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Insistir no erro, para ver se desta vez funciona melhor

por henrique pereira dos santos, em 14.05.17

Esta notícia do Observador (em rigor, da Lusa, transcrita pelo Observador) é a típica notícia da véspera da fase qualquer coisa dos fogos e provavelmente nem valeria a pena comentar.

Ainda assim, sem a menor esperança de que algum governo, de alguma maioria de qualquer conjunto de partidos, tenha a veleidade de levar o problema a sério, aqui ficam alguns comentários antes da fase qualquer coisa dos fogos.

"“Onze mil hectares ardidos até hoje é algo preocupante. O ano passado foi muito mau em termos de incêndios e, no período homólogo, tínhamos 360 hectares ardidos. É uma diferençazinha um pouco assustadora”, disse o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, a 27 de abril.".

Comecemos o comentário por citar Paulo Fernandes "Alguém informe o Sec. Estado que ter um inverno muito chamuscado não nos diz nada sobre o queimado final. Aliás já houve um ano em que no mesmo espaço de tempo ardeu o triplo do que ardeu até agora e no final acabou por ser um dos anos com menos área ardida.".

Ou seja, na verdade brincamos com a informação, escolhemos uns anos da forma como convém, uns números que não dizem nada (por exemplo, discutir área ardida em vez de discutirmos valores perdidos) e é com base nisso que vamos tomando decisões em matéria de fogos.

"O DECIF deste ano tem como novidades um reforço de meios para combate a incêndios florestais nos distritos de Braga e Viana do Castelo, colmatando assim uma deficiência sentida em 2016."

Eu gostava de ver as avaliações que foram feitas para chegar a estas conclusões sobre deficiências de meios para combater fogos em Portugal. Primeiro, porque há poucos países no mundo que tenham tantos meios e tão actualizados como Portugal, mas aparentemente é sempre preciso mais. Depois porque uma boa parte da área que ardeu foi no distrito de Aveiro, onde aparentemente não havia falta de meios (de acordo com esta decisão de afectar mais meios a Braga e Viana). Acresce que embora o distrito de Viana tenha ardido bastante, Braga nem por isso, portanto não se percebe em que medida a carência de meios afectou os distritos em causa. Por fim, porque tendo ardido muito em Viana, a sua propensão para arder agora é menor e andar a deslocar meios atrás dos fogos, em vez de andarem a antecipar os fogos (depois da meteorologia, que explica a esmagadora maioria dos fogos, a sua geografia e a sua dimensão, o principal factor de explicação da área ardida é o tempo decorrido desde o último fogo), parece-me pouco útil.

O que existe em Portugal é uma situação de impasse institucional em que os interesses da Liga dos Bombeiros se impõem aos interesses do país através de fortíssima rede de ligações entre corporações de bombeiros, protecção civil e autarquias, que torna politicamente impossível a qualquer governo cortar o nó górdio que bloqueia o mínimo de racionalidade na gestão do fogo.

É bom deixar claro que a Liga dos Bombeiros, a favor de quem se fazem galas, sorteios, quermesses e muitas outras acções de boa vontade, não representa os bombeiros, mas sim as corporações de bombeiros, isto é, as entidades patronais dos bombeiros (dizer que a Liga dos Bombeiros representa os bombeiros é o mesmo que dizer que a CIP representa os trabalhadores portugueses).

É bom também deixar claro que muita da abnegaçãoda boa vontade e do espírito de missão que torna os bombeiros especialmente queridos das populações não tem nenhuma relação com a questão dos fogos florestais, mas sim com a sua actividade diária de apoio às populações.

E é ainda bom deixar claro que o famoso voluntariado dos bombeiros não é o que normalmente se chama voluntariado, grande parte dos bombeiros voluntários, nomeadamente em situações de prontidão para o combate e no combate propriamente dito, têm um pagamento, não é um pagamento que se possa chamar a justa retribuição pelo trabalho prestado, mas há pagamento (há até no Algarve um problema de recrutamento de bombeiros porque se ganha mais a passar a ferro ou a servir cafés).

Nenhum presidente de câmara no seu perfeito juízo quer ter um conflito com corporações de bombeiros do seu concelho (muitos acumulam funções na autarquia e na associação de bombeiros, tomando decisões como presidentes de câmara que beneficiam associações de cujos orgãos sociais fazem parte sem que ninguém tenha dado, até hoje, pelo conflito de interesses) e, consequentemente, nenhum partido quer ter uma revolta dos seus autarcas e das suas distritais fazendo uma coisa muito simples: profissionalizar a sério o núcleo duro do combate aos fogos florestais, enquadrando devidamento o imenso esforço dos voluntários, separando as funções de protecção civil dos bombeiros, que são adequadamente desempenhadas, de maneira geral, das funções de protecção florestal, que deveriam competir a quem faz gestão florestal. É na gestão florestal que se criam oportunidades para o combate, e é no combate que se afinam as melhores opções para criar essas oportunidades.

E porque é impossível resolver o impasse institucional que existe nesta matéria, a solução tem sido sempre a mesma, esperando que alguma vez resulte a estúpida ideia de um Portugal sem fogos que, dizem eles, depende de todos.

É por isso que tudo isto passou de um custo de 30 milhões anuais para 100 milhões anuais sem que se registe qualquer diferença nos resultados.

É por isso que o governo faz um estúpido plano nacional de fogo controlado em que se propõe queimar 5 mil hectares através de fogo controlado onde só é preciso acompanhar os pastores (nas zonas de matos e silvo-pastorícia) para ter resultados desses sem grandes custos para o contribuinte, ao mesmo tempo que proíbe o apoio ao fogo controlado em povoamentos, que é onde realmente ele faz falta.

E, mais ridículo ainda, o mesmo governo que quer queimar 5 mil hectares ano em fogos controlados, manifesta a sua preocupação por terem ardido 11 mil hectares, sem custos especiais para o contribuinte, grande parte dos quais exactamente nas condições em que teriam ardido com o tal plano de fogo controlado para o qual o governo reservou uns milhões, não para os proprietários e gestores, mas para o próprio Estado manter a habitual prepotência com que trata os agentes do sector (reclamas? não tens financiamento).

E ano após ano, insiste-se no mesmo erro, obtendo o péssimo resultado esperado, após o que se reforça o erro para o ano seguinte, obtendo-se o péssimo resultado esperado, após o que se reforça o erro, etc., etc., etc..

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1 comentário

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De pita a 15.05.2017 às 15:19

Sabendo que as negociatas sempre continuarão, devem ser denunciadas. Obrigada

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