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Mas e os carvalhos, os castanheiros, os sobreiros e as nogueiras?

por henrique pereira dos santos, em 14.07.17

Com frequência me dizem: já percebi os seus argumentos, mas afinal que floresta devemos ter no país?

Confesso que apesar da frequência da pergunta, estranho-a sempre.

Para mim é o mesmo que me perguntarem que tipo de sapatos devemos fabricar, ou que culturas devemos ter no país, ou que teatro, ou outra coisa qualquer.

Depois procuro responder seriamente: não sei, não faço ideia e, na verdade, não me parece que valha muito a pena perder tempo a pensar nisso porque independentemente do que cada um de nós pense que deveria ser a floresta do país, ela continuará o seu caminho, indiferente aos nossos desejos.

Nós teremos a floresta que os donos dos terrenos quiserem e os donos dos terrenos farão a floresta que acharem melhor, em cada momento, para os objectivos que têm e com os incentivos económicos que existam (sejam eles de mercado, como os preços dos produtos e serviços ou a vontade dos consumidores, sejam eles incentivos criados pelo Estado).

Tomemos o meu exemplo.

Tenho algures um terreno talvez entre dois e três hectares (nunca tive curiosidade em saber) que em tempos recuados terá sido terra de cultura (quando o conheci já não era), foi um pinhal que lentamente foi evoluindo para um eucaliptal, com umas plantações feitas pelo meu pai, sobretudo para marcar as estremas, com uma espécie esquisita de eucalipto, numa altura em que pouca gente plantava eucaliptos (o meu pai chegou a produzir amendoim na Beira Alta, não era, portanto, representativo do padrão).

Desde que me lembro, eu diria, há pouco mais de quarenta anos, o meu pai sempre foi acarinhando os carvalhos, mesmo quando cedia o mato para a cama do gado, mas um proprietário ausente, mesmo quando interessado, acaba por ter menos influência do que se pensa na gestão dos seus terrenos.

O terreno arde periodicamente, nós (eu só sou dono de um nono) fazemos um corte de eucalipto entre cada fogo, agora estão umas acácias a entrar com mais força no terreno (o estranho é não ter acontecido mais cedo e lá me entretenho eu a descascá-las, se são grandes, ou a arrancá-las, se são pequenas, quando calha), fazemos um corte de matos uns anos depois de cada fogo e fazemos alguma selecção de varolas de eucaliptos.

Os carvalhos, castanheiros, sobreiros que aparecerem são bem vindos e acarinhados, o princípio é aquilo não consumir grande dinheiro em gestão, mas ninguém espera que aquilo dê nada.

É portanto uma floresta mista de eucalipto e pinheiro, com bastante regeneração de carvalho roble e sobreiro e uma carga combustível razoável, embora não das piores.

À volta da propriedade há umas propriedades que não têm qualquer gestão e estão a ser progressivamente invadidas de acácias, há muitos anos. Hoje poderemos classificá-las como acacial. Os donos não têm objectivos para o terreno. Há outras propriedades que têm maior intensidade de gestão, isto é, os donos querem optimizar o rendimento, e são portanto eucaliptais mais ou menos monoespecíficos (naquela região nada é monoespecífico, em bom rigor).

Ora a floresta que teremos, naquele bocadinho, será a que resultar dos objectivos de cada proprietário, em função dos estímulos externos: o preço das diferentes madeiras, o peso que o rendimento do terreno tem (ou pode ter) no conjunto dos rendimentos do proprietário, os usos alternativos possíveis que possam remunerar uma compra de terreno por outras pessoas e muitos, muitos outros factores.

Algumas pessoas argumentam que isto não pode ser, que isso é um risco para toda a sociedade.

Admitindo o argumento (e ele não é linear), vamos admitir que a sociedade tem o direito de se defender e impôr aos proprietários uma gestão que seja optimizada socialmente.

Então, volta a pergunta, o que devemos fazer, ou melhor, que floresta devemos ter?

Se o meu terreno fosse um carvalhal maduro, de copado denso, criando o ensombramento necessário para que o mato não cresça muito, seria socialmente mais interessante, neste caso em que nem eu, nem os meus irmãos, nos oporíamos a isso. Desde que não fôssemos nós a pagar a gestão para lá chegar. Não há problema se não houver rendimento, mas não nos peçam para pegar no dinheiro que nos faz falta para educar aos filhos, acudir às aflições ou ir à opera ou ao futebol, para o enterrar num suposto bem comum que os beneficiários não querem pagar, nem directamente envolvendo-se numa qualquer organização que queira fazer a gestão da propriedade (a associação a que pertenço não o pode fazer porque estatutariamente não pode haver acordos desses com membros dos orgãos sociais), nem através de novos impostos.

E, na verdade, apesar do carinho do meu pai, e depois meu, pelos carvalhos e sobreiros que vão aparecendo, ainda vai demorar muitos anos a chegar ao tal carvalhal maduro. Ou então, são precisos recursos para encurtar o tempo e, mesmo assim, apesar da elevada produtividade primária da região, ainda demoraria uns vinte ou trinta anos a dar qualquer resultado do ponto de vista da gestão do fogo.

Os meus vizinhos que hoje não sabem sequer o estado em que estão as suas propriedades, e que as venderiam de bom grado, não têm quem as compre porque o rendimento esperado e o risco de incêndio inibem potenciais investidores.

E os meus vizinhos que estão concentrados no rendimento, são os que na verdade têm as suas terras com menor risco de incêndio, mas o rendimento não é de tal maneira que se entusiasmem a comprar mais uns tapados, até porque sabem bem que aquilo só dá porque não fazem contas ao tempo que gastam no monte.

Eu faço parte de uma associação que compra, ou gere por acordo, terrenos marginais para reconstruir neles carvalhais e mosaicos, mas também nós temos a nossa acção limitada pelos recursos que somos capazes de mobilizar.

A floresta que devemos ter é pois uma discussão que não interessa nada, o que interessa é saber o que devo eu fazer, no mercado, na sociedade civil, no Estado central e no Estado local para optimizar socialmente a gestão.

No mercado é seguramente aumentar a eficiência e criar valor, porque essa é a condição base para que o mercado traga gestão para o mundo rural. Isso não se faz com a kafkiana lista de obrigações legais dos proprietários florestais, que só não tem piores efeitos porque os únicos que ligam alguma coisa à legislação são os da certificação florestal, visto que cumprir a lei é o primeiro requisito da certificação. Os outros, saudavelmente, estão-se nas tintas para a legislação florestal, e fazem muito bem.

Na sociedade civil é concentrar esforços naquilo que nos parece útil (no nosso caso, criar matas adultas e mosaicos biodiversos), fazendo, avaliando, demonstrando e replicando. Quem passa uma noite no nosso carvalhal tem mais vontade de contribuir voluntariamente para que o façamos amadurecer e expandir-se, mas demora tempo a ter resultados visiveis e com algum significado. Para já o que temos são resultados mais simbólicos que outra coisa qualquer, mas que mesmo assim valem a pena.

No Estado central, o melhor é adoptar o mínimo de medidas: 1) proibir taxativamente o Estado de recorrer a outros fundos que não os do Orçamento do Estado para a sua actividade, libertando os fundos autónomos, nacionais (como o Fundo Florestal Permanente ou o Fundo Ambiental) para o financiamento da gestão concreta por parte dos operadores económicos e sociais, em vez do Estado os capturar, como faz actualmente; 2) aumentar o peso da produção de serviços de ecossistema no financiamento do mundo rural, mesmo que isso signifique cortar nos fundos para a produção; 3) e não complicar, pelo contrário, reactivar os serviços de proximidade que em tempos se chamaram de extensão rural, para apoiar tecnicamente os produtores, em vez de ter formulários de candidatura absurdamente complicados, ou regras e planos, mais planinhos e planetes que não servem para nada.

No Estado local, basta que estejam quietos e deixem de sistematicamente defender os interesses das suas corporações de bombeiros, para passar a defender o bem comum, que nem sempre coincidem.

É o que consigo dizer sobre os carvalhos, os castanheiros, os sobreiros, as nogueiras e etc.: são bons, são úteis, mas quem os quiser, que faça por isso, em vez de mandar os outros fazer.

A verdade é que há muitos e muitos proprietários absolutamente disponiveis para ceder a terceiros a gestão dos seus terrenos, sem outra contrapartida para além de saberem que estão a contribuir para o bem comum, com uns magníficos carvalhais maduros (daqui a trinta anos, se forem geridos de forma constante, pode ser uma gestão de baixa intensidade, mas tem de ser constante).

Assim haja terceiros com recursos para isso e em que os proprietários confiem, o que seguramente não inclui o Estado: porque não tem recursos e porque não é de confiança.

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3 comentários

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De Tiro ao Alvo a 15.07.2017 às 20:33

Venho aqui apenas para lhe agradecer o seu testemunho. 
E saiba que, sempre que escreve sobre floresta/fogos, venho a lê-lo, desde há bastante tempo, com agrado. 
Continue, a sua voz é importante.
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De carlos gonçalves a 29.07.2017 às 16:51

http://passaparedes.blogspot.pt/2017/07/da-purificacao-pelo-fogo.html
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De henrique pereira dos santos a 30.07.2017 às 07:44

Obrigado pela referência

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