização e a equipa arrastava-se sem rumo.
Em boa hora os dirigentes sportinguistas despediram Peseiro (num processo complicado e tumultuoso, como foi o despedimento de Santana) e foram buscar um treinador que é o seu oposto (como Sócrates é o oposto de Santana). Tal como Sócrates, Paulo Bento não inventa, Paulo Bento é previsível, Paulo Bento é teimoso. Até na maneira de vestir são semelhantes! Com Paulo Bento sabemos sempre com o que contar, e é por isso que eu gosto tanto dele. Paulo Bento dá-nos efectivamente tranquilidade, apesar dos seus discursos repetitivos. E quanto à sua imaginação, fica sumarizada naquela conferência de imprensa a seguir ao Sporting-Paços de 2006, imortalizada pelos Gato Fedorento:
"andebol, basquetebol, mão; futebol, pé".
Tenho cá para mim que enquanto os portugueses se recordarem de Santana Lopes, o primeiro-ministro será Sócrates, e enquanto os sportinguistas se recordarem de Peseiro, o treinador será Paulo Bento. Espero que ambos tenham muito sucesso e continuem muito tempo nos seus cargos.
 
Filipe Moura (dos blogues O Avesso do Avesso e Cinco Dias)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leonel Vicente

por Pedro Correia, em 06.06.08

 

Memória da escrita

 

E agora, como “descalço eu esta bota”?

Eu que gosto de escrever sobre temas que me interessam, sem que, muitas vezes, tenham particular interesse para outros... Num rápido flashback, sobre o que tenho escrito ultimamente? Eleições nos Estados Unidos; recordações dos dez anos da EXPO’98; os decisivos jogos de futebol de final de época... enfim, nada realmente palpitante; nada mais que um mero fixar de memória(s), qual arquivista ou coleccionador.

E que, tendencialmente, me vou esquivando à análise da espuma dos dias, numa agenda mediática que vai desde a lei anti-tabágica aos preços dos combustíveis, passando pelas eleições partidárias; sem, todavia, conseguir evitar uma colherada na questão do acordo ortográfico… por isso mesmo, por ter também a ver com a “Memória”, no caso, da escrita.

Memória que começara por ser oral – com “homens-memória” como guardiões da história –, tendo os primeiros meios gráficos surgido há cerca de vinte mil anos, datando as mais antigas formas de escrita a cerca de seis mil anos, no que constituiria uma nova forma de preservação dessa memória e de comunicação, transpondo as barreiras do tempo e do espaço.

Somos ainda tributários dos escribas ou copistas que, no seu scriptorium, ajudaram a perpetuar a memória (da) escrita, escrevendo, primeiro sobre rolos de papiro, só mais tarde em pergaminho, precursores do que viria, com o advento dos caracteres móveis e da imprensa (apenas cerca de 1450), a tornar-se num meio de expressão de difusão universal.

E, assim, aqui aproveito também a oportunidade que me foi proporcionada para, publicamente, prestar uma singela homenagem aos que, ainda nos dias de hoje, continuam a dedicar-se ao estudo dos materiais de escrita, das formas gráficas, à leitura dos documentos e livros, assim como dos mais antigos testemunhos do português enquanto língua escrita, a partir da segunda metade do século XII.

Numa era em que a palavra escrita parece viver momentos de crise, chegando mesmo a projectar-se o hipotético eclipse de livros e jornais, com o hipertexto (forma de escrita não sequencial já antecipada por Leonardo Da Vinci nas múltiplas anotações aos seus textos) virtual a conquistar cada vez mais preponderância, são igualmente de louvar iniciativas como a da UNESCO que, preocupada com a preservação, criação e manutenção das diferentes instituições de memória e dos seus acervos, criou o Programa “Memória do Mundo”, propondo que se intensifiquem os esforços visando a preservação de documentos e arquivos históricos.

Também a preservação da memória virtual – a Internet como “memória colectiva da Humanidade” – não poderá deixar de constituir igualmente uma outra preocupação, nomeadamente no que respeita a questões como a longevidade dos suportes ou as restrições de acesso.

E, com dedicatória, assim completo o círculo; para que serve um blogue se nele não podemos escrever o que queremos?

 

Leonel Vicente (do blogue Memória Virtual)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Luís Novaes Tito

por Pedro Correia, em 05.06.08

Língua-de-sogra

 

Entre os carros que param de manhã no vermelho da faixa central da Praça de Espanha é comum observar a luta pela sobrevivência de dois homens que, de forma distinta, reflectem boa parte do empresariado português.

Um, o grande e desdentado, de fio com o Crucifixo na ponta, circula de chapéu às três pancadas, mãos postas enquanto recita rezas pela alma dos seus benfeitores. O outro, mais composto, vende sacos de plástico com línguas-de-sogra num preparo que certamente escapa à ASAE.

Dir-se-ia que ali, entre o reconstruído e deslocado arco de pedra e o Centro Comercial Abecasis e nas barbas da sumptuosidade espanhola, as características portuguesas do desenrasca e da pedinchice marcam a razão duma nação. Nem sequer falta o Gulbenkian de pedra, sentado na relva, como patrono do subsídio e os ardinas da nova geração a despacharem os gratuitos pelas frinchas das janelas dos bólides do ano.

 

Luís Novaes Tito (do blogue A Barbearia do Senhor Luís)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eduardo Pitta

por Pedro Correia, em 05.06.08

O lado negro da bloga

 Respondendo ao convite do Pedro Correia, vou discretear sobre o que considero ser o lado negro da bloga: a intolerância face à opinião do outro. Não me refiro a discordâncias, sempre legítimas, e enriquecedoras da troca de ideias desde que manifestadas com discernimento e assertividade. Não é disso que se trata. O ponto é que a bloga reflecte o défice de democracia da sociedade portuguesa. Sempre que um tema-limite mobiliza a opinião publicada (este publicada inclui textos em linha), o azedume toma conta da comunidade bloguítica. Foi assim com o chamado arrastão de Carcavelos, o dossiê Ota, a guerra entre Israel e o Hamas, o folhetim Esmeralda, a actuação da ASAE, as coteries críticas, o canudo do primeiro-ministro, a marcha dos professores, os cartoons dinamarqueses, a despenalização do aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei do tabaco, etc. (Cito de cor, sem obediência à cronologia ou a qualquer hierarquia.) Nessas ocasiões, há sempre quem tente impor o pensamento único. Por razões que a sociologia explicará, os sectores conservadores, à direita e à esquerda, têm um peso significativo na bloga nacional. Em princípio, isso não devia ser um mal nem um bem. Deveria ser apenas uma evidência estatística. Contudo, a realidade traduz o país que somos. Quarenta e oito anos de Estado Novo não se apagam de um momento para outro, sobretudo porque, no outro extremo, a dialéctica dos amanhãs que cantam, em vez de evoluir no confronto dos contrários, propendia à simetria do argumento. Em nenhum outro lugar como na bloga, as obsessões, os procedimentos e os equívocos da ditadura (e do combate que contra ela se fez) têm uma tal nitidez. O manto diáfano da modernidade, tingido, aqui e ali, de uns pós de cosmopolitismo, não é suficiente para disfarçar a pulsão de cartel.

 

Eduardo Pitta (do blogue Da Literatura)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pedro Vieira

por Pedro Correia, em 04.06.08

 

andar aos cartões

 

quando folgo ao sábado há uma coisa que me dá um gozo imenso, sair para a rua com disposição caminhante e errar avenida abaixo até ao rossio, ruas da prata e do ouro, martim moniz com passagem pelo supermercado chinês, laréu pelo largo de são domingos qual ginja district, praça da figueira, enfim, todos os locais onde o degredo, o insólito e o pitoresco pululam. sucede que hoje, ao encontrar o zarolho traficante de cromos que me cobrou dois euros pelo último da colecção mundial 2006, louvada seja a panini, lembrei-me que o seu outro mister está exactamente abaixo da espada de dâmocles, neste país que se quer moderno e informatizado: o cartão do cidadão. o zarolho, como outras aves raras da baixa, plastifica, que é como quem diz, envolve os nossos documentos numa película semi-rígida que permite a sobrevivência duradoura dos nossos cartões de eleitor e da segurança social, aliás, suspeito que muitos desses cartões sobreviverão à própria SS, veja-se lá a sigla que arranjaram para a protecção social, já que hoje em dia bom, bom é atrelarmo-nos a uma seguradura que nos conforte a velhice, que a solidariedade entre gerações é coisa que se fica agora pelos concertos dos rolling stones. pois bem, o cartão do cidadão, ornado de chips, bandas magnéticas e data information, atacado por um outro liberal da nossa praça saudoso dos tempos de oxford e da inexistência de bilhete de identidade, dará uma machadada fatal nos plastificadores, quais operários do vale do ave, que perderão a matéria-prima de sustento em favor da tecnologia, e assim lá se vai mais uma marca de humanidade da baixa que eu aprecio. ninguém sabe de bola mais do que eles, de gossips governamentais e de mamas de turistas, já viram de tudo, milhares de identidades já lhes passaram pelos dedos, em matéria de x-actos e películas aderentes ninguém os bate, tudo agrupado em banquinhas desmontáveis que mais parecem uma curta do kusturica, tal é a parafernália digna de um pai de santo ambulante. adivinha-se então a extinção dos plastificadores, numa cidade que é cada vez mais tecnocrata, moderna e oca, em vez de gente temos key account managers, top sales qualquer coisa, chief executive accounts, shareholders, gestores de produto, utentes em vez de pacientes, colaboradores em vez de trabalhadores, muitos entretidos ao entardecer numa cave de são sebastião, meio harrod's meio pipocolândia, onde se degustam umas tapas que podem não ser mais do que uma sandocha de lula frita mas que ganham o estatuto de bocadillo de calamares, assim mesmo, em estrangeiro. e aposto que a palavra gourmet anda lá pelo meio. eu cá sou suspeito, gosto de couratos, minis e tremoço, de micar os mitras e de vampirizar-lhes o paleio. mais. numa época em que ninguém dá nada a ninguém e em que tirar aos outros é governo de muitos sempre prefiro as artes de casaco à banda e mãozinhas leves dos carteiristas do 28, sem contratos nem letras miudinhas, às facadas na classe média dadas pela euribor ou pela cofidis. é mais a minha praia. quer dizer, a minha cidade.
 

Pedro Vieira

(dos blogues Cinco DiasIrmão Lúcia e Sinusite Crónica)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Rui Bebiano

por Pedro Correia, em 04.06.08

E agora o horror

 

Uma das mais impressionantes descrições do horror da guerra, da total combustão provocada pelas bombas de enorme potência, da devastação para além do imaginável, foi produzida por Sebald na História Natural da Destruição, ao descrever Hamburgo reduzida, em Julho de 1943, a escombros, fantasmas errantes e cadáveres feitos em papa. E no entanto o escritor alemão referia-se a uma devastação silenciada, olhada durante décadas como justificável por ter acontecido do lado dos vencidos. Não tanto os nazis, que esses puderam sempre suicidar-se ou mudar de identidade, mas todos aqueles, pessoas mais ou menos comuns, que viram desmoronar-se o prometido «Reich de Mil Anos» e deveriam expiar até ao fim, na humilhação, no silêncio e na carne, a cumplicidade, involuntária ou não, com um horror considerado maior pelos vencedores.

Não me surpreende, pois, o emudecimento daqueles que calam hoje os crimes resultantes das bombas largadas nos últimos vinte anos sobre todo esse território, vasto e arenoso, que vai de Gaza até Cabul. Aqueles que mais de perto têm experimentado o seu impacto não estão do lado dos vencedores, pouco sabem do que representou Auschwitz, e jamais ouviram falar do Gulag ou mesmo de Guantánamo. Pouco sabem até das «fronteiras bíblicas» que lhes são atribuídas. Ou da liberdade da qual falam em seu nome. Não escolhem nem sabem que podem escolher, apenas vivem. E o horror que conhecem, e o ruído dos voos rasantes dos F-16 dos quais nos falam os títulos da manhã, apenas lhes importam na medida em que lhes interrompem os hábitos de sobrevivência. Vistos daqui do nosso conforto, ou lá de cima desde os cockpits, são apenas pontos negros que se movem e que olhamos com a mesma dose de piedade que experimentamos ao olharmos as moscas de verão liquidadas com um jacto de spray. O horror dos outros não existe quando o não vemos ou desviamos o olhar.

Rui Bebiano (do blogue A Terceira Noite)

Autoria e outros dados (tags, etc)



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • michel

    Tem a sua atenção, por favor !Eu encontrei uma ins...

  • Fernando S

    Então o governo não tem a obrigação da dar explica...

  • slade

    E agora imagine-se que os mortos começavam a acord...

  • henrique pereira dos santos

    Luís,Em primeiro lugar todos os actos do governo s...

  • Luís Lavoura

    A mim parece-me que António Costa tem razão. Se a ...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2006
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D