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Sacrilégio

por Corta-fitas, em 09.11.12

 

Isabel Jonet teve a imprudência de constatar profilacticamente que os portugueses vivem acima das suas possibilidades e na fatal contingência dum processo de empobrecimento (se quiserem chamem-lhe "ajustamento", que dói menos). Este facto tão chocante trata-se de uma inevitabilidade, bem mais radical trágica se não cumprimos os compromissos assumidos. Eu por mim prefiro viver olhos nos olhos com a realidade, uma atitude nem sempre fácil mas que me poupa alguns dissabores.

 

João Távora

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8 comentários

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De Pipoca a 09.11.2012 às 09:43

Uma crónica de António Lobo Antunes dedicada a Isabel Jonet
por Sérgio Lavos
"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeo
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortav
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De Corta-fitas a 09.11.2012 às 10:03

Este texto é uma bestialidade preconceitos ideológicos cheia de juízos de intenções.
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De Pipoca a 09.11.2012 às 11:25


Pois! Eu compreendo!
A lucidez é terrível!
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De Hugo a 09.11.2012 às 10:07

Farto destes indignados esquerdistas que nada fazem de útil e preferem viver num mundo de fantasia.
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De José Tomaz de Mello Breyner a 09.11.2012 às 10:30

Este Lobo Antunes só pode ser uma enorme besta
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De Pipoca a 09.11.2012 às 13:55


A falácia, sempre a falácia ad hominem. Quando não há argumentos ataca-se o mensageiro.
O que vale é que é um Tomaz de Mello (com 2 l´s) Breyner (argumento da autoridade?!).
A lucidez, neste caso, mata!
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De p D s a 09.11.2012 às 10:59

Os portugueses vivem acima das suas possibilidades ?

ai é ?!?!?1 engraçado, eu ia jurar que são só alguns, mas tábem, se todos "comem bifes todos os dias"...deve ser só eu que devo ser vegetariano.

Entretanto, depois do bife do dia e antes de lavar os dentes com a agua a correr, aproveitem e deitem um olhinho nisto: 

"
Estes são os "bifes todos os dias" que a Jonet fala : 

"(...) As vantagens obtidas pela Portugal Telecom no processo, com o aval da Anacom, levaram às suspeitas de que o regulador teria sido capturado pela empresa, passando a agir em seu benefício. Ao analisarmos esta possibilidade, observamos fortes indícios de captura, que teria ocorrido devido, sobretudo, ao fenómeno da ‘porta giratória’, que diz respeito às trocas de cargos entres as agências reguladoras, o governo e o mercado. (...)"

(Estudo completo aqui: http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/TDT_Portugal/article/view/1067/1028 (http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/TDT_Portugal/article/view/1067/1028) )





É que lá está, foram sei lá, ai uns largos milhares de portugueses (demasiados idosos até!), que abdicaram do "bife diario" para alimentar a PT.


(e não sou eu que digo...é apenas um estudo academico fundamentado e com referencias!)


Não é mera conversa de café ou chá de tias...são de facto os abusos do poder que nos deixaram onde tamos.




Vai mais um bifezinho ??? ...é ligar o MEO no canal da culinaria...todos os dias!
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De jo a 09.11.2012 às 12:14


Não precebi muito bem. As pessoas têm de recorrer ao Banco Alimentar porque não fecham a água enquanto lavam os dentes?
Ou só lá vão buscar bifes?
Se as pessoas que vão ao Banco Alimentar são falsos pobres, então a instituição é uma fraude. Se não é esse o caso então a sua diretora não diz coisa com coisa.
Então os miseráveis que nem dinheiro para comer têm vivem acima das suas possibilidades?
Como se destingue uma criança que tem o direito de comer bife todos os dias de uma que não o tem?

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