Segunda-feira, 29 de Maio de 2006
Os pesadelos do século XX

A leitura de Mao, a História Desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday, impressiona pela dimensão dos horrores que ali são relatados. Desconhecia a maioria dos episódios da biografia de Mao Tsé-Tung, sobretudo a parte dos anos iniciais da sua vida. Tenho a sorte de estar a ler este livro pouco depois de ter lido Os Ditadores, de Richard Overy, um brilhante estudo sobre os regimes nacional-socialista e soviético. É espantoso como os três piores ditadores do século XX (Hitler, Estaline e Mao) tiveram tanta coisa em comum, das origens humildes à total brutalidade. Os três são originários de periferias dos países que dominaram: Estaline era georgiano, Hitler austríaco e Mao nasceu numa província chinesa afastada dos centros de poder; todos eles falavam a língua dominante com forte pronúncia. São famosas as poderosas ligações emocionais que tinham à mãe e o ódio que alimentavam em relação ao respectivo pai. Eram homens medíocres e pouco corajosos, desprovidos de qualquer talento militar ou intelectual. E, na sua juventude, todos os relatos indicam falta de carisma e até impopularidade. As suas carreiras políticas são totalmente improváveis (sobretudo as de Estaline e de Mao Tsé-Tung). Cada um dos três assume o poder nas organizações políticas que os levam ao poder no final dos anos 20, início dos anos 30 (Mao um pouco mais tarde); depois, transformam estas organizações em partidos totalitários; ao tomarem o poder, parasitam os Estados, criando Estados totalitários. Há outra coincidência: os três tinham defeitos físicos e eram hipocondríacos. Fizeram um uso histérico da propaganda e nunca confiaram em ninguém. Todos acreditavam numa única ideia: o indivíduo não conta e a ideologia é um instrumento. Cada um dos três ditadores matou dezenas de milhões de pessoas, incluindo muitos dos seus próprios súbditos.
O livro de Overy tenta responder à questão que a meu ver é a mais importante: como foi possível que estes homens tenham chegado ao poder. As sociedades alemã e russa estavam em profundo choque e a ideologia serviu para levar as massas a fazerem o impensável. O terror fez o resto. Penso que esta explicação (aqui simplificada) se aplica também à China maoísta.
O nacionalismo é a verdadeira ideologia na origem destes três ditadores. E a alavanca das suas existências alucinadas foi uma sede de poder que nenhuma quantidade de sangue podia jamais saciar.

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publicado por Corta-fitas às 14:18
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5 comentários:
De pepe a 31 de Maio de 2006 às 10:20
Excelente resumo comparativo dos três ditadores. Ao ler o livro "Mao, a História Desconhecida" o que mais me chocava, durante a leitura, era a absoluta vulgaridade do indivíduo, a sua mediocridade tão bem percebida por tantos dos que o rodearam, e o acumular de circunstâncias fortuitas ou trágicas que favoreceram a "carreira" dum homem que, para além de todos os seus piores defeitos, era simplesmente um boçal.


De Anónimo a 29 de Maio de 2006 às 19:32
O Mao era mais jeitoso porque até escrevia poeminhas...


De Matosinhos a 29 de Maio de 2006 às 19:23
Hitler e Mao SÃO do mesmo saco. Ou é uma questão de cores?


De Anónimo a 29 de Maio de 2006 às 15:54
Hitler e Mao não devem ser metidos no mesmo saco.


De Pedro Correia a 29 de Maio de 2006 às 14:39
Dois livros que tenciono adquirir muito em breve: impressionantes a quantidade de características comuns a esses "mestres" do totalitarismo. Se analisarmos outros ditadores, encontramos características muito semelhantes: a ligação à mãe e o desprezo pelo pai, a origem periférica, a pronúncia cerrada...


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