Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Homens cheios de si mesmos

por José Luís Nunes Martins, em 26.12.12

O mundo começa a ser pequeno para tanta gente que se julga o centro do universo, são cada vez mais aqueles para quem o próximo não passa de um figurante sem qualquer importância numa ópera de que são os únicos protagonistas.

 

Têm sempre muitas coisas materiais mas nunca têm paz.

 

São incapazes de acolher a novidade, de se aperfeiçoar, entupidos de egoísmo até aos olhos, têm por valores supremos a razão e a liberdade.

 

Nem a razão nem a liberdade são males, entenda-se bem, mas quando surgem como pilares únicos da existência potenciam o risco de se falhar completamente o objetivo. Há muito mundo para além daquilo que a razão é capaz de assimilar e compreender. Também o valor da liberdade, que em si mesma não é boa, nem má, depende sempre da forma, mais ou menos sábia, de ser usada. Mas a sabedoria de escolher bem é um dom, a ela não se chega através de torres de livros, opiniões ou razões, por mais altas que sejam... tal como não é por muito abanar os braços que se levanta voo.

 

Os sentimentos articulam-se de forma não absolutamente lógica entre si e connosco. A vocação do homem apenas se cumpre quando ele se faz humilde, se esvazia das coisas e das suas opino-razões, para permitir que a vida, na sua generosidade, o edifique e lhe dê consistência, a partir da essência.

 

Acreditar é uma forma de unir o sentir ao pensar, talvez a ponte por onde estas duas dimensões se encontram e complementam. Só tem fé quem sabe e sente que não é ele próprio o centro do mundo.

 

A liberdade, tal como a justiça que a devia orientar, tem, por vezes, olhos vendados. O seu valor é pois relativo dado que um cego nem sempre é o melhor guia de outro... Não devemos fazer ou ser tudo quanto podemos, embora possamos fazer ou ser tudo quanto devemos. O dever demora até surgir evidente à razão, por vezes cumpre-nos agir numa linha de livre obediência a um desígnio maior que nós. Um tremendo caos, mas apenas aparente, pois que é de uma ordem superior à nossa capacidade de o compreender.

 

Somos todos pequenos e quase insignificantes. Aceitarmo-nos uns aos outros nessa condição é o primeiro passo para nos conhecermos e amarmos... para nos fazermos uns aos outros humanos, até felizes, por vezes. Verdadeiramente.

 

Hoje tende-se a aniquilar toda a crença. Como se não fosse admirável em si mesmo um homem esperar contra toda a razão. A fé é um alvo recorrente de gente que, não sendo feliz, tenta estragar a felicidade de todos quantos, com fé, sabem sem saber e sentem sem sentir.

 

O amor implica uma livre submissão do eu ao outro. Uma dinâmica sem garantia alguma de sucesso, mas que esvaziando o eu de si mesmo, e das coisas, abre espaço para a coragem da alegria, e, por ela, à felicidade.

 

No Natal devíamos todos celebrar a chegada do Filho de Deus, que por amor a nós se fez Homem, mas andamos cheios de nós mesmos e atafulhados de coisas... e é assim que, de portas fechadas, Ele nos encontra quando pretende dar-nos a Sua paz e a nossa felicidade... somos livres e responsáveis pela nossa vida; por abrir e fechar as portas do nosso ser ao que não compreendemos; por permitirmos que quem nos quer amar nos ame.

 

De nariz no ar, ignorando o mundo, podiam ao menos abrir os olhos e dar-se conta da estrela que conduz quem, humildemente, percebe que não é, por maior que seja, grande coisa sozinho.

 

Que neste Natal saibamos escolher o presente certo para dar a quem nos ama: esvaziarmo-nos de nós mesmos e abrir o coração ao seu amor.

 

 

 

(publicado no jornal i - 22 de dezembro de 2012)

 

ilustração de Carlos Ribeiro

Autoria e outros dados (tags, etc)




Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2006
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D