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O mito da relação entre espécies de árvores e fogos

por henrique pereira dos santos, em 16.07.17

A longa história dos fogos rurais, tal como os conhecemos hoje, começa por meados dos anos 50 do século XX quando se dá início a uma grande migração no mundo rural português.

Esta migração, deixando os campos ao abandono e, sobretudo, desvalorizando totalmente as pastagens pobres (o que foi potenciado pela introdução dos adubos industrais), é a raiz da alteração do padrão de fogo que existia - fogos muito frequentes, mas em mosaico e pouco severos - para o padrão que hoje existe - fogos menos frequentes, mas muito mais extensos e severos.

Esta relação entre as alterações económicas e sociais dessa altura, e o crescente problema dos fogos, que se manifesta mais ou menos a partir de meados dos anos 70 do século XX (um desfasamento temporal que se compreende facilmente que exista dado que os efeitos do abandono não são imediatos), só muito mais tarde foi compreendida e, ainda hoje, é dificilmente aceite, mesmo por parte dos que compreendem a racionalidade da explicação - e a sua evidência empírica - mas que acabam por dar mais peso a outros factores nas explicações que procuram para a dimensão do problema em Portugal.

Um dos primeiros grandes fogos, o fogo de Macinhata do Vouga, em 1972 (se não me engano), determina o fim do comboio a vapor no vale do Vouga, porque foi esse o bode expiatório.

Em 1975, as responsabilidades foram atribuídas à política de terra queimada do Partido Comunista, pelos seus adversários, ou ao boicote ao Processo Revolucionário Em Curso, pelos da outra barricada, mas em qualquer caso a moda desse anos era justificar politicamente os fogos.

Mais tarde eram os madeireiros, porque assim compravam a mandeira mais barata, esquecendo-se, grande parte das pessoas, que se eu queimar a casa do meu vizinho é natural que a compre por um preço mais baixo, mas porque a cada passa a valer menos depois de ardida, não ganhando eu grande coisa em comprar a casa mais barata.

Depois veio a moda dos meios de combate, que acabou quando já era difícil equipar mais os bombeiros.

Mais tarde a moda era atribuir a responsabilidades ao negócio do fogo, em especial ao chorudo negócio das horas dos meios aéreos, o que teve com consequência o Estado comprar uns Kamovs e fazer uma empresa de meios aéreos, tendo-se verificado a circunstância clássica de que quando se atira dinheiro para cima de um problema, uma das duas coisas desaparece, mas raramente é o problema.

Depois eram as ignições e os incendiários, já sem justificação específica, esquecendo-se muita gente de olhar para os números e verificar que 80% das ignições são num raio de 2 quilómetros à volta das aldeias e que 1% das ignições são responsáveis por 80 a 90% da área ardida.

Este ano a moda são os eucaliptos e as árvores bombeiras, uma funesta ideia, na opinião do homem que inventou o termo, numa brincadeira no Facebook para falar de situações muito específicas em que o fogo se auto-extingue. Perdeu-se completamente o controlo da expressão, que entrou rapidamente no jargão do pensamento mágico que domina grande parte das conversas sobre fogos.

Esta fotografia notável, de Paulo Novais/ Lusa, é um bom exemplo de como ter esta ou aquela espécie à volta do que quer que seja, conta muito pouco como instrumento de defesa contra incêndios:

incêndio.jpg

Esta outra, em que se vêem uns eucaliptos em primeiro plano, é muito clara sobre a forma como pode arder um sobreiral, que é o que está a arder ao fundo, em Monchique.

sobreiral a arder monchique.jpg

E esta outra, mostra como arde um carvalho isolado, em algumas circunstâncias

carvalhos ardidos 2.jpg

Estranhamente, para mim, o facto de se dizer o que está dito acima é interpretado, por pessoas conhecedoras e com informação, como estando a dizer-se que "as espécies ardem todas da mesma maneira". 

Mas não, não se está a dizer isso, nem está correcto dizer-se que arde tudo igual, quer na quantidade de combustível disponível em diferentes povoamentos, quer na velocidade do fogo em diferentes povoamentos, quer nas projecções de fogos que incêndios especialmente violentos provocam (as famosas bolas de fogo que alguns interpretam como a demonstração de que são fogos postos, mas que apenas demonstram que quem pensa assim sabe pouco do que está a falar), em que, por exemplo, o eucalipto bate largamente a concorrência na distância a que lança projecções (chegando quase dez vezes mais longe que outras espécies).

A questão é outra: em condições meteorológicas extremas essas diferenças inerentes às diferentes espécies ficam muito esbatidas, porque todas ardem muito bem e, muito mais importante, o peso dessas diferenças na forma como o fogo evolui é incomparavelmente menor que o peso da estrutura de combustíveis finos presentes (matos e folhadas), que depende muito mais do modelo de gestão que da espécie arbórea dominante.

A asneira, agora frequente, de que há umas árvores bombeiras que podem proteger as casas não teria importância de maior - o direito à asneira é sagrado - não se desse o caso de haver a possibilidade de alguém acreditar nessa mezinha, cujo nível de eficácia é semelhante ao das rezas do professor Karamba, e desatar a pôr umas árvores à volta de casa, criando uma falsa sensação de segurança que diminui o incentivo para que faça o que deve ser feito: uma gestão adequada dos combustíveis finos (matos, ervas e folhagem) do espaço envolvente da casa, seja qual for a espécie que lhe fica mais próxima.

Para além desta nova moda servir, como serviram as modas anteriores, para nos desviarmos do essencial: 1) aumentar a capacidade de auto-protecção ao nível de cada aglomerado; 2) integrar prevenção e combate aos fogos; 3) pagar o preço justo pelos serviços ambientais que algumas economias e opções de gestão nos prestam a todos e que hoje ninguém paga.

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2 comentários

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De Oh Maria! Trás a mangueira... a 17.07.2017 às 05:23

Foto gira com os pessegueiros todos a arder...
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De Anónimo a 17.07.2017 às 11:21

Tem graça, eu passei o Verão Quente de 1975 (era eu criança) em Serrazes, aldeia perto de São Pedro do Sul, que nesse verão teve enormes incêndios por perto, e lembro-me precisamente de esses enormes incêndios, que eram coisa nunca vista naquela região, terem sido assacados precisamente à situação de instabilidade política no país. Estas minhas recordações coincidem com as afirmações neste post, de que os grandes incêndios só apareceram precisamente em meados da década de 70.

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