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Fraca gente faz fraco o pobre reino

por João Távora, em 05.12.12

“Estou inteiramente convencido de que não será possível fundar de novo uma aristocracia no mundo, mas penso que que os simples cidadãos, associando-se, podem criar no seu seio seres muito abastados, influentes e fortes, numa palavra, personalidades aristocráticas.” (...) 

“Uma associação política, industrial, comercial, ou até cientifica e literária, é como um cidadão instruído e poderoso cuja vontade não pode ser vergada e que não se consegue oprimir na sombra e que, ao defender os seus direitos pessoais contra a exigências do poder, salva as liberdades comuns.”


De Democracia na América

Alexis Tocqueville


O que pretendo hoje aqui é explanar-me sobre uma incómoda prespectiva da realidade, a proverbial indiferença dos portugueses pela “coisa pública”, fenómeno que considero, mais do que consequência da nossa indigência civilizacional, a principal causa do atoleiro em que de tempos a tempos o País se descobre mergulhado. É dessa realidade que emerge a classe política que temos, e que não é o objecto desta análise. Acontece que os meus compatriotas nutrem uma estranha repelência por qualquer tipo de cooperação ou associativismo, que não seja improvisado à mesa do café ou num almoço bem regado com os amigos, para descarregar a bílis sobre “os poderosos” que tomam as decisões por si. Tirando as reuniões de condóminos, o mais das vezes intermináveis e surreais disputas de egos, o indígena recusa liminarmente ir à luta em qualquer estrutura ou assembleia formalizada, que não seja do seu clube de futebol, cuja participação na melhor das hipóteses se ficará por umas assobiadelas das bancadas do Estádio. 
É assim que, em consideração à sua opinião “muito própria” e que apenas a si diz respeito - da qual com dois copos de tinto ou umas imperiais facilmente se “alivia” - o português não entra em “comboios” (até porque estão quase sempre em greve). Em coerência com tudo isto, e por uma questão de princípio não faz parte do seu clube do bairro. Também porque conhece de ginjeira o presidente, que é o Manel de quem foi colega da Escola da Câmara, e que, metido naquela vida, nem quer saber da mulher que anda para aí toda esterlicada – confidenciou-lhe a esposa que tem um dedo que adivinha e que lhe garante não ser o senhor pessoa de fiar. O português a que me refiro até frequentou em tempos a paróquia, da qual se veio a afastar uns meses depois, quando se apercebeu ser tudo aquilo um antro de conspiradores e beatos, sempre na busca de protagonismo onde nem os pedintes safavam. Consta que no passado pagou quotas duma associação cultural; mas aquilo, tirando o Festival de Teatro e um ou outro inoportuno passeio ao Domingo (imagine-se!), não atava nem desatava, e para além disso a direcção era uma cambada de empertigados. Dos partidos nem falar, senão fica logo o caldo entornado: são todos iguais, ninhos de ladrões e oportunistas à nascença que têm aquilo tudo controlado para sacarem “o deles” – que “eu é que não sou parvo!”. Claro que quando a situação der para o torto e “eles” abusarem, se a coisa for bem apalavrada nas televisões, nos jornais e nos cafés, o português é bem capaz trocar o sofá pela Avenida da Liberdade para descarregar a raiva e a indignação que afinal faz tão bem às tripas e alivia a psique.
Mas chegados a estes prodigiosos tempos da tecnologia em que está tudo na mesma, o cidadão, senhor duma insondável quanto ancestral sabedoria, tem uma prenda caída dos céus e à sua medida: o computador e o Fecebook, um fim em si mesmo, através do qual as suas crenças e zangas traspõem finalmente a mesa do café. De facto, a tecnologia despertou aos cidadãos uma inaudita vontade participação em discussões, "grupos" e "petições" para todos os gostos e feitios. Tudo virtual: entre a colheita dumas couves no Farmville, a aceitação dum convite a um evento que nunca irá. Com o esforço dum dedo e três neurónios está criada a ilusão de participação cívica.
Enfim, nós os portugueses temos aquilo que merecemos. Incapazes de nos organizar e mobilizar, para a partir de dentro promovermos fortes e participadas estruturas intermédias, toda uma sorte de instituições e colectividades, que condicionem e contrapesem a acção de um Estado mastodôntico, refém de uns poucos mais atrevidos. Quase sempre os mesmos, com o à vontade que lhes confere a demissão de todos os outros, entretidos em casa a cuidar da sua vidinha… que afinal nos escapa entre os dedos. Dia após dia. 

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3 comentários

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De c. a 04.12.2012 às 22:59

Terá alguma razão no que diz e acredito que, genuinamente, quereria toda a gente mais activa.
Porém, por um lado, usa-se o que está à mão, e a internet e  os grupos sociais têm um importância política grande no mundo inteiro e mais onde o Povo é destituído dos seus direitos cívicos.  Por outro lado, alguns dos defeitos que assaca maioritariamente ao Zé Alves da Esquina são consequência dos do mandarinato político, que prefere discutir e "arranjar as coisas" nas  lojas maçónicas, bem longe da prça pública da democracia,  bem longe do Povo a quem devia pôr as questões. Estamos longe da franqueza, a frontalidade, do amor pela democracia de Sá Carneiro - e hoje lembrá-lo é um dever grato e triste.
Que reapareçam os estadistas sem medo do Povo, que lhe falem directamente, com verdade.
Agora, estes que andam por aí, diga francamente, convidava-os lá para casa?
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De MIGUEL a 04.12.2012 às 23:30

CARO TAVORA. OS PORTUGUESES NUNCA FORAM DESTA REPUBLICA NEM DE NENHUMA POLITICA.
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De vasco silveira a 05.12.2012 às 12:10


"...a proverbial indiferença dos portugueses pela “coisa pública”, fenómeno que considero, mais do que consequência da nossa indigência civilizacional, é a principal causa do atoleiro em que de tempos a tempos o País se descobre mergulhado."

Caro João Távora

Que bem apresentado que foi o tema: e que consequências tremendas que isso tem.

Cumprimentos e obrigado 
 Vasco Silveira

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