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Um discurso razoável e sólido

por José Mendonça da Cruz, em 02.01.13

Com irritação e pressa, pareceu-me, à primeira vista, que o discurso de ano novo do presidente da República se contorcia de desejos de acertar uma no cravo, outra na ferradura. Mas eram pressa e irritação minhas excessivas. Parece-me, afinal, o discurso muito bom. E parece-me que merece justiça.

Cavaco recordou as dificuldades de 2012 e a continuação das dificuldades em 2013. E sublinhou a necessidade de «urgentemente pôr cobro a esta espiral recessiva» ou «ciclo vicioso» de menores rendimentos, menores prestações sociais, mais falências, mais despedimentos, mais austeridade. Fez bem em sublinhar, como fez bem em sublinhar a necessidade de crescimento económico.

O PS diz, a propósito, que o governo ficou isolado. Mas engana-se. Não é o PS, é o governo, o presidente e, aliás, toda a gente que defende a necessidade do crescimento económico. Só que nem presidente nem governo querem crescimento nos termos em que o entende o PS, nos termos da vulgata de Keynes-para-idiotas seguida por Sócrates, e que nos trouxe direitinhos à emergência.

Mais lembrou Cavaco que a progressão da dívida externa é insustentável, que o défice tem que ser corrigido; e mais lembrou que as medidas de austeridade actuais são as necessárias ao abrigo do Acordo de Entendimento; e mais lembrou ainda que o Acordo e a ajuda externa foram tornados necessários pela política do anterior governo; e mais lembrou logo que o Acordo foi assinado por partidos que representam 90% dos deputados da Assembleia da República.

Arménio Carlos chama a Cavaco, por isto, «cúmplice». Mas não é cúmplice. É solidário, ao contrário do que julga o PS. E é sério, como tanto dói ao chefe da correia de transmissão de menos de 10% do eleitorado.

Insistiu ainda o presidente da República em que o incumprimento das obrigações internacionais ou a renegociação da dívida não nos deixariam melhor, deixar-nos-iam pior. Que o PS considere, após ouvir isto, que o governo está isolado, é pura matéria de pasmo.

Cavaco subscreve o OE2013 sem dúvidas? Não. Tem «dúvidas fundadas». E faz bem em submetê-las ao juízo do Tribunal Constitucional. O que seria insuportável seria o Orçamento estar perante a constante e prolongada ameaça de contestações casuísticas.

PCP e Bloco de Esquerda chamam «inconsequente» a Cavaco por promulgar o Orçamento enquanto tem dúvidas. Mas não é inconsequente. É previdente e responsável, ao contrário das propostas do Bloco e dos comunistas.

Cavaco apelou ao consenso e ao diálogo, instou o governo a reconquistar a confiança dos Portugueses (porque a das instituições internacionais não basta), e a procurar novas vantagens junto dos parceiros europeus, por terem mudado as condições desde a assinatura do Acordo de Entendimento. Fez bem. O governo precisa de fazer mais política, cá dentro e lá fora. Precisa muito de fazê-la e nunca é demais insistir com este governo que não a faz para que a faça. Mas Cavaco acrescentou que seria fatal juntar uma crise política à crise financeira e económica. A isto, socialistas e comentadores/jornalistas da filiação chamam ser «salomónico». Mas não é. É apenas não ser parcial e cego.

 

 

 

 

 

 

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3 comentários

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De manuel.m a 03.01.2013 às 00:23

Discurso razoavel e sólido ?
Antes mais o discurso desesperado de um crente que perdeu a fé na "Santíssima Trindade " :
Austeridade , Liberalização e Privatização .
Cortes  da despesa pública , cortes nos salários e pensões ,aumento dos impostos ,liberalização do mercado de Trabalho ,  Saude , Educação e Segurança Social e , last but not the least ,venda  urgente dos bens públicos .
Tudo levando em linha recta à tal espiral de recessão ,ao aumento da Divida (em % do PIB) ,ao desemprego maciço ,a uma crise social de inimaginaveis proporções .
Mas numa coisa Cavaco pode estar tranquilo :Não está só , pois com ele estão todos os líderes europeus unidos  numa só coisa - nenhum sabe o que fazer .
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De Nuno Castelo-Branco a 03.01.2013 às 19:36

Ao contrário daquilo que a muitos pareceu, pode ter sido uma ajuda ao governo. Assim, pouco há a apontar quanto à normalidade que este regime anormal nos tem habituado. "Navega-se à vista", o prazo é sempre curto, neste caso para um ano, o de 2013. Depois "logo se verá".
É inacreditável a falta de categoria desta classe política, completamente incapaz de gizar um projecto de futuro e isto apesar das grandes potencialidades que um país como Portugal - e a sua Comunidade - apresenta, possiblitando relações mais equilibradas em termos internacionais. Não existirá qualquer possibilidade de alteração das nossas condições económicas, enquanto tudo se apostar na Europa - ou melhor, em Espanha a 40% -, um lastro pesadíssimo que a todos ameaça.  Cavaco, ex-comensais de Belém, oposição, muita gente da maioria, eis os incapazes que mais cedo ou mais tarde todos reconhecerão como partenaires no pior e mais perigoso momento da nossa longa história. 
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De Artur a 10.01.2013 às 19:34

Allways look at the bright side of life... Turu, turu...
Não percebeste que o Cavaco é um tipo mesquinho para quem ser Chefe de Estado é ter um emprego? Quem leia o teu texto até parece que ele tem substrato, profundidade, densidade intelectual. Não tem. É uma amiba que prefere receber as pensões a receber o salário de PR para ganhar mais umas croas.  Não quero um PR pro bono. Não quero favores desse tipo com mentalidade pequeno burguesa de quem nunca leu o Admirável Mundo Novo.
Tirando isso o teu texto està bem escrito...

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