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Mortágua

por henrique pereira dos santos, em 09.10.17

Há muitos anos que as autoridades locais de Mortágua se gabam do que fizeram para controlar os fogos e de como resolveram o problema, com intervenções pesadas associado a um combate eficaz, a uma central de biomassa e à exploração de eucalipto.

Também há muitos anos que acompanho o assunto naquele concelho para avaliar se é certo que resolveram o problema ou se têm tido sorte (mesmo dando de barato que a sorte tenha dado muito trabalho). Se é verdade que o eucalipto gerido pelas celuloses tem um índice de fogo que é um quarto da média nacional, também é verdade que a maioria da área de produção de eucalipto do país não tem gestão de espécie nenhuma, ou tem uma gestão de baixa intensidade, o que não torna os eucaliptais resilientes ao fogo.

Estranharia se essa não fosse a situação dominante em Mortágua.

Este fim de semana o fogo deu-me razão: em grande medida era sorte, um fogo valente andou pelo concelho.

É verdade que não ardeu tanto como ardeu em Mação em Agosto, mas também é provavelmente verdade que só não ardeu assim porque as condições meteorológicas, sendo difíceis, não eram muito dramáticas (o vento, por exemplo, não era forte).

Mais uma vez, as soluções milagrosas acabam por se revelar não soluções, com o decurso do tempo.

Talvez por se perceber isto (a hipótese alternativa seria admitir que quem trata do assunto não faz a menor ideia do que se passa, uma hipótese que infelizmente não pode ser descartada) lá voltou em força a conversa dos incendiários.

Era evidente que este fim de semana iríamos outra vez ouvir falar de fogos (fiz um post no facebook a dizer isso mesmo, ainda antes de estarem estes fogos todos do fim de semana em pleno, e eu não sou bruxo nem percebo muito do assunto, era só para avisar os meus amigos que andavam no monte), mas o Senhor Secretário de Estado veio logo com a teoria de que eram tudos fogos postos, embora não o pudesse provar.

E agora é o Senhor Ministro: ""Tive oportunidade de ver na comunicação social uma multiplicidade inusitada de incêndios e, ao que parece, uma boa parte deles deflagrados durante a madrugada, que é precisamente quando não podem ser combatidos e quando dão a garantia de que só várias horas depois, com o amanhecer, é que não podem ser combatidos”, apontou."

E andamos nisto, ano após ano.

Andar até andamos, mas não saímos do mesmo sítio.

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4 comentários

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De Pável Rodrigues a 09.10.2017 às 22:09

Acabei de ler este artigo no Observador: http://observador.pt/especiais/fahrenheit-451-nao-e-so-a-floresta-que-arde-e-tambem-o-conhecimento-cientifico/ (http://observador.pt/especiais/fahrenheit-451-nao-e-so-a-floresta-que-arde-e-tambem-o-conhecimento-cientifico/)E assim vamos cantando e rindo...
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De Nuno a 10.10.2017 às 03:01

Este fim-de-semana de visita a familiares vi-me perto de um destes incêndios. E pude constatar uma coisa de que já suspeitava mas que para mim foi gritante, que é a falta de informação de qualidade prestada às populações, e a perfeita inutilidade de toda a comunicação social nesse aspecto.


Por duas noites fomos dormir com a noção de que o fogo andava por ali, sem sabermos muito bem onde, não suficientemente perto para ser preocupante. De ambas as vezes me perguntei qual seria o sinal (de agravamento da situação) ao qual devia estar alerta. De ambas as vezes acordei notando que o incêndio tinha evoluído, talvez estivesse um pouco mais próximo, mas não tinha vindo em direção a nós.


Chegou o tempo de voltar. Ora para mim, uma coisa é ir dormir numa casa de construção razoável, localizada num terreno relativamente limpo, numa aldeia ainda assim habitada e a escassos 3km da vila (e dos bombeiros) mais próxima.o


Outra diferente é fazer-me ao caminho, com crianças no carro, sabendo de antemão que dê por onde der vou usar algumas estradas "florestais" com pouco movimento.


Passei 2h, com internet fixa e móvel, TDT, satélite e rádio a tentar perceber onde raios andavam as frentes de fogo para escolher, de duas ou três opções, o melhor caminho. 


Impossível. As frentes são 5, ninguém diz onde, as estradas cortadas são 3 ninguém diz quais. O jornalista fala à frente do fogo, não diz onde está. Fala em sedes de distrito e concelho situadas a kms de distância, porque mais não sabe, nem ele, nem os ouvintes em Lisboa. A CMTV tem o mesmo loop de imagens do fogo as duas horas enquanto discute a tese do fogo posto, a rádio local passa música alegre o tempo todo.


Ninguém apresenta uma merda de um mapa com o local exacto das frentes de fogo, da mancha ardida, das estradas cortadas.


Saímos na mesma, porque não é assim tão perto, e o sobrinho da vizinha que é bombeiro mas não fala com a mãe desde de manhã disse faz tempo que estava longe. Fazemos o caminho é, efectivamente, nunca esteve "perto".


Chegado a Lisboa, fui procurar. A informação não é difícil de obter. É perfeitamente possível cruza-la com um mapa no Google Earth. Com um simples registo é possível obter dados actualizados várias vezes por dia.


Um mapa que em 30s diz tudo o que aquela gente não diz em horas infindas de emissão. Um mapa feioso ao qual eu cheguei com 30min de "trabalho".


Contraste-se com a informação prestada nos EUA a propósito dos furacões. Isto é um problema que nos assola ano após ano e ninguém se lembra de prestar este serviço às populações. O melhor que temos é o fogos.pt, voluntário.


Morreram 60 pessoas e mesmo assim preferimos discutir posteriormente no Prós-e-Contras se deviam ter ficado em casa, em vez de termos a TV e as rádios públicas a dizer às pessoas o que fazer no momento, a dar informações úteis à população afectada no momento.


A demonstração cabal do abandono a que votamos o interior e estas pessoas é que toda a informação é destinada a chocar lisboetas com o fogo que lavra violentamente e não a informar os afectados. Até a porra da rádio local mais parece destinada a ser ouvida pelos emigrantes em França através da internet que aos habitantes locais.
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De henrique pereira dos santos a 10.10.2017 às 08:17

Posso usar o seu comentário publicamente?
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De Nuno a 12.10.2017 às 17:24

Sim, claro. Espero que o (parcial) anonimato não seja um problema.
Lamento a demora na resposta.

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