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O tempo dos gestos magnânimos mediáticos

por Maria Teixeira Alves, em 13.05.17

Foto de João Miguel Tavares.

O que têm em comum António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa? Ambos apostam numa política de proximidade com os "súbditos" (chamemos-lhes assim). Bom António Costa está mais apostado em agradar pessoalmente à direita e aos católicos e Marcelo Rebelo de Sousa está mais preocupado em agradar aos marginalizados e aos "fracos e oprimidos" (chamemos-lhes assim). 

Não há uma grande diferença entre um primeiro-ministro que responde a uma crítica de um opinion maker da ala direita com um gesto "magnânimo" e desconcertante de aceitar o desafio de lhe tomar conta dos filhos no dia em que o Governo deu tolerância de ponto e as selfies que o Presidente da República tira com todos os que visita (e os beijos que distribui e as condecorações que atribui). 

Ambos se preocupam em conquistar, sobretudo, quem está (em teoria) nos seus antípodas. O que é isso senão um gesto magnânimo (cristão?)? Mas é preciso não esquecer o mediatismo. Será mesmo magnânimo quando o nosso gesto é difundido ao público? Não será vaidade então?

Vivemos um tempo interessante em que há uma ânsia de novos "Messias" (que demonstrem que o amor e o altruísmo não morreram) e a facilidade com que tudo se difunde nas redes sociais e chega à população. O populismo tem aqui muito da sua raiz. 

O presidente do Estados Unidos usar o Twitter para comunicar não é senão uma manifestação desses tempos em que vivemos. 

O facto de tudo ser em directo leva a que se crie facilmente (demasiado fácil digo eu) deuses e capachos. O reverso da medalha deste tempo da política dos afectos é o maniqueísmo de se criarem estériotipos facilmente. A cisão entre o bom e o mau vilão nunca passou de uma visão redutora da humanidade. Cada pessoa tem tudo, tem os dois lados. Não existe isso de aquele é bom e o outro é mau.

A verdade é que há um paradoxo que resulta desta política dos afectos, é que tem origem no propósito de criar pontes, mas ao estar a servir para criar deuses está a criar muros. 

Veja-se o caso do Papa Francisco, fala-se dele como o Papa que chega às pessoas, o Papa da tolerância, como se fosse um novo "Messias". Nessa visão está um crítica implícita à igreja e ao Papa (aos Papas) anterior (es). Ora não há nada de diferente nas homilias do Papa Francisco, face às homilias do Papa Bento XVI e às homilias do Papa João Paulo II. Há diferenças de estilo essencialmente, e os dogmas da igreja são os mesmos. Mas o que chega às pessoas são os afectos do Papa Francisco.

Queremos quem crie pontes, mas depois endeusamos tanto essas pessoas que criamos muros.

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