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Crónica do meu descontentamento

por João Távora, em 02.09.06
Vamos afinal de contas todos pagar alegremente discretas “Salas de Chuto” e, com sorte, um qualquer patrocinador oferecerá as seringas. E vamos todos pagar uma dose de substituição ao Zé, que um dia destes indiferente, sem anúncio no jornal, irá a enterrar algures na periferia, num frio e solitário funeral oferecido pela previdência social.

Rejubilemos! O ministro Correia de Campos apresentou há dias o Plano de Acção Contra as Drogas e Toxicodependências que inclui duas antigas e mediáticas medidas: A implementação das salvíficas “salas de chuto” e “máquinas de distribuição de seringas” nas prisões.
Não consigo compreender aquilo que me parece uma inadmissível cedência na verdadeira luta contra a droga, substituindo-a por uma hipócrita política de “controlo de danos”.
Há mais de vinte anos que, sobre diferentes prismas, quis o destino que eu acompanhasse a problemática da toxicodependência. Ao longo da minha vida, amigos meus houve que “caíram em combate”; e outros que corajosamente se levantaram para enfrentar uma longa travessia do deserto. Esta atitude não só foi conquistada pela força da sua vontade, como também impulsionada por uma impiedosa pressão social exercida pelo seu círculo social e familiar: Levanta-te que a alternativa é a sarjeta!
Mas a sociedade bem pensante quer as sarjetas da cidade bem limpas e assépticas.

Agora aceitam-se estas medidas em total desrespeito ao valor inalienável da vida e dignidade da pessoa humana, enfraquecendo a “pressão” social sobre o indivíduo toxicodependente. Estas medidas tornam-se inevitavelmente num sinal claro por parte do Estado de aceitação do “direito” (!) da autodestruição por parte do cidadão.
Pelos princípios que professo, não aceito qualquer cumplicidade com os actores deste terrível flagelo, e confesso que sinto vergonha de pagar os impostos que remuneram os iluminados e liberais burocratas autores destes sinistros projectos.

Conheço de perto quem anda pelas ruelas e becos da cidade a incentivar e recolher homens e mulheres "sem esperança" e "sem futuro". Pessoas perdidas mas que, devidamente enquadradas e acolhidas, decidem enfrentar-se numa implacável luta interior, num processo terapêutico feito de uma batalha desesperada contra os seus fantasmas e descrenças. E foram muitos os homens e mulheres que, contra todas as estatísticas, recuperaram esperança, dignidade e auto estima. E quantos anónimos "condenados" se tornaram em empreendedores cidadãos? E quantas vezes, no seu círculo, com uma inigualável “escola de vida” acabam por se destacar da mediania numa postura de responsabilidade e de exigência pessoal sem igual? Que seria feito destes rapazes e raparigas se, a determinada altura, lhes tivessem acenado com seringas, salas de chuto, drogas de substituição e – quem sabe – alguma roupa nova?

Conheci em tempos uma Comunidade Terapêutica, integrada no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Na altura 20 homens cumpriam um exigente programa terapêutico e comportamental, na esperança de alcançarem uma outra liberdade. A distribuição de seringas é por certo mais económico que reformar as prisões, implementar alas “limpas de droga” ou incutir uma vertente terapêutica e de reeducação dos indivíduos residentes.

Vivemos uma estranha época em que antes se venera o consumidor, já não a pessoa a sua integridade ou valores. São tempos de opulência e arrogância que favorecem uma intestina competição pelo sucesso rápido e a qualquer custo. Não há lugar para derrotados.
Então, “longe da vista, longe do coração”. O nosso (coração) é para se atafulhar de imagens televisionadas, de guerras em “som surround” e assépticas catástrofes alheias - se possível longínquas - e assim expressarmos a nossa civilizada indignação.

Com o cérebro empanturrado com um qualquer “Reality Show” da moda, ou bacoca telenovela, nem olhamos à guerra que demos por perdida mesmo à nossa porta. E vamos todos pagar uma dose de substituição ao Zé, que um dia destes indiferente, sem anúncio no jornal, irá a enterrar algures na periferia, num frio e solitário funeral oferecido pela previdência social.

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6 comentários

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De Manuel Arriaga Cunha a 08.09.2006 às 20:53

Grande artigo João!

Também eu conheço muitos desses "irrecuperáveis" casos perdidos de quem me tornei grande amigo e que hoje me dão verdadeiras lições de vida.

Bem hajam! Eles e quem os ajudou!

O crime que o socialismo está hoje a cometer será um dia denunciado pela história. Mas entretanto muitos cairão pelo caminho...

Um abraço João
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De João Pedro a 03.09.2006 às 23:10

E enquanto se pensa na "reeducação" e na "pressão social", Portugal continua a ser o país com maior taxa de crescimento de HIV na Europa. Só por isso as seringas na prisão e as salas de chuto seriamuma medida imperativa.
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De João Távora a 03.09.2006 às 10:17

Lamento contrariá-lo caro José Carlos, mas felizmente nenhum estudo sério pode afirmar que algum homem não pode mudar, algum dia! NENHUM.
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De José Carlos Gomes a 03.09.2006 às 00:09

As experiências pessoais, por mais ricas que sejam, não anulam aquilo que o conhecimento médico-científico sabe sobre a matéria. E diz-nos esse conhecimento que há casos irrecuperáveis. E para esses casos mais vale a redução de riscos e de danos do que pontapeá-los para a sarjeta para servirem de exemplo a outros.
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De io a 02.09.2006 às 23:27

Muito bem.Gostava de ter escriti isto.
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De AMN a 02.09.2006 às 22:06

"confesso que sinto vergonha de pagar os impostos que remuneram os iluminados e liberais burocratas autores destes sinistros projectos".

João, os liberais defendem a liberdade de cada um proceder à sua auto-destruição.

Mas, para essa liberdade, não convocam o Estado. Recusam mesmo, ao Estado, qualquer política de incentivo ou desincentivo a essa auto-destruição.

Daí que as salas de chuto estaduais, se presumem uma concepção liberal quanto à liberdade de cada um escolher o seu modo de vida, afastam-se decididamente dessa concepção no momento em que direccionam impostos de todos para os vícios de alguns.

Coisa diferente será a liberdade de estabelecimento privada de salas de chuto. Mas essas não se integrariam em qualquer política burocrática.

Um abraço,
adolfo

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