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O homem que ri

por henrique pereira dos santos, em 22.10.17

Depois dos fogos de 2003 e 2005 (sugiro aos sensíveis que se indignam com os aproveitamentos políticos deste ano que leiam os jornais de 2003, e vejam quem dizia o quê, sobre quem, na altura), o Governo saído das eleições de 2005, que tinha o seu então Ministro da Administração Interna como um dos seus homens fortes, fez uma opção política clara: a gestão do problema dos fogos far-se-ia pelo combate e assente na doutrina da supressão do fogo que, já nessa altura, tinha sido abandonada em muitos outros lados do mundo.

Ao verdadeiro pivot dessa opção, que jogou todo o seu peso político nessa opção, não interessaria muito a substância do problema dos fogos, a questão central era que comprar uma guerra com as corporações de bombeiros, em especial com a estrutura patronal que as representa, a Liga dos Bombeiros Portugueses, era um risco político muito alto.

Ao mesmo tempo, isso resolvia um problema de financiamento do sector social, ao encontrar a justificação moral ideal para fundamentar toda a transferência de meios do Estado para estas obscuras entidades privadas, embora vivam de dinheiros públicos, que usam a inquestionável superioridade moral de haver voluntários que se entregam ao serviço dos outros sem esperar nada em troca, para bloquear qualquer escrutínio sério da sua gestão.

Durante os últimos dez anos, algumas pessoas, nas quais me incluo, questionaram esta opção e chamaram a atenção para o desastre que se estava a formar.

Posso citar um post meu de 2010, mas mais relevante é um relatório entregue na Assembleia da República, de 2009, que refere explicitamente a elevada probabilidade de haver um ano próximo em que arderiam meio milhão de hectares em Portugal.

Esse ano chegou em 2017 e, tal como depois dos anos de 2003 e 2005, isso criou as condições para que o Governo, qualquer que fosse, pudesse fazer opções mais arriscadas porque a sociedade exige de facto que o assunto seja tratado seriamente.

Infelizmente, ao leme do barco está de novo o homem que ri.

E infelizmente mantém as mesmas opções: a gestão do fogo político é mais importante que a gestão do fogo rural.

Só isso explica que em tudo o que ontem foi decidido pelo governo do homem que ri haja tão pouco que seja claro, com excepção de uma opção absolutamente clara: a chocante omissão de referências às opções de economia para o mundo rural e o mais completo silêncio sobre a inversão das prioridades do Estado em matéria de gestão do mundo rural.

"Uma coisa oca, produzida pelo vazio", é talvez a frase, de Paulo Tunhas, que melhor traduz o que penso sobre o assunto.

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