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Da universalidade do direito ao circo

por José Luís Nunes Martins, em 19.11.12

 

A cada homem é dado criar a sua própria vida, bem como lhe é exigido que participe na definição de parâmetros gerais da família e da comunidade onde se insere. Vivemos e agimos num e para um mundo partilhado, onde as identidades individuais se relacionam, se condicionam e se criam mutuamente.

 

Importa muito mais o que temos em comum com o outro do que aquilo que nos distingue. Hoje parece ser moda fazer da diversidade riqueza, quando, na verdade, o mais precioso é o semelhante, o que nos permite compreender o outro, criando instituições que da colaboração entre iguais geram satisfação de necessidades e anseios comuns.

 

A diversidade é um facto, mas a igualdade é uma conquista social, um direito. Ao estado cabe atender às necessidades comuns, não às múltiplas esquinas da diversidade individual. Os direitos de voto, educação, saúde, proteção na velhice, etc. são universais.

 

Existem dois modelos de cidadania que nos permitem compreender a forma como a democracia, logo nos seus primeiros passos, parece ter sido ferida de morte... na cidades gregas era exigido aos cidadãos que participassem ativamente na vida pública, responsabilizando-se todos e cada um dos cidadãos pela tomada de todas das decisões públicas. Todos os cidadãos eram políticos. Depois, no império romano, criaram-se dois patamares: um para os cidadãos e outro para os políticos, sendo que estes já eram recrutados entre as classes mais altas da sociedade. Aos cidadãos cabiam garantias jurídicas, pão e... circo.

 

Atualmente, os sistemas políticos apostam em garantir cidadãos à romana.

 

Hoje há muita gente que parece ser capaz de defender com a própria vida o seu direito ao circo. Sendo capaz de se entregar, qual mártir, a um espetáculo para o supremo bem do direito ao circo do seu próximo. Hoje, como nunca, são os cidadãos eles próprios que desejam alienar-se, distrair-se, estupidificar-se, a fim de que não tenham tempo nem espaço para os problemas mais fundos. De tudo se faz um programa de televisão, da estupidez no palco se fazem audiências, de tanta TV se fazem cidadãos cada vez mais passivos e infelizes... porque assim se perde precioso tempo para construir vidas melhores... para si mesmos e para os outros.

 

Com o advento da chamada web 2.0, todos os utilizadores são incentivados a criar e a partilhar conteúdos com o mundo... No mesmo sentido, caminharam os diferentes meios de comunicação social, onde cada vez há mais espaço e atenção aos que não fazem a menor ideia do que é a verdade a respeito do que dizem, reclamando invariavelmente o seu direito à... diferença. Certo é que quanto menos disserem com acerto, mais audiência geram... um circo! Em casa, muitas palmas. Aos que sabem do que falam pede-se-lhes silêncio, a fim de que não se perca nem um segundo do teatro dos tristes!

 

Há muito a fazer na construção de um país melhor, mas, porque não se pode confundir movimento com ação, não creio que passe por arrancar pedras da calçada, menos por atirá-las a outros cidadãos, menos ainda por se queixar por haver sofrido retaliações pelo uso abusivo da liberdade... “vítimas” da sua própria irresponsabilidade.

 

Cabe aos cidadãos o suporte da comunidade e não o inverso. A indignação faz sentido, mas apenas e só enquanto não atentar contra a dignidade de ninguém. Que quem nunca errou atire a primeira pedra...

 

Viveremos bem sem circo. Muito melhor que agora. Mas há que acordar toda a gente que precisa tanto de circo como do pão de cada dia.

 

 

 

(publicado no jornal i - 17 de novembro de 2012)

 

ilustração de Carlos Ribeiro

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