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Heresias confessas...

por Luísa Correia, em 28.12.12

 

Este "post" do Duarte pôs-me, nos dias que entretanto passaram, à procura das razões por que nunca li certos autores, não obstante estarem enquadrados nos ditos "clássicos" - isto é, aparentarem ter um papel cultural e artístico passível de apreciação universal - e serem objecto das melhores referências críticas. A resposta, desconfio, está na fria opinião de Fradique Mendes sobre o amor: "ninguém vê a mulher que tem de amar [...] antes de ter chegado o momento marcado pelo destino para que esse amor se acenda e seja útil ao conjunto das coisas" (Eça de Queiroz, Cartas inéditas de Fradique Mendes). Ora o que é a leitura sequencial da obra de um escritor senão uma espécie de namoro com a sua alma?

É altura de confessar: nunca li Vitorino Nemésio, porque achei intrincada a sua linguagem quando tentei. Nunca li Agustina Bessa Luís, porque a sua abordagem biográfica ao Marquês de Pombal me assustou. Nunca li Philip Roth, tão na moda, porque, precisamente, comecei pelo arrepiante "The Dying Animal". Não acabei Proust, porque não conseguia, nos seus parágrafos, associar os sujeitos aos verbos e aos complementos circunstanciais. Para mim, que leio com o objectivo simples - e meio herético, eu sei... - de me entreter, de rir ou de escapar ao mundo real, as primeiras impressões são decisivas. E quando essas impressões são amadoras e levianas como as minhas, decisivo é também que se gerem no momento certo ou sobre o livro certo. Tive de esperar vinte anos para saber apreciar Camilo Castelo Branco. E tive a sorte de conhecer Vargas Llosa através da sua Tia Júlia e do Escrevinhador. Depois, foi lê-los de empreitada, entusiasticamente.

Resta-me, portanto, fazer votos de que amanhã seja o momento certo - e "Quase que os vi viver", o livro certo - para reencontrar e aprender a "amar" Vitorino Nemésio, o escritor.

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7 comentários

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De FNV a 28.12.2012 às 22:31

Vai adorar.
E, se me permite a discordância, a escrita de VN não é difícil. Nos Vultos e Perfis é uma  mistura de Fialho com uma pitada de Cochofel e um grão de Camilo.
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De Luísa Correia a 28.12.2012 às 23:22

Obrigada pelo seu comentário, Filipe. 
Aproveito para lhe perguntar o seguinte: este "meu" "Quase que os vi viver" é uma selecção do próprio VN, de ensaios de natureza biográfico-crítica, que publicou aqui e ali, sobre vultos como Bocage, Garrett, Júlio Dinis, Gomes Leal, Cesário Verde, Eugénio de Castro... Será, com outro nome, o mesmo que o "seu" "Vultos e Perfis"?
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De FNV a 29.12.2012 às 00:12

Cara Luísa,
VN escolheu , de facto, esse título , e a edição completa dos Vultos e Perfis  inseriu-o no vol.II, acrescentando apenas uma "biografia" extra: a de Bocage. Julgo que na sua edição faltará essa.
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De Luísa Correia a 30.12.2012 às 18:58

Estou precisamente a lê-la, Filipe. Mas tem razão: VN não a inseriu na sua selecção e foram os editores que tomaram a liberdade de o fazer, pois, como explica David M-F na introdução, fazia sentido.
Obrigada pelos seus esclarecimentos.
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De Luiz de Mont'André a 29.12.2012 às 01:19

In www.maquinadelavax.blogspot.com (http://www.maquinadelavax.blogspot.com) faço um comentário semanal sobre estas coisas dos livros e da vida.  A sua leitura e crítica será benvinda. Deixo-lhe um excerto sobre Nemésio:
Eu também pecador me confesso… Seja pois disto exemplo, e péssimo, este vosso servo, que, nado e criado na «ocidental praia», não somente lusitana, mas até açoriana, só pouco há leu Mau Tempo no Canal, obra certamente canónica do romance português, que tão conseguidos conta muito poucos. Exemplo e demora tanto mais repreensível quanto nem o televisivo Se bem me Lembro… me lembrou de procurar as obras do seu autor! Valha porém mais como atenuante do que como desculpa a então pouca idade, senão mesmo a pouquidade, deste telespectador desatento.
Pois em Vitorino Nemésio, e peculiarmente neste livro, que só lamentamos seja o único romance entre as suas obras, depara-se-nos o exemplo, raríssimo na literatura portuguesa, do autor que não se inculca ou julga como superior ao mundo e personagens que cria ou apresenta, antes se nos mostra em uníssono ou consonância íntima com a sua criação.
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De Luísa Correia a 30.12.2012 às 19:01

Gostei de o ler, Luiz. Estarei atenta. :-)
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De Luiz de Mont'André a 30.12.2012 às 23:36


Saiu mais uma crítica: desta vez camiliana.

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