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Ainda ignições e afins

por henrique pereira dos santos, em 20.10.17

Todos os dias há milhares e milhares de ignições no mundo rural, das mais variadas origens, desde o tipo que vai queimar o pinhal do vizinho porque acha que ele dorme com a sua mulher, até às faíscas da lâmina do corta-matos que bate numa pedra, passando pelo escape de motores de combustão (que não são só de motas e carros, são de motoroçadoras, motosserras e etc.), queima de sobrantes, queimadas de pastores, operações de manutenção de parques eólicos (refiro explicitamente esta por esta ter sido a origem de um fogo de milhares de hectares há uns anos), limpeza de bermas de estradas, mais o habitual cortejo relacionado com o recreio, pic-nics, cigarros, brincadeiras idiotas, etc., etc., etc..

Mas não são estas as ignições de que se fala quando nos referimos às mais de 500 ignições de Domingo, mas apenas da pequeníssima percentagem delas que dão origem a focos de incêndio suficientemente visíveis para serem registadas no sistema.

O que faz variar a quantidade de fogos que se tornam visíveis em cada dia não é a quantidade de ignições originais, que se admite que seja mais ou menos estável num nível muito elevado, mas sim as condições de propagação do fogo, isto é a meteorologia e os combustíveis disponíveis.

Com as condições meteorológicas de Domingo, 500 ignições é valor que se pode esperar sem surpresa.

Provavelmente uma boa parte foram reacendimentos dos fogos dos dias anteriores com rescaldos mal feitos, já que com o vento forte e seco que se fez sentir no Domingo muito facilmente geram novos focos de incêndio. Estes reacendimentos são cerca de 10% das causas de fogos, mas naquelas circunstâncias é bem possível que tenham sido mais.

Tal como as queimadas de pastores e as queimas de sobrantes agrícolas terão tido um peso maior que o habitual dada a altura do ano e a previsão das primeiras chuvas.

E até pode ter havido uns fogos postos por meia dúzia (ou uma dúzia, é irrelevante o número) de doidos, bêbados, pessoas de maus fígados e outros que tais.

O que se passou nesse Domingo é absolutamente fora do normal, não pelas ignições, mas pelas circunstâncias meteorológicas (vento forte e muito forte, seco e numa direcção que não é a mais habitual nos dias que ardem, criando um potencial para arderem áreas que habitualmente não ardem tanto e têm combustível acumulado) e pela continuada secura dos combustíveis, fazendo com que em dois ou três dias tenha ardido o dobro do que é a média anual.

Existindo, como existe, continuidade de combustíveis, nenhum dispositivo de combate a fogos florestais, por melhor que fosse, teria deixado de colapsar.

Questão diferente é a dos fogos de Agosto (Alvaiázere, Mação, Nisa e etc..) onde a dimensão das áreas afectadas parece ter sido influenciada por um dispositivo com um desempenho muito abaixo do que seria necessário para um combate florestal eficaz.

Que a propósito disto, da absoluta excepcionalidade do fim de semana passado e respectivas consequências, haja quem cave trincheiras partidárias a partir das quais procura explicações mirabolantes para obter ganho de curto prazo, ou limitar estragos, é um mistério para mim.

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5 comentários

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De António Maria a 20.10.2017 às 14:02

O termo não será o mais adequado, mas é sempre um "prazer" ler a opinião de alguém como poucos que sabe do que está a falar.
Obrigado pela suas informações.
A paranoia contra os eucaliptos já não cola.
Porque é que a CS não fala nos incêndios (que não houve) nas explorações de eucaliptos ordenadas, pertencentes às celuloses e às associações de produtores? 
Porque é que o Estado não aprende com eles como se faz a prevenção?
O pinhal de Leiria ardeu porquê?
Chega de hipocrisia.
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De Anónimo a 20.10.2017 às 15:32

Todos choramos a perca de familiares, amigos e bens neste fogos florestais.
Mas agora, passado o calor do momento, comecemos, construtivamente, a pensar o todo, a Floresta.
A Floresta, um macrocosmo económico, social, político. Quê contornos ?.

A economia de todas estas regiões era a indústria da gestão e aproveitamento da floresta. Os "parque industriais", criadores de riqueza genuína, eram o corte,  transporte, serrações, mobiliário e sub-produtos das madeiras .
 
Socialmente os empregos eram a consequência da toda a indústria da gestão e aproveitamento da floresta. A própria Proteção Civil e Bombeiros cresceram, agigantaram-se, a título do modelo de organização da Floresta em vigor. Mesmo em detrimento de uma necessária, dificilmente imposta, prevenção dos fogos, limitadora de interesses: regulamentos de segurança, guardas florestais.
A imposição, draconiana, de uma cultura de prevenção não era fácil. E agora, será?.

Óbviamente o poder político da região, imerso e fruto de todos os interesses que rodeiam a Floresta, sobreviveu e acomodou-se, eleitoralmente, mal ou bem. Com honrosas e conhecidas excepções.

Agora as companhias de seguros, os peritos, bem sabem o que se passou.
O Governo também deverá perceber o que se passou e agir criteriosamente com os dinheiros públicos.
É pena que por vezes pague o justo pelo pecador.

PS. O 1/2 minuto que as TVs deram a HPdS  é o espelho do Governo que (ainda) temos, graças ao BE e ao PCP. Não têm vergonha estes Srs.
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De henrique pereira dos santos a 21.10.2017 às 18:18

As televisões deram-me muito mais que meio minuto: estive bastante tempo tempo no prós e contras na Segunda, estive ontem no Expresso da meia-noite e suponho que o seu comentário se refere ao aparecimento relâmpago num jornal da SIC na quarta feira, mas o facto é que a intervenção de Marcelo não deixou grande margem na gestão de tempos desse jornal. Aliás, a minha presença nesse jornal, em vez de mais tarde, num outro programa à noite em que teria mais tempo, foi uma simpatia da SIC por saberem que eu estava com dificuldade em gerir o meu tempo porque tinha as minhas netas a dormir em minha casa.
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De Anónimo a 22.10.2017 às 17:30

Exacto, referia-me ao relâmpago na SIC.
Parece que mesmo com mais prolongada iluminação -no Expresso da 1/2 noite- há muita dificuldade em entender a sua mensagem. Vai contra o establecido politicamente correcto.
Sinta-se apoiado, no entanto. Afinal "água mole em pedra dura ....". 
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De Anónimo a 20.10.2017 às 16:44

Se o Henrique reparar na sua descrição das ignições em meio rural atualmente existentes, poderá reparar que grande parte delas não existiam no mundo rural tradicional, ou seja, há 50 anos. Nesse tempo, as pessoas não usavam motorroçadoras nem motosserras, nem tratores, quase não havia carros a passar por meio de pinhais, poucas pessoas fumavam (sobretudo em meio rural), etc. Em suma, usavam-se muito menos formas de energia modernas do que atualmente se utiliza.

Este facto - o menor número de ignições outrora - não terá também a ver com a súbita epidemia de incêndios que surge em Portugal a partir da década de 1970?

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