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"Laura": não há inocentes

por Pedro Correia, em 19.12.06
Não sei o que mais admirar neste filme: se a espantosa fotografia de Joseph La Shelle (galardoada com um Óscar), se o argumento com requintes literários, se a inultrapassável fotogenia de Gene Tierney (sempre mais etérea do que carnal, ao contrário de tantas outras divas de Hollywood), se o prodigioso desempenho de Clifton Webb no seu primeiro papel no cinema sonoro, se a realização estilizada de Otto Preminger, que levou para os Estados Unidos a sofisticação da sua Viena natal. Laura toca-me um pouco por tudo isto, mas também pela música. Há filmes que, devido à música, jamais nos fogem da memória. E aqui a partitura de David Raksin é um ingrediente fundamental. Laura poderia ser um grande film noir sem a banda sonora, mas ascende ao estatuto de obra-prima com ela. O ecrã ilumina-se ao som dos primeiros compassos do tema musical que nos acompanha até ao último fotograma. É uma melodia estranha, com um toque de mistério, um fundo de nostalgia. Seduz, fascina, enternece, enebria: vale mais que mil palavras. Em sintonia com o olhar magoado de Mark McPherson (Dana Andrews), o detective que jamais conheceu laços afectivos, para quem todas as mulheres eram “tipas” e que desmanchou um breve namoro mal a companheira lhe começou a “falar em mobília”. Um falso duro, psicologicamente abalado ao descobrir numa solitária noite de Verão que se apaixonara pelo deslumbrante retrato de uma mulher já morta.
O amor como miragem encontra aqui a melhor das metáforas, invadindo sem rodeios a típica ambiência dos thrillers, que não voltariam a ser os mesmos. Preminger, conhecido por nunca descurar um detalhe, pretendia transpor para a tela o tema Sophisticated Lady, de Duke Ellington – e, vendo Laura, não custa imaginar porquê. Mas Raksin, um compositor contratado pela 20th Century Fox, convenceu-o de que era capaz de produzir um original tão bom ou ainda melhor. Era uma sexta-feira. O austríaco, com fama e proveito de ser irascível, fez-lhe um ultimato: tinha até segunda-feira para lhe apresentar uma pauta. Raksin acedeu. Segundo constou mais tarde (em Hollywood nunca é fácil distinguir a realidade da ficção), nessa noite, ao regressar a casa, encontrou um bilhete da mulher, anunciando-lhe que partia para sempre. Foi o pior fim de semana da sua vida. E foi também o mais inspirado. Da dor que sentia nasceu esta partitura hipnótica e densa e áspera e doce e bela como uma madrugada de Outono. Não custa imaginar que McPherson a tivesse na cabeça quando contemplou pela primeira vez o retrato de Laura Hunt – os olhos de gata de Gene Tierney faiscando na noite. “Laura is the face in the misty light / Footsteps that you hear down the hall / The laugh that floats on a summer night / That you can never quite recall", como dizia a letra que Johnny Mercer mais tarde colou à música, logo integrada no reportório de cantores como Frank Sinatra e Tony Bennett, e transformada em ícone do jazz pelo génio de intérpretes como Charlie Parker, Count Basie e Sidney Bechet.
Laura, estreada em 1944, é uma daquelas películas em que a trama policial apenas serve de pretexto para nos falar dos abismos da mente. É um filme em que todos são culpados – do misógino Waldo Lydecker (Webb), popular colunista da Costa Leste, que congregava milhares de pessoas em torno das telefonias para escutarem as suas crónicas radiofónicas, ao diletante Shelby Carpenter (Vincent Price), uma das personagens mais amorais do cinema clássico norte-americano (“Posso tolerar uma mancha no meu carácter, mas não no meu fato”), passando por Anne Treadwell (Judith Anderson), a ricaça que confessa ser “capaz de matar” para comprar uma ilusão de amor, cada vez mais fugaz à medida que os anos lhe fugiam. Mas em nenhum deles a culpa parece tão evidente como no suposto representante da lei: McPherson, o imperturbável e taciturno tenente da polícia, poderá ser acusado de paixão necrófila? É um hipotético crime sem castigo. Mas que condena à expiação eterna este homem destinado a ter o que não ama e a amar o que não tem.
“And you see Laura on a train that is passing through / Those eyes, how familiar they seem / She gave your very first kiss to you / That was Laura, but she's only a dream.” Eis o enigma maior do filme, que perdura até hoje. Um enigma muito mais absorvente do que a descoberta do homicida de Laura Hunt, a mulher que talvez nunca tenha sido assassinada.

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6 comentários

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De Pedro Correia a 21.12.2006 às 12:28

Obrigado pelas suas palavras, Sofia. Anónima da 1.33: vêm aí mais.
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De Anónimo a 21.12.2006 às 01:33

Quando o Pedro escreve assim toda eu me sinto desfalecer
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De Sofia Loureiro dos Santos a 20.12.2006 às 22:03

Excelente texto sobre um dos meus filmes de culto. Obrigada.
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De Pedro Correia a 20.12.2006 às 20:18

Obrigado, caro João. Um grande abraço, parceiro.
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De João Villalobos a 20.12.2006 às 18:15

Magnífico, Pedro! It's getting better all the time, nas imortais palavras de John & Paul :)
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De Anónimo a 20.12.2006 às 10:35

Deixe-se mas é de intelectualices e a menina Inês Bastos que tome conta do blog.

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