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De Espanha, bom vento -- mas não chega cá

por José Mendonça da Cruz, em 07.11.17

granvia.jpg

 

Passei cinco dias em Madrid. Inesperadamente, senti o mesmo alívio, o mesmo oxigénio que sentia ao visitar qualquer país democrático da Europa no tempo de Salazar. É uma sensação mista de ar fresco e tristeza.

Gozei uma cidade aberta, arejada, limpa, uma cidade cosmopolita e monumental, e senti-me confortável num país regido por uma constituição referendada, que segue por respeito do voto popular, não de alvos eleitorais.

Na estrada, a caminho, e nas ruas da capital percebi o ambiente de ordem e progresso. Na estrada, na cidade, nos semáforos, no estacionamento, nos passeios, senti a ordem e a ausência de stress no cumprimento distendido da lei, de que resulta o bem-estar e conforto de todos -- o contrário dessa interpretação alarve em que «o meu direito» ao que é «de todos» atropela todos os direitos e deveres.

Fiz cinco dias de turismo em Madrid, mas Madrid não me cobrou «taxa turística» para se compensar de eu a visitar e gastar dinheiro lá. E não vi ninguém preocupado em dar publicidade à presidente da câmara, para além da curta notícia que anunciava que passa a estar sob vigilância porque gasta reiteradamente demais. Gastará. Mas não cobra taxa. E os serviços funcionam. Passeei por ruas asseadas e policiadas, viajei em táxis limpos com bandeirada a 2,40 euros até às 21 horas, 2,90 depois (e também no meu carro, com combustível mais barato 30 cêntimos por litro), ou em linhas de autocarros e metro práticas e funcionais, talvez por estarem viradas para o utente, não para o alimento de parasitas que nelas se tivessem alojado.

Mercado-San-Miguel-FB-002.jpg

 Verifiquei que, em Espanha, os vigaristas estão presos ou fugidos, e os media não se comovem com gritos de liberdade e democracia da parte de quem dolosamente as ataca e atacou. Tontos, na TV, só vi o Puigdemont, tão perseguido e calado que a entrevista dada no coito belga passou sem sobressalto em horário nobre; mas não vi que algum palhaço do Podemos fosse consultado durante 5 minutos de 15 em 15 minutos em cada telejornal, para fazer declarações falsas ou néscias sem escrutínio nenhum, e que sempre visam regular mais, taxar mais, paralisar a economia, e depois gastar mais do que o saque.

Revi obras-primas em museus nacionais, ou com nomes de realeza ou aristocracia, mas não vi Miró nenhum de saldo comprado com dinheiro dos impostos; nem colecção nenhuma arbitrária que o Estado guardasse a um amigo, pagando-lhe ainda pelo jeito, com o dinheiro dos impostos, outra vez. 

prado.jpg

 Li jornais e vi televisão, mas nos noticiários não vi uma Espanha sentada, não vi a bajulação a membros de autarquias ou governo, tanta que chegasse a ser menos notícia o próprio evento do que o facto terceiro-mundista e confrangedor de uns queridos líderes irem lá bolsar promessas falsas e inanidades; nem vi o golpe russo de 1917 encher páginas ou secções; nem li crónicas de namoradas de famosos aldrabões, as quais não repararam em nada, mas prosseguem sendo alegadas jornalistas; nem orgãos de comunicação dirigidos por quem tivesse promovido vigaristas e subscrito as suas vigarices como verdades sagradas. Talvez por isso tenha ficado com a impressão de que seria inconcebível para qualquer orgão de comunicação espanhol colocar-se ao lado do Estado contra as vítimas de alguma negligência ou opção criminosa pública, calando os queixosos e desculpando o autor.

Hospedei-me num hotel do bairro de Salamanca, e beneficiei do tom de orgulho e normalidade com que o bom serviço é prestado nas recepções, aos balcões, às mesas, até pela Polícia na rua. Em todos os restaurantes, a qualidade é a rotina; num dos 10 melhores de Madrid, o menu de degustação custou metade de um seu equivalente em Lisboa. Fui turista e bem recebido. Nunca me chamaram «pressão turística». E, mesmo depois de lerem o nome no cartão, ninguém me chamou «senhor José».

Barrio-Salamanca-Madrid_5.jpg

 Passeei pela capital e por esse bairro de Salamanca onde fiquei; passeei pelo bom gosto, a malha intimista das ruas, as boas lojas, os sítios de tapas e restaurantes, a elegância que orgulha a zona e a cidade, em vez de as envergonhar, como sucede aos miserabilistas.

 Senti uma sociedade vibrante. O que não senti foi uma opinião pública e publicada amorfas, anémicas, submissas, caladas, cúmplices perante governações corporativistas, fogos que matam centenas, armas de guerra que desaparecem e reaparecem ao acaso, contas marteladas, dívidas suicidas, hospitais mortíferos, transportes que se degradam, barcos parados, insegurança nas ruas, tudo seguido de dóceis recomendações para «apurar» o que gritantemente se vê.

A fronteira entre Portugal e Espanha é aberta, ninguém nos detém, não é preciso preencher os formulários inquisitivos que a PIDE nos impunha. Mas faria sentido voltar a essa prática, porque a diferença de culturas é grande e agrava-se, e o clima de energia, liberdade e modernidade aumenta exponencialmente quando se passa para lá, para a Europa civilizada que dantes ficava além Pirenéus e agora é contígua (mas não chega cá).

fronteira_caia.jpg

 A PIDE não existe, é certo, mas governo socialista e Autoridade Tributária não desdenhariam substituí-la nesse zelo burocrático e vigilante. Era só mais um pequeno passo no clima de asfixia e intromissão gerais. Um pequeno passo lógico e que lhes quadrava tão bem.

 

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6 comentários

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De Anónimo a 08.11.2017 às 09:03

Uhau!!
É extraordinário como em 5 dias (cinco dias!!) se pode ver, julgar e ter a certeza de tantas coisas!
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De Anónimo a 08.11.2017 às 10:15

Basta ter certa cultura, honestidade intelectual e não ser complexado de esquerda (ou sofrer do Síndrome Pos25), para se perceber isto e muito mais num par de dias!
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De rodrigo a 08.11.2017 às 09:29

A liberdade de um país com um Governo de um partido com 800 imputados, onde ao Presidente do Governo recebia (recebe?) subornos declarados, onde policias batem em pessoas pacíficas porque querem colocar um pedaço de papel numa caixa e onde 12 mil polícias são enviados para uma região para controlar a vontade de uma maioria parlamentar.
Este texto é irónico?
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De xico a 08.11.2017 às 20:29

A mim sempre me pareceu mais razoável proteger a vontade da maioria contra vontades de maiorias parlamentares que não estão, essas vontades, legitimidades pelo voto da maioria. 
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De EMS a 08.11.2017 às 11:04

A um português, latino-americano ou cidadão de ex-colónia espanhola, bastam dois anos de residência legal em Espanha para se poder requerer nacionalidade espanhola.
http://www.exteriores.gob.es/Consulados/LISBOA/pt/InformacionParaExtranjeros/Pages/Nacionalidad.aspx
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De xico a 08.11.2017 às 20:28

Há mais bairros para além de Salamanca: lava piés, cuenca, ... Valdemingómez... mas de facto 5 dias é pouco para comparações. E eu gosto muito de Espanha. 

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