Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O mundo dos outros

por henrique pereira dos santos, em 14.09.17

Há uns anos, por razões que nunca percebi bem mas que acho que se prendem com o facto de ser pai de quem era, pediram-me para fazer umas crónicas numa revista de surf.

Ainda hoje me divirto a imaginar as reacções de vários surfistas que conheço às crónicas proto surrealistas que escrevi nessa altura.

Hoje, que o Frederico está nos quartos do CT dos EUA, e que continuamos a discutir o que acontece e acontecerá aos donativos para ajudar as pessoas na aflição do pós-fogo, resolvi recuperar este texto em que, sem ser explícito, comentava os treinadores de bancada que passavam o tempo a malhar no Frederico, e outros juniores, quando perdiam, como se perder não fosse muito mais provável que ganhar e condição necessária para aprender.

Eram sempre os mesmo discursos apocalípticos, cheios de certezas sobre os erros dos outros e sobre a impossibilidade de algum dia terem algum futuro no surf de alta competição, apesar de qualquer desses juniores, já nessa altura, terem feito muito mais no surf que qualquer um dos comentadores mais extremistas.

"O mundo dos outros

Ia eu a numa zona razoavelmente movimentada de Lisboa quando me deparo com um casal de patos reais a atravessarem a rua, também a pé, com o sinal encarnado para os peões.

Os carros pararam, o que aliás estranhei, porque não é costume, pelo menos sem uma forte buzinadela.

Depois de passarem uma segunda rua perpendicular à primeira, pararam debaixo de uma das amoreiras (a que não tinha estacionamento por baixo) e começaram um banquete de amoras.

Não pude deixar de me lembrar das ruas e jardins que tinha visto no Lobito e em Benguela, numa altura de nem guerra, nem paz, entre as duas guerras civis.

As cidades angolanas do litoral tinham crescido desmesuradamente, e as suas infra-estruturas eram claramente insuficientes.

À sua volta a banditagem não permitia grandes aventuras, e portanto a produção de alimentos e outros bens andava pelas ruas da amargura.

Nos primeiros dias fui-me acostumando aos pequenos montinhos de carvão no chão, à espera de comprador, às mulheres com molhos de lenha à cabeça, percorrendo quilómetros a pé para os trazer, às centenas de pessoas de volta do que tinha sido a casa de milhares de flamingos e era agora uma água imunda de que se retirava o sal que se ia formando nas margens e muitos outros pequenos pormenores que me lembravam permanentemente a miséria que me rodeava.

Mas o que realmente me trouxe à memória tudo isto foi a lembrança da resposta que me deram quando passados alguns dias perguntei o que explicava as árvores com a casca arrancada nos jardins públicos da cidade.

Com toda a naturalidade disseram-me que numa terra onde falta tudo, incluindo os medicamentos, era natural que as medicinas tradicionais prosperassem, usando a casca das únicas árvores existentes num raio de quilómetros: as das ruas e jardins.

Ao ver os patos empanturrarem-se de amoras das árvores de arruamento lembrei-me das fintas à miséria que com elas se poderiam fazer noutras partes do mundo.

Mas a verdade é que não é assim tão fácil. As amoras estão aqui. As amoreiras estão aqui e são plantadas e mantidas por este modelo de sociedade. Não é fácil apanhar as amoras e pô-las onde fariam mais falta.

Com certeza é possível um melhor uso de recursos que acabam por faltar noutros lados, mas o que é verdadeiramente difícil é fazer os daqui conhecer os de lá e os de lá compreender os de cá.

O mundo dos outros parece-nos sempre tão simples.

Lendo revistas de surf, lendo blogs, comentários e etc., temos bem a demonstração de como é fácil dar opiniões, ter soluções e certezas em relação aos que os outros fazem e ao que se devia fazer para tudo dar resultados maravilhosos.

É mais ou menos como os do mundo das amoras pelo chão terem uns rebates de consciência, juntarem uns quantos euros que mandam, com a melhor das intenções, para o mundo dos das árvores descascadas pela miséria.

O que se espera é que mesmo que os problemas não fiquem resolvidos, pelo menos se aliviem as dores de quem pena na dura faina andar 15 kms, juntar o que fôr possível de pauzinhos, pôr um molho de lenha à cabeça, andar outros 15 Kms, preparar mais um montinho de carvão para vender e enganar a fome e a doença, antes de voltar ao mesmo noutro dia.

Mas podem esperar em vão. O mais natural é que o dinheiro siga por um atalho e acabe no bolso de quem já hoje não precisa. Quando se atira dinheiro para cima de um problema, o mais certo é que uma das duas coisas desapareça, mas raramente é o problema.

A verdade é que é preciso ir lá. A verdade é que é preciso conhecer quem lá está. A verdade é que é preciso conhecer bem o mundo dos outros para conseguir encontrar os mecanismos e os canais que asseguram que o dinheiro realmente chega onde faz falta.

Foi o que fez Mouhammad Yunus quando inventou o microcrédito: pequenos passos, pequenas mudanças, pequenas mudanças mas com as pessoas certas, nos sítios certos e sem fantasias de grandes obras estruturantes, de decisões históricas, de investimentos estratégicos de interesse nacional.

E eu, que não percebo nada de surf mas vivo numa casa onde é preciso ter atenção e verificar se o que parece um novo queijo no frigorífico não é apenas uma barra de wax que alguém não quer mole, pergunto-me se grande parte das pessoas que têm certezas, ideias maravilhosas, opções infaliveis, invariavelmente sobre o mundo dos outros, sabe mesmo como o mundo dos outros é tão difícil, complicado e falível como o nosso."

Autoria e outros dados (tags, etc)




Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • pvnam

    MOBILIZAR OS RESISTENTES PARA O SEPARATISMO!(manif...

  • XisPto

    Tem toda a razão. Nem vale a pena desmontar a falt...

  • Ricardo Sebastião

    Caro Henrique, podia colocar os  links para e...

  • henrique pereira dos santos

    Um dia encontrei o teu irmão João por acaso, mas a...

  • Anónimo

    "Ala" irresponsável do PS?*"O primeiro erro é semp...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2006
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D