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Silly season forever

por Corta-fitas, em 07.08.17

Existem muitas razões para atacar a gerigonça que nos desgoverna. O tempo, esse malfadado elemento que associado à realidade coloca tudo a nu, trata de evidenciar de uma forma mais nítida a natureza dos elementos que formam a massa mal acabada que pastoreia o que resta de Portugal. O ilusionista mor que por aí anda, agora apertado pelas circunstâncias que o vão ultrapassando e com aquelas que fatalmente vêm a caminho, adoptou o descaramento como retórica oficial. O fenómeno não será novo. Todos nós já teremos testemunhado que quando o aperto é muito e o argumento é pouco o disparate desbocado surge como o último recurso do ilusionista.

Acontece porém que, ao contrário dos outros ilusionistas que o antecederam este é mais manhoso e montou uma gerigonça que simultaneamente viabiliza a ilusão por troca de dislates e limita o ruído por troca de prebendas, promovendo assim a efectiva socialização do disparate e o eleva à condição de Verdade. Daí a estupefacção geral perante as contraditórias e tontas reacções oficiais a Tancos ou ao fogo de Pedrogão, ou a história de aumento da dívida que não passa pelo défice, ou as cativações “inesperadas”, ou a redução muito para além do razoável do investimento público. O convívio sereno dos constituintes da gerigonça perante tamanhos absurdos, que no caso dos incêndios chega ao ponto de impor a democrática e muito plural “lei da rolha”, anuncia que passando o disparate a ter via verde e ser muito menos escrutinado vamos viver eternamente em silly season por esta passar a ser o estado natural das coisas.

Permito-me concluir pois que bem poderemos estar perante um problema de saúde pública ao nível da psique. Um pouco à semelhança da vulgarização das dívidas como causa do vício das mesmas, de que a pergunta “Quando é que compras um carro novo?” ou o objectivo oficial de ter um défice público de 3% para uma economia voltada para o endividamento e consumo interno serão bons exemplos, a total vulgarização do disparate pode vir a ser um óptimo veículo para uma sociedade sem referências sólidas ao nível da razão e do argumento. E uma sociedade com escassa capacidade para lidar com a razão e o argumento tem muito menos possibilidades de ser uma sociedade de progresso e bem-estar. Este, mais do que uma nova intervenção externa, pode bem ser o pior legado desta geringonça.

 

Pedro Bazaliza
Convidado Especial

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1 comentário

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De oscar maximo a 07.08.2017 às 13:27

Concordo com tudo, mas gostava de fazer um reparo: ao deixar implícito que o que interessa é o aumento de dívida e não o défice. Há que ter a noção que isto inclui uma crítica aos economistas, já que não segue a orientação deles. Eu posso criticá-los todos os dias porque sou malthusiano, outros precisam ter cuidado nas criticas para não ser apanhados em contradições.

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